domingo, setembro 27, 2020

Nossos dados precisam deixar de ser a commodity mais valiosa do mundo

Em artigo recente eu comentei que está em curso a commodificação dos dados. [1].

Para muitos isso pareceu um exagero. Uma retórica. Porém, eu disse mais e reafirmo. A commodity dos dados tem proprietários, assim como as demais commodities possuem donos. 

Propriedade que no modo de produção capitalista se divide em frações de classe: terra, capital e o trabalho. Os dados de cada um de nós diariamente, em quintilhões, vai sendo apropriado de forma coletiva por terceiros. Eles são os donos, como existe e é registrada a propriedade da terra, do minério, do óleo, da soja e outras commodities.

Mas o que é commodity? Normalmente as commodities são produtos de origem da extração mineral e da agropecuária. Caso do petróleo, minério de ferro, café, açúcar, soja, arroz, trigo e outras.

Commodity é uma palavra inglesa que na origem significava toda mercadoria. Porém, com o transcurso do capitalismo, o termo passou a ser visto, como a de um produto obtido em quantidade e com características uniformes. 

Hoje, tecnicamente, commodities são as mercadorias produzidas em larga escala e que não podem ser diferenciadas de acordo com quem as produziu ou de sua origem, sendo seu preço uniformemente determinado pela oferta e procura internacional. 

Porém, sabemos que nem todo o minério de ferro é igual. Dependendo da origem há uns mais puros, assim como o petróleo, uns mais pesados e parafinados que outros, conforme o campo e a área de sua extração. Ainda assim, essas mercadorias não deixam de ser commodities com preços variando em torno da referência do que é o geral.

No caso dos dados também há especificidades, conforme a origem de quem a disponibiliza. Pois então, aí reside uma singularidade dos dados enquanto commodity. O dado é extraído, mas não é vendido. E portanto, nem comprado. Os dados na prática, são fornecidos “voluntariamente” por todos nós que usamos as plataformas digitais, em especial, as redes sociais, praticamente, metade da população mundial. No ocidente, esse percentual supera 80% da população.

Cada vez mais sabemos que quem extrai nossos dados como commodity (assim de forma massificada), também armazena em Big Datas e depois processa com uso da ferramenta dos algoritmos e da chamada Inteligência Artificial. E ganham muito, muito, muito dinheiro com essa propriedade que confisca das pessoas e instituições.

Os donos dessas commodities conseguiram a proeza. Ganham com essa mercadoria muito mais do que até aqui ganhou os magnatas do petróleo, os oligopólios do setor siderúrgico, das montadoras de automóveis ou qualquer outro da história considerada como de muito sucesso no capitalismo global.

Além de tudo, se já não fosse suficiente, a commodity dos dados confere um poder ainda maior aos seus proprietários, do que aos donos das demais mercadorias que são transportadas por navios gigantes entre os maiores portos dos mundo.


Commodity digital, mas que exige enorme infraestrutura material

As commodities são consideradas como uma informação digital e como tal seria um bem intangível. Porém, essa informação (dados) para ser extraída depende que alguém a ofereça (nós), mas necessita de uma potente infraestrutura de comunicação, como mais de 2 milhões de cabos ópticos que fazem a ligação entre bases de milhões de equipamentos.

Hoje, chamam de nuvem (cloud) [2], toda essa infraestrutura que nunca esteve no ar (éter) com memória física para guardar essas informações (dados) que são coletados na ordem de 2,5 quintilhões gerados diariamente, entre os emails, mensagens do whatsapp, twittes, horas de uso de streaming (NetFlix e outros), pesquisas no Google, etc. 

Nem os cabos e nem essas máquinas de armazenagem de dados estão no ar, mas passaram a ser chamados de nuvem [2], o que ajuda na ideia de que seria algo natural, embora as nuvens sejam reflexo do clima e vinculadas também a tempestades e tragédias inesperadas como a digital que nos ameaça.

Portanto, além de commodity, essa propriedade extraída das pessoas, considerada de uma forma geral como imaterial e digital, exige uma colossal infraestrutura de logística para ser transportada e armazenada, como commodities digitais, em não menos gigantes, armazéns chamados de big datas, sob a guarda de seus novos donos.

Esses proprietários, assim como o dono de uma tonelada de minério de ferro comprado do dono de alguma mina, em seguida, amplia o valor dessa mercadoria com processamentos e beneficiamentos que agregam valor à mercadoria, os dados das pessoas, empresas e instituições e nações.

No caso dos dados, esse beneficiamentos incluem a identificação e apuração de quem são as personas, os sujeitos que os geraram. Suas características, seus movimentos geolocalizados pelo mundo, seus interesses, suas idiossincrasias, seus comportamentos individuais e/ou, em interação social com diferentes grupos, suas ideologias, fé, capacidade de liderança, etc.

Isso é feito em proporção cada vez mais com uso dos chamados algoritmos e da Inteligência Artificial que é assim chamada porque é inteligência de máquina, computadores. Quanto maior a quantidade de dados, mais rápido e exponencial é o aprendizado das máquinas (Machine Learning).


O processo da valorização da commodity dos dados que não desaparece quando consumido

Quando saem dos sujeitos que são seus donos originais os dados entram num processo de valorização. Os dados após processados ganham muito mais valor. Assim acontece também com a commodity petróleo. Sem ser processado o petróleo não tem nenhuma utilidade. Porém, depois de beneficiado se transforma em gasolina, diesel, plásticos e mais de 3 mil outros produtos.

Os dados como commodity, após processado em bateladas, mas com a busca dos sujeitos que os geraram, ganham mais valor e são utilizados em dois principais campos ou atividades:  econômico e o político e da disputa de poder.

Entre as Big Techs (grandes corporações do setor de tecnologia), o Facebook e o Google, em especial, sabem o valor destes dados já tratados, “beneficiados” e pronto para usos vários e cada vez mais intensos. E com a vantagem, eles não desaparecem quando são consumidos. Assim, eles geram valor todo o tempo, sendo uma outra vantagem em relação às demais commodities. Assim, a commodity dos dados geram bilhões de dólares para propaganda direcionada. O que é isso? É dirigir a você informações sobreo que você deixou a internet saber que você precisa ou aprecia.

A empresa-plataforma que extraiu o seu dado, agora lhe conhece porque são os novos proprietários dessa commodity. Essa commodity foi extraída de você, no momento quem que fazia uso das plataformas digitais (redes sociais e outras) - que você imagina (ou imaginava) gratuito. Você não sabia que tinha se transformado em produto, só que com o nome de usuário. Assim, já na condição de produto, você permite que “voluntariamente” esses dados sejam extraídos, para serem despois processados e vendidos para quem produz algo que você pode vir a necessitar pelos rastros que deixou na internet.

Esse mecanismo vem aumentando vertiginosamente os lucros destas empresas-plataformas que não criam valor, não criam riquezas. Elas apenas extraem valor que os seus dados oferecem pela lei do mercado e - até aqui - sem regulação. Essas empresas-plataformas ganham por esta intermediação digital que é vinculada à infraestrutura material e logística para a entrega do que foi adquirido.

Assim, a plataforma de intermediação não fica apenas com a comissão deste negócio, mas também a renda que ficava antes com o comerciante local. Além disso, também força a produção (a indústria) a produzir por mais baixo custo, para não perder competitividade, na medida, porque em que os mercados estão todos ligados, eles são portanto, mais conhecidos e assim o produtor de preços mais elevados não se sustentam.

O resultado disso é a já conhecida precarização na entrega e na produção. É por isso que o mercado exige as “reformas trabalhistas” para desregular o trabalho, que como mercadoria passa a ser negociado em condições piores na medida que sobra mão de obra, levando à redução dos salários, cortes de direitos sociais, trabalho por demanda (GIG Econony), numa espécie de neoescravidão.


A tecnologia como instrumento da commodificação dos dados se torna o mais importante fator de produção na economia contemporânea

A extração dos dados (commodity) é a base deste processo. Essa commodity tem cada vez maior valor, porque cada vez se deseja mais esses dados e os seus resultados. É uma lógica de mercado. A maior busca pela mercadoria aumenta o seu valor. E por ser fundamental para também garantir mais valor sobre todas os outros setores econômicos (frações do capital), mesmo aqueles que não são commoditificados, o seu valor potencialmente cresce ainda mais.

É no percurso de valorização desta commodity que a tecnologia que extrai, transporta, armazena e processa esses dados, deixa de ser um simples fator de produção e passa a ser, no capitalismo contemporâneo, o mais importante fator na economia, porque atua não apenas na produção com a automação (e a robótica), mas também na distribuição para o consumo e, de forma especial, na etapa de circulação das mercadoria que passa por uma “quase revolução”. E como plataforma de intermediação age sobre todos os demais setores da sociedade. 

Não é por outra razão que neste período de um semestre de pandemia, as empresas de tecnologia foram as que mais cresceram em receitas, lucros e, de forma especial, em valor de mercado, segundo a publicação Top 100 do Financial Times. [3] Assim, as empresas-plataformas ganham mais e cada vez mais. A Apple sozinha chegou a US$ 2 trilhões de valor de mercado, uma vez e meia o PIB do Brasil, a oitava economia do mundo. [4]


A dimensão tecnopolítica da utilização dos dados como mercadoria (commodity)

A breve descrição acima é uma parte do resultado da commoditificação dos dados na dimensão econômica que favorece ao violento esquema do e-commerce, em especial do varejo. Em breve publicarei um texto sobre a disputa do e-commerce do varejo no Brasil.

Porém, para fechar, é no campo político e da disputa de poder que o desdobramento do uso dos dados é ainda mais preocupante. Ao conhecer cada um em detalhes, a manipulação deixa de ser risco e se transforma em fato. Cerca de 70% dos brasileiros, 140 milhões, utilizam redes sociais e a aplicativos de mensagens, de forma mais expressiva no Brasil, o whatsapp.

Enfim, sob o signo de uma ideia difusa de progresso e de um fetiche que a tecnologia exerce sobre toda a sociedade, as plataformas digitais, na condição de meio de circulação informacional e logístico, seguem de forma desregulada extraindo renda de toda a sociedade.

O resultado de tudo isso tem sido a guetificação, memificação e a perda da capacidade de interlocução da política, como forma de mediar os diferentes interesses na sociedade. Na prática, o meio que é a plataforma digital, por onde a informação trafega, se tornou um instrumento inverso à intermediação política. 

A plataformização (em especial as redes sociais) tem promovido a antipolítica, a não mediação e a interdição do debate e das formas de construção política. Os algoritmos e o “aprendizado de máquina exploram as vulnerabilidades humanas e favorecem o individualismo que é o inverso da ideia de sociedade e civilização. 


Conhecer o fenômeno é o início 

Tenho dificuldades de identificar que a ocupação dos espaços nas redes socais e a disputa dos tamanhos das bolhas possam superar a lógica deste mecanismo que é centralizado pelo próprio poder econômico que também comanda o poder judiciário. Não é por outra razão que a regulação das plataformas digitais até o momento não tem passado de intenções. 

Não é aceitável que se continue a acreditar que serão as próprias empresas-plataformas que regularão, em autorregulação. É como imaginar que o sujeito vai agir contra si próprio, por altruísmo, sem regulação.

Os Estados se mostram impotentes para controlar esse processo, seja em termos obrigação de divisão das empresas e oligopólios, seja em termos de tributação, ou controle da sociedade no direito à privacidade que deveria proibir essa commoditificação dos nossos dados, seja para uso comercial e/ou político. Os nossos dados podem e devem estar à disposição daquilo que seja bem comum, do interesse coletivo e de toda sociedade não de grupos e empresas privadas.

Ainda assim, penso que é preciso explicar à sociedade o fenômeno que está diante de nós. O Estado que sempre serviu ao capitalismo, mas evitava alguns excessos está sendo abolido. Nesta fase, o capitalismo deixou de usar o mercado. O mercado e os oligopólios assumiram de forma quase total o controle da sociedade. Uma espécie de autocontrole do hipercapitalismo do presente. Não sei se interessa aos capitalistas, porque uma sociedade sem Estado está muito mais próxima de um outro regime pós-capitalista.

Por tudo isso, é preciso lutar contra o risco da barbárie. Conhecer mais a fundo esse fenômeno é o primeiro passo e exige muitas cabeças e braços. Mesmo que com limitações, é oportuno insistir em esforços contra hegemônicos que tentam usar e ocupar as próprias redes e plataformas digitais para exigir o que não se consegue na sociedade.

É necessário ainda lutar com toda a força para responsabilizar os donos das plataformas digitais gigantes (FB, Google, Amazon, Apple, Microosoft) e exigir o controle e a privacidade dos dados pela sociedade. Nossos dados não podem ser uma simples mercadoria, uma commodity. Eles são nossos e estão sendo confiscados.

Só a pressão da sociedade modifica esse processo. Só a Política pode mudar (ou não) o que está em curso com o gigantismo e a dominação que o setor tecnologia exerce através do processo de plataformização.

Referências e/ou notas:

[1] PESSANHA, Roberto Moraes. Commoditificação de dados, concentração econômica e controle político como elementos da autofagia do capitalismo de plataforma. Revista ComCiência do Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo da Unicamp e SBPC. Disponível em: http://www.comciencia.br/commoditificacao-de-dados-concentracao-economica-e-controle-politico-como-elementos-da-autofagia-do-capitalismo-de-plataforma/

[2] O termo Cloud Computing surgiu em 1997, em uma palestra de nível acadêmico ministrada pelo professor de sistemas de informação Ramnath Chellappa. Porém, alguns meses antes, em 1996, um plano de negócios elaborado por um grupo de tecnólogos da empresa Compaq também utilizou o termo ao discutir a evolução da computação. Já o conceito da tecnologia é associado a John Mccarthy, criador da programação LISP e pioneiro na tecnologia de Inteligência Artificial. Nos anos 60, ele discutiu a computação por tempo compartilhado, na qual o computador podia ser utilizado simultaneamente por dois ou mais usuários para realizar tarefas. O conceito foi chamado por ele de “Utility Computing”. Informação obtida em: https://skyone.solutions/pb/conheca-a-computacao-em-nuvem/

[3] Financial Times. FT Series. 19 junho de 2020. P.1-11. Coronavirus economic impact Prospering in the pandemic: the top 100 companies. https://www.ft.com/content/844ed28c-8074-4856-bde0-20f3bf4cd8f0

[4] Matéria de O Globo. 20 de Agosto de 2020 p. 33. Apple bate recorde e atinge valor de US$ 2 trilhões: fabricante de iPhone é a primeira empresa americana a alcançar esse patamar no mercado. Globo online em 19 agosto de 2020: https://oglobo.globo.com/economia/apple-bate-novo-recorde-atinge-us-2-trilhoes-em-valor-de-mercado-24594445

quinta-feira, setembro 24, 2020

O que pode estar por trás das concessões e descobertas nas bordas do Pré-sal na Bacia de Campos, por Francismar Cunha

O geógrafo, mestre e doutorando em Geografia pela Universidade Federal do Espírito Santo (UFES) e pesquisador sobre o setor de petróleo e suas repercussões sobre o território, levanta em suas recentes pesquisas, uma questão muito importante que diz respeito a interesses nacionais sobre a nossas reservas do Pré-sal.

As questões e hipóteses suscitadas podem indicar decisões e encaminhamentos que foram tomados pela Agência Nacional de Petróleo (ANP) e pela Petrobras que parecem refletir mais os interesses das petroleiras privadas que se tornaram as proprietárias, a partir da aquisição em leilão, das áreas das bordas do polígono do pré-sal, lembrando que esses limites das áreas são passíveis de questionamentos e segundo muitos geólogos que acompanharam toda os levantamentos e prospecções que redundaram na descoberta da maior fronteira petrolífera descoberta nas duas últimas décadas no mundo. 

Francismar afirma que essas "as novas´ descobertas no pré-sal fora do polígono do pré-sal (picanha azul) podem vir a ocorrer nos próximos anos e não serão realizadas mais pela Petrobras" e sim pelas petroleiras privadas internacionais (IOC- International Oil Corporations). Ou seja o Brasil está entregando o filé e ficaremos com o osso. Por tudo isso, vale conferir o artigo e os dois excelentes mapas para se compreender o que está em curso.


O pré-sal para além da picanha azul e o crescimento das petroleiras multinacionais no pré-sal

No último dia 23 de Setembro de 2020 a Petrobras divulgou em sua página, na seção de relações com investidores, a informação de que havia a presença de hidrocarbonetos em um poço pioneiro (poço 1-BRSA-1376D-RJS (Naru) do bloco C-M-657, em profundidade d’água de 2.892 metros, localizado no pré-sal da Bacia de Campos a aproximadamente 308 km da cidade do Rio de Janeiro. A perfuração do poço teve início um junho de 2020 por meio do navio-sonda West Tellus, da multinacional Seadrill.

A notícia rapidamente foi reproduzida pelos cadernos econômicos de jornais da mídia corporativa (O Globo, Valor, Money Times, dentre outros) carregada de otimismo para o mercado, especialmente o financeiro.

Entretanto, diante dos primeiros resultados obtidos no poço pioneiro pouco se questionou sobre sua posição geográfica na bacia de Campos. O boletim da Petrobras e os jornais corporativos que reproduziram a informação aponta apenas que foi uma descoberta no pré-sal a 308 km da cidade do Rio de Janeiro. Não se comenta que a descoberta é no pré-sal, mas fora do polígono do pré-sal estabelecido pela lei 12.351 de 12 de dezembro de 2010, a chamada picanha azul. Na realidade, o bloco é exatamente limítrofe ao polígono do pré-sal. O boletim da Petrobras até trás um mapa indicando a localização do bloco e do poço pioneiro, entretanto, o mesmo não tem legenda indicando o significado das diferentes cores que aparecem no mapa. Sendo assim, segue no mapa 01 a localização do bloco C-M-657 no entorno da picanha azul:


Mapa 01: Localização do bloco C-M-657 e seu entorno:



Conforme aponta o mapa 01, o bloco C-M-657 foi comercializado pela ANP, no leilão da 15° rodada de concessão realizada em março de 2018. Essa rodada, assim como a 16°, realizada em outubro de 2019, teve como característica a oferta de blocos limítrofes e contíguos ao polígono do pré-sal. Entretanto, outra coisa que chama a atenção e que caracteriza essas rodadas de leilões é o fato de que a grande maioria dos blocos foi adquirida exatamente por petroleiras multinacionais, conforme aponta o mapa 02.

Mapa 02: Campos de produção e blocos de exploração com suas concessionárias nas bacias de Campos e Santos*:

        *A primeira empresa que aparece na descrição de cada bloco corresponde à petroleira operadora.

Observando o mapa 02, nota-se que na 15° rodada de concessões, dos 12 blocos mapeados, a Petrobras tem participação em apenas quatro (C-M-657 e C-M-709 como operadora e C-M-753 e C-M-789 como membro do consórcio) os outros oito foram adquiridos por consórcios que contam unicamente com petroleiras multinacionais como Repsol, Chevron, ExxomMobil, Shell, QPI, etc. 

O mesmo processo se repete na 16° rodada, em que os 12 blocos apontados no mapa 02 no entorno do polígono do pré-sal a Petrobras participa como operadora apenas de um (C-M-447). Os demais 11 blocos foram adquiridos por consórcios formados novamente pelas grandes petroleiras multinacionais.

A participação das petroleiras multinacionais vem sendo crescente na indústria petrolífera brasileira, basicamente em função da alteração de marcos regulatórios e em função das medidas adotadas pelas últimas gestões da Petrobras que consiste no desmonte/privatização da companhia e na diminuição dos seus investimentos.

Quanto às alterações das regulamentações tem-se como exemplo a alteração da lei do regime de partilha em 2016. A lei 12.351 do regime de partilha foi criada em 2010. Ela, além de delimitar o polígono do pré-sal, estabelecia, dentre outras coisas, novas regras para leilões de blocos para as áreas do pré-sal no interior do polígono, como a exigência de que a Petrobras fosse à petroleira operadora dos contratos com uma participação de no mínimo 30% sobre as áreas licitadas. 

Em 2016, depois do golpe, o então senador José Serra propôs um projeto de lei, que posteriormente foi aprovado (lei nº 13.365, de 29 de Novembro de 2016) que retirou a cláusula de obrigatoriedade de participação da Petrobras no regime de partilha. Nesse sentido, as multinacionais passaram a ter maior acesso ao interior do polígono do pré-sal após 2016 (rodadas 03, 04, 05 e 06 de partilha) como demonstra o mapa 02.

Por outro lado, a diminuição da participação da Petrobras nos leilões, em especial na 15° e na 16º rodada, se justificam, dentre outras coisas, devido à queda dos investimentos da companhia. Por exemplo, em 2013 a companhia teve, segundo seus relatórios administrativos, um investimento de 104,4 bilhões de reais, em 2018 o investimento caiu para 49,37 bilhões de reais. Uma queda de 52,7% nos investimentos em cinco anos. Esse fator também se apresenta como sendo uma justificativa para a crescente participação das multinacionais.

Vale lembrar ainda que se soma e esses processos, as privatizações realizadas pelas últimas gestões da Petrobras. Dentre as várias vendas realizadas, pode-se citar como exemplo a venda da participação no BM-S-8 (rodada 02) no polígono pré-sal onde a Petrobras vendeu seus 66% no bloco para a Equinor.

O crescimento das multinacionais no circuito do petróleo é um processo que vem se expandindo no contexto das políticas neoliberais no Brasil e tem ultrapassado as atividades de produção e exploração. Entretanto, focando somente nas atividades de produção e exploração na presente ocasião, quando olhamos para as bacias de Campos e Santos, nota-se que as multinacionais têm buscado aumentar suas participações não somente no interior do polígono do pré-sal, na picanha azul, mas principalmente no seu entorno conforme demonstra os resultados dos últimos leilões da ANP (rodadas 15 e 16) conforme aponta o mapa 02. 

Esse entorno que começa a dar sinais concretos da possibilidade da existência de importantes reservas de petróleo com o poço pioneiro do bloco C-M-657 anunciado pela Petrobras. Vale ressaltar que a possibilidade de ocorrência de petróleo no pré-sal, para além dos limites do polígono do pré-sal já era apontada por geólogos como Marco Antônio Pinheiro Machado em seu célebre livro Pré-sal: A saga. Marco Antônio aponta que isso seria possível em função das características geológicas da plataforma continental e também em função da capacidade migratória do petróleo no interior das rochas.

Sendo assim, “novas” descobertas no pré-sal fora do polígono do pré-sal (picanha azul) podem vir a ocorrer nos próximos anos. Essas que serão não mais realizadas pela Petrobras, mas pelas multinacionais que estão passando a controlar cada vez mais as áreas exploratórias do Brasil, inclusive nas áreas do pré-sal para além do polígono. 

Além disso, é importante ressaltar que o próprio polígono vem perdendo sua importância que era de delimitar a área de regulamentação do regime de partilha, afinal, o regime foi alterado conforme demonstrado. Nesse sentido, pode-se concluir que o pré-sal pode está passando por uma importante transformação que consiste essencialmente no crescimento do setor privado sob o controle do mesmo.

domingo, setembro 20, 2020

Os maiores fluxos financeiros ilícitos passam pelos EUA e Reino Unido

Há quem fale em combater a corrupção e queira tratar apenas dos ilícitos que escolhe, na maioria dos casos guiados pelo discurso moralista e político, sem querer identificar a enorme teia financeira de negócios escusos que envolvem colossais fluxos de dinheiro entre os grandes bancos, as gestoras de fundos financeiros e as grandes corporações globais. 

Interessante ainda imaginar que algumas cabeças colonizadas ainda insistem em afirmar que a grande corrupção é um problema da periferia do capitalismo. Os fatos narrados servem para reforçar o equívoco da interpretação de que os problemas de corrupção são exclusivos do campo da política. Longe disso. Para saber alguns detalhes vale ler a matéria [aqui] da revista Piauí que é fruto do Consórcio Internacional de Jornalistas Investigativos. 

A reportagem diz que "documentos secretos do governo americano mostram como cinco bancos multinacionais ignoraram alertas e movimentaram dois trilhões de dólares de clientes investigados por crimes de todo tipo durante anos".

Os maiores fluxos financeiros vinculados a diversos tipos ilícitos, como lavagem de dinheiro, esquemas tipo Panamá Papers da Mossak Fonseca, pirâmide mundial do Mercado de Capitais, financiamento a golpes políticos, etc. passam pelos bancos. Como é o caso dos bancos americanos JPMorgan, o maior deles e o Bank of New York Mellon, os ingleses HSBC (o maior banco da Europa) e o Standard Chartered e ainda o alemão Deutsche Bank entre outros.

As investigações indicam que pelo banco americano JPMorgan passaram “mais de 2 milhões de dólares destinados à empresa de um jovem magnata acusado de enganar o governo venezuelano e ajudar a causar apagões elétricos em grandes áreas da Venezuela”. 

A reportagem fala de um volume de R$ 2 trilhões nesse tipo de movimentação de dinheiro ilícito, só na última década. O dinheiro lavado que é movimentado entre contas de empresas de fachada registradas em paraísos fiscais. Fluxos financeiros que circulam pelo Panamá, nas Ilhas Virgens Britânicas, Barbados e Luxemburgo.

É certo que o sistema informacional, as plataformas digitais dos esquemas entre fundos financeiros globais trazem facilidades para essa atuação transfronteiriça que possui pouquíssima regulação e controle dos Estados-nações, permitindo essa movimentação trilionária. E assim, o capitalismo tem se alimentado destes fluxos financeiros.

A matéria da Piauí [aqui] informa que segundo estimativas do “Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime 2,4 trilhões de dólares em fundos ilícitos são lavados a cada ano – o equivalente a quase 2,7% de todos os bens e serviços produzidos anualmente no mundo”.

Vale conferir. Mas também aprofundar e reinterpretar o que fica subliminar no texto.

sexta-feira, setembro 18, 2020

Commoditificação de dados, concentração econômica e controle político como elementos da autofagia do capitalismo de plataforma

O texto-ensaio com o título acima é fruto de um convite que recebi dos editores da revista ComCiência publicada pela SBPC e pelo Labjor (Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo) da Unicamp [aqui]. 

O convite para a publicação de um texto que compõe um dossiê da ComCiência sobre "Virtualização", se deu em função das abordagens que venho fazendo em textos, entrevistas e conferências virtuais, sobre o tema de minha pesquisa há quase dois anos, a respeito do "capitalismo de plataformas", em suas várias dimensões e escalas. 

O ensaio expressa uma síntese que se esforça para contribuir para a compreensão e debate, sobre o fenômeno da plataformização que produz significativas transformações no modo de produção capitalista no mundo contemporâneo.

Vivemos um gigantismo e uma quase onipresença do setor de tecnologia. A tecnologia deixou de ser apenas um fator de produção e hoje, passou a constituir, o maior oligopólio da história do capitalismo mundial, em que imperam as empresas, tipo plataformas-raiz, que são Big Techs. 

Sobre o signo de uma ideia difusa de progresso e de um fetiche que a tecnologia exerce sobre toda a sociedade, hoje se tem uma enorme concentração de capitais nessas Big Techs. Através do seu papel de plataformas de intermediação, elas exercem um controle e um poder confiscatório, sobre todos os demais setores da economia, nos variados cantos do planeta.

As plataformas digitais na condição de meio de circulação informacional e logístico, extraem valores e riqueza da produção e da distribuição para o consumo e assim ampliam a precarização sobre o trabalho com retirada de direitos sociais visando garantir maiores lucros e acumulação de capital no andar superior. É neste andar superior que o setor de tecnologia foi abraçado pela hegemonia financeira dos capitais de riscos e fundos e, assim, constituíram, esse novo oligopólio, quase que onipresente, sobre quase tudo que envolve a sociedade no mundo global na contemporaneidade.


Na dimensão da política e da geopolítica, os efeitos da plataformização, são ainda mais preocupantes, através da captura de dados - que se tornou a nova commodity e um propriedade dos donos dos dinheiros – ela vem transformando a política, a partir do aprendizado de máquina dos algoritmos. 

Trata-se de um processo em crescimento exponencial, porque na medida que se captura mais dados, armazenados em Big Datas, o aprendizado de máquina (Machine Learning) da Inteligência Artificial (IA) fica mais potente, tanto para uso comercial, quanto para uso das disputas de poder, no campo que se passou a chamar da tecnopolítica.

O resultado de tudo isso tem sido a guetificação, memificação e a perda da capacidade de interlocução da política, como forma de mediar os diferentes interesses na sociedade. Na prática, o meio que é a plataforma digital, por onde a informação trafega, se tornou um instrumento inverso à intermediação política. 

As plataformas digitais, das quais as redes sociais são parte, acabaram promovendo a antipolítica, a não mediação e a interdição do debate e das formas de construção de acordos e pactos em meios aos conflitos na sociedade, produzindo efeitos severos e graves, sobre a já muito combalida, democracia liberal ocidental.

Os algoritmos exploram as vulnerabilidades humanas, favorecem o individualismo e reforçam perigosamente a autoestima que é a origem da "egotização", na expressão do filósofo coreano Byung-Chul Han.

Assiste-se a uma enorme fragmentação das coisas, fruto da explosão de informações (entre as fake news), que tende à superficialização e atomização, ao abandono da ideia de conhecimento, ciência e racionalidade, trazendo mais desgastes para a ideia da construção e da ação política. 

Assim, em meio a algumas boas coisas que as plataformas digitais trazem para o convívio humano e em sociedade, com possibilidades de comunicação instantânea entre as pessoas, o possível acesso mais democratizado às informações, ao conhecimento, à cultura, essa ferramenta, acabou por nos conduzir a um processo paradoxal e imensamente preocupante. Há quem enxergue exagero ao listarmos os riscos e as preocupações. Porém, em decorrência dos bônus, da existência das redes sociais fomos impingido a conviver e enfrentar, um conjunto expressivo de ônus e sequelas que parecem colocar em risco o próprio processo civilizatório.

Até aqui todos os esforços de regulação têm sido inúteis. Os Estados se mostram impotentes para controlar esse processo, seja em termos obrigação de divisão das empresas e oligopólios, seja em termos de tributação, ou controle da sociedade no direito à privacidade que deveria proibir essa commoditificação dos nossos dados, seja para uso comercial e/ou político. 

O que se vê são as próprias empresas-plataformas propondo se autocontrolarem ou autoregularem, o que configura a dominância de um modelo de negócio do mercado, para o mercado e controlado pelo mercado. Nesta fase, o capitalismo deixa de usar o mercado e assume por completo - e de forma total - o controle da sociedade, passando por cima de um Estado ausente e/ou submisso. Uma espécie de autocontrole do hipercapitalismo do presente.

A ideia dos setores progressistas de ocupar espaços nas redes socais parece pouco eficiente, porque o controle de todo esse mecanismo está centralizado no mercado que tutela ainda o poder político e também o poder judiciário. Até por isso, a regulação das plataformas digitais - até o momento - não passa de quimeras e intenções.

Tenho dúvidas se neste modelo é possível viabilizar esforços contra hegemônicos que tentam usar e ocupar as próprias redes e plataformas digitais, para exigir o que não se consegue na sociedade.

Porém, penso que é preciso seguir a luta. Responsabilizar os donos das plataformas digitais gigantes (FB, Google, Amazon, Apple, Microosoft) e exigir o controle e a privacidade dos dados pela sociedade. E, se for o caso, até proibir, em nome da civilização, determinados usos dessas redes.

Só a pressão da sociedade modifica esse processo. Só a Política pode mudar (ou não) o que está em curso com o gigantismo e a dominação que o setor tecnologia exerce através do processo de plataformização.  

Assim, eu apresento este texto-ensaio que busca uma relação entre teoria, conceitos, categorias e alguns dados de pesquisas empíricas, sobre o desenvolvimento das plataformas digitais, na expectativa de que eles possam contribuir para uma melhor compreensão e transformação que esse fenômeno está impondo ao mundo contemporâneo.


Commoditificação de dados, concentração econômica e controle político como elementos da autofagia do capitalismo de plataforma


PS.: Atualização às 13:57 de 19/09/2020 para algumas correções e ajustes no texto.

quarta-feira, setembro 16, 2020

Mais um bate-papo sobre "capitalismo de plataformas" na TV 247

Hoje, (16 set. 2020), tivemos mais uma entrevista (bate-papo) na TV 247, com Leonardo Attuch, sobre o avanço da tecnologia como meio de produção, a sua influência na vida em sociedade com as redes sociais e sobre o controle que as plataformas digitais passaram a desempenhar sobre a política, a tecnopolítica.

Falamos sobre a guerra tecnológica, a disputa por hegemonia entre EUA x China e sobre o filme-documentário "O dilema das redes", paradoxalmente, disponibilizado pela plataforma de streaming, Netflix, uma das Big Techs que mais lucraram com a pandemia e seu CEO, disse que a mesma era "um golpe de sorte". 

As redes sociais hoje já são utilizadas por quase metade da população mundial, um universo de 3,5 bilhões de pessoas. Só o Facebook é utilizado por 2,7 bilhões de pessoas, o WhatsApp por 2 bilhões, num universo de 5,1 bilhões de usuários de telefones celulares.  

O diálogo e a crítica que fazemos ao autoritarismo da tecnopolítica, à concentração do gigantismo do oligopólio das empresas-plataformas (Big-Techs) e à captura de dados como nova commodity do capitalismo de plataformas, nos convoca a um debate mais amplo no campo da Economia Política e da questão civilizatória em que estamos envolvidos. 

Essas entrevistas (conversas) e os textos no blog e no portal 247 são contribuições para esse debate. Com esse objetivo disponibilizo abaixo o link da entrevista de hoje (16 set. 2020), as duas anteriores na TV 247 e ainda outras duas participações em seminários e redes de pesquisas: 


Entrevistas e conferências virtuais do autor sobre o tema:

1 - Entrevista à TV 247 em 26 de agosto de 2020. Roberto Moraes explica o poder das big techs na pandemia. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=Taz-OlVR0Q4&t=11s 

2- Entrevista à TV 247 em 29 de julho de 2020. Roberto Moraes explica a economia dos apps e das plataformas

3- Seminário Inovação na Política e no Espaço (INCT/RPP/IPPUR-COPPE-UFRJ e Faperj. Mesa
Redonda em 11 de agosto de 2020: Dominação no Território. Tema: Inovação, startups e financeirização como instrumentos e etapas do "capitalismo de plataformas" e do "plataformismo".
Link: https://www.youtube.com/watch?v=r0jfOHDbzuQ&t=9505s

4 - Webinar Webinar RedeSist IE/UFRJ em 20 de agosto de 2020: Capitalismo de plataforma e saúde: oportunidades para o território brasileiro. Link: Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=VCmJfD0MhDQ&feature=youtu.be

sexta-feira, setembro 11, 2020

Acordo amplo China-Irã altera a geopolítica

A China e o Irã fecharam um acordo bilateral amplo com duração prevista para 25 anos. É um acordo com bases de confiança e objetivos ousados que envolve os setores de energia, tecnologia, estratégia, desenvolvimento industrial, logística e defesa e que também parece apontar para uma triangulação com a Rússia. 

De certa forma, um pacto que emerge como consequência e reação à política dos EUA em relação a estes dois países e que deve chamar a atenção em termos de importância a nível da geopolítica global. 

Segundo informações do colunista Simon Watkins, do respeitado portal OilPrice.com [aqui], esse acordo China-Irã, deriva de articulações que vem desde o ano de 2016 e estreita relações, em especial em dois campos estratégicos no mundo contemporâneo: energia e tecnologia.

Essas articulações presentes no acordo vai além da questão do petróleo e avança para o tema que tenho me dedicado ultimamente sobre o capitalismo de plataformas, as big-techs, a tecnopolítica e suas relações geoeconômica e geopolíticas.

O assunto, de certa forma mistura a geopolítica da energia (petróleo) com a geopolítica da tecnologia e capitalismo de plataformas. Tudo misturado, mas que pode estar apontando para a entrada também da China (a Rússia já está) na disputa pelo controle do Oriente Médio.

Penso que o texto da coluna também pode também refletir apenas conjecturas para reforçar o discurso de Trump do tudo contra a China. De outro lado, pode também mostrar que a China sai de uma posição de defesa das seguidas sanções estadunidense para uma ofensiva pelo enfrentamento mais amplo. Há que se seguir observando.

Ainda assim, vale destacar que este pacto sino-iraniano, no campo da tecnologia, possui foco envolvendo a instalação de um hub com controle digital (também chamado de espionagem eletrônica) e com capacidade de guerra, em torno do porto iraniano de Chabahar, numa extensão de 5.000 quilômetros.

O acordo se estende desde a montagem de um colossal sistema espionagem com 15 milhões de câmeras de CCTV (circuito fechado de TV) em 21 cidades, com sistema de reconhecimento facial, redes de tecnologia 5G, tudo no Irã, até a vigilância algorítmica centralizada na China, onde serão armazenadas em Big Datas, a partir do uso de Inteligência Artificial (IA). 

Traçado da Nova Rota da Seda (One Belt - One Road0
O pacto envolve ainda negócios em instalações industriais no Irã, para atendimento a um demanda do mercado mundial, como a China já faz com sua produção. Se espalha também para infraestrutura de logística com eletrificação de ferrovia e interligação estratégica com o Cinturão da Nova Rota da Seda (One Belt - One Road), que reflete a expansão da presença chinesa nessa outra área do mundo, conforme planejamento para ampliação das conexões com outras regiões do mundo. 

Como se pode observar, o acordo trata de um mix destes dois setores estratégicos: o petróleo e a tecnologia. O Irã possui a 4ª maior reserva do mundo de petróleo – boa parte ainda inexplorada – e com exportações sob bloqueio estadunidense, enquanto a China é, atualmente, o maior importador global e com enorme capacidade de refino e produção petroquímica.

O setor de tecnologia ampliou sua importância nos últimos anos, quando passa a ser o mais importante fator de produção no comércio global, através da ampla utilização das plataformas digitais num processo que temos chamado de plataformização. As Big Techs americanas e chinesas foram as que mais cresceram em termos econômicos (valor de mercado – capitalização – receitas e lucros) neste último período, em especial após a pandemia. Hoje, representam os maiores oligopólios já existentes na economia global.

Além disso, a plataformização possui a dimensão geopolítica, onde está se dando boa parte da disputa estratégica em termos geopolíticos com a guerra tecnológica EUA x China: Apple x Huawei. Amazon x Alibaba. ByteDance (TikTok) x Google (Youtube). WeCHat x WhatsApp), etc.

Em síntese, esse acordo ligado a outros fatos sobre os movimentos globais e das superpotências, trazem evidências tanto sobre as relações econômicas, militares e políticas bilaterais entre os dois importantes países, no campo da energia e tecnologia, quanto nas repercussões geopolíticas que dele devem desdobrar.

Por tudo isso, se trata de um movimento a ser observado nas dimensões econômicas, das disputas tecnológica e militares, num mundo tenso e em conflito crescente.

segunda-feira, setembro 07, 2020

China retoma sua dinâmica econômica na frente de outros países, apesar das tensões com os EUA

A China aumentou em 9,5% suas exportações em agosto. O maior aumento em 18 meses, segundo a agência de notícias Reuters. Em julho, as exportações da China já tinham crescido 7,2%, um aumento em parte, como resultado da agilidade para atender à forte demanda por suprimentos médicos e eletrônicos mundo afora.

As exportações da China continuam a desafiar as expectativas e a crescer significativamente mais rápido do que o comércio global onde se vê a ampliação da participação chinesa.

Mesmo com a guerra comercial e a crise diplomática com os EUA, exportações da China para aquele país cresceram 20%, atingindo quase US $ 45 bilhões, apenas em agosto. Em agosto, o superávit comercial da China foi de US $ 58,9 bilhões, ante US $ 62,3 bilhões em julho.

A China parece cada vez mais a área industrial dos EUA que controla a moeda e tenta agora com a guerra tecnológica controlar as patentes e as marcas na disputa entre as plataformas digitais das duas nações.

Estes novos dados foram divulgados hoje pela autoridade alfandegária da China e é mais um sinal de que a economia da China continua seu recuperação na frente de outras nações no pós pandemia, apesar da escalada das tensões com os EUA.

terça-feira, setembro 01, 2020

China defende sua capacidade algorítmica e de IA na guerra tecnológica com os EUA

Valor, 31-08-2020.
A China enfrenta a guerra tecnológica defendendo a sua capacidade algorítmica e de Inteligência Artificial (IA) que já supera a dos EUA. 

A mesma superioridade se verifica no tecnologia de rede de internet 5G, em que a chinesa Huawei é hoje a mais avançada do mundo.

A disputa tecnológica envolve grupos de empresas similares dos dois países. Elas possuem as mesmas funções (produtos e/ou serviços) em que disputam o mercado mundial, com a vantagem da China ter, sozinha, um mercado quatro vezes maior do que o americano.

As disputas corporativas que detalham a guerra tecnológica entre EUA e China podem ser vistas nos casos: Amazon x Alibaba. Baidu-TikTok (ByteDance) x Youtube (Google). Apple-Oracle-AT&T x Huawei. Wechat (Tencent) x WhatsApp (FB), etc.

O avanço da China na apuração e treinamentos dos algoritmos aliados à Inteligência Artificial é bem superior ao atual estágio dos EUA e se trata da etapa mais estratégica dentre as quatro tipologias de uso das Plataformas Digitais.

Isso não quer dizer que os americanos não estejam mais na disputa, mas perderam a condição de praticamente monopolista neste campo, apesar de ainda sediar metade das empresas de tecnologia que mais ganharam valor de mercado neste semestre com a pandemia, conforme mostramos em artigo abaixo [aqui] sobre a lista Top 100 do Financial Times

O caso da TikTok é emblemático e vem no mesmo contexto em que Trump há poucos dias ameaçou proibir nos EUA a atuação da chinesa Alibaba. Hoje nos EUA, a Microsoft, Walmart, Oracle e fundos querem ficar com a TikTok que já reúne por lá mais de EUA 100 milhões de usuários mensais. 

O governo chinês (ministérios do comércio e da ciência e tecnologia) alegam que essa competência foi desenvolvida com apoio do Estado, logo os interesses da nação devem ser levados em conta e não podem ser exportados, apenas como um negócio comercial. 

As limitações impostas para os negócios com empresas de tecnologias de computação chinesas no exterior se referem ainda às áreas de processamento de texto, recomendação de conteúdo (publicidade e propaganda direcionada) que usa os algoritmos e IA (como é o caso da Google e FB), modelagem da fala, reconhecimento facial e de voz entre outros. 

A disputa pela hegemonia global passa pelo sistema digital e serviços de Inteligência Artificial no terreno do embate geopolítico, portanto indo além do caso comercial e do controle político e militar, onde a cibernética é questão-chave. 

Os EUA temem que a China faça o que eles fizeram, quando em 2013, se soube que a NSA (Agência de Segurança Nacional), usando o sistema PRISM, vasculharam dados de milhões de pessoas direto dos servidores das maiores empresas de tecnologia dos EUA (Big Techs) na ocasião: Microsoft, Google, Facebook, Apple, Youtube, Skype, Yahoo, AOL e PalTalk. 

É bom que se diga que a disputa da China com os EUA se dá dentro da lógica do sistema estatal capitalista que os americanos dominavam sozinhos até aqui. Hoje não mais. 

O assunto ainda vai render muito na medida em que a tecnologia é hoje o principal fator de produção e de intermediação dos negócios, em quase todos os setores da economia (frações do capital). 

Como setor, a tecnologia, ao usar as plataformas digitais (startups) e ter o forte suporte do circuito financeiro global - hegemônico no capitalismo contemporâneo - como mostra o valor de mercado (capital fictício destas corporações), amplia sua potência a um nível antes impensado, que chegam aos maiores oligopólios da história do capitalismo. 

É nesse campo e usando quase que as mesmas armas que a China enfrenta os EUA tendo a tecnologia como fator estratégico da disputa geopolítica que rompe com a unipolaridade.

sexta-feira, agosto 28, 2020

Moradores de Conceição do Mato Dentro (MG), além de atingidos são perseguidos pela Anglo American

Eu conheci os moradores de Conceição de Mato Dentro, MG, no encontro dos atingidos pelo sistema de mineração da Anglo American que se estende até o Porto do Açu no ERJ.

O sistema desenhado por Eike Batista e vendido à mineradora anglo-sul-africana é hoje operado em consórcio que possui uma mina em Conceição do Mato Dentro, uma unidade de extração e beneficiamento de minério, que sai daquela cidade e é enviado pelo mineroduto de 522 quilômetros até o Porto do Açu, onde, a polpa de minério é filtrada, secada e exportada.

O segundo encontro que reuniu atingidos pelo sistema Anglo American/Ferroport/Prumo, em Minas Gerais e no Açu, no ERJ, aconteceu há exatos sete anos, em agosto de 2013. [Aqui postagem do blog]. Depois estivemos novamente juntos, num seminário internacional de direito empresarial na Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), onde os problemas, as agressões e a resistência foram relatadas mais uma vez, em busca de apoio aos direitos dessas comunidades.

Durante todo esse tempo, as agressões cresceram,, assim como a pressão contra os moradores que resistem ao poderio da mineradora.

Por duas vezes o mineroduto apresentou vazamentos e atingiu rios e córregos. A extração de minério ficou interrompida mais de seis meses  Além disso, os moradores estão em alerta por conta da qualidade e proteção da barragem de rejeitos, temendo problemas similares ao do conhecido crime da Vale, em Brumadinho.

Neste meio tempo, os moradores e pequenos produtores rurais de Conceição de Mato Dentro seguem sofrem as consequências do empreendimento e da forma de atuação violenta da corporação Anglo American. Cortes seguidos de água, impedimento de acesso a vias que eram públicas, ruído intenso da unidade de beneficiamento, etc. Os moradores resistem e questionam em diversos fóruns.

A atual gestão estadual de Romeu Zema diariamente se afirma como inimigo dessas pessoas simples do interior mineiro e também destas comunidades. Junto com a sua equipe ele olha e defende apenas os interesses da corporação. Agora, além de tudo isso, a Anglo American se nega a conversar com os moradores e ainda processa aqueles que resistem em defesa de seus direito agredidos.

É tudo muito desigual e violento e muitas vezes com apoio da própria Justiça. Com frequência a Justiça requisita reforço policial para cumprimento da diligência, através de oficiais de Justiça. Além disso, ainda requisita auxílio de funcionários da própria empresa Anglo American, que é parte no processo, para garantir o cumprimento da diligência judicial. Um escárnio. Clique [aqui] e saiba mais detalhes sobre tudo isso no site "Barragens Alerta".

Foto do Brasil de Fato.
No próximo dia 1 de setembro de 2020 está prevista mais uma audiência conciliatória entre a Anglo American e pessoas da comunidade que se tornaram réus na ação judicial de caráter inibitório movida pela empresa.

Além das manifestações, os moradores organizaram também um abaixo assinado eletrônico no AVAAZ [aqui], através do qual buscam adesões à sua luta. Eles querem  "demonstrar repudio à atitude da empresa mineradora que tenta amordaçar os atingidos já massacrados".

quinta-feira, agosto 27, 2020

Evolução da população nos municípios da Bacia de Campos, por William Passos

O geógrafo e pesquisador William Passou publicou, no perfil do Observatório das Metropolizações no FB, uma análise sobre as estimativas da população para alguns municípios das regiões Norte, Baixada Litorânea e Metropolitana que compõe o circuito econômico do petróleo no ERJ, a partir da base de dados divulgadas, hoje, pelo IBGE. Vale conferir.


Bacia de Campos aproxima-se de 1,5 milhão de habitantes. Rio das Ostras, Casimiro de Abreu, Macaé e Búzios lideram crescimento na década (2010-2020)

As Estimativas da População 2020, divulgadas há pouco pelo IBGE e publicadas no Diário Oficial da União de hoje (27/08), confirmam a tendência de metropolização da Bacia de Campos, hipótese que venho desenvolvendo na minha pesquisa de Tese de Doutorado, que será defendida no IPPUR/UFRJ no primeiro semestre do ano que vem. Com o adiamento do Censo Demográfico, o IBGE atualizou a população do Brasil, dos estados e dos municípios em 2020 com base nas Estimativas de População, que são publicadas nos anos em que não há o maior recenseamento populacional do planeta.


De acordo com as Estimativas de População 2020, a Bacia de Campos, formada pelos municípios que abrangem os Arranjos Populacionais de Campos dos Goytacazes/RJ, Macaé-Rio das Ostras/RJ e Cabo Frio/RJ, atingiu a marca de 1.475.933 habitantes, tendo Campos dos Goytacazes (511.168), Macaé (261.501), Cabo Frio (230.378) e Rio das Ostras (155.193) como os municípios mais populosos. Juntos com São João Barra (36.423), os polos regionais e cidades-núcleos da metropolização da Bacia de Campos alcançaram o patamar de 1.194.663 moradores este ano.

Rio das Ostras (+46,86%), Casimiro de Abreu (+27,43%), Macaé (+26,50%) e Armação dos Búzios (+25,10%) foram os municípios que mais cresceram na década. Campos dos Goytacazes, que em 2010 possuía população de 463.731 habitantes, encostou em Niterói, reduzindo a diferença de 23.831 moradores, uma década atrás, para apenas 4.149 residentes em 2020, representando mais um elemento que confirma a Metropolização Incipiente da Bacia de Campos, que venho defendendo e comprovando. Caso a tendência se mantenha nos próximos anos, o maior município do interior deverá ultrapassar, em breve, a capital do antigo estado do Rio de Janeiro.

Calculadas com base no método matemático denominado AiBi, desenvolvido, em 1972, por João Lira Madeira e Celso Cardoso da Silva Simões, as Estimativas da População anuais do IBGE são a referência utilizada pelo Tribunal de Contas da União (TCU) para a distribuição do Fundo de Participação dos Estados e do Distrito Federal (FPE) e do Fundo de Participação dos Municípios (FPM).

Além dos municípios da Metropolização Incipiente da Bacia de Campos, a tabela a seguir apresenta ainda os dados de Maricá, Niterói e Saquarema, os três maiores municípios petrorrentistas (beneficiários de royalties e participações especiais do petróleo) fora da Bacia de Campos. Os dados foram tabulados pelo Observatório das Metropolizações, projeto de extensão vinculado à minha pesquisa de Doutorado desenvolvida no Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano e Regional da Universidade Federal do Rio de Janeiro (IPPUR/UFRJ), sob a orientação do professor Dr. Alberto de Oliveira.

Livro coletânea de entrevistas "Campos de Goytacazes: entre becos e saídas"

Há dois anos o professor Marcos Pedlowski da Uenf, me contactou e informou sobre um conjunto de entrevistas que estava fazendo para o seu blog (aqui), sobre a gestão no município de Campos dos Goytacazes, que se aproximava da metade do mandato e me solicitou que pudesse também participar.

A partir do link que ele enviou das entrevistas já feitas, eu respondi agradecendo e disse que aquilo que poderia falar, já estava muito melhor descrito, comentado e argumentado pelos colegas que já tinham sido ouvidos anteriormente. E que julgava que eu os repetiria e incomodaria seus leitores.

O professor Pedlowski insistiu, mesmo diante de minha recusa. Alegou que também a forma de abordar seria interessante. E, então Pedlowski sugeriu começar pelos assuntos de pesquisas que naquele momento me envolviam e que tinham relações com a região.

Assim, ele começou a entrevista sobre o circuito econômico e petrorrentista do petróleo e sobre as articulações que redundaram na implantação do Porto do Açu, suas relações globais com o setor de energia e com a pirâmide financeira que esteve presente na gênese da infraestrutura portuária. A seguir, o Pedlowski entrou na questão histórica e contemporânea do desenvolvimento e da gestão do município de Campos.

Ao final, eu tentei contribuir com o debate que ele estimulava, tratando de questões complementares ao que já havia sido abordado sobre Campos e a gestão pública do município, entre continuidades e descontinuidades do ciclo da cana-de-açúcar aos royalties do petróleo.

Para minha surpresa, quase dois anos depois, agora em junho de 2020, o professor me faz novo contato, indagando se autorizaria a publicação, sob a forma de livro da entrevista junto com as demais respostas de onze outros companheiros, professores e pesquisadores, que responderam questões similares.

Eu tive dúvidas sobre a perenidade daquelas opiniões/posições. Porém, logo após fazer uma releitura geral daquelas entrevistas, eu concordei que existia em seu conjunto, interpretações e análises que, a despeito do marco temporal, ainda pudessem ser lidas com algum proveito. O professor Pedlowski logo afirmou que se incumbiria, além da própria organização também de viabilizar a revisão, editoração, programação visual, etc.

Assim, a ideia, o esforço de organizar as entrevistas, viabilizar em 2018, a publicação das mesmas em seu blog e agora a compilação das mesmo, sob o formato de e-book é toda do Pedlowski e do pesquisador Fábio Py. Eu parabenizo pela iniciativa e viabilização da publicação

Junto com os demais entrevistados, eu agradeço a Pedlowski pela oportunidade de expor essas análises, na expectativa de que a publicação possa contribuir para o debate sobre o município como um todo e sobre a gestão pública em Campos dos Goytacazes de forma especial.

O livro "Campos de Goytacazes: entre becos e saídas" tem dois prefácios, de autoria dos professores Orávio de Campos e Deneval Siqueira de Azevedo Filho, além de um posfácio, do também professor, Aristides Soffiati. Além do autor dete blog, as entrevistas publicadas foram com: Ranulfo Vidigal, Dayane da Silva Santos Altoé, José Luís Vianna da Cruz, Júlio Cézar Pinheiro de Oliveira, Alcimar das Chagas Ribeiro, Hélio Gomes Filho, Luciane Soares da Silva, Viviane Ramiro da Silva, José Alves de Azevedo Neto, Carlos Abraão Moura Valpassos e Érica Terezinha de Almeida.

O livro está disponível para ser baixado (download) gratuitamente [aqui] no site do professor Pedlowski, ou [aqui] no site da Amazon (o gigante de e-commerce demolidor da economias locais).


PS.: Atualizado às 12:08 de 28/08/2020: Para ajustar e corrigir o texto.

quarta-feira, agosto 26, 2020

Entrevista à TV 247: "O gigantismo das corporações de tecnologia que ganham com a pandemia"

Depois de duas décadas de uma espécie de "utopia digital" (MOROZOV, 2018) e de uma crença difusa na ideia do progresso, a tecnologia vem se impondo com cada vez maior potência e extensão no capitalismo contemporâneo.

Agora, na pandemia se vê que a tecnologia, agradável para algumas funções humanas, também impõe colossais ameaças de maior desigualdade, relações ainda mais promíscuas com a financeirização (e o capital fictício) e de uma “ditadura digital”. 

Assim, temos visto a tecnologia servir, majoritariamente, para aumentar e concentrar os lucros, as desigualdades, desempregar e precarizar o trabalho (que resta) e ainda exercer, de maneira quase monopólica - e autoritária - as relações de poder, assassinando a democracia no campo da política, em meio às Fake News e os "gabinetes do ódio". 

A política tem como conter esse processo?
Por conta destas e outras questões, eu convido você para o bate-papo sobre o tema, hoje, 17 horas, na TV 247. Link abaixo:

https://www.youtube.com/watch?v=Taz-OlVR0Q4&feature=youtu.be

terça-feira, agosto 25, 2020

Hegemonia do setor de tecnologia na lista Top 100 do FT com a pandemia. Mercado Livre é única cia latina no jogo do capitalismo de plataformas

Financial Times, 19 jun. 2019
FT Series, p.5.
A empresa argentina Mercado Libre foi a única corporação da América Latina presente na lista dos Top 100 do Financial Times entre as companhias que prosperaram a partir da pandemia ficando em 37º lugar deste ranking. Com isso, a empresa-plataforma aumentou seu valor no mercado em US$ 18 bilhões de dólares.

Valor adicionado de mercado está mais vinculado às expectativas e investimentos de ações e investidores (mercado de capital, capital fictício) do que propriamente aos resultados reais em termos de receitas e lucros.

Essa lista do Top 100 do Financial Times (FT) está repleta (e em maioria) de empresas do setor de tecnologia vinculada à internet, ao varejo e/ou ao e-commerce. 

Elaboração: Roberto Pessanha, 2020. Arte: Maycon Aguiar.
As chamadas empresas-plataformas se transformam quase em regra. Isso vale desde as Big Techs que são as “plataformas-raiz” (Google, Amazon, Apple, Facebook e Microsoft), às companhias vinculadas aos aplicativos no processo que temos denominado como “Appficação”.

Muitos pensam que a Mercado Livre é uma empresa brasileira. Porém, a Mercado Libre, nasceu na Argentina, em agosto de 1999 e, apenas dois meses depois, ela foi montada no Brasil. Hoje, a Mercado Libre opera em 19 países, tem cerca de 4 mil funcionários e é o site de e-commerce mais popular da América Latina em número de visitantes.

Segundo dados divulgados pela própria empresa-plataforma, a mesma teria cerca de 170 milhões de usuários na América Latina. No balanço e resultados de 2019 da empresa, o volume total de pagamentos com Mercado Pago alcançou US$ 8,7 bilhões, um aumento ano a ano de 63,5% em dólar e 98,5% em moeda corrente. Ainda em 2019, a operação da companhia no Brasil representou 63,5% da receita líquida total.

Como já comentamos aqui em vários textos, esse processo da plataformização dos negócios atinge os vários setores da economia, um destes importantes setores é o e-commerce ligado ao varejo. 

As Plataformas Digitais (PDs) se transformaram em instrumento de intermediação entre o consumo e a produção. Para isso se realiza enorme captura de dados que são feitas pelos algoritmos para direcionar as propagandas e realizar as vendas que serão concluídas com a logística de entrega num esquema de taylorismo digital com controle de tempo e georeferenciamento do passos do entregador.

Do total das 20 companhias que mais tiveram aumento de valor de mercado no mundo, durante a pandemia, 17 delas (85%) eram, direta ou indiretamente, vinculadas ao setor de tecnologia e internet. Quase 70% delas têm suas sedes localizadas nos EUA, 25% na China e apenas uma na Europa e outra no Canadá. Assim, observa-se uma enorme centralização setorial e uma concentração em poucas e cada vez maiores companhias.


A relação entre a financeirização e a plataformização nos arrastam para nova etapa do capitalismo
Outro dado que tenho chamado a atenção é a profunda relação entre a financeirização, as Big Techs, as empresas de internet, e-commerce e o processo de plataformização. Isso se expande muito em direção à, já explosiva, onda das startups, quando boa parte da Inovação tecnológica passa a ser financiada por capitais de riscos (mercado de capitais e fundos financeiros) que assim atuam filtrando as boas ideias que poderão dar certo no mercado. Assim, os capitais de risco garantem o controle antecipado desta evolução.

Além do processo de plataformização, transformação das empresas das várias frações de negócios em plataformas digitais, eu tenho insistido que o fenômeno é ainda mais amplo e indica um movimento do capitalismo.

Aponta ainda para uma nova etapa do modo de produção (que denomino de” plataformismo”), vinculado à hegemonia financeira e às inovações tecnológicas (digital e informacional) do capitalismo contemporâneo.

Os resultados destes avanços tecnológicos não são repartidos. Ao contrário, como temos visto, estão cada vez centralizados e concentrados espacialmente em algumas regiões do mundo o que aprofunda as desigualdades econômicas e regionais/nacionais.

Assim, não se trata apenas do prazer de assistir um filme, ouvir uma música e adquirir um produto para ser entregue em sua porta, ou ainda conversar com as pessoas amigas num aplicativo pelo celular, se junto disso se tem o aumento das desigualdades, a ampliação da captura de renda do trabalho, sua precarização sem precedentes e o controle sobre seu trabalho e até a captura do seu tempo de não trabalho (lazer).

Desta forma, a digitalização da vida social tem na prática aumentado as desigualdades e permitido não apenas vendas de produtos e serviços pelo comércio eletrônico, mas produzido colossais fluxos imateriais de capital, em direção aos donos dos dinheiros, ampliando e radicalizando o regime de acumulação e lucros que precisa e deve ser contido pela política.

O que precisa ser contido é que o conhecimento que não pode continuar a ser apropriado como a nova propriedade do mundo digital. As nações centrais, no fundo, estão evitando regular o setor de tecnologia (legislação), que hoje, possuem o maior oligopólio da história do capitalismo mundial, acima da centralização que tiveram os setores de petróleo, ou o de siderurgia ou de automóveis.

Não é difícil explicar as razões disso para permitir estes carteis tecnológicos. Há ganhos geopolíticos com o uso destas gigantes do setor de tecnologia, para além dos econômicos através do uso do “vampirismo digital”.

A utilização destas plataformas têm permitido que as nações do capitalismo central utilizem as armas tecnopolíticas para manter do colonialismo que na prática atua hoje como um “neoimperialismo digital”. Insisto só a política pode conter esse processo que esgarça o sistema. Com diz, o professor Dowbor, a saída é o uso coletivo desta riqueza multiplicável na direção do pós-capitalismo.

segunda-feira, agosto 24, 2020

Parcela de agosto dos royalties vem na média em 30% a 40% superior ao mês de julho

Amanhã será depositado na conta da União, estados e municípios, a quota de agosto dos royalties do petróleo. Pelos dados da ANP com tabulação do superintendente de Petróleo da Prefeitura de São João da Barra, Wellington Abreu, as variações de valores em relação à quota anterior, paga em julho de 2020, indicam um acréscimo que varia entre 26% e 42% acima daqueles depositados no mês anterior.

Essa receita alivia o caixa de algumas prefeituras petrorrentistas, mas nem todas, já que elas se encontram em situações distintas. Abaixo o quadro que mostra os valores das quotas mensais entre julho de de 2019 e agosto de 2020. Clique na imagem para ver a tabela em tamanho maior.
















Esses valores de agosto são próximos àqueles depositados em janeiro deste ano, antes da pandemia e da redução da produção no caso da Bacia de Campos, embora com variações entre eles, por conta da localização dos campos de petróleo que geram a receita. Esse aumento médio entre 30% e 40% se deve ao preço do barril de petróleo ter sofrido ligeiro aumento e ainda por conta do alto do valor do dólar.

Como já vem ocorrendo há cerca de dois anos, o maior valor será para o município de Maricá que receberá R$ 63 milhões, depois vem Macaé com R$ 46 milhões; Niterói e Saquarema com R$ 39 milhões e Campos dos Goytacazes com R$ 24 milhões. Veja na tabela acima a receita de vinte um municípios petrorrentistas do ERJ e alguns do estado de São Paulo.

PS.: Atualizado às 21:36: para corrigir textos truncados e ajustar redação.
PS: Atualizado às 21:50: para alguns breves acréscimos.

quinta-feira, agosto 20, 2020

Vampirismo digital e agora consentido, autorizado e pago pela Petrobras à Microsoft

As 5 Big Techs americanas (Microsoft, Google, Apple, Facebook e Amazon) cada vez capturam mais dados na condição de "plataformas-raiz" do mundo digital ao oferecer diversos serviços no mundo cada vez mais digitalizado, do capitalismo de plataformas. 

Nessa ótica vale observar aqui a matéria da Bloomberg replicada e traduzida pelo Valor Online: "Parceria com Petrobras alavanca Microsoft no setor petrolífero". 

A reportagem fala sobre a contratação que a estatal fez para uso e armazenagem de seus dados nas nuvens (clouds), da Microsoft, uma destas Big Techs, americanas, que atuam como "plataforma-raiz" para controle de dados nas redes digitais. 

Dessa forma, é possível que dados estratégicos da estatal "sobre as atividades de perfuração costeira da Petrobras", que agora estão guardados em nuvens da megaempresa americana Microsoft, para serem usados em trabalhos pelos funcionários da petroleira brasileira, possam estar desprotegidos dos enormes interesses que se tem no mundo de informações da Petrobras. 

No mínimo se tem enorme desconfiança de transferência deste controle dos seus para uma empresa americana, de forma consentida e autorizada. A Petrobras é uma das maiores petroleiras do mundo. E responsável por seis das dez maiores descobertas de campos de petróleo no mundo, na última década, e tem hoje, uma das maiores fronteiras de exploração a nível global que é a reservas do Pré-sal.

Que controle teria a estatal sobre a segurança dos seus dados. Há até hoje fortes desconfianças de que o FBI, a NSA e petroleiras americanas possam ter tido a acessos a informações sobre os sucessos e estratégias exploratórias da Petrobras que o Edward Snowden divulgou para todo o mundo e os EUA nunca negou.

Vale ainda recordar que entre janeiro e fevereiro de 2008, já na época das prospecções do pré-sal no litoral brasileiro, 4 notebooks e dois pentes de memória com dados sobre perfuração foram furtados da Petrobras no transporte entre Macaé e Rio de Janeiro.
 
Na ocasião, "a Polícia Federal de Macaé informou que os funcionários da Halliburton - empresa que presta serviços à Petrobras e que seria responsável pelo transporte dos equipamentos tinham percebido que o cadeado que protegia os notebooks e os discos rígidos haviam sido substituídos". (Veja aqui matéria do G1) 

O inquérito que apura o caso foi aberto e até hoje nada foi descoberto. A para-petroleira americana Halliburton informou que teria contratado com funcionários da Transmagno para o transporte dos equipamentos e que a carga provavelmente não foi transportada em um contêiner de grande porte (12 metros), mas sim em um de menor porte, com 3 metros".

Hoje, não seria necessário nem a atuação da NSA e nem ladrões de notebooks em carros de transporte. O acesso aos dados foram autorizados pela direção da própria estatal tendo total confiança na Big Tech. 

Vale ainda recordar que em 2013, o conhecido fato de que o Estado americano através a NSA (utilizando o software PRISM), realizou explosiva coleta de dados de usuários de todo o mundo, incluindo o Brasil (a Petrobras) e presidentes de países, diretamente das plataformas destas companhias dos EUA, como a: Microsoft, Google, Facebook, Apple, entre outras.

Hoje, o nível de irresponsabilidade, submissão e entrega de tudo que foi construído no país aos EUA, reforça a interpretação sobre o colonialismo consentido, o grau de submissão e entrega de tudo que é de interesse da nação de forma desavergonhada e vil, como crime de lesa-pátria.

domingo, agosto 16, 2020

Proibição do Alibaba é mais uma etapa da guerra das plataformas digitais EUA x China e expõe a dimensão geopolítica do “Plataformismo”

Era previsível que a guerra comercial EUA x China chegasse às Big Techs estadunidense versus as chinesas, as únicas corporações de tecnologia no mundo com capacidade de realizar este enfrentamento.

O anúncio ontem, de Trump, de estar próximo de proibir as atividades da plataforma digital chinesa Alibaba nos EUA, concorrente direta e mais eficiente do que a estadudinense Amazon, é mais uma etapa da “guerra das plataformas digitais” no capitalismo contemporâneo.

A decisão que está sendo gestada pela Casa Branca é o desdobramento da disputa que começou com o banimento da corporação chinesa Huawei, no território dos EUA e dos países aliados dos EUA em toda a parte do mundo. A gigante chinesa Huawei é a corporação mais avançada no mundo em termos de tecnologias da rede de internet 5G.

Estas mesmas decisões contra a Huawei e agora a Alibaba se deram, nas últimas semanas, com relação aos aplicativos chineses concorrentes do Facebook, Youtube e WhatsApp, TikTok da ByteDance e WeChat da companhia chinesa Tencent.

As plataformas digitais são instrumentos (ferramentas) desse fenômeno, criado a partir das “Gigantes do setor de tecnologia” - Big Techs (MOROZOV, E.,2018). As Big Techs são as "plataformas-raiz" da appficação que a ela se vincula, a partir das lojas de aplicativos destas grandes corporações: Apple Store, Play Store da Google e Huawei Store.

Enquanto isso, é necessário compreender o que passei a chamar de “plataformização” que se trata de um novo e potente regime de acumulação capitalista que avança (e também convive de forma simultânea) com o Fordismo e o Toyotismo, mas em nova etapa do Modo de Produção Capitalista (MPC).

Como já dissemos em alguns textos anteriores (ver nas referências abaixo) e em entrevista (aqui) à TV 247, a hiper-concentração e oligopolização do setor de tecnologia nos EUA, em especial através das cinco maiores, Google, Apple, Facebook, Amazon e Amazon, levaria, em algum momento, a que o Estado estadudinense viesse agir contra seus maiores concorrentes instalados na China. 

Como se sabe, a ideia da concorrência é um dos paradoxos do capitalismo, onde, a busca do monopólio, passando pelos oligopólios, está sempre presente e com a atuação geopolítica do Estado-sede destas corporações gigantes.

Só a Apple, sozinha, tem valor de mercado (capital fictício) superior ao PIB do Brasil. Juntos possuem valor de mercado superior a US$ 5 trilhões, ou quatro vezes todo o PIB brasileiro. O porte do oligopólio atual do setor de tecnologia dos EUA, não encontra nenhum paralelo com a de nenhum outro setor econômico na história dos EUA. Mesmo no caso dos tradicionais e conhecidos oligopólios do setor petróleo, o siderúrgico, ou o automobilístico.

No meio da década passada, a Europa reagiu com relação a esse gigantismo e o que elas promovem em termos de "vampirismo digital". Porém, não conseguiu avançar muito sobre esses limites, para além de um breve aumento da tributação sobre os bilionários lucros das Big Techs dos EUA. A força dos grandes escritórios de advocacia, os lobies e mesmo a pressão e ameaças do governo americano impediu que uma legislação mais potente pudesse agir em favor das nações europeias.

A Comunidade Europeia questiona também o fato destas Big Techs dos EUA instalarem suas sedes no continente em novos paraísos fiscais. Assim, buscam através da guerra fiscal e tributária entre nações, alguns países onde pagam baixíssimos impostos para operar, como no caso a Irlanda e Holanda, que ocupam um lugar que antes foi da Suíça.

Assim, se pode observar o fato que a dimensão geopolítica da “guerra das plataformas digitais” se traduz na a essência da guerra comercial atual entre EUA e China, num mundo de amplas e crescentes trocas no comércio global, intermediados por estas infraestruturas digitais.

Os questionamentos público dos EUA, versam sobre a captura de dados (Capitalismo de Vigilância, ZUBOFF, 2015). Os EUA levantam o risco de que a China, na prática, faça o mesmo que o Estado americano fez em 2013. Na ocasião, a NSA (e o software PRISM), realizou explosiva coleta de dados de usuários de todo o mundo (incluindo o Brasil (Petrobras) e presidentes de países, diretamente das plataformas destas companhias dos EUA, como a: Microsoft, Google, Facebook, Apple, entre outras.


Guerra das plataformas digitais se situa no novo Modo de Produção Capitalista, o Plataformismo e se vincula à geopolítica e à disputa por hegemonia

Essa captura de dados é a base do que passei a chamar de “plataformismo” como novo modo de produção do capitalismo contemporâneo. A vigilância e a captura de dados é parte do "capitalismo de plataformas". 

As plataformas digitais (em especial as redes socais) atuam como uma espécie de usina extratora de dados. Junto das pessoas e em suas interações sociais que as se faz a captura de dados através das plataformas das redes sociais. É ali que a plataforma conhece em detalhes (com uso dos algoritmos treinados, Big Data - BD e Inteligência Artificial - IA) as pessoas e os seus desejos mais íntimos. Este fato tem extraordinário potencial comercial, mas também político.

Hoje, se pode dizer que os algoritmos, armazenados no BD e operados com a IA, conhecem cada um de nós, mais que nós mesmos, que vivemos em meio a uma explosão de dados da sociedade contemporânea e nossas subjetividades e memórias, perdidas, em meio aos nossos instintos e desejos de nossos confusos aparelhos psíquicos e mentais. Um verdadeiro pan-óptico digital desta nova era (HAN, 2018)

Desta forma, as plataformas digitais direcionam a publicidade para a demanda potencial, as vendas e puxa a produção, numa lógica de radicalização do “just-in-time” da acumulação flexível, trazida com a inovação do Toyotismo, mas só agora realizada, de ponta a ponta e a nível global, mesmo que inicialmente de forma mais potente em alguns setores econômicos.

O "Plataformismo" não substitui o Fordismo, mas convive com ele. Ele sobrevive, por exemplo, no esquema de logística de entregas do Ifood, de transportes da Uber e da gigante predadora, a Amazon, quando os esquemas de geolocalização controlam, numa espécie de “taylorismo digital”, o caminho do produto desde a fábrica, passando pelo seus enormes galpões de distribuição (hubs), até chegar ao consumidor final, que adquiriu o produto, através do e-commerce.

É uma massificação, uma concentração e ao mesmo tempo uma precarização sem igual com enorme captura da renda na dimensão do trabalho. Um exemplo sobre essa realidade pode ser vista no extraordinário filme do Ken Loach, "Você não estava aqui".

Assim, a dimensão geoeconômica e geopolítica das plataformas digitais se evidenciam como parte desta disputa, que não é algo apenas comercial e de mercado, e sim, um interesse de Estado e, portanto, no plano da geopolítica que coloca frente a frente a China e os EUA numa disputa global.

Não é por outro motivo que os órgãos de antitrustes dos EUA, o Departamento de Justiça e Congresso estadudinenses, levantam alguns questionamentos, ameaçam, mas na prática até agora nada fazem contra o gigantismo das Big Techs. Ao contrário do que estes órgãos atuaram antes, em casos de concentração de mercado e oligopólios, bem menores que este atual do setor de tecnologia.

Além disso, o Departamento de Justiça e o Congresso dos EUA sabem exatamente o que estas plataformas-raiz destas gigantes do setor de tecnologia, lhe conferem, em termos de operação, através da "tecnopolítica" (DA EMPOLI, 2019), no esquema da guerra híbrida e de controle geopolítico sobre outras nações.

Os golpes políticos via guerra híbrida, mesmo com diferenças de atuação, conforme os contextos nacionais, na América Latina são exemplos do poder da tecnopolítica e da atuação das Big Techs, a favor da geopolítica dos EUA. Em última instância, temos os algoritmos alimentando o “neoimperialismo digital” que desta forma vem assassinando a frágil democracia liberal do Ocidente. 


Referências:
[1] DA EMPOLI, Giuliano. Os Engenheiros do caos. Vestígio. São Paulo. 2019.

[2] HAN, Byung-Chul. Psicopolítica - O neoliberalismo e as novas técnicas de poder. Âyiné. Belo Horizonte. 2018.
[3] MOROZOV, Evgeny. Big Tech: A ascensão dos dados e a morte da política. 2018.

[4] ZUBOFF, Soshana. The age of Surveillance Capitalism. PublicAffairs. Nova York. 2018.

[5] Artigo do autor no 247 em 4 de agosto de 2020. Mais elementos para explicar o poder das gigantes da tecnologia no capitalismo de plataformas. Disponível em: https://www.brasil247.com/blog/mais-elementos-para-explicar-o-poder-das-gigantes-da-tecnologia-no-capitalismo-de-plataformas

[6] Artigo do autor no 247 em 31 de julho de 2020. A tecnopolítica como dimensão do capitalismo de plataformas assassina a democracia liberal. Disponível em: https://www.brasil247.com/blog/a-tecnopolitica-como-dimensao-do-capitalismo-de-plataformas-assassina-a-democracia-liberal

[7] Artigo do autor no 247 em 28 de julho de 2020. Por que EUA limitariam suas Big Techs se elas controlam as veias digitais que ainda lhe dão hegemonia geopolítica? Disponível em: https://www.brasil247.com/blog/por-que-eua-limitariam-suas-big-techs-se-elas-controlam-as-veias-digitais-que-ainda-lhe-dao-hegemonia-geopolitica

[8] Artigo do autor no 247 em 26 de julho de 2020. Musk da Tesla expõe a relação dos financistas e das corporações com a geopolítica dos EUA. Disponível em: https://www.brasil247.com/blog/musk-da-tesla-expoe-a-relacao-dos-financistas-e-das-corporacoes-com-a-geopolitica-dos-eua

[9] Artigo do autor no 247 em 13 de julho de 2020. Por que o capitalismo contemporâneo não consegue mais criar trabalho? Outro mundo é possível! Disponível em: https://www.brasil247.com/blog/por-que-o-capitalismo-contemporaneo-nao-consegue-mais-criar-trabalho-outro-mundo-e-possivel

[10] Artigo do autor no 247 em 3 de julho de 2020. Capitalismo de plataformas e Appficação no Brasil e no mundo expõem a superexploração do trabalho. Disponível em: https://www.brasil247.com/blog/capitalismo-de-plataformas-e-appficacao-no-brasil-e-no-mundo-expoem-a-superexploracao-do-trabalho-98c5i9fk

[11] Entrevista à TV 247 em 29 de julho de 2020. Roberto Moraes explica a economia dos apps e das plataformas. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=ScCkyeErIn8

sábado, agosto 15, 2020

O (des) governo BolsoMilitar mostra que o campo de disputa política no Brasil é o popular

Os resultados da pesquisas do Datafolha trouxeram embutidas algumas importantes questões. A professora Roseli Coelho em seu perfil no Facebook (veja aqui) pontuou algumas delas resgatando as ideias do professor Wanderley Guilherme dos Santos.

Se o (des)governo BolsoMilitar trai as suas bases ultraliberais e se desloca para atender a maioria de baixa renda, mesmo que com objetivos eleitoreiros (que é diferente de popular ou mesmo populista), isso reforça a tese de que o campo de disputa política com a esquerda se dá no campo popular.

O fato não pode e não deve fazer a esquerda (e centro-esquerda) sair do espaço e das bases onde atua, em favor da maioria.

O inverso. É aí que deve reforçar a disputa com coerência, sem preconceitos e com uma compreensão mais ampla da realidade, para transformá-la.

As classes de mais baixa renda estão, ainda mais do que de costume, se virando para sobreviver na Pandemia, diante dos riscos antigos e novos. E isso é quase revolucionário. A luta em favor da maioria parte daí.