segunda-feira, maio 27, 2024

A enorme captura de dados e a epopeia na compra online de uma simples geladeira

Ao mesmo tempo que em minhas atuais pesquisas eu tento entender como a internet, comércio online (e-commerce), as plataformas digitais e a inteligência artificial transformam a relação entre produção e consumo na nossa sociedade, no campo pessoal, eu estou procurando na internet uma geladeira para comprar.

Assim, eu vou aqui relatar algumas passagens sobre essas mudanças em curso que imagino possam interessar a alguns amigos aqui do blog.

Já foi o tempo em que você escolhia a marca da geladeira, o tamanho dela em volume de litros para então ir para a fase de comparar preços naqueles sites de antes como o BondFaro, Zoom e outros. Nem vou falar do tempo ainda mais antigo em que a busca e a compra eram feitas nas lojas da nossa cidade.
 
Antes das comparações, o comum era você dar uma busca geral no Google para ver as ofertas colocando a palavra “promoção”, a marca e o modelo para ver o que aparecia. Depois buscava o menor preço por loja e custo do frete para então fechar a compra.
 
Hoje já não é mais assim. A captura colossal de dados feita pelo próprio Google e adquirida para sistemas de marketing e anúncios, pelas empresas-plataformas de vendas online, já hiperpersonalizou seu perfil de usuário de internet.
 
Através de suas pegadas nas buscas onlines, movimentos nas redes sociais, acessos, cliques, tempo de permanência nos sites e pelos conteúdos, filmes assistidos, músicas ouvidas, etc. eles sabem e processam os detalhes.

Eu tenho lido e ouvido que o uso intensivo da imensidão de dados que produzimos fazem alguns destes sistemas (big datas ou datacenters que alimentam os algoritmos e a Inteligência Artificial) que permitem que eles hoje conheçam cada um de nós, mais do que nós mesmos.

Assim, num primeiro momento, você imagina que poderá ser agraciado com ofertas de produtos e preços melhores diante de tanto conhecimento que possuem sobre nós, como eles dizem. Mas, a sensação que venho tendo não é essa.

Primeiro que a escolha da marca se tornou muito mais difícil diante das ofertas e da variedade de tipos, recursos ou características técnicas e também de volumes e outros.
 
Antes eram geladeiras pequenas, médias ou grandes, brancas. Agora existem geladeiras de quase todos os volumes: 410 litros, 411 l; 420 l; 430 l. 450; 451 l; 480 l; 488 l. 490 l, etc. Umas são da tecnologia "frost free" (degelo automático) outras não; "inverter" que consomem bem menos energia (kwh/mês); variadas cores: branca, prata, alumínio, inox; inox look; inox black, etc.

Muitos dirão que as coisas melhoraram e que essa variedade enorme tenha relação com desejos e demandas bem específicas que o produtor quer atender. Isso pode ser verdade, mas em parte.
Como a venda de alguns itens de eletrodomésticos hoje já são feitos majoritariamente online e pela internet, os fabricantes, passaram a ofertar volumes específicos (342 l; 347 l; 411 l; 488 l) para que a procura no buscador da internet caia exatamente num dos seus produtos. Ou seja, o online interferindo na produção ou mesmo na propaganda. Quem vai verificar se o volume é de 342 l ou 347 l?
 
A partir dessa busca de informações você passa a ser atacado pelos anúncios dirigidos, o que antes já acontecia. Ficávamos semanas, vendo ofertas ao navegar no FB, Youtube, Instagram, etc. Só que agora isso piorou, se intensificou e sofisticou. Aparece também nos e-mails que você recebe, além das buscas e navegações nas redes socais.

Com os sistemas automáticos e uso de boots mais a IA generativa que leem seu comportamento online e instantaneamente vai gerando novos anúncios mais de forma ainda mais personalizada e específica, você não encontra o mesmo tipo de oferta no site da empresa-plataforma.
 
Dessa forma, quando você não decide pela oferta ao receber esse anúncio, você não tem mais como localizar e isso se torna necessário quando você precisa checar, se aquele modelo tem as mesmas características técnicas, além de volume, cor e marca que seria item básico para sua escolha. Segundo apurei, esses resumos do tipo de oferta e características do produto já passou a ser feito por IA que escolhe a informação e a ser inserida e a ser descartada.
 
Nesse emaranhado, você se perde em termos de capacidade de comparação entre modelo, volume, marca, cor, características e tecnologia, etc. e as ofertas feitas por variadas empresas. Além disso, você precisa ver se tem a voltagem 127/220 v, o custo do frete, tempo de entrega e forma de pagamento.

Tudo isso vai tornando a decisão da escolha e da compra como algo meio paranoico e quase alucinante. Se não fosse o interesse em pesquisar, é muito provável que eu já tivesse batido o martelo para ficar livre do problema.
 
No final, você, como cliente, usuário ou sei lá, a forma como “eles” nos chamam, necessariamente não está mais interessado em fazer uma boa compra no quesito custo-benefício, mas em se livrar do problema.
 
Não duvido que nessa confusão você já esteja levando gato por lebre, tal qual acontecia com aquelas vendas de camelô que vendiam produtos que só funcionavam nas mãos hábeis dos vendedores de rua.
Nem todos os produtos comprados pela internet geram essa confusão na escolha. Geladeiras e TVs talvez sejam os piores casos pela variedade de ofertas e volume de compra.
 
Porém, a sensação que fico é que os algoritmos que já controlam nosso perfil e moldam nossa atenção e dirigem nosso consumo. Uma espécie de “algoritmização da vida” misturando nossas relações sociais com as nossas necessidades de consumo, em meio às notícias, as fotos das festas, etc.

O ato da compra, que antes era uma relação social, se transformou em mais uma decisão individual, fragmentada e de algum sofrimento. A digitalização nos remete ao niilismo (redução ao nada, nadismo, ou a não existência), ao plano da individualização e dos sujeitos, também de quase tudo, tema tratado pelo professor Nolan Gertz no livro "Niilismo e tecnologia". 

Nesses momentos não tem como não lembrar do ludismo e da vontade de quebrar as máquinas ou os computadores, mesmo sabendo que essa não é a solução. O fato é que a sociabilidade contemporânea passou a ter em grande volume e quase a todo o tempo, a mediação da tecnologia. Como nesse diálogo aqui.

Sentimos que aqueles cookies em que os sites “pedem autorização” para copiar nossos dados, alimentam uma poderosa rede de identificação e de venda de publicidade em tempo real.
 
O Google tem como sua maior receita a de publicidade orientada a partir dos nossos dados e assim é a corporação com maior receita de publicidade total do mundo. E disparada que a faz ser uma das gigantes de tecnologia (Big Techs) e está entre as maiores corporações do mundo em valor de mercado (4ª maior do mundo com US$ 2,17 trilhões).
 
Ao cabo, ganham essas grandes empresas de tecnologia (que nada produzem), perdem a loja e a economia das nossas cidades. A compra online que no início até ofertava preços e condições vantajosas, hoje, necessariamente, não mais, apesar do sentimento majoritário dos consumidores que veem a compra online como mais vantajosa na imensa maioria dos casos.

Vou ficar por aqui porque já misturei demais o caso particular com o geral e com a pesquisa, sic. Quanto à geladeira que preciso e estava comprando, informo que comprei, mas após finalizar, escolha e fechar a compra (ufa), verifiquei, logo no dia seguinte, que tinha realizado a compra errada nas características, cor, etc. Assim, eu tive que ligar para o SAC da loja do e-commerce e pedir para suspender, dentro do direito do consumidor.
 
Se tratava de uma venda em marketplace (shopping virtual) da empresa-plataforma que nesse caso fazia a venda para a própria fábrica. Enfim, quase 15 dias depois, mesmo com a garantia da empresa-plataforma que a venda estava suspensa, a fabricante tentou entregar a mercadoria em que eu, já estava orientado a recusar.
 
Até hoje não recebi o reembolso que segue sendo prometido. Sigo recebendo todo tipo de propaganda online em qualquer navegação que realizo na internet anúncio (inclusive duas notificações enquanto escrevia esse texto que era para ser breve) e ainda não realizei a nova compra.

Sabem tudo de mim, será?; há inteligência?; ela é natural ou artificial? Serve a quem e quem a controla? No meio de tudo isso muita exploração e precarização e as gigantes de tecnologia (Big Techs) seguem faturando e se tornaram, hoje, os maiores oligopólios da história da humanidade.
 
Ao final, eu sigo intuindo que a extração de renda e a captura de valor realizadas na venda de publicidade (anúncios orientados ao perfil) e na intermediação realizada pela plataforma digital online (e-commerce) devem ser maiores do que a margem de lucro da companhia que fabricou a mercadoria vendida.


PS.: A mim interessa menos o perrengue com a minha compra, mas entender esse processo que altera nossa forma de viver e se relacionar com aqueles que nos fornecem bens e serviços.

terça-feira, abril 30, 2024

Big Techs e fundos financeiros avançam na construção e controle de datacenters no Brasil e no mundo

A infraestrutura digital é estratégica para a expansão da "digitalização de quase tudo" nessa etapa da reestruturação produtiva e para a ampliação do uso e monetização da Inteligência Artificial em todo o mundo. Capturar dados, transferir e armazenar é a base do que vem sendo chamado da Economia de Dados no capitalismo contemporâneo.

Atualmente, passou-se também a considerar e chamar esse processo como Cadeia de Valor dos Dados (CVD ou DVC, em inglês). A CVD se inicia na criação e coleta de dados, passa pelo armazenamento, depois processamento (mineração, fusão), a seguir “uso ou consumo” (visualização e compartilhamento, direção, algoritmização, IA) e monetização (business plan). [1] Nem sempre a sequência desse processo se dá nessa ordem, mas quase sempre segue todas essas etapas, com algumas se repetindo, alternadamente, a outras.

É nesse sentido que se deve compreender, também, o papel altamente estratégico dos cabos de rede óptica (terrestres e submarinos), as torres das operadoras de telefonia e os datacenters (Big datas), também chamados de nuvens. [2] 

São gigantes investimentos em infraestruturas físicas com milhares de equipamentos digitais e enormes capacidades de memória com colossal consumo de energia elétrica que produz extraordinários e preocupantes impactos socioambientais. [3]

O esquema gráfico abaixo mostra as articulações entre equipamentos e redes técnico-digitais e tentou resumir e expor essa enorme e potente teia desde a produção e captura dos dados, circulação, armazenamento, processamento, distribuição, uso, consumo, monetização, reprogramação, algoritmização, etc. 

Essa colossal teia realça a importância das infraestruturas no sistema digital integrado, interligado dentro dos países e articulado em redes intercontinentais e globais que para muitos passam como se fossem abstratas ou simplesmente virtuais. Não. Elas são digitais, mas reais e estão implantadas como capital fixo no território e são bancadas geralmente por investidores ligados a fundos financeiros e oligopólios.

[3]

Cada email lido, acesso e👍🏼 em qualquer rede social, interliga seu celular (tablet ou computador) ao datacenter (nuvem), através do uso de torres e cabos. Tudo em milissegundos. O uso da internet móvel e o barateamento dos smartphones tornou a produção de dados e acessos num regime 24x7, durante todos os sete dias da semana, na residência, no trajeto, trabalho, casa, lazer, etc.

Esses dados de todos nós, armazenados aos zetabytes nestes datacenters, são o insumo básico para o aprendizado de máquinas que permite à IA se manifestar próximo ao desejo humano.
O volume de dados produzidos no mundo deve passar dos 33 zetabytes que estava em 2018, para 175 zetabytes em 2025. [Um zettabyte é uma unidade de medida de dado digital. Um zettabyte é igual a um sextilhão de bytes ou 1021 (1.000.000.000.000.000.000.000) bytes, ou, um zettabyte é igual a um trilhão de gigabytes]. [4]

Apenas, nos últimos seis meses, foram vários anúncios, todos na casa das dezenas de US$ bi em investimentos das Big Techs e de grandes corporações de infraestruturas digitais, controladas por gestoras de fundos financeiros ou bancos de investimentos. [5] [6] [7] [8]

A interligação entre os datacenters e os usuários da internet (cada vez mais móvel e via celulares) se dá hoje em boa parte via cabos submarinos (95%). Apenas 5% ficam com os satélites. Em 1995 a transmissão de dados era de 50% por cabos e 50% por satélites. 

Na 2ª década deste século, os cabos representam 95% e os satélites têm apenas 5% na transmissão de dados. Os satélites continuam como boa alternativa para conectar comunidades mais isoladas, ou onde os cabos de financiamento óptica não chegam, ou para distribuição de conteúdos de um para vários pontos.

Os cabos são capazes de transmitir mais dados a um custo menor. Por isso, a utilização dos cabos ópticos em terra ou submarino entre os continentes ganharam a dimensão e proporção que chegaram atualmente. É nesse contexto de aumento de demanda de datacenters para a infraestrutura digital e para a ampliação do uso em IA que se deve observar a expansão desses também Brasil.

Além do forte movimento das Big Techs (Amazon, Microsoft, Google, OpenAI, etc.) na construção e/ou aquisição de datacenters em todo o mundo, com investimentos totais que superam a centena de bilhões de dólares, bancados em boa parte por fundos financeiros e capital de risco que eles estão chegando ao Brasil. Repito, essa demanda de mais e potentes Big Datas, tem a ver com o avanço da captura e armazenamento de dados para uso intenso em IA Generativa.
 
A informação do dia é sobre a da compra do controle de datacenters que já opera no Brasil. A americana Park Place Tecchologies, controlada por fundos financeiros (fundo GTCR), e tem ainda como sócio o banco Charlesbank, está adquirindo a empresa brasileira Unitech que nasceu no Rio de Janeiro em 1989 e hoje possui vários datacenters no Brasil. [9]

A Unitech presta serviços de infraestrutura de datacenter (armazenamento) e proteção de dados para a Petrobrás, Forças Armadas, BB, Anac, ANP, Anvisa, Bradesco, Embraer, Esso, Fiocruz, Furnas, IBGE, INSS, Siemens, STF, etc. tendo ainda como parceiros com grandes companhias globais como Dell Technologies, VMware, Quantum, Commvault, Juniper, etc. 

Hoje, em 2024, o Brasil possui cerca de meia centena de instalações de datacenters distribuídos entre cerca de 17 empresas provedoras. Entre elas, A Unitech, Ascenty (ao lado foto do Datacenter da Ascenty em Vinhedo, SP), Equinix, Scala e Odata.

Assim, observando e analisando numa perspectiva de totalidade e de sistema, deve-se realçar nesses movimentos, os processos não apenas de expansão da infraestrutura digital - de controle privado -, mas também quem são os agentes que se desenvolvem juntos aos processos de financeirização, centralização e concentração desse setor estratégico das infraestruturas digitais (cabos, torres, redes, ramais de cabos ópticos, operadoras de telefonia, datacenters, etc.). [3]

Vale registrar que tudo isso é muito incrementado pelas demandas geradas pelo avanço não apenas da "digitalização de quase tudo", mas pelo uso ampliado da Inteligência Artificial (IA/AI) em todo o mundo. 

O avanço em velocidade muito acelerada da digitalização torna o controle centralizado dos dados e dessas gigantes instalações, um enorme risco, em especial, no que diz respeito à soberania nacional, aos direitos dos cidadãos e à democracia.
 
É tudo muito pior e mais grave do que tudo que foi denunciado por Edward Snowden sobre o uso do poder americano da NSA para espionar os demais países considerados aliados. Exatamente, o que os EUA acusam que o TikTok chinês poderia fazer. 

Os agentes, os processos e as estratégias estão evidentes demais para não serem compreendidos em sua integralidade. É preciso dar musculatura à estatalidade das infraestruturas digitais, assim como repensar as bases da internet no Brasil e no mundo.


Notas e referências: 
[1] GÖRGEN, James. A imprescindível refundação da Internet. Portal Outras Palavras, em 25 de abril de 2024. Disponível em: https://outraspalavras.net/tecnologiaemdisputa/a-imprescindivel-refundacao-da-internet/

[2] Para uma compreensão mais detalhada do porquê se chama esse armazenamento de dados de "nuvens", faço uma sugestão da série-documentário na Netflix (não sem contradição, por conta de ser outra plataforma, de streaming). É uma sérei daquele jeitão americano meio caricato, mas que serve para explicar porque de onde vem o nome de "nuvem", para algo que está efetivamente no território como capital fixo e instalação. Série: "A era dos dados: a ciência por trás de tudo, Netflix. 6 episódios, 2020".

[3] PESSANHA, Roberto Moraes. Infraestrutura digital, extrativismo Hi-Tech (ExHT) e capitalismo de plataformas: artérias digitais escancaradas da AL – Uma homenagem a Galeano. No prelo, In: Geografias da economia política na América Latina. Editora Consequência. Rio de Janeiro, 2024.

[4] GÖRGEN, James. Um Nobel contra as Big Techs. Jota em 27 fevereiro 2024. Disponível em: https://www.jota.info/opiniao-e-analise/artigos/um-nobel-contra-as-big-techs-27032024#:~:text=Nada%20como%20um%20Nobel%20falando,um%20artigo%20recente%5B1%5D

[5] Valor/Dow Jones em 01/04/2024. Microsoft e OpenAI planejam data center de US$ 100 bilhões, com supercomputador de IA. Disponível em: https://valor.globo.com/empresas/noticia/2024/04/01/microsoft-e-openai-planejam-data-center-de-us-100-bilhoes-com-supercomputador-de-ia.ghtml

[6] Valor em 29/03/2024. IA deve acelerar a expansão de data centers no Brasil. Disponível em: 
https://valor.globo.com/empresas/noticia/2024/03/29/ia-deve-acelerar-a-expansao-de-data-centers-no-brasil.ghtml 

[7] Valor em 10/04/2024. Microsoft investirá US$ 2,9 bi em data centers no Japão para atender inteligência artificial. Disponível em: https://valor.globo.com/empresas/noticia/2024/04/10/microsoft-investir-us-29-bi-em-data-centers-no-japo-para-atender-inteligncia-artificial.ghtml

[8] Olhar Digital em 27/04/2024. Google quer investir R$ 10,23 bilhões em construção de data center nos EUA. Ideia é impulsionar IA da companhia. Disponível em: https://olhardigital.com.br/2024/04/27/pro/google-quer-investir-r-10-23-bilhoes-em-construcao-de-data-center-nos-eua/?

[9] O Globo, 30/04/2024. Com data centers ‘bombando’, gigante americana Park Place faz aquisição no Brasil. Disponível em: https://oglobo.globo.com/google/amp/blogs/capital/post/2024/04/com-data-centers-bombando-gigante-americana-park-place-faz-aquisicao-no-brasil.ghtml?

PS.: Atualização às 17:58 para breve acréscimo de texto.

sexta-feira, abril 26, 2024

Compra de mineradora Anglo American que exporta pelo Porto do Açu reforça lógica global e de enclave no complexo porturário

[1]

A gigante mineradora australiana BHP Billiton está na mira para comprar a Anglo American, mineradora sul-africana que exporta minério de ferro, em seu terminal no Porto Açu, através da joint-venture Ferroport, formada com a Prumo Logística Global, holding americana controladora pelo fundo também americano, EIG Partners. 

O negócio está se iniciando com proposta de compra da Anglo American, feita BHP por US$ 39 bilhões. As exportações de minério-de-ferro pelo Açu foram as primeiras exportações realizadas no 2⁰ semestre de 2014 quando do início das operações do complexo portuário do litoral de SJB. 

O minério de ferro que chega ao Açu é extraído da mina da região do Quadrilátero Ferrífero de MG e vem para o litoral fluminense, por meio de um mineroduto de 522 km do chamado Sistema Minas-Rio, vendido, ainda no papel, por Eike Batista por cerca de US$ 5 bilhões.

Esses negócios de fusão dos grandes grupos que atuam no Porto do Açu, reforçam a visão sobre como os negócios extrativistas formam enclaves e são comandados por grandes corporações ligadas ao que se chama de Cadeias de Valor Global e que se utilizam do extrativismo dos recursos minerais e usam os demais áreas e comunidades como "territórios de passagem". 

Vale ainda observar como a transação comercial é feita baseada em todas a cadeia de negócios da mineradora Anglo American e não sobre o negócio específico da mesma no Sistema Minas-Rio que exporta minério pelo Porto do Açu. A reportagem deixa claro que o maior interesse é pela extração de cobre, material que ganha importância com a intensificação dos processos de eletrificação ampliado com o avanço da transição energética, portanto, sem nenhuma relação direta com o Minas-Rio que entra como complemento na venda.

São negócios que movimentam bilhões de dólares com exportações de (cerca de 26 milhões de toneladas), mas com pouquíssima conexão e benefícios para a região. Muitos dos controladores destes negócios sequer conhecem a região. Extrativismo, enclave, centralização, concentração e oligopólios que precisam do território e das infraestruturas portuárias, apenas para realizar seus lucros com as exportações.

[1] Matéria em O Globo, 26/04/2024, p.17, NEDER, Vinícius.

PS.: Atualização às 09:28: É ainda importante relembrar que a mineradora BHP Billiton era sócia da mineradora brasileira Vale (50% +50%) na minha da Samarco em MG cuja bacia de rejeitos desmoronou e provocou um dos maiores tragédias social e ambiental do país, matando 19 pessoas, devastou o Rio Doce e atingiu cidades mineiras e capixabas em 5 de novembro de 2015. O processo criminal que tornou rés 22 pessoas e as mineradoras Samarco, Vale, BHP Billiton e VogBR Recursos Hídricos pelo desastre.

PS.:Atualização às 12:58: com outros dois comentários que envolvem esses processos de fusão, aquisições e incorporações (F&A) entre corporações globais e GPIs controladas por grandes fundos financeiros globais.

1) Ainda observando mais esse movimento de aquisição, fusão e incorporação (F&A) entre corporações, também vale registrar alguns processos que venho analisando em pesquisas no território. O mundo corporativo é uma realidade muito distante. Andar superior é uma boa definição. No território, junto às instalações e bases operacionais (capital fixo) ficam seus operadores. São encarregados que recebem por contrato e extras por metas cumpridas e bajulações(sic) desde que lucrativas para investidores, na maioria fundos financeiros. Os CEOs, diretores e alguns gerentes trabalham por mandato, como os treinadores e jogadores de futebol. Quando se desgastam com a comunidade (stakeholders), são trocados para reduzir conflitos e criar novas expectativas.

2) Esse caso reforça a "Lógica das Cadeiras de Valor Global" (CVG). Muito correlata à lógica dos fundos globais. Trato disso em algumas análises que já realizei em textos anteriores sobre o tema e também como já comentei acima, esses controladores de Grandes Projetos de Investimentos (GPIs) não tratam a importância de um negócio específico da corporação nessas decisões, mas sim os ganhos na cadeia todo. Podem perder em alguns, às vezes muito, mas ganham em negócios complementares. Por isso, fica difícil concorrer com as corporações globais que vão se transformando em oligopólios. E costumam ser recebidos com tapetes vermelhos de gestores que muitas vezes trabalham como despachantes de luxo destes negócios, usufruindo dos resultados políticos do discurso genérico e difuso do progresso e do emprego que chegam, mas em quantidades muito menores, em especial para cargos mais qualificados e de confiança da corporação, que vem gerir como encarregado dos investidores (acionistas) os negócios e as operações nas bases locais. O objetivo é produtividade, lucros e amortização de conflitos. A maioria dos gestores públicos abre mão em acompanhar compensações, exigir contrapartidas proporcionais aos volumosos lucros e admitem que seus territórios, sirvam mais para fluxos de passagem do que para alguma perspectiva de desenvolvimento, mesmo que mais predominantemente voltada aos interesses da corporação. O grau em que isso se dá é que define ou não a condição de enclave que gera poucas externalidades para a economia e as comunidades locais.

PS.: Atualização às 08:16 de 27/04/2024
A Bloomberg informa que acionistas da Anglo American querem mais pela venda da mineradora para a BHP Billiton. No jargão do comércio significa que o negócio depende apenas do acerto nos valores. 
Fonte: O Globo 27-04-2024 a partir da informação da Bloomberg.




domingo, abril 07, 2024

Musk quer com seu estado-plataforma X (Twitter) a mesma liberdade que buscou Hitler

As pressões e articulações de Ellon Musk CEO do X (Twiiter) trabalha numa lógica de um Estado-plataforma (Pierre Lévy) acima do Estado brasileiro. Suas falas e ações não são contra o judiciário apenas e sim contra todo o Estado. São articulações globais da extrema-direita com viés da geopolítica. Esse é o interesse de Musk ao defender uma liberdade total para seguir articulando a volta do fascismo.

A Meta (Facebook e Instagram) já tem uma corte suprema que decide as punições por cima dos Estados-nações. Não se trata apenas de regular. A extrema-direta e o oligopólio das corporações digitais e das Big Techs são efetivamente uma ameaça. Esses oligopólios não são exatamente iguais, mas no todo reforçam os riscos. A regulação não dá conta do que se tem pela frente, mas é o mínimo em defesa desse setor estratégico para a soberania nacional.

Com essas ações e manifestações, quem pode acreditar que os algoritmos do X (twitter) e do FB não ampliam ou limitam o alcance dos perfis conforme sua programação algorítmica baseado na ideologia? Isso se chama controle e dominação tecnológica.

Trata-se de uma articulação escancarada da extrema-direita global entre donos de corporações de mídia e lideranças políticas. O TSE teve papel importante no freio de arrumação nas eleições de 2022. É disto que reclamam. É sobre isso que articulam.

Tenho repetido à exaustão. O fenômeno da digitalização como etapa da reestruturação produtiva é global, mas as articulações e também as resistências são e serão sempre dos estados- nacionais. Assim, o TSE garantiu a lisura das eleições de 2022 e as instituições impediram a seguir o golpe militar-bolsonarista de 8 de janeiro.

Vivemos sob o que tenho chamado de um "tripé do capitalismo contemporâneo": digitalização e dominação tecnológica; hegemonia financeira e a racionalidade neoliberal. Não é possível analisar a "digitalização de quase tudo" dissociada da hegemonia financeira e da lógica neoliberal. Eles seguem juntos e imbricados num presente distópico que exigem intervenção civilizatória.

O enfrentamento a esse fenômeno se dá no campo da Economia Política e deve ser contra todo o tripé, mesmo que alternados nas três diferentes bases dessa tríade que refletem os movimentos transfronteiras na geoeconomia e na geopolítica.

sexta-feira, março 29, 2024

Resultados da Globo S.A. em 2023: lucros salvos mais uma vez pelas receitas financeiras

Os resultados da Globo S.A. em 2023 mostram que as receitas das aplicações financeiras salvam mais uma vez o balanço do Grupo Globo. Receita financeira de R$ 2 bilhões levou ao lucro líquido geral de R$ 837 milhões (33% menor do que os R$ 1,2 bilhão de 2022) na soma de todos os negócios do grupo. Desta receita financeira de R$ 2 bilhões em 2023 se pagou R$ 1,5 bilhão de serviço das dívidas que totalizam R$ 5 bilhões. 

Essa receita financeira não foi citada na matéria que o Valor (Grupo Globo) veiculada ontem (28/03/2024) na P.B6. Ou seja, novamente, as receitas de aplicações financeiras salvam o balanço da Globo S.A., apesar da receita total líquida ter atingido a R$ 15,1 bilhões.

Esse valor de R$ 2 bilhões de receitas financeiras em 2023, comparados aos R$ 15 bilhões de receita total, é mais uma prova sobre como a financeirização entra em todos os negócios da economia real. Em 2023, na Globo S.A. contribui com 13,2% da receita total, mas é fundamental para o lucro líquido ao final do balanço.

A holding Globo diz ainda em seu balanço ter R$ 14,2 bi em caixa e que as despesas e seus custos diminuíram. Porém, é bom que se diga que em boa parte com demissões de pessoal. Em 2023 tinham 11 mil trabalhadores, 2 mil a menos do que em 2022, quando eram 13 mil funcionários e já chegaram a ter 15 mil trabalhadores, hoje chamados de colaboradores. A Globo S.A. pagou em 2023 um total de R$ 1,071 bi de salários, valor inferior aos 1,109 bi de 2022, sem considerar a inflação e mesmo sabendo que a "pejotização" é muito presente em todo o grupo.

[Ver postagem do blog em 28 de março de 2023: "Globo S.A. um grupo cada vez mais financeiro".

As receitas operacionais da Globo S.A. em 2023 foram, em boa parte, de publicidade, 63% (+2%) com 37% de conteúdo (-6%). Menos pessoas, menos conteúdo produzido.

De outro lado, cada vez mais o grupo Globo tem menos receita com TV paga e mais receita com o streaming Globo Play, reflexo também da plataformização, cuja quantidade exata de assinantes, não é informada, embora diga ter cerca de "20 milhões de pessoas passando por essa plataforma".

Não é necessário falar de outros números. Apenas por esses dados citados, é fácil deduzir e entender porque a mídia corporativa luta tanto pela lógica financeira em seus noticiários.

Não é só a defesa da lógica dos bancos, seus principais anunciantes, é a receita própria de seus investimentos financeiros que se misturam aos dos demais negócios.

Plim-plim & dim-dim juntos, misturam o rentismo às atividades de comunicação e negócios da TV Globo (aberta e canais fechados ou a cabo); Globo Play; Globo.com; G1, GE; Gshow; Editora Globo; O Globo, valor. Gestora de fundos Globo Venture; Sistema Globo de Rádio, etc.

PS.: Evolução de resultados (lucro ou prejuízo) da Globo Comunicação e Participações S.A. entre os anos de 2017 e 2023. Como se vê, o grupo Globo não voltou mais ao patamar de lucratividade que chegou a ter até o período em torno do golpe parlamentar-midiático-jurídico-político de 2016.

2017 R$ 1,8 bi;
2018 R$ 1,2 bi;
2019 R$ 752 milhões;
2020 R$ 167 milhões;
2021 - R$ 173 milhões (prejuízo);
2022 R$ 1,2 bilhão;
2023 R$ 837 milhões.

PS.: Clique sobre as imagens para ver em tamanho maior.

PS.2: Atualização às 14:10. Para cesso aos resultados da Globo S.A. ver Central de Resultados publicados no Valor. Link: https://valor.globo.com/valor-ri/empresa/globo-comunicacao-e-participacoes-sa/


quarta-feira, março 20, 2024

IA da Google no futebol: humano como base, mas com avanço da dominação tecnológica

Quem pensou que a tecnologia no futebol ficaria restrita ao VAR e às estatísticas de desempenhos isoladas dos jogadores, apostou na Best errada (sic). O Google, já passou a utilizar uma potente, volumosa e extraordinária base de dados de várias jogadores, partidas e campeonatos que trabalhadas com tecnologia IA podem definir táticas para times de futebol.

O TacTicAI do Google sugere táticas, em especial, em jogadas de bolas paradas. Os seguidos casos de usos ampliados da economia de dados em variados setores, demonstra como é difícil mensurar seu tamanho ou extensão que são cada vez mais utilizados em extensa e enorme cadeia. Jogadores se transformarão em extensões das máquinas? Não. Até porque todos nós já somos ciborgues (ou cyborg – organismo que mistura partes orgânicos e cibernéticas ou digitais) quando não nos desgrudamos (olhos, mentes e dedos) de nossos celulares.

Não deve demorar, para que os clubes de maiores investimentos, passem a destinar mais dinheiro para aquisição de softwares e aplicativos desses dados, do que, exatamente, em bons jogadores. O humano continuará a ser e sempre a base dos dados capturados para serem depois algoritmizados. O humano prevalece e por isso esse jogo (futebol) vem atraindo tanto dinheiro.

Assim, os recursos disponíveis para clubes de grandes fundos investidores ficarão ainda mais fortes, embora o imponderável possa ainda prevalecer. Nos outros esportes coletivos como basquete e vôlei, as chances de um clube pequeno (hoje chamado de menor investimento) ganhar de uma equipe poderosa e com muito recursos é quase nula. No futebol, ainda não.

Observe na matéria do jornalista Rafael Garcia, em O Globo (20/03/2024, p.28) que as primeiras táticas sugeridas pelo aplicativo TacTic do Google são para ações e jogadas mais fáceis de serem programadas, com estratégias que podem ser treinadas para bolas paradas como faltas, escanteios, etc. e contra times específicos já mapeados. A tendência é que os grandes clubes de futebol, ou aqueles de maiores investimentos, fiquem ainda mais fortes. O que também tende a ampliar a financeirização no futebol, já grande entre SAF e FC S.A.

Porém, mais que o esporte futebol em si, a notícia deve despertar nossa observação para o tamanho da economia digital e para a sua atuação transversal, com fortes impactos sobre praticamente todos os demais setores econômicos e da vida em sociedade. O que ajuda a explicar o gigantismo das Big Techs, os maiores oligopólios da história da humanidade.

Oito a nove (8/9) das dez empresas de maior valor de mercado mundo são do setor de tecnologia, de onde faço a leitura sobre a “dominação tecnológica imbricada à hegemonia financeira”, ambos baseados na racionalidade neoliberal que redundam na interpretação sobre a estrutura desse fenômeno, que venho denominado, com outros pesquisadores, como o “tripé do capitalismo contemporâneo”.


PS.: Texto com colaboração de comentários a partir de postagem sobre o tema no perfil nas redes sociais (FB; Instagram e Twitter).

terça-feira, março 05, 2024

Dominação tecnológica no capitalismo contemporâneo

Atualizando dados para uma mesa de debates que envolve a dominação tecnológica no capitalismo contemporâneo, observei que a soma de valores de mercado das 10 maiores corporações de tecnologia já equivale a 4 vezes à soma das 10 maiores petroleiras no mundo.

Há menos de um ano (nove meses) essa relação entre as dez maiores companhias de tecnologia e as dez maiores petroleiras do mundo era de três vezes.

Observa-se ainda que a maior corporação de tecnologia hoje, a Microsoft, vale 3,089 trilhões. 50% a mais que a maior petroleira, a Saudi Aramco que vale 2,023 trilhões. Só a Microsoft vale, ainda, 19% mais que a soma do valor de mercado das demais nove petroleiras.

Hoje, três das maiores corporações de tecnologia (Microsoft, Apple e Nvidia) valem, individualmente, mais que a petroleira saudita, Saudi Aramco. E oito das dez maiores corporações em valor de mercado do mundo são do setor de tecnologia. Tudo isso, num momento em que a Inteligência Artificial (IA) ainda dá os primeiros passos, em termos de captura e/ou geração de valor na economia em sua totalidade. 

Processo que venho chamando de “dominação tecnológica”, profundamente imbricado à “hegemonia financeira” no capitalismo contemporâneo com liderança do oligopólio das Big Techs que lutam e disputam dia-a-dia para avançar para monopólios que já se tornaram reais em alguns subsetores.

Vale ainda observar que se trata de dois setores transversais com enorme capacidade de atravessar todos os outros setores da economia e da vida em sociedade.

O setor de tecnologia digital como etapa contemporânea da reestruturação produtiva possui características multidimensionais e transescalares.

Além disso, tem o predicado de se espalhar e penetrar muito facilmente em rede nas diversas atividades humanas, seja como meio de produção (negócios e logística) ou como meio de comunicação, caso das conhecidas mídias digitais onde exerce a capacidade de influenciar nas potentes relações de poder e política, para além da economia.

Ou seja, no plano da superestrutura, mediado pela noção de totalidade, há ainda muito a ser analisado sobre o fenômeno contemporâneo da digitalização de quase tudo que vem transformando o capitalismo enquanto sistema nos diferentes espaços do mundo.

sábado, fevereiro 17, 2024

Por que os R$ 21 bilhões da movimentação de 2023 do Porto do Açu são tão pouco comentados?

Eu fiz uma postagem (aqui) no meu blog, no dia 6 de fevereiro de 2024 repercutido também no meu perfil no FB e no Instagram sobre a movimentação (exportações e importações) do Porto do Açu no ano de 2023 com dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio (MDIC).

Repito o valor FOB (US$) dessa movimentação em 2023: US$ 4,219 bilhões ou aproximadamente R$ 21 bilhões. Este valor, 70% maior do que a movimentação do Porto do Açu em 2023.

Na movimentação de 2023, 86% são referentes às exportações que totalizaram (US$ 3.626) e apenas 14% o valor das importações (US$ 592 milhões).

 Atividades de serviços portuários no Açu, SJB em 2023.
Como já comentamos, as maiores exportações dizem respeito aos recursos minerais (minério de ferro, petróleo, cobre e até lítio). Os países a que se destinaram as maiores exportações são: 1) China (42%) valor de US$ 1,523 bilhão; 2) EUA (25%) - US$ 906 milhões; 3) Índia - US$ 507 milhões; 4) Espanha - US$ 297 milhões; 5) Holanda - US$ 112 milhões; 6) Itália - US% 83 milhões; 7) Uruguai - 54 milhões. As importações, que equivaleram a apenas 14% de toda a movimentação, vieram em sua maior parte da Alemanha, Reino Unido, EUA, França e China.

É interessante que uma informação desse tipo (divulgada aqui, repito, no dia 6 de fevereiro de 2024) não tenha sido repercutida, porque imagino que fosse de interesse ao nível regional e nacional.

Os dados são públicos e podem ser acessados por qualquer pessoa, jornalista ou a mídia corporativa. O fato me chama a atenção. Evidente que muitas hipóteses podem ser levantadas para essa questão. Porém, destaco uma delas. As informações corporativas e financeiras são em sua grande maioria fruto de releases produzidos pelas próprias corporações e sob a ótica dos seus interesses. E como a própria companhia, grupo ou o seu fundo controlador não divulgou, ela não saiu divulgada mais amplamente.

Então caberia outra pergunta enquanto hipótese: por que os proprietários e controladores do Porto do Açu não teriam interesse nessa divulgação específica sobre valores da movimentação portuária (já que o mesmo aconteceu em 2023 sobre a movimentação do ano de 2022), diante de tantos releases e posteriores matérias sobre tipos de movimentação portuária, exportação, contratos, empregos, obras e possibilidades de novos negócios naquele empreendimento?

Vou citar apenas uma hipótese: não interessa divulgar o volume de riqueza que passa pelo Porto do Açu e pela região deixando tão pouco em impostos e mesmo empregos, proporcionalmente, aos negócios que acabam, usando, especialmente, a região como "território de passagem" num empreendimento até aqui como um enclave com pouquíssima conexão com a região, reforçando a caracterização de um porto como base logística transescalar, mais ligada ao extrativismo.

Seus proprietários desejam fluidez das cargas para ampliar seus lucros na produtividade do porto, pouco se interessando por enlaces com as comunidades locais, vistas, na realidade, mais como problemas do que como solução e oportunidade.

Evidente que há outros argumentos, hipóteses e explicações. Porém, se trata de um fato. O volume em valores FOB da movimentação portuária do Porto do Açu é um assunto a ser deixado de lado.

Uma riqueza que pela região apenas circula, como característica principal de um porto de 5ª geração com conexões na escala global e até aqui muito pouco de agregação de valor em indústria (porto-indústria, Zona Industrial Portuária - ZIP ou MIDAs, Maritime Industrial Development Area) na enorme retroárea de mais de 90 Km², fruto, em boa parte, de centenas de desapropriações de pequenos produtores rurais. As exceções são a unidade de geração de energia elétrica da GNA (UTE) e a FMC-Technip com a produção de tubos flexíveis para uso nas instalações offshore das petroleiras para extração de petróleo.

O assunto demandaria mais uma série de outros comentários que esse autor e seu blog vêm fazendo e comentando desde o início das intenções do projeto de instalação do empreendimento ainda no ano de 2005 e 2006, porém para não misturar muitos os assuntos ficaremos por aqui.

PS.: Os dados dos valores da movimentação portuária aqui comentado são um pouco maiores (exportações) do que os da postagem do dia 6 de fevereiro de 2024, por conta de atualizações e ajustes feitos pelo MDIC em seu site.

terça-feira, fevereiro 06, 2024

Movimentação de cargas no Porto do Açu e receitas de ISS em SJB e Campos, RJ, em 2023 reafirmam a condição principal de “território de passagem”

O crescimento dos serviços é uma característica da sociedade contemporânea e de todo o país. Desde 2000-2004 (época que elaborei do Raio X do orçamento de Campos dos Goytacazes) acompanho essas principais receitas dos municípios. Naquela época começavam a disparar as receitas dos serviços nas capitais e cidades das regiões metropolitanas, logo após terem superado as receitas do imposto sobre a propriedade, o IPTU.

Nesses últimos vinte e três anos as receitas dos serviços seguiram se ampliando. Logo adiante, o mesmo fenômeno passou para as cidades de médio porte e agora até mesmo em alguns municípios de menor porte.

Nessa transição foi sendo superada a antiga classificação da economia entre de atividades do setor primários, secundário e terciário. Os serviços se ampliaram como atividades que foram se desagregando da produção industrial e mesmo agrícola e avançando para além de saúde e educação. 

Também por isso essas atividades e suas receitas passaram a crescer mais na esfera da União, Estados e municípios. Estes, por direito constitucional, passaram a monitorá-los e regulamentá-los mais de perto, visando maior arrecadação diante do aumento das despesas derivadas dos direitos dos cidadãos.

Numa sociedade mais complexa e sofisticada os serviços se multiplicam. Um exemplo: no passado, não existia a ideia de logística e nem a informática como instrumento da chamada transformação digital. A intermediação de serviços de RH, contabilidade, marketing, TI, etc. para além de saúde e educação eram departamentos das companhias. Os serviços são atividades ligadas à densidade populacional e/ou negócios e mesmo das cadeias de produção.

É nesse contexto que se deve observar as variações deste tipo de receita nos últimos anos nesses dois municípios do Norte Fluminense. Campos dos Goytacazes–RJ, como município de médio porte que é polo regional há muitas décadas e São João da Barra, após separado do município de São Francisco do Itabapoana em 1995, do início da construção do Porto do Açu em 2008 e do início de suas operações e movimentação portuária que se dá a partir do 2º semestre de 2014.

   Atividades de serviços portuários no Açu, SJB, só impactam ISS
Em 2014, com o início das operações de exportações no Porto do Açu, a receita de ISS em SJB somou R$ 63 milhões. Em 2017 caiu para R$ 42 milhões. O fato se deveu a um acidente ocorrido no mineroduto entre o município que liga a mina de minério de ferro da Anglo American no Quadrilátero Ferrífero em Minas Gerais e o Porto do Açu (PdA) em São João da Barra, litoral norte do ERJ.

Em 2016 o ISS de Campos foi de R$ 89 milhões enquanto o ISS de SJB foi de R$ 43 milhões. Em 2020 (1º ano da pandemia) a receita de ISS em Campos foi de 81,5 milhões e o de SJB já tinha subido para R$ 86 milhões, ano é que começa a haver um distanciamento da receita de ISS entre esses dois municípios.

Em 2023 as receitas do imposto ISS nesses dois municípios foram:

São João da Barra - R$ 174 milhões;
Campos dos Goytacazes - 152 milhões.

Ou seja, em 2023, SJB arrecadou 14% a mais com o imposto de ISS do que Campos, RJ.

Nas Leis Orgânicas Anuais (LOAs) desses dois municípios, a previsão de receita para 2024 é de R$ 123,4 milhões para Campos, RJ e de R$ 184,0 milhões para SJB, RJ. A maior arrecadação de Imposto Sobre Serviços (ISS) em SJB está diretamente vinculada aos serviços e atividades portuárias nos dez terminais do complexo do Porto do Açu licenciados junto à Antaq.

Em SJB, a receita de ISS já é quase dez vezes maior do que a receita sobre propriedade, o IPTU. Já em Campos dos Goytacazes, essa relação entre ISS (maior) e IPTU é de cerca de 15% a mais. Em Campos dos Goytacazes, foi em 2020 que a receita de ISS ultrapassou a receita do imposto IPTU.

No caso município de SJB, a receita do ISS, basicamente oriunda das atividades e obras no complexo portuário. Dessa forma, não é um exagero a afirmação que venho efetuando de se tratar, basicamente, de um “território de passagem” para a riqueza mineral que é por ali exportada, em especial minério de ferro e petróleo, após transbordo em navios no terminal 1 do Porto do Açu.

Vale lembrar que o ISS é um imposto municipal e que tem uma alíquota que varia até 5% conforme os serviços prestados. No caso de SJB na fase de instalação e implantação do porto, essa alíquota para os serviços portuários foi reduzida pela Câmara de 5% para 2,5%.  



Movimentação portuária nos dez terminais portuários licenciados pela Antaq no Açu em 2023

Enquanto isso, a movimentação portuária (exportações + importações) nos dez terminais portuários do Complexo do Porto do Açu, através de mais de 6 mil embarcações circulando em 2023 teve como destino e/ou origem mais de 30 diferentes países. 

A movimentação de cargas no ano de 2023, segundo dados da Comex-Mdic, em valores FOB US$, chegou a (US$ 4,210 bilhões (US$ 3,617 de exportações e US$ 592 milhões de importações). Uma movimentação com valor, 89% maior do que em 2022, quando essa cifra foi de US$ 2,25 bilhões. A maioria das exportações são dos produtos minerais como petróleo, minério de ferro e também cobre (vindo de Goiás e mesmo o lítio vindo do Vale do Jequitinhonha).

Em valores na moeda brasileira, essa movimentação de cargas de 2023 em SJB, significa cerca de R$ 21 bilhões. Se estimarmos, um percentual de 10% de receita para o conjunto dos serviços portuários, é possível chegar a um valor de cerca de R$ 2,1 bilhões para a holding Prumo Logística Global, dona do Porto do Açu controlada pelo fundo americano EIG Global Energy Partners

Diante desses números, pode-se dizer que o aumento da receita de ISS para o município de SJB em 2024 de R$ 184 milhões é ainda muito pequena para o município que não a fiscaliza, aceitando as autodeclarações das companhias que atuam nas movimentações de carga no Porto do Açu.

Assim, é também possível reafirmar que as atividades de logística servem mais aos objetivos do extrativismo e o uso do “território como de passagem”, do que, propriamente, à noção de desenvolvimento regional. Até aqui as únicas exceções são a geração de energia elétrica na usina termelétrica, GNA e à produção de tubos flexíveis pela FMC Technip.

Adiante, detalharemos um pouco mais sobre os dados do MDIC a respeito do volume de exportações e importações realizadas pelo Porto do Açu (PdA) em SJB no ano de 2023, seja em valores FOB US$, em toneladas e tipos de cargas.

Essa movimentação de cargas no PdA em SJB se relaciona a mais de três dezenas de países, sendo que a maior parte das exportações continua a ser para a China 42% e depois EUA e Índia. E as importações, em bem menor valor e peso, vêm especialmente da Alemanha, Reino Unido e EUA e depois são reencaminhadas aos clientes dessas cargas.


PS.: Atualizado às 09:50 de 07/02/2024: para corrigir o valor da movimentação em US$ do Porto do Açu em 2023, quando citamos apenas as exportações sem considerar as importações. Junto, esse volume chegou a US$ 4,2 bilhões, ou R$ 21 bilhões, 89% superior à movimentação de 2022. Foram acrescentadas outras informações no texto como a maioria das exportações para petróleo e minério de ferro e referente à alíquota de ISS dos serviços portuários cobrada pelo município de SJB de 2,5%.

sexta-feira, fevereiro 02, 2024

IBGE: Brasil tem mais igrejas que escolas somadas. Campos, RJ índice chega a mais 52%

Esse indicador do IBGE é muito interessante e permite um conjunto expressivo de análises em múltiplas dimensões. É um indicador com relação direta com o dado sobre população. Onde se tem mais moradores há necessidade de mais escolas e unidades de saúde.

Os estabelecimentos religiosos tendem a seguir essa tendência, porém a maior densidade em alguns municípios e regiões levam a várias questões. O cruzamento dos municípios com mais diferenças podem levar a outras hipóteses a serem analisadas.

Vale ainda observar que dos dez municípios com mais estabelecimentos religiosos por habitantes do Brasil, oito são do ERJ, a maioria da Baixada Fluminense.

Mesmo que os estabelecimentos religiosos estejam agrupados pelas diferentes frações, é sabido que o avanço das dezenas de religiões evangélicas deve ter fator de peso, nesse indicador, divulgado hoje pelo IBGE, por conta das pequenas igrejas e cultos instalados nos bairros da periferia e junto à população mais pobre e carente de todo tipo de apoio do material, ao apoio pessoal, psicológico e espiritual.

Nessa linha, voltou a sugerir a leitura de dois livros que me impactaram e me deram uma interpretação que não tinha sobre o assunto: "A fé e o fuzil: crime e religião no Brasil do século XXI" do jornalista e pesquisador Bruno Paes Manso e o livro "Traficantes do evangelho: quem são e a quem servem os novos bandidos de Deus" da pastora e pesquisadora Viviane Costa. Breves resenhas destes dois livros podem ser vistas na postagem abaixo desse blog em 27 de dezembro de 2023:
A fé, o fuzil, os traficantes evangélicos, o crime e os bandidos de Deus no Brasil contemporâneo
 
As duas publicações oferecem dados empíricos e análises sobre a relação entre algumas igrejas e líderes religiosos com o crime e com a política, mas de forma nenhuma, pretenderam atribuir ao conjunto dos seus seguidores e líderes essa acusação, o que seria uma aberração, além de um desvairado e inconcebível preconceito, que só atrapalha na compreensão desse fenômeno social em nosso país.

Tenho insistido que mais que dados e indicadores, temos necessidade (não apenas os pesquisadores, mas gestores e a população em geral) de ligar as pontas entre eles, para se tentar construir interpretações mais potentes sobre a conjuntura que possam se desdobrar em melhores planejamentos e planos de ação. Esse indicador permite e sugere uma enormidade de estudos que podem ser realizados.


Campos dos Goytacazes, RJ tem 52% mais de igrejas do que escolas e unidades de saúde somadas

Complementando a nota anterior sobre o indicador que a´pontou que hoje no Brasil há mais estabelecimentos religiosos que escolas e unidades de saúde somadas. Vale conferir.
Aqui exponho os dados de dois municípios do Norte Fluminense (ERJ) Campos dos Goytacazes e São João da Barra, usando uma ferramenta automática criada pelo G1 com esses dados do IBGE que lista o nº de habitantes, residências, escolas, unidades de saúde e estabelecimentos religiosos.



Em Campos dos Goytacazes, RJ são 1.727 estabelecimentos religiosos x 643 escolas x 488 unidades de saúde =1.132. Ou seja, 52% mais estabelecimentos religiosos, e olhe que o índice de escolas em Campos, RJ é alto quando comparado à população. É o sétimo melhor índice do país, o que reforça o que já falávamos há mais de uma década. O enfrentamento das questões do ensino em Campos são as qualidades das instalações das escolas e a qualidade do ensino e em especial, o estímulo a maior capacitação docente e melhor política salarial. Porém, aqui o enfoque é na questão do número proporcionais de igrejas em relação a estes dois principais equipamentos públicos, como já comentei na nota anterior.


No município de São João da Barra, esses números são um pouco diferentes, mesmo que ainda com mais estabelecimentos religiosos (139 igrejas e cultos) x 128 (66 unidades de saúde: hospitais e UBS) = 62 escolas. Ou seja, cerca de 8% a mais.
Esses dados e indicadores merecem uma análise mais apurada para leituras mais potentes.



quarta-feira, dezembro 27, 2023

A fé, o fuzil, os traficantes evangélicos, o crime e os bandidos de Deus no Brasil contemporâneo

Nessa virada de ano ofereço a sugestão de dois livros que merecem ser lidos, para se tentar compreender um pouco mais o fenômeno da fé e da religião evangélica - que não para crescer em todo o país - e sua relação com o crime, o tráfico e as milícias no Rio, São Paulo e em todo o Brasil.

São duas publicações editadas nesse ano de 2023. O autor do livro “A Fé e a Religião: Crime e religião no Brasil do Século XXI” é o jornalista Bruno Paes Manso que é quem indica e prefacia o segundo livro “Traficantes evangélicos: Quem são e a que servem os novos bandidos de Deus” de autoria da Viviane Costa.

Bruno Manso tem doutorado pela USP, mas se apresenta apenas como jornalista e pesquisa o assunto da violência urbana há mais de duas décadas. Ele é também o autor do livro (que ainda não li) “República das Milícias”. Já a Viviane Costa é licenciada em história, mestra em Ciências da Religião e pastora da Assembleia de Deus.

O primeiro livro, o do Manso, trata mais do fenômeno do PCC e da expansão dos evangélicos na região metropolitana de São Paulo, mas não unicamente. Já o segundo livro da Viviane trata mais do que autora chama de “narcoreligiosidade carioca” que envolve ainda a periferia da região metropolitana que inclui a Baixada Fluminense. A abrangência geográfica das duas publicações permite uma análise mais profunda, assim como suas ligações com outras regiões do país e mesmo o interior dos estados RJ e SP.

De cara digo, que os dois livros me impactaram profundamente e percebi com a visão que temos desse fenômeno é superficial, preconceituoso e quase invisível diante do todo, seja da política, da economia e/ou da vida em sociedade no Brasil contemporâneo.

A religião evangélica está por meses ou anos para se tornar a religião hegemônica no Brasil, embora a estimativa tenha sido feita até o ano do 2030.

O livro “A fé e o fuzil” de 301 páginas do Manso vai além da análise das milícias do seu livro anterior, tratando também do tráfico, mas foca nas razões que podem explicar o crescimento da igreja evangélica pentecostal, a partir da rede de proteção material e de solidariedade humana oferecida por essas organizações entranhadas nas comunidades, em especial, as periféricas e de sua a relação, quase automática, com os grupos criminosos com os quais seguem ambiguamente convivendo e se retroalimentando.

Como bom jornalista e pesquisador, Bruno Manso ouviu muitos assassinos, pastores e gente convertida. Muitas vezes, exatamente os mesmos personagens, apenas em lapsos de tempo distintos. Com texto perfeito, direto, contextualizado e que fui facilmente, o relato descortina um mar de questões e indagações sobre a sociedade brasileira e periférica contemporânea. Penso que se trata do relato de uma pesquisa com forte poder de contribuir com explicações para a questão do peso dos evangélicos na ascensão da extrema-direita no Brasil.

Manso descreve também como se dá a montagem dos “exércitos da fé” e sua preparação para o que chama de “batalhas espirituais” da salvação do apocalipse. A guerra do bem contra o mal aliada à teologia da prosperidade (empreendedorismo de si próprio) que, de certa forma, ajuda na explicação (para muitos, contraditória) sobre as razões da defesa pelos evangélicos para o uso das armas para sua “guerra santa”.

Assim, a periferia está cada vez mergulhada nessa alternativa, desacreditada daqueles que defendem a política, as políticas públicas e o aperfeiçoamento do Estado que muitas dessas organizações enxergam como problema e inimigos do seu bem-estar e da sua forma de ver o mundo.

O segundo livro “Traficantes Evangélicos: Quem são os novos bandidos de Deus” da Viviane Costa é outro relato de pesquisa que nos auxilia na compreensão sobre o fenômeno ligado às relações do narcotráfico com o pentecostalismo que compõe o que autora chama de “narcoreligiosidade carioca”. Um fenômeno que se integra à dimensão da política e da disputa pelo poder no Rio ligado ao surgimento da facção bolsonarista e da guerra urbana dos territórios pentecostalizados (a autora não separa a fração do neopetencostalismo).

Viviane em sua publicação de densas 170 páginas, expõe um pentecostalismo fluido do “espírito santo” que protege a todos que se associam contra o mal, seja quem for: o Estado, ou os grupos rivais na disputa pelo território que tem levado a um “Jesus dono desse lugar” a partir da narcoreligiosidade.

É importante registrar que a autora não apenas dá crédito, mas utiliza de uma forma inteligente, resgatando e contextualizando, em ótima síntese, fontes anteriores que pesquisara e trataram do tema como Marcos Alvito, Cristina Vital da Cunha, Patrícia Birman, o próprio Bruno Manso e dezenas de outros autores citados nas referências), indo bem além, numa pesquisa empírica de quem vê e vem de dentro do fenômeno e no território onde o mesmo se desenvolve.

Viviane Costa explica em boa parte essa guerra do bem (guerra das divindades ou guerra santa) que envolve as disputas pelo domínio do território. Em que pastor pode ser também chefe do tráfico (TCP), frequenta cultos e se mistura nessa ambiguidade (para nós estranha), mas que dá direção ao seu grupo, ao território, constitui novas lideranças, define estratégias, etc. tudo (ou quase) sob “a orientação de Deus”.

Viviane atualiza dados sobre a colossal expansão da religião evangélica que se sustenta numa potente rede de proteção material e espiritual onde o Estado é ausente. Assim, falam de manuais, dão orientações de táticas de guerra, de expansão do credo e informam sobre novas batalhas santas (“proibidões”) quando e onde formam novos ídolos e personalidades (gospel e influenciadores), estilos culturais, etc.

Ambos os relatos permitem ver, por boas frestas, como a religião evangélica se torna uma chave interpretativa das dinâmicas de violências facciosas no Rio de Janeiro para domínio do território, visto como espécie de “reconstrução dos muros da Cidade Santa” que obedeceria a ordens divinas em territórios em que “Jesus passa a ser o dono do lugar”, como o Complexo de Israel (Parada de Lucas e Vigário Geral), da mesma forma que se entende a hegemonia política da extrema-direita na periferia do Rio de Janeiro.

Fica claro com o livro, as identificações econômicas e neoliberais comuns às teologias pentecostais que aparecem não por acaso nas estruturas dessas organizações narcoreligiosas.

Trata-se de um fenômeno complexo, amplo, mais que ambíguo, multifacetado e para nós (outros, quase em minoria), ainda quase que invisível. Um fenômeno que, segundo a autora “se entrelaça em nome de Deus, por disputas espirituais e por território, nas fronteiras de uma guerra que não tem fim no horizonte”.

Penso que é preciso sair da superficialidade das leituras preconceituosas e da ideia apenas das diferenças entre pentecostais e neopentecostais como base da extrema-direita nas periferias de nossas metrópoles. Há que se oferecer alternativas e isso não é simples, porque se enfrenta uma enorme base instalada de organizações que fazem a mistura do divino com o material e a junção da concepção de mundo que junta o neoliberalismo e a divindade.

Vale muito a leitura de ambos os livros. Peço desculpas pela extensa e humilde resenha, mas ela tem a finalidade de não apenas sugerir, mas insistir que vale a pena a leitura de ambos os livros.

Mesmo que as perspectivas nas fronteiras dessa guerra (dissimulada) pareça não ter fim, haveremos de prosseguir tentando entendê-la como parte de uma disputa de classes e interesses no ambiente do capitalismo hegemonicamente financeiro e neoliberal.

Não haverá saídas sem a participação direta da população periférica e marginalizada que foi capturada pela esperança vendida com enorme rede de proteção que ofereceu solidariedade e novos horizontes. São essas crenças e ações que seguem em disputa.

domingo, novembro 19, 2023

BlackRock: estratégias e ampliação da participação em negócios financeiros e corporações no Brasil

O fundo financeiro americano BlackRock é a maior gestora de fundos do mundo, controlando um patrimônio líquido que não para de aumentar e chega, hoje, a cerca de US$ 10 trilhões ou R$ 50 trilhões no mundo. No Brasil, a BlackRock atua tanto na capitalização para seus fundos, quanto nos investimentos em valorização de ativos da economia real.

Esse valor de patrimônio sob gestão do BlackRock no mundo de US$ 10 trilhões é equivalente a 6X o PIB de todo o Brasil, embora essa comparação seja para ter ideia dos volumes de capital, mas um se trata do valor de patrimônio em valor de mercado - incluindo capital fictício - e outro estoque de riqueza real do país. No Brasil, não se tem o número exato do volume de patrimônio e participações da BlackRock entre investimentos em inovações financeiras (ações, outros fundos, etc.) e nas participações de corporações da economia real.

Porém, é vasta e impressiona a quantidade os investimentos e participações do fundo financeiro BlackRock em grandes corporações no Brasil. Em geral, são participações que oscilam entre 1% e 10%. Ex: Petrobras, Eletrobras, Bradesco, Light, Equatoral Energia, Embraer, JBS, Suzano Celulose, BRF, Marfrig, Minerva, Klabin, Fibria, Vale, Itaú, Bradesco, BTG, PRio, 3R Petroleum, Gerdau, Usiminas, Energisa, Cemig, Copasa, Via Varejo (Casas Bahia), Renner, Ambev, WEG, Grupo Soma (Hering, Animale e Farm), Arezo, Drogasil, Localiza, Assaí, Iguatemi, Cyrela, Qualicorp, etc. Vale observar que essas participações são muito dinâmicas e se alteram muito rapidamente no tempo conforme busca de maior rentabilidade.


Fonte: Quadro e-investidor publicado em matéria 30 maio 2023.

Como se sabe, os negócios e participações da BlackRock vão bem para além do quadro acima que mostra alguns dos principais movimentos no final de 2022 e início de 2023. A gestora de fundo de investimentos BlackRock está presente em negócios de diversos setores no Brasil como energia (eletricidade e petróleo), bancos, agronegócio, alimentos, mineração, siderurgia, indústria, comércio e varejo, construção e imobiliáio, etc. e também utiliza o discurso de privilegiar a visão ESG (Environmental, Social and Governance ou investimentos em Meio Ambiente, Social e Governança) com foco na sustentabilidade e da transição energética. 

No Brasil, mais recentemente, chama a atenção o avanço dos investimentos em negócios privatizados e em termos espaciais há agora um grande interesse em Minas Gerais que está em vias de privatização de empresas estatais com o governo Zema. 

No mundo, e em especial nos EUA, a BlackRock também tem ampla e diversificada participação em grandes corporações do setor de energia (Esso), tecnologia (Big Techs: Apple, Google, Microsoft, Tesla), indústria, alimentação, varejo (Wallmart) e investimentos cruzados com outros grandes fundos globais como o Vanguard, Fidelity, Morgan Staley, etc. que fazem o mesmo com outras companhias mundo afora. Como se observa, muitas dessas corporações possuem ramificações no Brasil com filiais e/ou subsidiárias.

Quem controla, mesmo que de forma minoritária, tão ampla participação em diferentes setores e territórios, sempre atuará tanto politicamente em defesa dos seus interesses, quanto geoeconomicamente, para garantir ganhos em escala e não necessariamente localizados em ativos por país. O que muitas vezes explica negócios, aparentemente inexplicáveis, de entrada e saída na participação de companhias, que individualmente não teriam razões para isso.

Vale observar com atenção os movimentos de entrada e saída dessas participações acionárias da gestora BlackRock no Brasil. Em especial no setor elétrico, lembrando que na Eletrobras privatizada por Bolsonaro, o BlackRock tem posição expressiva superior a R$ 6 bilhões. Na América Latina, a BlackRock tem investimentos e patrimônio da ordem de quase US$ 100 bilhões.

Tenho insistido desde o lançamento do livro "A ´indústria´ dos fundos financeiros: potência, mobilidade e estratégias no capitalismo contemporâneo" (Ed. Consequência, 2019) sobre a necessidade de melhor se observar o papel que as gestoras de fundos globais realizam no âmbito da configuração da atual hegemonia financeira no Brasil e no mundo.

São movimentos que mostram ainda o enlace do BlackRock com o setor bancário, fundos financeiros nacionais, controle das inovações financeiras (e papeis), captura de excedentes nacionais em seus diferentes tipos de capitalização e ainda dos ativos da economia real, em controle de ativos que vai lhe garantir valorização, alta rentabilidade e capacidade de interferência nas políticas e nas economias nacionais.

Essa denominação de ativos explica como as gestoras dos fundos financeiros lidam de forma simultânea com negócios financeiros (aplicação em renda fixa, titulo, ações e mercado de capitais, câmbio, etc.) e as aplicações em companhias da economia real, onde apostam na sua valorização e nos rendimentos a serem capturados das economias nacionais. A denominação de ativos facilita a comparação destes diferentes tipos de investimentos que passam a ser considerados pelo valor de mercado, incluindo especulação e expectativa de valorização futura e não pela capacidade produtiva de riqueza.

Um dos instrumentos do BlackRock nesses movimentos é sua plataforma Aladdin muito voltada para os fundos tipo ETF e/ou iShares(fundo de índices ou fundos coletivos negociados em bolsas) em que sua capacidade oligopólica de atuação permite simular movimentos e rentabilidades de entrada e saídas em prazos mais curtos que engolem estimativas de investidores e corretoras menores.

A plataforma Aladdin, é um sistema operacional potente que faz uso de fortíssimo aparato computacional, baseado em nuvens (centro de dados ou datacentes), que disponibilizam dados em grandes painéis de vídeo, espécie de central de operação, com capacidade de monitorar online (ou diariamente) milhares de fatores de risco, levando em conta milhares de cenários para dezena de milhares de carteiras. 

Com uso de pessoal qualificado em TIC e finanças, essa plataforma (sistema) pode submeter seus investimentos a testes de stress com centenas de milhões de cálculos e algoritmos que são atualizados e ajustados para opções de seus interesses. Outro forte instrumento de capitalização é a atração do capital de grandes famílias para seus investimentos no Brasil e fora, através das careteiras do tipo family office.

Trata-se de uma forma mais agressiva de financeirização que substitui o crédito e o endividamento bancário pelo controle direto dos ativos escolhidos em prateleira, onde através dos seus representantes, CEOs e diretores com mandatos temporários e fixados e ganhos conforme resultados pré-definidos que acabam impondo perversos mecanismos de enxugamento, exigem "reengenharia", pressões sobre os vários stakeholders e precarização sobre o trabalho no território.

É essencial entender e debater esse fenômeno sobre as cadeias de valor global, a atuação transversal e transfronteiriça dos fundos, sobre a geoeconomia, a geopolítica, a disputa pelo poder político nos países e a formulação das estratégias dos projetos nacionais de desenvolvimento.