sábado, março 28, 2020

Para reduzir nossa infelicidade, preocupação e ansiedade diante da pandemia, o Brasil segue em duplo comando

Para reduzir nossa infelicidade, preocupação e ansiedade diante da pandemia, o Brasil vive um duplo comando, ou uma desobediência federativa civil, com apoio do Congresso e de parte majoritária das cortes superiores de Justiça.

Passei a chamar isso de "Modo Governadores" (assim como modo avião dos celulares), um consórcio majoritário e multipartidário que se provou na prática mais responsável para nos conduzir neste momento de travessia desse pântano sanitário.

Mas esse "duplo comando" como linhas paralelas de poder tem prazo limitado de duração, diante das ameaças do pico de contaminação previsto entre 10 e 20 dias.

Até lá a confrontação destas linhas paralelas de poder tendem a se ampliar, diante dos riscos da escalada de vítima fatais, que todos torcemos para não acontecer, embora, alguns tenham, na prática trabalhado nos últimos dias para isso com carreatas e defesa do fim do isolamento sanitário.

Ninguém que tem o mínimo conhecimento das esferas de poder imagina que estas duas pontas de poder não estão buscando liderança única. E neste caso, a discussão está em sua maior parte ocorrendo entre os generais e, só subsidiariamente, em líderes de instituições da sociedade civil.

Aparentemente não há consenso, mas os generais em situação de golpe ou guerra, em que costumam atuar, acabam se entendendo por posição da maioria, sem precisar de consenso.

Frações de poder devem estar sendo negociados pelos dois polos em busca do mínimo de coesão.
É muito ruim, que a sociedade fique à margem de tudo isso, num momento tão dramático.

Uma solução que envolva o parlamento é comum que surja em situações de crise como esta.

Nenhuma saída é simples, mas a nação segue ansiosa e preocupada, o que sugere ponderação e algum diálogo responsável.

Se cuidem e sigamos em frente resistindo e acompanhando.

quinta-feira, março 26, 2020

"Carta de renúncia" de Bolsonaro, por Maria Cristina Fernandes no Valor

A coluna de Política da jornalista Maria Cristina Fernandes, hoje, no Valor (p. A13) com o título "Carta da renúncia", fala sobre os bastidores do duelo, agora no Palácio do Planalto, para a saída de Bolsonaro, com anistia para os filhos. A coluna pode ajudar a explicar o tom do Jornal Nacional de ontem.

Abaixo o texto na íntegra. Vale conferir!


A carta da renúncia” 

“A costura de uma renúncia, como saída, passa pela anistia aos filhos” 

A tese do afastamento do presidente viralizou nas instituições. O combate à pandemia já havia unido o país, do plenário virtual do Congresso Nacional ao toque de recolher das favelas. Com o pronunciamento em rede nacional, o presidente conseguiu convencer os recalcitrantes de que hoje é um empecilho para a batalha pela saúde da nação. Se contorná-lo já não basta, ainda não se sabe como será possível tirá-lo do caminho e, mais ainda, que rumo dar ao poder em tempos de pandemia. A seguir a cartilha do presidiário Eduardo Cunha, seu afastamento apenas se dará quando se encontrar esta solução. E esta não se resume a Hamilton Mourão.

Ao desafiar a unanimidade nacional, no uniforme de vítima de poderes que não lhe deixam agir para salvar a economia, Bolsonaro já sabia que não teria o endosso das Forças Armadas para uma aventura que extrapole a Constituição. Era o que precisaria fazer para flexibilizar as regras de confinamento adotadas nos Estados. Duas horas antes do pronunciamento presidencial, o Exército colocou em suas redes sociais o vídeo do comandante Edson Leal Pujol mostrando que a farda hoje está a serviço da mobilização nacional contra o coronavírus.

“Saída a ser costurada passa pela anistia aos filhos” 

Pujol falou como comandante de uma corporação que tem a massa de seus recrutas originários das comunidades mais pobres do país, hoje o foco de disseminação mais preocupante para as autoridades sanitárias. Disse que agirá sob a coordenação do Ministério da Defesa. Em nenhum momento pronunciou o presidente. Moveu-se pela percepção de que uma tropa aquartelada hoje é mais segura que uma tropa solta. Na mão inversa do trem desgovernado do discurso presidencial daquela noite.

Quando já estava claro que descartara o papel de guarda pretoriana, Pujol reforçou a importância do combate ao coronavírus: “Talvez seja a missão mais importante de nossa geração”. Vinte e quatro horas depois, o vídeo ultrapassava 500 mil visualizações, mais do que o dobro do efetivo do Exército.

O distanciamento contaminou os ministros militares com assento no Palácio do Planalto. “Não quero ter minha digital nisso”, comentou um deles ao perceber o rumo provocativo que o pronunciamento da noite de quarta-feira teria. Deixou o Palácio antes da gravação, conduzida sob o comando dos filhos e da milícia digital do bolsonarismo.

A insistência do presidente na tese esticou a corda com os governadores e com o Congresso, que amanheceu na quarta-feira colocando pilha na saída do ministro Luiz Henrique Mandetta. A pressão atingiu o pico do dia com o rompimento do governador de Goiás, Ronaldo Caiado (DEM), com o presidente. Aliado de primeira hora de Bolsonaro, presença mais frequente, entre seus pares, nas solenidades do Palácio do Planalto, Caiado foi um dos principais padrinhos de Mandetta, um deputado do Mato Grosso do Sul que não disputou em outubro de 2018 porque temia não se reeleger.

O ministro negaria a demissão numa entrevista em que citou Caiado, mas não Bolsonaro. O Congresso mantinha a aposta na saída de Mandetta como mais um tapume no isolamento do presidente quando João Doria, na reunião de governadores com o presidente, partiu para o confronto. O discurso de palanque do governador de São Paulo não é unanimidade entre os envolvidos em busca de uma solução de consenso, especialmente os da farda, mas sua ação deliberada para levar os governadores a recusar interlocução com o presidente, caiu como uma luva para a estratégia de levar Bolsonaro ao limite do isolamento.

Para viabilizar o enfrentamento dos governadores, o Congresso busca meios de manter o acesso dos Estados a recursos com os quais possam manter suas políticas de combate à doença, hoje confrontadas pelo Planalto. O pronunciamento acabou por frear a proposta de emenda constitucional com a qual se pretendia criar um orçamento paralelo para viabilizar as ações de Bolsonaro no combate à pandemia e calar a tecla com a qual o presidente se diz impedido de agir pelo Congresso. Cogitou-se até incluir nesta PEC instrumentos com os quais Bolsonaro poderia ter mais poderes sobre o confinamento e o confisco de insumos hospitalares, como meio de evitar o Estado de Sítio.

Ainda que Bolsonaro hoje não tenha nem 10% dos votos em plenário, um processo de impeachment ainda é de difícil de viabilidade. Motivos não faltariam. Os parlamentares dizem que Bolsonaro, assim como a ex-presidente Dilma Rousseff, já não governa. Se uma caiu sob alegação de que teria infringido a Lei de Responsabilidade Fiscal, o outro teria infrações em série contra uma “lei de responsabilidade social”. Permanece sem solução, porém, o déficit de legitimidade de um impeachment em plenário virtual.

Vem daí a solução que ganha corpo, até nos meios militares, de uma saída do presidente por renúncia. O problema é convencê-lo. A troco de que entregaria um mandato conquistado nas urnas? O bem mais valioso que o presidente tem hoje é a liberdade dos filhos. Esta é a moeda em jogo. Renúncia em troca de anistia à toda tabuada: 01, 02 e 03. Foi assim que Boris Yeltsin, na Rússia, foi convencido a sair, alegam os defensores da solução.

Não faltam pedras no caminho. A primeira é que não há anistia para uma condenação inexistente. A segunda é que ao fazê-lo, a legião de condenados da Lava-Jato entraria na fila da isonomia, sob a alcunha de um “Pacto de Moncloa” tupiniquim. A terceira é que o Judiciário, agastado com o bordão que viabilizou o impeachment de Dilma (“Com Supremo com tudo”), resistiria a embarcar. E finalmente, a quarta: Quem teria hoje autoridade para convencer o presidente? Cogita-se, à sua revelia, dos generais envolvidos na intervenção do Rio, PhDs em milícia.

A única razão para se continuar nesta pedreira é que, por ora, não há outra saída. Na hipótese de se viabilizar, o capitão pode estar a caminho de encerrar sua carreira política como começou. Condenado por ter atentado contra o decoro, a disciplina e a ética da carreira militar, Bolsonaro foi absolvido em segunda instância. Em “O cadete e o capitão” (Todavia, 2019), Luiz Maklouff, esboça a tese de que a absolvição foi a saída encontrada para o capitão deixar a corporação. Em seguida, o Bolsonaro disputaria seu primeiro mandato como vereador no Rio. Trinta e quatro anos depois, a borracha está de volta para esfumaçar o passado. Desta vez, com o intuito de tirá-lo da política.

Maria Cristina Fernandes é jornalista do “Valor”.

quarta-feira, março 25, 2020

A Globo foi para o duelo contra quem ajudou a eleger e defendeu ação do Estado a favor da nação

Parece que a Globo percebeu que hoje teria que entrar num duelo contra quem ajudou a eleger e colocar na liderança do país.

O Jornal Nacional foi na jugular.

Uma hora e meia seguida mostrando a aberração da decisão de Bolsonaro.

A reação dos governadores, da sociedade civil, de dezenas de entidades médicas, de especialistas em infectologia e epidemiologistas do Brasil, do mundo e da Organização Mundial de Saúde (OMS) a favor do isolamento social.

Mostrou ainda o (des) governo fraturado e, completamente, desencontrado.

Até a contradição do ministro da Saúde foi exposta, quando abandonou a medicina para se submeter ao destino do chefe.

Por quase vinte minutos expôs ex-ministros e especialistas em economia e finanças defenderem que a prioridade é a saúde pública, só depois a economia.

Mais que isso. Especialistas que normalmente defendem a ortodoxia do sistema financeiro, com posição inversa em favor de um Estado forte, atuante com políticas Keynesiano para proteção social, neste momento de emergência. 

Foram dezenas de opiniões na mesma linha, a de que o (des)governo Bolsonaro tem nas mãos o que deve ser feito e o muito pouco que diz ter liberado, nada saiu das intenções e do papel.

A Globo hoje foi para o duelo com uma narrativa clara e desta vez a favor da maioria da população brasileira.

Muito provavelmente sabendo e tendo negociado tudo isso que fez.

Não foi propriamente mea-culpa, até porque não temos como aceitar tudo isso a que nós brasileiros estamos sendo submetidos.

Em meio às dores e preocupações com a pandemia, a nação precisa se reencontrar consigo mesma.

E neste momento há um desgoverno a ser combatido com todas as forças e frentes em favor da vida de todos os brasileiros, em especial, dos mais vulneráveis.

A disputa pelo poder é assunto para adiante.

O Brasil segue no "Modo Governadores" contra a grave irresponsabilidade de Bolsonaro

O Brasil segue no "Modo Governadores", assim como os celulares no "modo avião", que sem internet, serve para quase nada.

Bolsonaro e os três filhos vão seguir na alucinação até ser contido. A doença dele é pensar que pode ser anti-sistema (anti-estableshiment) sendo ele o presidente. 

Na toda que vai, até ser impedido, Bolsonaro vai trocar ministros, atirar contra todos que o criticam, mídia, médicos e a sociedade em geral que, mesmo nos limites do isolamento social responsável para conter a Pandemia, segue em pânico contra o presidente, já tendo perdido a esperança de ter um líder para dirigir o combate sanitário contra o vírus e pela recuperação dos atingidos.

No futuro, ele, os filhos - e vários dos seus auxiliares - serão julgados, por um tribunal por crime contra a humanidade.

segunda-feira, março 23, 2020

Brasil sai da égide de um (des) governo e constitui uma “Frente Política contra a Pandemia”

Os fatos estão aí em profusão para explicar esse processo em detalhes.

Os governadores de diferentes posições ideológicas e partidos estão salvando vidas e constituindo na prática uma “frente política contra a pandemia”.

Essa frente já consegue se proteger dos atrapalhos e desatinos do Bolsonaro e parte de sua trupe de genocidas.

Essa frente, na prática, já se articula com os parlamentos e o Congresso e também com partes sensíveis das cortes superiores de Justiça.

O movimento dos governadores como uma espécie de “Conselho da Frente contra a Pandemia” é uma extensão do consórcio de governadores do Nordeste que foi se ampliando conforme a necessidade. A urgência que levou a um alargamento de posições políticas em busca do consenso mais amplo para evitar o caos total.

Diante da confusão, esse pacto político - que ainda não está claro para muitos -, pode salvar mais vidas do que possivelmente o impedimento do descontrolado Bolsonaro.

Repito, os governadores na “Frente Política contra a Pandemia”, na prática e no que interessa e é urgente, estão salvando os brasileiros.

Não existe "modo avião" para os celulares? Pois, então, o Brasil entrou em "modo governadores".

O que se salvou do desmonte do SUS pode ainda impedir nos estados e municípios, um desastre maior com as ações e as respostas de combate de endemias que, historicamente, a saúde pública do Brasil acumulou nas últimas décadas em diferentes governos.

Compreender o que está em curso na política, ajuda no combate ao que é mais urgente. Sigamos em frente com força e fé!

PS.: Atualizado às 17:02 e 17:30: Para pequenos acréscimos e ajustes no texto original.

sábado, março 21, 2020

A paradoxal pandemia do coronavírus diante do irracional, disparatado e insensato (des) governo Bolsonaro

A pandemia é paradoxal porque tem duas vertentes principais, uma de proteção sanitária para impedir os fluxos dos vírus através das pessoas e de acompanhar e tratar os atingidos. A primeira precisa da imobilidade social e a segunda de uma enorme e eficiente mobilização.

Como principal barreira sanitária propõe (corretamente) o isolamento social de eliminar a movimentação de pessoas, para além dos que são essenciais para dar condições para manter as pessoas nas suas habitações.

A segunda como forma de atender, socorrer e salvar os que vão sendo atingidos, é necessária uma organização eficiente, potente, veloz, ampla e com capilaridade geográfica para viabilizar meios humanos e técnicos para a estruturação dos atendimentos, instalação de equipamentos públicos, emergência de produção de equipamentos e insumos, etc. E neste caso, quem tem mais condições de transformar intenções e ações, agindo de forma mais rápida e eficiente, obviamente são aqueles que estão mais próximos das pessoas: as prefeituras e governos estaduais.

Porém, interessante é que o (des) governo Bolsonaro age inversamente exatamente nos dois pontos.

Primeiro, afirma que não precisa histeria para isolar as pessoas, fechar shoppings, trânsito, igrejas, etc. E de outro lado, é de uma paralisia, lentidão e/ou incapacidade de fazer o que precisa ser feito.

Ele vê os gestores dos outros entres da federação como concorrentes ou mesmo como adversários, ou como inimigos, a serem destroçados pela via política e/ou pela biológica do vírus.

Assim, a tragédia é ainda maior e pior.

O (dês) governo segue questionando, atrapalhando e impedindo quem quer e pode fazer, mesmo com o pouco apoio federal, em especial para os mais vulneráveis.

O resultado disso é que o caos vai deixando de ser hipótese e a cada minuto crescem os riscos que os embates biológico e político possam implodir/explodir simultaneamente.

Mas, devemos seguir pressionando os gestores insensíveis, nos protegendo da insensatez política e da contaminação biológica que ameça a todos, mas de forma ainda maior, os excluídos socialmente.

quarta-feira, março 18, 2020

Em meio à calamidade do coronavírus base de Bolsonaro se liquefaz

O fato é que a base bolsonarista está se liquefazendo como o mercado, aliás da forma como vaticinou o heróico haitiano: "acabou Bolsonaro"!

A perda de maioria em muitas comunidades e nas redes sociais com robôs e tudo não é pouco.

O fato é que a partir de hoje, com corona e tudo, a política no Brasil, entra em uma nova fase.

É tudo ainda muito confuso e dolorido com as ameças.

Teremos pela frente uma etapa difícil e duradoura de enfrentamento dos vírus que atacam a nossa sociedade.

Mas vamos por etapas e com "solidariedade social ativa".

terça-feira, março 17, 2020

Soro keynesiano na veia em doses cavalares para evitar o colapso

Soro keynesiano na veia em doses cavalares.

No Brasil a rolagem da colossal dívida que consome quase metade do orçamento da União, já ajudaria e muito.

El País, 17 mar. 2020
Na Espanha, o primeiro ministro liberou 200 bilhões (ou mil milhões) de euros, ou R$ 1,2 trilhão, equivalentes a 20% do PIB espanhol, como injeção keynesiana na veia.

Mas, com várias medidas para proteger os mais pobres: 
a) moratória para as dívidas com as hipotecas; 
b) suspensão de cobrança de água, luz e gás. 
c) apoio a trabalhadores "precários", que ainda não sei como será executado.

Na Itália, proibiram as demissões no trabalho por pelo menos dois meses, para evitar o que já se está fazendo no Brasil a rodo, sem nenhuma preocupação e/ou solidariedade.

Segundo o Financial Times, "a França está disposta a nacionalizar empresas atingidas por vírus".

Na Europa aumentam os questionamentos às privatizações generalizadas pelas dificuldades de agir em situações como esta da emergência.

Mas há que ter cuidado com os donos dos dinheiros chamados de forma geral e abstrata como mercado.
Como parte do tripé "governo-sociedade-mercado" há que se acompanhar o mercado, seus operadores atuam como serrotes, querem ganhar dos dois lados e assim capturar a maior parte desse "soro keynesiano".

Como disse a professora Virginia fontes na postagem abaixo é necessário praticar um "solidariedade social ativa".

"Solidariedade social ativa e o coronavírus", por Virgínia Fontes

Abaixo o oportuno texto da professora Virginia Fontes, UFF.


Solidariedade social ativa e o coronavírus

Essa é hora de solidariedade social ativa e não apenas de impacto, e menos ainda, de pânico. Precisamos ter claro que somente protegeremos nossas saúdes protegendo a saúde de todos, a começar pelos mais vulneráveis aos vírus (idosos e doenças pré-existentes), pela grande massa de trabalhadores da saúde que estarão a postos e mais expostos do que os demais, e pela imensa maioria da população de nossas cidades, cuja desigualdade social crescente os deixa sem recursos. Sabemos que temos uma chance de sairmos bem dessa epidemia pois ainda não conseguiram destruir o SUS, o que poderosos vêm tentando desde sua implantação na Constituição.


Solidariedade ativa é não perder o fio do pensamento:

- dinheiro público deve ir integralmente para saúde pública!

- a vida da população é mais importante do que os juros da dívida para milionários. Pelo fim da EC 95, que destina os recursos públicos para pagamento de juros de uma dívida que nem sequer sabemos em que foi gasta. O desbloqueio dessa Emenda Constitucional do “Fim do Mundo” deve assegurar recursos públicos para o setor público!


Solidariedade social ativa é exigir:

- que estejam recompostas as equipes de Agentes Comunitários de Saúde – desmanteladas por Crivella no Rio de Janeiro, e recebendo menos recursos do que deveria há anos, nesse país afora. São essas equipes as que trabalham em comunidades e favelas e contribuem para o monitoramento das famílias.

- que haja previsão desde já para garantir atenção especial para as famílias de baixa renda – em caso de isolamento doméstico, muitas precisarão receber alimentação e atenção psico-social.


Solidariedade social ativa é lembrar:

- a vida antes do lucro – paralisação de atividades não pode resultar em perda de salários. Essa é uma condição para enfrentar a pandemia em países desiguais como o Brasil, onde grande parte da população ganha durante o dia o que vai comer à noite. Apenas ínfima parcela da população tem reservas para enfrentar uma situação como essas e esses devem contribuir com os demais;

- o vírus mostra que todos os seres humanos são iguais e que a desigualdade resulta da organização da vida social. Nenhuma discriminação pode ser tolerada – contra alguns bairros, ou contra pobres, negros, mulheres, LGBTs!

segunda-feira, março 16, 2020

Por que Wall Street e Guedes não podem entender e nem aceitar a realidade?

Wall Street não entende o coronavírus.

Assim, Paulo Guedes também não compreende seus efeitos.

Isso não é por acaso.

De nada adiantam as centenas de relatórios que Wall Street, Ibovespa e seus operadores leem diariamente.

O DNA é o mesmo.Todos têm a mesma concepção mental do mundo a partir do mercado financeiro.

O andar das "altas finanças" há muito perdeu as principais conexões que ligavam os papeis e derivativos ao mundo real.

Por mais que as finanças tenham ampliado as suas capturas, a pandemia do coronavírus mostra, pelo lado mais trágico possível, que o mundo real existe e continua a se desenvolver no território.

É no território, onde há a reprodução social e a geração da riqueza pelo trabalho acontecem é também o "locus" da contaminação do coronavírus.

Assim, da mesma forma que o antídoto imunológico do vírus depende das barreiras sanitárias de contenção, o mundo das finanças, também precisa urgentemente ter a sua atuação transfronteiriça contida pelos governos, em nome da sociedade.

Não é que Wall Street e seus discípulos fiéis, como Paulo Gudes, não entendam isso.

Na verdade eles não podem aceitar a realidade que salta aos olhos, sem renegar a lógica de especulação e vampirização das riquezas geradas pelo trabalho.

É por isso que Wall Street não aceita os números que saltam das telas de seus monitores sobre a movimentação do mercado financeiro em todo o mundo.

Para o bem e para o mal, o vírus também está atingindo o coração da hegemonia financeira no capitalismo contemporâneo, aproximando de forma impensável até pouco tempo, a economia fictícia da economia real.

Os números das bolsas e os rendimentos dos fundos financeiros se liquefazem no éter, enquanto a população (reprodução social) sofre as consequências.

Porém, é interessante e necessário observar que neste caso, contraditoriamente, as relações sociais que tanto ameaçam, humanitariamente, são a nossa única salvação.

domingo, março 15, 2020

Se as plataformas digitais são neutras (“e do bem”), por que elas ajudam tão pouco em situações de crise como na pandemia do coronavírus?

O blog é para mim sempre um espaço de diálogo, aprendizado e, ultimamente, uma inspiração para a pesquisa. Assim, já comentei aqui, que estou me preparando para escrever sobre o "capitalismo de plataformas", como expressão da maior relação entre a inovação tecnológica, startups e a financeirização no interior dos diferentes setores da economia.

O uso exponencial das "plataformas digitais" com forma de intermediação - quase automática e online - do capital e do sua utilização em diferentes frações do capital (e da vida cotidiana das pessoas no território), já é bem conhecida e tem servido, basicamente, à ampliação da captura da renda, levando à intensificação, sem precedentes, da precarização do trabalho, fato que hoje impressiona até os liberais, ainda apartados do neoliberalismo ou ultraliberalismo.

O Covid-19 mais conhecido como novo coronavírus já é considerado um vírus da globalização que expõe a potência das redes, as conexões e os fluxos da economia globalizada.

Pois então, na conjuntura atual com uma explosiva pandemia e atroz sofrimento humanitário, em especial dos mais pobres – como sempre -, a pergunta que se coloca diante de nós é: se a tecnologia é neutra, como sustentam alguns, por que essas inovações quase não são percebidas, de modo efetivo, a favor das pessoas e não das bolsas de valores, bancos, fundos de investimentos e dos donos dos dinheiros?

E olha, que é a massa que faz a roda do sistema girar. Porém, o esgarçamento e a vampirização de tudo que atende à base da pirâmide social, não cessa nem em situações de calamidade global como a atual.

As plataformas digitais poderiam estar mais a serviço dos serviços públicos. Porém, hoje, com a desconfiança de que muitos destes sistemas estão mais a serviço da captura desenfreada de dados das pessoas para usos comerciais (e com Fake News para domínio político), quase ninguém acredita na finalidade e no uso destes aplicativos.

Tudo isso reforça a interpretação de que essas plataformas digitais são, hegemonicamente, instrumentos do capitalismo contemporâneo. Solidariedade, humanismo e civilidade, continuam a vir das pessoas, dos trabalhadores e de suas relações sociais. No meio da crise em que vivemos, é importante lembrar que da tríade “mercado, sociedade e governo” que define o mundo atual, sem a sociedade pressionando o governo e controlando o mercado, o que resta é a barbárie que surge agora tão diante de nós.

sexta-feira, março 13, 2020

Não tem coronavírus nem nada, Guedes só olha e protege a sua turma!

Não tem coronavírus nem nada. 

Paulo Guedes só fala em reformas, reformas, reformas. Corte para os mais pobres. Por isso, está entrando com recursos contra a BPC (Benefício de Prestação Continuada) aprovada pelo Congresso.
Guedes não pensa política pública. 

É da sua natureza, do seu DNA.

Mas, não pensem que deixa de trabalhar para os seus, já se aproveitando da situação e do pânico com os riscos com o vírus.

Governo dos ricos e para os ricos é isso.

Está preocupado com (seus) os fundos e os (seus) bancos.

Disse que estava tudo sereno, mas está tomando "medidas urgentes" para dar liquidez aos bancos.
O Banco Central (BC) e a CEF (Caixa) estão se aproveitando e atendendo reivindicação antiga dos banqueiros reduzindo o compulsório que os bancos são obrigados a manter no BC.

Está liberando R$ 135 bilhões para os bancos. Isso. Está tudo sereno e se libera esse dinheirão para dar liquidez aos amigos banqueiros.

Mas não é só isso.

Nas entrelinhas das notícias do setor financeiro, se fica sabendo que o espero Pedro Guimarães, presidente da CEF, está se aproveitando que a mídia discute, se foi ou não vazado o positivo do exame de coronavírus do presidente, para depois ele negar e acusar que estão torcendo contra ele, para fazer "negócios urgentes". Comprar carteiras de crédito de bancos médios.

Tudo sereno. Tudo tranquilo e mais dinheiro para os amigos banqueiros. Quem sabe assim, eles possam usar através dos fundos para comprar mais estatais a preço de final de feira.

Um "mini-Proer coronavírus". Tudo para salvar o país do coronavírus.

Assim, para não ficar ainda mais escancarado, tem outra distração. Vai antecipar a metade do 13º dos aposentados do INSS.

Cretinos. Canalhas!!!

terça-feira, março 10, 2020

O que o ciclo petro-econômico e a geopolítica do petróleo podem explicar sobre essa nova crise

Por várias vezes eu tratei neste espaço o tema sobre as variações do preço do barril de petróleo no mercado mundial e sobre as suas implicações nas economias nacionais. Como já é sabido, o petróleo é uma mercadoria especial com enorme repercussão sobre quase todas as outras mercadorias e cadeias de produção.

Em minha pesquisa de doutoramento eu utilizei e acabei por desenvolver um conjunto de interpretações sobre a geopolítica do petróleo e sua relação com as infraestrutura portuária, que se dá em torno da expressão cunhada pelo professor alemão Elmar Altavater de que "o capitalismo foi lubrificado pelo petróleo". [1]

Foi na construção das leituras sobre este processo que se desenvolveu o conceito do "ciclo petro-econômico" para explicar as suas duas fases (expansão ou boom e colapso) e as suas repercussões em diversas dimensões (geopolítica, política, econômico-fiscal, espacial, ambiental e temporal). [2]

O modelo do conceito. Na realidade as variações
de preços não são assim tão senoidais.
Para expor estes processos foi desenvolvido um enorme quadro com sete páginas com uma análise multidimensional sobre as principais características destas dimensões das fases de boom ou colapso do "ciclo petro-econômico", que compõe um capítulo inteiro, que demonstra que se trata de um fenômeno não apenas multidimensional como transescalar (PESSANHA, 2017, P.95-148)

Ao contrário daqueles que têm uma crença absoluta na neutralidade dos movimentos do mercado, incluídos aqueles do setor petróleo, com as alterações de fases destes ciclos, nunca ocorre de forma natural.

As mudanças de ciclos petro-econômicos e suas fases, são sempre decorrentes de decisões geopolíticas, vinculadas aos interesses por hegemonia que geram pressões políticas e alianças entre estados nações.

O desenvolvimento dos ciclos petro-econômicos também respondem a conflitos regionais que envolvem estados que são grandes produtores de petróleo, como em especial aqueles do Oriente Médio, e de um forma mais ou menos intensa, também acaba vinculado aos ciclos mais gerais da economia.

Entender essas alterações de fases e as características e dimensões dos ciclos petro-econômicos, ajuda nas interpretações dos fatos e fenômenos, decorrentes de momentos como esse atual, em que uma violenta redução de preços do barril, que surge em consequência de um triplo movimento: sobreprodução e estoques de petróleo no mercado acima da demanda global; a inviabilização de um acordo entre os maiores produtores e exportadores mundiais de petróleo (Opep e Rússia, ou Opep+1) e uma extrema redução da demanda de petróleo e derivados produzida pela diminuição das atividades econômicas e deslocamentos das pessoas e cargas por a partir do surgimento do coronavírus na China hoje já espalhado por quase todo o mundo.

Esta violenta e abrupta mudança de fase do ciclo petro-econômico com expressiva redução do preço do barril de petróleo, produz efeitos variados para as diferentes nações e para a economia mundial como um todo. Nações que mais importam petróleo ganham e as que exportam perdem.

Projetos de extração e produção tornam-se caros e se inviabilizam, assim como se reduzem as vantagens da expansão das chamadas energias alternativas, em função do barateamento do preço do petróleo, combustíveis e demais derivados.

Várias outras consequências e detalhamentos estão descritos naquele trabalho e podem ser utilizadas para a compreensão do fenômeno presente como, por exemplo, a relação entre a escassez de reservas de petróleo e as hipóteses para os ciclos futuros. [3]

Sem entrar em maiores detalhes sobre os fatos atuais, sobre esta inversão de fases do CPE ou sobre o surgimento de um novo ciclo petro-econômico, cujas consequências dependerá da duração da fase de colapso, ligadas às três causas citadas.

Assim, eu reapresento abaixo o gráfico usado na produção original do texto relacionando a evolução de preços e a ocorrência de conflitos entre 1970 e 2016. Mesmo diante das minhas precárias habilidades na produção e organização de infográficos, eu tentei rascunhar sobre o gráfico gráfico original, as atualizações e variações dos preços do barril de petróleo neste período mais recente entre 2017 e março de 2020 que segue publicado abaixo.

Nós vivemos uma época de explosão de notícias e comentários online sobre várias questões e, agora, em especial por essa superposição de crises da política e do ultraliberalismo brasileiro com o neoliberalismo no centro do capitalismo, conjugado ainda às terríveis consequências do coronavírus.

Desta forma, a ideia de retomar e reapresentar o conceito de ciclo petro-econômico é o de contribuir para ampliar a potência da interpretação sobre a realidade contemporânea que estamos vivenciando.























Referências:
[1] ALTVATER, Elmar. O fim do capitalismo como o conhecemos. 2010. Editora Civilização Brasileira. Rio de Janeiro.

[2] Tese do autor PESSANHA, Roberto M., defendida em mar. 2017, no PPFH-UERJ: A relação transescalar e multidimensional “Petróleo-porto” como produtora de novas territorialidades. Disponível no Banco de Teses da UERJ: http://www.bdtd.uerj.br/tde_busca/processaPesquisa.php?pesqExecutada=1&id=7433&PHPSESSID=5vd3hsifip5hdg3n1icb57l9m6

[3] Postagem do blog em 24 de julho de 2017, sobre a relação do ciclo petro-econômico, as escassez das reservas de petróleo no mundo e a situação do Brasil a partir do Pré-sal. A geopolítica da energia: os reflexos do ciclo do petróleo e sua relação com o Brasil. Disponível em: http://www.robertomoraes.com.br/2017/07/a-geopolitica-da-energia-os-reflexos-do.html

domingo, março 08, 2020

Coronavírus, petróleo e geopolítica na veia!

Neste momento a geopolítica ferve e entra em ebulição.

Queda dos preços de quase todas as commodities, com exceção como é natural, do ouro, e puxada pelo petróleo que cai desde sexta mais de 30% no mercado mundial.

O coronavírus é um ingrediente dentro de outras questões, como no caso do desentendimento entre Opep e Rússia para controlar produção e segurar o preço do petróleo.

A Rússia joga suas fichas e parece que acertada com a China, que ganha com petróleo mais barato, já que é o maior importador do mundo.

A China enfrenta ainda o coronavírus, mas parece que em novo estágio de enfrentamento.
A Europa está parando.

Os EUA perde muito e no exato momento em que o coronavírus assusta os americanos que vê Trump desdenhar os riscos.

O petróleo de xisto e o shale gas cujos projetos nos EUA já não estavam se pagando, agora pior, entram em forte prejuízo com petróleo a US$ 36, o barril.

Isso tudo tem efeito imediato no humor dos americanos e na eleição presidencial.

No mundo globalizado todos são atingidos.

O Brasil poderia estar sendo menos atingido, se ao invés de estar exportando petróleo (agora a preço muito barato), estivesse processando o mesmo aqui, em nossas refinarias, quando seríamos menos atingidos.

Nas últimas duas semanas o preço do barril de petróleo caiu bastante, mas o preço nas bombas segue o mesmo.

Pior. Com os erros de Guedes que tombam o PIB e a nossa economia todos sofrerão mais agora, de forma exponencial, com essa crise global sobre a crise nacional.

Como sempre as crise atingem os mais pobres.


PS.: Atualizado às 23:54: A Bolsa de Tóquio (Nikkei) caindo agora 6,15%.

PS.: Atualizado 01:26: o preço do barril de petróleo tipo brent está cotado a US$ 31,26, com queda, só hoje, de 29,67%. A bolsa de futuro dos EUA cai a quase 5%, enquanto a bolsa de Tóquio segue caindo agora em 5,5%.

A máquina das dívidas como motor do capitalismo contemporâneo

Hoje as dívidas movem e arrastam o capitalismo. Do setor público ao setor privado, do grande ao menor dos menores (que chamam apenas de consumidores) estão pendurados nas dívidas.

As dívidas grandes puxam as empresas e as pequenas os cidadãos para se submeterem ao que for necessário em busca de seu pagamento. Para reduzir as dívidas, se acorda mais cedo, dorme mais tarde, faz horas extras, ou se submete aos trabalhos cada vez mais precários e sem direitos. A dívida move o consumo que gera mais dívida numa roda sem fim.

Fonte: Relatório IIF. Valor, 06 mar 2020, P. A12.
Segundo o relatório da IIF (Instituto Internacional de Finanças), a associação mundial que articula o setor bancário mundial, no meio de 2019, a dívida global já atingia US$ 253 trilhões, ou R$ 1,2 quatrilhão de reais. Isso mesmo. Até o “word” recusou essa palavra “quatrilhão”, marcando-a em vermelho (sic).

A taxa de endividamento no mundo chegou atualmente a 322% do PIB mundial (soma de todas as riquezas materiais), o que significa que, em boa parte, ela não se sustenta em termos materiais. Esse volume de dívidas significa em termos per capita, que em média cada pessoa do planeta deve cerca de US$ 33 mil, cerca de R$ 155 mil. Ôpa, você gritará, eu não. Alto lá! Mas de qualquer forma isso lhe atinge de uma forma ou outra. Só não atinge a quem cria e estimula as dívidas.

Só a dívida do setor financeiro equivale a US$ 190 trilhões, ou 240% do PIB global, o que também nos sugere de que na sua maior parte ela nunca será paga, apenas seguirá puxando e arrastando os setores econômicos.

É uma dívida gigantesca e incontrolável. Um motor puxado pelos EUA, que desde 2000, triplicou a sua dívida que hoje já equivale a US$ 73,6 trilhões, ou 106% do seu PIB, exatamente, o que os EUA diz, junto com o FMI, que é uma relação que nação nenhuma do mundo deve permitir (sic).

Ainda nos EUA, além das dívidas do tesouro americano, as dívidas privadas dispararam. Entre 2004 e 2013, a dívida estudantil (que está nos debates de mais uma eleição presidencial), quadruplicou e chega hoje a mais de US$ 1,5 trilhão (R$ 7 trilhões, mais que todo o PIB do Brasil).

As dívidas dos estudantes americanos só não é maior do que a dívida que eles possuem com as hipotecas de imóveis, que em 2014 chegou a US$ 8,7 trilhão. A dívida dos estudantes já é maior do que a dos americanos com a compra de automóveis, que em 2018 estava em R$ 1,1 trilhão. Hoje, em boa parte veículos adquirida pelos motoristas (empreendedores da Uber ou 99), que se penduram nas dívidas fazendo que eles tenham (em todo o mundo) que rodar 12, 13, 15, 16 horas, seguidas por dia. Também no cartão de crédito a dívida dos americanos já ultrapassou US$ 1 trilhão.

No livro sobre “A ´indústria´ dos fundos financeiros”, eu escrevi um breve subcapítulo sobre o tema com o título “A ´máquina das dívidas´ como fórmula para a criação de valor no mundo das finanças”. A dívida é a máquina que puxa o todo o resto. É um moto contínuo, uma máquina de multiplicação de dívidas.

Entender essa realidade é o início para uma compreensão mais profunda sobre os movimentos do capital e a economia política na atualidade. As dívidas não precisam ser pagas (veja o caso dos EUA), mas precisam existir para continuar a puxar o capitalismo que esgarça o tecido social e a civilização como estamos vivenciando. É contra isso, que o grande Papa Francisco tem se movimentado tanto. Outro mundo tem que ser possível!

sábado, março 07, 2020

Se aproxima o fim da aventura Paulo Guedes

Quando se dizia, lá atrás, que o Paulo Guedes (Paulo FedEx, o entreguista) era um aventureiro em termos de políticas públicas, que nunca tinha administrado nada em termos de administração da coisa pública e dos interesses de uma nação, a não ser a riqueza dos banqueiros e fundos financeiros, a crítica parecia um exagero, como se a mesma se fundasse apenas em termos referenciais ideológicos.

Pois bem, passados 14 meses, aí está o desastre em quem abandona a ideia do tripé: Sociedade-Mercado-Governo, acreditando que apenas um dos vértices, o mercado, poderia produzir resultados.

Mesmo na lógica de mercado e neoliberal, Guedes é um fiasco guiado por um ideário ideológico e numa crença do deus mercado.

Pelas insuficiências dos representantes da elite econômica nacional, ele partiu para entrega ao mercado global de nossas riquezas e empresas estatais, exercendo seu "papel FedEx" acreditando que isso, resolveria as demais questões.

O resultado é quase uma centena de bilhões de dólares retirados de ações em empresas nacionais no Ibovespa neste período.

As liberações do FGTS, do PIS e a queima das reservas do petróleo pré-sal na bacia das almas, criaram a ilusão da recuperação, em leitura, novamente ideológica, que ficou conhecida como o "agora vai".

Delfim Neto, um liberal das antigas, sempre lembrava que o mercado era imprescindível, mas era necessário domar esse monstro, ou seria engolido por ele.

O caso agora, mesmo na lógica dos mercadistas (neoliberais) é muito grave. O atoleiro é maior e se espalhou pelo entorno. O Guedes já enviou vários sinais de que deseja sair, até porque não quer esperar o bilhete azul, do prazo dos quatro meses que o humilhou.

Como eu já disse na postagem, abaixo, essa crise do ultraliberalismo brasileiro, está dentro de outra crise do neoliberalismo global e em várias nações e que agora também se soma à disrupção explosiva do coronavírus.

Também já disse a quem interessa a crise para recolher os excedentes de riqueza produzidos pelo andar de baixo da pirâmide do capital.

Agora não só os pobres sofrem, a classe média mais baixa (e média) também terá sofrimento e as perdas ampliadas.

Até por isso, não dá para dizer que quem pariu Guedes que o embale.

O Brasil precisa interromper este desmonte e reconstruir a Nação.

terça-feira, março 03, 2020

O coronavírus irá gerar mais ainda vítimas com a intensificação da reestruturação produtiva

As pesquisas mais recentes que desenvolvi nos últimos anos, me auxiliam hoje, a analisar com mais profundidade alguns fenômenos sócio-político-econômicos do presente.

A partir dos fatos e dos agentes é possível compreender os processos e o sistema como um todo.

Mais. É também possível ainda interpretar os movimentos do capital em sua busca permanente e frenética de acumulação.

Vamos então a um fato específico em breve análise.

Nesse sentido, eu já comentei em postagem aqui que o caso do coronavírus está permitindo ver a extensão, capilaridade e intensidade com as quais as cadeias de valor global (CVG), hoje, se articulam globalmente, com repercussões em várias dimensões, além da mais óbvia que é a econômica. [1]

Porém, a epidemia que se espalha em termos espaciais, permite observar ainda outros fenômenos, a partir dos fatos cotidianos que vão sendo noticiados. 

Um deles é esse da matéria aqui do Valor (03 Mar. 2020, P.C2) - gráfico ao lado - que mostra como ações e investimentos econômicos em alguns tipos de negócios, passaram a render mais com a desgraça da doença originada com a contaminação do vírus corona. [2]

Ações e investimentos nas empresas de saúde crescem. Este é o caso das empresas de laboratórios que já estão ganhando muito mais com a expansão dos exames de todos os tipos além, do diagnóstico do vírus corona.

Desta forma no Brasil, o laboratório Fleury, já surge como o melhor resultado nos últimos dias na Bolsa brasileira (Ibovespa), acima das demais - que caem em sua grande maioria -, sendo seguida de perto, pela rede de farmácias, Droga Raia, por razões também fáceis de serem compreendidas.

No plano global, um outro resultado significativo na bolsa de valores dos EUA, foi a empresa de streaming de filmes, a NetFlix, que se valoriza na medida em que o maior tempo em casa, para fugir da exposição ao público, tem levado a um procurar maior por assinaturas.

Tudo isso reforça, o que tratei no livro sobre "A indústria dos fundos financeiros", quando tentei mostrar, como o capital vai escolhendo e navegando entre as suas diferentes frações (setores econômicos) e espaços (regiões), conforme as promessas de maiores rentabilidades e lucros. [3]

Sem querer estender mais (vou tratar do tema mais adiante), vale ainda observar as consequências que teremos na dimensão do trabalho e do trabalhador, a partir do fato de diversas empresas, já estarem optando por transferir alguns tipos de trabalho para o ambiente doméstico (home work), de forma a evitar a contaminação no ambiente comum compartilhado nas sedes e unidades da empresa.

Não é difícil intuir, que o processo de trabalho em casa (home work), que já existe, passará por uma experiência, que já jamais teve antes, em termos de volume.

Agindo agora pela pressão dos riscos de contaminação do coronavírus, as empresas arriscarão muito mais, para experimentar esse tipo de relação com o trabalhador, controlado à distância por resultados e metas, muitas vezes feitos por instrumentos usados pela própria tecnologia, com uso de vários tipos de software de gerenciamento, Big Data e Inteligência Artificial (AI).

Essa experiência gerará uma avaliação em termos de resultados e custos jamais visto. Menores despesas com luz, água, café, papel, espaços, apoio para transportes, etc., certamente, tenderá a ampliar, e muito, o uso deste meio de contratação e trabalho, em relação ao que se tinha antes.

Enfim, observando os fatos, os agentes e os processos daí decorrentes, é possível sair apenas da notícia nova, fragmentadas e em volume explosivo e paralisante, para interpretações mais totalizantes e potentes, não apenas sobre leituras conjunturais, mas sobre a relação destes fenômenos com a estrutura do sistema. Voltarei ao tema.


Referência:
[1] Postagem no blog em 6 de fevereiro de 2020. Cadeias de Valor Global (CVG) ficam evidentes e expostas com o coronavírus. Disponível em: https://www.robertomoraes.com.br/2020/02/cadeias-de-valor-global-cvg-ficam.html

[2] Matéria do Valor em 3 de março de 2020, P. C2. Ações de saúde se destacam em meio à turbulência. Disponível em: https://valor.globo.com/financas/noticia/2020/03/03/acoes-de-saude-se-destacam-em-meio-a-turbulencia.ghtml

[3] PESSANHA, Roberto Moraes. A ´indústria´ dos fundos financeiros: potência, estratégias e mobilidade no capitalismo contemporâneo. Editora Consequência, 2029. Rio de Janeiro. 

domingo, março 01, 2020

"A disputa política no Brasil não passa pelo centro", por Eduardo Costa Pinto

A disputa política no Brasil não passa pelo centro. A energia do “anti-establishment” (antissistema) assumida com o golpe pela direita é o caminho a ser conquistado pela esquerda.

As afirmações acima estão num texto do professor e pesquisador, Eduardo Costa Pinto do Instituto de Economia (IE/UFRJ), publicado no final do sábado (29 fev. 2020) em seu perfil no Facebook.

Entendo que os argumentos apresentados ajudam ao debate sobre as alternativas políticas no Brasil. Assim, abaixo posto o texto do artigo na íntegra e em seguida, outro texto com os comentários que fiz na mesma postagem.


Eduardo Costa Pinto em 29 fev. 2020:

Os resultados eleitorais em, boa parte, do mundo têm evidenciado que parte expressiva da população está optando em votar em candidatos que não representem o establishment, que é fortemente identificado com o "centro".

Os liberais e suas caixas de ressonâncias ideológicas (The Economist, fundações empresariais internacionais, grande imprensa liberal - no caso brasileira a Globo, a Folha, etc.) estão tentando reconstruir um "centro" nos países desenvolvidos e periféricos, mas isso não é possível dado que a população enxerga esse "centro" como o establishment.
E acho que com toda a razão, pois esse "centro", os “neoliberais progressistas”, nos termos da Nancy Fraser, governou a Europa e os EUA nos últimos 30 anos.

Arrisco a dizer que a população está questionando tanto o establishment econômico (1% mais rico) como o político (o sistema partidário em geral) e o acadêmico (professores e pesquisadores universitários, os donos da verdade científica e os que legitimaram os donos do poder nas últimas décadas).

É evidente que as fake-news criam cortinas de fumaça para a população, mas acho que temos que compreender os motivos (elementos estruturais) que criaram a demanda da população pelo anti-sistêmico.

Na questão econômica, o aumento da desigualdade e a piora gradual da renda do trabalho explicam esse movimento anti-sistema do povo. Não por acaso o Piketty ganhou toda sua notoriedade ao apresentar os dados de desigualdade na Europa e nos EUA nas últimas décadas.

No caso brasileiro, os efeitos sociais do austericídio da Dilma em 2015 foram devastadores. O choque de juros, o corte de gastos e, sobretudo, o choque de preços administrados (energia, gás, gasolina - o preço do botijão aumentou 20% em 2015) e a elevação rápida do desemprego aumentaram o descolamento do governo com a população mais pobre.

No caso do sistema político, há pouca alternativa em termos de proposições de políticas econômicas (dos diversos partidos com chance eleitoral) que busquem efetivamente melhorar as condições dos mais pobres e dos trabalhadores.
Basta olhar o que foi a terceira via europeia depois do Mitterrand, em 1982, e com o avanço do neoliberalismo na década de 1990.

É evidente que durante os governos Lula e Dilma as condições de vida melhoraram e não por acaso o Lula saiu como o presidente mais bem avaliado. Somado a catástrofe econômica de 2015, os efeitos políticos e institucionais da lava jato foram destruidores. Implodiu o sistema político com o efeito Joesley e acelerou no Brasil a ideia da necessidade do anti-sistêmico.

E foi o Bolsonaro que conseguiu capturar essa energia revolucionária da população (o atual espírito do tempo, basta ver o Chile e a produção do cinema – Coringa, Bacurau, Parasita, entre outros), vendendo-se como um “jacobino de direita”!

Vendeu a falsa ideia que vai mudar tudo que está aí! Mesmo ele sendo o mais arcaico da política brasileira. Para continuar com esse discurso precisa criar inimigos (Congresso, imprensa, esquerda marxista cultural, ONU, etc.) que estariam impedindo a melhoria do povo e da nação. Ainda vamos vivenciar turbulências constantemente.

No plano acadêmico, estamos cada vez mais distante da população e das questões brasileiras. Ficamos presos nas nossas especializações (no caso do economista como se fosse possível resolver tudo como uma política monetária ou fiscal mais adequada tecnicamente). Estamos presos aos pontinhos CAPES e a aprovação dos nossos pares. Nossas análises estão cada vez mais burocráticas. E isso vale não somente para os economistas, mas para boa parte das ciências sociais.

Não tenho uma resposta pronta para sair dessa situação. Mas tenho alguns pontos que acho que estão claros, pelo menos pra mim:

1) a saída neoliberal, implementada desde 2015 e aprofundada em 2016 e em 2019, não está gerando o crescimento econômico esperado, nem melhorando o mercado de trabalho. A fada da confiança não vai se materializar! Por outro lado, a mudança de regime em curso (reformas trabalhista, previdenciário, teto dos gastos, etc.) tem possibilitado uma forte elevação das taxas de lucros das grandes empresas (financeira e não financeiras) em detrimento do salários dos trabalhadores e da oferta de bens públicos pelo Estado;

2) não dá pra adotar as mesmas medidas econômicas utilizadas no governo Lula, pois as condições estruturais (mudanças nos termos de troca, destruição de segmentos produtivos em virtude dos efeitos da lava jato, etc.) se modificaram de forma expressiva a partir de 2011 que dificultam, em muito, construir o mesmo arranjo econômico da era Lula;

3) não há no atual momento como construir uma conciliação política (lulismo) com os setores dominantes. O outro lado (do capital) não quer (vide FIESP, bancos, agronegócio, etc.), pois as taxas de lucros das grandes empresas estão crescendo de forma vigorosa desde 2017. Esses segmentos dominantes estão tentando implementar uma mudança no padrão de acumulação do Brasil, retornando elementos pré 1930 da relação entre capital e trabalho e entre Estado e a população.
Acho que a esquerda tem que construir um programa mais ousada (o caso do Bernie Sanders é ilustrativo, se definir como uma socialista democráticos no EUA e mesmo assim ter chance eleitoral) que foque nos investimentos públicos em infra urbana, em educação e saúde (bens públicos) que deverá em parte ser financiado por forte elevação dos impostos sobre o 1% mais ricos (aumento do IPTU, do ITR, dos dividendos, das heranças, etc).

O 1% mais rico deve ser o nosso foco político, somente assim a esquerda vai se conectar com a demanda eleitoral anti-sistema da população. E não adianta fazer um programa ousado e depois girar completamente como a Dilma em 2015.

E olha que esse projeto mais ousado nada mais é do que um resgate da social democracia. E alguns amigos vão me dizer que um marxistas raiz não pode defender a implementação de uma social democracia clássica.

Minha resposta para isso é: dada nossa acumulação de forças atual a social democracia raiz tornou-se "revolucionário" para o Brasil marcado por seus setores dominantes escravocratas e patológicos, que adotam o Jeitão, nos termos do Chico de Oliveira, para se manter no poder a qualquer custo! Mudando regime, dando golpes clássico/militar ou parlamentar!

É evidente que essa acumulação de forças pode mudar rapidamente, mas não há sinais no curto prazo. Além de construir esse tipo de plano econômico, precisaremos defendê-lo com muita intensidade política. É possível implantar um programa desse tipo hoje no Brasil? Não sei responder, mas temos que tentar!

Realmente, essa batalha vai muito além do ciclo eleitoral, pois acho que viveremos uma transição longa no Brasil e no Mundo.
Sem o apoio dessa população (com seu espírito do tempo anti-sistema), a esquerda pode até ganhar a próxima eleição, mas não conseguirá governar nem levar o jogo até final do tempo determinado institucionalmente. Sempre pode aparecer um juiz que apite sem neutralidade!

Desculpem o texto longo, mas são inquietações que compartilho com vocês, num sábado à noite chuvoso no Rio, para pensarmos coletivamente.


Meu comentário em 01 Mar. 2020 sobre o texto do Eduardo Pinto como contribuição ao debate:

A direita impôs aos reformistas sociais, à centro-esquerda e à esquerda, a pecha de defender a política, enquanto eles (surgidos no Brasil com o movimento do impeachment e golpe) como sendo a não-política, o antissistema, o anti-establishment.

A política foi assim, sendo vendida como o demônio a ser enfrentado como pai e mãe da corrupção. E quem se colocava contra esse movimento, passou a ser visto como “gente do esquema da corrupção”. Gente que era do sistema a ser combatido. Assim, a direita se transformou e foi apoiada como antissistema, aqui e em outros lugares do mundo.

Aqui no Brasil, foi dessa forma que fomos sendo “entubados” em meio a esquemas confusos e uma explosão de informações e guerra de não-informações (Fake News), em vagalhões (ondas), que foram impondo o ódio e a violência contra o inimigo comum que representava o sistema a ser derrubado.

Desta forma, a direita já como parte do grande poder econômico, conquistou espaços e apoios populares. De dentro, o poder econômico passou a acreditar, centralizar e multiplicar esforços financeiros que bancou e expandiu as redes formais e não formais de comunicação. Com a opinião pública favorável (comprada ou conquistada) pela condição de antissistema, ela controlou também as principais decisões judiciais que se colocavam no caminho do projeto de retomada do poder depois de treze anos. Com essas redes de comunicações, os algoritmos do big data trabalharam, freneticamente, o público a ser conquistado para consolidar o candidato “anti-establishment”.

Em meio a este quadro, as questões levantadas pelo Eduardo merecem ser analisadas e debatidas. Elas são pertinentes. Em síntese, o Eduardo traz para o debate o argumento principal de que não haveria espaços no Brasil (e nem lá fora), para que a disputa política se dê pela busca do centro. Aliás, o que seria centro, está cada vez mais reduzido porque é visto como parte do sistema. E, em boa parte, não quer conciliação conosco. Uma parte segue preferindo a direita e outra está aí para ser conquistada.

Desta forma, a energia do “anti-establishment” (antissistema), assumida com o golpe pela direita, seria o caminho correto a ser perseguido e conquistado pela esquerda, com um programa mais ousado, verdadeiramente antissistema e mais claramente pós-capitalista, que tire de quem tem para entregar a quem não tem.

Nessa linha, a mobilização deveria ter como objetivo sair das reações pontuais às tresloucadas falas e decisões do desgoverno Bolsonaro, para ganhar corações e mentes entre a população. Assim, também se enfrenta os riscos à democracia. Mas é preciso ir além e propor um programa ousado que tenha a defesa clara de investimentos públicos em várias áreas como em especial: em infraestrutura e mobilidade urbana; habitação; energia mais em conta; bens públicos para melhorar a rede de educação e saúde, etc., tudo a ser financiado com dinheiro do tesouro, políticas keynesianas e recursos obtidos com a elevação dos impostos sobre os mais ricos, tributos sobre os dividendos dos investimentos financeiros e com a maior taxação da propriedade (heranças), etc. Esse é o debate para além apenas da necessária resistência ao estado autoritário e ao desgoverno dos ricos e para os ricos (plutocrata).

sábado, fevereiro 29, 2020

Petrobras perde numa semana R$ 72 bi equivalente ao lucro de 2019 que incluiu a venda da BR e TAG

A Petrobras perdeu, numa semana, em valor de mercado, quase o dobro do que lucrou em todo o ano
de 2019, incluindo a venda de apenas duas de suas subsidiárias, a BR Distribuidora e TAG.

Verdade que valor de mercado pode ser recuperado quando houver a "estabilização" da economia.
Mas o que foi para o espaço com a venda dos ativos não.

A perda com a desvalorização das ações da companhia nesta semana é equivalente ao que a direção autoritária e entreguista da Petrobras, espera obter com a venda de 8 de suas refinarias.

Tudo pode sumir, assim, como um "espirro" do tal mercado.

sexta-feira, fevereiro 28, 2020

Repositório das informações das Rendas Petrolíferas no CENPE-MPRJ

O Ministério Público do ERJ instituiu recentemente um Centro de Pesquisas (CENPE-MPRJ) que está disponibilizando uma ferramenta para os usuários identificarem a renda petrolífera (Royalties + Participações Especiais) recebidas pelos municípios fluminenses. Vide aqui.

Além das receitas totais anuais desde 2013 este repositório informa ainda:
a) o percentual que essas rendas petrolíferas equivalem em relação ao orçamento anual;
b) as despesas custeadas pelas prefeituras com as receitas das rendas petrolíferas;
c) o percentual que cada um dos municípios recebeu do total das rendas petrolíferas distribuídas aos municípios fluminenses;
d) a renda petrolífera per capita por município; e por fim, qual será o impacto para o município se forem aprovadas as novas regras que serão julgadas no STF, próximo dia 20 de abril de 2020.

É uma ferramenta bastante interessante para a população, pesquisadores e gestores públicos. Ela serve ainda para a população em geral identificar o tamanho desta riqueza originada da extração mineral do petróleo gera para a nação e sua população.

Trata-se de um instrumento similar ao que há algum tempo foi estruturado pela Ucam que foi o InfoRoyalties. Vale conferir aqui os diversos dados e indicadores que este repositório disponibiliza publicamente.

Só para ter uma ideia, o município que mais perderá em volume de receita com as rendas petrolíferas, caso a liminar no STF caia e passe a valer as novas regras de distribuição é Maricá. Em 2019, o município recebeu R$ 1,597 bilhão. Com as novas regras as rendas petrolíferas a serem repassadas ao município de Maricá seriam de apenas R$ 137 milhões. Uma perda de cerca de R$ 1,4 bilhão. (vide imagem abaixo).

Em seguida vem Niterói que perderia aproximadamente R$ 1 bilhão. Esta mesma ferramenta indica que  Campos dos Goytacazes perderia R$ 420 milhões.


quarta-feira, fevereiro 26, 2020

Pesquisador estuda aumento populacional dos municípios do Norte Fluminense até 2050

O professor e pesquisador William Passos fez uma estimativa demográfica para os municípios do Norte Fluminense para 2030, 2040 e 2050 e aponta que há necessidade de um planejamento para esse crescimento populacional, que segundo ele será quase exclusivamente urbano, e da organização da capacidade de absorção de todo esse volume demográfico.

Passos utilizou de um método de estimação aritmética a taxas constantes, ajustado pelo final da curva das Estimativas de População intra-censitárias do IBGE (caso dos municípios) e pelas Projeções da População do Brasil e das Unidades da Federação (caso do estado do Rio de Janeiro e do Brasil), calculei a Projeção Populacional dos municípios do Norte Fluminense dos próximos 30 anos (2020-2050).

Segundo Passos, os resultados apontam que Macaé (67,06%), Quissamã (60,80%) e Carapebus (58,29%) serão os municípios da região que mais crescerão nas próximas décadas, sinalizando a necessidade de planejamento desse crescimento, que será quase exclusivamente urbano, e da organização da capacidade de absorção de todo esse volume demográfico, de modo a não sacrificar a qualidade de vida da população.

Por estas projeções, em 2050, Campos dos Goytacazes estaria com 643 mil habitantes, Macaé com 438 mil habitantes e São João da Barra com 54 mil habitantes.

William diz que por tudo isso, a atualização dos planos diretores e a assessoria de um corpo técnico qualificado tornam-se ingredientes fundamentais para essas prefeituras. Assim que saírem os resultados do Censo Demográfico 2020, que só começa em agosto, a Projeção Populacional dos municípios do Norte Fluminense será atualizada.

Os dados forma postados na sua página no Facebook "Observatório das Metropolizações".



segunda-feira, fevereiro 24, 2020

Canadá tem limitações na condição de 4º maior produtor de petróleo do mundo

O The New York Times, publicou hoje (aqui), na sua versão online, uma matéria que fala sobre o abandono de um projeto de extração de petróleo nas areias betuminosas da província de Alberta, no Canadá por limitações econômicas e de financiamento. Essa decisão tem poder de alterar a situação do quarto maior produtor do mundo.

Hoje, em termos de produção de petróleo no mundo com quase 6 milhões de barris por dia (bpd), o Canadá está atrás apenas dos EUA, Rússia e Arábia Saudita.

A região de Alberta no centro do país é responsável por cerca de 60% da produção de petróleo do Canadá que em boa parte é exportada para os EUA, que hoje estão abarrotados, com produção de petróleo de xisto (tight oil).

Hoje a produção de petróleo americana é de 15,2 milhões de barris por dia, com projetos caros e de retornos duvidosos que também criam dificuldades para financiar projeto do campo de Frontier, em Alberta, no Canadá.

Até por conta disso, e com o óleo do pré-sal brasileiro mais limpo, com maior valor no mercado global e com baixíssimo custo de extração, em 2030, o Brasil poderá estar sair do 8º lugar e ultrapassar o Canadá, como o 4º maior produtor mundial de petróleo. A conferir!

domingo, fevereiro 23, 2020

“A inclusão de generais em torno de Bolsonaro tem a ver com a ditadura, claro, mas também é um motivo prático e imediato: formar uma guarda pretoriana”, por Janio de Freitas

O jornalista Janio de Freitas, hoje em sua coluna na Folha de São Paulo, trata, com muito mais propriedade do mesmo assunto que abordei aqui no blog há dois dias, na postagem logo abaixo: A disputa atual pelo poder político no Brasil: uma leitura já em época de Momo

Não há normalidade institucional no Brasil contemporâneo. A democracia vem sendo subtraída dia a dia por um esquema de força militar e miliciana. Vale conferir o texto que o blog transcreve na íntegra abaixo:


Bolsonaro e ministros expandem medidas danosas a sucessivos setores 

País se aproxima de uma situação-limite.

Uma certeza se pode ter: a maluquice perversa a que o Brasil está entregue não terminará bem.

Nos últimos dias houve outra mudança de tipificação e de grau nas tensões disseminadas por Jair Bolsonaro e sua tropa de choque. As palavras impeachment, queda, saída, providências das instituições, e mais variantes há mais de ano caídas em conformado silêncio, voltaram com força a tema de conversas e mesmo da imprensa. "A democracia é o regime da responsabilidade, o que implica a necessidade de punir a autoridade que se desvia da lei", disse a Folha ("Sob ataque, aos 99") sobre a conduta de Bolsonaro e lembrando-se de sua própria grandeza. Coube à Folha, no passado, dar outros problemáticos passos iniciais.

Aproxima-se uma situação-limite. A inclusão de generais em torno de Bolsonaro tem a ver com a ditadura, claro, mas também com um motivo prático e imediato: formar uma guarda pretoriana, a partir da ideia de que nenhuma instituição ou movimento público confrontaria essa representação do Exército com a tentativa de um impeachment, que também a alcançaria.

Esses generais, como o capitão que os comanda, são todos formados pela ditadura. Bolsonaro, no entanto, aumenta as extravasões da sua condição de alheio aos padrões dados como normalidade mental. Com seus ministros, expande as medidas danosas a sucessivos setores, não se interessa pelo desemprego, agrava os problemas de saúde e educação, submete-se aos exploradores legais e ilegais da riqueza mineral e florestal, ataca o Congresso e o Judiciário, leva o país a reverter tudo o que o fez respeitado nas relações internacionais.

No nível mais pessoal, Bolsonaro não deixará de contrariar a quase unanimidade de apegados ao meio ambiente, refletir as suas posições racistas, homofóbicas, elitistas, pró-violência, e de menosprezo ao corpo feminino. Esse elenco breve de ações do governante improvisado e de conduta pessoal, em permanente agravamento, já seria suficiente para amplificar o cansaço de grande parte do país com sua desordem geral. Há mais, porém.

Os indícios de ligação dos Bolsonaro com milicianos, ou mesmo com milícia, há tempos se mostraram suficientes para justificar providências legais e parlamentares. Aos bastante divulgados, juntam-se agora dois ainda mais incisivos.

O primeiro é a revelação de visitas de Flávio Bolsonaro ao miliciano capitão Adriano da Nóbrega no presídio. Não era, portanto, coisa do foragido Queiroz a relação do miliciano com o gabinete parlamentar de Flávio, onde empregou parentes. A relação era com Flávio Bolsonaro, direta e íntima.

A segunda revelação, feita pelo governador baiano Rui Costa, é a fraude de Flávio Bolsonaro para mostrar-se defensor, com Jair, de apuração rigorosa da morte de Adriano —como faria qualquer desinteressado da queima de arquivo. Flávio Bolsonaro exibiu nas redes um vídeo falso do cadáver, com marcas que seriam de agressão, e com etiqueta do IML da Bahia. Mas Adriano ficou com o ferimento de saída de uma bala nas costas, e o cadáver exibido por Flávio não tem tal perfuração. Nem o vídeo foi feito no IML baiano.

Jair Bolsonaro, é interessante notar, foi o primeiro a quem ocorreu uma ligação das mortes de Adriano da Nóbrega e de Marielle Franco: "Já tomei as providências legais para uma perícia independente [de Adriano]. Sem isso, você não tem como buscar até, quem sabe, quem matou a Marielle". A segunda perícia está feita, e quem vai buscar o que está por trás e por cima dos dois casos? A polícia da Bahia é a matadora de Adriano, a do Rio avançou no caso Marielle e, para indicar o(s) mandante(s), empacou. A Polícia Federal está sob Sergio Moro. E não seria inovadora a montagem de uma farsa para culpar o PT, como Bolsonaro já fez.

A repetida agressão de Bolsonaro às mulheres, bem representadas por Patrícia Campos Mello, teve um efeito na opinião nacional que abalou até bolsonaristas graníticos, com exceção do empresariado graúdo, associado à Bolsa, a Paulo Guedes e daí a Bolsonaro. Somadas a esse efeito as outras produções de Bolsonaro e a contribuição do mais desequilibrado general Augusto Heleno, avançou-se mais. Na obscuridade.

PS.: Janio de Freitas, jornalista. Fonte: FSP 23 Fev. 2020.

sexta-feira, fevereiro 21, 2020

A disputa atual pelo poder político no Brasil: uma leitura já em época de Momo

Um resumo sobre como e porque no Brasil chegamos onde estamos.

O controle político no Brasil é hoje, fundamentalmente, militar. Sem distinção entre os da reserva e da ativa.

Os militares (Exército em especial, as outras duas forças se submetem) em acordo com o mercado, aceitaram o capitão junto com a milícia e tudo. Sem nenhum escrúpulo.

A ordem era retomar o poder e o controle interno aceitando a ordem subimperialista que bate continência para os EUA.

O mercado e o rentismo veem Guedes como funcionário dos fundos financeiros. Aquele sujeito que cumprirá o papel de entregar e privatizar tudo o que for possível, bem baratinho. Em especial na área de infraestrutura, que é aquilo que gera riqueza e valor real de forma cumulativa sobre outras cadeias de valor.

Os militares puseram o plano para fora de forma mais clara, desde a ameaça feita pelo general Villas Boas, em abril de 2018 ao STF, que exigia a condenação e prisão de Lula, mesmo que apenas em segunda instância. Depois fecharam com o apoio à eleição do capitão, quando a estrutura cibernética e de redes de segurança do Exército foi colocada na disputa.

A partir da posse em janeiro de 2019, tudo isso foi paulatinamente tomando corpo, sem ser percebido, como um junta.

Aos poucos defenestraram os de fora, e foram tomando conta do Palácio do Planalto e também, de boa parte da Esplanada, com a capilaridade que os ministérios possuem setorialmente nos estados.

Hoje, somando todos os militares, eles já estariam passando, e bem, dos milhares de cargos. Assim, os militares, com anuência do Congresso, mesmo em meio aos cortes da previdência dos civis, viram seus soldos engordarem com o presente de um novo plano de carreira, e ainda com o salário-extra recebido pelos cargos comissionados em quase todos os setores do governo federal.

Lá atrás, em primeiro lugar, a estratégia dos militares foi se aproximar do mercado e aceitar as milícias, com o objetivo geral de tomar o governo das mãos da centro-esquerda, com o discurso, repetido de 64 (e recriado junto ao mercado) de evitar a ameaça e os riscos do socialismo ou comunismo no Brasil.

Em segundo lugar, foram atuando junto de setores hegemônicos da justiça - ideologizada e partidarizada - e dos donos das mídias comerciais para a “missão principal” de voltar a controlar o país.

Nesta toada, não é difícil identificar que parte das principais decisões judiciais passaram a ser antes discutidas, pelos presidentes das cortes com os generais. Eliminar os adversários (inimigos) e ungir e/ou salvar os aliados.

A ideia geral com as quais ganham adeptos entre si é a de "limpar a política dos políticos".

Desta forma, no desenvolvimento do plano, admitiram, sem muitas dificuldades, que essa limpeza seria feita, primeiramente, em aliança com as milícias.

A luta de todos contra todos na sociedade com o atual envolvimento das milícias, na concepção dos militares, ajudaria a obter o consenso ou a hegemonia da sociedade para atuar, mais fortemente, na luta para manutenção do poder interno, com o discurso (para inglês ver) que estão mantendo a ordem no país.

Para quem tem dúvidas sobre isso, observe o caso recente do Ceará que levou à confusão e tiros no ex-governador Cid Gomes.

É bom recordar que essa ideia política com uma visão higienista, não deu certo em nenhum lugar do mundo. E na Europa levou ao nazismo cuja triste história é bastante conhecida, embora hoje, comece a ser negada por alguns.

No Brasil, na década de 70, o golpe militar levou a uma corrupção nos ministérios e estatais, não muito diferente daquela que precisa ser combatida, num processo paulatino e não com esse falso moralismo, velha muleta para justificar a assunção do poder através de golpe.

Por último, caso chegue a este estágio, aí sim, os militares, enfrentariam a milícia. Um pouco para limpar a consciência, mas em essência, manter o poder internamente no pais. Se é que isso sobreviva na guerra e na luta contra os inimigos principais.


Do outro lado estamos nós: a população, a Nação brasileira

Além das contradições dessa estratégia pelo poder, há os desgastes crescentes dessa turma, junto ao sofrimento e empobrecimento da população (e até da base moralista). Ela serve como joguete de um lado para outro e que sente o arrocho que vem sendo imposto com o ultraliberalismo defendido pela burguesia, hoje, hegemonicamente, rentista e financeira.

Em todos os lugares do mundo, o neoliberalismo se desgasta, mesmo que depois de um certo tempo de expectativa de melhoria que a população pressionada pelos diversos lados, acaba concedendo, confusa em após violenta guerra cibernética a favor do tom moralista.

É nesse quadro que a centro-esquerda começa a compreender que o central é a defesa da democracia, contra esse projeto de “poder autoritário-militar-mercadista” e de falsos moralismos.

Assim, ensaia-se a ampliação de uma frente democrática-popular.

Os sindicatos de trabalhadores, passado a fase do turbilhão da direita e fakes news, voltam para a reorganização das suas bases e da população.

Enfim, o que se tem é a luta e a disputa pelo poder político, após o duplo golpe.

Sigamos em frente e na luta em defesa de um projeto de Nação e um Brasil para todos!

terça-feira, fevereiro 18, 2020

“Os acontecimentos recentes obedecem à construção de uma nova institucionalidade estatal, autoritária e de longo-prazo”, por William Nozaki

A análise do Nozaki está corretíssima. “A disputa pelo poder passa por esta construção militar autoritária de longo prazo. O militarismo e lavajatismo são duas faces da mesma moeda e operam a serviço de um projeto estratégico com conexões internacionais”

Tanto as estratégias quanto as táticas estão em curso com agentes espalhados em vários fronts, como numa guerra. A cibernética é parte da coluna que ajuda a sustentar a nova ditadura que está em curso. Enquanto isso, a maioria vem sendo distraída daquilo que é o essencial. Tudo em velocidade rápida, porque a conjuntura acelerou esse processo.

Assim, sugiro a leitura na íntegra do artigo do professor William Nozaki, da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo que foi publicado originalmente no GGN.


Notas sobre a Conjuntura


Por William Nozaki*

Enquanto a atenção se concentra sobre as sandices das declarações de Guedes, Araújos, Weintraubs e Damares, algo mais profundo e perigoso pode estar acontecendo na arena lato sensu do Estado

Na última semana observamos alguns acontecimentos conjunturais de grande relevância que foram pouco ou mal interpretados pela maior parte dos analistas de conjuntura: (i) a divulgação dos cenários para a política nacional de defesa até 2040, (ii) a nomeação do general Morão para o Conselho da Amazônia, (iii) a morte do miliciano carioca que chefiava o Escritório do Crime, (iv) a substituição de Onyx Lorenzoni pelo general, chefe de Estado-Maior, Braga Netto no Ministério da Casa Civil, (v) o incremento orçamentário da defesa e da estatal da Marinha, (vi) a revelação de que o general Heleno teria impedido a demissão de Sérgio Moro.

1.

A divulgação dos cenários para a política nacional de defesa até 2040 foi acompanhada pelo espanto e pela surpresa sobre o apontamento da França como uma ameaça estratégica para o Brasil. Uma boa parte dos analistas enxergou a avaliação apenas como sinal da decadência ou de irresponsabilidade das Forças Armadas. Entretanto, cabe aventar uma hipótese que busque lógica no caos. Se levarmos em conta que o golpe no Brasil também foi informado por interesses petrolíferos, há que se considerar que a mais recente fronteira de exploração e produção de petróleo offshore se encontra na região da Costa da Guiana, Suriname e Guiana Francesa, área onde há presença e influência da França. Além disso, o pré-sal brasileiro está numa área cuja proteção deveria ficar a cargo do submarino nuclear construído em parceria com a França. Diante do alinhamento automático entre Brasil e EUA, não seria absurdo imaginar que as forças norte-americanas se incomodem com essa presença francesa no Atlântico Sul e que isso se reflita nesse documento.

2.

A Amazônia azul, área marítima estratégica, se localiza, justamente, entre o território Venezuelano e a costa Brasileira, em uma região Amazônica que também segue na mira de novas prospecções petrolíferas e minerais. Trata-se de uma região com ocupação militar russa, na área da Venezuela, e com avanço de interesses mercantis, minerários e predatórios, na área Brasileira. Essa talvez esteja se tornando uma área estratégica demais para permanecer apenas sob a guarda dos ministros civis de Bolsonaro, donde a nomeação do general Mourão para capitanear o Conselho da Amazônia, formalmente esvaziado da participação civil dos governadores da região.

3.

A recomposição dos militares no governo Bolsonaro pode sinalizar uma reversão na derrota da farda para o olavismo, sintetizada na demissão do general Santos Cruz, não por acaso o primeiro a indicar que os militares conteriam os excessos e disparates da ala ideológica do bolsonarismo. Tal mudança de quadro, entretanto, só poderia ocorrer diante de um fato novo, e, talvez, esse ocorrido tenha sido justamente a morte de um dos chefes da milícia carioca. Segundo se tem noticiado, Adriano Nóbrega era peça chave para o esclarecimento das relações entre o clã Bolsonaro, a morte de Marielle Franco e a ação de milicianos. Talvez os serviços militares de inteligência e defesa tenham informações impublicáveis sobre esse acontecimento, o que colocaria as Forças Armadas em outro patamar diante dos bolsonaristas.

4.

Em se admitindo que a hipótese acima é exequível, a chegada do general Souza Braga – justamente o responsável pela intervenção no Rio de Janeiro – talvez não tenha sido uma livre escolha de Bolsonaro, mas resultado da pressão das Forças Armadas sobre uma família presidencial envolta em casos truncados e nebulosos. Nesse sentido, a Casa Civil (agora Casa Militar?), talvez esteja também sob discreta “intervenção”.

5.

Além disso, há que se considerar que, nas últimas semanas, se, por um lado, a Casa Civil perdeu o PPI (programa de parcerias e investimentos) para o Ministério da Economia, por outro lado, o governo aumentou os gastos discricionários com Defesa e com a estatal militar Emgepron (aliás, responsável pelo incremento da frota naval de defesa do mesmo Atlântico Sul supracitado).

6.

Uma operação da monta que se descreve nos itens acima não poderia ser viabilizada com o integral desconhecimento do Ministério da Justiça. Nesse sentido, chama a atenção um relato descrito recentemente no livro “Tormenta: o governo Bolsonaro, crises, intrigas e segredos”, segundo a autora, o general Heleno teria impedido a demissão de Sérgio Moro sob a alegação de que o governo acabaria. Se verdadeiro, tal indício comprova que o militarismo e o lavajatismo são duas forças coesionadas, por interesses internos e externos.

As linhas acima, como já se disse, esboçam apenas um conjunto de hipóteses. Mas elas partem de algumas premissas, que, infelizmente, não são corroboradas pela maioria dos “conjunturalistas” do campo progressista, quais sejam: (i) a Amazônia Azul e a Amazônia Verde estão no centro do tabuleiro geopolítico global e norte-americana; (ii) o governo Bolsonaro tem menos relação com o presidencialismo de coalizão do que com o fortalecimento das milícias; (iii) o centro da economia política bolsonarista está na área de minas e energia e não no tripé macroeconômico; (iv) militarismo e lavajatismo são duas faces da mesma moeda e operam a serviço de um projeto estratégico com conexões internacionais; (v) os acontecimentos recentes obedecem à construção de uma nova institucionalidade estatal, autoritária, de longo-prazo, e não a questões eleitorais e de políticas públicas de curto-prazo.

Enquanto a atenção se concentra sobre as sandices das declarações de Guedes, Araújos, Weintraubs e Damares, algo mais profundo e perigoso pode estar acontecendo, e o centro desse algo também não está, essencialmente, na esfera stricto sensu da economia, mas sim na arena lato sensu do Estado. Não se trata com isso, é bom que se diga, de diminuir a importância das agendas econômica, eleitoral e cultural, espaços de disputa permanente, de acúmulo político e de mudança na correlação de forças. Mas sim de saber que a estratégia em curso e o inimigo em combate talvez estejam mobilizando armas bem mais cortantes do que aquelas utilizadas quando vigia plenamente o ciclo findado da Nova República. Os tempos mudaram.

*William Nozaki é professor da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo e pesquisador do Programa de Economia Política Internacional do IE/UFRJ.

sábado, fevereiro 15, 2020

Por que os combustíveis (gasolina, diesel e gás natural) ficaram tão caros no Brasil, pós-golpe?

O economista Claudio Oliveira, aposentado da Petrobras tem trazido para o grande público uma explicação sintética e simples de se compreender. A nova fórmula foi adotada pela Petrobras a partir de Pedro Parente (Temer) e continua com Castelo Branco (Bolsonaro).

A lógica foi a defesa de que os brasileiros paguem preços equivalentes aos dos combustíveis importados, apesar da Petrobrás e do Brasil serem superavitários na produção de petróleo e de haver capacidade para refinar o óleo cru no país e assim abastecer este 6º maior mercado consumidor do mundo custos mais baixos e desta forma, contribuir para o desenvolvimento nacional e não atender exclusivamente aos interesses dos investidores.

Assim, inventaram o tal PPI (Preço de Paridade de Importação). O Claudio Oliveira insiste que isto não existe em lugar nenhum do mundo.

Mas, de forma sintética o que é o PPI? É o PPI que determina os preços do diesel e gasolina que passaram a ser adotados a partir de 2016, no mesmo ano do golpe “parlamentar-jurídico-midiático” onde a Petrobras, apesar de ser dona de todo o parque de refino nacional com capacidade de processar 2,1 milhões de barris por dia de óleo cru, pratica um negócio como se fosse uma importadora de derivados de petróleo.

Mas afinal, em que é baseado o PPI?
  1. Considera inicialmente o preço do combustível no mercado global;
  2. Acrescem-se a ele os fretes com petroleiros no trajeto do exterior até o Brasil;
  3. Inclui ainda os custos com a internalização dos combustíveis, como os gastos com tarifas portuárias e alfandegárias e outras;
  4. Abrange ainda os custos com seguro com os quais precavê contra variações cambiais;
  5. Contempla ainda, por incrível que pareça, a margem de lucro que teria o importador, embora todo o processo seja efetivado nas refinarias do país.
Pois bem, assim é hoje calculado o preço de venda da gasolina e do diesel pelas refinarias da companhia que está chegando lá nas alturas para os consumidores finais nos postos de abastecimento em todo o país.

Antes, o preço também tinha relação com o preço internacional, mas tinha uma avaliação de longo prazo que fugia das oscilações e das especulações de curto prazo e não incluíam todos esses itens do PPI listados acima.

Como lembra o Claudio Oliveira, “a maioria dos brasileiros não tem conhecimento deste esquema PPI, e imagina que a empresa simplesmente adota os preços internacionais." 

Isso interessa apenas aos acionistas e às petrolíferas, tradings e fundos de investimentos que estão de olho nas 8 (oito) refinarias que a Petrobras está tentando vender na Bacia das Almas.

Existe a questão do ICMS, mas esse imposto de circulação (estadual) ele se dá sobre o preço praticado a partir da refinaria. Portanto, o preço que sai da refinaria contribui para o preço final e se trata de um imposto difícil de ser alterado tendo em vista as dificuldades de receitas dos governos estaduais para manter as suas obrigações. Portanto, tentar mexer nisso, é uma falsa proposta. A etapa de refino da Petrobras é lucrativa e onde a empresa se apropria de maior parte da riqueza que é gerada em toda a extensa cadeia do petróleo.

Por fim, há uma questão importante a ser tratada. Estas refinarias colocadas à venda não são empresas subsidiárias ligadas à holding Petrobras. As refinarias são partes do tronco principal da empresa, assim, por conta da Constituição (CB), a Petrobras como estatal, precisa de autorização do Congresso Nacional para fazer este negócio, sob pena de nulidade.

Porém, a empresa controlada por uma diretoria autoritária e entreguista vem convencendo o STF que é possível esquartejar o boi para vendê-los em pedaços, como se o que estivesse sendo vendido não fosse o animal por inteiro, começando pela carne de primeira, o filé, contrafilé, alcatra, etc. Quem ficará com o osso?

O PPI além das demissões de empregados e desmonte da Petrobras é uma das razões da greve dos petroleiros que hoje envolve mais de 100 bases da empresa, entre plataformas, refinarias, terminais e área administrativas com cerca de 20 mil trabalhadores em greve há 15 dias.

PS.: Atualizado às 16:14: Para acrescentar o último parágrafo.

sexta-feira, fevereiro 14, 2020

Capitalismo de plataformas e a falsa economia do compartilhamento: 99 e Uber somam hoje mais de 1 milhão de motoristas ativos no Brasil enriquecendo seus investidores globais

Tenho tratado com alguma frequência deste tema, que hoje está no centro dos meus estudos e pesquisas que visa, entre outros objetivos, identificar com maior profundidade a relação das plataformas digitais, a inovação tecnológica com a financeirização (fundos de investimentos) neste "capitalismo de investidores".

No Brasil, em 2019, a Uber tinha 600 mil motoristas cadastrados e ativos. Já uma de suas concorrentes, a 99 tinha alcançado 700 mil motoristas ativos trabalhando em sua plataforma. [1]

Juntando as duas plataformas de aplicativos pode-se estimar que o quantitativo de trabalhadores (sim, trabalhadores e não empreendedores) estão em torno de 1 milhão, considerando que muitos atuam em uma ou outra plataforma. Não está nesta conta os trabalhadores que atuam em plataformas similares para entrega de comida, como UberEats, IFood, Rappi e outras.


A 99 atua em 1,6 mil municípios do Brasil e em 2019, dobrou o número de viagens no país. Desde 2012, a 99 já passou de 1 bilhão de viagens no Brasil. Em pesquisa do IBGE (PNAD Contínua) divulgada em 18 de dezembro de 2019, indicou que a população brasileira que trabalha em veículos cresceu 29,2% em 2018, atingindo 3,6 milhões de pessoas, entre motoristas de aplicativos, táxis, ônibus, além de trocadores. O que reforça e explica os dados das plataformas Uber e 99 no Brasil. [2]

A Uber nos nove primeiros meses de 2019 teve uma receita de US$ 649 milhões no Brasil, o que permite estimar uma receita anual - com o movimento maior em dezembro - em torno de US$ 1 bilhão. No câmbio de hoje, seriam R$ 4,35 bilhões. Sabendo que 25% das receitas são retidos pelo dono do aplicativo, fica-se sabendo que a plataforma Uber tem um lucro que é retirado da economia nacional equivalente a mais de R$ 1 bilhão. No mundo todo a Uber teve uma receita global de US$ 14,15 bilhões.

O mais interessante disso tudo e que serve para identificar a relação destas plataformas com o setor financeiro, é observar que as plataformas são concorrentes, mas possuem em boa proporção, os mesmos acionistas (e investidores de fundos). Um deste caso é o banco japonês Softbank. A Uber tem 17,7% da chinesa Didi, dona da plataforma 99, que investiu pelo menos US$ 1 bilhão no Uber.

Outros grandes investidores que hoje dominam o aplicativo da Uber é o banco Goldman Sachs, o fundo soberano Qatar Investment Authority (QIA) e o Saudi Arabian Monetary Agency (Sama) fundo soberano da Arábia Saudita, entre outros, como os que tinham capitalizado a plataforma Uber com US$ 70 bilhões (PESSANHA, 2019, p.57). [3]

Do lado do consumidor este tipo de demanda parece que dá status de modernidade a quem o solicita por estar "antenado" e por ter o conhecimento sobre o uso destas plataformas digitais, hoje acessíveis por quase todos os celulares, além de propiciar economias, como também no caso da entrega de  refeições feitas nos restaurantes, mesmo que self-service, onde o trabalho do garçom já foi sendo abolido. [4]

Para os trabalhadores destas plataformas digitais, alguma renda é melhor que nenhuma. Para aqueles que produzem os alimentos, o argumento é que sem a entrega barata dos pratos, não há como sobreviver no mercado, numa época que a chamada comodidade e um novo modus de vida dos tempos atuais "brotaram nas pessoas" chamadas quase permanentemente de consumidores. 

Para os donos das plataformas digitais, estes dois argumentos servem para apresentar sua conta e os seus ganhos, onde a modernidade e o conhecimento digital justificariam a vampirização da renda em proporções absurdas. [4]

Neste processo, os donos das plataformas digitais (vampiros tecnológicos) já avançaram em suas atividades. Além de conectar produtor, consumidor e trabalhador das entregas, eles já estão usando as informações que possuem de todo o processo para interferir nos negócios destas pontas, aumentando ainda mais os seus ganhos e buscando a massificação (oligopolização), exigindo em troca destes agentes uma fidelização, assim como fazem aos consumidores com descontos para quem mais utiliza as plataformas.

A chamada economia do compartilhamento que nasceu com o discurso de ampliação da sociabilidade e da cooperação, serve hoje para o capturar as rendas locais para o andar superior das finanças que hoje controlam essas plataformas digitais.

Isso é o que pode ser entendido como capitalismo de investidores. Hoje, os investidores controlam boa parte da produção material mundial, as grandes corporações desde as indústrias, como os serviços, comércio e intermediação financeira ampliam a captura de renda através de um uso ampliado das plataformas digitais.

As plataformas digitais ampliam cada vez mais os seus usos. Os mais conhecidos são estes de transportes e os entregas de comida e vendas online. Agora já está em fase de implantação experiências também para a “uberização” para a área de energia elétrica, num processo que passa ter e denominação por conta do nome da plataforma de transportes Uber que foi fundada oficialmente em 2010. [5]

O "capitalismo de plataformas", se sustenta no processo de verticalização a partir das redes redes digitais e permite um maior controle das demandas antes vinculadas às corporações estatais de infraestrutura que estão sendo transferidas para o capital privado. Os negócios vão se tornando vinculados e controlados por grandes oligopólios em relação estreita com a fração financeira do capital.

Trata-se de um processo com ampla utilização da ideia da gestão do território e da intermediação entre os agentes do sistema para aspirar – como vampiros digitais – as rendas geradas pelos fluxos de dinheiros, promovendo ainda enorme concentração de renda e ampliando as desigualdades sociais. O capital necessita fazer imersão no território, através de agentes locais, para articular os negócios e assim aspirar e desenraizar as rendas regionais até o andar de cima das finanças. Seguimos investigando.


Referências:
[1] Matéria do Valor em 12 Fev. 2020. P.B6. BRIGATTO, Gustavo. `Não queremos crescimento a qualquer custo´, diz  diretor da 99. Disponível em: https://valor.globo.com/empresas/noticia/2020/02/12/nao-queremos-crescimento-a-qualquer-custo-diz-diretor-da-99.ghtml.

[2] Matéria da Agência de Notícias em 18 Dez. 2019. CRELIER, Cristiane. Número de pessoas que trabalham em veículos cresce 29,2%, maior alta da série. Disponível em: https://agenciadenoticias.ibge.gov.br/agencia-noticias/2012-agencia-de-noticias/noticias/26424-numero-de-pessoas-que-trabalham-em-veiculos-cresce-29-maior-alta-da-serie

[3] PESSANHA, Roberto Moraes. A ´indústria´ dos fundos financeiros: potência, estratégias e mobilidade no capitalismo contemporâneo. 2019. Editora Consequência. 

[4] Artigo, postado no blog em 14 de dez. 2019. "A economia do compartilhamento e o capitalismo de plataformas nascem à luz da modernidade, mas caminham para o subterrâneo das cavernas (underground capitalism)". Disponível em: https://www.robertomoraes.com.br/2019/12/a-economia-do-compartilhamento-e-o.html

[5] Postagem no blog em 13 de jan. 2020. O mundo das plataformas digitais programa venda de energia elétrica por aplicativo. Disponível em: https://www.robertomoraes.com.br/2020/01/o-mundo-das-plataformas-digitais.html


PS.: Atualizado às 21:56: Para pequeno ajuste no título.
PS.: Atualizado às 01:02: Para alguns ajustes no texto original.