quarta-feira, agosto 24, 2016

"O verdadeiro golpe que estamos vivendo é da elite político-empresarial contra a sociedade brasileira"

Já há um bom tempo, eu comecei a buscar interpretar as coisas a partir da realidade. Marx chamava este esforço de busca do "concreto pensado"[1]. Ele dizia mais: "aquilo que pensamos sobre a realidade não é exatamente a realidade que pensamos".

Assim, Marx tentava demonstrar os limites que havia na teoria econômica clássica, em fazer análises baseadas em conceitos que representam visões que seriam mais idealísticas, que como tal se distanciam da realidade concreta, que se objetiva interpretar.

Mesmo com todos estes riscos, o quadro atual da economia política brasileira nos oferece contornos que parecem clarividentes. A realidade do "golpe político em curso no Brasil é fruto da elite político-empresarial contra a sociedade brasileira", como bem disse, Rodrigo Nunes, em artigo publicado aqui, no jornal espanhol El País, no dia 10 de agosto de 2016, com o título e subtítulos: "A guerra de mentira está chegando ao fim - Vai começar um mandato-tampão para aplicar uma agenda draconiana sem se preocupar em submetê-la às urnas".

Pois bem, a partir destes dois considerandos, observemos como a realidade trazida pela informação do artigo da jornalista, Raquel Balarin, hoje (24/08), P.A2, no Valor, com o título "Juro? Não. Banco quer reforma trabalhista" reforça a evidência empírica, com provas reais, que demonstram como a elite econômica passou a controlar diretamente o estado, através do processo golpista, para atingir e retirar direitos da sociedade brasileira.

Como eixo central de seu artigo a jornalista informa que nas tratativas palacianas dos executivos do mercado, já deixaram de ser apenas sobre ajuste fiscal, câmbio, privatizações, previdência e retomada das concessões. Balarin diz que "nem todo mundo sabe é que na pauta de alguns dos principais bancos brasileiros não está a taxa de juro elevada... um dos assuntos que mais têm dado dor de cabeça às instituições financeiras é o trabalhista. Em um grande banco do país, o número de ações trabalhistas corresponde a três quartos do total de funcionário".

Balarin vai adiante: "cansados de brigar nos tribunais, as instituições financeiras passaram a trabalhar ativamente na proposição de mudanças na legislação atual. Com o crescimento da taxa de desemprego nacional para 11,3%, alcançando 12% em São Paulo, onde estão sediadas algumas das maiores instituições, imagina-se que seja mais fácil aprovar uma reforma. A terceirização, prevista no Projeto de Lei 4.330, aprovado em abril do ano passado na Câmara e em tramitação no Senado, é uma das bandeiras dos bancos. Outra é a permissão para que os acordos definidos em convenção prevaleçam sobre a legislação".

Mais claro impossível. O que nos informa a jornalista da mídia que reproduz o pensamento e as intenções da elite econômica e dos seus bastidores com as negociações e pressões sobre o poder político nacional, não deixa margens para outra interpretação que reforça a tese do Nunes de que " o golpe político em curso no Brasil é fruto da elite político-empresarial contra a sociedade brasileira".

Cessou o discurso para fora de que o crescimento da inclusão social e da base da pirâmide interessava também aos setores produtivos e aos "donos do mercado". A nação é cada vez mais pensada para poucos que iria no máximo até parte da classe média-média, se tanto.

Aos demais caberão a tarefa sustentar com seus trabalhados - quase escravizado - a Nação, na medida que percam as leis consolidadas que os protegiam, ficando pendurados apenas nestes falsos acordos de convenção que os banqueiros exigem dos governantes que a plutocracia colocou no poder com o golpe. 

Retornam assim, stricto-sensu, ao ritual do sistema com a nação dividida entre a elite e os precariados, que como sobrantes, restam viver nas periferias urbanas das cidades-partidas ao longo do país. A divisão não é regional. 

As elites são as mesmas e controlam os espaços das cidades e estados enfrentando aqueles que demandam do estado, os serviços e as proteções que a classe dirigente - na economia dos mercados ou classe do poder político golpeado - insiste e tratora para não conceder. 

Mais claro impossível. Haverá resistências. 

[1] Conceito encontrado em MARX, Karl. O Método da Economia Política: Para a Crítica da Economia Política.

segunda-feira, agosto 22, 2016

Petróleos Mexicanos (Pemex) segue perdendo espaço

O México, muito apreciado pela turma do deus mercado, segue assistindo sua empresa de petróleo, a Petróleos Mexicanos (Pemex), perder produção, aumentar sua dívida, com déficits de caixa, sem liquidez e sem investimentos.

Em matéria da agência de notícias financeiras do mercado, a Bloomberg, as condições da empresa estatal do setor de petróleo é tida como crítica. Sua produção de petróleo que já chegou a 3,39 milhões de barris de barris por dia (mi bpd) em 2004, no ano passado já tinha caído para 2,27 milhões mi bpd ano passado, quando teve um prejuízo de US$ 30 bilhões.

Havia uma previsão de recuperação para a pordução de 2,8 milhões de bpd em 2018. Agora, a Bloomberg baseada em relatório de analistas do setor de petróleo do banco americano Morgan Stanley diz que a produção da Pemex poderá cair para apenas 1,6 mi bpd até 2020.

A estatal segue com déficits de fluxos de caixa da ordem de US$ 22 bilhões, quase o dobro do déficit de US$ 13 bilhões no ano passado. Em maio passado, o Ministério da Fazenda do México teve que assumir US$ 10 bilhões em passivos de pensões da empresa. Além disso realizou transferências e fez injeção de capital para quitar dívidas da empresa, em cerca de mais US$ 6,6 bilhões. A dívida total da empresa já passou dos US$ 100 bilhões.

O petróleo que até aqui era o principal eixo do crescimento econômico mexicano, agora sofre com a fase de colapso do ciclo do petróleo e deverá se reduzir ainda mais, considerando ainda que seu principal mercado sempre foi os EUA que nos últimos anos passou a produzir mais com o xisto e a importar menos.

Observem que isto ocorre, apesar do México possuir a nona maior reserva de petróleo do mundo com cerca de 72 bilhões de barris, segundo estudos e projeções da consultoria norueguesa Rystad Energy, em estudo divulgado em julho último.

A empresa que já sofreu o baque com a quebra de monopólio que o governo mexicano fez para o setor em 2014, sofre agora com estes diversos problemas.

Interessante ainda identificar que ao contrário desta realidade, a Petrobras, mesmo sendo ainda mais pressionada tanto pelos desvios da Operação Lava Jato, quanto pela fase de colapso do ciclo petro-econômico, que atinge todas as petroleiras do mundo, a estatal segue ampliando suas reservas e a sua produção, sendo uma das poucas a ampliar sua produção com a nova fronteiras exploratória do pré-sal.

A Petrobras também tem uma grande dívida, mas não tem déficit de caixa e nem acumulou prejuízos seguidos e tão grandes, além de estar com relação à produção num caminho exatamente ao inverso de, praticamente, estar dobrando sua produção na última década, enquanto que a Pemex está vendo sua produção cair à metade, neste mesmo período. Os investimentos da Petrobras se reduziram como feito com outras petroleiras do mundo, mas não foi praticamente cortado, com acontece com a Pemex.

Antes de concluir vale ainda observar que a quebra do monopólio do setor de petróleo, feito já há dois anos, ao contrário do que foi falado, não produziu ainda nenhum resultado para o país.

"Truculência" por Eleonora de Lucena: "Bastaram poucas semanas para deixar evidente a trama hipócrita e podre do bando que tenta abocanhar o poder"

O artigo abaixo é da jornalista Eleonora de Lucena e foi publicado hoje, na Folha de São Paulo. É um texto conciso e que expressa com clareza a simples opinião que este blogueiro tem trazido a este espaço. Antes da publicação na íntegra do mesmo abaixo destaco esta passagem:

"Esse contexto maior escapa da verborragia conservadora, ansiosa em reduzir a crise atual a um confronto raso entre supostos corruptos e hipotéticos éticos. Bastaram poucas semanas para deixar evidente a trama hipócrita e podre do bando que tenta abocanhar o poder. O que está em jogo é muito mais do que uma simples troca de governo. É a própria ideia de país."

Truculência
O Brasil entrou no centro da disputa geopolítica mundial. Tem riquezas naturais, mercado interno, posição estratégica. Construiu economia diversificada e complexa, terreno para grandes empresas nacionais e ambiente potencial para desenvolvimento de tecnologias de ponta.

Os Estados Unidos, acostumados a nadar de braçada no continente, começaram a ver o avanço chinês no que consideram seu quintal. Investimentos, comércio, parcerias com os orientais cresceram de forma exponencial.

Não parece ser coincidência a intenção norte-americana de voltar a ter bases militares na América do Sul (na sempre sensível tríplice fronteira e na Patagônia, que vigia o estreito de Magalhães, curva entre dois mundos). Nem parece ser ao acaso a escolha dos alvos do momento: a Petrobras, as grandes empresas e até o programa nuclear.

Nos últimos anos, o país mostrou zelar por sua autonomia e buscou alianças fora da influência dos EUA. Com China, Rússia, Índia e África do Sul, o Brasil ergueu os Brics e um banco de desenvolvimento inovador.

Aqui, reforçou o Mercosul -alvo imediato de ataque feroz do interino, afoito em mostrar serviço para o Norte e ressuscitar relações subalternas.

Esse contexto maior escapa da verborragia conservadora, ansiosa em reduzir a crise atual a um confronto raso entre supostos corruptos e hipotéticos éticos.

Bastaram poucas semanas para deixar evidente a trama hipócrita e podre do bando que tenta abocanhar o poder.

O que está em jogo é muito mais do que uma simples troca de governo. É a própria ideia de país.

Falar de luta de classes e de projeto nacional deixou alguns leitores ouriçados. Mas, apesar da operação de marketing em curso, os objetivos do atropelo à Constituição são claros: concentrar riqueza, liberar mercados, desnacionalizar a economia, desmantelar o Estado.

O discurso dos sem-voto que se aboletaram no Planalto tenta editar um macarthismo tosco, elegendo um inimigo interno. Agridem os de vermelho (sempre eles!), citados como os culpados de todo o mal, numa manobra conhecida dos movimentos fascistas desde o início do século 20.

Quem se atreve a discordar do rolo compressor elitista é logo tachado de “maluco” pelos replicantes da direita raivosa. Dizem que os que apontam as contradições atuais são saudosos do século 19.

Viúvos do século 19 são os que querem agora surrupiar direitos e restabelecer condições de exploração do trabalho daqueles tempos. Com a retórica de uma suposta modernidade, atacam conquistas sociais e pregam o desmonte da corajosa Constituição de 1988.

Alegam que a matemática não permite que o Estado cumpra suas funções perante os cidadãos. Para eles, a matemática deve servir apenas aos mais ricos e a seus juros maravilhosos. Num giro chinfrim, mandam às favas o tal controle do deficit público: gastam tudo para atender corporações, amigos e ganhar votos.

Com uma cortina de fumaça, arriscam confundir esquerda com autoritarismo. Projetam, assim, no adversário, os seus desejos ocultos. Afinal, o programa dos não eleitos só poderá ser implantado integralmente num regime de força, que censure e elimine a voz dos mais fracos.

As exibições de truculência absurda nos estádios da Olimpíada, proibindo manifestações de “Fora, Temer!” e rasgando os direitos constitucionais de livre manifestação e opinião, parecem ser uma terrível amostra de tempos sombrios pela frente.

O Senado vai enfrentar o julgamento da história.

sexta-feira, agosto 19, 2016

O uso dos smartphones em meio aos paradoxos da civilização

A Apple, mesmo com sua legião de clientes, perde dia a dia, o espaço para a Samsung, no mercado, ainda ascendente, de smartphones no mundo.

No 2º trimestre de 2016, a Samsung já tinha quase o dobro da Apple: 22,3% x 13%. Os iphones da Apple caíram mais 7,7% em vendas, num mercado que cresceu 4,3%.

Outros fabricantes asiáticos somados têm hoje a maior parte do mercado mundial, num setor em que os usuários de celular migram progressivamente para os smartphones, que possibilitam o acesso aos aplicativos com uso da internet.

No Brasil, o uso dos smartphones dobrou nos dois últimos anos, em substituição aos antigos celulares. Hoje, eles representam cerca de 40% de todos os celulares usados.

Contribui fortemente para isso, o uso do aplicativo WhatsApp. Uma parte maior da população quer ser incluída nestes grupos de comunicação.

Segundo pesquisa feita pelo Ibope, por encomenda da Qualcomm a diversão é o principal uso com 57%, contra 24% para trabalho. As redes sociais são acessadas por 75% dos usuários, mesmo percentual dos que valorizam os smartphones para tirar fotos.

Estes pequenos aparelhos mudaram a forma como as pessoas convivem na sociedade moderna. Há bônus e ônus em proporções significativas para o uso e o não uso. As pessoas ficaram mais perto ou mais longe?

Há uma estranha sensação que aquelas que estavam perto se distanciaram, enquanto as que estavam longe se aproximaram. Uma minoria percebe isto, porque está enormemente ocupada com as conversas que acabaram com o tempo que usavam para refletir sobre a realidade que que vivemos.

De toda sorte, ainda é muito cedo para avaliações sobre a sociedade que sai desta inovação, que como outras, passa por ciclos de boom e de colapso. Adaptação e superação.

Pensar e refletir sobre estes caminhos poderia ajudar a pensar o desenvolvimento e o uso das tecnologias a favor da civilização, em meio às contradições e paradoxos.

quinta-feira, agosto 18, 2016

Rússia segue com a maior produção mundial de petróleo, com Arábia Saudita em 2º. Brasil segue crescendo

Apesar das dificuldades geradas pelos preços reduzidos, a Rússia segue tendo a maior produção de petróleo do mundo em julho, com o volume de 10,65 milhões de barris por dia (bpd). Isto é um pouco menor do que a produção de junho que tinha sido de 10,71 milhões bpd.

Antes da fase de colapso dos preços do ciclo do petróleo, a Rússia,  Arábia Saudita e EUA brigavam, quase empatados, pela maior produção mundial. Em julho, a Arábia Saudita ficou em segundo lugar com 10,67 milhões bpd, um pouco mais do que os seus 10,56 milhões bpd de junho.

Já os EUA se distancia deste patamar a cada dia, por conta dos custos da produção de petróleo e gás de xisto. No final de julho a produção americana estava em 8,5 milhões de bpd, quando em 2014 chegou a mais de 10 milhões de bpd e no ano passado esteve em torno dos US$ 9,5 milhões bpd.

O preço do barril como era esperado segue equilibrado entre US$ 40 e US$ 50, o barril. São grandes as perspectivas que fique em torno disso, no máximo até US$ 55 ou US$ 60, por pelo menos mais dois anos, com os EUA atuando como uma espécie de regulador. Quando o preço sobe mais um pouco, a produção de xisto é retomada, as importações americanas reduzem um pouco e volta o excesso de petróleo no mercado mundial.

A Rússia deve prosseguir aumentando a sua produção porque ampliou seu mercado, diante do aumento de produtividade conquistado com a redução de custos gerados pela variação cambial, fato comum, na inversão de fases do "ciclo petro-econômico", nos países produtores.

Em julho, a produção dos países da Opep (agora 14 nações-membro) cresceu em relação ao total da produção mundial atingindo 33,11 milhões de bpd, estando em torno de 36%, quando antes esteve abaixo de 1/3 da produção mundial, estimada entre 93 milhões e 95 milhões de bpd. Números sempre controversos por conta do jogo de disputa de mercado e especulações.

No Irã a produção segue subindo e atingiu em julho a 3,85 milhões de bpd, o maior volume desde 2008. Segundo o planejamento do governo iraniano a previsão é de chegar a 4,6 milhões de barris por dia em cinco anos. Assim, há uma grande disputa por mercado e preços entre os países árabes da Opep.

A diferença entre a demanda e a produção mundial segue em torno dos 1,3 milhões de bpd de excesso. Os estoques de petróleo cru e derivados também continuam grandes, embora o preço do barril para futuro em outubro tenha hoje, novamente passado dos US$ 50, o barril. Em parte esta variação para cima está ligado às expectativas com nova decisão da Opep.

Uma mudança nesta previsão pode ocorrer se houver algum acordo da Opep e outros produtores prevista para setembro, na Argélia. Segundo o ministro de Energia da Arábia Saudita, Khalid Al-Falih, "existe uma oportunidade para a Opep e outros grandes exportadores de se encontrarem e discutirem a situação de mercado, incluindo possíveis ações para estabilizá-lo".

Sobre a produção brasileira de petróleo, a Agência Internacional de Energia (AIE) continua revendo para cima as previsões da Petrobras. Para 2017, a AIE está prevendo a produção da Petrobras em 2,88 milhões de bpd em média, maior do que os 2,7 milhões bpd de julho. 

É bom que se diga que estrategicamente, no atual contexto do ciclo petro-econômico, o aumento a "qualquer custo" da produção nacional de petróleo, não parece uma boa alternativa.

Para a AIE e para a Opep, o Brasil está entre as nações com o maior potencial de crescimento de produção do mundo, sendo a Petrobras o carro chefe de tudo isto, especialmente, com a exploração das reservas do pré-sal, cuja produtividade por poço, é geologicamente, fenomenal, considerando a profundidade dos campos, as tecnologias e logísticas envolvidas.  

Assim, é cada vez mais evidente o papel das reservas brasileiras na disputa da geopolítica da energia, com reflexos no aproveitamento das vulnerabilidades econômicas e políticas no país. Seguimos acompanhando.

quarta-feira, agosto 17, 2016

Destruição nada criativa de 1 mil navios com o objetivo de elevar os fretes

Já vimos pés de café sendo queimados na década de 20 e outros produtos agrícolas, ou de origem pecuária, sendo descartados por excesso de produção, na busca da retomada de preços que justificassem sua "reprodução".

Mas é estranho demais imaginar que sejam sucateados milhares de equipamentos de transportes, num tempo de economia globalizada, de encurtamento das distâncias e de extrema fluidez das cargas, após uma extrema reestruturação produtiva ainda em curso.

Mas, assim é o mundo capitalista, cheio de paradoxos e contradições.

O caso a que refiro é dos navios utilizados para o transporte de cargas entre as nações e continentes. Acredito que a maioria saiba que as exportações e importações aconteçam massivamente por via marítima pelos quatro cantos do mundo.

Isto acontece especialmente depois do uso expandido dos contêineres, considerado como o equipamento que se transformou na espinha dorsal do processo de globalização, pela sua característica multimodalidade, que permite seu uso sobre os navios, trens, caminhões, ou ainda para armazenamento, mesmo que temporário nas bases portuárias ou outros.

Pois bem, segundo matéria do The Wall Street Journal de ontem, o barateamento, seguido e forte dos custos dos fretes marítimos, está levando a que cerca de 1 mil navios, com capacidade de transporte de 52 milhões de toneladas de carga - equivalente ao peso de 243 mil aviões tipo Boeing 747 vazios - sejam levados até a costa, cortados em pedaços e vendidos como ferro-velho ainda neste ano.

Este dado espanta ainda mais quando a reportagem diz que estes 52 milhões de toneladas de sucatas de navios descartados, é inferior ao que se teve em 2012, quando esta quantidade chegou a 61 milhões de toneladas.
Foto: Karan Deep Singh do The Wall Street Journal

Veja que o objetivo dos armadores (setor que opera os negócios) é retomar o preço do frete que teria abaixado demais. A reportagem diz que "o trajeto Ásia-Europa, a principal rota de transporte marítimo do mundo, a média dos fretes cobrados neste ano está em US$ 575 por contêiner, ante US$ 620 em 2015 e US$ 1.165 em 2014. Qualquer valor abaixo de US$ 1.400 não é sustentável, afirmam as operadoras de navios".

O caso me chama novamente a atenção para observar o sistema. Nem sempre o custo baixo é o objetivo do sistema por conta dos valores que se pretende apropriar.

Assim, a dinamarquesa Maersk Line, a maior transportadora do mundo pela via marítima, junto da alemã Hapag-Lloyd AG e a chinesa China Cosco Bulk Shipping Co. estão com 30% de capacidade ociosa para transporte no mar e por isto reclamam dos preços de frete atuais. Segundo estas corporações, os fretes estariam tão baixos que não conseguem, sequer, cobrir os custos com combustível.

Isto é um exemplo de capacidade instalada, acima da demanda. O caso limita também a produção de novos navios conteineros em estaleiros em todo o mundo, numa época que já se vive o fenômeno sobre o gigantismo naval e portuário que já foi objeto de um artigo aqui no blog em 17/04/2015.

Ainda, segundo a reportagem, "no período de cinco anos até 2015, as empresas de transporte encomendaram uma média de 1.450 novos navios por ano. Neste ano, as encomendas até julho recuaram para 292 navios, ou 11,6 milhões toneladas de capacidade de carga, segundo a Vessels Value, firma britânica que fornece dados do setor de transporte marítimo".

No caso dos navios petroleiros, o excesso de capacidade está sendo utilizado para armazenagem de petróleo, aproveitando os baixos custos do barril. Assim, os navios que são geralmente reciclados quando chegam a cerca de 30 anos de idade, agora a média de idade dos navios sendo reciclados estariam na metade do tempo, em torno de 15 anos.

Enfim, é um caso que chama a atenção e que não deve passar como um detalhe dentro da lógica do sistema hegemônico e tido por muitos como única solução em termos de civilização.

Para alguns os problemas estariam ligados também aos limites da produção e ao tipo de sociedade, diante do "tal mercado", que parece não ter mais como crescer, diante das desigualdades e da pobreza em boa parte do mundo. 

Assim, o problema não seria apenas do excesso de capacidade, mas também a desaceleração da economia mundial, com a redução das importações e exportações chinesas em especial.

A reportagem diz ainda que no ano passado, as importações chinesas de produtos da União Europeia recuaram quase 14%, enquanto as exportações da China para a UE caíram 3% no mesmo período. No primeiro trimestre deste ano, as importações chinesas vindas da UE foram 7% menores que no mesmo período de 2015 e as exportações para o bloco registraram o mesmo recuo.

Enfim, sigamos acompanhando a economia global em sua atuação e diversas contradições.

PS.: Atualizado às 12:46: para corrigir título.

terça-feira, agosto 16, 2016

Eleições e desvirtuamento da vontade popular

A propaganda oficial nas eleições municipais brasileiras que se incia hoje, deverá ser um pouco diferente, com a proibição de financiamento empresarial destas campanhas eleitorais.

Porém, não nos iludamos, as candidaturas majoritárias mais estruturadas terão a favor de si, não apenas as máquinas, mas um controle sobre os desvios dos adversários para questionamentos futuros.

Como sempre bônus e ônus tendo que conviver no ambiente em que democracia e golpe embolam e confundem não apenas as mentes, mas as concepções ideológicas que deveriam apenas respeitar a vontade da maioria.

Do lado de uma boa iniciativa como a redução das possibilidades da forte influência do poder econômico sobre as eleições, tem na outra face, a judicialização da política, onde a força econômica é ainda e cada vez mais avassaladora.

Assim, se percebe que a plutocracia (governo dos ricos, ou fortemente influenciado pelo poder do dinheiro) tem diversas faces e dimensões de atuação no processo eleitoral. A judicialização é apenas uma delas. Evidentemente que isto delimita aquilo que se imaginava uma democracia, onde o poder emanaria do povo.

Assim, o sistema agudiza a crise do sistema representativo não apenas aqui no Brasil, mas em todo o mundo. Desta forma, no curto prazo, não há saída fora da política, mesmo com a agudização das crises políticas.

Enfim, vamos ao debate político-eleitoral nas cidades, onde se tem (ou se deveria ter) a base deste sistema, que com suas falhas e artimanhas jurídico-midiáticas-parlamentares desviam com frequência crescente as decisões da vontade popular.

segunda-feira, agosto 15, 2016

Para além dos resultados financeiros do 2ºT2016 da Prumo no Porto do Açu

Na semana passada a Prumo Logística Global, holding que controla e opera o Porto do Açu, divulgou seus resultados no 2º trimestre deste ano. A Prumo encerrou o período com lucro de R$ 55,9 milhões e investimentos de R$ 152,03 milhões no Porto do Açu.

É interessante observar, mesmo que brevemente alguns pontos que constam do relatório de 89 páginas do relatório, mas relacioná-los a outras questões não abordadas para a construção da análise da instalação do empreendimento logístico-portuário.

De essencial pode-se registrar, onde foram investidos R$ 152,03 milhões no Porto do Açu neste 2º trimestre de 2016:

1) Deste total, R$ 50 milhões foram aplicados nas obras do Terminal de Petróleo (T-OIL), na montagem eletromecânica do terminal e conclusão das obras civis e do quebra-mar. Segundo a Prumo, o terminal começa a operar ainda este mês e já estaia com alfandegamento e as licenças obtidas.

2) Outros R$ 41,2 milhões foram aplicados no Terminal 2, para a construção do quebra-mar, dragagem e desenvolvimento do CCOTM (Centro de Controle Operacional do Tráfego Marítimo), e outros R$ 25,1 milhões na construção do quebra-mar do Terminal 1, aterro hidráulico e gerenciamento de obras.

3) O restante foi aplicado nas obras do Terminal Multicargas (T-MULT) e na infraestrutura geral do empreendimento.

Ainda segundo a Prumo, desde o início da operação do Porto do Açu, em outubro de 2014, já teriam sido recebidos um movimento de aproximadamente 400 embarcações, sendo 55 navios graneleiros para exportação de minério de ferro

Sobre novos negócios vale registrar abaixo a estrutura atual de empresas da holding (grupo) Prumo. Nele se vê os negócios e iniciativas empresariais que o fundo de investimentos americano EIG pretende desenvolver:


Entre os diversos negócios comentaremos sobre alguns deles. Muitos estão "congelados" a espera de nova fase de expansão da economia e buscando parceiros e investimentos.

1) A Prumo celebrou instrumento de transação com Eneva S.A. A Enerva é hoje controlada pela alemã E.On que adquiriu os direitos da ex-MPX, do Eike Batista, empresa dos negócios de geração de eletricidade). Pelo acordo, a Prumo informa ter encerrado com a Eneva todos os contratos previamente celebrados, deixando de existir qualquer relação entre as empresas no Porto do Açu. O acordo também estabelece que a Licença Prévia (LP) detida pela Eneva para a possível futura instalação de uma usina termelétrica a gás natural, com capacidade de geração de 3,3 GW, no Porto do Açu, passa a ser detida pela Prumo. Segundo a Prumo, com isso, o Porto do Açu passou a ter a possibilidade de instalação de geração de 6,6 GW por meio de termelétricas.

Rebocadores junto ao Porto do Açu em 08/08/16. Foto Denis Toledo.
2) A Prumo também assinou termo de compromisso com a empresa de navegação Wilson Sons que opera como armador através de embarcações para movimentação de cargas. A Wilson Sons é também operadora e concessionária de terminais portuários em alguns portos. Pelo contrato, ficou estabelecido condições técnicas e comerciais a serem adotadas pela Wilson Sons que ficaria encarregada da operação de rebocadores para os clientes do Porto do Açu. Com a assinatura do Termo de Compromisso, as duas empresas (Prumo e Wilson Sons) passam a concentrar seus esforços em concluir o detalhamento das condições já negociadas e em assinar o contrato que regerá em definitivo a prestação de serviços de rebocagem para os usuários do Porto do Açu. Efetivamente já é possível ver vários rebocadores em torno da entrada do terminais 1 e 2 do porto (Foto ao lado do dia 08/08/2016 de Denis Toledo). Clique sobre ela para ver em tamanho maior). Os rebocadores só usam o píer para movimentação de cargas, mas esperam a chamada, como se faz na Baía da Guanabara, onde é possível contar sempre uma quantidade em torno de meia centena de rebocadores fundeados.

Estas informações também permitem levantar algumas pendências e interpretações sobre a atual fase de desenvolvimento do projeto portuário do Açu:

1) Nenhuma informação sobre a área (3,2 milhões de m²) que era da OSX, onde hoje estão as ruínas dos galpões da Unidade de Construção Naval (UCN). Também nada foi dito sobre a área lateral a esta dos galpões da UCN e que foi usada para montagem de módulos de plataformas pelo consórcio Integra (OSX + Mendes Junior) e que foi desativada junto ao terminal 2 do Porto do Açu.

2) A enorme área do DISJB que contém a maior parte dos 90 km² que o Porto do Açu divulga como sua retroárea, continua em grande parte (a maioria) não sendo utilizada e servindo à especulação. O alto valor do aluguel é um dos entraves de empresas que atuam em Macaé e pensaram em se instalar junto à base portuária da Edison Chouest para movimentar cargas offshore. Algumas delas, por contrato ficam responsáveis pelo deslocamento de cargas para embarque e desembarque para distâncias inferiores a 100 quilômetros do terminal portuário.

3) No relatório nada é falado sobre os problemas ambientais e sociais decorrentes do processo de implantação, como a salinização e a erosão do praia. Na página 41 do relatório, é feito breve comentário sobre as conflituosos desapropriações de terras e imóveis que tiraram os pequenos produtores rurais de áreas que hoje ainda nada servem. Além disso, há centenas deles ainda com problemas pendências e questionamentos sobre as desapropriações.

4) Nos relatórios mensais a Prumo diz ter um projeto de um heliporto que seria inaugurado no segundo semestre deste ano. Faz propaganda e diz que projeto já tem licença da Anac foi feito pela mesma empresa que fez o da Petrobras. Fala numa área de 2 milhões de m², posição para 42 helicópteros, terminal de passageiros e 8 hangares, estacionamento e duas pistas de voo. Apesar da previsão de um cronograma de início de operação neste semestre, ninguém comenta o assunto, nem a empresa.

5) A instalação da ZPE (Zona de Processamento de Exportação) junto ao Porto do Açu poderá mexer com a receita dos impostos para os entes governamentais, reduzindo ainda mais as vantagens já limitadas da instalação do terminal portuário para a população como um todo.

6) Na prática, reforça a hipótese de que o porto acaba sendo efetivamente um "enclave" que pouco dialoga com a cidade ou região. Ou seja, o projeto que era de um porto de 5ª geração, do tipo MIDAS (porto-indústria) por enquanto é mais porto e pouco indústria.

7) A informação sobre os acordos com a Eneva e Wilson Sons que constam dos resultados divulgados acima reforça esta atual interpretação sobre o projeto de instalação do Porto do Açu. Assim, a vertente sobre projetos ligados ao gás natural (ou GNL) e geração de energia como bases e insumos para outras atividades industriais continuam como possibilidades.

8) Além disso, o uso dos terminais de multicargas e contêineres fica limitado a uma ou outra movimentação enquanto o projeto de ferrovia a leste (Vitória-Açu-Rio) não sai da fase de projeto e construção que não deve ocorrer em prazo menor que uma década. Ainda mais remota é o projeto de ferrovia Leste-Oeste saindo do Açu em direção a Minas Gerais e ao Pacífico, que chegou a ser cogitado como de interesse dos chineses e que poderia interligar o porto à produção do agronegócio da região centro-oeste.

9) Com a fase de baixa do ciclo econômico e não apenas do petróleo, o Porto do Açu levou uma enorme vantagem concorrencial, em relação a outros projetos portuários que estavam em fase ainda de licenciamento e busca de investidores, tanto os localizados no litoral fluminense, quanto do estado do Espírito Santo. Neste, o que possuía mais potencial era o TPK de Presidente Kennedy, em parceria entre empresários locais e empresa ligadas ao Porto de Roterdã. Com a crise e a redução das demandas do apoio offshhore aquele projeto ainda não teve o licenciamento. Além disso, o pessoal de Roterdã, hoje já conversa com outros terminais portuários no Brasil, para montar um hub (distribuição) na América do Sul. Nesta linha, o Porto de Pecém, com a ampliação do Canal do Panamá, tende a levar vantagem. Fato é que de uma forma ou outra o Porto do Açu, não perdeu com esta freada cíclica da economia e do ciclo petro-econômico.

Seguimos acompanhando o processo. O blog abre espaço para ouvir outras análises sobre o desenvolvimento do projeto deste complexo portuário no norte do estado do Rio de Janeiro (ERJ).

domingo, agosto 14, 2016

"Nos tempos de El Rei"

Dentro da linha que temos abordado aqui neste espaço, o blog traz este artigo do Wladmir Coelho, publicado originalmente aqui no blog "Política Econômica do Petróleo".

O autor analisa corretamente a meu juízo, a falta de um debate sobre a política energética nacional para além da questão do aumento da produção nacional que não deveria ter foco na perspectiva de exportação de petróleo.

Desta fora, Coelho relembra o destino quase inexorável das nações exportadoras de recursos de recursos naturais e insiste num debate que o blog tem também travado no sentido de entender a disputa entre o Estado e os oligopólios das petroleiras privadas com o apoio da mídia comercial. 

Ambos não reconhecem que a elite econômico privada nacional, por mais de um século, foi incompetente em fazer o que a Petrobras vem realizando em prol da nação. Assim, miram apenas em se apropriar do desmanche que querem fazer da empresa. Confiram o artigo republicado abaixo:


A entrega do petróleo brasileiro - Nos tempos de El Rei
Por Wladmir Coelho

O chamado pré-sal brasileiro acumula, pelo menos, 40 bilhões de barris de petróleo reservando ao Brasil um papel destacado no setor energético internacional. Contudo a ausência de uma política para o desenvolvimento nacional somado ao furor exploratório imediatista, predatório de base colonial tratou de criar ou projetar um novo ciclo econômico: O ciclo do petróleo.

Petrobras operadora dos blocos, fundo de investimentos, royalties, conteúdo nacional foram aspectos considerados sem a necessária observação da necessidade de revisão constitucional. Neste caso devemos observar que o controle do petróleo brasileiro e os conceitos de empresa nacional em nossa Constituição sofreram, nos anos de 1990, alterações em obediência aos dogmas neoliberais.

O resultado trágico revela-se na ausência de proteção à Petrobras fragilizada desde a queda do monopólio estatal durante o governo Fernando Henrique Cardoso.

A consequência: o debate relativo ao pré-sal não apresentou, ou apresenta, espaço à discussão do uso do petróleo como elemento para criação de uma política energética nacional considerando à autossuficiência. Ficou a questão petrolífera nacional reduzida à condição ou expectativa da exportação futura.

Novidade? Nenhuma. O ouro, o diamante, o minério de ferro conheceram e conhecem semelhante trajetória. Pandiá Calógeras, ainda no inicio do século XX, pesquisou e calculou o gigantesco volume de ouro e diamante expropriados do subsolo nacional enquanto Washington Albino apontou a importância do ouro, saqueado do Brasil, para o financiamento da industrialização da Inglaterra no século XVIII.

Os fundamentos deste modelo exploratório permanecem: No passado El Rei distribuía autorizações para exploração aurífera pouco importando o poder econômico decorrente desta. Com o petróleo não é diferente.

Entregue por mais de cem anos, de meados do século XIX até 1953, à iniciativa privada o setor petrolífero no Brasil permaneceu estagnado impedindo, deste modo, a criação de uma política energética nacional.

Vejamos: ao contrário do discurso ideológico liberal o setor privado, apesar do monopólio que exerceu neste longo período, revelou-se totalmente incompetente para iniciar o processo de exploração petrolífera brasileiro.

A proposta dos oligopólios sempre foi preservar as áreas com potencial produtivo para posterior exploração mantendo, naturalmente, a condição de exportação predatória.

Criada a Petrobras temos, pela primeira vez, a possibilidade de controle da exploração petrolífera considerando-se uma política econômica nacional amparada no uso do poder econômico do petróleo. Neste ponto é preciso notar o controle nacional dos bens natural e econômico representados na reserva existente no subsolo sua industrialização e distribuição.

Estes aspectos não existem mais. A ideologia neoliberal quebrou esta cadeia entregando ao setor privado o controle do bem econômico. Este mesmo setor durante 100 anos cuidou de impedir a exploração petrolífera e hoje revela sua “competência” através do controle das áreas produtivas desenvolvidas a partir do trabalho de pesquisa da Petrobras.

A legitimação do discurso oficial entreguista ocorre através do oligopólio de imprensa responsável pelo bombardeio ideológico antinacional e neoliberal criando a confusão conceitual do atual modelo de exploração petrolífera no Brasil.

A Petrobras continuou e continua apresentada no discurso oficial e meios de comunicação como “empresa estatal”. Este fato oculta a queda da lei 2004 de 1953 e consequente fim do monopólio da empresa mista.

Esta condição, empresa mista, revela outra fragilidade; desde a criação da Petrobras ficou evidente que a única forma de garantir a existência de uma empresa brasileira em condições de enfrentar o poder econômico dos oligopólios internacionais seria através do exercício do monopólio cuja finalidade foi a criação de uma política de autossuficiência.

O discurso oficial, neste caso a soma de governo e setores entreguistas da imprensa, oculta a necessidade da reformulação da constituição no aspecto relativo ao controle do bem econômico petróleo. Na prática o “moderno” discurso governamental de Temer, Parente e outros representa um retrocesso aos tempos de El Rei.

O discurso neoliberal apresenta-se como solução “moderna”, defendem seus seguidores a privatização da Petrobras. Esta prática, neoliberal, apara-se em dogmas e não resiste ao mínimo questionamento histórico. Durante 100 anos fracassaram as empresas privadas internacionais no Brasil e agora, após intenso trabalho da Petrobras, querem assumir os lucros.

sexta-feira, agosto 12, 2016

A Petrobras segue com lucro no 2º T 2016 (mesmo com queda), mas seus resultados estão acima de outras grandes petroleiras

O blog tem insistido que é necessário olhar os números e resultados da Petrobras não apenas em termos absolutos e comparados com seus próprios números, em relação a períodos passados, nos termos que chamamos de série histórica.

Porém, não seria correto deixar observar de forma comparada estes resultados com os das demais petroleiras do mundo, num momento em que todas elas, estão pressionadas pela fase de colapso dos baixos preços do ciclo do petróleo.

Isoladamente, os resultados da Petrobras no 3º trimestre de 2016, divulgados ontem, indicou entre outras coisas, um lucro de R$ 370 milhões (US$ 118 milhões) com um redução (repito, do lucro) de 30%.

Porém, retração dos lucros e até prejuízos aconteceram com os resultados de quase todas as principais petroleiras do mundo. Alguns destes dados podem ser visualizados numa tabela publicada em matéria do Valor, no dia 3 de agosto de 2016, P. B2, cujo título da reportagem foi: "Petróleo cai e afeta lucro das petroleiras". Abaixo republicamos a tabela para ajudar o leitor a analisar outras comparações que o blog faz abaixo com relação aos resultados da Petrobras divulgados ontem:

Assim, em relação ao lucro das seis petroleiras citadas (a inglesa BP, norueguesa Statoil, francesa Total, anglo-holandesa Shell e americanas Chevron e Exxon Mobil), na média eles caíram mais que o dobro da Petrobras em termos percentuais de 73,8%. Repetindo o lucro da Petrobras no 2º Trimestre 2016, em relação a 2015, caiu apenas 30%.

Voltando aos resultados da Petrobras estes indicam que neles estão embutidos duas importantes baixas contábeis: de R$ 1,124 bilhão referente ao Complexo Petroquímico do Rio de Janeiro (Comperj) e R$ 1,212 bilhão em despesas com o programa de demissão voluntária da estatal.

Ainda em valores absolutos o lucro da Petrobras de R$ 370 milhões (US$ 118 milhões) supera os prejuízos da petroleira Chevron (-1,47 bilhões), da BP (-US$ 1,4 bilhões) e da Statoil com US$ 307 milhões. E o lucro da Petrobras fica atrás do lucro de outras três petroleiras: Total com US$ 2 bilhões, Esso, US$ 1,7 bilhão e Shell US$ 1,1 bilhão.

Assim, vamos à comparação da receita total no trimestre. A receita total da Petrobras foi de R$ 71,2 bilhões (US$ 22,6 bilhões) numa queda de queda de 10,8% perante o mesmo período de 2015, que havia sido de R$ 79,943 bilhões. 

Mais uma vez em termos percentuais, a redução da receita da Petrobras com 10,8% é menor do que a de qualquer uma das seis outras petroleiras cuja redução de receita variou de 16,77% da Total a 32,59% da Statoil.

Em termos de produção de óleo equivalente (petróleo + gás) a produção da Petrobras foi no 2º Trimestre de 2016, foi de 2,133 milhões de barris por dia (+ 1,04% em relação a 2015).

Assim, o crescimento da produção de petróleo, em termos percentuais da Petrobras no 2º trimestre de 2016 comparado a 2015, foi de +1,04, sendo este percentual maior do que os da petroleiras: Chevron (-2,6%), BP (-1%) e Esso (0%); e menor que a da Statoil (4,6%); Total (5,4%) e Shell (28%).

Também ontem com dados da produção média de julho último, a Petrobras informou que atingiu 2,70 milhões barris de óleo equivalente (petróleo + gás) por dia no Brasil, na média do mês de julho, neste caso 28% a mais que no ano anterior. Neste caso, em termos absolutos de volume de produção a Petrobras em termos de produção ficaria atrás somente da Shell e Esso. E em termos percentuais com 28% empatado em 1º (segundo a comparação com estas seis grandes petroleiras) com a Shell.

O endividamento líquido da Petrobras é grande e chegou a R$ 332,39 bilhões no fim do 2º trimestre, mas caiu cerca de 15% (US$ 37 bilhões) diante ante o endividamento do fim do 1º Trimestre de 2016, quando era de R$ 369,4 bilhões, como o blog já havia previsto aqui em nota no dia 5 de julho.

A matéria do Valor não informa sobre as dívidas das demais petroleiras. Porém, segundo a agência de notícias Bloomberg, as dívidas líquidas de ExxonMobil, Shell, BP, Pemex, Chevron e Total somavam US$ 290,6 bilhões ao fim do 1º Trimestre. Ainda segundo a agência neste mesmo período, as dívidas de 15 grandes petroleiras da América do Norte e da Europa cresceram 30%, chegando a US$ 383 bilhões no final do mês de março deste ano.

Por tudo isso, se vê que em meio ao tiroteio que se faz contra a empresa estatal (com objetivos claros), os seus resultados operacionais da Petrobras, em termos de produção e também financeiros estão acima de muitas de outras grandes petroleiras pelo mundo.

Além disso, estes resultados não podem ser analisados de forma descontextualizada sem considerar, especialmente, o porte das reservas que a Petrobras possui, especialmente com o Pré-sal. Estas ajudarão e muito a empresa, numa nova fase de expansão, em outro ciclo petro-econômico.

Resta saber avaliar o que terá restado da estatal até lá diante do fatiamento e do entreguismo, atualmente em curso, na direção da estatal e do governo golpista do país.

quinta-feira, agosto 11, 2016

A Uenf é nossa! Salvemos!

Não se trata de salvar a Uenf para seus servidores ou os atuais alunos. A Uenf é nossa, de nossa sociedade. Um patrimônio muito para além do sentido físico, mas da construção do conhecimento ede tudo que daí tem potencial para se desenvolver.

A situação a que o governo estadual submete as universidades do nosso estado é inaceitável. Também a Uerj é nossa. Ambas merecem ser preservadas e re-incentivadas. Mas, a defesa delas tem que ser nossa da sociedade.

Interessante este estranho sentimento humano  em que a disposição de luta é maior para conquistar do que para manter e preservar as conquistas.

Não é preciso escrever muito mais diante de questão tão urgente e que sangra dia a dia. Salvemos nossa Uenf!

Indústria 4.0 no Brasil, por David Kupfer

Abaixo o blog republica o artigo do professor e diretor do Instituto de Economia da UFRJ e pesquisador do Grupo Indústria e Competitividade (GIC-IE/UFRJ) que saiu na 2ª feira no valor, P. A11.

Em tempos bicudos da política mais geral e de corte nos direitos sociais básicos, infelizmente, o debate sobre a indústria nacional, sobre a inovação tecnológica, acabam ficando em segundo plano. 
Ainda assim, vale acompanhar quem pensa o tema da política industrial brasileira diante da economia global.

Como o Kupfer diz, em muitos lugares do mundo, incluindo n Brasil, se vive a realidade simultânea da indústria 1.0, 2.0 e 3.0 que caminha junto da inovação que está chegando.

Entender este processo me parece importante, mesmo numa época em que a produção material parece ter cada vez menos importância do que as intermediações (especialmente, a financeira) para a acumulação de lucros. O texto também é interessante para o debate em sala de aula. Confiram!

"Indústria 4.0 Brasil"
Por David Kupfer

"De alguns anos para cá vem ganhando crescente visibilidade conceitos como "Manufatura Avançada" e "Indústria 4.0". O conceito de Manufatura Avançada entrou em evidência após ancorar um plano estratégico publicado pelo governo americano (A National Strategic Plan for Advanced Manufacturing, Executive Office of the President and National Science and Technology Council, fevereiro de 2012). Já Indústria 4.0, como prefere denominar o governo alemão, ganhou vida como uma iniciativa conjunta do Ministério de Economia e Energia com empresas líderes, universidades e centros de pesquisa do país quando também em 2012 lançou as bases de um ousado programa de reconversão tecnológica da indústria germânica com essa marca (The Vision: Industrie 4.0, Federal Ministry for Economic Affairs and Energy, 2012). 

Ambos os termos traduzem visões da indústria em um futuro próximo no qual fábricas inteligentes usam tecnologias de informação e comunicação para digitalizar os processos industriais em direção a níveis inimagináveis de eficiência, qualidade e "customização". Manufatura Avançada ou Indústria 4.0 nada mais são do que um elenco de técnicas que dependem do uso coordenado de informação, automação, computação, software, sensoriamento e conexão em rede. 

Conjugadas, essas técnicas proporcionam inovações em robótica e eletrônica embarcada, que propiciam um super­-barateamento da automação flexível; em manufatura aditiva, que estende as fronteiras de descentralização e fragmentação da produção; e, ainda, em computação em nuvem, internet das coisas, big data e interfaceamento, que alargam os horizontes dos experimentos de inteligência artificial. O resultado é um salto evolutivo nas formas de organização da produção, em que se aprofunda sobremaneira a capacidade de interação M2M (máquina-­máquina) sem a intervenção humana. 

No Brasil, o debate sobre a Indústria 4.0 ainda é muito tímido, restrito a alguns seminários aqui e ali e a umas poucas iniciativas de governo ou associações de classe, o que em si já é revelador da pequena prioridade que vem sendo conferida ao tema no país. Mais grave, nesse estreito espaço de debates muitas vezes predomina um enfoque no qual a manufatura avançada é vista como uma tecnologia disruptiva, algo como o vetor de uma nova Revolução Industrial como foram, a seus respectivos tempos, a máquina a vapor na 1ª, a energia elétrica e a química na 2ª ou os semicondutores e a informática na 3ª Revolução Industrial. 

No entanto, não há razão para se acreditar que esse seja o entendimento mais correto. A Indústria 4.0 é muito mais um elenco de inovações incrementais que decorrem da incorporação e, principalmente, da integração de tecnologias já disponíveis ou emergentes e que, portanto, já fazem parte do estado da arte. Assim, seus desafios estão muito mais no plano da escalagem e massificação do uso do que no desenvolvimento inovativo propriamente dito.

Por isso, a melhor analogia para abordar a Indústria 4.0 é com o que nos anos 1980 se chamou de pós-­fordismo, toyotismo, produção enxuta ou qualidade total. São tecnologias organizacionais que não dizem respeito ao que se produz e, sim, a forma como se produz. Como tal, embora os fóruns de debate sejam frequentemente dominados pela ênfase no lado da produção dessas inovações, a Indústria 4.0 é, fundamentalmente, uma questão ligada à difusão dessas novas técnicas, que dizer, algo que está do lado do uso da tecnologia. 

Sendo essa a chave analítica, é importante ter claro que as oportunidades abertas pelos preceitos da Indústria 4.0 são transversais, abarcando todo o tecido produtivo e não somente as indústrias de ponta (de alta tecnologia). Não é a toa que atividades tradicionais como a indústria têxtil ou mesmo a agricultura têm sido tão impactadas pela introdução desses preceitos. 

No entanto, se o caráter transversal dessa nova onda acena com múltiplas oportunidades, o desafio brasileiro para surfá-­la precisa ser enfrentado a partir do diagnóstico de que boa parte da indústria nacional ainda está no estágio 2.0, tendo conseguido incorporar as técnicas relacionadas à produção enxuta de 30 anos atrás mas apresentando importantes defasagens em tecnologias de informação e comunicação, que caracterizam o estágio 3.0. Significa isso que será necessário, mais uma vez, queimar etapas, resultado que dificilmente será alcançado sem uma extensa construção institucional, pública e privada, voltada para fomentar esse processo. 

Prosseguindo na analogia já feita, a difusão da Indústria 4.0 vai requerer um esforço de superação de gargalos regulatórios e de infraestrutura tecnológica, semelhantes ao que objetivou o movimento pela qualidade industrial que começou a se constituir no país, tardiamente, apenas nos anos 1990, como consequência da falta de estratégia e do imobilismo da política industrial brasileira de então. Será que essa história vai se repetir? 

Por certo que as novas formas produtivas ligadas a Indústria 4.0 abrem também um importante espaço para o desenvolvimento de inovações que necessita ser ferrenhamente perseguido pelo Sistema Nacional de Inovação brasileiro. No entanto, nesse campo o sucesso vai requerer uma estratégia muito mais focada pois não são muitos os setores (e empresas) que estão bem posicionados para a obtenção de resultados positivos a curto ou médio-prazos. 

David Kupfer é diretor do Instituto de Economia da UFRJ e pesquisador do Grupo de Indústria e Competitividade (GICIE/UFRJ). Escreve mensalmente às segundas­feiras. E­mail: gic@ie.ufrj.br."

quarta-feira, agosto 10, 2016

12 anos de blog. Obrigado e sigamos em frente!

Hoje, dia 10 de agosto, o nosso blog completa 12 (doze) anos de existência.

Neste período foram quase 20 mil postagens, o que dá uma média de quase cinco postagens por dia.

A visitação média durante a semana tem ficado entre 3 mil e 4 mil acessos, com picos de 6 mil dependendo do conteúdo publicado. Há postagens que isolada tem 8 mil visitas.

O blog não disputa visitas, apenas monitora para ter uma ideia do interesse dos conteúdos e da origem dos acessos.

Com visitação e quadro de colaboradores crescentes, agora ainda mais amplo fora do ERJ e do país, com o enfoque mais frequente de temas da geopolítica da energia e do setor de petróleo.

O blogueiro agradece a todos que ajudaram e continuam contribuindo para a construção deste espaço de informações e debates críticos.

Eu sempre repito que, ao contrário do que talvez, a maioria possa imaginar, sou o maior beneficiário deste trabalho voluntário e prazeroso.

Na verdade, como é natural num blog pessoal, ele se confunde um pouco com o estilo de vida, trabalho e pesquisas que este blogueiro desenvolve em seu cotidiano, num ciclo que mistura aprendizado com informações e orientações.

Assim, o blogueiro tem como estímulo a ideia de repartir e democratizar informações e questões que são julgadas relevantes para se pensar o mundo e o convívio entre as pessoas.

Quem acompanha com frequência o blog, aqui e no seu espelho, no perfil do Facebook, sabe muito bem disso.

Não é muito simples sustentar um espaço como este por doze anos que não são doze dias e nem doze meses. Até aqui me considero recompensado pelo esforço. Porém, não sei por quanto tempo ainda sustentarei este espaço em meio aos compromissos profissionais e pessoais.

Assim, mais uma vez agradeço pelo apoio e... sigamos em frente!

terça-feira, agosto 09, 2016

Wall Street Journal: "Brasil deve ter maior número de projetos de petróleo e gás offshore do mundo até 2025"

Mais uma notícia que explica a entrega da "joia da coroa" em crime de "lesa pátria" dos que fatiam a Petrobras para vender. O Wall Street Journal, em sua coluna "What´s News" reproduzida pelo Valor informa que:

"O Brasil é o país que deve ter o maior número de projetos de gás e petróleo marítimos, 40, iniciados até 2025, de acordo com a consultoria britânica GlobalData, que identificou 236 projetos no mundo. O Reino Unido vem em segundo, com 29 projetos, seguido dos EUA, com 21".

Acompanhando a mídia especializada internacional, mesmo com os seus interesses, é possível identificar porque se tornou uma obsessão entregar o potencial da Petrobras, ligado à indústria do petróleo, um dos eixos do desenvolvimento nacional.

Infelizmente, é uma coleção de notícias que mostra uma realidade que se quer esconder dentro detse processo de entrega da "joia da coroa". Nem desenhar é preciso.

Os danos serão muito maiores do que os prejuízos com os roubos identificados pela Operação Lava Jato.Nunca será demais repetir o que está sendo feito pelo governo golpista: 
"O que é legal pode ser ainda muito mais danoso que o ilegal".

O caso Rafaela da Silva é fruto de políticas sociais e não da meritocracia!

Já disseram parte do que vou dizer de outras diferentes formas, mas penso que vale repetir ainda de outra maneira, bem ao estilo do pensamento construído em rede: a grande e sofrida Rafaela Silva é fruto das políticas sociais que podem salvar ou afundar o país!

A judoca brasileira medalhista de ouro é Silva. É de comunidade de baixa renda. Sofreu e ainda sofre todos os tipos de discriminação. Teve que fazer muitíssimo mais para arrancar um lugar ao sol.

Interessante observar que o caso dela é logo apropriado pelos que defendem a meritocracia como exemplo, quando o que se mostra é muito mais rico em análises.

A meritocracia não reconhece as entradas variadas no sistema. A meritocracia ao invés de valorizar a necessidade de políticas sociais que reduzam as desigualdades na partida, se atem à chegada para poucos, quando o que se deseja é que ela seja para muitos, ou, pelo menos em concepção para todos. Todos deveriam ter o mesmos direitos.

Porém, o caso de Rafaela é ainda mais emblemático, nestes tempos bicudos de ajustes fiscais e de rompimento com as "escadas" e de suspensão de direitos sociais e políticas públicas de inclusão que podem reduzir mais desigualdades na entrada do sistema que reforçam o discurso da meritocracia.

O caso da Rafaela nos traz a comprovação que aquilo que lhe permitiu agora ter méritos foram as políticas de inclusão social e não o inverso.

A medalha nestes casos seriam sempre consequências naturais de muitos outros Silva, Souza, Pereiras, etc.

O sistema que enaltece a Rafaela pela meritocracia é o mesmo que vai deixar morrer milhares com potencial semelhante, por falta de acesso às políticas básicas de renda mínima, bolsas e outros apoios que poderiam reduzir as diferenças, na disputa pelo mérito, que para a grande maioria é apenas o de sobreviver.

Por tudo isto, o caso da Rafaela, com as marcas de sua origem e trajetória, nos traz tantos exemplos e coisas positivas, que a única coisa que deveria ser fortemente evitada - e digo até rechaçada - é este discurso da meritocracia, quando este nega a igualdade de condições para a sua obtenção.

PS.: Atualizado às 12:26: Para incluir a ótima charge do Duke, sobre meritocracia citada no comentário da professora Guiomar Valdez no perfil do blog no Facebook.

segunda-feira, agosto 08, 2016

Petrobras confirma avaliação e preocupação do blog com a venda da BR para a Vitol Group

Há duas semanas, o blog publicou aqui neste espaço uma ampla análise sobre o absurdo da venda da BR-Distribuidora, sobre os riscos de se romper a condição de empresa integrada como a Petrobras.

Porém, o risco maior como chamávamos a atenção é para a Vitol, a maior trading de petróleo do mundo inserir a BR no seus esquema de lucros por especulação entre compra e venda de óleo cru e derivados. A nota do blog no dia dia 23 de julho de 2016, teve o seguinte título: "A venda da BR Distribuidora. Trading suíça Vitol é um dos 3 grupos interessados. O que significa?"

Pois bem, hoje em matéria do jornalista André Ramalho, no Valor, P. B4, ele informa que a estatal quer garantir que a integração da empresa com a BR se mantenha mesmo após a venda e cita exatamente o interesse da Vitol:

"Além de preservar a marca BR, a Petrobras pretende garantir, no processo de venda da BR-Distribuidora, que a empresa mantenha um certo grau de integração com as operações da da holding. Uma das possibilidades avaliadas internamente é incluir, no acordo de acionistas a ser negociado com o novo sócio, um compromisso de compra de um volume mínimo de derivados produzidos na refinaria da estatal... A Petrobras tenta assegurar também que não venha a perder mercado no futuro, para importadores. Durante as negociações passadas para a venda de uma fatia minoritária da BR, a Vitol, uma trading Suíça, manifestou interesse. Isso despertou o temor de que a distribuidora brasileira viesse a se tornar uma grande importadora de combustíveis da companhia europeia... A BR é importante fonte de escoamento da produção de derivados da estatal e comercializa, hoje, um volume de diesel equivalente a 38% da produção nacional do derivado, por exemplo."

Não há fórmulas capazes de garantir o que eles dizem nesta reportagem. Se vender a maioria do capital votante, como disseram, para a Vitol já era. Eles vão fazer o que quiserem, no esquema de ganhos de intermediação que a trading pratica diariamente no plano global.

Eu já afirmado na nota anterior que, em meio à crise em todo o mundo da fase de colapso de preços do petróleo, a Vitol, faturou em 2015, o maior lucro de sua história. Outras tradings de commodities minerais tiveram o mesmo desempenho.

As tradings não ganham com o preço em si (alto ou baixo) que vive da intermediação ganha com a volatilidade dos preços, através da diferença entre preço de compra e de venda. Por isso também valorizam os estoques que é para facilitar o esquema de especulação.

A divulgação desta preocupação parece apenas querer mostrar uma preocupação, para dizer que não estão vendendo tudo de qualquer maneira, quando na verdade é praticamente isto que estão fazendo, a partir do conceito de fatiar para vender.

Ora, ora... se estão fatiando é porque entraram lá para acabar com a condição da Petrobras como empresa integrada, do poço ao posto. Logo, esta alegada preocupação é na prática, apenas uma desculpa. Esfarrapada, por sinal.

O blog volta a fazer duas afirmações que tem repetido aqui com cada vez mais frequência. Primeiro, o diabo mora nos detalhes. Segundo, sobre o "crime de lesa pátria" que estão cometendo contra a "joia da coroa" a Petrobras com base na situação atual: "o que é legal pode ser ainda muito mais danoso que o ilegal”. A nação perderá com estes esquemas, no mínimo uma três ou quatro "Lava Jato". Isto é inaceitável!

Atingidos pelo Sistema-Minas-Rio da Anglo American se manifestam exigindo reassentamento

Lideranças comunitárias do município de Conceição do Mato Dentro, MG, onde está localizada a mina e local onde também se inicia o mineroduto que chega até o Porto do Açu, para a exportação de minério de ferro, enviaram ao blog informações sobre a manifestação que começaram no início da manhã desta segunda-feira. 

Foto da manifestação dos atingidos pela Anglo American em MG
Os atingidos do Sistema-Minas-Rio que é controlado pela companhia Anglo American exigem condições para que sejam reassentados. Eles consideram esta como a única alternativa viável para aqueles que tiveram as suas vidas ameaçadas, pela ausência de água e/ou pela proximidade com a área de risco gerada pela barragem de rejeito da Anglo American.

A paralisação está acontecendo desde 5 horas da manhã. No sábado (06/08), a Rede de Articulação e Justiça Ambiental dos Atingidos pelo projeto Minas Rio da Anglo American (REAJA) se reuniu na localidade do Sapo e os seus integrantes apresentaram graves denúncias de pressão e intimidação realizada pela Anglo American. A companhia está exigindo que a população rural assine autorizações, forneça cópias de documentos de suas propriedades entre outras pressões.

domingo, agosto 07, 2016

Se a BR-101 tivesse sido concedida em 2001, no governo FHC, o pedágio hoje seria de R$ 11,77 e a duplicação de apenas 55 km não teria se iniciado

Este blogueiro faz uso sistemático da BR-101 e assim vem acompanhando as obras de duplicação e melhoria da rodovia federal, a partir do contrato de concessão assinado em 14 de fevereiro de 2008.

Porém, a luta pelas melhorias e duplicação da BR-101 entre a Ponte Rio-Niterói e a divisa com o estado do Espírito Santo, nos seus 320 quilômetros é bem mais antiga. Esta luta se iniciou no final do ano 2000, pela Ong Cidade 21 e mais sete entidades: OAB, ACIC, FAMAC, ANFEA e os sindicatos dos Trabalhadores Água e Esgoto, dos Bancários e Petroleiros de Campos.

Depois de várias mobilizações na rodovia, uma representação no MPF redundou numa ACP na Justiça Federal em Campos (2ª Vara Federal) que conseguiu através de uma liminar suspender o leilão de concessão que estava em curso pelo governo FHC. Outra liminar no TRF manteve a decisão que conseguiu impedir o leilão até o final daquele governo.

A resistência da sociedade se dava porque o modelo de concessão destes 320 km da rodovia BR-101 na época de FHC se baseava num estudo feito pela empresa Engespo Engenharia Ltda., entre 1998 e 1999 que era muito ruim e danoso para a sociedade. As obras de melhorias eram limitadas e previstas em sua maioria para o final do contrato.

Este blogueiro ainda guarda, sob a forma digital, vários documentos, panfletos, apresentações em power-point, etc. feitas para as mobilizações e audiências públicas, em várias câmaras municipais das cidades cortadas pela BR-101. Elas permitem relembrar esta passagem e os fatos. Olhar para trás também ajuda a compreender o processo histórico, as lutas, as derrotas e conquistas.

Do trajeto total de 320 km de extensão deste trecho da BR-101 que seriam concedidos em 2008, apenas 59 quilômetros já eram duplicados entre a ponte Rio-Niterói e a cidade de Rio Bonito. Outros 261 km eram de postas simples. Pelo edital da época de FHC em 2000, apenas mais 55 km seriam duplicados.

A imagem abaixo mostra parte de várias tabelas deste edital. Elas eram parte de novos extensos volumes do processo de licitação que as entidades só conseguiram ter acesso através da intervenção judicial.



Assim, no edital de concessão em 2000 do período de FHC se questionava diversas outras questões:

1) A duplicação do trecho entre Casimiro de Abreu- Silva Jardim e Silva Jardim- Rio Bonito num total de 55,5 quilômetros que no estudo era obrigação imediata da concessionária vencedora do processo de licitação passou a ser obrigação apenas entre o 16° e 18° anos pós-concessão e seria o único trecho a ser duplicado na época de FHC.

2) A duplicação dos trechos Maruí-Serrinha e Serrinha- Fazenda dos 40 num total de 43 quilômetros e ainda o trecho entre Rio-Dourado- Casimiro de Abreu de 16 quilômetros, que pelos estudos seriam feitos até 3 anos após a concessão, no edital de FHC a licitação transformou apenas em exigência de construção de “terceira faixa” e pior com alargamento do prazo de execução para até o 21° ano após a concessão.

3) Pela modelagem do edital o valor do pedágio era fixado, e a escolha da empresa vencedora se dava pelo valor de outorga que cada uma se dispunha a pagar para ter o contrato de concessão. Assim, para "equilíbrio" do contrato, o estudo previa um valor de R$ 3,00 referentes a 1999, ou R$ 3,31 referentes a julho de 2000.

Este valor atualizado e corrigido pelo índice IGP-M cada pedágio estaria valendo hoje R$ 11,77 ao contrário dos R$ 4,50 que é o valor real pago - já reajustado agora em julho - de R$ 4,50.

Portanto, o pedágio hoje que estaria sendo cobrado, sem que a duplicação (mesmo que de apenas 55 km) tivesse sido sequer iniciada, equivalente a 2,6 vezes, o valor atualmente cobrado e já corrigido em julho último. Repito R$ 11,77 em cada praça de pedágio x R$ 4,50.

4) No edital de 2000, também não havia a previsão de construção de vias de acesso às cidades cortadas por este trecho da BR-101. A construção do contorno de Campos no trecho entre Ibitioca e Travessão que no estudo era previsto para ser feito até o 5° ano após a concessão, no edital de FHC passou a ter previsão de execução entre o 12° ao 15° ano após a concessão.

Por tudo isso é que as entidades conseguiram à época suspender pela via judicial a concessão com aquele edital. Porém, a luta era pela melhoria e duplicação de toda a BR-101. Assim, entre 2004 e 2005, a luta comunitária voltou a ser empreendida.


Diante da quantidade de acidentes e vítimas fatais na BR-101 uma Associação dos Parentes de Vítimas da BR-101 foi formada. Entre 2002 e 2006 já se contabilizava 6.985 acidentes com 3.869 feridos e 692 mortes.

Neste processo, o Movimento Pró-Vida na BR-101 foi formado e passou a aglutinar mais de 40 entidades entre elas a Sociedade Brasileira de Clínica Médica (SBCM-RJ) com importante e aglutinativo papel. O movimento comunitário e coletivo ganhou corpo e organicidade. Até símbolo e logomarca foi amplamente divulgado em adesivos, camisas, faixas, etc.

Seminários, audiências públicas com autoridades e novas manifestações aconteceram próximo à Campos, sendo que a de maior expressão foi a realizada no dia 25 de novembro de 2005, na localidade de Serrinha que parou o tráfego por cerca de duas horas e foi manchetes em várias mídias nacionais. Veja aqui neste link ainda no ar da Cidade 21 algumas imagens e informações do movimento à época.
Foto do acervo da Cidade 21 sobre manifestação 
na localidade de Serrinha, em 25/11/2005, na BR-101
Como desdobramento deste movimento se tentou que houvesse a formação de um consórcio entre os municípios da região para obter a concessão em conjunto com o governo estadual, considerando a importância estratégica da rodovia par ao estado. Em contrapartida, o governo federal entraria com uma parte dos recursos das obras de duplicação.

Muitos prefeitos à época se dispuseram a participar, mas a negativa do governo estadual, acabou levando para a solução original de novo edital de licitação para a concessão do trecho da rodovia, só que em novas bases e numa nova modelagem.

O novo edital modificava o critério de escolha da empresa, para aquela que oferecesse o menor preço de pedágio e diversas reclamações e reivindicações do Movimento Pró-Vida acabou incorporado, como a antecipação e extensão das obras de duplicação entre outras.

O movimento fez opção contra a concessão, mas a partir de determinado momento percebeu que a duplicação e melhorias na BR-101 poderiam ser suspensos definitivamente. Assim, a mobilização passou a focar no aumento da regulação (onde defendeu a criação de um Conselho de Usuários) e melhoria de outros aspectos da concessão.

Assim, o leilão de concessão organizado pela ANTT (Agência nacional de Transportes Terrestres) acabou sendo realizado no dia 9 de outubro de 2007. Dele saiu vencedora a construtora espanhola OHL. O contrato de concessão com prazo de 25 anos foi assinado e passou a valer a partir de 14 de fevereiro de 2008. Logo após, ainda como parte do contrato a OHL obteve financiamento do BNDES de 70% do valor a ser investido nos primeiros anos da concessão, com um valor total de financiamento de R$ 3,2 bilhões.

Conforme previa o contrato, nos primeiros seis meses entre 14/02/2008 14/08/2008 foram realizados os serviços iniciais na rodovia. No dia 15 de agosto de 2008, a OHL, já constituída a Autopista Fluminense S.A. sobre seu controle começou a cobrar os pedágios e disponibilizar os serviços de apoio.

Em novembro de 2011 (veja aqui) outra empresa espanhola, a Arteris adquiriu da OHL Brasil os direitos de concessão deste trecho da BR-101 e passou a administrar a concessão.

Em dezembro de 2013 foi anunciada a operação de negociação em que a empresas espanhola Abertis Infraestrucuturas S.A aprovou a venda de 49% das ações da Autopista Fluminense S.A. para a empresa canadense de infraestrutura Brookfiled Motorways Holdings SRL. Só que na prática a Brookfiled passou a controlar a Autopista Fluminense, porque ela já detinha 60% do capital da espanhola Arteris. (Veja aqui)

Vale ainda observar antes de concluir que nestes 9 anos de concessão (que se completa no próximo dia 14 de agosto) estima-se que nas cincos praças de pedágio se tenha faturado mais de R$ 2 bilhões. Deste valor, cerca de 5% (aproximadamente R$ 100 milhões) foram pagos aos municípios que são cortados pela rodovia a título de ISS (Imposto Sobre Serviços).

Enfim, como foi dito antes, olhar para trás também ajuda a compreender o processo histórico, as lutas, as derrotas e conquistas. O processo poderia ser diferente e melhor para a sociedade, com mais controle sobre a concessão.

Porém, ainda assim, é possível identificar como foi a luta e o movimento comunitário que conseguiu conquistas para a sociedade, tanto para as melhorias no trecho concedido e em prazos menores (embora fosse possível torná-lo ainda mais rápidos e melhores) como de redução dos valores de pedágios que passaram a ser cobrados. A diferença entre elas é o tamanho do lucro que sairia da sociedade para a empresa concessionária.

O blogueiro fez questão de fazer uma extensa postagem com dados explicitados na linha do tempo, porque por diversas vezes, ao relatar e lembrar a atual situação diante de algumas pessoas, a maioria nada lembrava e outros ainda questionavam e duvidavam, tanto a questão do preço do pedágio, quanto da ampliação das melhorias na rodovia que só o novo edital passou a prever.

Recordar todo processo que possui quase 16 anos é parte do esforço de mostrar a realidade e também de evidenciar o peso que as lutas comunitárias podem ter na defesa dos seus interesses da população.

sábado, agosto 06, 2016

Chevron decidiu vender ativos de US$ 5 bi na Ásia, incluindo áreas do Mar da China: o que isto pode significar?

Em meio à abertura e às competições dos jogos Olímpicos, observando a repercussão pelo mundo, eu mais uma vez me deparo com uma informação sobre o setor petróleo que pode ter relação com o Brasil

É uma notícia da Agência Reuters que diz se basear matéria do jornal americano o The Wall Street Journal: “Chevron, segunda maior companhia de petróleo dos Estados Unidos, vai vender ativos de até U$ 5 bi na Ásia”.

A Reuters prossegue: “a companhia deve começar a vender seus ativos no litoral da China neste mês. A participação da Chevron em um empreendimento de campo de petróleo offshore com a petroleira estatal chinesa CNOOC pode valer até 1 bilhão de dólares. Em outubro do ano passado, a Chevron havia divulgado seus planos para vender cerca de 10 bilhões de dólares em ativos até 2017. A gigante do petróleo está procurando compradores para suas unidades geotermais na Indonésia e está considerando ofertas acima de 2 bilhões de dólares, reportou o Journal, citando fontes”.

A notícia mesmo que ainda a se confirmar reforça pelo menos três importantes questões:
Mapa dos interesses da Chevron no Mar da China

1) A crise da fase de colapso de preços do ciclo petro-econômico segue pressionando todas as grandes petroleiras pelo mundo, apesar de querer se dizer no Brasil, que o problema é a Petrobras;

2) A saída da Reuters de projeto no Mar do Sul da China sinaliza que a tensão entre os EUA e aliados asiáticos contra a China nesta área tende a se acirrar e a petroleira, sempre protegida do governo dos EUA, não quer perder dinheiro investido em capital fixo naquela região;

3) A informação pode apontar para a confirmação daquela estratégia denunciada pelo Wikileaks do compromisso do senador José Serra em ajudar (ou entregar) para a Chevron espaços de atuação no pré-sal brasileiro. É bom lembrar que por aqui a petroleira americana já decidiu ampliar sua atuação na fabricação de óleos junto com a Ipiranga. A Chevron pode estar chegando!

As três hipóteses podem ser consideradas individualmente, ou articuladas, e em conjunto. Fato é que a geopolítica do petróleo segue mostrando as suas garras, tanto no campo dos negócios, quanto sobre poder e controle sobre as nações. A conferir!

PS.: Atualizado às 13:28: Para breve acréscimo.

quinta-feira, agosto 04, 2016

Quem diria? O Japão também cria bolsa família para baixa renda

Enquanto por aqui nos trópicos os "gênios do golpe" amparado pelos "sanguessugas do mercado" vão retirando direitos sociais da parte da população de menor renda, os países ricos e com menores desigualdades, vão paulatinamente, reconhecendo a importância dos programas de renda mínima.

Eles passaram a compreender que este é um programa que serve tanto para tirar pessoas da pobreza, quanto para ativar a economia e fugir dos juros negativos. Assim, o Japão anunciou ontem, um pacote de estímulo à economia com a injeção de US$ 274 bilhões.

Este volume de dinheiro servirá para projetos de infraestrutura e também para oferecer apoio a cada um dos 22 milhões de japoneses de baixa renda e ainda para incorporar mais pessoas a um sistema de previdência com novas formas de inclusão.

O governo japonês seguindo o que se fez por aqui também oferecerá mais bolsas de estudos. E vai além: construirá mais creches para atender pais trabalhadores e estimular e ajudar os patrões a concederem licenças-maternidades mais prolongadas.

Enquanto isto, por aqui se quer resolver os problemas da economia com cortes e mais cortes, dentro de uma visão ultraliberal, que insiste em não reconhecer o papel do Estado, de forma keynesiana, para sair dos imbróglios.

E olhe que por lá, seja no Japão ou em diversos outros países europeus que estão também implantando o bolsa família ou programa de renda mínima (Suíça, Itália e outros), eles tiveram depois da guerra, um estado de bem-estar-social que por aqui foi boicotado, quando só o mínimo começou a ser ofertado.

Além disso, há que se reconhecer que os programas de renda mínima representam uma forma humanitária de atender com o básico quem possui baixa renda, mas é também uma forma de incluí-los na sociedade de consumo que faz a roda do sistema girar.

Não é por outro motivo que até o Banco Mundial hoje é um ardoroso defensor dos programas de renda mínima. O sistema financeiro também, porque como eles são pagos em cartões do banco, em sua passagem, eles deixam percentuais de lucros recebidos pelos banqueiros sobre milhões de recebedores.

Nem assim, alguns conseguem enxergar, que no fundo ela ajuda o sistema que continua privilegiando aqueles de maior poder econômico. Ser contra programas como este do mínimo de bem-estar-social é querer a senzala, como forma de manter apartada e bem destacada a casa grande.

quarta-feira, agosto 03, 2016

Shell deve US$ 75 bilhões, compra ativos no Brasil onde já é a 2ª em produção, teve queda de 93% no seu lucro e nem por isso está em crise

Interessante este conceito de crise que se quer atribuir só à Petrobras entre outras petrolíferas mundo afora, sem considerar a fase de baixa do ciclo petro-econômico. Com os dados soltos e jogados ao vento se constrói qualquer discurso. Vamos a um dos exemplos.

A anglo-holandesa Royal Dutch Shell, uma das sete irmãs do setor de petróleo. A Shell tem uma dívida de US$ 75,1 bilhões (apenas 20% menor do que a da Petrobras). A Shell possui muito menos reservas e ativos que a estatal brasileira, por isso comprou a petroleira britânica BG, para ter os ativos que esta possui no pré-sal do Brasil.

Assim, a Shell passou a ser a segunda em ativos no pré-sal brasileiro, só atrás da Petrobras. A estatal norueguesa Statoil saiu às compras para ficar como a 3ª maior operadora do pré-sal brasileiro. As duas estão satisfeitas com esta realidade.

A Shell divulgou na segunda-feira a queda de 93% em seu lucro no segundo trimestre deste ano, caindo para US$ 239 milhões em relação a 2015.

Tem mais. Veja no gráfico abaixo, que em meio não só à crise do preço do barril de petróleo, mas à operação lava jato, o lucro bruto da Petrobras (sem as baixas contábeis) em comparação a algumas outras importantes petroleiras do mundo. Na soma de 2014 e 2015 só ficou atrás da Esso.

E tudo isso sem olhar os atuais resultados da Petrobras. Ao contrário da grande maioria das petroleiras, a estatal continua a aumentar sua produção total de óleo e gás, a reduzir custos de produção e aumentar a produtividade no pré-sal, etc.,como demonstra os dados de produção de junho, anunciados ontem pela ANP e informado aqui pelo blog.

Observe ainda que a Petrobras está na frente da Shell que em pleno início da fase de colapso aumentou seu endividamento em 190% só para adquirir a BG por US$ 60 bilhões e segue animada, especialmente pelo potencial que tem para crescer e lucrar no Brasil.

Enquanto isso, "os gênios do mercado" repetem como um mantra que a Petrobras tem que fazer desinvestimentos (eufemismo* para venda ou entrega) de empresas e ativos, no valor total de pelo menos US$ 15 bilhões, só este ano, sem olhar a realidade geral do setor petróleo no mundo, que já começou a se preparar para um novo ciclo petro-econômico.

Eles só nadam de braçada e inventam suas narrativas onde impera a ignorância e a falta de articulação entre os dados e fatos para se interpretar a realidade. Tudo é muito claro e nem necessita de muitos argumentos. Continuamos acompanhando.

PS.: Atualizado às 18:28: Para corrigir a figura de linguagem citada* no penúltimo parágrafo. A figura de linguagem a que queria referir era eufemismo e não pleonasmo como saiu no texto original. O blog agradece a correção no comentário da Valéria Paz no perfil do Facebook.

terça-feira, agosto 02, 2016

Produção de petróleo e gás bate novo recorde no Brasil, segundo a ANP: pré-sal já atinge 38%

Em seu boletim mensal de produção de junho, sempre liberado dois meses depois de tabulado junto às empresas, A ANP indicou um novo recorde do Brasil. A produção total de óleo e gás natural no Brasil atingiu o volume de 3,210 milhões de barris de óleo equivalente por dia (BOE/dia) - alta de 3% ante maio e de 7,1% na comparação anual.

Este valor corresponde à produção recorde mensal de 2,558 milhões de barris diários de óleo (2,9% maior que maio de 2016 e 6,8% maior que junho de 2015). Já a produção de gás natural alcançou o volume de 103,5 milhões de metros cúbicos por dia (m³/dia) que representa crescimento de 3,7% em relação a maio de 2016 e 8,4% na comparação com junho do ano passado. O volume de junho superou o recorde de dezembro de 2015, de 100,4 milhões de m³/dia.

A produção nas reservas do pré-sal alcançou o volume total (óleo + gás) de 1,240 milhão de BOE/dia, com aumento de 8,2% em relação a maio. Assim, na produção total, o pré-sal já responde por 38% da produção nacional de óleo e gás no período. Destes, se teve um volume de petróleo de 1 milhão de barris de petróleo por dia e 38,1 milhões de m3/dia de gás natural. 

Na proporção por bacia, a produção da Bacia de Campos juntando petróleo e gás, em junho chegou a 54,5% com 1,705 milhão de boe por dia. Enquanto isto a Bacia de Santos com 1,089 milhão de boed alcançou o percentual de 34%. É bom lembrar que nem todas as reservas do pré-sal são na Bacia de Santos. Em termos de produção só de gás, a Bacia de Santos lidera com 40%, enquanto a Bacia de Campos alcança 27%.

Na distribuição da produção de óleo e gás por concessionário a Petrobras alcançou 2,621 milhões de boepd (81,7%), enquanto as demais petroleiras somadas chegaram a 18,3% liderada. 

Assim, em segundo lugar está a britânica BG, ainda computada pela ANP em separado da Shell que a comprou chegou a 245,4 mil boepd (7,6%). Em terceiro o consórcio Repsol/Sinopec com 73,6 mil boepd (2,3%). 

Se somarmos a produção da Shell com a BG elas já chegam a um produção de 271,4 mil boepd, com 8,5% já avançando para o percentual de 10% da produção de petróleo e gás no Brasil. Confiram abaixo a tabela completa da Distribuição de Petróleo e Gás por concessionário no país. Para ver a tabela em tamanho maior clique sobre ela.

Em meio a estes resultados da Petrobras e das perspectivas de produção de petróleo e gás no Brasil, os entreguistas seguem dispostos a repassar a preços de banana as nossas reservas e todo este potencial, uma verdadeira joia da coroa num crime de "lesa pátria". 




































PS.: Atualizado às 19:28 e 19:33: O blog publica abaixo o comentário e a pergunta do professor José Luiz Viana a respeito do conteúdo da postagem. Por conta da resposta ajudar a aprofundar o assunto e também exigir a postagem de uma imagem, com um gráfico, o que não é possível de ser feito no espaço dos comentários, o blog decidiu trazer estas informações para a capa da postagem:

Comentário do José Luiz Viana às 19:06:
"Roberto, um cálculo importante a fazer seria: embora caindo na participação do total da produção de petróleo no país, a produção de petróleo na Bacia de Campos está caindo, mesmo com a entrada do óleo do pré-sal? Explico: se o peso da produção da Bacia de Campos no total da produção nacional cair, por causa do avanço do óleo da Bacia de Santos, mas a produção permanecer estável e/ou subindo, é possível ter patamares razoáveis de ingresso das rendas, enquanto a lei de redistribuição não for sancionada pelo STF e na medida em que os preços internacionais voltem a rondar patamares em torno de 50 dólares o barril?"

A resposta do blog:
Sim. O aumento geral da produção pode se dar com o aumento da produção na Bacia de Santos e sem que a produção na Bacia de Campos caia. Apenas se mantenha. Basicamente é este o caso. Há um declínio da produção de Campos (em torno de 5%), mas ela é ainda pequena.

Porém, poderá ser ampliada por decisão de contenção de custos e de se privilegiar a produção em campos com maior produtividade, especialmente neste momento da fase de colapso de preço do ciclo petro-econômico.

Eu vou inserir na postagem original, como atualização o seu comentário e esta resposta. Nela vou incluir a imagem de um slide que a Petrobras usou, numa reunião com investidores, no último dia 11 de julho de 2016.

Ela mostra as condições de produção na Bacia de Campos, já apontando para um declínio, embora ainda relativamente pequeno, mas que pode se acentuar. Observe que ela vinha oscilando entre 1,4 milhão de bpd e 1,6 milhões de bpd. Porém, a perfuração dos poços na Bacia de Campos já vinha se acentuando.

Como está relatado nas observações ao lado do gráfico abaixo, as reduções mais acentuadas no 1º Trimestre de 2016 aconteceram por decorrência de paradas pontuais de manutenção, que é bom que seja feito neste momento de baixa do preço do petróleo e também da demanda por derivados no país.

Por último, é ainda importante se lembrar, porque muitas pessoas sabem mais confundem as reservas do pré-sal com a Bacia de Santos. Há produção no pré-sal não apenas nesta bacia, mas em poços da bacias do ES e de Campos. Este é também um dos motivos da confusão.


Aepet critica venda do campo de Carcará e diz que Petrobras terá produção reduzida entre 462 milhões e 858 milhões barris a partir de 2020

Em uma nota muito bem fundamentada (aqui), a Associação dos Engenheiros da Petrobras (AEPET) criticou a venda do campo Carcará na área do pré-sal da Bacia de Santos. O argumento mais forte é que afirma que com a venda a produção da Petrobrás terá sua produção total reduzida entre 462 milhões e 858 milhões barris de petróleo equivalente, a partir de 2020.

Isto é ainda mais significativo quando se considera a importância que tem para a empresa a extração (produção) para refino e consumo de derivados para a empresa que lucra mais com o mercado interno. Assim, ceder parte desta produção, abrindo mão de uma reserva que ela mesmo produziu não é uma solução para a empresa e muito menos para a nação. Confiram o texto que o blog republica abaixo:

Nota da AEPET sobre a venda do campo Carcará, no pré-sal

A diretoria da Petrobrás anunciou no dia 29 de julho a venda, por US$ 2,5 bilhões, de 66% de participação no bloco exploratório BM-S-8, onde está localizada a área de Carcará, no pré-sal da Bacia de Santos, para a estatal norueguesa Statoil. Segundo a nota " Nossos diretores de Finanças e de Relações com Investidores, Ivan Monteiro, e de Exploração e Produção, Solange Guedes, explicaram que a operação se baseia numa estratégia de gestão do nosso portfólio que tem como objetivo priorizar ativos que nos permitam manter a padronização de equipamentos para reduzir o custo de investimento, ao mesmo tempo em que busca ativos que gerem receita no curto prazo, a fim de melhorar o perfil da nossa dívida. Eles ressaltaram também a importância da operação para alcançar a meta de parcerias e desinvestimentos de US$ 15,1 bilhões no período 2015-2016."

2. Na entrevista coletiva concedida na ocasião, a diretora Solange Guedes informa ainda que "A operação não terá impacto nas nossas reservas ou produção no curto prazo. 'Não existem reservas associadas a esse ativo e a produção aconteceria em meados da próxima década.'" O BM-S-8 é atualmente operado por Petrobras (66%), Petrogal (14%), Queiroz Galvão Exploração e Produção SA (10%) e Barra Energia do Brasil Petróleo e Gás Ltda. (10%). Os parceiros poderão exercer direito de preferência na operação, o que quer dizer que podem decidir comprar nossa participação no mínimo pelo mesmo valor ofertado pela Statoil.

3. Segundo estimativas da Statoil, o campo de Carcará detém cerca de 700 a 1300 milhões de barris de óleo equivalente. Além do mais, o BM-S-8 bloco de licença mantém a promessa de novas reservas de hidrocarbonetos de pelo menos 250 milhões de barris.

"É um ativo de classe mundial", disse o vice-presidente executivo da Statoil, Tim Dodson à agência Bloomberg. "Estamos adquirindo isso em termos muito competitivos."

"A Statoil vai pagar metade do preço de aquisição quando a transação for concluída no final deste ano ou no início de 2017 e o resto quando certos marcos forem atendidos, disse Dodson.

Dado o pagamento programado, o valor presente líquido depois de impostos é realmente cerca de US$ 2 bilhões, o que significa que a Statoil adquire esses recursos de US$ 2 a US$ 3 por barril, o que compara com o objetivo da companhia de encontrar barris através da exploração a um custo de US$ 4 por barril, disse ele."

4. "Além dos US$ 2,5 bilhões anunciados hoje, já entraram no caixa da Petrobras aproximadamente R$ 1,9 bilhão pela venda de 49% da Gaspetro para a japonesa Mitsui em dezembro de 2015 e aproximadamente US$ 900 milhões pela venda do controle da Petrobras Argentina para a empresa Pampa. Outros US$ 464 milhões são esperados pela venda da Petrobras Chile para a Southern Cross Group anunciada essa semana."

Deve-se notar que a dívida atual é fruto de investimentos efetuados para garantir o aumento da produção de petróleo do pré-sal e de novas refinarias para garantir o abastecimento de derivados no país. Sem eles, teríamos que importá-los com graves conseqüências para as contas nacionais.

Na semana passada a companhia já havia anunciado a intenção de venda do controle da Petrobrás Distribuidora (BR), numa ação avassaladora de desmonte da companhia, destruindo sua atuação integrada, que permite abastecer o mercado nacional de forma segura, desde a manutenção de reservas para o futuro até os postos, residências e empresas. Atrás de toda esta atividade, impulsiona a economia, gera empregos qualificados, desenvolve fornecedores nacionais, universidades e centros de pesquisa, garantindo o pagamento de impostos e contribuições para o atendimento da população, notadamente a quem mais necessita da presença do Estado.

5. Pode-se alegar que estes impostos seriam pagos de qualquer forma e que tanto faz que o petróleo seja retirado pela Petrobrás ou por qualquer outra multinacional. Deve-se notar que estas empresas estão interessadas na propriedade do petróleo para abastecer seus países, no fornecimento de equipamentos e serviços, garantindo empregos de alto nível para suas populações e no desenvolvimento da tecnologia que permitirão continuar à frente do fornecimento para outros campos.

Os impostos, taxas e royalties recebidos da exportação do petróleo serão muito inferiores aos pagos pelos derivados para o abastecimento do país, particularmente o ICMS dos estados. Os recursos recebidos servirão em grande parte para o pagamento da importação dos equipamentos e serviços, dizimando ainda mais a indústria local, como ocorrido em outros países com a "doença holandesa". Viveremos alguns anos comprando produtos importados baratos, viajando ao exterior com o real sobrevalorizado, gastando as reservas de petróleo e os dólares recebidos. Quando o petróleo escassear, seremos mais um país a lamentar a maldição do petróleo, ao contrário de outros como a Noruega, que souberam administrar o tesouro descoberto em proveito das gerações futuras.

6. Em entrevista ao blog Desenvolvimentista, o presidente da AEPET, Filipe Coutinho, resume a importância da liderança da Petrobrás como operadora única:

a) evita o risco de exploração predatória por possibilitar maior controle sobre a taxa de produção,

b) previne o risco de fraude na medição da vazão do petróleo produzido e a conseqüente redução da fração partilhada com a União,

c) evita o risco de fraude na medição dos custos dos empreendimentos e da operação com a conseqüente redução da fração de petróleo partilhada com a União,

d) permite a condução dos empreendimentos e possibilita a adoção de política industrial para desenvolver fornecedores locais, em bases competitivas, e promover tecnologias nacionais,

e) garante o desenvolvimento tecnológico e as decorrentes vantagens comparativas,

f) se justifica porque a Petrobrás detém tecnologia, capacidade operacional e financeira para liderar a produção, na medida do interesse social e do desenvolvimento econômico nacional

g) é justa porque a Petrobrás se arriscou e fez enormes investimentos para descobrir o petróleo na camada do pré-sal,

h) permite que maior parcela dos resultados econômicos sejam destinados para atender às necessidades e garantir os direitos dos brasileiros,

i) promove a geração de empregos de qualidade no Brasil,

j) permite que maior parcela do petróleo seja propriedade da União,

k) é adequada já que não há necessidade de novos leilões e de urgência no desenvolvimento de novos campos para atender e desenvolver o mercado interno,

l) se justifica porque os riscos são mínimos, a produtividade dos campos operados pela Petrobrás é alta e os custos são conhecidos pela companhia,

m) mantêm a Petrobrás em vantagem na comparação com seus competidores,

n) é essencial porque o petróleo não é uma mercadoria qualquer e não existe substituto potencial compatível para a produção de combustíveis líquidos, petroquímicos e fertilizantes.

A venda de ativos hoje representará menor produção e lucro no futuro, necessários para continuar descobrindo novas reservas para repor o petróleo retirado, sob pena de desabastecimento do país e a necessidade de importá-lo do exterior, como ocorreu com diversos países que se lançaram a produções predatórias e sem planejamento.

Estima-se que com a venda de Carcará a produção da Petrobrás, a partir de 2020, será reduzida entre 462 e 858 mil barris de petróleo equivalente.

Entender a Petrobrás como uma empresa privada qualquer, preocupada apenas com gerar dividendos para seus acionistas no curto prazo, sem considerar sua importância para o desenvolvimento do país é desconhecer as razões que levaram a sociedade brasileira a sair às ruas nas décadas de 1940-50 para criá-la, contra todos as forças políticas e econômicas que continuam ainda hoje tentando destruí-la.

Diretoria da AEPET