quinta-feira, abril 16, 2026

O gigantismo imparável das Big Techs!

Com um olhar que nem precisa ser muito atento observa-se que segue se ampliando o processo de oligopolização das corporações de tecnologia, mesmo com as guerras e a retração econômica espalhada no mundo. Considerando as empresas de capital aberto em bolsas, oito das dez maiores companhias em valor de mercado, são, atualmente, do setor da tecnologia digital e dos dados e atingiram hoje (16 de abril de 2026, dados online do Infinite Market), o valor somado de US$ 26,5 trilhões.

Só a NVidia, a corporação de maior valor (US$ 4,8 trilhões) é cerca de seis vezes mais valiosa que a soma das dez maiores petroleiras do mundo que somam, hoje, cerca de US$ 4,2 trilhões, mesmo com o aumento de valor delas com a guerra EUA-Israel x Irã.

A Google (Alphabet) com valor de US$ 4,0 trilhões ultrapassou a Apple com US$ 3,8 trilhões.

Não estão nessa lista, as grandes corporações de tecnologia chinesas que têm capital fechado (ou só chinês) como a Huawei, ByteDance e Xiaomi. As chinesas Alibaba e Tencent aparecem na lista, mas através de suas subsidiárias, não exprimindo o valor real total de suas holdings. Também não estão na lista as companhias chinesas BYD, Baidu e Deep Seek.

Boa parte do controle das Big Techs americanas está com os grandes fundos financeiros estadudinenses e entre 3 e 5 mil grandes investidores espalhados pelo mundo, mas em especial nos EUA e Europa. As Big Techs e seus controladores não param extrair lucros pelos serviços que executam em todo o mundo, incluive naqueles de apoio à Defesa e às guerras dos EUA.

As Big Techs têm 60% de suas receitas fora dos EUA, embora por lá pague a maior parte dos impostos que renega pagar em outros países, onde também lutam ferozmente contra qualquer regulação e aumento de cobrança de impostos sobre seus serviços e suas remessas de lucros.

Em 2024, as Big Techs dos EUA faturaram no Brasil R$ 144,3 bilhões e enviraram 55% deste faturamento (R$ 80,3 bilhões) para as suas sedes. Nos últimos 5 anos, as Big Techs remeteram desde o Brasil, cerca de R$ 260 bilhões (US$ 52 bilhões) para os EUA.

Esse gigantismo espelha o maior e mais concentrado oligopólio da hisória do capitalismo no mundo, em função de sua caracaterística transsetorial e de sua atuação pervasiva, por se espalhar e de forma fácil e muito rapidamente, ampliando de forma colossal a extração de valor das várias economias em todo o mundo que demanda seus serviços.

Regular a atuação das Big Techs é pouco. É preciso ir além. É necessário termos infraestrutura digital, mais uma política pública de dados e uma diretriz em defesa da soberania nacional e dos interesses de nosso povo.

Porém, é preciso ainda compreender que o gigantismo das Big Techs americanas não é um fato estático, é um processo contínuo, cumulativo e cada vez mais imbricado, com as relações de poder entre as corporações da tecnologia digital e o Estado dos EUA, no esforço - desesperado - para manutenção de sua hegemonia.

segunda-feira, abril 13, 2026

Brasil como 5ª maior economia digital do mundo tem urgência por uma estratégica política de dados!

A economia digital deve ser sempre analisada na extensão de toda a sua cadeia produtiva que vai desde as terras raras/minerais estratégicos críticos (MEC), a questão energética (incluindo a transição com os renováveis) ao e-commerce com negócios de produtos e serviços, incluindo até os aplicativos de música, streaming para artes, cultura, etc.

A dataficação é o fenômeno que se situa num degrau acima da digitalização ou da chamada transformação digital que exige e deve nos despertar para uma política pública especial para os dados que vai muito para além da necessária privacidade. 

Ao contrário do que muitas vezes se diz os dados não existem puros na natureza ou nos sistemas. Os dados precisam ser correlacionados, organizados e estruturados para terem valor e, assim, se transformarem em mercadoria e em commodities para serem negociados, inclusive em bolsas de valores específicas de dados, como a criada em 2016 em Pequim e que começou a fazer negócios em 2021. Assim, a China passou a considerar os pacote de dados como fator de produção, junto com terra, capital e trabalho que passa a alimentar novas forças produtivas.


Dataficação como etapa contemporânea da reestruração produtiva se desenvolve de maneira distinta nos EUA e na China

É preciso reconhecer que estamos lidando com um fenômeno que é parte de uma nova etapa da reestruturação produtiva (dataficação e plataformismo) que possui várias dimensões de análise (multidimensional) e com características transescalares e transnacionais e, portanto, que merece abordagens da geoeconomia e da geopolítica.

Observando nessa dimensão da geoeconomia e da geopolítica ficam claros dois movimentos bem distintos em termos direção e planejamento. No Ocidente os grandes investimentos no desenvolvimento da tecnologia digital e dos dados têm como motor a direção e o controle do mercado de capitais (venture capital). Grosso modo, pode-se dizer que o Big Money dirige e controla as Big Techs. As gestoras dos grandes fundos financeiros americanos (BlackRock, Vanguard, Fidelity, JP Morgan etc.) têm entre 25% e 30% das ações das maiores Big Techs americanas, o que confirma o enorme imbricamento, desde o DNA, entre o Big Money e as Big Techs.

Já no Leste, no Oriente, na Ásia, em especial na China, o grande motor é o Estado, seu plano de longo prazo (2050) que se desdobra nos planos quinquenais que vão definindo as principais direções e as metas em prazos mais curtos. O Estado (nacional e provinciais) define as metas, financia boa parte dos projetos e ações, mas dá espaço e incentiva que os empreendimentos privados assumam setores e os negócios em toda a extensa e densa cadeia produtiva digital, mas garantindo o norte dos grandes objetivos e metas da nação.


O gigantismo do monopólio das Big Techs

No Ocidente, as gigantes corporações de tecnologia, chamadas desde lá atrás de Big Techs, avançam em oligopólios cada vez maiores estruturados por setor e funções dentro da economia digital como um todo, mas têm como direção e objetivo maior, a rentabilidade das Big Techs e dos fundos, praticamente todas as líderes com sedes nos EUA, de onde controlam a extração de dados e a remessa de lucros de todo o mundo, repudiando e lutando com sua força e seu poder contra toda e qualquer regulação dos estados nacionais.

Essa aliança entre o Big Money e as Big Techs gerou um gigantismo que expressa e redunda no atual e maior monopólio de toda a história da humanidade, muito superior ao que foram as Big Oil (Petroleiras), Big Stell (siderúrgicas), Big Car (montadoras de automóveis) e Big Pharms (farmacêuticas).

O fato de ser um fenômeno (digitalização/dataficação) transversal (pervasivo, ou que se espalha) e que atua de forma contínua e cumulativa, contribui para que dataficação atue sobre todos os demais setores da economia (assim como as finanças e o crédito), com o qual nasceu e cresce de forma imbricada e direta, explicando esse monopólio gigante que hoje está - mais que nunca - abraçado e enlaçado com o Estado dos EUA, incluindo nos setores de defesa e da guerra.

Para se ter uma ideia do tamanho desse gigantismo é oportuno investigar os dados atuais das corporações de maior valor de mercado do mundo. Oito das dez maiores corporações do mundo que possuem capital aberto em bolsa são da área de tecnologia. Hoje, dia 13 abril de 2026, mesmo com a retração econômica mundial derivada das guerras (OTAN-EUA-Ucrânia x Rússia e EUA-Israel x Irã), as 10+ Big Techs somam US$ 25 trilhões (para ser exato US$ 24.982 bilhões), liderada pela NVidia que sozinha vale US$ 4,5 trilhões.

Enquanto isso, as 10+ petroleiras do mundo (com capital em bolsa) somam US$ 4,2 trilhões (para ser exato US$ 4.176 bilhões), liderada pela saudita Saudi Aramco que hoje está valendo US$ 1,7 trilhão. Ou seja, só a NVidia vale mais que a soma das dez maiores petroleiras somadas. As 10+ Big Techs valem 6 vezes mais que as 10+ Big Oil. Observem ainda que que isso se dá no auge da valorização dessas companhias, considerando o atual aumento do valor do barril de petróleo acima de US$ 100.

As Big Techs pagam muito mais impostos nos EUA do que no resto do mundo incluindo o Brasil. Ou seja, as Big Techs aceitam pagar maiores impostos nos EUA e negam qualquer coisa próxima a equivalência, em qualquer outra parte do mundo.  Hoje, as Big Techs têm no governo estadudinense uma espécie de barreira de proteção que pressiona com tarifaços e outros mecanismos, para que os países não façam regulações (alegam liberdade) e também atuam para limitar as cobranças de impostos nesses outros países onde prestam serviços e extraem “zilhões” (mais que trilhões) de dados de forma completamente gratuita e quase sem nenhum controle.


As receitas e a remessa de lucros que as Big Techs realizam no Brasil 

No Brasil as Big Techs tiveram R$ 144 bilhões em receitas no ano de 2024 e remeteram R$ 80,3 bilhões de lucros para as suas sedes nos EUA. Ou seja, um volume de remessa de lucros equivalentes a 55% do seu faturamento no país. Em 2014, o volume de remessa de lucros das Big Techs desde o Brasil tinha sido de apenas R$ 2,8 bilhões. Ou seja, estamos falando de aumento de 28 vezes no volume de remessas de lucros realizadas pelas Big Techs em apenas uma década no Brasil.

Tudo isso é espantoso e, mesmo que sabido, aparece para a maioria dos brasileiros de forma extremamente fragmentada e assim vai passando de forma despercebida. Há muitas ações a serem implementadas no país. Sabe-se que a correlação de forças na geopolítica é desfavorável diante de todo tipo de ameaças e das ofertas entreguistas. Porém, é preciso ter clareza desse quadro, para se ter noção da direção por onde é possível avançar e aquilo que não cabe ser negociado, em toda a extensa e densa cadeia produtiva digital do país. O Brasil é disparado a maior economia digital da AL e a quinta maior do mundo.

A soberania digital vai muito para além da implantação da infraestrutura digital com datacenters e conectividade no Brasil. É urgente também uma política clara dos negócios de dados, entendendo seu papel estratégico nessa fase revolucionária da reestruturação produtiva e da digitalização na vida em sociedade.

segunda-feira, abril 06, 2026

Relação entre dados, infraestrutura digital, IA, novas forças produtivas e um projeto nacional de desenvolvimento

Quando se fala em soberania digital ou cibernética muito se comenta sobre a necessidade de controle sobre a Infraestrutura Digital (em especial datacenters e redes de cabos submarinos e conectividade). Sim, isso é indispensável, assim como o suprimento de energia elétrica para manter essas infraestruturas, mas não apenas.

É preciso mais. É necessário ter controle sobre a Política de Dados para que elas atendam aos interesses públicos e coletivos. Pacotes de dados estruturados que possam ser armazenados, processados, computados, relacionados e até negociados, como os "datasets", que devem preservar a privacidade dos dados individuais.

Nessa linha, os vários tipos de dados entram na equação como fator de produção e como força produtiva. Assim, os dados podem estar vinculados à inovação industrial e às novas arquiteturas que podem oferecer e garantir maiores escalas de produção. Nesse movimento é fundamental enxergar a totalidade da cadeia produtiva digital como estratégica, porque que ela se articula, transversalmente, a todos os demais setores da economia e suas cadeias de valor dentro e fora do país.

Imagem gerada pela IA do Gemini
Vale ainda lembrar que não se pode falar em Inteligência Artificial (IA) sem falar na armazenagem de dados, no treinamento profundo de máquinas (deep learning) que possibilitam a busca de padrões probabilísticos e modelos de linguagens (LLMs e chatbots). Esses padrões só são identificados se os dados existirem de forma não fragmentada e estruturada, para assim servir - de forma integrada - ao sistema de produção e aos serviços..

Nessa direção a China avançou para o modelo das bolsas de dados. São várias bolsas puxadas pela de Xangai que já tem dez anos de implantação (2016). Já os EUA e o Ocidente têm deixado quase todos esses negócios de dados por conta das Big Techs e de seus investidores (mercado financeiro, gestoras de fundos e capital de risco).

Segundo James Görgen, especialista em Políticas Públicas e Gestão Governamental e assessor no Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), em 2025, os negócios realizados nas bolsas de dados chinesas teriam ultrapassado a quantia de U$ 277 bilhões, tendo uma previsão de que até 2030 deverá passar do valor de U$ 1 trilhão, embora, outras estimativas afirmem que esse valor poderia chegar aos US$ 8 trilhões. Hoje, abril de 2026, esse valor equivale a 1/3 do valor de mercado da soma das 10 maiores corporações de tecnologia do mundo com capital aberto ou que possuem ações em bolsa.

A partir destas questões ímpares, descortinam-se muitas possibilidades que diferem e vão noutra direção em relação ao atual uso indiscriminado de dados, capturados e desapropriados dos brasileiros por parte das gigantes coporações de tecnologia dos EUA. Uso que tem servido a ampliação do extrativismo hi-tech e à captura de renda executada pelas plataformas digitais que resultam nos grandes oligopólios que monetizam esses dados se imbricando de forma siamesa com a hegemonia financeira que tem sido a primeira e maior usufrutuária dos processos crescentes de digitalização e plataformização.

Neste contexto, é fundamental que o Estado brasileiro, muito além de incentivar uma infraestrutura digital soberana de datacenters com controle de acesso e interconectividade ampla, mas atue também – e de forma especial – na organização de uma política nacional de dados estruturados que possa servir à toda a economia brasileira e nossa cadeia produtiva, como parte de um amplo, claro e potente projeto nacional e integrado de desenvolvimento. 

O Brasil tem a maior economia digital da América Latina caminhando para chegar a 200 milhões de usuários de internet que são também produtores de dados entre navegação, e-commerce e serviços de todo o tipo, em especial, saúde, educação e cultura. 

O Brasil é grande demais em qualquer dimensão que se observe e tem não só potencial, mas bilhões de dados estruturados em nossas bases estatais e privadas, além de também possuir bases materiais, científicas, pessoal e tecnológicas, para interromper o atual extrativismo hi-tech. Assim, o Brasil pode e deve optar por outra direção com um planejamento soberano, sem isolamento e com articulações geoeconômicas e geopolíticas que garantam o interesse nacional.