segunda-feira, dezembro 02, 2019

"Os EUA são o maior refúgio para dinheiro sujo do mundo" diz editor do Financial Times

"Os EUA são o maior refúgio para dinheiro sujo do mundo". A afirmação é de Edward Luce, editor e colunista do Financial Times, tradicional e centenário jornal inglês, que trabalha com ênfase especial em negócios e notícias econômicas sobre o capitalismo mundial.

O texto original foi publicado aqui no Financial Times, no último dia 28 de novembro de 2019, com o título How money laundering is poisoning American democracy, foi traduzido e republicado no dia seguinte (29/11/2019), aqui, pelo jornal Valor (P. A19) com o título: "Uma ameaça à democracia americana - Os EUA são o maior refúgio para dinheiro sujo do mundo".

É um artigo que merece ser lido para quem insiste no moralismo colonizado que interpreta que o Brasil seria o pária da maior corrupção e lavagem de dinheiro do mundo, sem sem querer observar o que se passa no capitalismo central entre os EUA e Reino Unido de forma mais especial. Vou repetir o que disse Edward Luce: "os EUA são o maior refúgio para dinheiro sujo no mundo". Em outras palavras, os EUA é a maior lavanderia de dinheiro sujo no mundo. 

Imagino que você que comprou a ideia vendida pela mídia comercial tupiniquim de que o Ministério Público dos EUA ajudava a justiça brasileira a moralizar a política, como não deve se sentir vendo isto sendo falado e sustentado, não por alguém de esquerda, mas por um dos editores do Financial Times.
















Luce diz mais: "Seus fluxos de dinheiro ilícito superam de longe os de qualquer outro território, a não ser que considere o Reino Unido e seus paraísos fiscais marítimos como apenas um. O tesouro dos EUA estima que US$ 300 bilhões são lavados no país no país a cada ano. Isso é apenas uma fração do número real. Ainda pior, o governo dos EUA não tem ideia de quem controla as empresas que canalizam o dinheiro, porque o país carece de um registro central de pessoas jurídicas". 

Luce afirma também que "os bancos não relatam atividades suspeitas e muito menos as bancas de advocacia, as firma imobiliárias, negociantes de artes, empresas incorporadoras e instituições financeiras não bancárias".

Os EUA de Trump não têm o que oferecer ao Brasil: tarifaço é só mais um exemplo!

Os EUA de hoje não têm nada a oferecer, muito menos, a quem se subjuga em dependência assumida após golpe. Isso explica o novo tarifaço de Trump contra as exportações do aço do Brasil divulgado hoje. Ver aqui.

Enquanto isso, a China nos últimos anos emprestou mais recursos que o FMI e o Banco Mundial juntos em mais de 100 países, segundo o estudo "China´s Overseas Lending" sobre movimentação financeira entre países. (Acesse aqui o estudo)

A China tinha em 2018, um volume de US$ 5 trilhões (6% do PIB mundial) em créditos e títulos soberanos, volume que é dez vezes maior do que em 2000.

São empréstimos comerciais em sua maioria, muitas vezes com pagamento exigido em commodities, com prazos longos e taxas de juros abaixo do mercado. Não são bonzinhos, mas enxergam objetivos diversos dos EUA que também tem parte dos títulos do seu tesouro nas mãos dos chineses.

O desgoverno do Brasil foi à China, e mesmo com a desconfiança destes, voltou com várias propostas de acordos comerciais e financiamentos em infraestrutura.

Já os EUA quer apertar o cinto no pescoço de quem aceitou ser golpeado e controlado. Submissão é isso, o resto é conversa para boi dormir.

domingo, dezembro 01, 2019

Brasil vive maior fuga de investimentos na Bolsa em 15 anos - 50% maior do que na crise financeira global de 2008

Já se falou bastante sobre a saída de investimentos estrangeiros do Brasil nos últimos meses, em especial na Bolsa de Valores (B3). Porém, parece que a dimensão do fato ainda não foi bem absorvida e suas consequências compreendidas. Creio que o fato possa estar relacionado à invisibilidade que estas questões financeiras possuem na sociedade de uma forma geral.

O mercado financeiro na semana passada trabalhava com a previsão de que este ano (estamos no último mês) aconteça a maior fuga de capitais da Bolsa dos últimos 15 anos. Só em novembro a saída foi superior a R$ 7,72 bilhões. 

Já em todo o ano de 2019 a saída de recursos financeiros são superiores a R$ 38 bilhões, volume que supera em mais de 50%, a fuga de capital, na crise financeira mundial de 2008, quando nos primeiros onze meses a saída neste segmento alcançou 24,2 bilhões no Brasil. Isso mesmo a fuga atual é 50% superior à de 2008.
A saída de recursos no mercado de ações ainda estão compensadas, em parte, com a entrada em outros segmentos, entre eles os fundos de investimentos em ações, mas ainda assim, o déficit geral é colossal, o maior desde 2004.
Essa aversão dos investidores estrangeiros ao mercado de ações no Brasil é um fato é revelador do contrário daquilo que estimava e vendia a equipe econômica do governo. Talvez, isso explique as ameaças de ditadura do Paulo Guedes. 

Os dados da movimentação da Bolsa com crescimentos acima dos 100 mil pontos parecem reproduzir algo distante da realidade que também pode estar inflando o dólar para além das consequências da fala do ministro. O quadro pode ser ainda mais preocupante se forem observados outros fatos mundo afora. Vale conferir!

sábado, novembro 30, 2019

A black friday como fenômeno na sociedade de consumo

A black friday é um fenômeno sobre como a sociedade foi se transformando na sociedade do consumo. Observá-la é compreender um pouco mais da complexidade do capitalismo em que vivemos. Trabalhar para comprar e consumir. Existir para consumir como referência máxima, quase única, do sujeito.

Um fenômeno real produzido para capturar os consumidores da classe média-média para baixo. Daí para cima são os que ganham com o consumo da massa movida pela tara do consumo já internalizada como objetivo que alcança a maioria. Esse alcance se ampliou por conta do dinheiro digital, abstrato como papel, mas real enquanto informação que confere a materialidade do objeto comprado. Sem o cartão e o dinheiro digital - que é só informação - essa captura teria os limites dos antigos mercados. Numa imagem hipotética, poderíamos comparar com a rede (também de duplo sentido) em que o pescador joga ao mar para pescar ainda mais "consumidores". Uma maioria que na sociedade do consumo impôs quase que uma única razão da existência.

O sujeito é difícil de ser alcançado, mas o consumidor é fácil de ser capturado, manipulado e sugado. O sujeito tende a ser agregador, solidário e coletivo, mas o consumidor é quase uma besta-fera individual que é capturado, e assim demonstra a diferença, exposta pelo volume do consumo, até para exibição de uma competência em ter acesso às compras que só alguns conseguem, assim como na apartação de classes dentro das próprias frações.

Tudo isso se desenrola no mundo presente quase como uma procissão de fé que junta as mesquitas aos mercados, desde as antigas medinas muradas, às atuais redes de negócios controladas pelo circuito financeiro. Tudo entre trocas da produção material e acumulação de um capital que segue transformando o sujeito num consumidor mais voraz e distante do ser ontológico que se alimentava de sonhos.

quinta-feira, novembro 28, 2019

Liberais querem estado para si. Esta é a luta central: defender as instituições, a democracia e retomar o Estado para a maioria!

Os liberais tupiniquins, ao contrário do que muitos pensam, adoram um Estado nem tão mínimo, mas desde que seja para si. Para os do andar de cima.

Sem nenhum rubor eles vão confessando as dificuldades do tal livre mercado.

Ronaldo Caiado, o governador de Goiás, da direita liberal quer reestatizar a companhia de energia elétrica que foi entregue como concessão à italiana Enel.

E a equipe do Guedes confessa que a lei do mercado tem limites e assim tabela os juros do cheque especial que ainda assim continuam escandalosos.

O banqueiro joga para a plateia fingindo regular o seu setor.

É exatamente contra essa gente é que precisamos de uma polarização efetiva e permanente, sem essa conversa de centro. O Estado é para todos, mas de forma especial, para quem mais precisa dele.

Essa é a disputa. Tirar o Estado das mãos do mercado, num governo de banqueiros que atua para os ricos. Enfrentar o bolsonarismo é defender as instituições e retomar o Estado.

Insisto, essa é a disputa que deve unir todos que são contra o neoliberalismo e o poder político controlado pelo mercado. 

Essa luta no Brasil vai envolver o enfrentamento contra o estado de exceção e as milícias. 

Mas que fique claro, a luta é contra todos que defendem o mundo para poucos e por isso estão controlando o Estado que necessita ser retomado junto com a democracia.

quarta-feira, novembro 27, 2019

Fundo soberano do Canadá compra participação na rede de academias Smartfit. O que isso ajuda a explicar o capitalismo contemporâneo?

O amigo Leandro Bruno (professor e pesquisador da UFF-Campos) me repassa a informação que segue reforçando a ampliação do controle que os fundos financeiros (neste caso um fundo soberano, controlado pelo governo do Canadá) sobre a economia real, também na área de serviços.

O CPPIB que comprou 2,6 milhões de ações da Smartfit por R$ 1 bilhão tem sede em Toronto e possui patrimônio líquido de cerca de R$ 2,5 trilhões que estão investidos em várias partes do mundo. A aquisição desta participação foi informada aqui pelo jornal Valor.

Interessante, um negócio privado de compra de participação de uma rede de 739 academias da Smarfit, espalhada em várias cidades do Brasil, acaba de ser adquirida por um fundo controlado pelo governo do Canadá.

Tem-se assim, uma espécie de estatização estrangeira de um negócio brasileiro (mesmo que em parte), que acaba reforçando a a interpretação sobre a estratégia do capitalismo contemporâneo, que cada vez mais se utiliza do instrumento dos fundos financeiros, no movimento de acumulação e concentração da riqueza em diferentes espaços no mundo.
...
As concessionárias das rodovias, aeroportos e portos e outros investimentos em infraestrutura e energia são controlados pelos fundos. As empresas de inovação (startups) bancadas pelos fundos. Várias indústrias mais ou menos intensivas em capital também controladas pelos fundos. Imóveis corporativos, logísticos e shoppings controlados pelos fundos imobiliários. Redes de comércio e franquias controladas pelos fundos (farmácia, hortifruti, restaurantes, varejo, etc.).
...
Um fenômeno real que necessita ser melhor compreendido, nesta nova fase do capitalismo que passou a ser hegemonicamente financeiro e, em especial desde a crise financeira de 2008, passou a ter um uso crescente dos fundos financeiros em todo o mundo, a partir dos países do centro do capital. [1]

De certa forma, este processo vem alterando de forma significativa o processo de intermediação do capital feita pelo sistema bancário. 

Agora, os bancos são em grande parte gestores dos fundos e diretamente controladores, tanto da produção material e dos serviços com a participação em seu capital, quanto do processo de capitalização (ou valorização fictícia), obtida com os papéis que estão imbricados ao mercado de capitais (ações, mercado futuro, derivativos, etc.) numa evolução do que passei a chamar de capital helicoidal. Todo esse processo acumula e concentra ainda mais renta derivada capturada em boa parte do trabalho.


Referência:
[1] Livro desse autor A indústria dos fundos financeiros: potência, estratégias e mobilidade no capitalismo contemporâneo, editado em junho 2019 pela Editora Consequência. Disponível em: http://www.consequenciaeditora.net.br/p-11191655-A-


PS.: Atualizado às 23:22 de 28/11/2019 para acrescentar as informações de matéria do Valor (P.B9):

Segundo matéria do Valor de hoje (28/11), o fundo financeiro Pátria que é comandado no Brasil pelo, ex-presidente do Banco Central (governo FHC) Armínio Fraga, é o acionista majoritário e controlador da rede de academias Smartfit com participação de 62%. A família Corona criadora da empresa tem apenas 18,4%. Em 2018, a receita líquida da rede foi de R$ 1,16 bilhão, apurados com um total de 2,5 milhões de alunos, matriculados em 739 unidades em 9 países, incluindo as franquias.

Enel e não!

A italiana Enel que atua como concessionária de energia em alguns estados brasileiros não presta maus serviços apenas no ERJ.

No estado de Goiás até o governador de direita e ultra liberal como Ronaldo Caiado (do DEM) quer suspender o contrato de concessão e encampar os serviços de distribuição de energia elétrica pelo governo estadual, tamanha o descaso e a má qualidade dos serviços.

Está em curso na Assembleia Legislativa de Goiás um projeto de lei, em fase de votação, para definir a rescisão desta concessão, que o governador diz que faz questão de assinar em frente à sede da companhia em Goiânia.

Se fosse um governador de centro-esquerda estariam chamando de rompimento de contrato, sem levar em conta os interesses da população e o desenvolvimento daquele estado.

Bom lembar que o leilão de concessão da Celg-GT foi realizada em 2016, na gestão de Temer, como o apoio do governador de Goiás, na ocasião, o tucano Marconi Perilo. Nesta passagem, o governo estadual de Goiás, assumiu dívida de R$ 5,5 bilhões da Celg e entregou a empresa à Enel, também sem passivos trabalhistas, que ficaram por conta do estado de Goiás.

A Enel tem contrato de concessão além de Goiás e no ERJ, mas também nos estados de São Paulo e Ceará onde atua tanto na geração, quanto na transmissão e na distribuição, e em todos estes estados a qualidade dos seus serviços é também muito questionada.

Vale também recordar que em vários países da Europa, as concessões de empresas monopolísticas, como de distribuição de energia elétrica e saneamento, tiveram suas gestões retomadas pelo Estado destes países, por questões semelhantes.

O neoliberalismo que deixa tudo por conta do mercado segue ruindo. A regulação no país deixou de existir, quando as agências se transformaram em balcões de negócios para as corporações globais.

terça-feira, novembro 26, 2019

Investidores em fundos imobiliários duplicam no último ano no Brasil e já passam de meio milhão

Volto a tocar no assunto que já tinha sido responsável por nota aqui há uma semana: Crise para quem?

Mais de meio milhão de investidores apenas nos fundos imobiliários (FII) no Brasil, segundo matéria ontem aqui do site de notícias financeiras, InfoMoney.

Para ser mais preciso 518 mil investidores em cerca de 200 fundos imobiliários, mais do dobro do ano passado.

Renda capturada e concentrada.

As gestoras dizem que investimentos diretos de imóveis é coisa ultrapassada.

Eles vendem a ideia de que os rendimentos são isentos de tributação e pagos mensalmente e as cotas dos fundos têm liquidez quase imediata.

Por isso, a indústria dos fundos de investimentos garante e amplia a hegemonia do capitalismo financeiro.

segunda-feira, novembro 25, 2019

Petroleiros iniciam greve em várias unidades da Petrobras contra o desmonte do setor de óleo e gás no Brasil

A partir desta segunda-feira (25/11), os petroleiros mobilizaram os tralhadores em diversas unidades do Sistema Petrobrás em vários estados, denunciando as consequências do desmonte do setor nacional de petróleo e da estatal.

Movimento do Sindipetro-NF em Macaé
A greve foi decidida por tempo determinado (inicialmente até sexta-feira, 29/11) e aprovada em todas as bases da FUP. Nesta segunda-feira, ocorreram atrasos e cortes na rendição dos turnos em diversas unidades operacionais da Petrobrás.

As unidades ligada ao Sistema Petrobrás que estão sofrendo paralisação são: Refinaria Landulpho Alves (Rlam/BA), Refinaria Abreu e Lima (Rnest/PE), Terminal Aquaviário de Suape (PE), Refinaria de Manaus (Reman/AM), Refinaria Presidente Getúlio Vargas (Repar/PR), Refinaria Alberto Pasqualini (Refap/RS), Araucária Nitrogenados (Fafen/PR), Refinaria Duque de Caxias (Reduc/RJ), Refinaria de Paulínia (Replan/SP), Refinaria de Capuava (Recap/SP), Fábrica de Lubrificantes do Nordeste (Lunor/CE), Temoelétrica Ceará, Terminal de Cabiúnas (Macaé/RJ). Nas plataformas da Bacia de Campos e demais bases operacionais do Norte Fluminense, os trabalhadores estão aderido à Operação Emprego e Segurança, indicada pelo Sindipetro-NF para levantar irregularidades praticadas pela gestão da Petrobrás.

Abaixo o depoimento do coordenador do Sindipetro-NF Tezeu Bezerra hoje em frente ao Polo de Tratamento de Gás Natural da Petrobras, em Cabiúnas, Macaé.



PS.: Atualizado às 23:58: Nota da FUP sobre pressão do TST:

"Mesmo com a garantia da FUP de manter produção de petróleo e abastecimento de combustíveis, Tribunal Superior do Trabalho (TST) deu novo parecer desfavorável à categoria"

"Os petroleiros decidiram manter a mobilização por tempo determinado (até sexta, 29/11) definida pela categoria na última semana. O movimento está sendo marcado por ações solidárias, com a participação de trabalhadores na Semana Nacional de Doação de Sangue, para alertar a sociedade sobre os riscos das demissões e transferências em massa promovidas pela atual diretoria da Petrobrás, além da venda de ativos que pode impactar negativamente os preços dos combustíveis, já sujeitos a uma política de alinhamento ao mercado internacional que promove constantes reajustes na gasolina e no óleo diesel.

A manutenção da mobilização foi tomada pela diretoria da FUP e demais sindicatos após nova decisão do Tribunal Superior do Trabalho (TST), proferida nesta segunda. No último sábado (23/11), acatando pedido de liminar feito pela diretoria da Petrobrás, o TST determinara a suspensão da greve por seu risco ao abastecimento nacional de combustíveis. Agora, o tribunal decidiu suspender o repasse mensal de recursos à FUP e aos sindicatos filiados à federação, bem como o bloqueio cautelar das contas das entidades e o repasse das mensalidades.

Para a FUP, a decisão do TST de bloquear as contas e os repasses à entidade e aos sindicatos é arbitrária. Afinal, a mobilização, como a entidade fez questão de ressaltar desde a semana passada, não irá afetar a produção de petróleo, ou o abastecimento de combustíveis do país e por isso não prejudicará a população.

Reforçando ainda mais o viés social da mobilização, a categoria está engajada em ações solidárias em todo o País. Nesta segunda, petroleiros de pelo menos cinco cidades – Rio de Janeiro, Salvador, São Paulo, Recife e Curitiba – participaram do Dia Nacional de Doação de Sangue. Nesta terça está prevista a distribuição de mil cestas básicas para trabalhadores demitidos do Sistema Petrobrás na Reduc (RJ), atividade que, segundo a diretoria da FUP, está ameaçada pela decisão do tribunal.

A FUP reitera que a Petrobrás está descumprindo o Acordo Coletivo de Trabalho (ACT), que foi mediado pelo próprio TST. Além das demissões e transferências, a diretoria da empresa incluiu metas de segurança, saúde e meio ambiente (SMS) como critérios para pagamento de bônus e concessão de vantagens. Segundo o coordenador geral da FUP, José Maria Rangel, tais ações ferem as cláusulas do ACT e podem atingir diretamente interesses da sociedade, por aumentar o desemprego, colocar o meio ambiente em risco ao precarizar o trabalho, o trabalhador e as condições em que atuam. Sem falar no impacto negativo sobre a população dos constantes aumentos nos preços dos combustíveis, inclusive nas tarifas públicas, como de ônibus e de transporte de cargas.

Rio de Janeiro, 25 de novembro de 2019

Federação Única dos Petroleiros - FUP."

quarta-feira, novembro 20, 2019

Apenas o volume recolhido do óleo derramado no litoral brasileiro chega a 33.000 barris ou 5,2 milhões de litros

Da quantidade de quantidade de óleo derramado há quase três meses em nosso litoral apenas o volume recolhido já chega ao impressionante volume de 33.000 barris ou 5,2 milhões de litros espalhados por 675 pontos, 116 municípios e 10 estados.

É preciso detalhar a informação para ela ser melhor compreendida pela população que não entende a unidade de tonelada para medir volume de óleo. 

Tudo isso traduz incompetência, ineficiência, desinteresse e descaso.



terça-feira, novembro 19, 2019

Crise para quem? Pessoas físicas batem recorde com R$ 3,1 trilhões em investimentos financeiros no Brasil

O volume aplicado pelas pessoas físicas em produtos financeiros subiu 8,4% na comparação de setembro de 2019 com dezembro de 2018, totalizando R$ 3,1 trilhões, quase metade do PIB do Brasil. Isso sem considerar as aplicações das empresas ou pessoas jurídicas.

Segundo a Anbima (Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais) as aplicações decorrem de um universo de mais de 79 milhões de contas.

Entre os investimentos dos grandes aplicadores (com mais de R$ 3 milhões em ativos financeiros, chamados de private), o crescimento no ano maior foi no mercado de ações, com alta de 27,3%, depois nos fundos de investimento, com mais 14,5% no volume investido.

Ainda entre os fundos de investimentos, as aplicações nos fundos de ações cresceram 80,4% e no fundo tipo multimercados aumentou 23,8% e respectivamente. Já os fundos imobiliários tiveram alta de 69%. Enquanto isso, o CDB (Certificado de Depósito Bancário) teve recuo de 0,1% e a poupança cresceu apenas 3,2%.

Volto a lembrar só investimentos financeiros de pessoas físicas. Se analisarmos o total investido, mas apenas dos fundos financeiros eles hoje (19/11/19) alcançavam o patrimônio líquido total de R$ 5,376 trilhões.

São indicadores que reforçam a hegemonia financeira no capitalismo contemporâneo também no Brasil, onde a renda da produção material é cada vez mais engolida por essa onda da capitalização ou valorização fictícia que caminha para esgarçar o sistema.

Caso da Bahia seria um "modus-operandi" do mercado de terras no Brasil?

Justiça e polícia como aparatos do Estado parecem ser ambíguos e paradoxais.

Assim, este caso da "venda de sentenças para legalizar propriedades de terras" na Bahia parece expor um dos "modus-operandi" do mercado de terras no país. Veja matéria aqui no UOL, aqui G1 e aqui Tribuna da Bahia.

Assim, a PF trouxe à tona, um conluio que envolve desembargadores, juízes em agentes locais ligados aos cartórios, quando mais de 800 mil hectares do oeste baiano foi sendo retirado de pequenos agricultores - proprietários ou ocupantes - para expansão da fronteira agrícola, atendendo à volúpia e à força de grandes fazendeiros do agronegócio de soja e algodão.

A reportagem fala em bloqueio de bens no valor de mais de meio bilhão de reais obtidos com esses negócios escusos de legalização imobiliária a favor dos grandes fazendeiros.

O caso parece também evidenciar um modus-operandi da legalização do mercado de terras nas periferias urbanas das metrópoles e cidades de médio porte, que se vincula à especulação imobiliária de grandes estoques de terras, que enriquece tanto as elites locais, quanto os burocratas de cartórios até juízes e desembargadores.

O afastamento do presidente do TJ-BA, mais três desembargadore(a)s, um juiz e uma juíza expõe um antigo problema que se trata da "venda de decisões para legitimar terras" neste caso, no oeste baiano.
A quem este antigo tipo de corrupção atende?

Tem-se aí um bom "estudo de caso" para a melhor compreensão sobre esse fenômeno.

segunda-feira, novembro 18, 2019

Nem a xepa com as privatizações baratas segura o investimento estrangeiro no Brasil

O banqueiro Paulo Guedes seguindo a sua cartilha do desgoverno dos ricos e para os ricos, pensa apenas na ideia de reduzir déficit fiscal, como chamariz, visando ampliar a confiança para atrair investimentos estrangeiros.

Porém, os resultados não param de piorar.

O Investimento Direto Estrangeiro (IED) caiu nos últimos 12 meses em 8,4%, em relação ao período anterior que já era era de baixa.

Assim, o Brasil desce na fila de atração mesmo com as pechinchas feitas com a venda de empresas e ativos do governo, chamado de forma eufemística de desinvestimentos.

Infográfico do Valor Online.
Nem a xepa compensa a fuga.

A saída de dólares este ano até final de outubro já atingiu US$ 42,9 bilhões, a maior desde a crise financeira mundial de 2008. O fluxo cambial é negativo em US$ 21,2 bilhões.

Como se vê o caso do fracasso do leilão de entrega das áreas do pré-sal tem outras razões.

Esses números indicam que o mercado (essa entidade abstrata) está vendo o que muitos se negam a enxergar.

Tiraram o país de um caminho tortuoso com uma crise política que ampliou uma crise econômica que se aprofunda e se torna ainda mais dolorida para os de menor renda.

Nesse cenário é possível intuir que o caos passa a ser hipótese real.

O risco da luta de uma luta de todos contra todos, onde as instituições que não foram atingidas (se é que existem) não podem dar conta de retomar o caminho da Nação.

Há atalhos. Ou não.


PS.: Atualizado às 15:19: para breves acréscimos e para inserir as referências:
[1] Matéria no Valor Online em 18 de nov. de 2019. Saída de dólares no país seroa recorde no ano. Disponível em: https://valor.globo.com/financas/noticia/2019/11/18/saida-de-dolares-ja-e-maior-que-volume-de-1999-pior-ano-da-serie.ghtml

[2] Matéria da Veja Online em 15 de nov. de 2019. Por que investidores estrangeiros retiram cada vez mais dinheiro do Brasil? Disponível em: https://veja.abril.com.br/economia/por-que-investidores-estrangeiros-retiram-cada-vez-mais-dinheiro-do-brasil/

quarta-feira, novembro 13, 2019

Prumo, controladora do Porto do Açu, assina Memorando de Entendimentos (MoU) na área de energia com os chineses da State Power Investment Corporation durante reunião dos Brics

A Prumo Logística Global controlada pelo fundo americano EIG Global Energy Partners assinará, amanhã (13/11), um MoU (Memorando de Entendimento) com o grupo a empresa Pacific Hydro que é controlada pela gigante chinesa State Power Investment Corporation (SPIC) da área de energia, mais a corporação alemã Siemens, que prevê a cooperação para o desenvolvimento de projetos de energia no Brasil.

A cerimônia está programada com a presença dos principais executivos das companhias: pela SPIC, Qian Zhimin, presidente do Conselho, Adriana Waltrick, CEO, Waldo Perez, CFO; pela Siemens, Lisa Davis, membro da Diretoria Executiva da Siemens AG; e pela Prumo, Blair Thomas, presidente do Conselho de Administração e CEO do EIG Global Energy Partners.

Obras implantação UTE da GNA (Prumo e Siemens) Porto do Açu
A Pacific Hydro (SPIC) atua há mais de 20 anos em projetos de energias renováveis e eletricidade no Brasil e está vinculada State Power Investment Overseas of China (SPIC Overseas). A SPIC é um dos cinco principais grupos de geração de energia na China, com ativos totais de US $ 113 bilhões e uma capacidade instalada total superior a 100 GW. A SPIC atua nas indústrias de geração, carvão, alumínio, logística, finanças, proteção ambiental e alta tecnologia. A SPIC tem presença em 36 países e regiões no exterior, incluindo Austrália, Chile, Malta, Japão, Brasil, Turquia e Vietnã.

Ainda não está claro o primeiro objetivo deste Memorando de Entendiemntos (MoU), porém, o mais provável é que a holding chinesa State Power Investment Overseas of China está disposta a ampliar seus investimentos no Brasil de olho na capacidade de geração termoelétrica à gás que está sendo realizada no Porto do Açu com a implantação das 3 Usinas Termlétricas à Gás Natural (UTE) por parte da GNA-Açu que é um consórcio formado pela Prumo, Siemens e BP com financiamento do banco alemão KfW e garantia do BNDES.


PS.: Atualizado às 16:50 e 16:58: São três grandes grupos chineses atuando no setor de eletricidade no Brasil: A State Grid, a China Three Gorges e a State Power Investment Corporation (SPIC). No ano passado (2018), a State Power Investment Corporation (SPIC), pagou R$ 7,18 billhões no leilão para ter a usina de São Simão. A SPIC aportou 30 por cento do valor envolvido no negócio, enquanto 70 por cento foram financiados junto a um pool de bancos internacionais, incluindo chineses.

O setor de energia elétrica em todo o mundo se transformou numa grande commodity onde o preço da energia elétrica está vinculado ao fornecimento e controle do mercado (e preços) do que propriamente à demanda por energia elétrica fornecida ao cliente, seja ele residencial, comercial ou industrial.

No Brasil, este "negócio" passou a ser controlado pela Aneel, quanto aos investimento em infraestrutura de geração e linhas de transmissão e ao Operador Nacional de Sistema que controla e opera a geração e distribuição entre as três parte do sistema, desde a geração, transmissão e distribuição/consumo. Ficando os operadores de cada parte com um pedaço do valor da energia vendida ao cliente.

terça-feira, novembro 12, 2019

Brasil segue os descaminhos de parte da América Latina

A confusão no Brasil é cada vez maior.

PEC, constituinte, criação de partido, contas da rede social da famiglia detonada, Enem devassado, ameaça aos adversários...

E o país caminhando para o caos, para então colocar a culpa em quem pretende retomar o projeto de Nação.

É preciso seguir na luta e ampliar a organização.

segunda-feira, novembro 11, 2019

Os EUA quer hoje o caos na América Latina como forma de manter seu quintal

O projeto do "Deep State" (Estado Profundo) dos EUA é mais que o controle dos Estados-nações.

Neste momento, em especial, a ideia é criar o "caos", como forma de impedir novos alinhamentos, a partir do descontentamento com as condições de vida produzida pelo neoliberalismo com trabalho precário, desemprego, previdência desmontada e nenhum estado de bem-estar-social.

Como sempre lembra o jornalista Pepe Escobar investigador da geopolítica, o "Deep State" é mais profundo que a gestão dos EUA e age dentro das entranhas institucionais americanas, em especial, as Forças Armadas, mas também na articulação entre poder econômico-financeiro mais a mídia corporativa e suas redes.

A lógica estimulada é a de que o caos na América Latina, segura as vontades nacionais e garante o quintal da América do Norte.

Os movimentos políticos nos dois maiores países da América Latina, Argentina e Brasil, acenderam a luz amarela.

O momento era de passar a aproveitar todas as oportunidades possíveis de desestabilização nos Estados-nações da América Latina, em especial os que possuem recursos naturais e minerais estratégicos, em que os EUA disputam com a China, para além da Guerra Comercial.

O quadro é grave e tende a ser longo e penoso.

Os EUA pensam em si. Exclusivamente.

Mais de 3 mil trabalhadores da Andrade Gutierrez e Acciona das obras Termoelétrica do Porto do do Açu continuam em greve pelo sexto dia consecutivo

Passados seis dias, prossegue a greve de mais de 3 mil trabalhadores da Andrade Gutierrez e Acciona que atuam nas obras Termoelétrica da GNA, no Porto do do Açu.

Nesta segunda-feira (11/11) os trabalhadores não chegaram nem a ir em ônibus ao local ficando em suas residências até que voltem a ser chamados para assembleia sobre as negociações com as empresas.

Foto das obras de implantação da UTE no Porto do Açu em outubro de 2019
São várias as reivindicações e consta que como as obras da unidade 1 está próxima de ser concluída que até dezembro a maioria deve ser demitida. Esse fator pode estar atrasando a possibilidade de uma negociação sobre condições de trabalho, nº de demissões, plano de saúde, pagamento por mais descanso, pressão por produtividade, fato que gera ameaças e muitas das demissões, etc.

Como já informamos a maioria destes trabalhadores são de fora da região e ficam alojados em Campos, fato que vem sendo questionado pelas Prefeitura e Câmara de Vereadores de São João da Barra.

Alguns trabalhadores alegam que há solicitações da empresa para transferência de seus títulos de eleitores, fato que não tem como ser provado, embora se saiba que as empresas que atuam no Porto do Açu, podem ter as isenções de ISS suspensas se os percentuais de trabalhadores locais não tiverem sendo cumpridos.

A Usina Termelétrica (UTE-1) é da empresa Gás Natural Açu (GNA-Açu) que é um consórcio entre a holding Prumo (proprietária do Porto do Açu), a BP e a Siemens. O projeto prevê outra unidade e tem custo total de implantação estimado em R$ 4,5 bilhões.

sexta-feira, novembro 08, 2019

Globo é quem mais perde com decisão do STF que tanto tentou impedir

A empresa Globo é quem mais perde com a decisão de ontem do STF.

A Lava Jato também perde. Porém, a Globo perde mais. Ela apostou todas as fichas até os últimos minutos da prorrogação que vem sendo adiada há cerca de dois anos.

Aliás, a sua pressão, com uso de uma espécie de VAR, é que foi postergando essa decisão natural que reafirma que o que vale é a Constituição.

Não se pode dizer que a Globo perdeu tudo, porque ela ganhou um presidente (vice que assumiu com o golpe) e outro que ajudou a criar e eleger, depois deste mesmo STF decidir o que ontem, desfez.

Não tenham dúvidas que a holding Globo se movimenta para manter um certo controle sobre o que se sucede.

Porém, a confusão é grande.

Há mais a perder.

A outra saída é a Globo renegociar o reencontro com a democracia.

Acompanhemos e nos movimentemos porque a Globo é ainda um forte partido político porque controla os líderes de diferentes siglas. A conferir!

Greve dos trabalhadores que atuam na obra da Termoelétrica da GNA no Porto do Açu, continua pelo 3º dia consecutivo

Greve dos trabalhadores das empresas Andrade Gutierrez e Acciona que atuam na obra da Termoelétrica da GNA, no Porto do Açu, continua pelo terceiro dia consecutivo.

Ontem e hoje pela manhã, em enormes assembleias com quase todos os trabalhadores destas duas empresas, as lideranças têm conseguido manter a mobilização e a paralisação que busca atendimento às reivindicações.

Os trabalhadores questionam as seguidas demissões sem razão com enorme rodízio de trabalhadores, o não pagamento de plano de saúde, assim como o pagamento de folgas aos sábados de descansos alternados.

Há também muitas reclamações dos trabalhadores quanto à pressão por produtividade, fato que gera ameaças e muitas das demissões. A maioria destes trabalhadores são de fora da região e ficam alojados em Campos.

As empresas estariam ainda questionando a atuação do Sindicato de Trabalhadores de Montagens em nome dos trabalhadores que atuam nas obras da UTE, que segundo eles dizem estão adiantadas, em relação ao cronograma.

As obras da Usina Termelétrica (UTE-1) é da empresa Gás Natural Açu que é um consórcio entre a holding Prumo (proprietária do Porto do Açu), a BP e a Siemens. O projeto prevê outra unidade.

A Construtora Andrade Gutirrez foi contratada para fazer as obras de terraplanagem, construção e montagem da termelétrica. Já a espanhola Acciona que atuou na construção do terminal 2 (onshore) do Porto do Açu, realiza a construção e montagem do Terminal de Regaseificação, onde será recebido o gás natural para atender à UTE.

As obras de implantação da UTE da GNA são financiadas com créditos de R$ 1,76 bilhão do BNDES e garantia do banco alemão KfW. A engenharia financeira decorreu de uma análise de riscos que começou feita há dois anos pelo IFC, um braço do Banco Mundial que esteve na região avaliando os riscos que envolvem, inclusive as áreas desapropriadas no Açu. 

Esses recursos se destinam à implantação da UTE-1 que tem capacidade de geração de 1.700 MW e um custo total planejado de R$ 4,5 bilhões com previsão de conclusão e entrada em operação em janeiro de 2021.

A articulação de todo esse projeto saiu da Prumo Logística Global que é controlada pelo fundo financeiro americano EIG. 

Mais informações sobre esse empreendimento com uma análise dos significados da expansão do porto e questionamento sobre ausência de real responsabilidade comunitária e social dos empreendedores que no Açu foi feita aqui em postagem deste blog em 21 de dezembro de 2018 com o título: "UTE do Porto do Açu capta R$ 1,76 bilhão com o BNDES e garantia do banco alemão KfW".

PS.: Atualizado às 10:58: Para inclusão da segunda foto que mostra a mobilização e assembleia desta sexta-feira (08/11/2019).

Última parcela trimestral de 2019 referente às Participações Especiais (royalties) trazem variações expressivas

No mesmo dia em que se sabe que o STF decidiu adiar em quatro meses a decisão sobre a mudança nos critérios de distribuição dos royalties do petróleo, também se fica sabendo que na quarta e última parcela trimestral das Participações Especiais (PE) dos royalties, paga pela grande produção dos maiores campos do petróleo, traz alterações muito significativas em relação às parcelas anteriores para os municípios fluminenses.

Maricá, sozinho com receita de R$ 245 milhões recebe três vezes mais que a receita de todos os demais municípios somados, exceto Niterói que é a segunda maior receita com R$ 240 milhões. A terceira maior receita é da capital Rio de janeiro com R$ 41 milhões, confirmando mais uma vez, a migração espacial dos maiores campos produtores de petróleo da Bacia de Campos para a Bacia de Santos, no litoral defronte a estes municípios fluminenses.

Campos dos Goytacazes tem agora apenas a quarta receita de PE, mas com apenas R$ 16,9 milhões, que é equivalente a menos da metade do que recebeu na parcela anterior paga em agosto, numa redução já esperada e mal calculada pelos gestores locais.

Como pode ser visto na tabela abaixo, com dados da ANP e tabulação do superintendente de Petróleo da Prefeitura de São João da Barra, Wellington, as variações de valores em relação à quota anterior paga em agosto e a de novembro do ano passado, são muito expressivas. Esta última quota trimestral das PEs estão previstas para serem depositadas hoje nas contras da prefeituras. Para ver a imagem da tabela em tamanho maior clique sobre a mesma.




quarta-feira, novembro 06, 2019

Entrevista com o geógrafo Paulo Soares que está no Chile e fala sobre a reação popular no país: "o neoliberalismo chileno não é apenas um modelo econômico, é um experimento de sociedade, toda uma construção ética e ideológica a partir do mercado, que está ruindo"

O Chile segue em forte convulsão social. Na sexta-feira passada este o blog contactou o geógrafo e pesquisador da UFRGS Paulo Soares que está em Santiago. O objetivo era ter informações sobre os acontecimentos políticos naquele país e propor uma entrevista para o blog. Na segunda-feira novos protestos se espalharam pelas grandes cidades chilenas.

Nesta terça-feira, a manutenção do quadro, fez com que a Conmebol decidisse por retirar a decisão da Copa Libertadores da América de Santiago para Lima, no Peru, considerando a insegurança para a realização da partida no próximo dia 23 de novembro.


Este blogueiro conheceu o professor Paulo Soares junto com outros pesquisadores geógrafos, sociólogos, urbanistas e sociólogos nos eventos acadêmicos nestes últimos anos.

Paulo Roberto Rodrigues Soares é professor do Departamento de Geografia e do Programa de Pós-graduação em Geografia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Graduado e doutor em Geografia, atualmente realizando estadia como professor visitante e estágio pós-doutoral no Instituto de Geografia da PC-Chile. Pesquisador do Observatório das Metrópoles, abordando especialmente os temas da metropolização, financeirização, produção imobiliária e direito à cidade.

Segundo Soares, ele preferiu deixar passar o final de semana para acompanhar os acontecimentos e depois responder às questões. Ontem (terça-feira, 05/11) Paulo informou por email:

"Hoje foi chamada uma "super-segunda" de manifestações. Teve uma grande na Plaza Italia, mas nem perto da manifestação do 1 milhão, que acho será difícil ser superada. Como todo o movimento este já teve seu ápice, mas as manifestações continuam. Vamos ver até quando o movimento vai conseguir manter as mobilizações. Agora estou aqui no meu apartamento escutando o panelaço da noite. na semana passada também foram mais fortes."

Por tudo isso, vale conferir a entrevista do Paulo Soares, a quem agradeço pela entrevista e pela cessão e seleção das fotos que acompanham a publicação abaixo:


Blog Roberto Moraes: Professor Paulo Soares quando chegou e o que está fazendo no Chile?
Paulo Soares: Cheguei em Santiago no dia 2 de setembro, vim para estar por três meses (até o final de novembro) em uma estadia como professor visitante no Instituto de Geografia da PUC-Chile, bem como uma pesquisa de estágio pós-doutoral. Minha ideia é realizar uma pesquisa sobre a financeirização da produção imobiliária no Chile numa perspectiva comparativa com o processo de financeirização no Brasil. Evidentemente que estou tentando cumprir meu plano de pós-doutorado, mas os acontecimentos de Outubro em Santiago me obrigaram a abrir uma nova perspectiva de análise, desta verdadeira “revolução urbana” que está ocorrendo por aqui.

Foto 1:Ocupação Estação do Metrô. Fonte: Fonte: Latercera.cl
Blog: Como você pode classificar depois de décadas esse levante popular em todo o Chile que era considerado referência do neoliberalismo na América Latina?
Paulo Soares: Eu classificaria como um esgotamento do modelo neoliberal chileno. As pessoas, especialmente a classe trabalhadora, estão cansadas das estafas do modelo que promete o paraíso na terra, mas que na verdade está transformando a vida de muita gente em um inferno. O Chile se caracteriza como uma sociedade de consumo, Santiago, que concentra 1/3 da população do país, tem inúmeros shopping centers, grandes lojas de departamentos, mas este paraíso não está encaixando nos baixos salários, no custo dos serviços privatizados, na precarização do trabalho. Há um descontentamento geral e um grande endividamento das famílias. A juventude, grande parte universitária (o Chile, com 1,2 milhão de universitários, tem uma das taxas mais altas de jovens entre 18 e 24 anos na universidade da América Latina), também se encontra em um dilema, primeiro pelo custo da universidade, toda ela, inclusive as públicas, paga, o que exige esforço das famílias e endividamento dos jovens, segundo pela formação universitária que grande parte da população vai ter, mas que não vai encontrar correspondência em um mercado de trabalho cada vez mais flexibilizado, precarizado e que substitui postos de trabalho qualificados por tecnologia.

Assim, não fica difícil entender as razões deste “estallido social”, são anos de “abusos” como dizem aqui. Ao mesmo tempo os partidos políticos do establishment (incluindo a oposição de centro-esquerda) não dão conta das reivindicações nem de mudanças de fundo no modelo, apenas “ajustes” compensatórios. Como a progressiva introdução da gratuidade do ensino universitário, que avança lentamente e que não é para todos. E no outra ponta da pirâmide etária está o problema das aposentadorias e pensões, extremamente baixas, algumas com valor de metade do salário mínimo. Isso é o resultado dos 40 anos do sistema de capitalização implantado na ditadura. A geração de trabalhadores/trabalhadoras que está se aposentando é a que viveu toda sua vida laboral no sistema de capitalização e está percebendo valores baixíssimos de aposentadoria, muito aquém dos seus rendimentos no período de trabalho. É que o sistema de capitalização é individual e recai todo ele sobre o trabalhador, o que torna os recursos do sistema insuficientes para remunerar a todos.

"Eu classificaria como um esgotamento do modelo neoliberal chileno. As pessoas, especialmente a classe trabalhadora, estão cansadas das estafas do modelo que promete o paraíso na terra, mas que na verdade está transformando a vida de muita gente em um inferno..."
...

"Eu diria que existem centenas de lideranças, inúmeras organizações de base, coletivos, movimentos sociais, que estão na “liderança” dos movimentos, entretanto não há uma personalidade, que dê cara ao movimento..."


Foto 2 – Passeata na “Alameda”. Autor: Paulo Soares. 
Blog: Como você responderia às informações e análises da situação chilena que interpreta que o processo no Chile não possui lideranças? Se possui quais são as instituições e lideranças desse processo?
Paulo Soares: Eu diria que existem centenas de lideranças, inúmeras organizações de base, coletivos, movimentos sociais, que estão na “liderança” dos movimentos, entretanto não há uma personalidade, que dê cara ao movimento. Nas mobilizações estudantis de 2011 se destacou a liderança de Camila Vallejo, estudante de Geografia da Universidad de Chile e líder da federação dos estudantes daquela universidade. Hoje Camila é uma atuante deputada federal pelo PC Chileno, ela tem se pronunciado sobre os acontecimentos, mas não tem nenhum papel de liderança, que por sinal não passa pelos tradicionais partidos da esquerda chilena (PS e PC) e até mesmo da Frente Ampla, um novo agrupamento de partidos e movimentos de esquerda. Movimentos integrantes desta última participam das manifestações, mas não tem o protagonismo e a liderança dos movimentos que é bastante difusa, configurada por um conjunto de organizações, movimentos e centrais sindicais. A plataforma Unidad Social, reúne grande parte destes movimentos e tem assumido o papel mais coordenador em algumas convocatórias e no chamado à discussões de base.

Blog: De forma, os primeiros dias do movimento popular no Chile, lembram processos similares à primavera árabe e o 2013 no Brasil. Em que essa reação popular chilena pode ter relação com um ou outro?
Paulo Soares: Lembram em três aspectos importantes a meu ver: primeiro no “estopim” que se deu pela elevação da tarifa do transporte. Que é um tema que afeta a grande maioria da população, ainda mais em uma metrópole de 7 milhões de habitantes. Ainda tem o agravante de que o metrô santiaguino, nos horários de pico é mais caro, o que onera ainda mais o trabalhador que se desloca para sua jornada. Segundo pela difusão pelo território. Iniciadas em Santiago, logo foram se espalhando por todo o país, além de irem agregando reivindicações, primeiro o transporte, logo as tarifas de luz e água, as pensões, os pedágios nas estradas, e culminando por uma assembleia nacional constituinte. Terceiro pela crítica ao establishment político e no rechaço aos partidos políticos, vistos como componentes do sistema, mesmo os da oposição.

Foto 3: Mapuches na manifestação de 1 milhão. 
Autor: Paulo Soares.
Blog: A manifestação da sexta-feira (25/10) que reuniu mais de 1 milhão de pessoas foi muito significativa e simbólica, considerando a população chilena e a força popular. Ela pode ser considerada uma evolução da organização popular?
Paulo Soares: Com certeza. O aumento das tarifas foi no dia 6 de outubro. O movimento se radicalizou e ganhou as ruas no dia 18 de outubro, o governo também radicalizou e decretou estado de emergência e toque de recolher. A resposta do movimento foi chamar novas manifestações. No dia 23 (quarta-feira) houve uma grande manifestação (umas 300 mil pessoas talvez) chamada pela CUT (Central Unitária dos Trabalhadores) e pelos sindicatos. Já na quarta-feira começaram os chamados para a sexta-feira, quando as manifestações completariam uma semana e anunciando a “marcha más grande de Chile”. Uma convocação ambiciosa e que realmente se configurou. Foi a maior manifestação da democracia, superando a grande manifestação pelo “Não” no plebiscito de permanência ou não de Pinochet no poder. No dia 25 pela manhã fui ao centro de Santiago, desde as horas finais da manhã já se via muitas pessoas na rua com bandeiras e cartazes. Ao longo da tarde as ruas e avenidas foram tomadas em passeatas rumo à Plaza Italia, o epicentro das manifestações. A Plaza Italia, junto à estação Baquedano do metrô é uma centralidade importante e o local tradicional das manifestações em Santiago.

A manifestação foi multitudinária, os próprios meios oficiais admitiram a participação de mais de um milhão de pessoas, evidentemente a maioria das classes populares e da classe média. Aqui cabe uma referência ao Brasil: enquanto em nosso país hoje em dia a classe média parece estar toda a favor do neoliberalismo e à política de direita (em temas, como por exemplo o “Escola sem Partido”, privatizações), aqui no Chile existe um segmento importante da classe média com pensamento progressista, o que contribui para uma capilaridade e apoio dos próprios meios de comunicação às manifestações.

O pós manifestação também foi interessante. Não ocorreram tantos atos violentos como no dia 18, e a população ficou nas ruas e praças celebrando e festejando a manifestação. Além disso no sábado e domingo (26 e 27) foram realizadas diversas assembleias populares, rodas de discussão, manifestações culturais em praças, centros comunitários, tanto no centro como nas periferias de Santiago. O mesmo tem ocorrido em outras cidades do Chile, especialmente em Valparaíso, sede do poder legislativo (o Congresso do Chile se localiza lá), onde grande número de atividades político-culturais está ocorrendo. A meu ver este é um novo momento de organização popular, horizontal, de baixo pra cima, a população discutindo e definindo os seus rumos.

Foto 4 – Assembleia Popular na Plaza Ñuñoa. Autor: Paulo Soares.

Blog: O presidente Piñera destituiu grande parte do seu governo, fez concessões em termos de algumas políticas sociais, mas o descontentamento prossegue. O que hoje esse movimento político pretenderia?
Paulo Soares: Eu diria que pretende “mudar para que tudo fique como está”. A jogada política foi: ele solicitou que todos os ministros colocassem seus cargos à disposição; posteriormente destituiu aqueles que ficaram mais expostos durante a crise, especialmente o Ministro do Interior e Segurança (que tem responsabilidade sobre a polícia). No final das contas foram trocados oito ministérios, mas apenas cinco ministros, pois houve também o que aqui estão chamando de “dança das cadeiras”, alguns mais expostos foram deslocados para funções menos polêmicas com o tema das manifestações.

Um dado importante, com relação ao Ministro de Interior, são as acusações de desrespeito aos direitos humanos nas detenções, com inclusive denúncias de tortura, prisões ilegais de menores, pessoas sem comunicação com familiares por vários dias, o que reacendeu o fantasma da ditadura. Inclusive com algumas “fake news” como as que diziam que havia presos no Estádio Nacional (uma alusão ao golpe militar de 1973). Mas é fato que houve graves violações aos direitos humanos e isto está pressionando o presidente Piñera por parte da oposição, inclusive como uma “acusação constitucional” (impeachment).

Mesmo com esta troca de ministros e a ascensão de “jovens ministros”, promissores na política (já conhecemos um pouco deste filme no Brasil, de uma geração de políticos “caras novas”, mas que aplicam as velhas políticas neoliberais), a aprovação de Piñera é risível, no momento cerca de 13% da população apoia o presidente. Poderíamos dizer que esta é a medida da elite chilena, dos ainda apoiadores do presidente. Sua rejeição já chega a 80% da população!

"A plataforma Unidad Social, reúne grande parte destes movimentos e tem assumido o papel mais coordenador em algumas convocatórias e no chamado à discussões de base."
"O neoliberalismo chileno não é apenas um modelo econômico, é um experimento de sociedade, toda uma construção ética e ideológica a partir do mercado, que está ruindo. Então a saída institucional creio que é a que os movimentos estão colocando: assembleia nacional constituinte, livre, democrática e soberana, que sepulte de vez a transição ditadura-democracia e refunde o país com um novo pacto social".


Foto 5: Cartazes nos muros de Santiago.
Blog: Há saídas institucionais para mediar essa insatisfação popular?
Paulo Soares: O governo está tentando através de paliativos, redução de tarifas, aumento de pensões e do salário mínimo, mas como disse são paliativos, não vão na raiz da questão, que é o próprio modelo econômico-social. Faço questão de colocar “econômico-social”, pois o neoliberalismo chileno não é apenas um modelo econômico, é um experimento de sociedade, toda uma construção ética e ideológica a partir do mercado, que está ruindo. Então a saída institucional creio que é a que os movimentos estão colocando: assembleia nacional constituinte, livre, democrática e soberana, que sepulte de vez a transição ditadura-democracia e refunde o país com um novo pacto social. É claro que este caminho é difícil, pois os donos do poder não irão ceder tão facilmente, dependerá do grau e da qualidade da mobilização da população.

Blog: Em termos de condições e ausências de políticas sociais que redundaram nessa situação, para além da questão previdenciária o que pode ser considerado como grandes questões e demandas populares? Habitação? Saúde? Educação?
Paulo Soares: Acredito que a questão das aposentadorias e pensões, os baixos salários médios, o elevado custo de vida, o custo dos planos de saúde, dos medicamentos, a educação universitária paga. Além disso a questão habitacional, como o alto custo da moradia e as opções colocadas: ou morar na periferia distante, com horas de deslocamento e custo de transporte, ou residir nas comunas centrais, com custo elevado e apartamentos minúsculos, de 17 a 25 m² como o mercado está oferecendo agora. Enfim, percebe-se que todo o conjunto da vida cotidiana está sendo questionado, as relações sociais e o sistema político.

Blog: A produção urbana, distribuição regional, a produção do território e concentrações metropolitanas têm relação com movimentos políticos e populares?
Paulo Soares: Sim, primeiramente porque o Chile é um país urbano e com população concentrada nas maiores áreas metropolitanas. Santiago, Concepción e Valparaíso concentram juntas cerca de metade da população do país. Por outro pelo modelo econômico extrativista, de exploração econômica do território, por parte de grandes corporações, de norte a sul do país. No norte a já tradicional mineração de cobre, salitre e outros minérios, no sul as grandes plantações de pinus para a produção de celulose e papel, as grandes fazendas salmoneras (de criação de salmão para exportação). Estes usos corporativos e extrativistas do território avançam sobre terras de populações tradicionais, povos originários, camponeses, em um processo de acumulação por espoliação. Este modelo também está sendo muito questionado.

"Todo o conjunto da vida cotidiana está sendo questionado, as relações sociais e o sistema político".


Foto 6: Cartaz nas ruas de Santiago. Autor: Paulo Soares.
Blog: Hoje, especialmente, o que os movimentos populares apresentam como demandas às instituições incluindo o executivo e o parlamento chileno?
Paulo Soares: Agora a principal é a elaboração e promulgação de uma nova constituição, uma assembleia nacional constituinte livre e soberana, uma constituição popular, que mude o modelo econômico e social chileno. Pesquisas dos meios de comunicação colocam que 87% da população apoia uma nova constituição.

Para isso Assembleias (cabildos) Populares estão sendo realizadas em todo o país, em todas as “comunas” (municipalidades) e bairros, locais de trabalho. Um movimento muito interessante de participação da população para a construção de propostas para o país sobre a vida urbana, mobilidade, habitação, questões sociais, visando uma nova constituição.

A meu ver este é o movimento mais interessante e inovador que está acontecendo, as pessoas sendo protagonistas da sua história.


PS.: O blog informa que além desta entrevista, Paulo Soares publicou na semana passada, na página do Observatório das Metrópoles, do qual é pesquisador, um interessante artigo-análise: Relato da primavera em Santiago: o outubro de 2019 que pode ser acessado aqui. De forma objetiva, mas também referenciada, o professor Paulo descreve fatos, agentes e processos sobre a crise chilena que complementa essa entrevista ao blog. 

Leilão da cessão onerosa do Pré-sal é um fracasso para o governo e os entreguistas. Vitória para a população.

Leilão da cessão onerosa do Pré-sal é um fracasso para o governo e os entreguistas. Vitória para a população.

A maior parte dos campos não teve interessados. E só a Petrobras bancou com 100% do campo de Itapu e com 90% do campo de Búzios junto com duas chineses que colocaram 5% cada uma.
Grande derrota do Décio Oddone (ANP), Paulo Guedes e desgoverno Bolsonaro. 

O fato real é que as petroleiras estrangeiras e os fundos financeiros globais fugiram do leilão. Grande derrota do Décio Oddone (ANP), Paulo Guedes e o desgoverno Bolsonaro. Na prática o mercado e os investidores sinalizaram que não acreditam neles, mesmo que tenham oferecido quase tudo ao mercado.
Veja na foto ao lado do desespero da turma do mercado. 

Vamos repetir abaixo os comentamos que fizemos em nota aqui neste espaço na segunda-feira (04/11):

"A turma do Guedes, Bolsonaro, ANP e Castelo Branco quer privatizar e entregar tudo na área de petróleo. O leilão do pré-sal pretende entregar US$ trilhões em reservas de óleo e gás já descobertas para as petroleiras privadas e fundos financeiros globais.
Porém, eles começam a desconfiar que tudo isso será revisto e os contratos suspensos tamanho o absurdo. Veja que algumas petroleiras já estão pulando fora do leilão como foi o caso das europeias BP (inglesa) e da Total (francesa).
A própria ANP já identifica que alguns magníficos campos de petróleo podem não ter sequer oferta.
Além disso, também se fala como nessa matéria do Valor (Daniell Rittner e Murilloo Camarotto) que os grupos estrangeiros (entre petroleiras e fundos) não estão dispostos a encabeçar nenhum consórcio.
Eles sabem que os riscos de questionamentos e rompimentos desses absurdos são grandes. As petroleiras e os fundos americanos, de outro lado, parecem confiar no governo dos EUA e nas ações de sua geopolítica. A conferir!"

Trabalhadores das obras da Termelétrica da GNA param atividades no Porto do Açu

Trabalhadores das construtoras Andrade Gutierrez e Acciona que atuam na construção da Usina Termelétrica (UTE) da GNA paralisaram hoje cedo, as atividades no Porto do Açu. Eles fecharam os acessos ao porto e assim interromperam as atividades. As obras da UTE-1 da GNA estão adiantas e os trabalhadores reclamam por falta de cumprimento de acordos relativas ao plano de saúde e melhoria no cartão alimentação que recebem.






















PS.: Atualizado às 08:59: A paralisação continua, mas segundo informações dos trabalhadores que estão no local, a empresa Acciona liberou os ônibus com seus trabalhadores para que eles retornem para as suas residências. No vídeo abaixo os ônibus parados próximo à entrada do Porto do Açu pela estrada da Figueira:



PS.: Atualizado às 10:04: Trabalhadores da Acciona foram liberados e não trabalharam nesta quarta-feira depois da paralisação e mobilização feira nos dois acessos ao porto que impediu também a chegada de trabalhadores de outras empresas. segundo as primeiras informações a organização do movimento reivindicatório dos trabalhadores teria partido dos mesmos, indignados com o tratamento que vem recebendo diante dos resultados e pressão das empresas (Andrade Gutierrez e Acciona) e gerentes das montagens da usina termelétrica que está bem adiantada, em relação ao cronograma.

Foto divulgada pelos trabalhadores.
PS.: Atualizado às 10:18: Informações obtidas pelo blog dão conta de que também os trabalhadores da Construtora Andrade Gutierrez encerraram a interrupção do acesso às duas portarias do Porto do Açu e retornaram para as suas residências. Está previsto para a parte desta tarde uma reunião entre representantes dos trabalhadores e das duas empresas para negociação. Os trabalhadores também reclamam muitas demissões imotivadas. 

As duas empresas Acciona Engenharia e Construtora Andrade Gutierrez emitiram há pouco uma nota dizendo que trabalharão para que as atividades sejam retomadas o mais breve possível, alegando ainda que seguem a legislação trabalhista e reforçamos nosso compromisso com nossos colaboradores e comunidades. A disposição dos trabalhadores é que dependendo do que for conversado e negociado ser submetido amanhã cedo à decisão de todos que decidiram parar hoje, antes de retornar ao trabalho. 

PS.: Atualizado às 10:36: As novas informações é que os trabalhadores destas duas empresas Andrade Gutierrez e Acciona estariam organizados pelo sindicato, Sintramon, Sindicato dos Trabalhadores Empregados nas Empresas de Montagem e Manutenção Industrial que tem sede em Itaboraí e tem uma base instalada em São João da Barra na estrada que dá acesso ao Porto do Açu.

segunda-feira, novembro 04, 2019

Fiori: “O que foi construído pelos brasileiros nos últimos 90 anos está sendo destruído e entregue... o revival neoliberal latino-americano dos últimos 5 anos durou tão pouco, porque está rigorosamente na contramão do sistema capitalista mundial”

O sociólogo e cientista político José Luís Fiori, professor de economia política internacional da UFRJ, publicou ontem, aqui no bom blog Tutameia, outra interessante análise sobre a conjuntura na América Latina, incluindo o Brasil.

Porém, Fiori vai adiante e observa que além da conjuntura é preciso observar os movimentos sob a perspectiva o processo história, da superestrutura e dos ciclos. Assim, recorre a Polany, em seu olhar sobre ordem liberal do século 19, apogeu, crise e transformação, tudo a um só tempo, a partir de 1870, para observar os fenômenos que percorrem os estados-nações latinos, naquilo que chamou de "reincidência neoliberal tardia", interpretando ainda que todo esse movimento "está rigorosamente na contramão do sistema capitalista mundial".

Fiori levanta questões importantes: por que esse novo ciclo neoliberal foi tão curto? E o que se deve esperar para o futuro? para concluir que "o Brasil terá que enfrentar o desafio extremamente complexo de reconstruir seu Estado, suas instituições e sua própria sociabilidade, ao mesmo tempo em que define os novos caminhos da sua economia. E isto só será possível a partir de um grande acordo civilizatório entre as forças políticas democráticas".

Por tudo isso, não se pode deixar de ler este novo texto do Fiori que o blog republica abaixo.


O “outubro vermelho" e a esclerose brasileira 
Por qué protestan? Es por la desigualdad económica. Y los bajos salários. También por la baja o nula movilidad social y la falta de un futuro mejor para los jóvenes. Es por los servicios públicos infames. Y por la globalización y la pérdida de puestos de trabajo…                                                                      Moisés Naim, El País, 27 de octubre de 2019
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Desta vez tudo passou muito rápido. Como se, em apenas uma noite, a América Latina tivesse dormido de direita e acordado de esquerda. Depois da avassaladora vitória de Lopez Obrador no México, em 2018, em apenas um mês, outubro de 2019, as forças progressistas venceram as eleições presidenciais na Bolívia, Uruguai e Argentina, elegeram um jovem economista de esquerda para o governo de Buenos Aires e ganharam as eleições na Colômbia, para o governo de suas principais cidades, como Bogotá e Medellín. E quase simultaneamente, uma sucessão de revoltas populares derrubou ou colocou de joelhos os governos direitistas de Haiti e Honduras e impôs pesadas derrotas aos presidentes de direita do Equador e do Chile.

Manifestações em Santiago, Chile. Postagem Paulo Soares FB.
Muitos analistas se surpreenderam com essa sequência de derrotas da direita, como se fosse inesperada, um verdadeiro raio em céu azul. Mas isto não é verdade, sobretudo nos casos iminentes da rebelião do povo chileno e da derrota de Mauricio Macri na Argentina. No caso do Chile, já tinha havido uma gigantesca manifestação de mais de um milhão de pessoas, em 1988, pelo fim da ditadura do General Pinochet, acossada pelo fracasso de uma economia que havia crescido apenas 1,6%, em média, durante os 15 anos da ditadura militar, deixando como herança um desemprego de 18%, e 45% da população abaixo da linha da pobreza.

Logo depois da redemocratização do país, a partir de 2006, sucederam-se grandes mobilizações estudantis contra a privatização e os altos custos da educação, da saúde, da água e do saneamento básico, que haviam sido privatizados durante a ditadura e permaneceram privados depois da redemocratização. Uma mobilização quase contínua, que alcançou uma extraordinária vitória em janeiro de 2018, com a aprovação pelo Congresso Nacional chileno de um novo sistema de educação universitária, universal e gratuita, tanto pública quanto privada. E foi na esteira dessas manifestações que a população chilena voltou a sair às ruas, neste mês de outubro, contra uma sociedade que, apesar do seu “equilíbrio macroeconômico”, segue sendo a mais desigual dentre todos os países da OCDE, com a concentração de 33% da riqueza nacional nas mãos de apenas 1% da população chilena. E contra os sistemas de saúde, água e serviços básicos que seguem privatizados e com custos exorbitantes, e contra um sistema de previdência privada que entrega aos aposentados apenas 33% do seu salário ativo. Um quadro de descontentamento que já prenuncia a derrota provável das forças de direita nas eleições presidenciais chilenas de 2021.

No caso da Argentina, a vitória peronista foi uma resposta imediata e explícita ao fracasso do programa econômico neoliberal do presidente Mauricio Macri, que conseguiu destruir e endividar a economia argentina, deixando como herança um crescimento negativo do PIB, com um taxa de inflação de 50%, um desemprego de 10% e 32% da população abaixo da linha de pobreza. Sabe-se que a Argentina foi, até bem pouco tempo atrás, a sociedade mais rica e com melhor qualidade de vida e nível educacional de toda a América Latina. Ou seja, resumindo o argumento, a rebelião chilena e a vitória peronista na Argentina não têm nada de surpreendentes, como acontece também com a sucessão em cadeia das demais derrotas da direita latino-americana.

Que consequências imediatas se devem esperar, e que lições extrair desse “outubro vermelho”? A primeira e mais contundente é que os latino-americanos não suportam nem aceitam mais viver em sociedades com um nível de desigualdade tão extrema e vergonhosa. A segunda é que o mesmo programa neoliberal que fracassou na década de 90 voltou a fracassar exatamente porque não produz crescimento econômico sustentado e acentua violentamente a precarização, a miséria e a desigualdade que já existem em toda a América Latina. Por outro lado, do ponto de vista estritamente brasileiro, esse fracasso neoliberal, sobretudo o fracasso do Chile e da Argentina, caem como uma bomba em cima do programa de promessas e blefes ultraliberais do senhor Guedes, cuja insistência na mesma tecla, depois de tudo o que aconteceu, sugere tratar-se de um financista que, além de fanático, parece ser cego ou burro.

Assim, permanecem no ar duas perguntas importantes: por que esse novo ciclo neoliberal foi tão curto? E o que se deve esperar para o futuro? Para refletir sobre essa questão, entretanto, é necessário afastar-se um pouco da conjuntura e de seus debates mais acalorados, recorrendo a uma hipótese de mais logo prazo sobre a natureza contraditória do desenvolvimento capitalista, que foi formulada pelo economista e historiador austríaco Karl Polanyi, na sua obra “A Grande Transformação”, publicada em 1944. Polanyi se propunha a explicar o fim da “ordem liberal do século 19”, que alcança seu apogeu e começa sua crise e transformação, a um só tempo, a partir de 1870. Segundo o economista austríaco, essa simultaneidade se deve à existência de um duplo princípio que comanda a expansão capitalista: “O princípio do liberalismo econômico, que objetiva estabelecer um mercado autorregulado, e o princípio da proteção social, cuja finalidade é preservar o homem e a natureza, além da organização produtiva.” E teria sido exatamente por isso que os Estados e sociedades capitalistas mais avançados e suas populações teriam começado a se defender do avanço do liberalismo desenfreado no exato momento em que tal avanço alcançou seu apogeu. Como consequência, segundo Polanyi, a partir de 1870, “o mundo continuou a acreditar no internacionalismo e na interdependência, mas agiu cada vez mais sob os impulsos do nacionalismo e da autossuficiência”. Por isso, na mesma hora do padrão-ouro, da desregulação dos mercados financeiros e da expansão imperialista do final do século 19, os Estados europeus começaram a praticar o protecionismo e a desenvolver as formas embrionárias de seus sistemas de proteção social, que iriam alcançar seu ápice com a criação do Estado de Bem-Estar Social, após a Segunda Guerra Mundial.

Seguindo Polanyi, podemos também formular a hipótese de que o sistema capitalista voltou a experimentar um grande impulso de internacionalização, liberalização e promoção ativa dos mercados desregulados, a partir dos anos 80 do século 20, e que esse “surto internacionalizante” entrou em crise terminal com as guerras do início do século 21 e o colapso econômico-financeiro de 2008. E foi essa crise terminal que desencadeou ou acelerou um novo grande movimento de autoproteção por parte dos Estados e economias nacionais, que começou na Rússia e na China, no início do século 21, alastrou-se pela periferia do sistema europeu e acabou atingindo o próprio núcleo financeiro e anglo-americano do sistema capitalista mundial, na hora do Brexit; e ainda mais, na hora da eleição de Donald Trump e seu “America first”. Dessa perspectiva, podemos também conjeturar que a onda neoliberal da América Latina dos tempos de Menem, Fujimori, Fernando H. Cardoso e Salinas fez parte do movimento geral de internacionalização, desregulação e globalização das décadas de 80/90, liderado pelos países anglo-saxônicos. E a “virada à esquerda” do continente, da primeira década do século 21, com seu viés nacional-desenvolvimentista, também fez parte desse novo e grande movimento de autoproteção estatal, econômico e social que está em pleno curso sob a liderança das quatro grandes potências que deverão liderar o mundo no século 21: EUA, China, Rússia e Índia.

Olhando para o mundo dessa maneira, pode-se entender melhor por que o revival neoliberal latino-americano dos últimos cinco anos durou tão pouco: porque está rigorosamente na contramão do sistema capitalista mundial. Apesar disso, essa reincidência neoliberal tardia pode fazer parte de uma disputa pelo futuro do continente, que ainda está em pleno curso e que pode se prolongar ainda por muitos anos, incluindo a possibilidade de um impasse sem solução. Ou seja, desse ponto de vista, apesar da grande vitória progressista deste outubro vermelho, o futuro da América Latina segue incerto e dependerá muitíssimo do que venha a passar na Argentina, Chile e Brasil, nos próximos tempos.

No caso da Argentina, o novo governo de Alberto Fernandez enfrentará desafios de grande proporção quase imediatos e que podem levar o país a repetir o dilema das últimas décadas, prisioneiro de uma “gangorra” que não deslancha, ora sob o comando dos “liberistas”, ora sob o comando dos “nacionalistas”, sem conseguir sustentar uma estratégia de desenvolvimento que seja coerente, consistente e duradoura. A diferença entre Fernandez e Macri foi de 8%, e apesar de que Fernandez terá maioria no Senado, não o terá no Congresso, onde será obrigado a negociar com Macri e com os demais partidos para aprovar seus projetos. Além disso, Fernandez começará seu governo no mês de dezembro, com um país quebrado e endividado, com reservas que já estão quase inteiramente comprometidas com o pagamento de dívidas de curto prazo, com altas taxas de inflação, desemprego e miséria. E com a ameaça permanente de ver seu governo torpedeado por novas explosões inflacionárias e crises financeiras que se repetem periodicamente na Argentina.

Por outro lado, no caso do Chile, as forças progressistas só poderão recuperar o governo em 2021, e até lá terão que negociar com o governo de Sebastián Piñera um programa de reformas constitucionais que terá que enfrentar o problema da reestatização dos serviços de saúde, água e saneamento básico, pelo menos, além da rediscussão do sistema de previdência social por capitalização, que fracassou rotundamente do ponto de vista dos aposentados. E a aceitação conjunta de que o desempenho macroeconômico chileno das duas últimas décadas é insuficiente para dar conta das necessidades concretas dos cidadãos comuns que não se interessam pelas cifras e querem apenas sobreviver com um mínimo de decência e qualidade de vida.

Por fim, o futuro brasileiro está cada vez mais difícil de prever depois dessa revolta continental. Mesmo que o país consiga se desfazer desse grupo de pessoas que se apoderou do estado brasileiro, evitando portanto a instalação autoritária de um regime controlado por milicianos e narcotraficantes, mesmo assim, depois do que já fizeram, eles já deixarão para trás, como uma herança funesta, um Estado e uma economia aos pedaços e uma sociedade dividida e moralmente destruída. O que foi construído pelos brasileiros nos últimos 90 anos está sendo destruído e entregue, sistematicamente, por esses senhores, em troca de promessas e blefes que não têm a menor base científica ou histórica. Mesmo sem voltar a falar da cegueira ideológica do senhor Guedes, basta ver o estrago que já foi feito pelo novo chanceler brasileiro à imagem internacional do país e à toda sua história diplomática, induzido pelos seus delírios religiosos e milenaristas, e pela sua decisão de “purificar” os costumes “ocidentais e cristãos”. A sua invasão da Venezuela já virou piada internacional, o seu Grupo de Lima implodiu e o seu servilismo aos Estados Unidos abriu portas para a formação de um novo eixo político-diplomático no continente, articulado em torno do México e da Argentina, enquanto ele próprio, se seguir por esse caminho, acabará passando para a história da diplomacia brasileira como um personagem patético: “Ernesto, o Idiota”.

Concluindo, mesmo depois que esse grupo de marginais e fanáticos seja devolvido ao seu devido lugar de origem, o Brasil terá que enfrentar o desafio extremamente complexo de reconstruir seu Estado, suas instituições e sua própria sociabilidade, ao mesmo tempo em que define os novos caminhos da sua economia. E isto só será possível a partir de um grande acordo civilizatório entre as forças políticas democráticas, que tenha como ponto de partida o rechaço terminante do projeto atual de destruição do Estado e de submissão do país à direção econômica e ao protetorado militar dos Estados Unidos.