quinta-feira, agosto 16, 2018

Alemã Siemens enxerga "o pré-sal como uma riqueza e uma janela de negócios”, fala em “reindustrialização do ERJ - capital da transição energética do Brasil" por conta da disponibilidade energia que inclui gás e eletricidade

Aqueles que frequentam este o blog sabem que por conta dos interesses e pesquisa do autor, ele acompanha os movimentos das corporações e dos capitais dos fundos financeiros sobre os setores de petróleo, energia e infraestrutura e indústria de apoio offshore e naval.

Nesta linha o blog vem reafirmado que as reservas do pré-sal potencializam uma nova fase de expansão do setor que mobilizam as players petroleiras e para-petroleiras que prestam serviços e apoio ao setor.

Desta forma, o blog descreve abaixo, destaca e comenta baixo trechos da entrevista do CEO da empresa alemã Siemens no Brasil, André Clark, concedeu hoje ao portal PetroNotícias.

As estratégias e objetivos expostos pela Siemens são demonstrações do que venho afirmando sobre o grande interesse de capitais e corporações que atuam no segmentos de energia, diante das oportunidades geradas pelo Brasil, a partir do pré-sal que inclui o gás-natural como energia de transição entre o petróleo e a eletrificação.

A alemã Siemens está há mais de um século no Brasil, onde atua em diversos setores - hoje com 5,5 trabalhadores - que atuam nas áreas de equipamentos de saúde, digitalização e infraestrutura onde a corporação ganha destaque na área de óleo e gás, se apresentando assim, como a "maior empresa de tecnologia integrada do Brasil".

No setor de energia, óleo e gás, a Siemens possui uma fábrica em Santa Bárbara (SP), uma unidade no bairro de Santa Cruz, Rio de Janeiro, onde produz e monta alguns equipamentos como turbinas, compressores e outros equipamentos offshore e também serve de bases para serviços preparação de montagens e manutenções da empresa.

Para viabilizar mais espaços para sua atuação no Brasil como uso de suas tecnologias e equipamentos, a Siemens decidiu, ainda em 2014, participar - com um terço do negócio - da empresa Gás Natural do Açu junto com a Prumo com a instalação de duas termelétricas no Porto do Açu. O negócio visou garantir o fornecimento das turbinas para as duas termelétricas. Segundo a Siemens o investimento será da ordem de 80 milhões de euros em cada térmica.

O presidente da Siemens no Brasil, André Clarck diz estar muito otimista com as atividades de exploração offshore no Brasil e revelou “o desejo de ampliar a capacidade industrial da companhia neste setor, ganhar projetos para com o Repetro produzir e montar uma parte grande de equipamentos no Brasil, e assim reativar e, eventualmente, até ampliar a capacidade industrial já existente”.

A Siemens tenta se colocar no mercado de tecnologia, equipamentos e sistemas concorrendo com a americana GE, oferecendo soluções para a exploração do pré-sal que envolve tecnologias. Uma inovação é a que incorpora o CO2, presença característica nos campos de petróleo e gás natural do pré-sal. Com uma tecnologia que diz ser eficiente e batizada como Echogen, a empresa informar que pode utilizar o CO2 aquecido na turbina quando e frio para ser reinjetado nos poços.

A matéria diz ainda que o CEO global da Siemens, o alemão, Joe Kaeser, afirmou, em recente visita a São Paulo, que a empresa pretende desembolsar 1 bilhão de euros nos próximos cinco anos no Brasil. “Se conseguimos acelerar mais, faremos o investimento em menor espaço de tempo". 

O executivo ressaltou a importância do petróleo no curto prazo. “Aparentemente, existe uma janela importante de uso dessas reservas. Ninguém sabe exatamente como irá se comportar os preços do barril. A janela do petróleo no Brasil deve ser aproveitada o quanto antes, porque é uma riqueza".

Porém, a Siemens, através do seu presidente no Brasil, André Clarck, faz um discurso direto para o ERJ. "O Rio seria a capital da transição energética do Brasil, porque grande parte dos reguladores e pensadores da comunidade da energia elétrica está na cidade. Quando olhamos para o óleo e gás, é a mesma coisa. Os reguladores, os think tanks e a Petrobrás estão aqui." 

Sobre o avanço da transição entre o óleo, gás e a eletricidade, Clarck diz: "Há três anos atrás, o mundo do petróleo quase não falava com o setor elétrico. Era raríssimo. E esses mundos estão se encontrando de uma forma muito relevante. A começar pelos investimentos que estão acontecendo agoraQuase todos os players que entraram no pré-sal têm ambições de utilities. Querem jogar o jogo da energia elétrica ou na conformação dessas duas coisas. Globalmente, os players como a Shell e a Total já se posicionam como provedores de energia, na forma que for. Isso virá para o Brasil. A própria Petrobrás começa a discutir sobre a transição energética”. 

A matéria do PetroNotícias diz ainda: " a Siemens trabalha com a hipótese de que essa transição possa gerar um impulso de crescimento no Brasil bastante interessante. No radar, estão duas “ondas”: a primeira seria o Repetro, que dará novo impulso à construção de equipamentos onshore e offshore. A onda número 2 é a disponibilidade de grande quantidade de fontes (eólica, solar, gás, biomassa, biogás). “Talvez, vejamos uma reindustrialização da região por conta desta disponibilidade energia. No longo prazo, é bastante alvissareiro. É para ser otimista”.

É evidente que a entrevista dá margem para a empresa fazer marketing e propor cenários interessantes que facilitem sua abordagem junto a outras empresa e articulações junto ao poder político (Estado). Porém, ela também permite fisgar um pouco das razões pelas quais a empresa pauta suas estratégias.

Assim, se vê que a Siemens fala em transição energética, mas está de olho nas oportunidades geradas a partir do pré-sal brasileiro visto como grande janela de negócios e oportunidades. O quadro como um todo serve para reforçar a interpretação sobre o potencial que o Brasil tem com suas reservas e com o advento de um novo ciclo petro-econômico.

As oportunidades podem estar sendo entregues para gerar lucros para as grandes corporações e o mercado e pouca serventia à nação, embora se saiba que a própria Petrobras sempre se valeu muito de tecnologias e equipamentos de empresas que chamo de várias para-petroleiras, que são aquelas que vivem de fornecer serviços, equipamentos e tecnologias para o setor de petróleo e gás.

sexta-feira, agosto 10, 2018

Em que a crise da moeda da Turquia se relaciona com a aproximação da China com a Rússia?

As manobras de Trump que estão ajudando a derrubar hoje, a moeda da Turquia, impactada com o tarifaço americano contra seu aço e o alumínio, empurram para o outro lado, mais um antigo aliado americano na região do Oriente Médio.

O caso não parece isolado das consequência da guerra comercial dos EUA contra a China que vem colocando em xeque o acordo de convivência firmado entre ambos na década de 70.

Por conta da guerra comercial a China como maior importador mundial de petróleo, praticamente zerou a compra de petróleo e gás dos EUA, ampliando e tornando agora a Rússia como o seu principal fornecedor.

Para além da aproximação comercial a China e a Rússia ampliaram outras conversações e até os exercícios militares conjuntos, assim como os negócios com armamentos.

No Oriente Médio, os EUA hoje está ficando cada vez mais dependente da Arábia Saudita, que nesta última semana mostrou no Iêmen, com o bombardeio contra dezenas de crianças, para que servem os bilhões de importações de armas americanas.

Ainda no Oriente Médio, a Rússia está hoje, mais que nunca com um pé na Síria junto com o Irã que está sendo retaliado pelos EUA.

Diante deste quadro, a sensação que se tem é que os blocos de poder mundial estão se formando em duas frentes, para uma disputa por hegemonia.

Esta disputa parecia prevista para mais adiante, mas os líderes e as circunstâncias podem ter antecipado e levado a situações que estariam para além dos blefes e pressões, conhecidos no tabuleiro das disputas geopolíticas.

Na semana passada, em entrevista ao Financial Times, o nonagenário Heny Kissinger disse que “o mundo vive um período muito grave”, isso sendo econômico nas palavras para evitar constrangimentos com os líderes mundiais com quem conversa sistematicamente.

Consta inclusive que em sua última conversa com Trump teria aconselhado a que os EUA evitassem mais movimentos que levassem à reaproximação entre a China e a Rússia. Porém, a confusão deste com a mídia americana com a questão da possível influência russa nas eleições dos EUA não tem permitido nada nesta linha.

No meio de tudo isso o ocidente vive o Brexit, Trump e os embates e desgastes internos de suas democracias, colocadas em xeque e com dificuldades para formar maioria na Alemanha, Espanha e Itália.

A Ásia através, especialmente da China, opera projetos de maior integração com a Europa (Rota da Seda) neste exato momento em que se encontra dividida pelo lado do Atlântico em relação aos EUA.

Enfim, um quadro indigesto, tenso e talvez indesejado, mas possivelmente, não para todas as partes envolvidas.

14 anos de blog!

Decorrido mais um ano, em nada eu altero em relação ao que escrevi no ano passado, quando o blog completou 13 anos, ininterruptos no ar.

Desde o dia 10 de agosto de 2004 até hoje, passamos por fases diversas de um ciclo político e econômico no país. Hoje, vivemos tempos difíceis, visões fragmentadas num cenário terrível nas diferentes escalas de observação. Fases do colapso de um ciclo também em várias dimensões. Fases e ciclos deste período de quatorze anos podem assim serem lidas e vistas no vasto arquivo do blog.

A vida segue sendo aquilo que acontece enquanto a gente faz planos. E viver é lutar de forma permanente, em meio às fases e ciclos. 

Entre outras coisas, a maturidade traz duas questões antagônicas e quase dialéticas, assim como é a vida em constante movimento. 

Com o tempo a gente perde um pouco a capacidade de se iludir com algumas coisas e ideias que fazem a gente viver e se movimentar. Percebo e resisto à esta realidade. 

De outro, dialeticamente, observo que a maturação do tempo nos ensina a olhar as fases deste processo que é a vida, como partes de um ciclo mais longo e civilizacional e menos pessoal. 

Um olhar meio que de fora, mesmo que seja de quem ainda está dentro do processo, mas se interessa cada vez mais pelo processo e resultados do ciclo longo e histórico, como ensinou Braudel.

E já que falamos de tempo, eu hoje garanto, que se de um lado eu nunca imaginei que o blog durasse tanto tempo, hoje vejo que o mesmo já tem muito mais passado que futuro. Muito mais. Em que pese minha decisão de continuar resistindo, pensando e compartilhando tudo de forma coletiva.

Assim, eu agradeço imensamente o apoio e o convívio de todas e todos, repetindo o nosso lema que reproduz a ideia do movimento da roda da vida: sigamos em frente. 

Desta forma, transcrevo abaixo o que publiquei quando este blog completou 13 anos.


13 anos de blog!
Nunca tive a pretensão de estender por tanto tempo a experiência de blogueiro.

O blog, nascido numa época em que seus similares eram raros e as redes sociais ainda engatinhavam, a ideia plantada era apenas, que pudesse ser uma forma de compartilhar ideias e arquivos de assuntos que me interessavam.

Incontáveis foram as vezes que programei a saída, mas o sigamos em frente sugerido no geral, vale também quando entoado para o blogueiro.

O blog começou mais local-regional com algumas abordagens nacionais. Mas, o interesse do blogueiro foi subindo as escalas e assim também os textos e as notas.

Com o meu retorno aos estudos e às pesquisas depois de 2010, eu também senti necessidade e tentei construir pontes entre o conhecimento que circula na academia e a população. 

Sabia que este seria um esforço sempre de enorme risco, mas sempre julguei que era menor do que aquele do isolamento nos espaços estritos da academia. Tratava-se de um esforço diuturno diante da ameaça de ser mal visto por ambos os lados, que se pretendia ligar. 

Decorrida quase a metade do tempo de vida nesta blog, neste esforço de transitar dos dois lados, eu talve, possa avaliar que se tratou de um risco que valeu a pena enfrentar, da mesma forma que se vive e enfrenta a vida.

Não só a escala dos assuntos mais macros foram se ampliando, como as análises também foram ficando mais filtradas e esparsas no tempo.

Assim, a análise do público que acessa o blog - ferramenta disponibilizada pelo Blogger - tem hoje, a maioria de fora da região e até do país.

Neste tempo foram mais de uma dezena de milhões de acessos, numa estatística diária que hoje fica entre 3 e 5 mil visitas por dia, conforme o dia da semana.

Depois de um certo patamar de visitas que o blog adquiriu, já há algum tempo, estas estatísticas importam menos, embora a curiosidade para saber o assunto e a origem do interesse por determinados temas, seja sempre grande.

Nestes 13 anos foram quase 20 mil notas publicadas, repercutidas e comentadas. Hoje, isto acontece mais no perfil do Facebook (que se tornou mais ágil e identificável) do que no espaço próprio do blog, onde os "anônimos" sempre eram maioria.

Há muito deixei de me sentir obrigado a postar diariamente. Só o faço quando sinto que tenho algo a dizer e debater.

Continuo avaliando que aprendo muito e mais do que colaboro. Hoje conheço a maioria dos leitores, colaboradores e debatedores, pelo meio digital, e um número menor de forma presencial ou física, característica cada vez mais comum da contemporaneidade.

Com o tempo, o blog também serviu para me autoavaliar. Assim, lembro da expressão de Marx que dizia não é só o oleiro que faz o pote, mas o pote também faz o oleiro ao produzi-lo.

Assim, treze anos depois, considerando a dialética entre o sujeito e a materialidade das coisas, em que um altera o outro, eu talvez, possa dizer, que mais que fazer o blog, eu fui sendo por ele modificado nesta movimentação.

Desta forma, o blog talvez tenha alterado ainda mais o sujeito que sou hoje do que o inverso. Em qualquer direção e dimensão que se queira analisar.

Neste processo, eu também fui percebendo - e já comentei com muitos mais próximos -, que para pensar, de uma forma pouco mais estruturada, eu preciso escrever para as ideias fluírem. 

Também para fazer as ligações, que tenta romper a fragmentação pós-moderna, juntando fatos, temas, autores e ideias. Assim as ideias vão sendo linkadas, articuladas e sintetizadas para a explanação e publicação visando o debate.

Não sei por quanto tempo ainda o blog se manterá ativo neste espaço das redes sociais. Hoje, tenho mais críticas que entusiasmo com a ferramenta. Por vezes, sinto que a fragmentação se tornou a doença pós-moderna por excelência.

A fragmentação está sempre à disposição para desinformar, desorganizar e individualizar tudo e todos. E por várias vezes, eu me sinto responsável por contribuir com esta fragmentação que pode mais desinformar que informar. Mais desorganizar que ajudar a organizar.

Enfim, esta é também a dialética da vida e da luta permanente. Assim, agradeço pelo convívio coletivo com todas e todos e... sigamos em frente!

quinta-feira, agosto 09, 2018

Royalties das Participações Especiais serão pagos amanhã: Maricá: R$ 257 milhões; Niterói: R$ 226 milhões e Campos: R$ 64 milhões lideram a receita

Será depositada amanhã a terceira parcela trimestral do ano de 2018, referente às Participações Especiais (PE) decorrentes da produção dos grandes campos de petróleo aos municípios fluminenses.

Os dados são da ANP e foram tabulados e enviados ao blog pelo Wellington Abreu, superintendente de Petróleo e Gás da Prefeitura de São João da Barra. Eles mostram os valores trimestrais recebidos desde o ano passado (2017). Esta nova parcela é na média maior em relação à parcela anterior, depositada em maio deste ano, para a maioria dos municípios chamados de produtores.

Como chamamos a atenção há alguns anos, as maiores parcelas de Participações Especiais (que são referentes aos campos de petróleo com maior produção), se transferiram espacialmente da Bacia de Campos para a Bacia de Santos, que em termos geológicos ganhou esta denominação na direção sul a partir de Cabo Frio.

Assim, os municípios litorâneos que passaram a liderar a percepção desta receita são Maricá  (quase o dobro da soma dos demais, excluído Niterói) com o valor de R$ 257 milhões; logo após vem o município vizinho de Niterói com R$ 226 milhões.

A seguir vem o município de Campos dos Goytacazes com R$ 64 milhões, que desta forma viu aumentar em quase R$ 10 milhões a parcela de PE recebida em miao último. Em quarto lugar vem São João da Barra com R$ 15 milhões. A previsão é que os valores sejam depositados pela ANP nas contas dos municípios.

Abaixo a imagem da tabela com os valores das Participações Especiais a que tiveram direito os municípios fluminenses:

quarta-feira, agosto 08, 2018

A indústria bancária está desesperada com as eleições presidenciais: por que será?

Os bancos e os banqueiros estão em campanha eleitoral. Eles não são candidatos, mas têm aqueles a quem apoiam.

Interessante ver que os banqueiros agem abertamente, exigindo as mesmas coisas que são faladas pelos candidatos do mercado: reforma da previdência; garantias aos investidores e não reversão das medidas do Temer pró-mercado como a reforma trabalhista, limite de gastos na saúde e educação, perdão de multas, manutenção de subsídios e isenções fiscais, privatizações, etc.

Os banqueiros querem ainda a privatização dos bancos públicos (BB e CEF).

Alckmin e Bolsonaro já aceitaram conceder quase tudo isso, mas agora, os banqueiros estão nervosos, porque deixaram de ter a garantia de vitória eleitoral dos seus protegidos e financiados.

Os banqueiros não abrem mão da manutenção dos juros altos e da concentração do sistema bancário em poucos bancos.

O banqueiros temem o impulso ao crescimento econômico a ser dado por um possível vencedor que não sejam os seus financiados.

Os banqueiros reclamam deste cenário de "incerteza política", porque para eles eleição é dar o poder a quem lhe atende suas exigências e interesses. Eleição boa para eles é só com um resultado.

Assim, os banqueiros estão pagando cada vez mais pesquisas eleitorais e estudos de cenários às consultorias corporativas para avaliação dos riscos.

Um destes estudos é da consultoria S&P “O que está em jogo para os bancos brasileiros diante das eleições presidenciais” pago pelo que chamam de “indústria bancária” (Brica, na sigla em inglês).

Diante dos riscos, os bancos e fundos financeiros já estão movimentando o capital em estratégias que chamam de mais conservadoras e com menores riscos.

Assim, os bancos já estão priorizando a concessão de empréstimos consignados e financiamentos imobiliários.
Isto explica a decisão do Temer na semana passada para aumentar o limite para financiamento da casa própria.

Não tem nada de atender às pessoas e à população. Bem assim, um governo e candidatos que seguem as ordens dos bancos.

O espanto dos banqueiros já é tão grande, que estão até convencendo os tomadores de crédito a terem cautela e suspendendo e adiando projetos. Fato que vem contribuindo para a redução das operações bancárias. A estratégia é a de assim ajudar a criar um ambiente em que o mercado pressiona o eleitor.

Mesmo que a grande maioria dos eleitores nada tenham a ganhar com esta posição e interesses dos banqueiros.

Porém, a força de convencimento dos banqueiros todos sabemos que é muito grande. Com argumento$ e conteúdo$ de toda $orte.

Enfim, azar de quem seguir esta mesma cartilha. A não ser que seja também banqueiro e/ou forte rentista.

Mas, pensando bem: por que será que os banqueiros estão tão desesperados com as eleições presidenciais?

terça-feira, agosto 07, 2018

Para ajudar a entender a explosão do comércio das farmácias

Há quase um ano, eu escrevi aqui no blog, sobre a expansão e disputa do comércio de farmácias no município de Campos dos Goytacazes, RJ. Na ocasião eu e fiz relação deste fato com o que houve com o setor de eletrodomésticos há algumas décadas, quando redes varejistas nacionais, começaram a ocupar espaços de comércios tradicionais nas cidades de médio porte em todo o país.

O processo agora é similar e ajuda a explicar a estrutura com que funciona o comércio e o varejo em todo o país. Neste período de um ano, o fenômeno se intensificou bastante. Importantes farmácias locais que possuíam até suas próprias distribuidoras estão em vias de se retirar da disputa.

Alguns donos de farmácias nos bairros estão sucumbindo, diante do que chamam de concorrência desleal, que no jargão dos economistas é chamado pela expressão em inglês "dumping", quando se pratica preços irreais para controlar o mercado e depois "nadar de braçadas" jogando os preços em níveis mais altos

Estes pequenos comerciantes dizem que eles dependem dos preços dos distribuidores e assim não têm como enfrentar a concorrência das grandes redes de farmácias que compram direto das fábricas/laboratórios. Os grandes volumes de compra e os enormes prazos que tiram das indústrias farmacêuticas permitem que obtenham preços que não têm como ser combatidos. Os economistas chamam isto de oligopólios.

É importante lembrar que este fenômeno já vem ocorrendo nos últimos anos nas metrópoles e depois nas cidades de médio porte, indistintamente. Não há escolhas exclusivas e sim um plano estudados com dados de população e economia dos municípios e objetivam adiante obter o controle completo dos maiores mercados no país.

A estratégia inicial das redes de farmácia é ganhar o mercado que estava nas mãos de comerciantes locais. O passo seguinte, já em curso, é a disputa entre as redes sobre estes espaços. No momento seguinte, as maiores redes devem se ajustar e passar pontos e o controle de cidades ou áreas delas para controle de uma única rede.

A guerra comercial entre as redes envolve descontos que são decididos nacionalmente e online (no sistema, por dia, ou parte destes conforme as vendas); programas de fidelidade com o uso dos CPFs que alimentam os big-data; invasão de mercados controlados pelos concorrentes e ofertas de alguns serviços simples de saúde.

Interessante ainda observar que os novos pontos de farmácia destas redes são construídos também com empresas de engenharia de fora e muitas vezes também com trabalhadores que rodam o país fazendo as construções, instalações e montagens padrões da rede. Assim, elas empregam pouca gente local nesta fase.

Para entender o tamanho deste mercado de produtos farmacêuticos vale lembrar que o Brasil, se trata do 6º maior mercado do mundo. Segundo a Abrafarma (Associação Brasileira de Farmácias) o país possui 24 redes de farmácias que movimentam anualmente quase R$ 50 bilhões. Só no primeiro semestre de 2018, este volume atingiu R$ 22,8 bilhões, que é 7,5% maior do que o de 2017.

Aliás, este índice médio no ano deverá ser maior. O setor deve continuar crescendo em torno de 10% a 15%, percentual maior que a média geral de vendas a varejo no país, o que ajuda a explicar o movimento expansionista do setor que agora avança para um disputa entre as redes, para além da expulsão dos demais comerciantes do setor.

A Abrafarma informa ainda que o total de lojas vinculadas à associação no país, já soma 7.140 com um crescimento, em plena crise de 9,3% em relação à expansão do ano anterior.  Muita gente fala que as farmácias vendem de tudo, ou quase. Porém, esta é uma verdade parcial.

Segundo a Abrafarma cerca de 2/3 de suas vendas são de medicamentos que cresce sempre mais do que os não medicamentos colocados em suas gôndolas. Em termos de unidades vendidas elas somaram também no 1º semestre de 2018, o número de 1,17 bilhão, o que permite deduzir que a compra média de cada cliente estaria na faixa de R$ 19,48. (R$ 22,8 bi/1,17).

Porém, o mais significativo a ser compreendido sobre este processo é observar que o avanço das redes nacionais de farmácia (com o aniquilamento do comércio local), significará que boa parte do lucro obtido na venda dos medicamentos, estará cada vez mais sendo repassado para os donos das redes, que hoje são de propriedade e controle dos grandes fundos financeiros (e bancos).

Ou seja, o donos dos capitais deixaram de ganhar apenas com as grandes indústrias e avançam cada vez mais para a distribuição e comércio de varejos, iniciando pelas capitais, avançando para as cidades médias e a seguir para outras cidades menores, mas com capilaridade para localidades com mercados ainda convidativos.

Enfim, o blog reproduz abaixo o texto da nota publicada há quase um ano sobre o mesmo assunto que complementa algumas questões abordadas acima. O assunto é vasto e vem sendo discutido quase diariamente nas cidades.

A população das cidades brasileiras com idade média maior demanda cada vez mais este tipo de medicamento, o que explica que sejamos hoje o sexto maior mercado do mundo.

As pessoas se espantam com a quantidade de novos pontos de comércio de farmácia que surgem no dia-a-dia, num momento em que vários outros comércios fecham, mas é interessante que incorporem em suas interpretações outras informações, como a forma com que o setor financeiro foi chegando ao varejo das cidades do interior.


sábado, setembro 23, 2017

O setor de farmácias repete processo vivido pelo comércio de eletrodomésticos há duas décadas: ameaças e alternativas para a economia regional

O mesmo movimento que se viu em Campos (e outras cidades de porte médio) há cerca de duas décadas, na área de eletrodomésticos, agora acontece com o setor farmacêutico.

A entrada no comércio local dos grandes grupos que atuavam nas regiões metropolitanas como o Ponto Frio, Tele Rio, Casas Bahia e outros, que foram responsáveis por desmontar o comércio local deste segmento com o fechamento da Icaraí Móveis, Distribuidora Mercantil, Tri Som e outras.

Agora este processo avança para um setor onde a característica de varejo – com pequenas e constante compras - é ainda forte, como no caso da venda de medicamentos e materiais de beleza e perfumaria, como é o caso das farmácias, onde se vende de tudo um pouco.

A invasão das lojas de redes como a Pacheco, Droga Raia e outras, já espreme o segmento varejista local do comércio de farmácias, mesmo aqueles que possuem não apenas lojas, mas uma base de distribuição, como é o caso da tradicional Isalvo Lima, grupo cada vez mais vinculado à área de imóveis e menos à de drogarias.

Este movimento não é um fenômeno local, mas atinge todo o interior, inicialmente nas cidades de porte médio em quase todo o Brasil.

Observa-se assim que o comércio no país é cada vez menos local e mais de massa, com grandes grupos e corporações comandando o varejo em boa parte do país. Tudo isto, sem falar nas vendas pela internet (e-commerce).

No máximo, os interessados em investir nos comércios locais, quase que ficam restritos às franquias de marcas mais conhecidas e com os riscos já conhecidos, para quem se dispõe a colocar suas economias no setor. Neste tipo de alternativa, muita gente vem perdendo dinheiro iludido com as promessas das marcas.

Inicialmente, as comunidades tendem a ver neste processo, uma espécie de sinal de modernidade, pelo acesso a estas marcas, porém, mais adiante percebem que elas embutem outros problemas e riscos.

Desta forma, avança-se na oligopolização também ne varejo, em grande parte do comércio nacional. Os grupos ficam de olho nas economias locais/regionais que ganham algum dinamismo, com o objetivo de capturar seus excedentes que são levados para as metrópoles.

Assim, as economias e os comerciantes locais vão sendo ameaçados por um processo difícil de ser detido. Tratam-se de circuitos distintos da economia que merecem ser investigados. Um é ligado às grandes marcas (e fundos financeiros que são seus controladores) e o outro, “inferior”, cada vez mais empurrado para o comércio informal e marginalizado instalado mais próximo do cidadão.

Em alguns pontos eles se cruzam com o uso das informações digitais e buscam disfarces para fugir dos tributos e das fiscalizações governamentais.

Fato é que este movimento tende, no geral, a enfraquecer as economias locais-regionais e favorecer – com a captura de dinheiro e lucros – os maiores grupos econômicos do país.

A vida na sociedade contemporânea é cada vez mais complexa e o interesse e capacidade de atuação dos grandes grupos é quase avassalador.

O fato chama mais a atenção porque o comércio sempre foi um espaço de atuação da antiga burguesia, num momento pós-rural, nestes negócios de intermediação, que exigia menos investimentos, por exemplo do que a implantação de plantas industriais.

O caso parece ser apenas do comércio, mas ele aponta outras as dificuldades. Analisando mais profundamente este fato, ele mostra que a implantação de projetos regionais de desenvolvimento precisam ser integrados e envolver vários municípios. Será necessário visão de integração regional.

Será necessário um projeto de desenvolvimento regional que vá além do comércio e serviços. Será preciso envolver a produção material (agrícola e industrial), para assim arrastar os demais setores. Sem essa perspectiva, os municípios viverão sempre dependentes.

Não agir pró-ativamente nesta linha reforçará a velha ideia de esperar e estimular os grandes projetos que vêm de fora (exógenos), o chamados “Grandes Projetos de Investimentos” (GPI) que quando acontecem, tendem a se instalar como enclaves, com pouquíssimo diálogo e articulação com as comunidades locais que ficam isoladas.

É preciso investir nas pessoas da região com os recursos que ainda existem e que vão ficar mais escassos adiante quando a Economia dos Royalties tiver se liquefeito.

Mas, fiquemos por aqui com a análise que acaba levantando outras questões que esta postagem quer apenas provocar.

É preciso pensar saídas, num momento em que há um certo vazio, em termos de se pensar alternativas para a diversificação da economia (para além dos royalties do petróleo) e em implantar Políticas Públicas mais eficientes e de interesse do cidadão.

sexta-feira, agosto 03, 2018

Lucro da Petrobras de R$ 10 bi no trimestre reforça a interpretação do ciclo do petróleo

O resultado da Petrobras no último trimestre de R$ 10 bi reforça, divulgado hoje (veja aqui) comprova o que sempre falamos: trata-se do ciclo petro-econômico.

Na fase de colapso do ciclo do petróleo, toda a cadeia produtiva se comprime. Os investimentos, os contratos, a redução da exploração, as demissões chegam porque o lucro com a venda da produção não paga os novos investimentos, as dívidas, etc.

As dívidas em relação ao valor da companhia cai drasticamente.

Neste último trimestre com o petróleo na média US$ 75 o barril e o dólar alto, os resultados sobram.
Simples assim. 

Além disso, o pré-sal não para de trazer notícias boas com a produção de petróleo e gás e novas descobertas. 

Também hoje, a Petrobras anunciou que descobriu a maior coluna de óleo já encontrada no pré-sal da Bacia de Santos, na área de Sururu.

Assim, cai por terra, o discurso que era preciso vender tudo para sanear a empresa. Ora. Vender na baixa como fizeram, é crime de lesa-pátria. Enquanto isto a população continua sofrendo com o preço dos combustíveis.

A empresa sofreu como outras petroleiras a fase de colapso do ciclo petro-econômico. Se desejarem ler um pouco mais sobre o assunto leia esta postagem do blog em 24 de jul. 2017 com o título
"A geopolítica da energia: os reflexos do ciclo do petróleo e sua relação com o Brasil". 

Bastou um aumento do preço (que é inferior ao período único da história, acima de US$ 100, o baril entre 2010 e 2014) para os resultados voltarem. Como sempre dissemos que ocorreria.

Tudo claro como a água e forte e poderoso como o petróleo.

A Petrobras é detentora da maior província petrolífera descoberta na última década. Tem seis dos dez maiores campos descobertos neste período.

Só a geopolítica explica o golpe sobre o nosso petróleo, fato que este resultado e a venda fatiada de vários ativos da estatal neste período só vem a comprovar. 

Recuperar tudo que foi entregue indenizando quem comprou e voltando a integrar verticalmente a empresa com atividades do poço ao posto - e mesmo ao poste com participação na geração elétrica - é função de um governo que seja efetivamente representante de toda a população e não apenas dos agentes do mercado como faz Temer e quer fazer Alckmin.

quinta-feira, agosto 02, 2018

É quase impossível que o número de empregos em Macaé volte a superar o pico de 2013/2014, mesmo diante de um novo ciclo de preços do petróleo

A mídia comercial e política regional e nacional têm produzido várias matérias sobre uma retomada das atividades do setor petróleo em Macaé o que parece uma distante da realidade.

O que se tem de real parece mais com uma estabilização, onde as demissões de trabalhadores do setor estão, finalmente, parando de cair. É mais um equilíbrio do que um início, mesmo que pequeno, de contratações no setor pela expansão das atividades do setor petróleo.

Há vários interesses em descrever essa hipótese do que seria uma nova fase de expansão (boom), já no presente. Essa narrativa pode criar condições e facilitar decisões à nível de relaxamento de regulações, por parte das várias escalas de governo, como redução de royalties e impostos e outros incentivos desejados pelas corporações do setor.

Mesmo com o equilíbrio atual e essa lentíssima retomada das atividades no setor de petróleo, o que se tem hoje, são reduzidíssimas contratações. Desde 2014, Macaé foi perdendo empregos e seguiu até 2017, quando o município perdeu quase 5 mil empregos no total e não apenas no setor de petróleo.

No setor petróleo e afins, em números aproximados, desde 2014, a queda ficou em torno de 40%. Agora se percebe um aumento de menos de 5% nos empregos em média no setor.

Ou seja, as poucas contratações dos primeiros meses de 2018 - que não chegam a mil vagas, são muito inferiores às demissões só do ano passado. E ainda mais distante do estoque de empregos do ano de 2013/2014, quando as demissões se iniciaram, com a redução do preço do barril de petróleo e a diminuição dos investimentos pelas petroleiras em todo o mundo.

Este quadro permite identificar vários movimentos simultâneos relacionados aos empregos no município de Macaé e na região:

1) Haverá uma retomada de contratações com novos operadores (petroleiras privadas) para além da Petrobras na Bacia de Campos. Ainda muito ligeira retomada está voltando a acontecer, especificamente, nas atividades de exploração com a contratação de sísmicas e perfuração de poços.

2) Na verdade contribui para essa nova fase de atual equilíbrio, antes de uma real retomada, também com as atividades de descomissionamento de alguns campos e unidades produtoras até que a expansão seja mais ampla. 

3) É possível arriscar que a chegada de um novo ciclo de preços do barril do petróleo (ciclo petro-econômico) - fora a ocorrência de conflitos regionais graves em áreas produtoras no Oriente Médio, antecipe este cenário - deverá acontecer próximo da metade da década seguinte (por volta de 2025).

4) Porém, dois fatores jogam na direção contrária e, a meu juízo, não será com a redução dos percentuais dos royalties para as petroleiras. Assim pressionam o IBP (Instituto Brasileiro de Petróleo), ABESPetro (Associação Brasileira das Empresas de Serviços de Petróleo) e ANP (Agência Nacional de Petróleo), mas isto não alterará a realidade do quadro de empregos. Nem para mais e nem para menos. 

5) A condição dos campos mais maduros na Bacia de Campos, mesmo com a preparação de exploração em novas áreas leiloadas também limita a demanda de empregos. Assim, como a redução das exigências de conteúdo local definidas a todo momento pela ANP.

6) Isto faz com que as para-petroleiras, que são empresas prestadoras de serviço e tecnologia para as atividade de exploração de petróleo, deixem de ser obrigadas a desenvolver tecnologias e se organizar para prestar serviços no país.

7) Em minhas pesquisas sobre o setor entre 2012 e 2017, eu referi à este processo dentro da cadeia produtiva do petróleo como uma trilogia (tripé) ou uma tríade de atividades que nasce a partir da exploração offshore e se estendem ao longo da extensa cadeia. 

Tríade: Petróleo-Porto-Indústria de Apoio Offshore (naval).
Fonte: Tese do autor defendida em mar. 2017, no PPFH-UERJ:
“A relação transescalar e multidimensional “Petróleo-porto”
como produtora de novas territorialidades”. [1]
8 ) Chamei a isto de Tríade “Petróleo-porto (infraestruturas de transportes) – apoio operacional e industrial offshore (setor naval entre outros)”. Essa tríade funcion, dinamizando a chamada “Economia do Petróleo” que chegou a movimentar mais de 13% do PIB nacional e 33% do PIB do ERJ. 

9) A redução das exigências de conteúdo local decididas pelo governo Temer reduz imensamente a capacidade de arrasto de empregos para o setor. O grande número de empregos nesta tríade pode ser atestado especialmente, no período entre 2010 e 2013 no ERJ e no país. Na ocasião só indústria naval, já espalhada em diversos estados para além do RJ, chegou a ter 82 mil trabalhadores, contra cerca de 2 mil que exisitia no setor no final do ano de 2002. [1] e [2]

10) Além disso, não se pode ainda deixar de considerar que esta fase de colapso de preços do barril (parte do ciclo petro-econômico) obrigou estas empresas para-petroleiras a reduzirem violentamente os seus custos, desde 2014, para tentar manter os contratos com as petroleiras operadoras da exploração, em todo o mundo.

11) Este processo levou tanto à redução do número de empregos, quanto à redução dos níveis salariais dos empregados, mesmo que qualificados, diante das ameaças do desemprego. Além disso, neste período, como forma de redução de custos muitas atividades, foram automatizados muitos processos nas plataformas, assim como novas rotinas organizacionais - com menos pessoas trabalhando mais - foram implantada para reduzir custos com trabalho e retrabalho.


Interpretando um pouco mais o movimento das empresas e do emprego em Macaé
Este é um caminho quase sem volta, mesmo diante de uma nova fase de expansão das atividades do setor petróleo.

A volta das exigências da Política de Conteúdo Local (PCL), é uma das únicas possibilidades que podem ampliar o número de empregos no setor, em diferentes regiões do país, incluindo as regiões onde estão as bases operacionais de apoio à exploração offshore e indústria naval.

Há ainda que se considerar que uma nova fase do ciclo do petróleo no Brasil, que deverá ter se expandido bastante lá pelo meio da próxima década, encontrará as atividades de exploração de petróleo no Brasil, ainda mais deslocada espacialmente, fenômeno que já se assiste hoje, em direção à outras bacias (Santos e ES) e ao pré-sal.

Tudo isso tende a fazer com que partes das áreas operacionais da base de Macaé, migrem ainda mais na direção do Porto do Açu e do Rio de Janeiro e São Paulo, para atender como apoio, às atividades de exploração (perfuração e produção) de petróleo offshore no país.

É evidente que as leituras de cenários contêm apostas, discursos e interesses que estão muitas vezes distantes da realidade por uma série de motivos. Para um maior aprofundamento do assunto, eu sugiro que se amplie a análise de dados, processos e movimentos, daquilo que passei a chamar de “Circuito Espacial do Petróleo do ERJ” que produz importantes desdobramentos sobre o território em várias escalas e dimensões. [1]

Desta forma, eu insisto que seria mais interessante entender e tentar planejar políticas públicas decorrentes desta realidade de maneira mais regional, de uma forma menos municipal (e com menos concorrências locais), planejando programas, projetos e ações mais integradas regionalmente. (Veja aqui postagem do blog sobre pensar o regional) [3]

A fração do capital ligada ao setor petróleo, se movimenta de forma variada sobre o território, mas com algumas características já definidas. Elas buscam relações e soluções conforme as escalas de governo que mais lhe interessam a cada tempo.

Sem voltar às exigências de conteúdo local nesta cadeia produtiva, com agregação de valor, empregos mais qualificados e bem remunerados, a região (vista de forma ampla) tenderá a perder as oportunidades com a exaustão das reservas do petróleo para o qual se caminha.

Assim, penso que as gestões públicas não deveriam se guiar pelos interesses corporativos em suas ações sobre o território. Elas precisam dirigir os interesses de suas comunidades mesmo que em articulação com as corporações.

No caso específico dos municípios da chamada Bacia de Campos, considerando a fase mais madura e de quarenta anos de exploração de petróleo, já passou da hora de começar a pensar o day-after (dia seguinte) da exploração offshore.

É hora de deixar de lado os períodos da abundância de recursos que se viveu, de forma intensiva em termos de royalties e petrorrenda há pelo menos duas décadas.

A sobrevida desta petrorrenda será cada vez menor e com menores volumes de recursos. Quanto mais tempo se demorar a enxergar esta realidade, mais dolorosa será a retomada de uma economia real e sem vínculo com o petróleo.


Referências:
[1] Tese do autor defendida em mar. 2017, no PPFH-UERJ: “A relação transescalar e multidimensional “Petróleo-porto” como produtora de novas territorialidades”. Disponível na Rede de Pesquisa em Políticas Públicas (RPP)-UFRJ: http://www.rpp.ufrj.br/library/view/a-relacao-transescalar-e-multidimensional-petroleo-porto-como-produtora-de-novas-territorialidades

[2] Postagem no blog em 20 set. 2016. O fechamento dos estaleiros, as plataformas vindas do exterior e a volta do retrocesso neoliberal da dependência consentida e subordinada. Disponível em: http://www.robertomoraes.com.br/2016/09/o-fechamento-dos-estaleiros-as.html

[3] Postagem no blog no dia 30 jul. 2018. A importância de pensar a região quando se faz escolhas sobre a gestão estadual. Disponível em: https://www.robertomoraes.com.br/2018/07/a-importancia-de-pensar-regiao-quando.html

terça-feira, julho 31, 2018

Uma nova condução do setor de petróleo no México: que relação se pode fazer com o Brasil?

O México tem um novo presidente eleito pela população, com expressiva votação e que fez maioria no Congresso Nacional, depois do período neoliberal.

López Obrador ainda não tomou posse, mas já anunciou que retomará o protagonismo estatal no setor de petróleo na economia mexicana, mesmo sabendo das dificuldades sobre endividamento e redução das reservas.

Até perto de 2004, o México tinha mais do dobro da produção do Brasil na época com 3,4 milhões de barris por dia e era o oitavo maior produtor do mundo. 

Em 2015, já tinha passado para 12º lugar, atrás do Brasil que produzia 2,5 milhões, enquanto o México tinha caído para 2,4 milhões de barris por dia. No segundo semestre deste ano, a produção do México já tinha caído para 1,88 milhão de barris por dia.

Pois bem, o presidente neoliberal Enrique Peña Nieto, reduziu o tamanho da estatal Pemex, quebrou o monopólio estatal abriu o setor com leilões de áreas para outras petroleiras. Decisões que até hoje, em nada tinha mudado o quadro de dependência da importação de combustíveis dos EUA, apesar de todo o histórico mexicano da produção de petróleo. 

Assim, com a redução da produção de petróleo tanto no mar (Golfo do México), quanto em terra e a diminuição das receitas, mesmo no auge do preço do barril entre 2010 e 2014, fez a estatal Pemex viu aumentar sua dívida líquida para U$ 106 bilhões, cerca de 30% maior do que a da Petrobras.

Pois bem, o presidente eleito no início de julho no México, López Obrador, anunciou na semana passada que a retomada do protagonismo estatal no setor de petróleo é considerado estratégico em seu plano de governo. Assim, Obrador definiu o investimento de US$ 9,4 bilhões no setor de petróleo já para o ano que vem. 

O plano vai ainda impulsionar a exploração de petróleo estatal para alcançar uma produção cerca de 600 mil barris por dia a mais. Com isso, o presidente eleito diz que o projeto é voltar ao patamar de produção próximo aos 2,5 milhões por dia, num prazo de dois anos. 

Além disso, o novo presidente planeja construir uma nova refinaria de petróleo para o país e também decidiu investir na modernização das seis refinarias da Pemex.

O governo atual foi reduzindo os investimentos nas refinarias deixando as mesmas abandonadas para serem vendidas. O objetivo agora é o de tentar melhorar a produtividade que teria caído à metade, desde o ano de 2013.

Obrador já enfrenta ameaças de todos os tipos, vinculadas ao discurso único do mercado, mas segue firme, em cumprir os compromissos firmados no processo eleitoral com a população. 

O caso brasileiro e da nossa estatal Petrobras é bem melhor do que a da Pemex e do México. 

O governo pós-golpe apesar de todo o entreguismo, não conseguiu interromper o planejamento para aumento da produção que não parou e se ampliará com as novas unidades de produção que entrarão em funcionamento nos próximos meses. 

Além disso, ao contrário do México, as perspectivas nacionais do setor, diante na nossa colossal reservas do pré-sal (que está aí para ser explorada), gerando demandas da indústria se houver política de conteúdo local, são colossais. 

Mesmo que partes fatiadas da Petrobras tenham sido vendidas, junto com outros ativos e campos de petróleo, as perspectivas, nas mesmas linhas anunciadas por Obrador no México, são muito boas na linha da autossuficiência, da soberania energética e da geração de empregos em toda a cadeia produtiva com uma empresa integrada do poço ao posto. 

Para isso, será necessário, como no México, uma nova condução política ao país. Os desafios serão imensos, mas antes será preciso retomar o controle político do país retirado após o golpe.

segunda-feira, julho 30, 2018

A importância de pensar a região quando se faz escolhas sobre a gestão estadual

Na semana passada eu fui chamado para falar e debater temas que se relacionam ao desenvolvimento regional.

Em outras ocasiões, ao tratar de temas relativos ao que se chamava de desenvolvimento, eu buscava dados e indicadores que permitissem um diagnóstico sobre a economia, PIB, royalties, empregos e outros sobre a situação das pessoas: educação, saúde, etc.

Agi assim inúmeras vezes julgando estar interpretando o desenvolvimento regional a partir de cidades polos. Porém, uma indagação parecia subliminar: o que era efetivamente uma região?

No fundo, dentro do senso comum para a maioria das pessoas, região é o lugar onde se vive (e de onde você se vê diante da natureza e do mundo) e o espaço um pouco para além dele.

No caso de Campos seria assim um município e os seus santos vizinhos: São João, São Francisco, São Fidélis, etc. Desta forma, pensar a região, ainda para a maioria das pessoas é levantar os dados e indicadores que reproduzem um instantâneo - retrato - sobre este espaço recortado, a que se chama de região.

Porém, que região seria essa? Durante um bom tempo, essa questão me intrigou. O contato mais próximo com os geógrafos ajudou a ampliar a inquietação sobre esta ideia de região.

As análises sobre a vida nos municípios, assim como a realidade das gestões públicas, me chamaram a atenção para o isolamento dos municípios. Como autarquias eles têm poder sobre os usos dos seus solos que é uma realidade concreta, sem abstração, sendo o nível de governo mais próximo do cidadão. O que é bom e forte em termos de poder. Porém, insuficiente para a dinâmica da vida atual das pessoas.

Assim se vê os municípios sempre presos em seus limites territoriais e em projetos concorrenciais, quando se trata da disputa pela atração de investimentos (de fora, exógenos), enquanto, as suas populações sofrem problemas similares que parecem apontar para a necessidade de programas, planos e ações consorciadas e complementares.

Porém raramente, as questões são assim percebidas. Por que se vive cada vez mais numa região e continuamos a pensar e agir só localmente?

A escala de governo acima, estadual, em suas crises política, econômica e fiscal continua presa, quase sempre, aos problemas da metrópole expandida, mantendo uma relação individual e não regional com os demais municípios.

Mapa das regiões do ERJ
Assim, no caso do ERJ a relação, já há décadas, é a do atendimento das demandas individuais dos municípios. Para isso o governo estadual utiliza o Padem (Programa de Apoio ao Desenvolvimento dos Municípios), como instrumento desta relação, não levando em conta a região, a importância da integração entre os municípios e a necessidade de ações supra municipais ou infra regionais.

Por estas questões de ordem mais práticas, eu resolvi tratar do tema sobre o que é região. Região que é vista como parte de um todo. Interessante observar que em termos de nomenclatura – antes de conceito - a região pode ser uma nação ou um conjunto delas em relação ao mundo. Região pode ser ainda um estado ou vários em relação a uma nação. Um município, ou vários, em relação ao que nossa federação chama de estado. Ou região pode ser também e ainda áreas de um município que consideramos como todo.

Para os geógrafos região é um recorte espacial relacionado à problemática da diferença e da integração. Mas, antes disso, é importante se saber que região é uma construção abstrata como e a de uma nação. Ela existe mentalmente em nosso intelecto, como nos lembra a professora e geógrafa Sandra Lencioni.

Muitos ainda não percebem, mas paulatinamente as nossas comunidades vivem menos em cidades e municípios e mais em regiões. Os fluxos diários de pessoas e coisas (materiais) entre os municípios são cada vez maiores, mas as gestões públicas continuam insistindo em ver seus problemas apenas dentro das linhas dos limites territoriais dos municípios.

Até os processos de urbanização são cada vez mais regionais, dispersos, mesmo que em meio a vazios que dão forma ao todo fazem repensar os limites.

Não temos no Brasil gestão regional ou supra municipal. A escala acima é a estadual, já um pouco distante. Este déficit do federalismo brasileiro é mais ou menos intenso conforme a gestão da escala de governo estadual.

Projetos e editais regionais poderiam ajudar no desenvolvimento de consórcios e outros projetos que pensassem e agissem estimulando a integração das gestões, assim como as pessoas já faze em seu dia a dia em busca da sobrevivência. Imaginem o que não se poderia fazer de forma consorciada em termos de saúde, transportes, educação, turismo, comércio de alimentos, etc.

Região é ainda um conceito dinâmico e em constante movimento. Entendê-lo ajuda também a pensar o que se chama de desenvolvimento que deve ir para além de crescimento econômico, embutindo as perguntas: desenvolvimento para quê e para quem?

Não pode se tratar apenas de PIB, orçamentos, royalties, tributos, etc. mas, renda, emprego, condições de vida, direitos sociais, etc. A região também não pode ser lembrada apenas, quando se reúnem os municípios para evitar as reduções dos royalties do petróleo.

Enfim, se trata de um tema amplo, mas não tão complexo como pode parecer. Assim o tema merece ser um pouco mais explorado, especialmente em momentos de debates sobre novas escolhas para a gestão estadual. Em especial no devastado ERJ. Ou será que vamos apenas continuar a repetir o atual script?

PS.: Atualizado às 14:10: para breves acréscimos no texto.
PS.: Atualizado às 01:06: para correções e ajustes no texto, sem modificações na essência do mesmo.

sexta-feira, julho 27, 2018

Profa. Ana Costa da UFF: Carta denúncia sobre violações no Açu

A professora e pesquisadora Ana Costa da UFF-Campos divulgou uma carta que tem apoio de vários outros pesquisadores da região e outros pontos do país que faz uma série de denúncias, sobre violações a pequenos proprietários rurais, na região do Açu que foram atingidos pelos projetos do Porto do Açu.

Questiona-se ainda a Justiça que tem negado a ampla Defesa e o contraditório, atendendo apenas aos interesses do projeto e seus proprietários, sem reconhecer os direitos de pequenos proprietários, que são partes da comunidade nativa que residia e produzia naquela região, hoje destinada a projetos do porto, sem que nem 10% das áreas desapropriadas, depois de dez anos de implantação do projeto tenha tido alguma serventia.

A carta-denúncia faz um "alerta à sociedade sobre mais essa injustiça praticada em nome da acumulação, concentração e centralização da riqueza nessa região e no país. Que simplesmente, em uma década, o domínio privado das terras, já alcança quase que 30 mil hectares de terras em função do projeto Minas Rio, somando terras privadas e unidades de conservação (em que parte é terra pública, mas com destinação vinculada ao empreendimento) em Conceição de Mato Dentro/MG, no Açu em São João da Barra/RJ e nas áreas de servidão de todo o percurso dos 525 quilômetros do mineroduto das cavas para exploração do minério nas Montanhas em Minas Gerais, até os mares, para exportação, até então do minério no Porto do Açu."

Abaixo o blog reproduz na íntegra a carta com os justos questionamentos que seguem sem respostas:

CARTA DENÚNCIA: Violações no Açu


Se perguntarmos a profissão dos membros das aproximadas 15 famílias que vivem a saga do gado, desde que suas terras foram expropriadas pelo então governador, e hoje presidiário, Sergio Cabral e entregue ao homem mais rico do Brasil na época e hoje também em prisão domiciliar, Eike Batista, eles certamente vão falar das atividades que desenvolvem desde o nascer do sol até o momento em ele se põe, e a escuridão os obrigam a descansar. 

Até há uns dez anos atrás, não havia lugar melhor para se viver, eles dizem. A lida com os animais e a terra era realizada com a tranquilidade que o campo propicia. Contada, principalmente, pelos mais velhos, percebemos o trabalho é duro e intenso, mas prazeroso! Chega a parecer bucólica e prazerosa a vida vivida é sentida por essas famílias.

Mas, logo que o monstro, metáfora usada por alguns para descrever o Megaempreendimento, que é o Porto do Açu, chegou a paz e o sossego foram também destruídos por ele.

As terras foram invadidas pela empresa, hoje Prumo Logística S.A., as moradias destruídas, as famílias e seus animais, que para alguns, complementavam a renda familiar, para outras era a única renda para a manutenção e reprodução das mesmas.

Nesse processo de expropriação das terras em que essas não foram utilizadas, deixando inclusive de cumprir a sua função social, uma vez que foram apenas destruídas esvaziadas as moradias, benfeitorias, histórias, sentidos e significados, para facilitar a especulação fundiária, pois até hoje, mais de uma década, menos de 10% (dez por cento) desta área, foi ocupada com todas as obras do porto, bem como, das empresas do retro porto. Assim, os agricultores tiveram que usar essas terras ociosas para alimentar o seu gado, tornando-se itinerantes em seu próprio chão.

E agora, mesmo a terra não cumprindo com a função social, a empresa/Prumo Logística S. A., junto ao Estado/CODIN, conseguem que o juiz Leonardo Cajueiro, ordene a retirada do gado dessas famílias trabalhadoras, com prazo final para o dia 27/07/2018.

Nesse período, a Defensoria apresentou alguns argumentos e pedidos que não foram apreciados, motivando que entrasse com embargos.

Desse modo, vimos por meio dessa carta, questionar onde está a Ampla Defesa? O Contraditório? E ao mesmo tempo alertar a sociedade de mais essa injustiça praticada em nome da acumulação, concentração e centralização da riqueza nessa região e no país. Que simplesmente, em uma década, o domínio privado das terras, já alcança quase que 30 mil hectares de terras em função do projeto Minas Rio, somando terras privadas e unidades de conservação (em que parte é terra pública, mas com destinação vinculada ao empreendimento) em Conceição de Mato Dentro/MG, no Açu em São João da Barra/RJ e nas áreas de servidão de todo o percurso dos 525 quilômetros do mineroduto das ´das cavas para exploração do minério nas Montanhas em Minas Gerais, até os mares, para exportação, até então do minério no Porto do Açu. Solicitamos ampla divulgação.

Ana Costa - Professora da UFF Campos/RJ
costa_ana@id.uff.br
Núcleo de Estudos sobre Trabalho, Cidadania e Desenvolvimento (NETRAD)
Açu/São João da Barra, 26 de julho de 2018.

terça-feira, julho 24, 2018

Fundo EIG controlador da Prumo, dona do Porto do Açu, está em negociação para aquisição de campos maduros da Bacia de Campos

A informação sobre o interesse do fundo financeiro EIG Global Energy Partners para a aquisição de dois polos maduros de petróleo em águas rasas na Bacia de Campos é da Agência Reuters. [1]

A transação deve envolver a empresa de energia brasileira Ouro Preto Óleo e Gás fez a oferta vencedora pelos polos Pampo e Enchova, localizados na Bacia de Campos.

O banco americano Goldman Sachs que deverá financiar a oferta do fundo americano EIG que giraria em torno de 1 bilhão de dólares.

Mapa da Bacia de Campos:
Campos de Enchova e Pampo e Porto do Açu
Assim, o fundo EIG, controlador da holding Prumo Logística Global poderia usar as vantagens competitivas de apoio às operações offshore de sua empresa de operações portuárias do Porto do Açu.

As possibilidades daí decorrentes seriam várias, como acesso ao gás natural para o hub que a Prumo iniciou a construção, junto aos seus terminais portuários, visando geração de energia elétrica. 

É na  plataforma de Enchova que se inicia um gasoduto que vai até Cabiúnas e de lá sai um ramal que vai para Vitória e passa por Campos (Gascav).

O fato reforça o que o blog tem comentado aqui neste espaço, sobre os interesses crescentes de fundos financeiros internacionais. sobre ativos de petróleo e infraestruturas produtivas, que de forma conjunta e consorciada, podem representar grandes lucros.

No meio deste processo há desconfianças dos agentes financeiros em relação as ações jurídicas que envolvem as desapropriações de pequenos proprietários. Os desapropriados agora estão sendo pressionados para retirar o gado das terras pelas quais ainda não receberam, em função de desentendimentos com a Codin e Prumo. Análises de riscos utilizadas por estes agentes financeiros registram estes problemas em áreas do distrito industrial junto ao Porto do Açu.


Referência
[1] Matéria da Agência Reuters sobre o tema, em 24 jul. 2018-19:36. EXCLUSIVO-Petrobras entra em negociação com grupo apoiado por EIG para venda de polos maduros. Disponível em: https://br.reuters.com/article/businessNews/idBRKBN1KE30V-OBRBS

Estudo do FMI diz que a automação, robôs e inteligência artificial aumentarão as desigualdades e os salários levarão gerações para serem ajustados

O assunto vem sendo discutido com alguma frequência, embora quase sempre sobre a lógica da modernidade e da necessidade de aumento da produtividade exigida pelas empresas e pelo capital.

A revolução 4.0, a ampliação do uso dos robôs, a utilização dos big-datas junto dos algoritmos, para programações conhecidas como inteligência artificial crescem, no presente, numa forma perceptível e que faz lembrar o Thomas Khum quando este dizia, em seu livro "A estruturas das revoluções científicas" que o rompimento de paradigmas se dá por saltos, percebidos em alguns momentos deste processo. [1]

O estudo do FMI "Devemos temer a revolução dos robôs (a resposta é sim)" [2] que foi citado no artigo do jornalista Sergio Lamucci ontem aqui no Valor (A revolução dos robôs e a desigualdade) diz textualmente que "a automação é boa para o crescimento econômico e ruim para a igualdade". [3]

O texto diz ainda que a evolução dos salários decorrentes destes ganhos de produtividade para os trabalhadores mais qualificados que forem aproveitados nesta onda, poderá facilmente levar gerações.

Ou seja estaria se falando do descompassos dos ciclos. Uma geração tem cerca de 30 anos. Assim duas gerações se poderia estimar em 50 anos  (um ciclo longo de Kondratiev).

Imaginem que hoje onde ainda resta o "welfare state" (estado de bem-estar-social) está sendo sendo reduzido ou abolido. E onde não havia, nas nações periféricas este processo não acontecerá. Assim, 10% da população viverá bem, enquanto os demais serão sobrantes lutando pela sobrevivência.

Arte dos ludistas destruindo máquinas na Inglaterra em 1811.
Não se trata de ser um ludita (movimento de resistência de trabalhadores na Inglaterra em 1811/1812  se posicionando contra as máquinas quando da primeira revolução industrial) [4], mas é preciso identificar que estas mudanças não são iguais em todo o mundo.

Estas transformações alteram e muito não apenas o conteúdo do trabalho, mas a sua organização, a distribuição espacial (territorial) decorrente desta reestruturação e ainda os processos de urbanização e mobilização dos trabalhadores. [5]
Estes processos tenderão a ser cada vez mais dispersos e fragmentados, mesmo que em redes informacionais e distanciarão ainda mais os qualificados dos desqualificados ampliando as desigualdades sociais que, no estudo foram reconhecidas pelos pesquisadores do FMI.

No Brasil, medidas podem tentar acelerar e aperfeiçoar os processos e programas educacionais como propõe o autor do artigo no Valor, Lamucci. [3] Mas, é difícil crer que mesmo que sejamos eficientes e superemos as atuais crises políticas, econômicas e sociais se consiga superar as dificuldades de uma democracia capenga e de exceção e um modelo político-econômico excludente.

Difícil imaginar que nesta atual atoada se conseguirá superar tudo isso para impedir um esgarçamento civilizatório ainda maior do sistema. Enfim, republico abaixo o artigo do Lamucci que motivou esta postagem.


A revolução dos robôs e a desigualdade

Os rápidos e impressionantes avanços nas áreas de inteligência artificial e de robótica têm potencial para transformar radicalmente o mundo do trabalho. Nos próximos anos, a automação de muitas tarefas poderá ter efeitos dramáticos na vida dos trabalhadores, como mostra um estudo publicado pelo Fundo Monetário Internacional (FMI). O título dá uma ideia clara das preocupantes conclusões do texto: "Devemos temer a revolução dos robôs? (a resposta correta é sim)".

Segundo os autores, os resultados obtidos são surpreendentemente robustos: "A automação é boa para o crescimento e ruim para a igualdade." No modelo de referência, os salários reais (descontada a inflação) caem no curto prazo e por fim aumentam. A questão é que a elevação dos salários "pode facilmente levar gerações", apontam Andrew Berg e Luis-Felipe Zanna, economistas do FMI, e Edward Buffie, da Universidade de Indiana.

Para o Brasil, um país com baixa produtividade e educação deficiente, o cenário impõe desafios complexos. A baixa eficiência pode deixar o país ainda mais para trás em relação ao que se passa em economia mais produtivas, enquanto os problemas educacionais tendem a dificultar a adaptação dos trabalhadores à nova realidade.

"Automação intensa terá efeito dramático sobre o mundo do trabalho"

O estudo destaca as mudanças em curso causadas pela automação. Em centros de distribuição, robôs conseguem carregar, descarregar e enviar produtos com supervisão humana mínima. Programas de inteligência artificial começam a trabalhar como assistentes jurídicos, contadores e professores assistentes. Em breve, veículos autônomos poderão eliminar milhões de empregos de motoristas de caminhão, ônibus e táxi.

"A premissa do estudo é que nós estamos no meio de um ponto de inflexão tecnológico, uma nova 'era da máquina', em que inteligência artificial e robôs estão rapidamente desenvolvendo a capacidade de fazer o trabalho cognitivo e o trabalho físico de grandes parcelas da força de trabalho", dizem os autores.

Nesse quadro, eles desenvolveram um modelo para analisar as implicações dos robôs sobre crescimento, salários e desigualdade. O trabalho considera o capital "robótico" como distinto do capital tradicional, por sua capacidade de substituir o trabalho humano.

Segundo os autores, com frequência a literatura econômica sobre tecnologia e desigualdade chega a conclusões "essencialmente otimistas". Algumas categorias de trabalhadores e tarefas podem ser afetadas no curto prazo, mas a produção e os salários crescem à medida que novas tecnologias abrem mais oportunidades do que fecham. Se as habilidades da força de trabalho se mantiverem atualizadas, há pouco com o que se preocupar.

"Nós mostramos que desta vez de fato pode ser diferente", afirmam Berg, Zanna e Buffie. Mesmo um pequeno aumento no nível da produtividade dos robôs pode elevar a produção enormemente se as máquinas forem substitutos suficientemente próximos dos humanos. "O mecanismo básico é que a introdução de robôs mais produtivos inicialmente reduz os salários e aumenta o retorno tanto do capital robótico quanto do capital tradicional."

Tudo isso é "muito bom para o crescimento", mas também "muito ruim" para a distribuição de renda, conclui o estudo. Traçando esse quadro preocupante, o trabalho tem como epígrafe uma citação do consultor americano Warren Bennis: "A fábrica do futuro terá apenas dois empregados - um homem e um cachorro. O homem estará lá para alimentar o cachorro. O cachorro estará lá para impedir que o homem toque no equipamento".

Há obviamente quem tenha uma visão mais otimista do que Berg, Zanna e Buffie. O próprio estudo dos três cita David Autor, do Massachusetts Institute of Technology (MIT), para quem "jornalistas e mesmo especialistas tendem a exagerar a extensão da substituição do trabalho humano por máquinas e a ignorar as fortes complementaridades entre automação e trabalho" que aumentam a produtividade, elevam os rendimentos e fazem crescer a demanda por trabalhadores.

Embora não haja consenso sobre o impacto da automação, é fundamental pensar em políticas públicas que respondam a esse novo quadro. Para os autores do estudo, uma delas "envolve transferências dos proprietários do capital para os trabalhadores, talvez na forma de uma renda básica universal". Essa é uma medida na direção adequada, na visão de Vinicius Carrasco, ex-diretor do BNDES e professor da PUC-Rio. "Implemente a robotização e compense os perdedores", diz ele, para quem é importante avaliar como combinar esses avanços tecnológicos com melhoras na rede de proteção. O ideal seria que os aumentos de produtividade gerassem ganhos suficientes para compensar os perdedores.

Há sinais, porém, de que se caminha na direção contrária: "O populismo, por exemplo, acaba prometendo manutenção de empregos como forma de compensação", afirma Carrasco, citando políticas do presidente Donald Trump, como o protecionismo comercial e medidas anti-imigração. O resultado é que se distorce a economia, sacrificando a eficiência, para tentar preservar empregos. "Isso serve para robotização, abertura da economia ou o que for." Ao mesmo tempo, populistas como Trump pouco se dedicam a promover políticas compensatórias. "O populismo é ludita [hostil a inovações tecnológicas]", diz Carrasco, economista-chefe da Stone, uma empresa de meio de pagamentos.

No ano passado, Bill Gates, da Microsoft, sugeriu a tributação do uso de robôs pelas empresas, para eventualmente desacelerar o ritmo de automação e financiar outros tipos de emprego. Para Carrasco, é uma solução ruim, por inibir a eficiência produtiva. "É como taxar o comércio internacional para preservar empregos locais."

Uma resposta às mudanças causadas pela tecnologia precisa vir por meio da educação. É necessário preparar os trabalhadores para lidar com as exigências de um mundo com grau crescente de automatização. Para o Brasil, com seus graves e crônicos problemas educacionais, é uma questão delicada.

Elevar a qualidade da educação também contribui para aumentar a produtividade, algo fundamental num cenário de intensa robotização. "A agenda para melhorar a produtividade no Brasil já é urgente de qualquer forma; no passo em que estamos e como é mais provável que a revolução se dê de maneira mais intensa fora, a distância em relação ao resto do mundo vai aumentar", nota Carrasco. Esse tema precisa estar no horizonte de quem pretende comandar o país a partir de 2019, ou o Brasil correrá o risco de ficar ainda mais atrasado.

Sergio Lamucci é repórter. E-mail: sergio.lamucci@valor.com.br


Referências:
[1] KUHN, Thomas S. A estrutura das revoluções científicas. 5. ed. São Paulo: Editora Perspectiva S.A, 1997.

[2] FMI. Should we fear the robot revolution? (the correct answer is yes). Devemos temer a revolução dos robôs? (a resposta correta é sim). Disponível em: https://www.imf.org/en/Publications/WP/Issues/2018/05/21/Should-We-Fear-the-Robot-Revolution-The-Correct-Answer-is-Yes-44923

[3] LAMUCCI, Sérgio. Artigo no Valor em 23 de jul. 2018. A revolução dos robôs e a desigualdade. Disponível em: https://www.valor.com.br/brasil/5676939/revolucao-dos-robos-e-desigualdade

[4] Ver sobre os luditas ou movimento ludista no Wikipedia. Disponivel em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Ludismo/

[5] ALVES, J. E. D. diz sobre a revolução 4.0: 
"A atual revolução científica e tecnológica difere das três anteriores na profundidade e na velocidade das transformações, com grande impacto no mundo do trabalho. Não se trata mais de lidar com o “gorila domesticado” de Henry Ford, ou com a recomposição da linha de montagem do Toyotismo, que busca capturar o pensamento do operário incorporando suas iniciativas afetivo-intelectuais aos objetivos da produção de bens e serviços. Os trabalhos que vão surgir serão necessariamente diferentes dos atuais, não havendo garantias que serão suficientes para compensar os postos que vão desaparecer, e dificilmente as organizações sindicais atuais dos trabalhadores conseguirão se manter na nova configuração produtiva, tanto quanto os chamados “direitos adquiridos”. Haverá uma produção mais maleável, descentralizada e com flexibilização do processo de trabalho, tanto temporal quanto físico, além da tendência à “individuação” (a “pejotização” é apenas um aspecto) e do enfraquecimento do trabalho material, aglomerado e coletivo". 
Entrevista de José Eustáquio Diniz Alves à revista do IHU-Unisinos, em 21 jul. 2018. O marxismo continua atual para a crítica do capitalismo e a denúncia das desigualdades. Entrevista especial com José Eustáquio Diniz Alves. Disponível em: http://www.ihu.unisinos.br/581055-filosofia-marxista-continua-atual-para-critica-do-capitalismo-e-denuncia-das-desigualdades-entrevista-especial-com-jose-eustaquio-diniz-alves

sábado, julho 21, 2018

A petroleira Saudi Aramco também integra setor petroquímico como a Esso e a Shell, ao contrário do que está fazendo a Petrobras

O blog produziu diversas postagens sobre o tema da petroquímica, a partir da notícia da venda de empresas do setor pela Petrobras, assim como da Braskem, em que a estatal tem sociedade com a Odebrecht.

Valor, 20 jul. 2018, P. B1
Nas últimas postagens sobre o assunto que podem ser vistas (aqui, aqui, aqui e aqui) foi sustentado que a petroquímica é uma das áreas da extensa cadeia produtiva do petróleo, vinculada ao refino e que tende a ser cada vez mais estratégica, na medida que o uso de derivados do petróleo deixe de ser mais intensivo no uso para o transporte.  

Pois bem, corroborando com a necessidade das petroleiras no mundo todo buscarem uma integração das diversas etapas desta cadeia produtiva, como forma de lidar melhor com as oscilações e os ciclos de preço desta mercadoria especial, eu trago ao lado uma pequena nota veiculada no Valor (20 jul, P. B1).

A informação mostra a opção da grande petroleira saudita Saudi Aramco ao decidir comprar uma participação e o controle da empresa petroquímica Sabic (a quarta maior do mundo, veja na tabela abaixo) detalhando que com a negociação, a estatal petroleira “está expandindo de forma expressiva suas operações petroquímicas e avançando na sua meta de se tornar uma empresa moderna e integrada como a Exxon Mobil e a Royal Dutmch Shell”. 

A Sabic já era uma empresa pública com o controle de 70% por parte do governo, mas a decisão de repassar o controle para a petroleira estatal Saudi Aramco reforça a ideia da integração da cadeia produtiva. A saudita Sabic é uma corporação global com 35 mil funcionários e atuação na América, Europa, e Ásia-Pacífico, para além do Oriente Médio.

Assim, se observa o caso de outra petrolífera no mundo que segue um caminho inverso do que a Petrobras, pós-golpe, passou a fazer com a desintegração e desverticalização de sua atuação em todo a cadeia produtiva do petróleo indo do poço, ao posto, e agora, mais recentemente, até o poste com a eletrificação e o uso das térmicas à gás natural.

É sintomático que informações como estas apreçam em notas periféricas e em pés de páginas, no interior da mídia corporativa.

Desta forma, esta informação completa assim, a série que vínhamos tratando do tema sobre a importância estratégica de manter o setor petroquímico sob o controle de empresas nacionais, evitando a dependência de oligopólios controlados do exterior.

No Brasil, só agora a Abliplast (Associação Brasileira de Plásticos) acordou para os riscos da desnacionalização da Braskem e anuncia que pretende questionar a decisão no Conselho Administrativos de Defesa Econômica (Cade) sobre os impactos no mercado nacional de resinas plásticas, na medida que a produção no Brasil passará ter controle do que será a maior empresa global do setor, a holandesa LyondellBasel.

É lamentável assistir todo este desmonte que tornará o país e sua produção industrial mais dependente e periférica.

PS.: Atualizado às 16:34: para breve acréscimo no texto.

sexta-feira, julho 20, 2018

Quotas mensais dos royalties aumentam 20% em média nos municípios petrorrentistas fluminenses

As quotas mensais dos royalties do petróleo do mês de julho, dos municípios petrorrentistas fluminenses, a ser depositado na próxima 2ª feira, segundo dados da ANP, tabulados pelo Wellington Abreu superintendente de Petróleo, Gás e Tecnologia da PMSJB:

1) Macaé - R$ 56,5 milhões;
2) Maricá - R$ 48,7 milhões;
3) Niterói - R$ 42,9 milhões;
4) Campos dos Goytacazes - R$ 41,8 milhões;
5) Rio de Janeiro - R$ 16,1 milhões;
6) Cabo Frio - R$ 14,0 milhões;
7) Rio das Ostras - R$ 13,8 milhões;
8) São João da Barra - R$ 10,6 milhões;
9) Casimiro de Abreu - R$ 6,7 milhões;
10) Armação de Búzios - R$ 6,7 milhões;
11) Quissamã - R$ 6,6 milhões.

Os valores são em média 20% maior do que a quota de royalties do mês passado de junho e cerca de 50% maior do que o primeiro mês do ano em janeiro de 2018. 

Estas quotas menores estão relacionadas não ao aumento de produção (que é declinante no caso da Bacia de Campos e não na Bacia de Santos), mas ao maior valor do barril de dois meses atrás e ao alto valor do dólar na ocasião. os valores completos e a tabela das quotas dos últimos doze meses pode ser vista na tabela abaixo. Para ver a imagem da tabela em tamanho maior clique sobre ela.


Lucro líquido dos 4 maiores bancos do país atinge R$ 18 bi no trimestre: crise para quê e para quem?

Não tem crise econômica, social, fiscal e nem greve dos caminhoneiros que segura o lucro dos bancos, aqueles que tomam conta do país e da vida das pessoas.

Apesar de toda a crise, desemprego, etc. o lucro líquido no período entre abril e junho passado foi de R$ 18 bilhões, 13,5% maior que em igual período do ano passado.




























A greve dos caminhoneiros impactou o PIB, os empregos, a arrecadação de impostos mas não os lucros líquidos dos bancos que não param de crescer, num negócio cada vez mais centralizado e oligopolizado.

É bom que se registre que se trata de lucro líquido, já descontadas despesas de toda a ordem e também impostos. Projetado para um ano, multiplicando por quatro trimestres, teríamos um lucro líquido anual só destes quatro bancos, no valor total de R$ 72 bilhões. Um colosso!

Estes números ajudam a explicar para que e a quem servem as crises. Eles demonstram como se dá no mundo real a captura dos excedentes econômicos gerados pela sociedade no momento anterior de boom da economia.

Numa figura simbólica é que se estivéssemos vendo as mãozorras do sistema financeiro puxando para a si a bolada da riqueza gerada pelo trabalho das pessoas e empresas.

Mais interessante ainda é observar que todo este lucro vem neste momento em que o crescimento do crédito é muito baixo e que estes resultados podem estar ligados ao empréstimo às pessoas físicas onde os juros são estratosféricos e sem igual no mundo.

terça-feira, julho 17, 2018

As consequências da venda da Braskem e desnacionalização do setor petroquímico no Brasil

Este blog já tratou deste tema em pelo menos três postagens recentes (aqui, aqui e aqui), mas vai voltar ao tema da desnacionalização do setor de petroquímica que é estratégico para o Brasil. [1] [2] [3]

O petróleo é uma mercadoria estratégica e especial responsável por mais de outros 3 mil produtos. As petroleiras que operam a exploração sabem de seu papel estratégico e por isso atuam em articulação e admitem a coordenação dos seus Estados-nações que se movimentam pelos interesses geopolíticos.

Não é por outro motivo que essa mercadoria especial (o petróleo) está no centro de vários conflitos regionais e geopolíticos no mundo. Há uma luta permanente que busca garantir ao acesso à esta mercadoria e às suas reservas, assim como à sua extensa e potente cadeia produtiva, que envolve ainda a segurança energética das nações e suas populações.

É importante ainda saber que a cadeia produtiva do petróleo vai bem para além da exploração das reservas, produção do petróleo e seu refino(beneficiamento). Mas, o refino é muito importante porque agrega valor com a distribuição e comercialização de combustíveis, mas também porque estas unidades estão cada vez mais integradas à produção de petroquímicos.

A produção de petroquímicos envolve outras gerações de produtos que têm como insumos os derivados imediatos de petróleo, obtidos numa primeira etapa do refino: etileno, polietileno prolipropileno, óxido de propileno, óxido de etileno, etc. Produtos que são bases para uma série de outras indústrias de plásticos, PVC, embalagens, etc. 

A petroquímica aumentará a sua importância à medida que o petróleo deixe de ter a sua maior utilização como energia para o transportes como acontece atualmente. Estima-se que num cenário entre 3 e 4 décadas isso mude, com menor uso do combustível oriundo do petróleo e maior utilização dos veículos elétricos e híbridos.

Assim, a petroquímica passará a ser a principal demanda para uso do petróleo. O mundo todo sabe disto. Por isso, quase todas as novas plantas de refino de petróleo no mundo estão vinculadas às unidades petroquímicas, como é o caso que se vê na China, Índia e até no Oriente Médio.

A holandesa LyondellBasse que está comprando a brasileira Braskem está entre as três maiores petroquímicas do mundo. As duas maiores são a chinesa Sinopec e a americana Exxon. A Braskem com a produção de polietileno e polipropileno é a sexta em termos de produção mundial.

Infográfico do Valor Online em 18 jun. 2018 [4]
Com a incorporação da Braskem pela LyondellBase esta passará a ser a maior produtora do mundo de resinas plásticas. A Braskem tem unidade produtiva em Houston nos EUA e escritórios e várias partes do mundo, para além das bases operacionais no Brasil.

A Braskem no Brasil tem a sua maior planta na Bahia, onde atualmente emprega milhares de funcionários. Possui ainda bases produtivas junto aos polos petroquímicos em São Paulo, Rio Grande do Sul e Rio de Janeiro. Nos EUA, há algum tempo, a Braskem vinha se beneficiando e estava se expandindo usando o barato shale gas (xisto).

As razões da incorporação da Braskem pela LyondellBase vão para além do aumento da produção de petroquímico, e se traduz de uma forma geral, no interesse desta corporação em aumentar a capacidade de controlar preços e boa parte do mercado de petroquímicos no mundo, no qual o Brasil passará a ser dependente. 

A Shell também holandesa, na verdade anglo-holandesa já é a maior produtora de petróleo no Brasil e em 2020 já terá produção maior que meio milhão de barris por dia e poderá ser fornecedora da LyondellBase.

Desta forma, a venda da Braskem significa a perda do controle nacional sobre a produção de petroquímicos, um setor que tende a crescer sua importância na cadeia do petróleo e responsável pela produção de milhares de outros produtos secundários. Com esta venda o Brasil ficará fora de mais um setor estratégico ao desenvolvimento nacional.

É bom lembrar que a Braskem tem o controle da Odebrecht (que foi estraçalhada com as intervenções do judiciário) e da Petrobras. Vale também reforçar o entendimento do aumento do peso dos fundos financeiros sobre as empresas no Brasil, neste momento de crise em que nossos ativos estão “baratinhos”.

A corporação petroquímica holandesa LyondellBasell que está incorporando a Braskem (Odebrecht e Petrobras) é controlada por acionistas tendo entre estes os fundos financeiros (Acess Industries com 18,2% das ações; Fidelity com 8,7%; Vanguard (6,3%) e o fundo americano BlackRock com 5,2%). 

A Braskem é uma empresa controlada pela Petrobras e Odebrecht, sendo que a estatal como co-controladora, possui direito de preferência e de “tag along” (venda conjunta) da empresa. A parte da Odebrecht na Braskem hoje estás nas mãos de bancos credores (Banco do Brasil, Itaú, Bradesco, Santander e BNDES). Eles ficaram com as ações da Braskem como garantia para os R$ 12 bilhões em dívidas da empresa.

A diretoria pós-golpe da Petrobras declarou publicamente, mais de uma vez, o desejo de sair do setor petroquímico e vender (em dinheiro, como desinvestimento), a sua participação na Braskem. Já os atuais gerentes da Odebrecht sustentam que o plano é o de se manter no setor petroquímico, mas trocando sua participação na Braskem por algumas ações da LyondellBasell.

O desmonte do setor petroquímico nacional se insere no contexto do golpe político no Brasil, oriundo do impedimento de um governo eleito, que teve no setor petróleo - e toda a sua estratégica cadeia que envolve ainda outras empresas de infraestruturas de energia (Eletrobras, Furnas e concessionárias) – uma das principais razões.

O documento golpista (“Uma ponte para o futuro”) elaborado por agentes do mercado para o PMDB asfaltar o caminho do impeachment, a pedido de Moreira Franco, atual ministro das Minas e Energia, registra os interesses do mercado na desregulação destes setores, o apetite para acesso a estes ativos por parte das grandes corporações transnacionais, que representam os oligopólios do setor no mundo assim como os grandes fundos financeiros globais.


Referências
[1] Postagem do blog em 16 jun. 2018. Segue o desmonte de toda a cadeia produtiva do petróleo no Brasil. Agora é a petroquímica. Disponível em: 

[2] Postagem do blog em 18 jun. 2018. Mais sobre a desnacionalização da petroquímica no Brasil com a venda da Braskem. Disponível em: 

[3] Postagem do blog em 12 jul. 2018. O movimento da holding Odebrecht explica a pinguela para o passado. Disponível em: https://www.robertomoraes.com.br/2018/07/o-movimento-da-holding-odebrecht.html

[4] Matéria do Valor em 18 jun 2018. Lyondell e Braskem criariam líder mundial. Disponível em: https://www.valor.com.br/empresas/5600519/lyondell-e-braskem-criariam-lider-mundial