quarta-feira, junho 09, 2021

A ilusão da desconcentração do setor financeiro brasileiro criada com o caso Nubank

Ainda sobre o caso da enorme valorização do banco digital Nubank comemorada por alguns como se fosse um bom indicador de descontração bancária que deve ser analisada também por outros quesitos para além de valor de mercado, como ativos totais, depósitos totais e nº de operações de crédito.

Há quem não queira perceber e nem se importar se os dados indicam também um crescimento do protagonismo do setor privado bancário que os dados sobre valor de mercado dos maiores bancos no país mostraram (vide postagem abaixo: Caso Nubank e o setor bancário mostram aumento do protagonismo dos grupos financeiros privados no Brasil). Mas vamos pensar juntos algumas questões.
 
A diversificação bancária é relativamente muito pequena em relação ao que havia antes. Em termos de operação bancária (indicador do setor para além do valor de mercado destas corporações), os cinco maiores bancos ainda possuem 81,8% em relação ao total. O que há é um aumento crescente da participação de grupos financeiros privados estrangeiros no setor. 

O aporte do Nubank é apenas um pequeno exemplo. É ilusão esta tal desconcentração com Itaú comprando XP e outras corretoras. Assim como o BTG fazendo o mesmo e também adquirindo controle de mídia financeira.
 
No campo das maquinhinhas de cartão, a Folha de SP tem sua subsidiária PagSeguro como líder e que aparece na lista acima como 10º maior entidade financeira do país em termos de valor de mercado. Antes dela, aparece a Stone que hoje tem parceria com o grupo Globo. Os cartões esse ano têm previsão movimentar cerca de R$ 2,3 trilhões.

Além disso, é preciso reconhecer que há uma mudança importante na forma de intermediação financeira que é auxiliada enormemente pelas plataformas digitais e pela Appficação dos bancos. Os donos (acionistas dos bancos) são em boa parte gestoras de fundos financeiros. 

Esses bancos-plataformas captam no mercado, pela via digital os excedentes das pessoas, famílias e empresas, mas também atuam como os fundos num circuito de capitalização, aquisições e controle da produção e das corporações misturando a economia real ao mundo das inovações financeiras. E daí para garantir maiores rendimentos extraem renda do andar de baixo da pirâmide social, onde vivemos.
 
Não há nada de natural nisso. Há sim uma intenção deliberada de reduzir o estado e criar facilidades para o mercado assumir as políticas também no campo financeiro que se soma à decisão do tal Banco Central independente. Independente de quem para ser dependente de quem?

O que se vê é uma oligopolização com os grandes grupos de diferentes setores se juntando no andar superior das finanças, o andar dos donos dos dinheiros. O que está em curso com auxílio e aumento da dominação tecnológica é, ao contrário, maior concentração.
 
A tecnologia reduz enormemente os custos de captação e o uso do Big Data e IA reduzem drasticamente a inadimplência porque quase elimina o risco do crédito, ao se conhecer melhor o tomador de crédito. Isso amplia os lucros dos bancos digitais e também dos bancos tradicionais que rapidamente estão também se adaptando aos esquemas digitais dos aplicativos, sem agências bancárias nos municípios.

E o resultado disso, não é a redução dos juros que no Brasil segue sendo um dos maiores do mundo, gerando maiores lucros o que atraiu o fundo financeiro do Warren Buffet para o Nubank e leva a nova concentração agora no setor financeiro privado. Tudo isso se dá junto com a política deliberada de desmonte da capacidade de regulação do Estado e o protagonismo neoliberal do mercado.
 
Para fechar, diante dos que comemoram ilusoriamente o sucesso do Nubank, é bom ter a informação de que ele possui apenas 5 mil empregados, enquanto o Bradesco e Itaú - ambos, já demitindo bastante empregados e fechando agências - possuem, cada um, quase 100 mil trabalhadores bancários. (Itaú 96,5 mil trabalhadores e Bradesco 89,6 mil trabalhadores no final de 2020)
 
Afinal, se os trabalhadores estão sendo demitidos, os juros não baixam como lá fora e os lucros dos novos donos destes bancos digitais não param de crescer, quem afinal, está ganhando com tudo isso? É preciso superar essa naturalização vendida pelos sardenbergs e leitões.


PS.: Atualizado às 14:36: pequenas inclusões e adequações no texto original.

terça-feira, junho 08, 2021

Caso Nubank e o setor bancário mostram aumento do protagonismo dos grupos financeiros privados no Brasil

A mídia que cobre o setor financeiro informou hoje, que o banco digital Nubank, recebeu aporte de US$ 500 milhões do fundo financeiro de Warren Buffet, o Berkshire Hathaway.

O Nubank só em 2021, aumentou em 20% o seu valor de mercado em dólar e chegou a US$ 30 bilhões. Assim, passou a ser o banco digital de maior valor no mundo e o quinto maior banco no Brasil, em valor de mercado, na frente do BB e CEF.

O Nubank (plataforma-digital-financeira) já tem 40 milhões de clientes e segue adicionando 45 mil clientes por dia à sua base. O Nubank não está na Bolsa e segue com capital fechado, fazendo intermediação financeira por plataforma digital, com baixíssimo custos de captação e inadimplência e, consequentemente, com altíssimas margens financeira e de lucros.

Esses aportes de capitais globais, mostram o enlace desta fração ao capital nacional gerando a enorme valorização fictícia que os dinheiros de fora vêm buscar aqui no setor financeiro brasileiro.

Observando o valor de mercado de outros bancos que operam no Brasil é possível identificar que o crescimento destes bancos digitais se dão basicamente, encima dos bancos públicos BB, CEF e BNDES, cuja participação no mercado financeiro vem caindo a cada ano. O BB tem 68 milhões de clientes e valor de mercado de R$ 104 bilhões, enquanto o Nubank chegou a R$ 151 bilhões.

Os meios de pagamento das fintechs são também responsáveis por estas mudanças e nos últimos anos, eles mais que triplicaram no país. A presença da Stone e PagSeguro (Folha de São Paulo) na lista abaixo, mostra o peso dos meios de pagamento digitais e ainda dos cartões, que em 2021 têm previsão de movimentar R$ 2,3 trilhões, pouco mais da metade, em operações de crédito, sob os quais os bancos faturam.

Por tudo isso, repito, o Brasil de hoje é bem distinto de duas décadas atrás. Os arranjos entre os esquemas tradicionais e os inovadores da financeirização digital, assim como a relação entre o esquemas financeiros e a economia real - da qual os primeiros extraem valor - é o assunto que merece ser melhor interpretado.

O mercado avançou no protagonismo sobre a nossa economia e explica, em parte, a perda de protagonismo do Estado e de sua capacidade de intervenção nas políticas econômicas e sociais nacionais. Será preciso enfrentar essa realidade na retomada de um projeto nacional-desenvolvimentista.

sexta-feira, junho 04, 2021

Capitalismo sob a hegemonia financeira e o poder no Brasil atual

O tema da hegemonia financeira no capitalismo contemporâneo foi objeto de uma entrevista (live) ao blog Manifesto Petista realizada no dia 28 de maio de 2021, dentro da programação “Sexta quente”, por sugestão do amigo Guilherme Estrella, ratificada pelo coordenador Walter Pomar e que teve ainda a participação de: José Genoíno, Douglas Martins e Rui Falcão. O evento pode ser visualizado no canal do blog no Youtube no endereço: https://www.manifestopetista.org.br/2021/05/24/sexta-quente-com-roberto-moraes-pessanha/

Após a realização da entrevista foi sugerido por alguns dos participantes, que eu organizasse um texto-síntese com as ideias apresentadas e conversadas, com o objetivo de ampliar o diálogo e o debate sobre o tema tratado. Para facilitar a apresentação e leitura desse texto, ele foi organizado sob a forma de pontos numerados, considerando ainda que a expansão das ideias listadas, estão em boa parte, presentes no vídeo citado.
 

1) A conversa aqui proposta é relativamente simples. Comentar sobre como a hegemonia financeira foi se constituindo, em especial depois de 2008/2009; como o rentismo foi se entranhando na economia real, de onde recolhe excedentes cada vez mais expressivos, que agora aparecem sob a forma de capitalização nos saldos dos patrimônios dos fundos financeiros e no aumento do nº de investidores no mercado de capitais e na B3.

2) Um processo de ampliação da dominação financeira com estratégias em que os donos dinheiros – andar de cima - passaram a definir e a controlar a atuação da produção - na economia real - em diferentes setores no território.

3) E no campo da Economia Política - que penso mais interessa a essa conversa -, analisar como esses processos se articulam com as relações de poder e com a busca de maior controle sobre o Estado no Brasil atual, de uma forma bem distinta daquela que existia no país há duas décadas atrás. As relações Estado-Mercado-Sociedade estão rapidamente se alterando com o Estado sendo deslocado e perdendo o protagonismo para o Mercado.

4) Provavelmente, nós estamos diante de transformações importantes nesta fase de deslocamento do capitalismo, o que aumenta as dificuldades de observar o fenômeno.

5) Assim, talvez seja oportuno ­lembrar Braudel (e seus ciclos históricos). Nos últimos 200 anos, em termos de sistema, saímos de uma fase hegemonicamente comercial, para o capitalismo industrial e agora, estamos sob a hegemonia e o protagonismo das finanças e da dominação tecnológica e digital. Entramos num novo padrão mais radical de acumulação. Padrão de acumulação em que os lucros são obtidos mais pelos canais financeiros do que por meio das atividades comercial e produtiva. Há uma extração de valor nas entranhas da economia capitalista.

6) Um padrão de acumulação e de capitalização, onde quase tudo (quase todos os negócios) se tornam ativos. E, como ativos, os negócios - mesmo muito diferentes - passam a ser melhor comparados pelos investidores (pelos donos dos dinheiros), para assim, melhor definir onde e em quê investir seus dinheiros. A lógica do andar superior das finanças e da pirâmide do capital (Arrighi, 1997). [1] [2]

Figura 1: Lógica da extração no circuito do valor


7) Saímos de um capitalismo da fase hegemônica industrial, de um circuito financeiro bancário que fazia a intermediação entre a produção e o consumo, dentro da tríade marxiana “produção – circulação – consumo” e constituía o Modo do Produção Capitalista (MPC), para paulatinamente, entrar num circuito financeiro dos fundos e do mercado de capitais, onde o esquema tradicional ainda convive com estas várias e novas formas de inovação financeira. [2] [3]

8) Os excedentes da poupança das famílias e das empresas não são mais majoritariamente colocados nos bancos tradicionais, para fazer a intermediação de capital até os captadores que buscam recursos (créditos) para empreender. Neste caso torna-se paradigmático, observar o movimento dos excedentes das famílias ricas que usam o “family-office”, para investimentos em diferentes fundos financeiros e outros papeis do mercado de capitais. Ainda mais simbólico, é o movimento da família Abílio Diniz, oriunda do comércio de atacados, passa dono de rede de supermercados, acionista de rede francesa e hoje se tornou gestor de ativos de fundo financeiro. [4] [5]

9) Há mudanças na forma de intermediação do circuito financeiro com os fundos e com o mercado de capitais. Na verdade, esse processo vai deixando de ser intermediação e passa, paulatinamente, a se constituir num circuito de capitalização, aquisições, incorporações e fusões com controle da produção, já considerada como um ativo.

Figura 2: Circuito e conexão da rede financeira. Agentes e fluxos da intermediação financeira: dos bancos aos fundos


        PS.: Leitura e interpretação inspirada em SANFELICI, Daniel. 2019. [6]

10) A partir da leitura deste processo se percebe como as finanças foram ganhando um papel central. As finanças, de forma paulatina, mas crescente, estão se tornando o “centro dinâmico da economia”, característico dessa fase do “capitalismo hegemonicamente financeiro”.

11) Não se pode falar das finanças intermediando a “criação de valor”, como costumam defender os economistas neoclássicos. Não se trata disso e sim de uma lógica que é, fundamentalmente, de extração de valor. Uma espécie de parasitismo junto à economia real. Assim, não cabe mais falar de intermediação financeira bancária e sim, uma lógica de “riscos - retorno - em curto prazos” e com altíssima rentabilidade dos ativos controlados pelos donos dos dinheiros, os rentistas.

12) Se trata de uma nova forma de repartição da riqueza produzida pelo trabalho. Uma etapa ainda mais radical do regime de acumulação e de extração de valor. Um “capitalismo de cassino” na leitura do Minsky (década de 90), ou “capitalismo da gestão de ativos”, na leitura mais recente da Mariana Mazzucato. [7] Talvez, possa ser falado em “rodadas de neoliberalismo”, como costuma se referir o professor Carlos Brandão.

13) Os movimentos que os donos dos ativos fazem é de opção entre os setores e frações do capital. Eles querem saber quais são aqueles que negócios que oferecem maiores rendimentos, menores riscos e em prazos mais curtos.

14) Assim, caberia as perguntas: como esse processo e esses movimentos estão se desenrolando? Quais a estratégias e processos em curso? Como a hegemonia financeira foi se tornando cada vez mais potente e parasitária da economia real, da qual depende e se deriva?

15) Aparentemente, há aí um movimento dialético de aproximação e distanciamento entre as finanças e a economia real. Aproximação quando os donos do andar de cima das finanças em se enraízam ao território para aporte em capital fixo na base da pirâmide do capital e de distanciamento, quando o capital se realiza e retorna ampliado ao andar superior dos donos dos dinheiros.

16) Observa-se o número colossal de “inovações financeiras” ampliadas pelo potencial da tecnologia e das plataformas digitais. Assim, o mercado de capitais nacional enlaçado aos fundos globais vão se tornando instrumentos de vampirização da renda e da riqueza da economia real.

17) É preciso pois, identificar quais são os instrumentos e estratégias que estão sendo utilizados. Alguns estudos mais recentes têm oferecido pistas importantes, sobre esse processo que possui dinâmicas similares e distintas, no centro e na periferia do capitalismo. Assim, é preciso observar esses movimentos do capital aqui no Brasil, no sul global.

18) As empresas e parte de setores econômicos cada vez mais são controladas pelos agente, fundos financeiros e por suas gestoras. Os fundos nomeiam os CEOs destas empresas, com mandatos e metas, assim como os jogadores de futebol. Os CEOs e gerentes passam a ter carreira solo, um portfólio de atuação. Esses dirigentes dos donos dos dinheiros costumam ter como prática a busca de resultados de curto prazo, com cortes de custos e pessoal. Promovem a tal reengenharia, falam em stakeholders, sustentabilidade e agora usam o acrônimo ESG, quase como um mantra. A luta desenfreada e cruel deles tende a ser sempre aquela que busca por resultados, encima especialmente, da redução de custos e com enorme pressões, para obtenção de maior rentabilidade e taxas de lucros sobre o trabalho.

19) Nesse processo torna-se evidente, a “prevalência de uma lógica acionária” que traz embutida estas novas formas de “governança empresarial”.

20) Os fundos financeiros e as empresas controladas por elas planejam e querem taxas de lucros maiores, o que acaba exigindo condições de trabalho mais precarizadas. Isso explica o mantra das “reformas neoliberais”: trabalhista e previdenciária, em especial.

21) Essa lógica acionária dos fundos também traz repercussões no campo federativo e das relações de poder, levando governadores e prefeitos a buscarem projetos, capitais de investidores destes fundos, no esforço de busca de ações que gerem emprego e renda.

22) Essa lógica que fez crescer, arranjos institucionais (entre agentes de investidores, empresas e governos), que aparecem nos planos de “desenvolvimento regional/local com geração de renda” e projetos que passei a chamar de “projetos-prateleteiras”.

23) As gestoras de fundos financeiros optam por alguns setores econômicos, mas hoje já estão presentes em todos os setores da economia como mostro no meu livro sobre os fundos. Com investimentos desde a infraestrutura (IE), setor imobiliário (FII, FIP), petróleo e infraestrutura. Vide caso das vendas das malha de gasodutos da Petrobras 9,5 mil km e controle acionário de outras subsidiárias. [8].

24) Além disso, é importante observar como as gestoras dos fundos financeiros vão transformando quase tudo em ativos e assim avançam para controles de setores do comércio, o varejo incluindo o comércio de hortifrútis e até de controle da concessão de cemitérios. [9]

25) Porém, hoje no Brasil, em boa parte estão atrás das oportunidades ligadas às concessões (eletricidade, água e esgoto, rodovias, limpeza urbana, transporte urbano, portos e aeroportos...). Vide caso da Cedae, Eletrobras (em curso) e outros. [10]

26) As concessões de serviços públicos são duplamente vantajosas. Elas partem de uma base de infraestrutura já instalada; têm garantia de financiamento governamental barato; não têm necessidade de licenciamento ambiental e o melhor, são setores (água/esgoto, lixo, eletricidade, transporte público, etc.), que possuem fluxos de capital imediato pela prestação do serviço já em curso.

27) Repito, essa opção dos investidores se dá porque se tratam de setores de baixo risco e que possuem fluxos permanentes de capital. Os tais “marcos legais” garante duas questões mais importantes para os investidores: flexibilidade que significa poder entrar e sair do negócio e/ou setor. Garantia de altas tarifas que traga ótima e crescente remuneração aos investidores.

28) Assim, os fundos financeiros passaram a ser instrumentos indispensáveis para essa nova lógica, porque oferecem a hipermobilidade do capital (entre as frações e os espaços) – movimento horizontal – ou no circuito do valor (Arrighi, 1997) desde a base da pirâmide social, onde está alocado o capital fixo no território, ao andar superior das altas finanças – movimento vertical. [1] [2]

29) Abaixo dois quadros mostram a evolução do patrimônio dos fundos financeiros no Brasil nos últimos quatorze anos. Um primeiro são valores reais e absolutos, sem correção e o segundo quadro com valores atualizados pelo IGP. Os dados foram extraídos do site do Anbima. [11]

Quadro 1: Evolução do patrimônio total dos fundos financeiros no Brasil (2008-2021 até abril), em valores absolutos em R$ trilhão


Quadro 2: Evolução do patrimônio total dos fundos financeiros no Brasil (2008-2021 até abril), em valores atualizados pelo índice IGP-DI em R$ trilhão


30) Em valores absolutos e sem correções, os fundos financeiros no Brasil, segundo dados da Anbima, saíram de R$ 1,1 trilhão de patrimônio líquido em 2008, para R$ 3 trilhões em 2015 e R$ 6,338 trilhões em abril de 2021. É um crescimento espantoso na forma de reunir excedentes presentes na sociedade. Nesse ritmo, em 2019, pelos valores hoje corrigidos pela inflação, esse volume ultrapassou o PIB do Brasil e tende a voltar a ultrapassar em valores absolutos até 2023. Embora, deva se dizer que se trata de uma comparação impertinente, pois o PIB é referente à economia real medido anualmente e o patrimônio dos fundos se referem aos valores de mercado de seus ativos, portanto, se referem a valor fictício.

31) Nesta análise vale citar um destes tipos de fundo financeiro: o Imobiliário (FFI), muito em voga e na moda atualmente. Em 2009, eram 2 mil investidores em FII no Brasil. Em agosto de 2020, os FII já tinham ultrapassado a 1 milhão de investidores (quotistas) e o Valor Invest, previu em janeiro deste ano, que os FII passarão de 2 milhões de investidores até o final de 2021. Sendo 74% de investidores como pessoas físicas (CPFs). [12]

32) Outro exemplo, vinculado a esse movimento de nova forma de recolhimento de excedentes e dinâmica da capitalização no Brasil é o número de investidores na Bolsa de Valores, a B3. Em abril de 2019 tinha chegado a 1 milhão. Em março de 2020, estava em 2 milhões; e em março de 2021 chegou a 3,561 investidores na B3, por CPF, com um saldo de quase ½ trilhão (R$ 482 bilhões), enquanto a poupança tem R$ 1 trilhão. [13]

33) Segundo a Anbima, o Brasil tem um mercado de capitais dos mais sofisticados entre as economias capitalistas do mundo. É o 13º maior mercado de capitais; o 3º maior mercado de derivativos e a 11ª maior indústria de fundos do mundo.

Figura 3: Evolução do número de investidores em Fundos Imobiliários (FII) no Brasil



Figura 4 – Evolução do número de investidores Pessoas Físicas na Bolsa (B3) no Brasil


34) É esse movimento que tem levado a Anbima a se vangloriar do mercado de capitais brasileiro, dizendo que esta evolução se deve ao fato dele ser autorregulamentado. Assim, seu CEO disse em 2018: “a autorregulação da Anbima, é um dos principais motivos para a atração de investimentos nos fundos financeiros no Brasil. Se trata de um modelo privado criado pelo próprio mercado de forma voluntária e independente”.

35) O superintendente geral da Anbima também afirmou na ocasião que o Mercado de Capitais tem como projeto a substituição do BNDES e do Estado pelo mercado. “O pleito e objetivo é que a atuação do BNDES seja apenas complementar e principalmente nas fases iniciais (maior risco). A ideia é a expansão do crédito privado e de mercado de longo prazo em substituição ao Estado”. Superintendente geral da Anbima citou ainda que: “em 2018, o nº de ofertas de debêntures do mercado de capitais foi no valor de R$ 200 bilhões, enquanto o BNDES teria liberado apenas R$ 60 bilhões”.

36) Em síntese, o projeto em curso do mercado de capitais é:

a) Substituir BNDES.
b) Dirigir políticas econômicas no lugar do Estado;
c) Mercado de Capitais papel central e Centro Dinâmico da Economia brasileira.
d) Lógica acionária já é responsável por novas formas de governança empresarial.

37) Diante dessa realidade factual se torna necessário reconhecer que existe uma realidade distinta do que existia há duas décadas atrás. A lógica do neoliberalismo avançou bastante no país. Como afiram os franceses Dardot & Laval [14], o mercado avançou no esforço de substituir em parte o Estado, no controle das políticas e também no financiamento e na formulação das políticas em diferentes setores. E, desta forma também foi aumentando o controle e a manipulação sobre a política e as relações de poder.

38) Há ainda que se observar que “a não regulação” (BC Independente e desmonte do BNDES) passam por arranjo de diferentes agentes do mercado de capitais e pela porta-giratória do setor de finanças que está sempre nos gabinetes dos governos.

39) É um processo que mistura arranjos entre atores tradicionais ligados à economia real (em diferentes frações do capital) e os “inovadores do mundo das finanças”. Os homens dos papeis, dos mercados futuros, dos derivativos e das debêntures são aqueles que passam a construir as articulações rentistas no interior destes setores. São cada vez mais atores usando novas e criativa fórmulas para extrair valor do trabalho na direção do andar de cima dos investidores.

40) Tudo isso gera novos comportamentos financeiros tanto por parte das empresas, quanto das pessoas. Repito, esse processo se manifesta de forma clarividente com a constatação da existência de 3 milhões de brasileiros com investimentos em bolsa e nos fundos financeiros, dentro de um universo de 700 mil brasileiros que ganham mais de 40 salários mínimos e 60 mil com patrimônio acima de R$ 10 milhões no Brasil.

41) É sobre este fenômeno que chamo a atenção no livro sobre a `indústria´ dos fundos financeiros. Vou além quando também tento chamar a atenção para o imbricamento entre o capital nacional e os fluxos globais que envolvem, companhias de seguro, auditoria, grandes escritórios de advocacia, bolsa de valores, mercado de capitais (títulos, derivativos, debêntures, letras, etc.), fundos financeiros privados e soberanos, fundos de pensão, bancos centrais, bancos tradicionais, meios de pagamento (Shadow banking), etc. que juntos compõem o circuito financeiro global. [2] [15]

Figura 5 – Esquema gráfico do circuito financeiro global [16]


42) Os fluxos de capitais que se movimentam entre a base da pirâmide do circuito do valor e o andar de cima, alimentando com excedentes econômicos, os donos dos dinheiros que já controlam os ativos de forma transfronteiriça e com enlaces entre capitais nacionais e globais. Nesse processo se assiste, à desverticalização e desmonte de setores (petróleo) estatizados, que adiante são re-verticalizados pelas grandes corporações globais, hoje controladas pelos grandes fundos (BlackRock, JP Morgan, ...), conforme esquema gráfico da figura 6. (PESSANHA, 2019, p. 184) [2]

Figura 6: Movimento de desverticalização e re-verticalização do capital entre o nacional e o global.










43) Tudo isso expõe esse processo que temos assistido da perda da autonomia e da soberania nacional. Isso ajuda a explicar a perda da capacidade de intervenção nas políticas econômicas nacionais nos diferentes setores ou frações do capital. Assim, se assiste, a pressão das agências de Riscos, das gestoras dos fundos (misturadas aos bancos tradicionais) e na prática vemos como as finanças foram se tornando efetivamente, o Centro Dinâmico da Economia Capitalista Contemporânea.

44) Neste quadro, é preciso pensar como enfrentar e lidar com essa realidade, quando se planeja um projeto nacional desenvolvimentista de retomada da inclusão social e da soberania nacional diante desse “capitalismo de gestão de ativos”.

45) Isso exige ações para além da taxação de dividendos, que já será uma “pedreira”. É preciso rever e suspender a autonomia do Banco Central, reduzir e/ou suspender as isenções tributárias e estabelecer uma reforma dos sistemas financeiro, fiscal, tributário e bancário.

46) Mais que isso o Estado precisa retomar o seu protagonismo, planejar e definir Política Macroeconômica e projetos estratégicos de desenvolvimento econômico e territorial. Retomar ainda os eixos de desenvolvimento, de política industrial e programas robustos e multisetorial para redução das desigualdades, mas antes é necessário romper a lógica de que o mercado controla as políticas.

Sabemos que essa é uma discussão árida e difícil, mas, talvez, vinte anos depois, não será possível contorna-la, sob pena de não ser possível anteder minimamente aos anseios da maioria do povo brasileiro. As propostas de ação exigem um debate amplo que reúna diferentes visões e experiências, busque interpretações mais próximas possíveis da realidade e um conjunto de medidas alternativas necessárias para a retomada do protagonismo do Estado e de um projeto inclusivo de desenvolvimento territorial com redução das desigualdades.


Referências:

[1] ARRIGHI, G. A ilusão do desenvolvimento. Petrópolis, Editora Vozes, 1997.

[2] PESSANHA, R. M. A ‘indústria’ dos fundos financeiros: potência, estratégias e mobilidade no capitalismo contemporâneo. Rio de Janeiro: Consequência, 2019.

[3] MARX, Karl. O capital. Boitempo: São Paulo, 2014.

[4] Matéria de O Globo em 7 de maio de 2021, p. 23. Abílio Diniz lança gestora com investimento mínimo de R$ 1 mil. Família e sócios fazem aporte de R$ 1,75 bi em fundo multimercado da empresa. Disponível em: https://blogs.oglobo.globo.com/capital/post/abilio-diniz-quer-cuidar-do-seu-dinheiro-e-lanca-gestora-com-investimento-minimo-de-r-1-mil.html

[5] Artigo do autor em 8 de maio de 2021 no portal 247. "Family Office" dos Diniz é um bom "case" da estratégia de financeirização de fração da nossa burguesia. Disponível em: https://www.brasil247.com/blog/family-office-dos-diniz-e-um-bom-case-da-estrategia-de-financeirizacao-de-fracao-da-nossa-burguesia

[6] Sobre as mudanças na forma de intermediação financeira, uso aqui interpretações entrelaçadas com as investigações do professor-pesquisador Daniel Sanfelici, Departamento de Geografia da UFF, em sua apresentação no “Workshop Espaço e Poder: Infraestrutura, Financeirização e Território” no IPPUR-UFRJ, no dia 25 jun. 2019. Daniel Sanfelici pesquisa a Economia Política da Financeirização: aspectos teóricos e instrumentos financeiros vinculados ao setor imobiliário. Link de sua apresentação no IPPUR-UFRJ: https://www.youtube.com/watch?v=mmrxPSM8_x4&t=793s

[7] MAZZUCATO, M. O valor de tudo. Produção e apropriação na economia global. São Paulo. Editora Schwarcz S.A. - Portfólio-Penguin, 2020.

[8] Matérias sobre venda de subsidiárias da Petrobras (gasodutos, refinarias, etc.) para fundos financeiros.

a) Sobre desmonte da Petrobras para entrega das subsidiárias a fundos de investimentos estrangeiros:

Reportagem do site G1 em 13 out. 2017. Lava Jato levou empresas a vender mais de R$ 100 bilhões em ativos desde 2015. Disponível em: https://g1.globo.com/economia/negocios/noticia/lava-jato-levou-empresas-a-vender-mais-de-r-100-bilhoes-em-ativos-desde-2015.ghtml

b) Sobre venda da malha de gasodutos da Petrobras:

Matéria da Folha de São Paulo em 23 set. 2016. PAMPLONA, Nicola. Petrobras aprova venda de gasodutos à Brookfield por R$ 5,2 bilhões. Disponível em: 

c) Sobre a venda de refinarias da Petrobras a fundos estrangeiros:

Matéria do Estadão em 24 de março de 2021. Petrobrás fecha venda de refinaria na Bahia para fundo árabe por US$ 1,65 bi. Venda para o fundo Mubadala foi a primeira, de um total de oito refinarias que entraram na lista de privatização da estatal; para conselheiros, no entanto, valor ficou abaixo do preço de mercado. Disponível em: https://economia.estadao.com.br/noticias/geral,petrobras-fecha-venda-de-refinaria-na-bahia-para-fundo-arabe-por-us-1-65-bi,70003659459#:~:text=RIO%20%2D%20O%20conselho%20de%20administra%C3%A7%C3%A3o,como%20gasolina%20e%20%C3%B3leo%20diesel.

[9] Fundos financeiros passam a controlar médias empresas e negócios de menor porte transformada em ativos.

a) Caso da rede Hortifuti vendida a um fundo de investimentos suíço Partners Group:

Postagem no blog Roberto Moraes em 6 de novembro de 2018. Fundos financeiros agora também nos hortifrutis: seu avanço e mobilidade estão moldando o capitalismo contemporâneo e o modus de vida das pessoas. Disponível em: http://www.robertomoraes.com.br/2018/11/fundos-financeiros-agora-tambem-nos.html

Matéria de O Globo, coluna Capital, em 14 de maio de 2021. Na fila para estrear na B3, Hortifruti inaugura loja conceito no Rio, após reforma de R$ 6 milhões. Disponível em: https://blogs.oglobo.globo.com/capital/post/na-fila-para-estrear-na-b3-hortifruti-inaugura-loja-conceito-no-rio-apos-reforma-de-r-6-milhoes.html

b) Caso de Fundos Imobiliários (FII) como proprietários de concessão de cemitérios ampliando rendimentos durante a pandemia da Covid:

Matéria do Valor em 25 de maio de 2021. Retorno de fundo imobiliário do ramo funerário se destaca. O fundo CARE11, da gestora Zion Invest, é considerado pioneiro no Brasil. Disponível em: https://valor.globo.com/financas/noticia/2021/05/25/retorno-de-fundo-imobiliario-do-ramo-funerario-se-destaca.ghtml?fbclid=IwAR1EAwxrgq73pB7Tww8-qhYSJ29RQTnr7L9ze220ke2HSU0Z98KugDuF2lc

[10] Caso da privatização e leilão de concessão da Cedae.

a) Artigo do autor no Portal 247 em 30 de abril de 2021. Fundos financeiros deitam na farra da entrega fatiada da Cedae. Disponível em: https://www.brasil247.com/blog/fundos-financeiros-deitam-na-farra-da-entrega-fatiada-da-cedae

b) Artigo no Portal Outras Palavras em 1 de junho de 2021. O mercado das águas e o suspeito leilão da Cedae. Maior empresa pública do RJ, que abastece 17 milhões, foi entregue a fundos internacionais aos quais só importa lucrar. Pesquisadores apontam indícios de fraude, acordo prévio entre grupos que participaram do leilão e enormes prejuízos sociais. Disponível em: https://outraspalavras.net/crise-brasileira/o-mercado-das-aguas-e-o-suspeito-leilao-da-cedae/

[11] Anbima. Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais. A Anbima se coloca com a principal instituição que representa o mercado de capitais no país. Além da Anbima, minha pesquisa sobre os fundos financeiros levantou a existência de mais de duas dezenas de associações, fóruns e agências que organizam e articulam os interesses desta fração do capital.

[12] Matéria do Valor em 7 de janeiro de 2021. Fundos imobiliários podem passar de 2 milhões de investidores. Outra boa notícia é a possibilidade de recuperação de preços no médio prazo das cotas de fundos especializados em áreas mais atingidas pela pandemia, como shoppings e lajes corporativas. Disponível em: https://valorinveste.globo.com/produtos/fundos-imobiliarios/noticia/2021/01/07/fundo-imobiliario-pode-passar-de-2-milhoes-de-investidores.ghtml

[13] Matéria do Portal G1 em 6 de abril de 2021. Bolsa brasileira atinge marca de 3,5 milhões de investidores pessoas físicas. Nos 3 primeiros meses do ano, número de novos ingressantes chega a 331,9 mil. Pessoa física já tem R$ 482 bilhões em ações na B3. Disponível em: https://g1.globo.com/economia/noticia/2021/04/06/bolsa-brasileira-atinge-marca-de-35-milhoes-de-investidores-pessoas-fisicas.ghtml

[14] DARDOT, P.; LAVAL, C. A nova razão do mundo - Ensaio sobre a sociedade neoliberal. São Paulo: BoiTempo, 2017.

[15] MÉNDEZ, R. La Telaraña Financiera: una geografia de la financiarización y su crisis. Santiago: RiL editores, 2018.

[16] PESSANHA, Roberto Moraes. Inovação, financeirização e startups como instrumentos e etapas do capitalismo de plataformas. In Geografia da Inovação: Território, redes e finanças. P.433-468. GOMES, Teresinha et. al. Consequência. Rio de Janeiro, 2020.


PS.: Sugiro, ainda, pelo menos três outros importantes autores e textos, para uma melhor compreensão das transformações mais recentes do capitalismo e da hegemonia financeira na contemporaneidade. Abaixo eles estão listados pela data de publicação:

CHESNAIS, F. O capital portador de juros: acumulação, internacionalização, efeitos econômicos e políticos. In: CHESNAIS, F. (org.). A finança mundializada: raízes sociais e políticas, configuração, consequências. São Paulo: Boitempo, 2005, p. 35-67.

HARVEY, D. A loucura da razão econômica. São Paulo: BoiTempo, 2018.

DOWBOR, Ladislaw. O capitalismo se desloca: novas arquiteturas sociais. Edições Sesc São Paulo: São Paulo, 2020.

terça-feira, maio 25, 2021

Plataformização da educação

A convite da Pró Reitoria de Graduação da UFMG, eu participei, no último dia 21 de maio de 2021 do encontro temático “Tempos Digitais" com o tema “Plataformização na Educação”, organizado pelo Laboratório Formação em Docências no Ensino Superior (GIZ-PROGRAD-UFMG). 

O encontro temático teve a abertura da pró-reitora de Graduação, professora Benigna de Oliveira e a mesa-redonda foi mediada pelo educador Marcos Vinícius Tarquínio (UFMG), coordenador do LabDocências-UFMG e contou ainda com a presença dos professores-pesquisadores, Marcos Alves (UFMG) e Leonardo da Cruz (UFPA). A gravação do evento pode ser vista neste link: https://www.youtube.com/watch?v=vOYlyQWbfF4

Há cerca de dois anos venho investigando a economia de plataformas e a partir daí venho sustentado a leitura de que a plataformização e o uso cada vez mais intenso das plataformas digitais e aplicativos, tratam-se de um fenômeno multidimensional e transescalar e que sua interpretação depende de múltiplos campos de saber.

Assim, tenho me dedicado mais intensamente às leituras da dimensão econômica, espacial e política, em síntese a repercussão da plataformização e appficação no campo da geoeconomia e geopolítica.

A dimensão da educação não é o centro da minhas análises, mas por insistência dos organizadores, eu atendi ao convite, no esforço de tentar observar as consequências e tendências da plataformização no campo das formações humanas, e assim aprendi com os organizadores, os professores do debate e com os demais colegas participantes.

Após a realização do debate eu resgatei e reuni parte da minha fala incluindo algumas outras anotações sobre o tema da plataformização na educação que agora compartilho mais amplamente no texto abaixo. Não se trata de um texto acadêmico propriamente dito, mas uma espécie de breve ensaio com notas para discussão sobre o tema.


Plataformização da Educação

Talvez, seja um bom começo iniciar a tratar do tema falando daquilo tenho chamado da dominação tecnológica. Um pouco do que o Manuel Castells antecipou em linhas gerais na sua bela trilogia da “Era da Informação” iniciado com o livro “Sociedade em Rede”. [1] Porém, naquela ocasião, a digitalização era ainda um processo inicial e abstrato para a sociedade como um todo. Até porque, como sabemos, há um tempo para o desenvolvimento da tecnologia, sua implantação e o seu enraizamento nos territórios.

Ao falar de dominação tecnológica vale observar que da mesma forma que o trabalho é inerente ao ser humano, o desenvolvimento das tecnologias não existiriam sem o trabalho humano, as forças produtivas e as relações de produção. Tudo assim misturado, mas com o trabalho humano sempre presente.

Nos últimos dois anos eu tenho me dedicado a investigar a economia de plataformas e identificado as plataformas digitais, como sendo “infraestruturas de intermediação” que existem com a finalidade de atender a diferentes setores da sociedade e/ou grupos econômicos no mundo contemporâneo. Como infraestruturas (IEs) elas exercem a mediação entre as pontas e meios de circulação entre a produção e o consumo e também como meio de comunicação, o que nos faz recordar da tríade marxiana do MPC: produção-circulação-consumo.

Figura 1: Lógica da plataformização

Elaboração do autor (2020). Arte: Maycon Aguiar [12]
 

Segundo o dicionário a palavra “plataforma” tem duas principais definições: “superfície plana e horizontal, mais alta que a área circundante”. “Programa político, ideológico, ou administrativo de candidato a cargo eletivo”. A primeira definição remete à hierarquia da organização da produção. E a segunda está muito vinculada à comunicação de ideias para obter apoio. Assim, também pela interpretação da palavra, as plataformas são na prática meios (intermediação) da produção e comunicação (redes sociais), fatores que estão transformando as relações sociais e de produção no mundo contemporâneo. 

Figura 2: Plataformas como meios de produção e comunicação

Elaboração: PESSANHA, 2021.

O processo de plataformização deve sempre ser visto como um fenômeno que se desenvolve e deve ser observado de forma multidimensional e transescalar. Dimensão Econômica, Inovação tecnológica (C&T); Trabalho; Espacial (Geoeconômica e Geopolítica); Política, Cultural, das redes social-comunitárias incluindo o setor da educação. Embora a dimensão da educação não seja o eixo das minhas principais análises sobre o fenômeno da plataformização, eu tentei nesse texto elencar e trazer alguns elementos que possam contribuir para o debate.

A plataformização e a economia de plataformas, já eram processos crescentes e derivados no mundo atual, em especial, a partir do incremento da internet móvel e do uso ampliado de aplicativos, a que chamo de Appficação. Os aplicativos são programas (softwares) de fácil usabilidade para uso na internet móvel no universo dos celulares.

Porém, com o advento da crise sanitária e da pandemia esse processo foi enormemente acelerado. Aceleração do tempo como dizia Thompson. Ou, como nos lembra David Harvey que se referiu à “compressão do espaço-tempo” a partir da Tecnologia da Informação e Comunicação (TIC). [2] O que era estimado para acontecer em uma década foi trazido para um ano ou semestre, um mês.

De início, com a pandemia, os sistemas de ensino e as universidades não sabiam o que fazer. Mas, em pouco tempo, os Meet, Team, Youtube, vídeos no WhatsApp, etc. foram virando febre. As pessoas vibraram porque se sentiam saindo do isolamento completo. Mas não se tinha em mente o que havia pela frente ...

A lógica da intermediação das Plataformas Digitais (PDs) traz embutida, a enorme dominação tecnológica que chega com uma colossal e explosiva extração de dados (da lógica do circuito dos algoritmos, da vigilância, do BD e da IA) executada pelas Big Techs (gigantes-empresas-plataformas), o maior oligopólio da história da humanidade em termos de concentração de valor e poder. Só a Apple com valor de mercado superior a US$ 2 trilhões. [3] [4]

As plataformas-raiz, as Big Techs (GAFAM-Google, Apple, Facebook, Amazon e Microsoft), sabem que o setor de ensino é um filão extraordinário. Não apenas pelo controle, pela Divisão Territorial do Conhecimento e do poder geopolítico que isso representa, mas por conta do enorme de mercado de ensino em que crescem as empresas S.A., controladas pelo “capitalismo da gestão de ativos dos fundos financeiros” (MAZZUCATO, 2020). [5]

Posso citar alguns exemplos além da oferta do Team, do Meet, Youtube, Office, Gmail, etc. As Big Techs trabalham inicialmente com ofertas de uso de softwares, plataformas e aplicativos (APPs), que são também softwares para usos na internet móvel dos celulares. As nossas universidades brasileiras, as italianas e outras foram ampliando o uso do Team, Office 365, soft Productivity score (ferramenta de vigilância e comportamental de alunos); Reflect (soft para enviar questionários para avaliação de aprendizagem – Esses últimos da Microsoft que junto da Google são as Big Techs mais próxima das universidades e do setor de ensino. O soft ClassRoom da Google para gerenciar turmas. O soft Cuppertino (Apple) com soluções de apoio capturam inovações pedagógicas e educacionais. Novas experiências de soluções para transformar o ambiente educacional e mimetizar para uso digital e depois compartilhar com venda para um público mais amplo. APPs como Power APP, Dynamics 365, Power Virtual, etc. Além da oferta de uso das nuvens Amazon Web Services, Azzure, gerenciamento emails, oferta banda-ultra-larga... 70% das nossas universidades e sistemas de ensino usam as Big Techs, em especial Google, Microsoft e Amazon. Tudo como plataformas e APPs de tecnologia que fazendo “pontes” até estudantes, guardando e capturando dados em nuvens.

No Brasil, a multinacional de EaD Laureate que acaba de se juntar à Ânima num negócio de R$ 4,6 bilhões. [6] Uma transação entre a 4ª e 9ª maior empresa privadas de ensino no Brasil. Juntas elas têm agora 330 mil alunos e receita de quase R$ 4 bilhões. A Laureate já está usando softs de IA para corrigir textos dos alunos em lugar dos professores. Promovem turmas com dezena de milhares de alunos. Aulas gravadas e repetidas.

Assim, as Big Techs com suas plataformas vão coletando dados sensíveis, como se fossem commodities da era da digitalização. Sem pedir autorização nem a estudantes, nem a professores, nem às instituições as quais “cedem” as suas plataformas e APPs.

Desta forma, as Big Techs donas da plataformas-raiz vão também, paulatinamente estruturando e ampliando a Divisão Territorial do Conhecimento. Uma nova etapa agora da colonização digital trazendo ainda mais dependência geopolítica nas relações de poder. A geopolítica do conhecimento reforça a divisão entre quem controla a pesquisa, desenvolve o conhecimento, monta as plataformas e quem recebe as tecnologias prontas, sob a forma dos APPs apenas para trabalhar na ponta, quase que apenas na certificação de estudantes.

Assim, aqui na periferia, daqui a pouco serão necessários menos professores e mais monitores e tutores, tudo num esquema ou modelo skinerizado. [7] Penso que corremos riscos de termos quase que somente “centros de certificação” do que já existe na tecnologia criada pelos desenvolvedores. Os conteúdos já estão sendo em boa parte geridos pela IA, a partir das nossas aulas no Team, Meet, Zoom... Com o Estado neoliberal desmontado, esses recursos acabarão sendo bem recebidos pelos governantes que agradecerão às Big Techs.

Tudo (ou quase tudo) que as Big Techs nos oferecem partem de nós. E está sendo extraído. A lógica das plataformas digitais é da extração de valor. As Big Techs (plataformas-raiz) através de suas “stores” (lojas online) que oferecem os Apps, capturam dados, treinam algoritmos para organizar esses dados que são processados pela IA. De posse dos dados trabalhados, industrializados e organizados nas plataformas e APPs, já dizem o que é melhor para nós. Assim, as empresas de ensino vão reduzindo os custos para o ensino massificado.

Nessa análise - talvez exagerando um pouco a crítica para ser melhor compreendida – é possível intuir que as Big Techs e corporações afiliadas, buscarão caminhar para oferecer ensino massificado do maternal à pós graduação. Penso que em especial no ensino médio e na graduação, mas o que vai ocorrer precisa ser acompanhado e investigado.

As GAFAM poderão usar os dados dos estudantes para vender ao mundo do trabalho futuro. Quem sabe moldar cursos e percursos formativos de adolescentes e jovens, em sequências de certificações, numa renovação da instrução programada, um pouco mais sofisticada, ou apenas envernizada, pelo uso da tecnologia.

Tudo isso que estava a caminho foi enormemente acelerado. Há um aproveitamento da situação de emergência sanitária e da pandemia da Covid, quando as ofertas das plataformas e APPs gratuitos “inundaram o nosso território”, nesse processo de colonização digital.

É preciso resistir. Porque, se não houver resistência, uma luta pela autonomia universitária e mesmo soberania da nação, eles seguirão avançando. O próximo passo será eliminar críticas como essa, afim de conquistar o que Gramsci chamou de “consciência superior”. Ou aquilo que Dardot & Laval falaram no seu livro “A nova razão do mundo”, sobre o neoliberalismo conquistando mentes e corações, numa espécie de dominação de espectro total executada e controlada pelo mercado. [8]

Esse processo é o que o francês Cedric Duran tem chamado de tecnofeudalismo, onde, a relação tecnofeudal se dá com o servo se oferecendo ao senhor, para ser ainda mais explorado, em troca da sobrevivência. [9] E isso já está indo muito além dos trabalhos de aplicativos de entrega e transportes. Já alcançou a educação e a saúde com trabalhadores sem relações formais e com mão de obra intermediada por plataformas e aplicativos.

Algumas universidades da Europa já estão reagindo. Na Itália, Alemanha, França. Estão exigindo leis para proteger as universidades (como instituições da sociedade) das grandes plataformas de tecnologia, Big Techs e suas associadas. [10]

Em síntese, é urgente questionar o “uso natural” das plataformas, mas em especial desmontar a sua lógica extrativista e de concentração de poder e lucros, contra os direitos coletivos da sociedade. Por isso, o seu uso precisa ser controlado pelos professores, pelas instituições e pelas nações.

 

Transformações geradas pela digitalização do ensino refletem também movimentos do modo capitalista de produção na direção do plataformismo

Na primeira parte, eu fiz menção sobre como chegamos ao que chamo de “dominação tecnológica” agora pretendo falar um pouco mais como esse processo vem se desenrolando, as estratégias dos agentes quem mais lucram com esse movimento, assim como uma análise crítica das tendências geradas por esse uso ampliado e “naturalizado” das plataformas digitais na educação a partir da emergência da crise pandêmica.

A plataformização é um processo em curso que pode estar iniciando uma espécie de sociedade das plataformas em que se identifica que essa forma de intermediação já está contribuindo para uma nova de reorganização da sociedade contemporânea de forma similar ao que produziu o taylorismo/fordismo como modo de produção capitalista há um século.

As Plataformas Digitais atuam como intermediárias entre grupos de produtores e consumidores na produção e na comunicação. Esse é o fator fundante da “Plataformização” que tem transformado as relações de trabalho e a forma como interagimos e vivemos em sociedade. 

A Plataformização se pontifica no circuito onde se dá enorme extração de valor e assim produz significativas transformações no MPC. Na década de 20 tivemos o Fordismo que, em grande parte, influenciou a forma como organizamos as nossas escolas com grades, disciplinas, séries, etc., teoria e prática, técnica e cultura, etc. Repetindo a conhecida Divisão do Trabalho presente na produção material.

Depois nas décadas de 80/90 tivemos o Toyotismo com a flexibilização da Divisão do Trabalho, processos de enriquecimento de cargos e produção em equipes. É fato que essa mudança pouco influenciou as escolas e as universidades. Pelo menos em grandes proporções. As experiências, por exemplo, da pedagogia por projetos, foram localizadas e em pequenas unidades e não chegaram a se expandir para os sistemas de ensino, embora ainda seja utilizada como prática pedagógica em disciplinas e cursos.

Assim, desde 2015 entramos na etapa do Plataformismo, ou da Plataformização e hoje, já começamos a ver as transformações nas estruturas da escolas/universidades e veremos adiante, onde chegaremos no pós-pandemia. A digitalização do ensino e da pesquisa tem bônus, porque é lucrativa para aqueles já ganhavam com a educação, mas tem ônus que precisam ser analisados de forma crítica. [11] [12]

O esquema gráfico da figura 3 abaixo, apresenta, de forma sintética o marco temporal e as principais características das transformações em curso. É importante apresentar que o surgimento de novas etapas como o Toyotismo e agora o Plataformismo, não representa a supressão das etapas anteriores que acabam por se misturarem ao fenômeno mais recente. Como exemplo, a forma de controle e supervisão técnico-digital executada pelas plataformas digitais, são formas atualizadas do taylorismo, já conhecido. No caso atual, em que o patrão ou o supervisor é o algoritmo, o aplicativo ou a plataforma digital.

Figura 3: Plataformismo: Transformações do Modo de Produção Capitalista

Fonte: Elaboração do autor (2020, a). Arte: Maycon Aguiar. [12]

É evidente que o incremento do uso da tecnologia pode ser diferente do que se identifica. Ao invés de exploração exponencial de pessoal, a exploração de possibilidades para a melhoria e o enriquecimento dos processos educacionais, conforme as direções de utilização da tecnologia. Porém, o que se vê é que estamos seguindo numa direção contrária, quando se busca na essência é a redução de custos, maior produtividade e, consequentemente mais lucros ou rendimentos.

A tecnologia digital não vai regredir e não cabe um novo movimento ludista (a destruição das máquinas e a negação da tecnologia dos trabalhadores ingleses no sec. XVIII nos primórdios da Revolução Industrial). Desta forma, será preciso direcionar as políticas públicas que retome o controle deste processo, como necessidade em termos civilizatórios, no lugar da lógica produtivista e de apropriação de valor. O fato é que a Tecnologia deixou de ser um fator ligado somente à produção, e hoje junto com a comunicação, produz essa dominação ampliada sobre a sociedade (espectro total).

Não se deve deixar de lado que Educação é muito mais que intermediação / circulação de informações ou conhecimento. A lógica da plataformização agiliza os fluxos de informação, mas não garante interação. Assim, a plataformização até poder atender ao comércio global (e-commerce), ao marketplace (shopping virtual) dos deliverys – onde são menos danosos -, mas não a processos que exigem interação social como o caso da educação. 

Como já comentado anteriormente, o processo de plataformização deve ser visto como um fenômeno multidimensional e transescalar. Repito também que as PDs são fundamentalmente meios de produção e meios de comunicação onde se dá a intermediação da informação no ambiente das conhecidas redes sociais. Meio e mensagem num mundo globalizado em termos de territórios e relações de poder.


Fragmentação, guetificação e individualismo parecem marcas da plataformização da educação

Já é possível identificar claramente que a plataformização produz mudanças no Modo de Produção Capitalista (MPC) e na forma como as pessoas interagem e leem o mundo. Transformações para além da produção, mas também na forma de organização dos serviços e da educação, assim como a escola também se pautou na taylorização e na produção em massa para se organizar.

Nessa nova etapa do MPC, as PDs integram e desintegram. Assim, como as PDs como meio de comunicação se fragmentam, pulverizam, tendem à superficialização e à diversidade, mais que ao aprofundamento.

É neste contexto que a fragmentação vai se tornando um dos maiores males do avanço da digitalização seja como meio de produção e simultaneamente de comunicação. E a fragmentação estará cada vez mais ligada às dificuldade de aprendizagem e de reflexão, porque exige múltiplas atenções.

Vive-se no presente sob o domínio do roubo do nosso tempo – Cronofagia [livro do italiano Davide Mazzocco recuperou o termo do francês Jean-Paul Galibert manifesto Cronòfagi (2015)]. [13] Roubo do nosso tempo, sono, das ideias e da atenção necessária à construção do conhecimento que é o inverso da fragmentação. Somos bombardeados de todos os lados, por diferentes instrumentos que retiram nossa atenção, a nossa capacidade de ligar os milhares de fatos que nos chegam simultaneamente.

Desta forma, também fomos nos transformando mais em meios do que em capacidade de leitura e interpretação dos fatos e das mensagens. É também por essa razão que insisto que esse fenômeno precisa ser interpretado e lido de forma multidimensional, dimensão econômica, política (das relações de poder), espacial, geopolítica, geoeconômica, ambiental, societária, sociológica, antropológica, psicológica, educação, etc.

Nessa linha interpretativa é possível também identificar que as PDs como meio de comunicação têm levado a processos de guetificação e/ou tribalização. Antes das PDs, a academia e a pesquisa já eram acusadas de guetos. Talvez, isso se intensifique, embora tenhamos a sensação e a esperança do inverso, de que estamos nos reintegrando com a sociedade, como uma espécie de “universidade aberta”.

Hoje estamos mais controlados e também mais colonizados. Isso me faz lembrar de Foucualt e do seu panóptico, como tão bem relacionou o filósofo coreano Byung Chul Han que nos trouxe a ideia do panóptico digital´, para além da retomada também do conceito da psicopolítica. [14]

O fato é que se torna difícil imaginar o processo educacional apartado da “sociabilidade pessoal” nesse esquema, mesmo que “híbrido” da intermediação digital das plataformas.

Não há muitas dúvidas de que estamos sendo empurrados para um “modelo híbrido”, mas nossas cabeças sairão desta crise sanitária e pandêmica, mais digital do que pessoal e social.

Tenderemos a pensar mais em saídas digitais do que de interação social. Possivelmente, mais individualistas que coletivistas. A escola era também o espaço onde sempre se aprendia mais, no interior do ambiente da escola e da universidade, do que necessariamente na sala e na relação exclusiva professor-aluno.

‌De certa forma, o digital pode bagunçar a estrutura taylorista da escola e da universidade, baseadas na estrutura das disciplinas, nas grades curriculares... que engessam e querem dirigir o processo de construção do conhecimento. Chegamos a pensar na educação por projetos, mas infelizmente não saímos de projetos pilotos e em escolas para poucos e pequenos grupos, como dissemos anteriormente.

Desconfio que agora a tendência maior será na direção de uma educação mais individualizada, mais “skinerizada”, talvez educação para castas e por isso a preocupação com a guetificação. O que seria muito ruim e passos atrás na história da formação humana.

Porém, dialeticamente, pode-se intuir que esse processo avançará e simultaneamente produzirá resistências a partir de suas contradições. ‌Assim, é necessário acompanhar, investigar, estudar e debater essa realidade. Na dúvida, em educação, o trivial sempre ofereceu mais garantias para a parte da população que mais precisa da escola, como chance - quase única - de acesso ao conhecimento para ascensão social.

Eu me pego muitas vezes, sentindo que aprendi mais questões, mas fico me questionando se me aprofundei nos temas. Porém, eu também me apanho algumas vezes me sentindo mais ansioso e depressivo, porque não dou conta de ler, estudar, assistir a todos podcasts, webinares, lives, textos, artigos que chegam a cada um de nós em cascatas.

Parece um movimento contraditório entre intensidade dispersiva e estudo e aprofundamento qualitativo e interpretativo. Se fossemos ver isso em termos espaciais eu diria que é um movimento dialético. Horizontal por conta da fragmentação e dispersão e outro Vertical, quando se busca o aprofundamento.

Talvez seja a dialética da aprendizagem e da educação, que já parece majoritariamente digital que lida com essas forças que parecem mais centrífugas, por conta da dispersão que o fenômeno provoca.


A plataformização na educação está gerando sofrimento, stress, medo e insegurança tanto em professores, quanto em alunos e em toda a sociedade

Todos esses movimentos aqui brevemente relatados e analisados estão produzindo consequências na sociedade como um todo e de forma especial entre profissionais da educação e estudantes.

É um processo ainda pouco percebido, porque o isolamento social físico ainda encobre muito desta realidade que mistura ansiedade pelo que estaria deixando de ser ensino e aprendido e medo dos riscos e do que virá pela frente, tanto em termos de classes profissionais, quanto de futuro dos estudantes.

Duas pesquisas descortinam pontas disso que estaria encoberto. Segundo o Datafolha, em 2020, 4 milhões (8,4%) dos estudantes, com idade entre 6 e 34 anos, matriculados antes da pandemia, abandonaram a escola. Trata-se de uma pesquisa por amostragem realizada com 1.670 entrevistas feitas por telefone, com estudantes ou seus responsáveis, entre os dias 30 de novembro e 9 de dezembro de 2020, que traz uma estimativa da repercussão sobre 43 milhões de estudantes matriculados no país, sendo 26,9 no ensino fundamental, 7,55 milhões no ensino médio e 8,6 milhões de matrículas no ensino superior. [15]

Outra pesquisa com dados relevantes sobre o tema foi realizada pelo Grupo de Estudos sobre Política Educacional e Trabalho Docente (Gestrado/UFMG), entre 8 e 30 de junho 2020, em parceria com a Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação (CNTE). [16]

A investigação foi feita com um universo expressivo de 15.654 professores, sendo 78% mulheres e 22% de homens, em todos os 27 estados da federação, proporcionalmente ao nº de docentes de suas redes: 49% municipais, 39% estaduais e apenas 1,2% da rede federal e 11% simultaneamente das rede estadual e municipal e trouxe como resultados:

a) 89% nunca tinham tido experiência em “ensino remoto; b) 50% consideravam que tinham regular habilidade para lidar com tecnologias digitas, 24% consideravam fácil e 17% difícil esse manejo. c) 42% disseram que não receberam nenhum tipo de formação para essa atuação e que utilizavam por conta própria; 21% se viravam com tutoriais e 25% tinham recebido alguma formação da Secretaria de Educação. d) 82% estavam realizando trabalho de casa, mesmo percentual que identifica que aumentaram suas horas de trabalho em relação às aulas presenciais. e) 51% eram obrigados a compartilhar recursos tecnológicos de acesso com outras pessoas do lar e tinham tempo restrito. f) 46% identificam que o nível de participação dos estudantes nas atividades diminuiu um pouco e 38% drasticamente. g) 80% consideram que isso se dá porque os estudantes não têm acesso à internet e demais recursos e 74% observa que as famílias não conseguem ajudar os estudantes nas suas atividades. h) 69% têm medo e insegurança por não saber nem quando e nem como será o retorno à normalidade.

O resultado dessas duas pesquisas apontam indicadores que causam enorme espanto, que surge em meio às mortes e à necropolítica que cerca a vida de todos nós.

As pessoas e os professores estão todos exaustos e se sentido ainda mais explorados, que em boa parte pode ser também atribuído à individualização que esse processo está nos levando. A tecnologia nos impregna de individualidades, na medida em que o seu uso nas aulas-online, foi se tornando, quase uma única alternativa, para alguma educação durante a pandemia.

Mas, os professores não aguentam mais o ambiente online e os alunos não aguentam mais assistir aulas que foram pensadas para serem desenvolvidas o olho no olho e que digitalmente perdem o encantamento e muitas vezes, o sentido.

Neste ponto é interessante retomar novamente ao filósofo coreano, Byung Chul Han, autor de um breve e bem texto escrito agora em maio de 2021. Aliás, um texto que serve como contexto nessa etapa da conversa sobre o sofrimento mensal e educadores e estudantes. O título e subtítulo: O vírus capitalista do cansaço incessante” - Depressão e esgotamento, que transbordam na pandemia, são sintomas de profunda crise de liberdade. Encontros, que revigoram a vida, sucumbem. Descarnados, somos reduzidos a nós mesmos — bem ao gosto neoliberal. Resgato deste artigo um trecho em homenagem aos professores e alunos:

“A pandemia faz com que essa forma de comunicação, essencialmente desumana, se torne a norma. A comunicação digital nos deixa muito, muito cansados. É uma comunicação sem ressonância, uma comunicação sem felicidade. Em uma reunião do Zoom, não podemos, por razões técnicas, nos olhar nos olhos. Tudo o que fazemos é olhar para a tela. A ausência do olhar do outro nos cansa. Esperançosamente, a pandemia nos fará perceber que a presença física de outra pessoa é algo que traz felicidade, que a linguagem implica experiência física, que um diálogo bem-sucedido pressupõe corpos, que somos criaturas físicas. Os rituais que temos perdido durante a pandemia também implicam em experiência física. Eles representam formas de comunicação física que criam comunidade e, portanto, trazem felicidade. Acima de tudo, eles nos afastam de nossos egos. Na situação atual, o ritual seria um antídoto para o cansaço fundamental. O aspecto físico também é inerente à comunidade como tal. A digitalização enfraquece a coesão da comunidade na medida em que tem o efeito de desencarnar. O vírus nos afasta do corpo.” [17]

Byung parece tentar evitar com o desejo da comunhão e da sociabilidade física, o processo que parece em curso de um encaminhamento em direção à individualização, “ao sujeito que se faz por si próprio”, uma “fábrica do sujeito neoliberal” [8], entranhada nas pessoas e na sociedade. Assim, ao contrário, pendurar várias tipos de softwares e de plataformas é na prática um arremedo e nunca solução.

Agora, já existe até quem pense em separar as etapas do processo de aprendizagem do aluno. Querem flexibilidade de professores e alunos.  Querem artistas. Querem quem possa ser bom tanto no desempenho presencial quanto à distância. Um superdocente ainda mais explorado, já que pode ter menor remuneração, porque trabalha de casa, sua aula pode ser reproduzida e o exército de reserva se expandiu.

É também uma espécie de mimetismo que tenta juntar a aula presencial e adaptá-la ao mundo virtual. Esses mesmos dizem e vendem a ideia de que as possibilidades que essa nova mídia oferece, seriam imensas, embora, o que se tenha, seja basicamente, a filmagem da aula que antes era presencial. Mas, a tecnologia gera muitas tensões.

Os “especialistas” dizem que “a nova mídia deve ser usada na medida da necessidade e no tempo adequado”. E quem sabe o que é adequado? Simulam-se aulas presenciais no mundo virtual em que os alunos ficam entediados, a família desesperada e os professores encurralados e estressados.

Parece que se deseja dividir ainda mais funções na tarefa de educar, o que seria um neotaylorismo. Há quem sugira professores-atores, que seriam mais aptos a esta tarefa de transmitir e empolgar, num ambiente da sala de aula virtual. Tudo é estranho e diferente. Cansativo. Estressante. 

De outro lado é necessário observar o movimento de capitalização e financeirização que os agentes privados que controlam empresas de ensino. Na prática se trata da transformação de um serviço prestado na área de educação que passa a ser tratado como gestão de ativos na lógica que Mazzucato descreve. [5]

As universidades SA, como a Estácio S.A. (hoje Yduqs), Kroton, Ânima, Laureate, Unip, Uninove, etc. crescem nos últimos anos no Brasil, num “mercado” que já supera 3 milhões de matrículas e de algumas dezenas de bilhões de reais de receita. [18] Estes agentes (corporações), naturalmente, estão vibrando com a expansão da EaD, mesmo que cobrada a preço de aula presencial, neste modelo já batizado como híbrido – e definitivo -, à base dos sopapos, em meio aos lucros que são produzidos a partir da colossal redução de custos, professores mais baratos e sem despesas de consumo e quase sem instalações. Muitos dizem que é um caminho sem volta. Importa menos o resultado do processo educacional e mais a lógica do capitalismo de gestão de ativos entre “Retorno & Riscos.

Assim, com um olhar mais geral e numa perspectiva de totalidade sobre esse processo, é possível ainda enxergar nesses movimentos, que “o capitalismo está se deslocando”, como afirma Dowbor. [19] Neste sentido, começam a surgir transformações e novas formas de organizar a sociedade, os negócios econômicos e o funcionamento das instituições estão em curso. A escola e a universidade estão no meio deste processo ou desse tsunami.

Por tudo isso, absolutamente não pode ser considerado razoável ver como natural a intensificação, ou mesmo massificação do uso das plataformas digitais, sem críticas e sem a busca de alternativas e limitações para aqueles que mais ganham com este fenômeno, sem observar os interesses de toda a sociedade. Desta forma, esse esforço para conhecer mais profundamente o processo em curso da plataformização na educação, deve ser visto também como início de ações para a transformação, numa perspectiva de uma utilização da tecnologia a favor da maioria, para além do período de emergência sanitária.


Referências:

[1] CASTELLS, M. A sociedade em rede. Paz e Terra: São Paulo. 2002.

[2] HARVEY, D. Condição pós-moderna. São Paulo: BoiTempo, 2005.

[3] PESSANHA, Roberto Moraes no Portal 247 em 22 de outubro de 2020. Com pandemia, setor de tecnologia é hegemônico no Top 100 do Financial Times. Disponível em: https://www.brasil247.com/blog/com-pandemia-setor-de-tecnologia-e-hegemonico-no-top-100-do-financial-times

[4] PESSANHA, Roberto Moraes no Portal 247 em 22 de outubro de 2020. O modus-operandi das Big Techs. Disponível em: https://www.brasil247.com/blog/o-modus-operandi-das-big-techs

[5] MAZZUCATO, M. O valor de tudo: Produção e apropriação na economia global. São Paulo. Schwarcz S.A. São Paulo. 2020.

[6] Matéria no Valor em 2 de novembro de 2020. Laureate anuncia venda de operações no Brasil por R$ 4,6 bilhões para Ânima. Disponível em: https://valorinveste.globo.com/mercados/renda-variavel/empresas/noticia/2020/11/02/laureate-anuncia-venda-de-operacoes-no-brasil-por-r-46-bilhoes-para-anima.ghtml

[7] A expressão skinerizada deriva das ideias do psicólogo behaviorista americano Burrhus Frederic Skinner. B. F. Skinner foi professor na Universidade Harvard de 1958 até sua aposentadoria, em 1974. Skinner considerava o livre arbítrio uma ilusão e ação humana dependente das consequências de ações anteriores. Para Skinner a educação devia ser planejada passo a passo, de modo a obter os resultados desejados na "modelagem" do aluno. Em síntese, Skinner acreditava na possibilidade de controlar e moldar o comportamento humano.

[8] DARDOT, P.; LAVAL, C. A nova razão do mundo - Ensaio sobre a sociedade neoliberal. São Paulo: BoiTempo, 2017.

[9] DURAND, Cédric. Technoféodalisme: Critique de l’économie numérique (Tecnofeudalismo: crítica da economia digital). Paris. Éditions Zones, 2020.

[10] Artigo da reitora da Universidade de Amsterdã, Karen Maex, em 25 de janeiro de 2021, em faz um chamamento a produção de leis para proteger e garantir a autonomia das universidades da agressão das grandes plataformas de tecnologia. Rector calls for EU law to protect universities’ tech autonomy. Disponível em: https://www.researchprofessionalnews.com/rr-news-europe-regulation-2021-1-rector-calls-for-eu-law-to-protect-universities-tech-autonomy/

[11] PESSANHA, Roberto Moraes. Commoditificação de dados, concentração econômica e controle político como elementos da autofagia do capitalismo de plataforma. Revista ComCiência do Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo da Unicamp e SBPC. Disponível em: <http://www.comciencia.br/commoditificacao-de-dados-concentracao-economica-e-controle-politico-como-elementos-da-autofagia-do-capitalismo-de-plataforma/>.

[12] PESSANHA, Roberto Moraes. Inovação, financeirização e startups como instrumentos e etapas do capitalismo de plataformas. In. Geografia da Inovação: territórios, redes e finanças. P.433-468. Rio de Janeiro. Consequência, 2020.

[13] Artigo de Giuseppe Luca Scafiddi publicado em 17 fev. 2020, no portal Outras Palavras. Cronofagia: o roubo do tempo, sono e ideias. Disponível em: https://outraspalavras.net/mercadovsdemocracia/cronofagia-o-roubo-do-tempo-do-sono-e-das-ideias/

[14] HAN, Byung-Chul. Psicopolítica: O neoliberalismo e as novas técnicas de poder. Belo Horizonte. Editora Âyiné, 2018.

[15] Matéria da Folha de São Paulo em 22 de janeiro de 2021. SALDAÑA, Paulo. Cerca de 4 milhões abandonaram estudos na pandemia, diz pesquisa. Taxa de abandono é de 10,8% no ensino médio e 16,3% no superior, segundo levantamento Datafolha a pedido do C6 Bank. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/educacao/2021/01/cerca-de-4-milhoes-abandonaram-estudos-na-pandemia-diz-pesquisa.shtml

[16] PESSANHA, Roberto Moraes. Artigo publicado em 16 jul. 2020 no blog do autor e no Portal 247. Pesquisa da UFMG/CNTE sobre o trabalho docente da rede pública pela via digital aponta precariedades, intensificação e baixa participação dos estudantes. Disponível em: http://www.robertomoraes.com.br/2020/07/pesquisa-da-ufmgcnte-sobre-o-trabalho.html. No Portal 247, em 16 de julho de 2020. Ensino digital na pandemia: precariedades e baixa participação dos estudantes. Disponível em: https://www.brasil247.com/blog/ensino-digital-na-pandemia-precariedades-e-baixa-participacao-dos-estudantes

[17] HAN, Byung-Chul. O vírus capitalista do cansaço incessante. Portal Outras Palavras em 13 de maio de 2021. Disponível em: https://outraspalavras.net/crise-civilizatoria/o-virus-capitalista-do-cansaco-incessante/

[18] Matéria no Valor em 25 de maio de 2021. Curso on-line e compras driblam crise. Grandes grupos de ensino com capital aberto na B3 aumentaram base de alunos no vestibular do começo deste ano. Disponível em: https://valor.globo.com/empresas/noticia/2021/05/25/curso-on-line-e-compras-driblam-crise.ghtml

[19] DOWBOR, L. O capitalismo se desloca: novas arquiteturas sociais. São Paulo: Edições Sesc São Paulo, 2020.