quinta-feira, outubro 03, 2019

Pré-sal já alcança quase 2/3 da produção total de petróleo e gás no Brasil

A produção de petróleo nas reservas do Pré-sal já alcança quase 2/3 do total no Brasil. Em números redondos 2,4 milhões de barris de óleo equivalentes por dia (MMboe/d - óleo + gás) para um total de 3,8 MMboe/d.

É essa joia da coroa que está sendo entregue e preço de final de feira.

Por bacia, a de Santos já produzi hoje mais de 60% do total. Enquanto isso, a Bacia de campos hoje fica apenas com 36% da produção nacional de petróleo e 14% da produção de gás natural do Brasil.

Esses resultados foram construídos lá atrás em termos de planejamento, ganhos de eficiência em termos da redução do tempo de construção dos poços entre outros.

O grande trunfo do pré-sal é a grande produtividade dos seus poços que nem os geólogos mais otimistas sonhavam. Um desses casos é o poço de 7-BUZ-10- RJS no Campo de Búzios que sozinho produziu 58,5 mil barris de óleo equivalentes por dia.

















Um total de 5 poços poços produzem acima de 50 mil barris de óleo equivalentes por dia e 30 poços com produção acima de 30 mil barris de óleo equivalentes por dia. Só os poços do campo de Lula alcançam a produção de 1,3 milhão de barris de óleo equivalentes (óleo + gás) do Brasil.

As petroleiras estrangeiras já estão produzindo quase 1 milhão de barris equivalentes (óleo + gás) por dia no Brasil. Só a Shell, a segunda tem quase metade disso 470 mil bpd.

Na imagem ao lado a tabela com as dez maiores produção por petroleira que atua no Brasil, segundo Boletim Mensal de Produção (agosto, sempre dois meses depois) liberado nesta semana pela ANP.

Um colosso! Uma pena que boa parte dessa riqueza esteja sendo entregue sem atender a boa parte dos brasileiros!

Queda da atividade industrial nos EUA e no mundo sinaliza nova recessão. A conferir!

É certo que a participação da indústria na economia como um todo é cada vez menor em todo o mundo.

Porém, a indústria ainda detém enorme capacidade de arrasto sobre todos demais setores.

Até por isso, a queda vertiginosa do setor industrial em todo o mundo é um forte indicador de que podemos já estar no início de enorme recessão global.

A queda do setor industrial nos EUA é a mais acentuada, a maior na última década.

O primeiro dos dois gráficos abaixo mostra que essa queda do setor industrial já se aproxima dos níveis vividos no auge da crise financeira (subprime), entre 2008 e 2009.

O segundo gráfico mostra que o fenômeno se repete em outras economias centrais, embora, ainda em menor grau na China.













A se manter por mais algum tempo essa realidade em parte vinculada á guerra comercial EUA x China (que também reduz em níveis acentuados os níveis do comércio global), mas também às disparidades regionais, os países que vivem das exportações de commodities (minerais e agronegócios em especial) como é o caso do Brasil devem sofrer ainda mais, porque a tendência é que os preços delas caiam. A conferir!

Os gráficos são muito claros. Eles foram produzidos pelo Financial Times, mas traduzido junto com reportagem divulgada pelo Valor (02/10/2019, P. A13).

segunda-feira, setembro 30, 2019

As redes de comércio e serviços que envolvem o nosso dia-a-dia também são controladas pelos fundos financeiros: caso da Raia Drogasil

Eu venho buscando relatar de maneira mais simples possível, como os fundos financeiros passaram a estar presentes em nosso dia-a-dia, sem que a maioria da população perceba como esse processo se desenvolve e suas consequências sobre as nossas vidas.

Ao contrário do que se imagina, essa presença dos fundos financeiros mais próxima de nosso cotidiano, vai bem além do que antes se imaginava, ligado apenas aos casos dos grandes investimentos feitos em infraestruturas e indústrias.

De uma década para cá, os fundos financeiros estão presentes também – e cada vez mais - nos setores de serviços e comércio locais, onde capturam economias que circulam regionalmente, através de negócios de redes. Estes são controlados de forma centralizada e oligopolizada, produzindo efeitos sobre os circuitos econômicos locais/regionais e sobre o território.

São várias as fórmulas. As extensas e densas redes de lojas, serviços e franquias são exemplos de como as rendas locais acabam sendo aspiradas por empresas e corporações financeiras (fundos) que ganham tanto na produção material da economia real (também nos serviços e comércios), quanto nas finanças que giram no entorno destes negócios.

Para melhor compreensão deste fenômenos vale observar o caso da Droga Raia (hoje Raia Drogasil S.A.), que nasceu como um empreendimento familiar há mais de um século no interior de São Paulo. Hoje, a Raia Drogasil é uma holding que também é dona além das redes de farmácias Raia e Drogasil, também das Farmácia Onofre e Farmácia São Paulo, estas duas muito fortes naquele estado. 

No todo, a rede de farmácias - que é a maior do Brasil - e parte dos negócios do grupo RD (Raia Drogasil) possui agora em 2019, um total de 1.917 lojas instaladas em 22 estados, tendo alcançado no final do 1º semestre deste ano uma receita bruta de R$ 16,7 bilhões (muito maior que muitas indústrias) e lucro líquido de mais de meio bilhão, para ser mais exato no valor de R$ 551 milhões.
Apresentação de resultados Raia Drogasil (RD) 2º Trimestre de 2019. Slide nº 9/45.



























Além da rede de farmácias, o grupo RD é dono ainda de várias empresas ligadas a serviços de saúde envolvendo ainda as áreas de enfermagem, nutrição e medicina especial: RD Gente, Saúde e Bem Estar; NutriGoog; CareTech; Needs; UniVers e 4Bio. 

O grupo que nasceu e cresceu juntando as famílias Pires, Pipponzi e Galvão, abriu o negócio no mercado de capitais em 1977 (depois em cresce em 2007) e, a partir daí passou a receber aportes de grandes fundos financeiros e de investidores que hoje já somam 65% do capital total desta grande corporação. 

Em 1994, a empresa cria um planejamento de gestão, ampliação e TI com foco na ampliação do mercado pela transformação demográfica (envelhecimento da população) que ampliaria o mercado farmacêutico junto da hipótese de concentração deste tipo de comércio no país, a exemplo do que já havia acontecido em outras nações.

Apresentação de resultados Raia Drogasil (RD)
 2º Trimestre de 2019. Slide nº 6/45.
Entre os grandes aportes de recursos financeiros obtidos após 2007, estão os fundos financeiros Gávea (controlado pelo ex-presidente do Banco Central, Armínio Fraga), o Pragma Patrimônio, um fundo private equity e recentemente recebeu aporte do maior fundo financeiro do mundo, o americano BlackRock que no início deste mês passou a controlar 5% do grupo RD que tem sede no bairro de Butantã, na capital paulista. Além destes fundos citados, mais de uma centenas de outros fundos financeiros possuem ações e participações no grupo Raia Drogasil (RD). (Confira aqui). 

É oportuno ainda registrar que vários destes fundos financeiros são acionistas, e em alguns casos, controladores também de indústrias farmacêuticas que fornecem medicamentos para serem comercializados pela rede de farmácias, assim como de empresas de engenharia responsáveis pelas obras de instalação das lojas.



Os fundos financeiros lubrificam a concentração de renda no capitalismo atual

Assim, como o grupo RD Raia Drogasil, outros negócios e redes de serviços (saúde, faculdades e escolas, etc.) e comércio - que incluem os shoppings - assim como as franquias de marcas conhecidas, estão aos poucos, passando a controla,r não apenas os grandes negócios de produção e de infraestrutura, mas também as redes de negócios menores que se expandem, também territorialmente, das metrópoles para os municípios de médio porte no interior dos estados brasileiros.

Há vinte/trintas anos esse fenômeno foi observado no comércio de eletrodomésticos, quando as redes das grandes lojas como Ponto Frio, Tele Rio, Casas Garson ( no ERJ) e depois Casas Bahia e Lojas Americanas foram invadindo o interior e tomando o espaço de tradicionais comércios locais.

Hoje, este processo também já se expandiu para os negócios de supermercados, novos shoppings centers, clínicas de saúde, laboratórios, etc. controlados pelos fundos financeiros nacionais e globais.

Tem-se aí uma concentração absurda destes negócios com enormes ganhos de escala. Um processo de oligopolização que ao concentrar os negócios, oferece, inicialmente ganhos aos consumidores, porém, mais adiante com o controle dos mercados, ele passam a ditar preços e condições, capturando boa parte das rendas locais e regionais.

Os lucros destes negócios que antes ficavam com as burguesias (elites) locais, hoje são repartidas com esses grandes grupos, que ficam com a maior parte desses excedentes capturados.

Estes grupos econômicos, invariavelmente, estão instalados em grandes centros financeiros localizados nas metrópoles, onde esse dinheiro se transforma em capital e também busca outros rendimentos em vários tipos de circuitos financeiros, num processo de ainda maior concentração e captura que antes, era em parte, também realizado pelo sistema bancário e suas agências no interior.

Assim, os fundos de investimentos ocuparam um novo espaço e passaram a lubrificar o capitalismo contemporâneo, que foi se tornando hegemonicamente financeiro. Através das grandes corporações organizadas em redes e controladas por gestores e dirigentes destes fundos financeiros.

Tudo isso tem ampliado enormemente a concentração de capital com o desenvolvimento do processo de oligopolização de vários setores, que capturam cada vez mais rendas locais, contribuindo assim para o aumento da precarização do trabalho, que acaba sendo imposto aos gestores intermediários dos negócios, de forma a bancar os rendimentos de quem tem os dinheiros e buscam mais rendimentos.

O caso da Raia Dogasil e deste tipo de comércio de medicamentos, evidentemente não é o único controlado pelos fundos financeiros, que assim vão substituindo em parte, o antigo papel de intermediação financeira dos bancos. Em aliança com o mercado de capitais, eles vão avançando para várias atividades econômicas e diferentes regiões do país, em busca de maiores lucros e acumulação.

No caso do Norte Fluminense pode-se listar outras atividades econômicas controladas pelos fundos financeiros: a rede Hortifruti que nasceu em Colatina, ES, para a venda de sacolões da pequena produção agrícola do interior capixaba, cresceu com lojas em outros estados e municípios e hoje, passou a ser controlada por um fundo financeiro suíço.

A rede de shopping Boulevard que é dono de todas as suas lojas, também é controlado por fundos financeiros. A holding Prumo Logística que é dona do Complexo portuário do Açu é controlada pelo fundo financeiro americano EIG Global Energy Partners. A Autopista Fluminense, concessionária da BR-101 na região (RJ-ES), que foi constituída por empresas espanholas, hoje é controlada pelo fundo financeiro canadense Brookfield, que também comprou da Petrobras, a malha de gasodutos instalada na região Sudeste com cerca 2,5 mil quilômetros de extensão. 

Trata-se de uma parte de um fenômeno em curso que ajuda a explicar o presente. As pesquisas empíricas que envolvem o campo de investigação interdisciplinar que chamamos de “Espaço e Economia” exigem observações, análises e interpretações ainda mais aprofundadas, mas também demanda um debate mais amplo e em várias dimensões. Razão da insistência com o assunto que suscitou este novo texto.

sexta-feira, setembro 27, 2019

Procuradores auto-incensados com pendores meritocráticos se tornaram bebês de Rosemary de um ministério público diminuído

Com os fatos que agora se sabe, é possível observar que os arroubos (perceba bem arroubos como êxtase, impulsos) dos procuradores Janot e Dallagnol, não podem - e não devem - ser considerados, apenas como vaidade, desejo de poder-dinheiro, e/ou maluquices individuais.

O ser humano é sempre surpreendente.

Ainda mais em certas circunstâncias e condições.

Nesse sentido, eu não posso considerar que tudo isso seja fruto apenas de veleidades pessoais individuais e fortuitas .

Diante deste quadro, não há como não nos perguntarmos se a instituição "ministério público" da forma como foi se desenvolvendo não é parte dessa criação destes "bebês de Rosemary".

O ambiente e a circunstâncias dessa parte do poder judiciário, devem ter contribuído, de forma paulatina, com que muitos procuradores, fossem acreditando, de forma absoluta, em seus pendores meritocráticos, e assim, junto com ideias e narrativas de que constituíam uma autoridade com direitos (autorização legal) e potencial de fazer uma completa assepsia contra tudo de ruim que havia na sociedade brasileira.

Desta forma parece que foram sendo auto-incensados a uma condição que distava - e cada vez mais - tanto do preceito legal, quanto da ideia de democracia liberal de repartição tripartite do poder do Estado.

Bom que se relembre que isso não se deu de forma isolada. Por interesses de natureza similares, a mídia comercial serviu de alicerce e elevador para que os procuradores fossem construindo, na sociedade brasileira, os consensos que nos trouxeram até aqui.

Esses procedimentos se não crucificaram de morte a instituição ministério público, a deixou bastante ferida e necessitada de socorro e tratamento.

A democracia sim, foi ferida de morte, mas ainda pode ser salva, mas exige rapidez e tratamentos de choques, para superar a realidade surreal - e pouco crível - em que ainda vivemos, ou sobrevivemos.

O Brasil precisa retomar seu projeto de Nação!

Quase todos dizem que foi golpe, menos a Globo, Moro e Bolsonaro

Esse depoimento do Aloysio Nunes do PSDB em entrevista hoje na FSP, seguido daquele outro recente do Temer e a confirmação pelo próprio Janot, sobre os seus desequilíbrios mostram apenas um pouco da loucura maior que nos trouxe até este desgoverno.

Tá morrendo quem ainda não tinha morrido. Todos confirmam: foi golpe!

Se não fosse real tudo isso seria uma narrativa pouco crível.

Não devemos esquecer o papel da mídia comercial que construiu na sociedade os consensos que nos trouxeram até esse desgoverno.

Depois de Temer, Aloysio Nunes e Janot se confessarem, só resta a Globo. Mas como na ditadura hard (não híbrida) de 64, será preciso mais uns anos para que os filhos do Marinho morram, para sair novo mea-culpa.

Quase todos dizem: foi golpe, menos a Globo, Moro e Bolsonaro. Começaram juntos e vão terminar juntos. Tá ficando cada vez mais feio. Os demais jornais /revistas estão pulando do barco porque sabem que quem vive de informação, precisa ter algum controle sobre suas narrativas sob pena de perder tudo, junto com a credibilidade que se esvai pelos dedos.

Para encerrar a interpretação perfeita de Flávio Dino:
"Não falta mais nada para termos a dimensão do quanto era errada a frase: “as instituições estão funcionando”. E também nada falta para concluirmos que vivemos o período mais esdrúxulo da história do Direito no Brasil. Muito mais será revelado nos próximos anos."

quinta-feira, setembro 26, 2019

A atual disputa de exportações de soja para a China, entre EUA x Brasil, mostra a realidade sobre como funcionam os interesses comerciais aliado à geopolítica


A guerra comercial EUA x China embute questões que não trata exatamente de questionamentos sobre práticas comerciais chinesas, como se tenta passar para incautos, que não possuem elementos para compreender as estratégias da geoeconomia no mundo atual.

Os EUA de Trump, com seu “América First” (Primeiro a América), tem interesses mais simples, objetivos e fáceis de serem observados no campo das exportações agrícolas (agronegócio), onde os EUA disputam com o Brasil um imenso mercado mundial.

Exportação de soja no Porto Paranaguá, PR. Globo Rural
Vamos aos dados da Administração Geral das Alfândegas da China divulgados pela agência Reuters: agora, em agosto, os EUA exportou 1,68 milhão de toneladas de soja para a China, volume 84% acima do que havia sido exportado em julho último, e pasmem, seis vezes mais (265 mil toneladas) do que havia exportado em 2018.

Como todos sabem, o Brasil é ainda o maior exportador de soja do mundo, tendo os EUA em segundo lugar e a Argentina em terceiro. Porém, os EUA disputa muito de perto com o Brasil a condição de maior produtor mundial de soja.

Num primeiro momento da contenda comercial entre EUA e China, o Brasil levou alguma vantagem e ampliou a sua venda de soja aos chineses e chegou a exportar na safra 2017/2018, um total de 83,6 milhões de toneladas de soja em grão.

Agora, com as “compras amigáveis” que a China está fazendo dos EUA, como parte do acordo pós disputa, em troca de outras concessões com a venda de produtos chineses aos EUA, a previsão dos produtores brasileiros é que haja uma retração de suas exportações de soja.

A estimativa de queda é da ordem de 18,5%, podendo levar a uma redução das exportações brasileiras de soja que assim cairiam para 68,1 milhões, lembrando que há um ano elas chegaram a 83,6 milhões de toneladas.

Isso é geopolítica pura e na veia. Uso de pressões do estado americano a favor dos seus interesses comerciais. Não há nada de ideológico nessas ações estratégicas dos EUA.

Enquanto isso, a sabujice de Bolsonaro, Guedes e cia. Ltda., desse desgoverno, continua com a sabujice de pendurar ainda mais a dependência e a submissão aos interesses geopolíticos dos EUA.

De forma pueril, esse desgoverno - com os militares ali pendurados -, imaginam que bajulando os americanos, os EUA possam deixar algum espaço para o Brasil exercer alguma liderança regional, condição para uma espécie de “subimperialismo-dependente” que estes entreguistas bolsonarianos sonham.

O caso não difere muito do que se observa no setor de petróleo e gás, onde também o desgoverno aceitou desmontar toda uma cadeia produtiva integrada a um dos maiores mercados consumidores de derivados e combustíveis do mundo.

Assim esse desgoverno (dos ricos e para os ricos), está fatiando e esquartejando a Petrobras e entregando a preço vil, ao controle de players petrolíferas e fundos financeiros americanos que ficam assim como a nossa joia da coroa, incluindo boa parte da colossal reservas do pré-sal.

Sabujice pura que se repetiu na terça-feira no desastrado discurso do Bolsonaro na Assembleia da ONU em Nova York, EUA.

Ninguém respeita sabujos em lugar nenhum, nem em relações pessoais e familiares, muito menos nas relações globais entre estados-nação.

A nação brasileira precisa se reencontrar consigo mesmo para a retomada de um novo projeto de nação, sobre os escombros do que está sendo destruído.

quarta-feira, setembro 25, 2019

ERJ perdeu 25 mil universitários na graduação presencial apenas no último ano

O blog com o auxílio do professor José Carlos Salomão Ferreira segue com esta publicação divulgando mais dados e indicadores dos censos do ensino superior nos municípios do ERJ como faz há mais de uma década.

Com os microdados extraídos da base de informações do Inep/MEC, no Censo do Ensino Superior de 2018, foi possível extrair o número de matrículas nos municípios fluminenses (39) que possuíam cursos de graduação presencial.

Em 2018, o ERJ possuía um total de 544,7 mil estudantes de nível superior (graduação presencial). Esse número identifica que houve uma redução de 25,9 mil matrículas, em relação aos 570,1 mil graduandos que havia nos municípios fluminenses em 2017.

A maior redução (cerca de 20 mil matrículas) aconteceu nas instituições privadas. Nas instituições públicas a redução foi de 5 mil matrículas. Pode-se atribuir o fato à persistente crise financeira e aos custos das mensalidades. Além disso, também ocorre um menor interesse dos jovens com os cursos pagos, diante da falta de empregos. Tudo isso ajuda a explicar a redução do número de matrículas que se iniciou em 2017, depois de ter crescido, continuamente, desde o ano 2003.

O pico de 573 mil matrículas no ERJ se deu em 2015, desde então, a quantidade de universitários vem se reduzindo no ERJ. Este volume acima de meio milhão de matrículas ainda é bastante expressivo. Esse número foi atingido no ano de 2008 e decorreu da expansão da economia e da ampliação da rede federal promovida nos governos Lula 1 e 2, com novos campi das universidades e institutos federais, aumentando também a capilaridade e a abrangência de municípios atendidos com vagas de ensino superior em graduação presencial.

A primeira tabela abaixo com dados dos censos do ensino superior (2003-2018) mostra a evolução no número de matrículas por município. A segunda tabela, logo abaixo, faz uma comparação entre o total de matrículas nas instituições públicas e privadas do ERJ. Clique sobre as tabelas e seus dados em tamanho maior na tela, com a distribuição da quantidade de matrículas em 2019, espalhada por 39 entre os 92 municípios fluminenses.


Observa-se pelos dados que a capital, Rio de Janeiro, ainda segue concentrando a maior parte das matrículas com 297 mil matrículas, equivalentes e 55% do total. Uma concentração extraordinária, embora, seja também na capital que tenha ocorrido a maior redução de matrículas, em números absolutos entre 2017 e 2018: menos 16 mil matrículas, do total da redução de 25,9 mil matrículas entre 2017 e 2018 no ERJ.

Nas demais posições do ranking de matrículas entre os municípios fluminenses há algumas alterações em relação ao censo do ano anterior (2017): em 2º lugar segue o município de Niterói com 58,7 mil matrículas (2,6 mil matrículas a menos que 2017); em 3º lugar: Nova Iguaçu: 24.450 matrículas; em 4º lugar passou a ser o município de Campos dos Goytacazes com 19.818 matrículas (18 a maios que 2017); Em 5º lugar: Duque de Caxias com 18.464 com 3 mil matrículas a menos do que 2017.

Estes números mostram ainda a concentração da oferta de matrículas do ensino superior na região Metropolitana Fluminense que chega a 76% do total do ERJ, embora um pouco menor do que em 2017, quando este percentual se aproximou dos 80%.

Nº de matrículas no interior segue apontando polos por região
Ainda assim, vale destacar que alguns novos polos de ensino superior estão se desenvolvendo - se estabilizando e adensando - com o correr do tempo.

Nesta linha vale destaque a quantidade de matrículas de alguns municípios do interior: Volta Redonda com 14,4 mil matrículas; Petrópolis com 10,6 mil matrículas; Macaé com 9,6 mil matrículas; Cabo Frio e Itaperuna com 8,4 mil matrículas.

Estes números apontam para novos polos de ensino superior no interior do ERJ e demonstram uma dinâmica que se espalhou - e vem se mantendo - apesar da crise econômica e fiscal no governo do estado, federal e de vários municípios fluminenses.

Num olhar ainda um pouco mais amplo, se percebe que os polos foram se ampliando para municípios vizinhos aos polos anteriores, dentro dento de suas regiões no ERJ. No caso da região Serrana, além de Petrópolis com 11,2 mil matrículas, há Nova Friburgo com 6,4 mil matrículas e Teresópolis com 4,3 mil matrículas.

Na região Sul para além de Volta Redonda com 14,4 mil matrículas, se registra Resende com 6,2 mil matrículas e Barra Mansa com 5,2 mil matrículas; Vassouras com 3,3 mil matrículas e Valença com 3,1 mil matrículas.

Entre os municípios que alguns chamam da Região do Petróleo: Campos, Macaé, Rio das Ostras e Cabo Frio juntos possuem 40,3 mil matrículas. Um número significativo, mas inferior ao número de matrículas apenas de Niterói com 58,7 mil matrículas.

No Noroeste Fluminense, além de Itaperuna com 8,4 mil matrículas (400 matrículas a mais que em 2017); Santo Antônio de Pádua com 1,7 mil matrículas e Bom Jesus do Itabapoana com 843 matrículas.

Porém, há que se realçar que diferente da quantidades de matrículas do ensino superior nestes municípios, o desenvolvimento do tripé da academia "Ensino-Pesquisa-Extensão" ainda é relativamente baixo, mesmo que crescente. Em sua maioria quase esmagadora, com raras exceções, as atividades de extensão e pesquisa estão vinculadas às instituições públicas com as universidades e institutos federais em seus vários campi.

Além disso, a análise desses números merece ser observadas sob outras dimensões. Por exemplo, sob o ponto de vista do que estas instituições podem estar trazendo de dinamismo econômico-social, para além da economia que movimentam com os fluxos de pessoas entre os municípios, com os salários de professores e técnicos das instituições e com as despesas de manutenção cotidiana dos alunos nas economias locais destes municípios-polo de matrículas do Ensino Superior.

Porém, esta é uma tarefa mais ampla e se relaciona com outros setores econômicos e circuitos regionais ligados à economia e aos arranjos populacionais do Estado do Rio de Janeiro. Assunto que temos procurado abordar com frequência aqui no blog.

Estes dados e indicadores permitem várias outras leituras por parte dos pesquisadores e de gestores públicos, que assim deixarão de ter que trabalhar a base do microdados do Inep/MEC na coleta e organização dos dados da matrícula por município. Há outros estudos possíveis com dados também sobre matrículas por cursos que permite outras análises e interpretações que também servem às investigações sobre os temas da educação, gestão pública, desenvolvimento regional, ERJ, etc.

Referências:

[1] Postagem do blog em 22 set. 2019: Nº de matrículas no ensino superior presencial se estabiliza em Campos nos últimos 4 anos: percentual aumenta nas públicas. Disponível em: https://www.robertomoraes.com.br/2019/09/n-de-matriculas-no-ensino-superior.html

[2] Postagem do blog em 2 de outubro de 2018. Matrículas no Ensino Superior do ERJ se estabilizam: 40 dos 92 municípios possuem graduação. Disponível em: http://www.robertomoraes.com.br/2018/10/matriculas-no-ensino-superior-do-erj-se.html

[3] Postagem do blog em 23 set. 2018. Apesar da crise, as matrículas no ensino superior em Campos se estabilizam em 20 mil graduandos. Disponível em: https://www.robertomoraes.com.br/2018/09/apesar-da-crise-as-matriculas-no-ensino.html

[4] Postagem do blog em 8 de dez. 2017. Entre 2003 e 2016, as matrículas no ensino superior no ERJ cresceram 36%. Nas instituições públicas cresceram (82%). Mais de três vezes que (25%) o crescimento nas instituições privadas. Disponível em: http://www.robertomoraes.com.br/2017/12/entre-2003-e-2016-as-matriculas-no.html

[5] Postagem do blog em 11 de nov. 2017. Censo do Ensino Superior 2016: Campos com 19,8 mil universitários. E a qualidade? Disponível em: http://www.robertomoraes.com.br/2017/11/censo-do-ensino-superior-2016-campos.html

[6] Postagem do blog em 8 ago. 2015. Cabo Frio, Macaé e Itaperuna são polos de ensino superior, embora região metropolitana ainda concentre 80% das matrículas no ERJ. Disponível em: http://www.robertomoraes.com.br/2015/08/cabo-frio-macae-e-itaperuna-sao-polos.html

domingo, setembro 22, 2019

Nº de matrículas no ensino superior presencial se estabiliza em Campos nos últimos 4 anos: percentual aumenta nas públicas

O blog há mais de uma década publica a evolução das matrículas nas instituições de ensino superior no município de Campos dos Goytacazes, RJ e demais municípios fluminenses. Os números têm sido tabulados para o blog pelo professor José Carlos Salomão Ferreira, usando a base de micro-dados do censo do Inep/MEC, divulgadas nesta última semana.

Com esses dados foram tabulados o número de matrículas no ensino superior (graduação) presencial nas 12 (doze) instituições que atualmente (2018) ofertam vagas no município de Campos dos Goytacazes. O quadro mostra ainda a evolução do quantitativo de matrículas gerais no município desde 2003 até 2018.

Pelo quadro abaixo é possível identificar e destacar duas questões em especial: 
1) Mesmo com a crise econômica, desde 2015, o número de matrículas no total se estabilizou em torno de 20 mil; 
2) Outra observação é que esta estabilidade vem sendo mantida por conta do crescimento de matrículas nas quatro instituições públicas de ensino superior, frente a um declínio de matrículas nas oito instituições privadas do município. Para ver a imagem do quadro em tamanho maior clique sobre ele:



Em termos percentuais o crescimento das vagas nas instituições públicas é significativo. Saiu de 17% em 2003 para 42% em 2018, ao passo que nas instituições privadas reduziu de 73% para 58%, embora ainda seja maioria no município de Campos dos Goytacazes, assim como em quase todo o país. 

Considerando o descaso que desde o golpe político de 2016 que vem sendo dado às instituições públicas de ensino superior em todo o Brasil, com redução de orçamento para investimentos, custeio e bolsas, o fato merece registro que demonstra não apenas a capacidade de resistência institucional, mas a disposição de atender à sociedade, a despeito do pouco caso dos gestores. 

Voltando à quantidade de matrículas no ensino superior em Campos dos Goytacazes, em 2018, o Instituto Federal Fluminense (IFF) era a instituição que possuía a maior quantidade de matrículas com 3.883 universitários. Essa liderança foi alcançada no ano de 2017, quando o IFF ultrapassou pela primeira vez a Estácio de Sá, para se tornar a instituição com o maior número de matrículas na graduação presencial no município de Campos dos Goytacazes, RJ.

Ainda pelo Censo 2018 (MEC/Ineep-2018), no município de Campos dos Goytacazes, a seguir estão: Estácio com 3.175 matrículas; a UCAM-Capos com 2.442 matrículas e a UFF-Campos com 2.338 universitários. Seguem o Isecensa com 2.003 matrículas e a Uenf com 1.707 universitários. 

Por fim, é possível ainda estimar que juntando aos números de matrículas nas graduações presenciais com aquelas nos cursos de pós-graduação (especialização, mestrado e doutorado) estimadas em cerca de 5 mil, o número total de estudantes universitários no município de Campos dos Goytacazes deve continuar se situando na faixa das 25 mil matrículas. [4] [5] [6] [7]

Aqui está um dos maiores potenciais a ser utilizado para pensar o território e a região. Interessante que ele resista à economia petrorrentista em decadência desde 2015 na região Norte Fluminense.

Adiante, o blog vai publicar o quantitativo de matrículas no ensino superior (graduação) presencial em todos os municípios do ERJ. Abaixo nas referências, o blog lista os links das postagens anteriores sobre o quantitativo de matrículas em Campos dos Goytacazes, RJ.


Referências:
[1] Postagem do blog em 23 de setembro de 2018. Apesar da crise, as matrículas no ensino superior em Campos se estabilizam em 20 mil graduandos. Disponível em: http://www.robertomoraes.com.br/2018/09/apesar-da-crise-as-matriculas-no-ensino.html

[2] Postagem do blog em 11 de novembro de 2017. Censo do Ensino Superior 2016: Campos com 19,8 mil universitários. E a qualidade? Disponível em: http://www.robertomoraes.com.br/2017/11/censo-do-ensino-superior-2016-campos.html

[3] Postagem do blog em 8 de dezembro de 2017. Entre 2003 e 2016, as matrículas no ensino superior no ERJ cresceram 36%. Nas instituições públicas cresceram (82%). Mais de três vezes que (25%) o crescimento nas instituições privadas. Disponível em: http://www.robertomoraes.com.br/2017/12/entre-2003-e-2016-as-matriculas-no.html

[4] Postagem do blog sobre o Censo no anos anteriores. Em 23 nov. 2016.
Campos aumenta nº estudantes no Ensino Superior para 19,3 mil matrículas. Disponível em: http://www.robertomoraes.com.br/2016/11/campos-aumenta-n-estudantes-no-ensino.html

[5] Postagem do blog em 1 de mar. 2016. Campos possui 18 mil alunos no Ensino Superior. Disponível em: http://www.robertomoraes.com.br/2016/03/campos-possui-18-mil-alunos-no-ensino.html

[6] Postagem do blog em 18 de ago. de 2015. Ensino superior em Campos perde 4 mil matrículas em 5 anos. Disponível em: http://www.robertomoraes.com.br/2015/08/ensino-superior-em-campos-perde-4-mil.html?m=1

[7] Postagem do blog em 31 jul 2015. Campos tem 17,1 mil alunos matriculados no Ensino Superior. Disponível em: http://www.robertomoraes.com.br/2015/07/campos-tem-171-mil-alunos-matriculados.html


PS.: Atualizado às 13:54: para breve acréscimo no texto.
PS.: Atualizada às 10:58 de 23/09/2019: para corrigir percentuais do quadro acima.

sábado, setembro 21, 2019

Indústrias de base não param de despencar no Brasil

A indústria de base do Brasil segue desmanchando em meio à recessão e ao desgoverno do país.

Os números de julho e agosto mostram o tamanho do desastre sobre dois setores que impactam várias outras cadeias produtivas: química e siderurgia.

A indústria química nacional tem mais quebra de produção no Brasil e aumento e recorde com as importações. Noutro setor de base, as siderúrgicas, a produção brasileira de aço bruto em julho registrou queda de 13,4%. No ano a queda é de 5,4% com volume de 22,2 milhões de toneladas.

Enquanto isso, até um dos principais representantes do mercado no Brasil, Armínio Fraga, ex-presidente do Banco Central no governo FHC e atual gestor do fundo de investimento Pátria diz que "a desigualdade de renda no Brasil é extrema... é preciso atacar o quanto antes as desigualdades para deslanchar um círculo virtuoso de crescimento inclusivo e sustentável."

Ultraliberalismo na veia há mais de três anos, se propunha a ser uma "ponte para o futuro", mas parece um salto do despenhadeiro.

quinta-feira, setembro 19, 2019

A geopolítica da reeletrificação e as transformações no território

Divulgação acadêmica. Artigo "A geopolítica da reeletrificação e as transformações no território" foi publicado no livro "La electricidad y la transformación da la vida urbana y social", editado pela Universidade de Barcelona/Geocrítica, junto ao CIDEHUS, em comitê formado também por pesquisadores da Universidade de Évora. 

O livro compêndio é resultado das participações e discussões que aconteceram no V Simpósio Internacional de la Historia la Electrificación, realizado entre os dias 6 e 11 de maio de 2019, em Évora, Portugal. 

A edição foi organizada pelos professores Horácio Capel e Miriam Zaar do Departamento de Geografia da Universidade de Barcelona. Aqui neste link pode ser acessado a apresentação, introdução, mais o índice dos 43 textos publicados, junto das considerações finais. 

O texto de minha autoria A geopolítica da reeletrificação e as transformações no território, capítulo 1 (p.16-36) pode ser acessado no link abaixo:
http://www.ub.edu/geocrit/Electricidad-y-transformacion-de-la-vida-urbana/RobertoPessanha.pdf

Além disso, disponibilizo abaixo uma espécie de resumo (introdução) do referido artigo, assunto que já comentei aqui no blog em algumas postagens. Junto fecho com uma das figuras do artigo. A figura 5 (p.24), um esquema gráfico sobre as "estratégias de reprodução no capitalismo contemporâneo a partir das frações".


A geopolítica da reeletrificação e as transformações no território 

Esta comunicação tem o objetivo de chamar a atenção para o processo de expansão da eletrificação no mundo a partir de um uso mais intenso da energia elétrica como parte dos renováveis desde sua geração até seu uso na produção industrial, utilização predial, nos serviços e área cultural. As energias renováveis consistem em fontes de energia geradas a partir de processos e recursos naturais continuamente reabastecidos em uma escala de tempo humana e incluem a energia solar, calor geotérmica, energia eólica, energia das marés, energia hídrica (água), além de várias formas de bioenergia (biomassa), sendo parte da geração elétrica também oriunda dos renováveis. De modo mais recente e gradualmente mais amplo, a eletrificação se amplia nos transportes, incluindo entre esses a frota mundial de veículos rodoviários, trens e caminhões, e, em um futuro mais à frente, também os navios e aviões. 

Com o objetivo de apresentar elementos para uma primeira análise sobre as possíveis mudanças na geopolítica da energia e de sua relação com a produção social do espaço, a pesquisa se funda na interpretação que o professor Elmar Altvater faz sobre a evolução do capitalismo lubrificado pelo petróleo em seu livro O fim do capitalismo como o conhecemos (2010), no conceito de frações e movimentos do capital sobre o espaço nas leituras de David Harvey (2013 e 2018), Allen Scott e Michael Storper (2018), e ainda nos processos de urbanização e globalização decorrentes dessas relações, nos estudos de Saskia Sassen (2005). 

A investigação, a fim de construir análises e interpretações, utiliza basicamente o exame documental, apropriando-se de estudos, relatórios e informações de várias fontes governamentais, institutos de pesquisas, universidades, sociedade civil, mídia e redes sociais. Consistindo de um processo já em curso no centro capitalista, a denominada reeletrificação necessita ser melhor conhecida no que se refere aos aspectos que envolvem as transformações decorrentes dessa migração energética sobre a organização do território e sobre a urbanização. Em virtude disso, o texto aborda a evolução histórica que resulta no conceito de reeletrificação, identificando-o com a migração energética, os efeitos sobre a geopolítica, a demanda de novos e intensivos capitais, o uso dos transportes e a interferência nos circuitos econômicos que produzem o espaço e o urbano. A geopolítica da reeletrificação e as transformações no território.

As conclusões, mesmo que parciais, apontam para uma profunda contradição entre a neoeletrificação e a vigente enorme exclusão da eletrificação em regiões específicas do mundo. A organização de novas e avançadas tecnologias de produção e uso de energia que tendem a transformar mais ainda os circuitos econômicos e as aglomerações urbanas em várias regiões do mundo convive, na atual conjuntura, simultaneamente com comunidades que, um século depois, ainda não têm acesso a esse serviço público considerado básico. Fato que vem reforçar a atualidade da interpretação sobre o desenvolvimento desigual e combinado no mundo. Além disso, observam-se similaridades do presente com o uso inicial da eletricidade na Europa e nas Américas (século XIX), tendo sido, apenas posteriormente, estendida de forma gradual às demais nações do mundo. As investigações identificam, além do mais, que a migração energética – com a “neoeletrificação” – já começou a produzir efeitos sobre a organização e o desenvolvimento dos circuitos econômicos, com importantes repercussões sobre as metrópoles e as cidades. 

PESSANHA, 2019, P.24. A geopolítica da reeletrificação e as transformações no território. 

quarta-feira, setembro 18, 2019

A relação cada vez mais intensa da Globo com os esquemas financeiros

Veja aí mais uma prova como o sistema Globo amplia seus negócios financeiros decorrentes do poder de sua mídia comercial.

Uma corporação (como já mostramos aqui) que lucra muito mais com o financeiro do que com os negócios do jornalismo e da mídia.

Isso explica suas linhas editorais e os engajamentos do seu jornalismo em pautas políticas com interesses basicamente comerciais e financeiros, apesar dos esforços individuais de alguns jornalistas. 

A Globo gosta porque isso passa uma "aura" de neutralidade para ainda tentar manter algum crédito entre os desavisados que consomem ingenuamente suas narrativas. 

Tudo isso explica como a corporação foi se transformando no partido político que conhecemos.
Veja este novo negócio.

A Globo que já sócia da Órama Distribuidora de títulos e Valores Imobiliários (veja não é anunciante de suas mídias), agora se juntou à fintech Stone, onde diz que investe R$ 461 milhões (como as chamadas permutas) para faturar também com as maquininhas que atuam no braço financeiro articulado aos fundos.

Por isso você vai encher o saco de ouvir e ver os anúncios da Stone como vê da Órama e XP Investimentos. Aliás, esses esquemas financeiros, já são hoje um dos maiores "anunciantes" (sócios) das empresas de mídia no Brasil.

Insisto que não é possível compreender o capitalismo contemporâneo em sua etapa hegemonicamente financeira, sem conhecer como tudo isso tem poder sobre a política engolindo a democracia, transformada em plutocracia, com governo para dos ricos e para os ricos.

PS.: Matéria do InfoMoney: https://www.infomoney.com.br/negocios/grandes-empresas/noticia/8623150/globo-se-junta-a-fintech-stone-para-entrar-na-guerra-dos-cartoes?fbclid=IwAR004PWgvbvA9I6ZSfrTj2XWO1SzpMEwwPCRqjL_NzD8vvqpk1PE_5XsEBw

segunda-feira, setembro 16, 2019

A relação entre produção imobiliária e o sistema financeiro: a valorização e a capitalização entre as fases do ciclo econômico

A relação cada vez mais imbricada entre a produção imobiliária e o setor financeiro (bancos e fundos de investimentos), fica ainda clara, com essa matéria aqui, dos jornalistas Glauce Cavalcanti na edição de hoje (16 set. 2019) no jornal O Globo, e no "print" da manchete da mesma ao lado. A reportagem se inicia assim:

"Os cinco principais bancos do país — Caixa, Banco do Brasil, Bradesco, Itaú Unibanco e Santander — detêm entre 90 mil e cem mil imóveis retomados em pagamento a dívidas, segundo levantamento da ReSale, plataforma especializada na venda desses imóveis e cujo controle foi comprado pelo BTG Pactual em maio. Este total equivale a 74% dos 121,5 mil imóveis novos e prontos para venda no país, de acordo com dados da Abrainc, entidade que reúne as incorporadoras.

Os cinco bancos fecharam o primeiro semestre do ano com R$ 18,14 bilhões em bens retomados por inadimplência, a maioria imóveis, um avanço de 14,4% em um ano. A Caixa, sozinha, detém 61% do total, com R$ 11 bilhões. No fim de 2018, o banco estatal somava perto de 63 mil imóveis na carteira. Eles estavam avaliados em R$ 11,5 bilhões. - Estimamos até cem mil imóveis (retomados), mas, se os bancos seguissem à risca a régua de cobrança desse bens, esse número seria até três vezes maior. E eles não o fazem justamente pela dificuldade que encontram para vendê-los — diz Marcelo Prata, fundador e diretor executivo da ReSale. — Banco não é imobiliária."

Tratam-se de duas frações do capital que são lubrificadas pelo fundos financeiros e oscilam entre as fases de boom e colapso do ciclo econômico.

Na fase de expansão ampliam os investimentos no território com vários lançamentos e na fase de colapso recolhem os excedentes gerados pelas rendas derivadas do trabalho e da propriedade.

Entre estas fases se desenvolvem os circuitos do valor material (valorização) no circuito espacial de produção e o circuito do valor fictício (capitalização) da reprodução do dinheiro como mercadoria. 

Um prescinde do outro. Trato deste assunto de forma mais aprofundada no 1º capítulo do meu livro A ´indústria´ dos fundos financeiros: potência, estratégias e mobilidade no capitalismo contemporâneo. 

Assim, os bancos sugam como vampiros essas rendas até que nova fase de expansão em novo ciclo chegue.

Confira a matéria aqui na edição de O Globo de hoje para compreender melhor empiricamente, parte dos processos e as estratégias destes setores econômicos. 

Parte destas informações, aliadas à outras que descrevo no livro, reforçam a tese sobre a trajetória que passei a chamar de "capital helicoidal", em que o capitalismo contemporâneo passou a atuar chegou num patamar de maior apropriação e acumulação que esgarçam e ameaçam o sistema.

PS.: Atualizado às 14:30: para acréscimo de parte matéria de O Globo.

Divulgação acadêmica: VII Semana da Geografia da UFF-Campos e lançamento de livros

Nessa próxima terça-feira (17/09), às 18:30, teremos na UFF-Campos, como parte da VII Semana de Geografia, mais lançamentos de livros.

Os professores da Geografia da UFF-Campos lançarão um livro organizado por Erica Moreira Santos, Glauco Rodrigues, Leandro Santos, Silvana da Silva e Tatiana Ramos, que tem como título “Território, Economia Urbana e Conflitos Territoriais” editado pela Letra Capital.

Na ocasião estaremos lançando mais uma vez o livro “A ´indústria´ dos fundos financeiros: potência, estratégias e mobilidade no capitalismo contemporâneo” e também o livro organizado em conjunto com os professores Floriano Oliveira, Leandro Dias, Regina Tunes e por mim “Espaço e Economia: geografia econômica e economia política”. Ambos editados pela Editora Consequência.

A VII Semana de Geografia (programação aqui) acontecerá junto do I seminário de pesquisa do programa de Pós-graduação em geografia UFF Campos e será realizada nos dias 16 a 18 de Setembro de 2019, na Universidade Federal Fluminense – Polo Universitário Campos dos Goytacazes – RJ que este ano tem como tema: “Geografia e os Desafios Educacionais e Socioambientais”.

sábado, setembro 14, 2019

A conjuntura político-econômica do Brasil atual exige organização e luta para superar o desastre completo

O quadro econômico nacional não tem como melhorar com essa fixação no ajuste fiscal, que hoje apenas mantem o medo do caos, para assim garantir a mexida na Previdência Social dos trabalhadores.

O(des) governo já sabe disso. A bomba murcha Ipiranga - que já foi posto - nunca administrou nada a não ser a riqueza dos outros como empregado dos bancos e depois como banqueiro. Nunca pensou no país, apenas tinha a ideia de seguir Friedman e Hayek, caminho que outros menos obtusos, sabiam que para ser seguido necessitava de adaptações.

E pior de tudo é que tudo que depender, unicamente, do presidente não dará certo.

O des(governo) pode chegar ao final do mandato por falta de opções. Porém hoje, o mais provável é que queiram apostar no Mourão, depois de ultrapassados dois anos, onde o impedimento não exigiria novas eleições.

Nesta hipótese, tentariam garantir uma transição para um “caminho centrista”, onde imaginam arrumar, o que não conseguiram em 2018: um “outsider”. Ainda assim, apesar da recessão já ir para o quarto ano seguido, nada indica que terá algum alívio com crescimento significativo antes de 2022, ano da eleição presidencial.

O cenário externo com a guerra comercial EUA x China deve seguir piorando, o que deve demandar menos produtos que exportamos. As ameaças de antigos parceiros compradores das nossas commodities (em especial alimentos, mas também minerais) contra o Brasil não param de crescer diante das bizarrices bolsonarianas.

Na intenção do des(governo), a privatização de quase tudo, em especial Petrobras (petróleo e gás) e Eletrobras - entre outras - nessa época de crise será feita por trocados, porque são poucos players e fundos que admitirão correr riscos num cenário destes e num espaço governado por um sem-noção.

Além disso, fora o entreguismo, a venda de muitos ativos quase ao mesmo tempo, reduz muito os valores a serem obtidos, ainda mais em tempos de crise geral.

O desmonte do governo federal e dos programas e políticas públicas, decorrentes do ajuste fiscal sem freio e da ausência de capacidade de gerar políticas públicas, mesmo que sob a vertente liberal, não inclusiva e de estado mínimo, só reduz ainda mais a capacidade da economia ganhar algum fôlego no presente e futuro imediato até 2022.

Não é por outro motivo que Armínio Fraga, o gestor ex-presidente do Banco Central de FHC e gestor de fundo de investimento, Fundo Pátria, que controla mais de 100 diferentes fundos de investimentos que somam ativos de mais de R$ 15 bilhões mostrou um certo desespero na entrevista da quinta-feira (12 set) da Globo News.

Num quadro destes, é evidente que a defesa da nação e da democracia se ampliarão. A cada dia mais e mais retomam forças para lutar por alternativas.

O desejo por uma frente que lidere essa alternativa pode servir de mote, mas não deve ser empecilho à organização para mudar o rumo das coisas.

Será o processo que definirá forma e quais lideranças assumirão esse papel para retomada de um projeto de nação que o país necessita. No meio desta conjuntura, o Brasil urge que as forças democráticas voltem a se organizar.

sexta-feira, setembro 13, 2019

Agora restou entregar os gasodutos que escoam o gás do Pré-sal: vampirismo e crise de lesa-pátria

O STF autorizou a Petrobras a ir fatiando as suas partes para entregar às petroleiras privadas e aos fundos estrangeiros.

Tudo a preço de xepa, aquela do final de feira.

Já entregaram a malha de 9 mil quilômetros de gasodutos para dois fundos estrangeiros através das subsidiárias NTS e TAG.
Valor - capa 13 set. 2019.

A do Sudeste (NTS) para os canadense e a o do Norte-Nordeste (TAG) para os franceses.
Agora vão entregar a rede de gasodutos offshore (submarino) a que escoa a colossal produção de gás do pré-sal.

O Rota 1, 2 e 3 que interligam os mega-campos da Bacia de Santos e Pré-sal e que se ligam às unidades de compressão (UPGN) em Caraguatatuba. Macaé e Itaboraí.

Tudo construído pela Petrobras e agora entregue de graça.

Renda de monopólio, porque não há outra rede para escoar todo esse gás natural.

A Petrobras pagou em 18 meses para os novos donos dos 9 mil km de dutos vendidos, mais do que aquilo que ainda nem recebeu pela venda, porque a tarifa é paga à vista e a venda foi feita à prazo para os novos e felizes donos dessas redes.

Isso não é desinvestimento. É entreguismo. É pior que vampiro porque além de sugar o sangue (gás) também controla as veias (gasodutos). Crime de Lesa-pátria!

PS.: Atualizado às 23:24: para incluir mapa abaixo.

Valor P.B1. 13 ago. 2019.

terça-feira, setembro 10, 2019

As previsões de demandas de infraestrutura e equipamentos para dobrar a produção de óleo e gás no Brasil até 2030, comprovam as razões do desmonte da Petrobras e das empreiteiras no país

Dois números servem para ilustrar a demanda na próxima década (até 2030) das para-petroleiras (empresas que fornecem equipamentos/ tecnologia e prestam serviços à petroleiras) e das empreiteiras que constroem infraestruturas que atendem o setor de petróleo e gás no Brasil.

Segundo a ANP, o Brasil será em 2030, o 4º maior produtor de petróleo do mundo. Sairá de uma produção atual de 3,3 milhões de barris por dia (mibpd) hoje, para 7 milhões de bpd em 2030, quando deverá estar exportando entre 4 e 5 milhões barris por dia (mibpd), demandando assim mais terminais portuários, navios petroleiros, etc.

Em termos de gás natural - o combustível da transição energética (cada vez mais disputado) -, o Brasil sairá de uma produção atual de 59 milhões de m³/dia, para 147 milhões de m³/dia, também em 2030.

Para viabilizar esse aumento colossal da produção no Brasil de petróleo e gás natural, haverá uma demanda extraordinária de infraestrutura de terminais portuários, novos ramais de gasodutos, indústria de equipamentos, serviços e tecnologia em óleo e gás (O&G).

Por essa projeção para 2030, o Brasil será o quarto maior produtor mundial de petróleo, só ficando atrás dos EUA, Arábia Saudita e Rússia. Assim, em 2030, em termos de produção de óleo e gás, o Brasil estará na frente do Canadá, Irã, Iraque, Emirados Árabes, Kuwait, México, etc.

Isso ajuda a explicar porque o interesse sobre o Brasil se tornou algo parecido com aquilo que se tem desde a década de 70, com os países do Oriente Médio, onde os conflitos regionais estimulados por outras nações, em especial os EUA não cessam desde então.

Nesse sentido é interessante ler o artigo do Gonzaga Alves publicado aqui no portal GGN, em 2 de agosto com o título "A Lava Jato destruiu as construtoras brasileiras para entregar obras do país às empreiteiras dos EUA".

Entre outras questões e interpretações, Gonzaga resumiu o caso: "A submissão do Brasil foi o maior sucesso geoestratégico dos Estados Unidos nas últimas décadas. Todos os objetivos foram atingidos e o país, antes independente e orgulhoso de seu crescimento, hoje está completamente submetido economicamente, politicamente e diplomaticamente aos interesses dos EUA."

No mesmo texto, o autor comenta que "os governos do Brasil e dos EUA, assinaram dia 01 de agosto de 2019 um memorando, para entregar bilionárias obras de infraestrutura do país a construtoras estadunidenses". Gonzaga também afirma que " esse acordo só foi possível porque a Lavajato destruiu as empreiteiras brasileiras, que chegaram a ser as mais avançadas e competitivas do mundo, o que é comprovado pelas frequentes vitórias em concorrências internacionais. A proposta abre as portas do Brasil para empresas como a Halliburton e suas subsidiárias, consideradas as mais corruptas do planeta ... "Um dos melhores negócios para as empresas dos EUA é a reconstrução da infraestrutura do país, destruída pelas guerras... Uma das principais beneficiadas, mas não a única, é a Halliburton – que foi administrada pelo vice-presidente americano, Dick Cheney, entre 1995 e 2000, quando ele se afastou formalmente para assumir a candidatura de vice-presidente na chapa de George W. Bush ... A Halliburton entrou no Iraque oficialmente para “apagar incêndios em poços de petróleo”.

Assim, essa colossal demanda de infraestrutura de terminais portuários, rede de dutos (gasodutos e oleodutos), embarcações, plataformas, sonda e embarcações de apoio para exploração offshore de petróleo e escoamento da produção serão entregues às empreiteiras estrangeiras, em especial americanas.

Da mesma forma, com menos exigências na Política de Conteúdo Local (PCL), a indústria naval, de equipamentos e tecnologias para atender o setor petróleo virá de fora do país, gerando empregos e impostos em outro país, inclusive com o Brasil, oferecendo isenções e subsídios bilionários (trilhionários) para estas corporações importarem equipamentos e tecnologia de suas matrizes, sem pagar impostos no Brasil. 

No meio de tudo isso escancaram o setor de gás aos players estrangeiros com o tal "novo marco legal do gás natural" com a promessa vá de aumentar a competição para reduzir o preço aos consumidores finais. Ao mesmo tempo fatiaram e estão entregando as subsidiárias da Petrobras, a BR Distribuidora, as refinarias, ou seja o mercado nacional de combustíveis às tradings e fundos financeiros globais. Assim, como entregaram cerca de 9 mil quilômetros de gasodutos, como também vários campos de petróleo tanto das bacias de Campos, Santos, quanto do magnífico pré-sal, onde já se produz um barril de petróleo a um custo líquido em torno dos US$ 6. 

Uma aberração. Hoje, ficam mais claros os processo, os agentes e as redes que atuaram nessa trama, facilitando a compreensão de como foi gerado o golpe institucional que mudou a orientação da política no Brasil a partir de 2013-2015 e 2016.

Muito mais do que descobrir e punir desvios de gerentes e gestores de corporações estatais e privadas do setor, o que interessava mais especialmente era o seu desmonte desta capacidade instalada no Brasil. Para, assim, desviar destas corporações e das empreiteiras brasileiras, toda essa oportunidade que será gerada em nova fase do ciclo petro-econômico gerada no país, a partir da descoberta das reservas do pré-sal, a maior fronteira petrolífera descoberta no mundo nas últimas duas décadas. 

O argumento foi que os gestores da estatais brasileiras e empreiteiras eram corruptos, como se as corporações globais não agissem de forma similar, com notícias a que se tem acesso diariamente e nem por isso, essas empresas são punidas, apenas os seus dirigentes. 

Assim, hoje se sabe que procuradores e juízes praticaram não apenas corrupção dos meios jurídicos, mas criaram as condições para entregar as riquezas do Brasil e sua soberania, ampliando ainda mais nossa dependência.  

Mais claro impossível. A cada dia, com as informações obtidas sobre as tramas da Lava Jato como base para o golpe institucional de 2016 (de base parlamentar-jurídico-midiático), fica mais evidente os objetivos. 

As razões nunca foram para identificar e punir os desvios e sim, submeter o país a uma maior dependência e submissão no plano da geopolítica a fim de atender os interesses financeiros e das corporações globais que controlam também a política nas nações que disputam a hegemonia no mundo.

quinta-feira, setembro 05, 2019

Sinal de alerta: decisão da ANP poderá reduzir participações especiais (PE) pagas aos governos

Em março desse ano, a Agência Nacional de Petróleo (ANP) notificou a Petrobras que estava terminando de analisar a aprovação de um "Acordo de Individualização da Produção" (AIP) da jazida de Lula, que compreende áreas do contrato de concessão BM-S-11 (campo de Lula) e do contrato de cessão onerosa campo sul de Lula (bloco Sul de Tupi).

Essa jazida compartilhada de Lula compreende áreas do contrato de concessão BM-S-11 (campo de Lula), operado pela Petrobras (65%) em parceria com Shell (25%) e Galp (10%) e do contrato de cessão onerosa campo sul de Lula (bloco Sul de Tupi), 100% da Petrobras.

O Plano de Desenvolvimento para essa área foi aprovado em reunião da diretoria da ANP que teve o nº 0914 de 10/01/2018 e Resolução nº 007/2018 que pode ser visualizada aqui onde consta o mapa de sua localização ao lado. Nº do Contrato: 48610.012913/2010-05 cujo operador é a Petrobras S.A.

A ANP diz que o acordo estabelece participações de cada uma das partes e regras da execução conjunta das operações, a Petrobras passa a ter 67,2% na jazida compartilhada de Lula, como operadora. A Shell terá 23,02% enquanto a Petrogal terá 9,%. A estatal Pré-Sal Petróleo SA (PPSA), que representa a União no acordo, terá 0,55%.

Porém, mais que uma decisão administrativa, o chamado acordo trará repercussões sobre as parcelas pagas aos governos conhecidas como Participações Especiais (PE), por parte das petroleiras, por conta de grandes produções em campos de petróleo explorados e que são repassadas em quotas trimestrais à União, governos estaduais e municipais. 

Em síntese, a Participação Especial (PE) é uma compensação financeira extraordinária devida pelos concessionários de exploração e produção de petróleo ou gás natural para campos de grande volume de produção. Se a contabilidade da produção for individualizada ela influenciará nos valores pagos aos entes governamentais.

Às petroleiras interessam ficar com maior parte da renda do petróleo que é obtido ao longo da cadeia produtiva e não apenas na produção. Em todos os lugares do mundo, onde se produzi petróleo, a renda petroleira é e será sempre disputada entre governos e corporações.

Assim, diante de um governo que atende às demandas do mercado, sem observar as consequências, essa medida viria como uma forma, no entender da ANP de incentivar ainda mais a participação das corporações privadas. As corporações assim capturariam uma maior renda sobre a produção de petróleo e gás no Brasil, sem levar em conta o interesse dos donos dessa jazida que é a União e o povo brasileiro.

O Acordo de Individualização da Produção (AIP) funcionaria na prática, como o inverso do que ocorreu com a unificação (Unitização) das áreas do Parque das Baleias, na Bacia de Campos, mas no litoral do Espírito Santo.

Por conta desse acordo a Petrobras no início desse ano decidiu pagar, em valores atuais, cerca de R$ 3,1 bilhões retroativos decorrentes de participações especiais no supercampo. Deste total, R$ 1,1 bilhão será a vista logo após a conclusão do acordo e o restante divididos em 60 parcelas mensais.

Com essas alterações sobre a individualização em relação ao campo de Lula, os cálculos sobre a produção que são feitos para definir as quotas dos estados e prefeituras poderá ser menores. Esse fato ainda vem sendo pouco percebido pelo governo do ERJ e municípios fluminenses que serão afetados.

Em três parcelas pagas até agora neste ano de 2019 (fevereiro, maio e agosto), o ERJ já recebeu só como PE mais de R$ 6,5 bilhões e os municípios de Maricá e Niterói cada um cerca de R$ 720 milhões e R$ 630 milhões, respectivamente. Fora alguns acréscimos pagos a título de recálculo , conforme lista da ANP nas três imagens ao final dessa postagem.

Sobre o assunto, o blog ouviu o superintendente de Petróleo, Gás, Biocombustíveis e Tecnologia da Prefeitura de São João da Barra, Wellington Abreu que afirmou:

“Venho acompanhando com atenção diuturna essa mega movimentação do Petróleo e do Gás em nosso país, as mudanças de legislação, os investimentos, desinvestimentos e as megaoperações. Em especial no que tange a Bacia de Campos que é a responsável pelo pagamento dos Royalties recebíveis pelo município de  São João da Barra e de toda região Norte Fluminense. Converso sempre com a Prefeita Carla Machado que se mostra por demais atenta ao assunto, não só pela questão dos royalties mas também pelo fato dos negócios da Porto do Açu serem na sua maioria na área de Petróleo e Gás. Tenho feito contatos com governo do estado do Espírito Santo, São Paulo e do Rio de Janeiro afim de defender nossos direitos quanto aos interesses municipais e estaduais com relação a Royalties e Participação Especial. O Pré-Sal brasileiro tem custo de produtividade igual ou melhor que os campos do Oriente Médio e está saindo a preço de (banana) para as mega petroleiras internacionais. Até mesmo a Saudi Aramco que uma mega petroleira estatal saudita está aqui no Brasil e o que me trás mais espanto é não haver limite para se criar mais rentabilidade para quem está vindo. Precisamos de Desenvolvimento e geração de empregos, mas com responsabilidade e respeitar a constituição e as leis que nos asseguram as compensações e tributos. A (resistência) será feita de forma técnica, ágil e responsável em todas as esferas.”



 

quarta-feira, setembro 04, 2019

Lançamos hoje livro Espaço-Economia: Geografia Econômica e Economia Política

Hoje na USP como parte do XIII Encontro Nacional da Associação Nacional de Pós-Graduação em Geografia – ANPEGE – lançamos o livro “Espaço e Economia: Geografia Econômica e a Economia Política” organizado por Floriano Godinho de Oliveira, Leandro Dias, Regina Tunes e Roberto Moraes Pessanha.

A publicação é fruto das apresentações e debates do III Colóquio Espaço e Economia realizado entre os dias 10 e 12 de junho de 2019, na UERJ, onde se constituiu a Rede Latino-americana Espaço-Economia: Geografia Econômica e Economia Política (RELAEE).

O livro lançado hoje na XIII Enanpege, na USP, reforça a decisão aprovada no III Colóquio Espaço-Economia de organização de uma rede para debater a Geografia Econômica sob a concepção da Economia Política.

A ideia é de reforçar a rede para debater esse tema para além dos eventos bianuais para a formalização da Rede Latinoamericana de Espaço e Economia. Este livro representa mais um ato de resistência diante da atual realidade do país.

A publicação de 600 páginas reúne 19 textos organizados em 3 (três) partes que constituíram os debates do III Colóquio Espaço-Economia

a) Reestruturação Espacial, Metropolização, Inovação e Desenvolvimento Econômico-Regional;

b) Política, Organização Social do Território e Redes Técnicas;

c) Processos de Financeirização e Espoliação do Território.

O livro reúne textos do autores:
André Santos Rocha; Beatriz Rufino; César Martins; Cláudio Zanotelli; Clélio Campolina; Daniel Sanfelici; Daniel Rivas; Denis Castilho; Edilson Pereira Junior; Eliseu Sposito; Floriano Godinho de Oliveira; Leandro Bruno Santos; Leandro Dias de Oliveira; Leda Buonfligio; Marcio Rufino; Maria Terezinha S. Gomes; Paulo Cesar X. Pereira; Regina Tunes; Roberto Moraes Pessanha; Rodrigo Hidalgo; Sandra Lencioni e Voltaire Peterson.

sábado, agosto 31, 2019

Debatendo os impactos do Circuito Espacial do Petróleo de Sergipe

Desde quarta-feira estou em Aracaju participando na Universidade Federal de Sergipe de um seminário para discutir e questionar os impactos do Circuito Espacial do Petróleo deste estado sobre as suas comunidades.

Trata-se do projeto do Observatório Social dos Royalties que é parte do Programa de Educação Ambiental das Comunidades Costeiras (PEAC), desenvolvido pelo Departamento de Geografia (UFSE) que envolve professores, pesquisadores e lideranças de 95 comunidades em 12 municípios considerados como das áreas atingidas por esta cadeia produtiva. Veja aqui neste link mais detalhes sobre o evento.

Na quarta-feira participamos de uma audiência pública de um empreendimento de uma mini-refinaria (Renoxi – Refinaria Noxis Sergipe) que tenta se instalar no município de Barra dos Coqueiros, na região metropolitana de Aracaju, desenhada para ser instalada junto ao porto do município (Terminal Marítimo Inácio Barbosa – TMIB).

Junto com a Termelétrica Celse (em fase final de construção) controlada por um fundo americano e um parque eólico, esses empreendimentos são vistos pelo governo do estado como um “projeto estruturante” para a constituição do que chamam de um complexo portuário-industrial.

Na quinta e sexta-feira (29 e 30/09) participamos de mesas-redondas que debateram o uso dos royalties do petróleo nos municípios sergipanos, assim como a geopolítica do petróleo e suas consequências para toda a região do circuito espacial do petróleo sergipano, que guarda muitas semelhanças com a instalação do Porto do Açu e da extensão do Circuito Espacial do Petróleo e dos Royalties do ERJ. (confira aqui o link com matéria sobre o assunto)

Além da exploração de petróleo offshore, da usina termelétrica (UTE), os terminais portuários e vários projetos de energia e logística estão sendo desenhados na região sem levar em conta as comunidades nativas e originárias que estão sendo atingidas como aconteceu com os pequenos proprietários da região do Açu.

Além do Ibama e da Petrobras, pesquisadores, bolsistas do programa e mais de 80 lideranças de moradores das comunidades, pescadores e quilombolas atingidos, discutiram os impacto dessa cadeia produtiva e questionaram o fato de que para eles sobram os ônus.

Impressiona o grau de conhecimento dessas comunidades pelos seus direitos, tanto na questão dos royalties, quanto nos riscos desses novos empreendimentos. O interesses delas para saber sobre as relações com os fundos e o poder político é muito grande. A partir do evento produziram a “Carta de Aracaju” com relatos, questionamentos e exigências. 

Hoje, sábado realizamos uma atividade de campo nessas comunidades. Atravessamos de barco (Tototó) o rio Sergipe e fomos ao município de Barra dos Coqueiros. Estivemos na comunidade Quilombola Pontal da Barra e com pescadores da Praia do Jatobá. 

Vimos de perto os problemas e os impactos derivados da presença das atividades portuárias, da instalação da grande usina termelétrica, um parque eólico e dos empreendimentos que estão sendo projetados para esse circuito econômico derivado em especial da atividades do setor petróleo. Assim como no Açu essa trata-se de uma área de restinga.

O capital que sustenta a indústria do petróleo é cada vez mais global e menos estatal. Ele vem em busca da extração de riquezas. Gera a renda petrolífera que é distribuída em toda a sua cadeia produtiva e assim as grandes corporações do setor querem deixar o mínimo possível nestas regiões de onde extraem essa riqueza. 

As corporações alegam gerar alguns impostos e empregos, mas é fato que essa cadeia produtiva possui características de atuação sobre o território que são muito similares em diferentes regiões do país. Os fundos financeiros e as grandes corporações aportam capital nestas instalações, mas parece que veem as pessoas da comunidades como problemas. Assunto que trato como alguma frequência no blog, que merece e será ainda mais aprofundado adiante.

terça-feira, agosto 27, 2019

Do Ineep: "Petróleo, guerra e corrupção: para entender Curitiba", por Fiori e Nozaki

Confira abaixo o esclarecedor artigo de autoria dos professores José Luis Fiori e William Nozaki, pesquisadores do Instituto de Estudos Estratégicos do Petróleo, Gás e Biocombustíveis
(Ineep da FUP) que foi publicado originalmente aqui no portal GGN. 

O texto ajuda a fazer alguns links sobre as relações de poder que envolve a geopolítica do petróleo, assim como a  forma de atuação do poder econômico que atua neste potente setor econômico que se através de grandes oligopólios e cadeia global.


Petróleo, guerra e corrupção: para entender Curitiba

Por José Luís Fiori[1] e William Nozaki[2]

Os norte-americanos costumam festejar as duas grandes gerações que marcaram sua história de forma definitiva: a geração dos seus founding fathers, responsável pela criação do seu sistema político, na segunda metade do século XVIII; e a geração dos seus robber barons, responsável pela criação do seu capitalismo monopolista, na segunda metade do século XIX. Dentro da geração dos “barões ladrões”, destaca-se a figura maior de John D. Rockefeller, que ficou associada de forma definitiva ao petróleo e à criação da Standard Oil Company, a primeira das “Sete Irmãs” que controlaram o mercado mundial do petróleo até o final da II Guerra Mundial, e ainda ocupam lugar de destaque entre as 15 maiores empresas capitalistas do mundo.

A Standard Oil foi criada logo depois da Guerra Civil, em 1870, mas no final do século XIX, a empresa de Rockefeller era a maior petroleira dos EUA, e a maior fornecedora do querosene que iluminava as grandes cidades de todo o mundo. Segundo seus biógrafos, Rockefeller era um homem piedoso e costumava viajar acompanhado por dois pastores que lhe davam assistência religiosa,[3] mas ao mesmo tempo dirigia sua empresa com métodos impiedosos, na busca desenfreada da ganância capitalista, chegando até a destruição de seus concorrentes sempre que se fizesse necessário. Por isso talvez, seu irmão, William Rockefeller, costumasse se referir à concorrência no mercado do petróleo como um exercício de “guerra e paz”.[4] Na medida em que avançou a centralização do capital, e o petróleo se transformou na commodity mais importante e estratégica do mundo, o comportamento de John Rockefeller virou uma espécie de “paradigma ético” da indústria mundial do petróleo.

No início do século XX, a indústria do petróleo se associou à indústria da guerra e se transformou na “energia” que passou a mover navios, tanques e aviões das Forças Armadas das Grandes Potências, sobretudo na Segunda Guerra Mundial, e em todos os conflitos militares que se seguiram até o século XXI. O petróleo teve papel decisivo na Guerra do Pacífico, desencadeada pelo ataque japonês a Pearl Harbor, em 1941, e foi o motivo central do ataque alemão à União Soviética, em 1941, que se propunha chegar ao Azerbaijão, conquistando o petróleo do Cáucaso e do Mar Cáspio. Depois disso, o petróleo foi decisivo para o Golpe de Estado no Irã, em 1953, patrocinado pelos EUA e pela Inglaterra, e também para a Crise do Canal de Suez em 1956. E voltou a ter papel central na Guerra do Yom Kippur, em 1973, na Guerra Irã-Iraque da década de 80, na Guerra do Golfo, em 1991, na Guerra do Iraque, em 2003, na Guerra da Líbia, em 2011, e na Guerra da Síria que se prolonga até hoje.

Em 1945, logo depois do fim da guerra, os EUA firmaram sua principal aliança estratégica em todo o mundo, e até hoje, com a Arábia Saudita, que naquele momento detinha a maior reserva de petróleo do mundo. Em 1979, depois da Revolução Islâmica do Irã, o presidente Jimmy Carter estabeleceu a sua famosa doutrina estratégica de que tudo o que envolvesse o controle do petróleo do Golfo Pérsico (e do mundo, se poderia agregar) passaria a ser considerado como uma questão de segurança nacional dos EUA. Uma doutrina estabelecida com a plena consciência de que o petróleo também é uma questão de segurança estratégica para todas as demais potências do mundo que disputam as mesmas reservas mundiais que têm dois terços concentrados no território de apenas 15 países, dos quais em 13 as reservas são controladas por seus próprios Estados-nacionais e suas empresas petroleiras estatais.

Essa consciência coletiva de que o petróleo é um recurso indispensável à segurança estratégica dos países acabou consolidando uma parceira indissolúvel entre seus Estados-nacionais e suas empresas petroleiras, na luta pela expansão e monopolização dos recursos e dos mercados petroleiros. Isto também no caso das grandes corporações privadas norte-americanas que operam em conjunto com o governo dos EUA, suas Forças Armadas e suas Agências de Informação. É esta estreita aliança, e a visão do petróleo como uma “commmodity geopolítica”, que explicam a utilização de todo e qualquer meio que seja necessário para assegurar o controle dos novos recursos e mercados que apareçam, mesmo que seja necessário mudar regimes e governos, ou corromper governantes, políticos e executivos, ou mesmo juízes, procuradores, religiosos e quem quer que seja necessário para a realização de seus objetivos estratégicos.

Relembremos apenas alguns casos mais recentes e divulgados pela imprensa internacional, de compra de favores e de promoção de mudança de governos, ou mesmo de guerras civis, motivadas por questões petroleiras, ou financiadas diretamente pelas grandes corporações do petróleo.

1. Nos anos 1990, a Mobil e outras petroleiras americanas teriam pago um suborno de US$ 80 milhões para a conta bancária suíça do presidente do Cazaquistão, Nursultan Nazarbaev, numa operação casada com a Agência Central de Inteligência (CIA) dos EUA;[5]

2. Entre 2000 e 2002, a Chevron teria pago sobretaxas para corromper o Programa Petróleo por Comida, da ONU, na época em que Condoleezza Rice era conselheira daquela empresa;[6]

3. Em 2003, a Exxon teria pago US$ 500 milhões ao presidente da Guiné Equatorial, Teodoro Obiang Nguem Mbasogo, depositados numa conta bancária privada e pessoal nos Estados Unidos;[7]

4. Ainda em 2003, a petroleira norueguesa Statoil teria pago US$ 2,9 milhões para garantir contratos no Irã;[8]

5. Entre 2004 e 2006, Gazprom, a maior empresa de gás natural da Rússia, teria pago suborno em conexão com a construção do gasoduto Yamal, que liga a Sibéria à Alemanha;[9]

6. Em 2005, um inquérito independente liderado por Paul Volcker denunciou um sistema regular de propinas, sobretaxas e pagamentos a indivíduos com acesso ao petróleo iraniano, dentro do Programa Petróleo por Comida, incluindo a petroleira francesa Total, que foi acusada de suborno, cumplicidade e tráfico de influência no período 1996-2003, apesar de ter sido depois inocentada por um tribunal criminal de Paris, tão francês quanto a própria empresa;[10]

7. Em 2006, a empresa francesa Total teria comprado o apoio de políticos e empresários italianos para garantir concessões a preço abaixo do mercado, num golpe avaliado em 15 milhões de euros;[11]

8. Em 2009, a Exxon teria vencido uma concorrência na Nigéria com uma proposta muito inferior a dos seus concorrentes, mediante suborno das autoridades locais;[12]

9. Em 2011, a Exxon teria se enredado na corrupção do setor petroleiro da Libéria para a compra de um bloco petrolífero envolvendo outras empresas, incluindo a de Visconde Astor, sogro do ex-primeiro ministro da Inglaterra, David Cameron;[13]

10. Também em 2011 a Shell e a ENI teriam pago mais de US$ 1 bilhão como suborno a executivos nigerianos do petróleo;[14]

11. Nesse mesmo ano, 2011, a Statoil foi denunciada por ter feito pagamento sistemático de propinas para consultores da Líbia e de Angola, no valor de US$ 100 milhões, pagos desde o ano de 2000;

12. Em 2017, na própria Arábia Saudita, uma longa investigação de corrupção no mundo do petróleo prendeu dezenas de príncipes e empresários proeminentes;[15]

13. Mais recentemente, em 2019, na Guiana, segue avançando uma investigação sobre o uso de suborno de autoridades governamentais, pela ExxonMobil e a Tullow Oil, para obter o direito de exploração da mais nova região petrolífera de águas profundas do mundo;[16]

14. Voltando um pouco atrás, ainda em 1994, a Halliburton teria pago um suborno de U$ 182 milhões a governantes da Nigéria, para participar do Projeto de Gás Natural Liquefeito de Bonny Island.[17]

15. E já se pode acrescentar nesta lista a importante confissão do Sr. Pedro Barusco, que foi gerente de Serviços da Petrobras, entre 1995 e 2010, e que participou das negociações com a empresa Halliburton para a entrega das plataformas P43 e P48.[18] Segundo o engenheiro, executivos da petrolífera brasileira já vinham recebendo propinas, pelo menos desde 1997, as mesmas que depois foram pagas por empresas brasileiras – como Odebrecht, OAS, entre outras – que substituíram empresas estrangeiras como fornecedoras da Petrobras.[19]

Paremos por aqui, pois tais casos parecem intermináveis; basta dizer que um estudo do cientista político da Universidade da Califórnia, Paasha Mahdavi, constatou que dos 141 processos movidos entre 1977 e 2013 pela Security and Exchange Commission (SEC) e pelo Departamento de Justiça norte-americano (DoJ), 41 – praticamente um terço – foram ações anticorrupção relacionadas ao setor de óleo e gás.

Mas ainda assim, não há dúvidas de que o caso recente mais emblemático de como opera este “mercado mundial” de petróleo, é o caso da Guerra do Iraque de 2003, concebida pelo vice-presidente Dick Cheney, e que foi travada em nome do combate às armas de destruição em massa. Ainda que tenha servido de fato como uma forma de mudar o governo e o regime político do Iraque, o objetivo final era mesmo impor a supremacia das empresas americanas na exploração do petróleo iraquiano, incluindo o escandaloso caso do favorecimento da empresa norte-americana Halliburton, que havia sido presidida pelo próprio vice-presidente dos EUA Dick Cheney, entre 1995 e 2000.

Todas estas histórias nos permitem extrair pelo menos três conclusões que podem nos ajudar a entender os acontecimentos recentes aqui no Brasil:

1. O “mercado mundial” do petróleo nunca teve nada a ver com o que os economistas ortodoxos e liberais chamam de “livre concorrência”, e sempre foi um “campo de guerra” entre grandes corporações e grandes potências;”

2. Dentro deste “campo de guerra”, aquilo que os pastores, os juristas e o “homem comum” chamam de “corrupção” – goste-se ou não – foi sempre uma prática regular da competição entre as grandes petroleiras, na sua disputa por novos recursos e novos mercados;

3. Por fim, há fortes evidencias de que estas mesmas corporações que subornam e “corrompem” costumam utilizar a surpreendente acusação de ”corrupção” contra seus concorrentes e contra todo e qualquer tipo de concorrentes ou adversário que se interponha no seu caminho.

Agora bem, se esta foi sempre a “ética do petróleo”, não causa surpresa a confissão do Sr Pedro Barusco, de que as grandes petroleiras e fornecedoras da Petrobras tenham pago propinas aos dirigentes da empresa, pelo menos desde 1997, durante o governo do Sr. Fernando H. Cardoso, e provavelmente desde muito antes. Por outro lado, conhecendo as regras deste jogo extremamente violento, seria possível que tenham sido estas mesma petroleiras americanas que tenham repassado a informação do seu “suborno”, para o Departamento de Justiça americano, no momento em que foram prejudicadas pela política do governo Lula de proteção dos fornecedores nacionais da Petrobras, e muito mais ainda, depois do anuncio da descoberta das reservas de petróleo do pré-sal, em 2006. E por último, faz sentido pensar que o próprio governo americano tenha repassado estas informações para os seus subordinados brasileiros: escritórios de advocacia, juízes, procuradores, jornalistas, militares, e todos que participaram da “conspiração de Curitiba”. De qualquer forma, devido a performance presidencial desta figura patética que foi parida pela conspiração, o mais provável é que sejam os próprios norte-americanos que venham a revelar, em breve, os detalhes desta história, como já passou com o documentário, “A Privacidade Hakeada”.

[1] Professor titular do Programa de Pós-graduação em Economia Política Internacional (IE/UFRJ); pesquisador do Instituto de Estudos Estratégicos do Petróleo, Gás e Biocombustíveis (INEEP).

[2] Professor da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP) e diretor técnico do Instituto de Estudos Estratégicos do Petróleo, Gás e Biocombustíveis (INEEP).

[3] Yergin, D. O petróleo. Uma história mundial de conquista, poder e dinheiro. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2010, p. 53.

[4] Idem, p. 37-54.

[5]https://www.rferl.org/a/After_Seven_Years_Kazakhgate_Scandal_Ends_With_Minor_Indictment_/2123800.html

[6] https://www1.folha.uol.com.br/fsp/mundo/ft0905200710.htm

[7] https://www.independent.co.uk/news/business/news/exxon-probed-over-500m-africa-scandal-104198.html

[8] http://news.bbc.co.uk/2/hi/business/3849147.stm; https://www.ft.com/content/5451c3ee-5aed-11db-8f80-0000779e2340

[9] https://www.reuters.com/article/gazprom-investigation-switzerland-idUSL5N0R318S20140902; http://russia-ic.com/rus_international/in_depth/2384#.XVWdj-hKjIU

[10] https://www.reuters.com/article/us-france-total/total-and-ceo-acquitted-in-iraq-oil-for-food-scandal-idUSBRE9670QK20130708

[11] https://www.ft.com/content/6ef1109a-cb9f-11dd-ba02-000077b07658

[12] https://www.theguardian.com/business/2016/jun/23/exxonmobil-nigeria-oil-fields-deal-investigation

[13] https://www.theguardian.com/business/2018/mar/29/exxonmobil-liberian-oil-deal-went-ahead-despite-anti-corruption-concerns; https://www.globalwitness.org/en/press-releases/us-authorities-must-investigate-exxon-its-purchase-corruption-tainted-oil-block-liberia/

[14] https://www.bloomberg.com/news/articles/2019-05-07/shell-eni-executives-named-in-1-billion-nigeria-bribery-suit

[15] https://www.aljazeera.com/news/2019/01/saudi-arabia-corruption-crackdown-ends-106bn-recovered-190131062458260.html e https://www.cnbc.com/2019/01/30/saudi-arabia-says-it-raised-106-billion-from-anti-corruption-drive.html

[16]https://www.worldoil.com/news/2019/5/23/guyana-investigating-offshore-leases-controlled-by-exxon-tullow

[17] https://indianexpress.com/article/world/world-others/files-point-to-182mn-halliburton-bribery-scandal-in-nigeria/

[18] Barusco, P., “Comecei a receber propina em 1997, 1998. Foi uma inciativa minha, pessoal. De forma mais ampla, com outras pessoas da Petrobras, a partir de 2003, 2004”. In: “Barusco diz que começou a receber propina em 1997”, EBC, Agência Brasil, 10/03/2015.

[19] Fiori, J. L.; Nozaki, W. “Conspiração e corrupção: uma hipótese muito provável”. Disponível em: https://www.jb.com.br/pais/artigo/2019/07/1011357-conspiracao-e-corrupcao–uma-hipotese-muito-provavel.html