quinta-feira, abril 02, 2015

Soffiati complementa artigo sobre a história da geografia em nossa região

No último dia 22 de março, o historiador e ambientalista Aristides Soffiati publicou aqui a primeira parte de um texto, recheado em ilustrações, mapas e fotos, sobre a história da geografia de nossa região tendo como base o Rio Paraíba do Sul.

Agora, neste novo texto, Soffiati nos traz a segunda parte, complementando o artigo anterior com mais informações, análises e ainda, mais ilustrações com imagens raras da realidade exposta.

Aí temos mais uma valiosíssima colaboração de Soffiati dentre as centenas que vem sistematicamente produzindo com registros da memória da ocupação do solo e das interferências humanas sobre o ambiente natural de nossa regão.

Um texto para ser não apenas sorvido como conhecimento histórico, mas, para que ajude na interpretação da realidade contemporânea e acima de tudo, enquanto conhecimento possa ser utilizado para evitar novos equívocos em uma nova perspectiva. Vale conferir:


Rio Paraíba do Sul por baixo e por cima (final)

Arthur Soffiati

Por baixo

Não há soluções rápidas para os problemas que afligem a Baixada dos Goytacazes. Contudo, toda intervenção emergencial deve embutir soluções a longo prazo. No que diz respeito às águas subterrâneas, carecemos de novos estudos para avaliar as infiltrações de água do Rio Paraíba do Sul no lençol freático pelas margens direita e esquerda. Além de mostrar como se processa a alimentação do lençol freático pelas duas margens, o estudo deve também contemplar a qualidade dessas águas em termos de metais e de sais, assim como em termos de poluição.

É preciso também avaliar o volume dessas águas no subsolo de modo que sua extração se efetue em condições de sustentabilidade ecológica. A solução dos poços não pode comprometer as reservas que garantem a umidade do solo. De todas as planícies do Estado do Rio de Janeiro, a do norte fluminense era ou ainda é a mais encharcada de todas. Não tem cabimento que as ações humanas a ressequem.

Na costa, cabe saber o teor de penetração da língua salina no subsolo e formas de contê-la, de preferência por meios naturais, como a revitalização de lagoas de água doce.

Por cima

Creio que seria oportuno reavaliar o estudo da Engenharia Gallioli, feito em 1969, mostrando o teor de evaporação na região, nas quatro estações. Mesmo conseguindo valores aproximados, poderíamos calcular quanto ganhamos e quanto perdemos. Teríamos assim o valor relativo do balanço hídrico da baixada.

Desde que o sistema IPC de referência de nível foi substituído pelo sistema geodésico do IBGE, não houve a fixação de novos marcos topográficos na planície fluviomarinha e nos tabuleiros. Como informam que o INEA acordou a instalação de tais marcos com a COPPETEC, urge que eles sejam instalados em substituição aos antigos, em grande parte, já retirados ou mutilados.

Os canais primários, secundários e terciários rasgados pelo DNOS em ambas as margens do Paraíba do Sul aproveitaram as linhas naturais de drenagem, que foram aprofundadas e retilinizadas. O trabalho da Comissão de Saneamento da Baixada Fluminense e do Departamento Nacional de Saneamento causou grande impactos ambientais para a região. Hoje, todavia, pior é deixar a rede de canais abandonada. Urge a manutenção desses canais. E manutenção não se restringe somente à dragagem deles, mas a proibição do lançamento de esgoto e de produtos químicos que aumentem a atividade vital e provoquem assoreamento e eutrofização deles.

Os canais abertos por mão humana e por máquinas não existiam. Eles foram rasgados sobre as linhas naturais de drenagem. O Departamento Nacional de Obras e Saneamento construiu uma rede de canais que, se emendados uns nos outros, alcançam cerca de 1400 quilômetros, ou seja, uma extensão maior do que o próprio Paraíba do Sul da nascente à foz. Essa rede, porém, está assoreada e eutrofizada. Para que sejam mantidos limpos e redragados, a mão humana pode ser empregada, mas, para a circulação de máquinas, é necessária uma faixa livre e demarcada numa das margens. Na outra, há propostas de reflorestamento fixador de solo para atenuar a erosão e o assoreamento.

Não havia florestas na planície alagável e alagada. Apenas vegetação herbácea. A umidade excessiva inibia o desenvolvimento de vegetação arbustiva. Esta crescia apenas nos montículos dentro da baixada e em algumas lagoas, como a caxeta, por exemplo. É a Mata Atlântica Higrófila.

Figura 1 - Fragmento de mata higrófila na foz do Rio Macabu. Foto do autor







Todavia, na baixada, também não havia canavial, arrozal, rebanhos de gado e cidades. Hoje há. Podemos pensar, então, em proteger com árvores uma das margens dos canais.

Igualmente, não havia diques. No tempo em que a planície era habitada por ameríndios, os rios e as lagoas transbordavam. Suas águas se espraiavam por grandes superfícies e umedeciam o solo. Geralmente, ficavam retidas em lagoas por longo tempo. O dique é uma solução ocidental. Ele passou a ser usado para conter as cheias e impedir os transbordamentos. Com os diques, os rios ficam emparedados. Suas lâminas d'água crescem verticalmente nas cheias, criando uma nova realidade, agora refém de diques.

Mas, já que uma realidade foi criada, não há como revertê-la sem grandes problemas. Se não convém demolir os diques, é necessário manutenção permanente, sejam eles de terra, de pedra ou de alvenaria.

Figura 2 - Transbordamento do Rio Paraíba do Sul na margem direita. Observar dique precário. Foto: anônimo




















Os engenheiros e demais técnicos esqueceram que os canais foram concebidos para reduzir o impacto das cheias no Rio Paraíba do Sul e em outros menores. Falta-lhes uma perspectiva temporal da realidade da baixada. Não são lidos mais Francisco Saturnino Rodrigues de Brito, Hildebrando de Araujo Góes, Camilo de Menezes, Próspero Vitalo, os trabalhos da Engenharia Gallioli e outros mais, para só mencionar o essencial.

Figura 3 - Raro mapa mostrando a abertura de canais e a construção de diques entre 1935 e 1950.
Acervo Soffiati
As comportas foram concebidas para drenar águas de cheia do Paraíba do Sul por ambas as margens. Mais pela direita que pela esquerda. Hoje, entende-se que, em tempos de cheia, algo que pode acontecer novamente, as comportas devem ser fechadas. A intenção dos engenheiros era abrir as comportas para a entrada de água de cheia até ao ponto de não haver alagamento da baixada. Depois fechadas. Essas águas seriam drenadas pelo Canal da Flecha para o mar. O sistema não funcionou como desejado por incompetência e por ficar inconcluso. Hoje, as comportas carecem de manutenção e de operação múltipla, ou seja, não apenas para atender a agropecuária, mas também o ambiente e a pesca.

Figura 4 - Antiga foto do Canal Campos-Macaé. Autor anônimo






Esses canais também se tornaram condutores de esgoto e lixo, principalmente os que foram envolvidos pelo meio urbano, como os Canais Campos-Macaé, Coqueiros, Cacumanga, Tocos, Santo Antônio, do Saco e outros. Saturnino de Brito considerou o Canal Campos-Macaé extremamente útil para drenagem de águas pluviais em tempos de chuvas intensas, vedando-se os bueiros junto ao Paraíba do Sul para que não houvesse refluxo. Até mesmo a prefeitura de Campos destrói canais, como o do Cula (tombado pelo governo estadual), incluídos no Plano de Macrodrenagem Urbana, por desconhecimento do Plano.

Figura 5 - Redragagem do Córrego do Cula no trecho urbano da BR-101. Foto do autor






Um estudo encomendado pelo DNOS à firma Engenharia Gallioli, em 1969, recomendou a manutenção da Lagoa de Dentro, associada à Lagoa Feia, por desempenhar ela a contenção da língua salina proveniente do mar e salinizadora do lençol freático. A lagoa foi drenada. Outras mais, de importância para a própria atividade agropecuária, que desejava a drenagem total das lagoas, também se foram, como as Lagoas do Luciano e da Ribeira. Da mesma forma, as lagoas de tabuleiro, à margem esquerda do Rio Muriaé, eram consideradas imprescindíveis por Saturnino de Brito para mitigar o impacto de enchentes e reservar água nas estiagens. Hoje, elas estão agonizando na mão de interesses privados. Em considerável parte, estamos hoje enfrentando uma longa e inclemente estiagem por terem sido essas lagoas destruídas ou excluídas do sistema geral de controle de enchentes. Em certa medida, a longa estiagem de 2014-15 tem uma raiz local.

Figura 6 - Lagoas na margem esquerda dos Rios Paraíba do Sul e Muriaé.
  Legenda: 1- Rio Paraíba do Sul;
2- Rio Muriaé;
3- Lagoa da Onça;
4- Lagoa do Lameiro;
5- Lagoa da Boa Vista;
6- Lagoa Limpa;
7- Lagoa das Pedras;
8- Lagoa de Brejo Grande;
9- Santa Maria;
10- Lagoa da Saudade;
11- Lagoa do Arisco;
12- Lagoa do Campelo;
X- Lagoas ressurgidas com a enchente de 2012 e não drenadas pela Usina de Sapucaia.
Imagem do satélite ResourceSat 1 - 21/07/2012.



Por fim, mas não por último, a necessidade de reflorestamento, tão repudiada por proprietários rurais e usineiros, e hoje já aceita por eles. Mas não apenas as nascentes, como tanto eles falam. Também os pontos de recarga dos aquíferos e as margens de córregos e rios. Um dia, chegaremos à conclusão de que é melhor ceder alguns metros junto às margens para aumento do ganho com lavoura ou pecuária. Saturnino de Brito, com sua visão de drenagem, já reconhecia a importância do reflorestamento das partes altas do norte-noroeste fluminense.

2 comentários:

SAMUEL RODRIGUES DE OLIVEIRA disse...

e lamentavel ver os canas da baixada com esgoto e mais triste de se ver o rio hururay totalmente morto este ineia para mim ele nao vale nada o rio hururay temos que fazer o imposivel para ele voutar a corer suas aguas ultima enchente que tivemos foi esprodido 3 diques no meu pensar este foi a morte do hururay antes o rio coria e levava os matos e sempre coria

Sergio Garcia disse...

Mais um brilhante artigo do mestre Soffiati.Contudo ,não consegui perceber o Canal dos Coqueiros ,que passa ao lado do Superbom do Jockey.