quarta-feira, fevereiro 21, 2018

"O mundo está prestes a enfrentar o surgimento de uma superpotência de petróleo da América Latina que terá peso sobre os preços mundiais"

A afirmação foi feita ontem pelo analista-articulista Matthew Smith do site especializado no setor de petróleo e gás, OilPrice.com. no artigo cujo título é: "Quando o boom do Petróleo do Brasil começar ele pesará sobre os preços do petróleo" (Brazil’s Coming Oil Boom Will Weigh On Oil Prices) que pode ser lido aqui.

No texto Smith faz uma série de considerações pelas quais passa o setor de petróleo no Brasil, aos olhos dos investidores globais do setor para chegar à conclusão, pela qual temos repetida vezes batido aqui neste espaço, com as considerações das oscilações de fase que passamos a chamar de ciclo petroeconômico e suas consequências em várias dimensões. 

Com a imensa reserva do pré-sal (ver aqui artigo do blog -19 fev - sobre as reduções de custos da produção offshore) que Smtith chama de "cinturão", o Brasil se tornou um grande player (jogador) entre os países produtores de petróleo passará a interferir nos preços mundiais do barril de petróleo a partir do seu aumento de produção.

Segundo o Instituto Brasileiro de Petróleo (IBP) - que apesar do nome atua favorecendo as petroleiras privadas estrangeiras - até o ano de 2021, o Brasil terá investimentos no setor, da ordem de US$ 95 bilhões. Dinheiro a ser alocado entre outros, em 19 plataformas, que devem entrar em operação neste período. Sendo que 12 já estão contratadas e em fase de construção e outras 7, sendo encomendadas.

Smith, no texto do OilPrice cita a euforia das players petroleiras: Shell, Esso, Statoil e Chevron. Todas ampliam seus negócios e vieram para o pré-sal e estão cada vez mais alvoraçadas e dizem que os"baixos custos operacionais dos campos de petróleo pré-sal são extremamente atraentes para as empresas de petróleo em um ambiente operacional onde o preço do barril (brent) está negociando em torno dos US$70 por barril". 

Mathew detalhas ainda as razões da euforia da Shell que hoje já produz 400 mil bpd no Brasil e caminha para ter até o final do ano, uma produção de meio milhão de barris por dia. Smith confirma que a Shell relata que "no campo de Libra, que começou a produção em novembro de 2017, já esta estimando um custo de produção (break-even /ponto de equilíbrio) de apenas US$20 por barril.

Nos argumentos usados por Smith para reafirmar o potencial do Brasil como "superpotência de petróleo" ele cita "a estimativa da ANP que que só a produção sozinha de petróleo do campo Libra atingirá 1,4 milhão de barris por dia", o que hoje seria metade de toda a nossa produção.

Tudo que cansamos de dizer aqui neste espaço, denunciando a entrega vil destas enormes riquezas, assim como das instalações de infraestruturas já prontas, como a das malhas de gasodutos. 

No Brasil ainda há muita gente colonizada que precisa ouvir especialistas estrangeiros para entender o que aqui se passa. Há pelo menos seis/oito anos, nós repetimos aqui no blog, nos relatórios de pesquisas e em debates, em diversos espaços, que para o bem e para o mal, com a descoberta do pré-sal, o país tinha entrado na rota e nos riscos da geopolítica do petróleo. 

Na ocasião parecia exagero. Porém, hoje, o golpe político e o entreguismo vil de nossas riquezas, com a dilapidação de nossas oportunidades, escancaram aquilo que antes era apenas uma leitura do cenário. Muito de tudo isto que está sendo dilapidado deve retornar aos seus verdadeiros donos. 

Os imbróglios e a luta serão gigantescos, mas como disse, diante do potencial descoberto em 2006 e que começou a ser melhor avaliado e mensurado em 2010/2011, nada ficaria como antes. 

terça-feira, fevereiro 20, 2018

Entrevista do blogueiro ao SJBOnline em 2016 interpretando as vantagens (oportunidades) e desvantagens (ameaças) do Porto do Açu para SJB

Há dois anos (e o Facebook me lembra hoje), eu dei uma entrevista para o site SJBOnline para falar e resumir a minha interpretação sobre as vantagens e desvantagens do Porto do Açu. Agora no dia 20 de fevereiro de 2018, eu fui ver o link e identifiquei que o mesmo saiu do ar e não mais existe.

Sim pode ser uma coincidência. Ou não. Na verdade a entrevista foi publicad apelo site SJBOnline no dia 1 de fevereiro de 2016. Mas, eu só repercuti a mesma no meu perfil do Facebook, no dia 20 de fevereiro de 2016 com os comentários abaixo.

"Apreciei a forma como fui abordado para a entrevista. Me disseram que gostariam de uma entrevista que ajudasse a comunidade de São João da Barra a compreender melhor as vantagens e desvantagens da instalação do Porto do Açu. Estavam dispostos a publicar na íntegra a opinião que vem sendo construída há cerca de uma década de estudos e pesquisas.

Assim, eu tinha pela frente um desafio de buscar sair da superficialidade dos comentários soltos, para uma análise mais abrangente e ao mesmo tempo compreensível para a maioria das pessoas. E que pudesse explicar desde a origem, o processo de instalação mais os seus significados para a população local e regional.

Entendo que esta é uma obrigação pública de todo pesquisador/professor diante da população. Não sei se o esforço e a tentativa de desocultar algumas questões ao público em geral teve sucesso. Fui extenso demais nas respostas, mesmo com a preocupação de ser conciso e sintético.

Enfim, aí está o seu conteúdo. Ela expressa opinião e uma interpretação da realidade que vem sendo pesquisada, mas não é isenta de críticas.

Ao inverso, eu penso que é do debate que podemos avançar tanto na compreensão da realidade, quanto no desenvolvimento de ações e projetos que possam tornar o empreendimento particular, como algo importante também para a comunidade."


Foram apenas seis perguntas, mas as respostas acabaram gerando quase o dobro de páginas com as extensas respostas (sic). A entrevista foi feita por duas jornalistas, Jaciara Gomes e Julia Assis que na ocasião atuavam no SJBOnline.

Considerando que muito do que foi falado ainda vale ser refletido, embora eu já tenha avançado nas pesquisas e nas interpretações sobre a implantação e desenvolvimento deste projeto, embora a gênese do processo não tenha se alterado.

Assim, o blog decidiu republicar a entrevista abaixo, apenas sugerindo que ela deva ser lida no contexto histórico em que foi escrita.

Quem se interessar pelo assunto pode também ver uma outra entrevista concedida por este blogueiro à mesma época (apenas um mês e meio antes) ao Instituto Humanitas, da Unisinos, Rio Grande do Sul, em 11 dez. 2015 (veja aqui), cujo título foi: "Infraestrutura logística portuária: O Estado cooptado pelo setor privado e a população à mercê do capital. Entrevista especial com Roberto Moraes Pessanha".

Enfim está aí abaixo:

Entrevista para o SJB Online em 01 de fevereiro de 2016
Publicada em 20 de fevereiro de 2016:

"Porto do Açu do discurso de sustentabilidade à hipocrisia"

SJB Online: Desde o início do processo de implantação do Complexo Portuário do Açu, começando com o arrojado projeto do grupo EBX e agora com a Prumo Logística, quais são, na sua opinião, os pontos positivos e negativos para a comunidade?

Roberto Moraes: Eu prefiro deixar a análise dual, ou polarizada, entre pontos positivos e negativos para mais adiante. A atividade portuária é parte de um sistema de logística que liga o produtor ao consumidor. No mundo todo, a atividade de logística portuária vem sofrendo transformações acentuadas. Uma delas é a relação cada vez menor com as cidades e as comunidades onde estão instaladas, porque os fluxos de cargas e a movimentação material se dão em velocidades cada vez maiores, ao contrário da lógica antiga dos grandes armazéns. A outra, ligada à primeira, é a exigência de grandes retroáreas e, por isto os terminais estão migrando (na medida do possível) para fora de grandes áreas metropolitanas. Ambas as característica se vinculam a uma terceira transformação, a que chamamos da 5ª geração de portos, que é a característica do “porto-indústria”, porto junto do distrito industrial, onde a ideia é que se ganhe com o baixo custo de logística, na medida que a produção tende a ficar ao lado do porto, para daí sair e chegar ao consumidor, que pode ser o final, ou outra indústria de transformação. O Porto do Açu foi pensado pela primeira vez no ano 2000 para servir de apoio às atividades de exploração de petróleo, no litoral do Sudeste. A ideia de usá-lo para exportação de minério de ferro, em projeto similar à da Samarco, ES, surgiu quando os estudos de viabilidade técnico-econômica, realizados pelo governo estadual foram entregues ao empresário, Eike Batista, que este veio à região em 2005/2006 e adquiriu as áreas de duas grandes fazendas: Caruara e Saco Dantas. Desta forma, em julho de 2007, se iniciou efetivamente a construção e implantação do porto, com o que hoje é foi denominado como Terminal 1.

Neste processo, em oito anos e meio, houve e continua havendo, muitos problemas, que não existiriam se a palavra “sustentabilidade” não fosse na prática, tão falsa e hipócrita, quando se trata da implantação de grandes empreendimentos e não apenas portuários. Os processos de licenciamento foram absurdamente fatiados e aí se perdeu completamente a noção e a avaliação dos impactos de forma cumulativa, assim com a relação do sistema portuário com o chamado complexo industrial. Desde o Sistema Minas-Rio, com o mineroduto, ao terminal Sul, (hoje chamado de Terminal 2); o estaleiro da OSX (hoje com a implantação interrompida); as Usinas Termelétricas (duas, uma a carvão e outra a gás) – hoje suspensos; as duas siderúrgicas, projetos também suspensos, junto com duas cimenteiras.

O processo de desapropriação foi e continua eivado de ilegalidades absurdas, além de realizado de forma violenta, numa espécie de reforma agrária, às avessas, com o estado tirando de vários pequenos proprietários rurais e agricultores, para entregar a uma corporação global, hoje controlada por um fundo de investimentos americano, em latifúndio quase sem uso com mais de 70 km². Sendo que a pequena parte utilizada se dá a um custo mensal de aluguel superior ao valor que se realizou (alguns casos pretendeu) para a compra dos pequenos agricultores.

O processo de dragagem e de formação do aterro hidráulico com a areia retirada para a construção do canal de atracação vazou, criminalmente, e salgou as terras e os recursos hídricos da região, atingindo, talvez, não por acaso, os agricultores que insistiam em manter suas atividades rurais a despeito da força e do poder econômico dos implantadores do porto.

Para não estender mais, mas sem deixar de registrar outro impacto importante da implantação dos píeres e quebra-mares, a Praia de Barra do Furado, desde 2012 e de forma mais intensa em 2014 e 2015, passou a sofrer a supressão de areia e rápida erosão, aliás prevista no EIA/Rima elaborado pela própria empresa, para o licenciamento do Terminal Sul do porto (hoje 2) e do Distrito Industrial previsto para as áreas desapropriadas pelo Estado.

Ainda sobre os pontos negativos a geração de empregos para os moradores de SJB foi e continua sendo, proporcionalmente, pequena e desta forma, para muitos, o porto ainda parece algo estranho ao município. Mesmo que menores que antes, ainda há esperanças de que o porto traga algumas vantagens, por conta da importância estratégia de logística nas cadeias de produção e de valor da economia global que se tem hoje.

As receitas de ISS cresceram, mas em proporção menores do que as demandas que a atividade econômica e a vinda de pessoas de fora passaram a demandar da municipalidade, em termos de saúde, educação, saneamento e segurança pública. A comunidade que empresta nome ao porto, parece que ficou de costas, virando quase que um quintal do empreendimento e sofre todos os problemas que já tinha antes, além de vários outros, como de seguidos roubos e assaltos, ausência de um terminal bancário ou mesmo entrada de acesso ao porto.

As atividades de movimentação de cargas começaram no final de 2014, mas um maior fluxo de cargas ligado ao Terminal 2, onde estão (estariam) algumas empresas de apoio e produção de materiais para exploração de petróleo ainda não deslanchou. Neste terminal, a americana Edison Chouest monta uma base portuária, demandada através de um contrato de licitação com a Petrobras e que está sendo construído. Porém, ele vem num momento de baixa do “ciclo petro-econômico” com repercussão em todo o mundo e de menor dinâmica na Bacia de Campos, com redução de novas exploração. Isto poderá alterar a dinâmica que se começou a prever, com a transferência paulatina de serviços e indústrias da base operacional de Macaé para o Açu.

Assim, há que se investigar como este processo se transcorrerá. De certo, infelizmente, é a pouca capacidade do município de SJB e mesmo os demais da região, em conversarem, se integrarem e exigirem melhor interação com o projeto econômico que o porto pode trazer. O governo estadual também foi e continua sendo omissos na regulação e fiscalização das atividades de implantação do porto, assim como nas exigências de um maior diálogo com os municípios da região. Os problemas não resolvidos vão se intensificando e acumulando.


SJB Online: Quais são os principais problemas do Porto? Economia local (atividades tradicionais), política, alterações no ecossistema, aumento populacional, questões sociais?

Roberto Moraes: Parte da resposta a esta pergunta está acima. Os impactos de um empreendimento como este sempre serão muito grandes. O maior questionamento é que muitos deles, poderiam de fato ser evitados, ou reduzidos, se houvesse interesse e respeito com as pessoas e a comunidade. São custos relativamente pequenos. Porém, são pouquíssimas as condicionantes para mitigação destes impactos efetivamente realizadas. Como eu disse, os portos na atual conjuntura de rápidos fluxos, como se vê a partir da reestruturação produtiva mundial, conversa muito pouco com as cidades e com as comunidades. Assim, eles se transformam numa espécie de ilha isolada de tudo e todos. Os especialistas chamam este tipo de empreendimento de “enclaves”. Eles também dizem que os enclaves geram poucas “externalidades” para o local e para o entorno onde estão instalados.

Observando o processo de instalação do porto é possível enxergar claramente este processo. Diversos dados e indicadores confirmam esta realidade. Assim, até os pequenos restaurantes que atendiam aos trabalhadores, foram sendo deixados de lado. Por conta dos alojamentos que tantos problemas tiveram como de denúncias de condições análogas a de trabalho escravo e de péssimas condições de habitabilidade, foram sendo suprimidos, por pagamentos de uma espécie de auxílio moradia. Assim, a maioria dos trabalhadores que atua nas empresas do porto e na construção de outras bases, hoje vão e voltam diariamente em ônibus para Campos. Estima-se hoje este número em torno de 7 mil trabalhadores. Até hoje, a ligação do Açu com a sede de SJB é precária, o que ajuda a ampliar a relação do empreendimento portuário com Campos, que já é um polo comercial e de serviços.

Como já disse, os gestores locais não dialogam e não traçam políticas de integração e de consórcios que poderiam ajudar aos moradores. A relação entre os gestores municipais e do empreendimento, ou são superficiais, ou de submissão aos interesses econômicos destes. Um bom exemplo, pode ser visto no processo de revisão e aprovação do Plano Diretor de SJB, onde a discussão sobre o uso do solo, em que o município tem poder de regulação atendeu a todos os interesses do porto e abriu brechas para um enorme processo de especulação imobiliária. Há que se considerar, em meio aos problemas, que os imbróglios da implantação total do empreendimento, a mudança de dono e de controle, o adiamento ou suspensão de alguns projetos, acabaram por vias transversas, oferecendo à população/comunidade, alguns poucos meios e formas para se adaptar e tentar resistir, ao que se pode chamar de “processo tratoral” usado sobre a população local.

SJBOnline: É possível que uma mudança de conduta dos empreendedores e gestores públicos seja capaz de minimizar ou até sanar os problemas existentes no Porto do Açu (os atuais e os previstos para o futuro)? 

Roberto Moraes: Isto é desejável. É ridículo imaginar gestores locais e mesmo do governo do estado, só batendo continência para os empreendedores. O empreendimento é desejado e traz potencialidades e perspectivas econômicas que interessam à população, que busca e pensa mais no emprego. Mas até poderia também atender ao governante, que pensa nos tributos que lhe possibilitará avançar em projetos do seu mandato. Porém, há que se dialogar, mas sem abrir mão em regular a atividade, sem deixar de cobrar pelas compensações dos impactos, como infelizmente se viu nos momentos de maiores problemas como da salinização, da erosão do mar e da forma usada para as violentas desapropriações.

A articulação entre as gestões públicas nas esferas de poder possuem força suficiente para buscar sinergias para minimizar os problemas. Sanar não. Um empreendimento deste porte sempre traz problemas na mudança que se faz na natureza, para o uso humano e para a geração de valor e de riquezas. Porém, há hoje formas e fórmulas diversas, para colocar em prática o que chamei de hipocrisia do discurso da sustentabilidade. Elas não são feitas porque não cobradas e nem fiscalizadas. É como já disse, na época da euforia da construção, em que toda a economia ia bem, o discurso é que era necessário deixar a coisa andar para aproveitar a onda e aí as cobranças eram deixadas de lado, para adiante. Agora, no colapso da economia, os problemas com os preços das commodities de minério de ferro e óleo em baixa, duas das bases do sistema portuário, o discurso se altera, mas para tudo continuar como antes, sem cobrança, licenciando socioambientalmente os empreendimentos (como se viu neste caso do licenciamento ambiental da dragagem para aprofundamento do canal de atracação do porto – veja em meu blog comentário e crítica específica sobre isto: http://www.robertomoraes.com.br/2016/01/sobre-audiencia-publica-da-prumo-em-sjb.html). Sem fiscalizar as operações e o cumprimento das condicionantes.

É fato que a operação do Porto do Açu atrai potencialidades econômicas para toda a região, para além da logística de movimentação de carga destas duas commodities (mineral e petróleo), mas para isso há muita coisa para ser pensado em termos de planejamento e de integração com a economia estadual e nacional. Há um desenho sobre esta dinâmica econômico-espacial que eu tenho chamado de “Circuito Espacial do Petróleo e dos Royalties” que antes ia até Macaé e agora foi espichado para o Açu. Enfim, para o bem e para o mal, atendendo e enriquecendo poucos, o porto é sempre uma janela para o mundo, mas parece que no caso do Açu, ele vem se tornando quase que apenas, um portão de entrada e saída para seus donos. Ou não?


SJB Online: Não só em relação ao Porto do Açu, o senhor tem estudado a realidade da questão portuária dentro e fora do estado do Rio de Janeiro. O que tem observado?

Roberto Moraes: Sim, eu desenvolvo uma pesquisa desde 2006 sobre o tema, e de forma mais estruturada, a partir de 2011, sobre a implantação do porto do Açu e a relação que isto tem com a região e com o desenvolvimento com todo o ERJ. Pesquisa que nasceu no Núcleo de Estudos em Estratégia e Desenvolvimento (NEED) do IFF e foi sendo ampliada no Programa de Políticas Púbicas e Formação Humana (PPFH) na UERJ, onde estou em vias de concluir o doutorado no tema. Assim, eu identifiquei a existência do que passei a chamar de uma tríade entre “petróleo-porto-indústria naval” que passou a ter ainda maior relevância na economia e no emprego do estado. O PIB estadual perigosamente passou a ficar dependente da chamada “maldição mineral”, com 33% vinculado direta ou indiretamente a esta cadeia, ou à tríade que é puxada pelo petróleo. Foi no curso deste processo que fui ampliando o conhecimento sobre os sistemas portuários já existentes e inúmeros outros projetos de porto que foram surgindo, no litoral de nosso estado, na última década.

O ERJ é chamado por alguns de “estado-porto”, porque hoje possui 13 portos em funcionamento, além de outros 5 projetados, em seus 635 km de litoral (o 3º maior em extensão entre todos os estados). Nos portos em funcionamento, há hoje, mais de 30 terminais instalados. Assim, o setor portuário que já tinha tradição e história, desde o Porto do Rio, que recebeu a família real em 1806, foi ampliando a sua importância econômica e social para o estado e par ao país. Inicialmente com a movimentação de cargas gerais, gerando receitas de impostos, e adiante, quando passou a ter ainda maior significado com a demanda de apoio portuário, para movimentação de embarcações que viabilizaram as descobertas e a produção de várias reservas petrolíferas, desde a Bacia de Campos, ES e de Santos e mais recentemente, a gigantesca reserva do Pré-sal. Assim, os portos, enquanto infraestrutura foram se transformando numa base importante para a economia fluminense, ampliando a disputa por este centro de logística com o vizinho estado do Espírito Santo. Na atual conjuntura vale observar que pelo estado mais avançado de implantação e já funcionando, o Porto do Açu ganhou vantagem diferencial, em relação aos demais projetos portuários no ERJ e no ES, que ainda aguardam licenciamento ambiental e/ou financiamento.

A minha pesquisa identifica hoje de forma mais estruturada a relação entre petróleo e porto e a repercussão dela sobre o território. Sobre o assunto, eu formulo a interpretação de que para o bem ou para o mal, esta relação constituiu um “Circuito Espacial do Petróleo e dos Royalties” (CEPR) no litoral fluminense, com o uso do solo, mais dominado por corporações do que pelas comunidades e pelos governos locais. Assim, há hoje, contornos daquilo que se poderia intitular como uma “região metropolitana do petróleo”. É por conta disso, que o meu enfoque e defesa de atuação da gestão pública é voltada essencialmente, para a necessidade de uma maior integração das políticas municipais com visão regional e menos localista. Ou seja, esta ideia não parte da teoria e sim da realidade empírica do que se observa e dos dados e indicadores que se analisa.

Fonte: Mapa do Circuito Espacial do Petróleo e os Royalties no ERJ.
Elaboração do autor e publicado no artigo da Revista
Espaço e Economia em setembro de 2015.

Para as próximas décadas, diante da reestruturação produtiva mundial, os portos ampliarão ainda mais a sua importância, seja em navegação de longo curso, intercontinental, ou mesmo dentro do país, com a navegação de cabotagem. Para os que se interessam sobre o assunto, eu sugiro duas publicações. Um artigo científico publicado na revista “Espaço e Economia” – Revista Brasileira de Geografia, em setembro de 2015, sobre a relação porto-petróleo e sua influência no ERJ e no Brasil, cujo título é: “A ampliação da fronteira de exploração petrolífera no Brasil é parte da geopolítica da energia: oportunidades e riscos de inserção global em meio às novas territorialidades regionais e ao desafio da abundância na economia dos royalties no ERJ”. 

(Link: http://espacoeconomia.revues.org/1511) e a outra uma entrevista que concedi ao Instituto Humanitas, da universidade Unisinos no Rio Grande do Sul, em dezembro de 2015, cujo título é: “Infraestrutura logística portuária: O Estado cooptado pelo setor privado e a população à mercê do capital”. (Link: http://www.ihu.unisinos.br/entrevistas/550047-infraestrutura-logistica-portuaria-o-estado-cooptado-pelo-setor-privado-e-a-populacao-a-merce-do-capital-entrevista-especial-com-roberto-moraes-pessanha). Há ainda no blog inúmeras postagens sobre os sistemas portuários na atualidade. De forma especial cito um artigo publicado, em fevereiro de 2015, na plataforma GeocritiQ, da Universidade de Barcelona, cujo título é “Portos demandam regulação”. (Link: http://www.geocritiq.com/author/roberto-moraes/).

SJB Online: Poderia comentar sobre a direção de um plano de ação regional incorporando a questão portuária, de desenvolvimento sócio/econômico regional e Políticas Públicas?

Roberto Moraes: Sim. Eu não vou dar uma tecnocrata e listar uma receita de bolo, porque não acredito nisto. Não reconheço projetos de gabinetes sem participação popular e construção coletiva de políticas públicas. Acho que necessitamos sim de direções, de caminhos sobre as quais se deve dialogar com as partes interessadas para criar mediações e projetos de políticas públicas. Nesta linha, eu tenho insistido na necessidade de se pensar políticas públicas menos locais e mais regionais e de integração. Algumas das importantes medidas que necessitamos só serão realizadas com um maior integração das gestões. Os municípios não podem continuar atuando de forma concorrencial e isolada. Esta não é uma crítica intelectual e sim prática. De estímulo à busca de uma melhor direção para a tomada de decisões e implementação de ações políticas que a meu juízo devem ser pensadas em 3 grandes dimensões: Política (Gestão e Participação Social); Econômica (Participação do Setor Produtivo e do Trabalho/Emprego nos debates) e Social e Cultural (Manifestações Culturais, Movimentos Populares, de Minorias etc.) que devem ser vistas no plano do município e de um grupo de cidades as mais próximas e àquelas com que possuem mais afinidades históricas, sociais, culturais e econômicas. Seguindo esta direção, eu defendo ainda que sejam pensadas algumas das novas características de nossa região:


a)    Era sabido que a Redução dos Royalties viria antes da escassez do petróleo e atingiria também o ERJ – perda de R$ 3,5 bi e déficit de R$ 16 bilhões e encontraria a União também com problemas, como estamos vendo no presente. Agora não adianta chorar o leite derramado, embora seja necessário reconhecer os erros, para não repeti-los. Porém, é preciso olhar pra frente e fazer o que não foi feito;
      
b)    A região de forma paulatina, passou a ficar vinculada diretamente à Economia Global, seja pela relação com o petróleo (royalties), seja pelo porto. Este fato deveria levar a uma maior cuidado e busca de integração com a economia tradicional, que deve ser mais apoiada e valorizada, com potencial para ganhar novos significados e mercados;

c)    A gênese de toda a questão é Política e da sua relação com as comunidade e as corporações, enquanto nos municípios, quase sem exceção se permanece apenas numa esganiçada “luta de poderes”, deixando de lado, uma preocupação com o que poderia ser uma disputa no “campo das ideias”, para a formulação, coletivamente e de forma participativa, de boas políticas públicas nos diversos setores: educação, saúde, saneamento e ambiente, cultura e esportes, etc.

d)    A meu juízo a “Economia do Petróleo” tende a se manter nos próximos 30/40 anos na região e no Brasil, enquanto a “Economia dos Royalties” perderá força e o estado e os municípios até aqui petrorrentistas continuarão a sentir os efeitos. (33% do PIB do ERJ e 12% PIB nacional);

e)    Não há saídas fora do diálogo amplo. É necessário ampliar e radicalizar a participação da sociedade nas decisões. Aproximar representantes de representados. Assim, mesmo que tardiamente, é sempre hora de reestimular a participação social na definição das prioridades, em termos de setores e lugares. Sem ilusões, ou ingenuidades de se pensar em consensos, possíveis em poucas situações, mas no atendimento às maiorias, em termos econômicos, sociais e culturais. Épocas de crise como a atual, é mais que propícia para pedir a colaboração, especialmente, quando se trata de decidir sobre cortes orçamentários, porque deste debate é que se originarão as prioridades e os novos projetos para atender diretamente à população.

f)            Podemos não querer perceber, ou registrar, mas é fato que as populações dos municípios da região, a despeito dos problemas de locomoção e mobilidade, hoje, vão e voltam diariamente de uma para outra cidade, especialmente para trabalhar e estudar, mas também para o lazer e a integração social com as famílias vivendo espacialmente mais espalhadas. Os governos não podem ignorar este fato ao pensar políticas públicas para suas comunidades. Já era conhecido este movimento diário entre Campos e Macaé de cerca de 10 mil pessoas. Porém, entre Campos e SJB este deslocamento diário, chamado de movimento pendular, foi paulatinamente crescendo com a implantação do porto e outras realidades e hoje, já é de cerca de 7 a 8 mil pessoas que diariamente vão e voltam nos dois sentidos.

Diante destas realidades há muito a ser conversado, debatido e projetado para que a vida na região, ou no local onde se vive, seja melhor que ontem, e amanhã melhor que hoje. As cidades são o lócus (local) da vida em comunhão, em meio a conflitos e disputas sociais sim, mas de convívio. A redução das desigualdades precisam ser perseguidas nas diferentes escalas, mas será do debate e da ampla participação social nas proposições e ações, bem para além do voto de quatro em quatro anos, é que se construirá ou não, ambientes melhores não apenas para sobreviver, mas viver em comunhão.

SJB Online: O senhor conheceu recentemente áreas portuárias na Europa. Com que objetivo? Como foi a experiência?

Roberto Moraes: No segundo semestre de 2014, eu morei em Barcelona para ampliar a pesquisa ainda em curso, sobre a relação dos portos com a Economia Global. A viagem a trabalho foi parte do chamado “doutorado-sanduíche” junto à Faculdade de Geografia, da Universidade de Barcelona. A partir da região da Catalunha, eu pesquisei os maiores portos da Europa, Roterdã na Holanda, Antuérpia, na Bélgica, além do Porto de Tanger em Marrocos e outros cinco portos espanhóis. Uma experiência e um aprendizado riquíssimos para a compreensão de como os portos, a sua relação com as tradings (que fazem o comércio global controlando fluxos e preços), articulação com o sistema financeiro mundial, manejam, de forma colossal a economia no mundo.

Entender a gênese dos portos, sua tipologia e geração e a sua interligação com as economias nacionais foi se tornando indispensável em minha pesquisa. Passei a compreender que só entendendo esta lógica do sistema, seria possível traçar cenários sobre os impactos e sobre as formas possíveis de se enfrentar esta realidade, estruturada pelo capitalismo global, com repercussão sobre o nosso dia a dia. Muito material foi levantado. Tenho me esforçado para repartir esta compreensão com todos. O blog e minha intensa participação nas redes sociais tem este intuito, em informar de maneira clara e descomplicada, esta complexa realidade, tentando desocultar interpretações, além de estimular um debate mais politizado e menos personalizado que se tem nos embates naturais para a disputa do poder. 

Tenho participado de vários seminários, congressos e mesas redondas sobre estes temas, mas talvez seja no blog, onde eu tenha mais detalhado, comentado e debatido, estas questões. Por isso, muitos que não o acompanham tão assiduamente o blog, nestes quase 12 anos de existência, não entenderam a migração do conteúdo das postagens, de um enfoque majoritário das questões locais para as questões regionais, nacionais e até internacionais. Penso que assim, se pode, junto com outros blogs e sites da região, se complementar melhor a abrangência das informações, reflexões e debates. Eu agradeço o convite para e entrevista de um site que possui abrangência mais local, mas que pretende valorizar a reflexão num âmbito e numa dimensão mais ampla. Junto também peço desculpas pela extensão das respostas, mas atribuo as mesmas às boas e abrangentes perguntas formuladas pela repórter Jaciara Gomes. Sigamos em frente, porque a vida é um processo e não um produto. 

Roberto Mores Pessanha tem 56 anos é engenheiro e atua como professor do IFF desde 1986, onde foi diretor geral do Cefet, no período entre 1994 e 2000. É mestre em engenharia de produção pela Coppe/UFRJ (1992) e atual doutorando pelo PPFH/UERJ. Blogueiro atuante desde agosto de 1994, no espaço virtual (digital) que possui cerca de 3 mil visitas diárias. É ainda autor de organizador dos livros: “Economia e Desenvolvimento no Norte Fluminense – da Cana de Açúcar aos Royalties do Petróleo” (2004) e “Campos dos Goytacazes uma cidade para todos” (2005).

Royalties de fevereiro para municípios fluminenses têm ligeiro aumento em relação a janeiro

Amanhã será depositada pela Agência nacional de Petróleo (ANP) a quota mensal dos royalties referente ao mês de fevereiro que são relativos à produção de dezembro do ano passado. Os dados são da ANP, mas tabulados e enviados ao blog pelo consultor Wellington Abreu, ex-superintendente de Petróleo da PMSJB:















A tabela acima mostra na coluna da direita os valores do depósito de amanhã para as prefeituras. Os reajustes em relação à quota recebida em janeiro variam até 14,1%, mas a maioria, incluindo Campos e Macaé e outros municípios que mais recebem royalties, a correção ficou próximo dos 5%. Apenas Búzios (-0,3%) e Maricá com (-3%) tiveram reduções das quotas mensais dos royalties.

Nestas quotas mensais, a maior receita mais uma vez é do Município de Macaé com R$ 42,8 milhões, seguido de Campos dos Goytacazes com R$ 34,3 milhões, depois Maricá com R$ 33,9 milhões, Niterói com 30,1 milhões.

Nas regiões Norte e baixada Litorânea do ERJ, Rio das Ostras vai receber R$ 10,4 milhões, Cabo Frio, R$ 10,9 milhões, São João da Barra, R% 8,5 milhões, Quissamã, R$ 5,1 milhões, Armação de Búzios, R$ 4,2 milhões, Arraial do Cabo, R$ 3,1 milhões e Carapebus R$ 2,7 milhões. O quadro acima também mostra os valores depositados mês e mês desde fevereiro de 2017.

A previsão para a quota de março, referente à produção e preço do barril no mês de janeiro deste ano, é que possam se dar num patamar um pouco acima desta parcela de fevereiro, fora, paradas de manutenção de plataformas e redução de produtividade de algum campo.

segunda-feira, fevereiro 19, 2018

Produção global de petróleo offshore voltou a ser altamente atrativa. Ela hoje equivale a 25%, enquanto o xisto representa apenas 7%. E o Brasil segue entregando parte de sua joia da coroa


Mesmo diante da enorme expansão da produção do petróleo e gás de xisto (tight oil e shale gas), a atual produção em todo o mundo equivale a apenas 7% do fornecimento global de petróleo que hoje está em torno de 98 milhões de barris por dia.

Enquanto isto, a produção offshore hoje possui mais de 25% (um quarto) da atual produção mundial. Segundo a Agência Internacional de Energia (AIE) e a consultoria Rystad Energy. Em 2015, este percentual da produção offshore no mundo chegou a 29%.

As primeiras explorações de petróleo no mar ocorreram na última década do século XIX, nas costas marítimas da Califórnia na última década do século XIX (1897). Só depois em 1911, a exploração offshore caminhou para o Golfo do México nos EUA e para Lago de Maracaibo na Venezuela. [1] Porém, nestes mesmos locais, foi só entre as décadas de 30 e 50, que a produção de petróleo offshore ganhou estrutura com as empresas Shell, Exxon, Texaco e AGIP.

Produção de petróleo offshore no mundo entre 2005-2015.





















Em 2015, cinco países forneceram 43% da produção total de petróleo offshore: Arábia Saudita, Brasil, México, Noruega e Estados Unidos. A Arábia Saudita produzia 13% de toda a produção mundial offshore, enquanto o Brasil produzia quase 10%. [2]

Para a surpresa de muitos o maior produtor offshore de petróleo no mundo é a Arábia Saudita, embora, em águas rasas no Golfo da Arábia. (Veja mapa abaixo). Em águas profundas, o Brasil é disparado maior produtor mundial.

Mapa campos petróleo da Arábia Saudita [2]
É provável que até 2020, o Brasil com as novas unidades de produção que está para entrar em funcionamento este ano e ano que vem, o país já tenha superado a produção offshore da Arábia Saudita. 

Além destes países, produzem petróleo no ambiente offshore pelo mundo como a como Holanda, Reino Unido, Rússia, China, Angola, Nigéria, África do Sul, entre outros.

No boom de preços do barril de petróleo, entre 2007 a 2014 (em especial de 2010-2014, em quatro anos quando o barril de petróleo esteve, pela primeira vez na história de forma seguida com preço acima de U$ 100), os investimentos nos projetos offshore e de água profunda cresceram, como foi o caso das reservas do pré-sal no Brasil.

Em 2014, ainda na fase de boom dos preços do barril de petróleo, antes da inversão da fase do ciclo petroeconômico, os investimentos globais somente em projetos em ambiente offshore totalizavam US$ 335 bilhões.

Com o aumento do preço médio do barril de petróleo no mundo, a significativa redução de custos das empresas petrolíferas (estatais e privadas) que atuam no ambiente offshore, em 2018, há projetado investimentos globais de US$155 bilhões para ser aplicado em 40 novos projetos já aprovados. Quantidade de projeto que é bem superior aos 29 projetos de 2017 e apenas 14 no fatídico ano de 2016 para o setor.

Segundo vários analistas, a maioria dos novos projetos offshore são de menor porte e custos para uma produção média de 42 mil barris de petróleo por dia. Shell e a Statoil já anunciaram retomadas de projetos offshore, por conta desta nova realidade dos baixos custos obtidos no desenvolvimento dos projetos offshore, incluindo os de água profunda, que fez com que houvesse enorme redução do ponto de equilíbrio (break-even) nos mesmos.

Consultorias do setor respeitadas em todo o mundo como a WoodMac e a Rystad Energy preveem já em 2018, uma “feroz disputa” entre empresas estatais (NOC - National Oil Corporation) e as petroleiras privadas (IOC (International Oil Corporation) por oportunidades na exploração offshore, e de forma especial citam os recursos da reserva do pré-sal no Brasil, onde a economia e a redução dos custos de produção é referência para todo o mundo. [3]

É neste quadro que há que mais uma vez lamentar e repudiar o fato da Petrobras estar entregando a preço vil esta joia da coroa, como já aconteceu com o campo de Carcará no Pré-sal, entregue para a Statoil, entre outros.

A nível mundial hoje já se estima que esta economia de custos nos projetos offshore cada vez concorrem mais com os projetos de xisto dos EUA, a ponta das grandes players petrolíferas privadas considerarem que podem lucrar, hoje, mesmo com o barril de petróleo na faixa dos US$ 60 dólares, quanto elas lucravam até 2014, quando o barril do petróleo estava a US$ 100.

Isto era previsível e comentamos aqui no blog e em nossas pesquisas. Bastava compreender as consequências das duas diferentes fases do ciclo petroeconômico em suas diferentes dimensões.


Referências:
[1] MORAIS, José Mauro. Petróleo em águas profundas Uma história tecnológica da PETROBRAS na exploração e produção offshore. Ipea, 2013. Disponível em:  http://www.ipea.gov.br/agencia/images/stories/PDFs/livros/livros/livro_petrobras_aguas_profundas.pdf

[2] Fonte: Oil & Gas 360. Offshore Oil Accounted For 30% Of Global Output In 2015Publicado pelo portal Oil Price em 26 out. 2016. Disponível em: https://oilprice.com/Energy/Crude-Oil/Offshore-Oil-Accounted-For-30-Of-Global-Output-In-2015.html

[3] PARASKOVA, Tsvetana. Offshore Oil Is Poised For Significant Growth. Fonte: OilPrice,com em 19 Fev. 2018. Disponível em: https://oilprice.com/Energy/Crude-Oil/Offshore-Oil-Is-Poised-For-Significant-Growth.html

domingo, fevereiro 18, 2018

Redução da produção de petróleo não para de cair e agrava quadro da Venezuela

Impressiona muito ver o gráfico que mostra a redução dos níveis de produção de petróleo na Venezuela nos últimos dois anos. De forma especial, no período desde a virada dos anos de 2015 para 2016, quando a produção caiu de cerca de 2,3 milhões de barris por dia (bpd), para cerca de 1,6 milhão de bpd, agora em janeiro de 2018.

Produção de petróleo da Venezuela, período 2005-2018. Fonte: OPEP. 






















A queda da produção de petróleo na Venezuela só do mês de dezembro para janeiro, foi de 98.000 barris por dia e de 273.000 bpd só nos últimos três meses, apesar da recuperação do preço do barril de petróleo no mercado internacional.

Só para efeito de comparação , segundo a ANP, o Brasil produziu em dezembro de 2017, 2,612 milhões de barris por dia de óleo, mais 113 milhões de m³ por dia de gás, totalizando o volume de 3,325 milhões de m³ de barris de óleo equivalente (boe) por dia. Só a produção de óleo e gás do pré-sal que totaliza 1,685 milhões de boepd já é maior que a produção da Venezuela.

Não é difícil entender esta situação, ao observar que a redução da produção de petróleo leva à diminuição das rendas das exportações. Estas por sua vez, precisam cada vez mais serem usadas para sanar as condições básicas da população, o que leva à redução dos investimentos necessários para manter a própria produção de petróleo.

Desta forma a produção de petróleo não para de cair e vai apontando para um grave colapso. Este quadro só terá a sua gravidade reduzida se a China se dispuser a fazer novos aportes (empréstimos), com maiores prazos maiores para que a Venezuela possa sair do quadro mais agudo.

Este processo não é algo simples na medida que a pressão dos EUA cresce sobre o país aumentando os riscos de que os chineses possam não receber este dinheiro de volta. A China já emprestou mais de US$ 20 bilhões à Venezuela tendo como garantia, barris de petróleo. Além da China o Banco Mundial e o BID emprestaram juntos quase outros US$ 20 bilhões à Venezuela. 

O fato da Venezuela, assim como os demais países membros da Opep, terem sofrido da doença holandesa (maldição mineral) e ter ficado extremamente dependente das rendas desta atividade extrativista amplia a gravidade e o atual estrangulamento que começou com variação brusca do ciclo petroeconômico e redução do preço do barril no mercado internacional, a partir do ano de 2015.

O certo é que os interesses sobre o petróleo da Venezuela que possui a maior reserva do mundo são muito grandes e, em termos geopolíticos, estarão sempre acima das preocupações sobre o dia a dia da população deste belo país sul-americano.

PS.: Atualizado às 11:48 e 12:00: Para ligeiros acréscimos no texto original.

sábado, fevereiro 17, 2018

Intervenção mesmo deveria ser contra a venda dos ativos da Petrobras: agora chegou a vez da TAG

Agora chegou a vez da entrega da TAG, a empresa Transportadora de Gás Associado. A TAG é a empresa responsável por uma rede de gasodutos com 4,5 mil quilômetros nas regiões Norte e Nordeste, o principal ativo à venda pela Petrobras neste momento no Brasil.

No ano passado a Petrobras já entregou a rede de gasodutos do Sudeste, da empresa NTS (Nova Transportadora do Sudeste). Ela foi entregue para controle do fundo financeiro canadense Brookfield, que pagou apenas US$ 5,2 bilhões por uma malha de 2,5 mil quilômetros de gasodutos que interliga os campos de petróleo das maiores bacias, inclusive o pré-sal, à maior região consumidora de gás do país.

Depois da venda, a Petrobras passou a pagar tarifas por este rede que é um monopólio. Porque, simplesmente, não há como escoar o gás do pré-sal sem esta rede. Portanto, uma renda de monopólio entregue por uma empresa estatal para um fundo financeiro estrangeiro a preço vil.

Em seis meses a Petrobras pagou de tarifa (segundo seus balanços) o equivalente a um terço do valor recebido pela venda desta colossal infraestrutura. 

Ou seja, em um ano e meio a estatal terá pago em tarifas tudo o que recebeu pela venda de toda a infraestrutura, tendo ainda assumido pelo "acordo", o compromisso pela operação e manutenção de todo o sistema. Absurdo. Inacreditável! 
Mapa da malha de gasodutos da TAG.

Os consórcios liderados pelo Macquarie Group, da Austrália, o Engie, da França, e o fundo soberano dos Emirados Árabes, Mubadala Development que tem participação acionária na Prumo, controladora do Porto do Açu estão preparando as suas ofertas agora para a rede de gás da TAG.

Além destes consórcios os fundos de pensão Canada Pension Plan Investment Board (CPP IB) e o fundo soberano de Cingapura GIC, junto com o banco Itaú, também podem participar segundo aqueles que acompanham os “esquemas” do Parente e da diretoria da Petrobras. 

Diz-se no mercado que o valor do ativo da TAG que os consórcios estão buscando financiamento junto aos bancos poderia chegar a US$ 7 bilhões, um preço baixo pela enorme renda de monopólio que ela oferece.

Vale registrar que o gás natural é um dos grandes potenciais das reservas dos campos do pré-sal. Não há como escoar esta enorme produção em vias de se efetivar, sem esta infraestrutura dos gasodutos que também serve para distribuir o gás natural pelas diversas regiões do país.

Assim, mais uma vez, se diz que não se trata de uma parceria-público-privada (uma PPP) para fazer uma infraestrutura nova para o país. Mas, simplesmente, uma entrega de uma enorme rede de gasodutos. Pronta e a preço muito barato, considerando as diversas circunstâncias, para explorar uma renda de monopólio, pois os produtores de gás em terra e, especialmente no litoral, não têm outra forma de escoar o gás produzido que não seja por esta colossal rede.

Um roubo, assalto, ou o que valha. Um apropriação deste tipo necessitaria sim de uma verdadeira intervenção a favor da nação. Porém, mais uma vez, se sabe que isto não vem ao caso. É um negócio de mercado, aquela mesmo que controla o poder político, a mídia e o silente judiciário.


PS.: Mais detalhes sobre o o assunto veja postem deste blog em 3 dez. 2017: "Outro fundo financeiro (Blackstone) deve levar a rede de gasodutos da Petrobras no Nordeste, em mais um escárnio!". Disponível em: http://www.robertomoraes.com.br/2017/12/outro-fundo-financeiro-blackstone-deve.html 

sexta-feira, fevereiro 16, 2018

O golpe segue o jogo seja no estilo soft-power, ou hard-power, com a permanência sem eleições

Vou reproduzir abaixo postagem que fiz no meu perfil do Facebook em duuas etapas. Por isso esta postagem terá duas partes:

1ª Parte:

Pode-se dizer o que quiserem, mas vou insistir no que comentei ontem, aqui no FB, ao ligar a desistência do Huck à decisão de intervenção no ERJ.

É uma decisão política que tem por trás Moreira Franco e Eliseu Padilha. Assim, o "vampiro" suga também o Maia. 

Além disso e mais importante na estratégia, entra no campo de Bolsonaro e projeta uma permanência do vampiro no cargo, com ou sem eleição.

Em situações como esta, o pragmatismo que levou ao golpe também negocia saídas do tipo, a menos pior.

O caminho decidido no mesmo dia do carnaval que o expôs já tem o aval do mercado financeiro e da mídia corporativa-mor (globo) que nos últimos dez dias, não fez outra coisa que não fosse criar as condições para esta decisão.

É uma jogada arriscada, mas ela não pode ser vista de forma isolada. É preciso ver todo o contexto em que a mesma se situa.

O que tem de menos importante nela é a segurança das pessoas. 

Sim, sei que é quase impossível que alguém aceite este argumento quando for manipulado mentalmente vendo os carros blindados do exército nas ruas, se esquecendo até que há meses as forças armadas já estavam no Rio em atuação com o governo estadual.

O que há é uma trama política que segue o script do golpe que segue fazendo água.

A economia ao contrário do prometido não melhora. A segurança pública só piora. O desemprego já grande segue se ampliando.

O povo precisa sim de segurança. Todos precisamos mas...

Com ou sem batida de panela, diante deste quadro até vampiro vai parecer solução.

Quem diria greta garbo acabou sugada pelo vampiro.

Porém, não há como não lembrar Garrincha: "será que combinaram com os adversários?".


2ª Parte:

Não nos iludamos. Aquela fala de Pezão em sua casa em Piraí dizendo para a Globo e o país que errou no planejamento de segurança foi parte deste processo atual. Era isso ou intervenção total.
Assim, o Pezão sem base, sem nada, entregou com prazer o abacaxi da segurança pública para quem tem projeto de poder maior e sabe que o Bolsomin ocupa uma forte base de opinião neste campo em disputa. 

Quem controla o processo joga com o prosseguimento do golpe no estilo soft-power ou, se necessário troca para o "hard-power". 

O enredo do golpe é online e com dois ombros apoiados. Um na mídia e outro no Judiciário. Estes dois precisam ser convencidos dos passos, mas podem aceitar a mudança da linha do golpe soft-power para o hard-power.

Há disputas no interior do golpe, mas o comando não se incomoda de jogar alguns, que estavam alvoroçados depois da condenação do Lula no TRF--4 achando que poderia ter chegado a sua hora, pelas janelas.

Em 64 também foi assim, a disputa na base golpista nunca foi e nunca será um acordo de cavaleiros.

quinta-feira, fevereiro 15, 2018

Opep e AIE também disputam a produção e interpretação de dados e indicadores que orientam o mercado de petróleo no mundo

Mensalmente, as duas agências, uma que é do consórcio dos países exportadores que existe desde o primeiro choque do petróleo na década de 70. E a outra, a AIE (Agência Internacional de Energia) que é americana. As duas disputam hoje, a maior credibilidade dos dados, indicadores e, especialmente, de suas previsões e estimativas.

Isto se ampliou agora. Antes, lá atrás, a Opep, que hoje produz cerca de um terço de toda produção mundial de petróleo, definia o mercado. Hoje não mais.

Os EUA como maior consumidor (disparado do mundo) e hoje, o segundo maior importador (até pouco tempo primeiro que hoje é a China), e atualmente, ainda um dos três maiores produtores, com as reservas de xisto e a velocidade que estas oferecem em termos de exploração e produção, regulam o mercado, tanto quanto a Opep.

Na verdade, hoje um controla o outro, em termos de mercado de petróleo e em termos de estratégias.


O fato da Rússia ter se aliado à Opep e estar mais próxima da China, hoje a maior importadora mundial e o segunda nação que mais consome petróleo do mundo, criou uma polarização que, naturalmente, também aparece na disputa sobre a confiabilidade dos dados do consórcio da Opep e da americana AIE.

Entre estas duas agências ligadas aos produtores, estão os departamentos de estudos dos grandes bancos que atuam no setor de petróleo e também as grandes consultorias, que hoje são corporações.

Os bancos e as consultorias trabalham de forma articulada. Assim, atuam tanto para financiar a exploração e a produção através das players petroleiras, quanto na infraestrutura e indústria do setor, onde atuam as para-petroleiras. Além disso, também fornecem dados para a atuação das grandes traders que atuam no comércio tanto do petróleo cru, quanto dos derivados, mundo afora.

Ainda ligados aos bancos estão os grandes fundos financeiros que definem as escolhas das frações e setores econômicos, onde o capital deve investir no curto prazo (com movimentos especulativos) no longo prazo, com investimentos em capital fixo no território, para a instalação das infraestruturas, plataformas, sondas, oleodutos e gasodutos e indústria de beneficiamento para produção dos derivados.


A disputa não apenas pela produção e controle do mercado, mas pelas estratégias que estão vinculadas às informações sobre projetos, produção e ao mercado de petróleo

É preciso compreender esta disputa para melhor analisar os movimentos desta fração do capital que investe em petróleo e em sua indústria mundo afora e também no Brasil. Os dados soltos, sem as fontes e sem a interligação com outros dados e indicadores, não permitem que se possa avançar na compreensão mais aprofundada, sobre os movimentos e as intenções dos agentes que atuam no setor petróleo, seja como produtor, prestador de serviço, indústria, comercializador e/ou consumidor.

Por exemplo, antes do baque na bolsa de Nova York (NY), a leitura que se fazia é que o aumento da demanda mundial de petróleo, que poderia chegar ainda em 2018 a 100 milhões de barris por dia é que, basicamente, vinha permitindo que o preço do barril de petróleo saísse do patamar de U$ 60 para US$ 70. E esteja hoje na faixa dos US$ 64. (No dia 14 fev. esteve a US$ 62)

Tanto a Opep quanto a AIE corrigiram a previsão de crescimento da demanda de petróleo no mundo que em 2017 foi de 97,0 milhões de barris por dia. Para a Opep, em 2018, haverá um crescimento de 1,59 milhão de barris por dia, enquanto para a AIE neste ano, o crescimento deverá ser de 1,4 milhão de barris por dia. É um diferença pequena, mas equivalente a 200 mil barris por dia.

Assim, para a Opep, o ano de 2018 deverá fechar com o um consumo de 98,6 milhões de barris por dia, enquanto para a AIE este volume deverá alcançar 98,4 milhões de barris por dia. Desta forma, para ambos, logo no início de 2019, o mundo deverá estar consumindo o volume simbólico de 100 milhões de barris por dia.

A avaliação muito próxima quase que se restringe a este cenário sobre o consumo mundial, que é bom que se relembre, são mensalmente revisados. Daí em diante há uma disputa maior. A Opep com dados do potencial de produção de seus filiados. Atualmente a Opep está produzindo em torno de 32 milhões de barris por dia.

Enquanto isto, os EUA com as suas possibilidades definidas pelos projetos nos depósitos de xisto já estão prestes a ultrapassar a produção, mesmo que por pouco, do volume extraído pela Arábia Saudita e Rússia. Veja ao lado gráfico da produção de petróleo americana no período entre 1970-2017

Desta forma, a disputa EUA e OPEP também na produção de indicadores e estratégias ganha força. Ambas agências, também analisam os movimentos dos produtores chamados não Opep (e não EUA) como a Rússia, Brasil, Canadá e México.


Potencial de crescimento da capacidade de produção dos membros da Opep
A Opep vem conseguindo (desde 2016/2017) internamente (e externamente com a Rússia) manter o corte de produção e fornecimento de 1,8 milhão de barris de petróleo por dia ao mercado. Assim, é previsível que não será fácil para a Opep manter esta decisão, diante das estimativas de que alguns de seus países membros deverão ampliar suas capacidades de produção ao longo de 2018.

Os casos mais claros, segundo a própria Opep seriam: do Kuwait que deve adicionar cerca de 225.000 bpd de capacidade até o final de março; do Irã adicionando outros 100 mil 000 bpd; e do Emirados Árabes Unidos (EAU) também adicionarão cerca de 500 mil bpd no final de 2018.

A soma do aumento da capacidade dos três totaliza 825 mil bpd, sem levar em conta a produção do Iraque que deve atingir a produção total de 5 milhões de barris por dia até o final de 2018, com uma ampliação de sua produção em quase 500 mil barris por dia.

Ou seja, a Opep seguirá com capacidade de produção ampliada em 2018, o que levará a maiores discussões sobre a manutenção dos cortes de fornecimento ao mercado, para evitar novas quedas dos preços do barril no mercando mundial.

O baque do mercado de ações americano na bolsa de Nova York, no início de fevereiro, imediatamente se refletiu na decisão dos investidores não apenas de ações, mas dos fundos, como o do tipo EDGE, muito ligado ao setor de petróleo, que vinha subindo junto dos preços do barril, baseado, fundamentalmente, no crescimento da demanda mundial. Estes investimentos ajudaram rapidamente a crescer a produção nos EUA.
Número de sondas de exploração de petróleo contratada nos EUA 

Vale lembrar que também interfere no mercado do petróleo outras variáveis, para além simplesmente do volume de produção e consumo. Assim, são os casos das informações sobre estoques e vendas de óleo cru, consumo de derivados, número de sondas em funcionamento nos EUA (gráfico ao lado) e em outras partes, além das reservas e potencial de campos de petróleo e também do volume de investimentos em áreas e campos de petróleo. O movimento destes indicadores são sempre sujeitos e contrainformações e interesses especulativos. Atrás de dados confiáveis estão a Opep e a AIE que também produzem contrainformações para interferir no mercado, o que gera uma permanente tensão.

O consumo geral por sua vez tem relação com o ciclo da economia como um todo. Se já não bastassem tudo isto, por onde se movimentam as corporações e os fundos financeiros, há ainda os interesses geopolíticos das nações que buscam controles e domínios regionais e hegemonia central.


E aí? Em meio à AIE e Opep como ficam as previsões?
Para ser sincero existem análises e previsões para todos os gostos e interesses. Muitas especulações como é comum ao mercado e aos interesses que reforçam o esquema oligopólico que sufoca as corporações menores que atuam sem o apoio e a força dos estados nacionais.

Neste quadro complexo, analistas que merecem algum crédito têm avaliado que o petróleo tende seguir estabilizado por mais algum tempo. Consideram ainda que parece improvável que um novo repique, volte a levar o preço do barril para acima de US$ 70/US$ 75, antes pelo menos de 2020.

Isto se daria, por conta da auto regulação entre a produção do xisto americano e do aumento da capacidade de produção de óleo da Opep e seus aliados. Porque juntos seriam superiores ao aumento da demanda mundial que tem previsão de atingir 100 milhões de bpd, no início de 2019, como afirmado acima.

Os EUA também ampliam sua suas exportações tanto de óleo quanto de gás natural. Assim tem fechado contratos de longo prazo (15 anos) de fornecimento de GNL para a China. Como exemplo o acordo entre Cheniere Energy dos Estados Unidos no estado da Lousiania e a China National Petroleum Corp. (CNPC) para venda de LNG (Gás Liquefeito de Petróleo) para uso na China.

Enfim, o mercado de petróleo no mundo poderá seguir um dilema. Os preços mais limitados, em torno de US$ 60 dólares, evita um maior crescimento da produção de energias não convencionais. 
Este preço “limitado” faz com que exista, num prazo de até 5 anos, menos exploração e busca de novas áreas produtoras.

O que por outro lado tende a esgotar mais rapidamente as reservas existentes. O que deverá pressionar o preço do barril de petróleo, em nova fase de um outro ciclo petroeconômico, mais próximo à metade da próxima década.

Neste meio tempo, o mundo seguirá lubrificado pelo petróleo e tende a ampliar os riscos de preços mais altos num prazo após meia década. Fora, os riscos dos conflitos regionais que vez por outra ameaça a maior região produtora de petróleo do mundo. Tensões e conflitos no Oriente Médio  poderão alterar estas análises e previsões, tanto por parte da Opep, quanto da AIE, ambos pressionadas por fortes interesses geopolíticos.

A conferir!

PS.: Atualizado às 18:08: Para pequenas correções e ajustes no texto original.

quarta-feira, fevereiro 14, 2018

Lançamento de livro: O ponto de ruptura - Reestruturação espacial na região metropolitana do Rio de Janeiro

O blog reforça o convite para o lançamento do livro do geógrafo, professor e pesquisador do IFF,
Oséias Silva "O ponto de ruptura: reestruturação espacial na região metropolitana do Rio de Janeiro".

O livro é fruto da pesquisa de doutoramento do Oséias e foi desenvolvida junto ao Departamento de Geografia da USP, sobre a orientação da professora Sandra Lencioni:


terça-feira, fevereiro 13, 2018

A plutocracia escancarada

A plutocracia escancarada onde o TSE através de resolução tenta legislar acima do Congresso a favor do poder econômico.  

Assim, a distância entre o poder e o cidadão não para de crescer sob o controle do deus Mercado. 

Numa eleição que a tecnologia terá papel destacado com o uso do caro big-data e dos robôs atuando criando opinião e posição política nas redes sociais como se fossem eleitores. No estilo do que foi feito pro Macron na França. 

Robôs e tecnologias que serão bancados pelas corporações sem que o TSE sequer vai tomar conhecimento. Eles já estão atuando fortemente no esforço da direita construir o sonhado candidato de "centro". O TSE não vai ver, porque não vem ao caso. Como se sabe.

Desta forma, caminhamos a sérios passos para a pós-democracia. 

Porém, os limites do sistema estão sendo engraçados. A resistência seguirá surgindo na cultura, nas ruas e até no Paraíso de Tuiuti e em outros lugares de nosso país.

domingo, fevereiro 11, 2018

"Financeirização e desintegração vertical da Petrobrás: quem ganha com isso?" por Eduardo Costa Pinto

A desintegração da Petrobras como empresa que atuava do poço ao posto é uma decisão criminosa, considerando os pressupostos (inclusive de mercado), como o blog vem há tempo insistindo aqui em várias postagens. O texto abaixo é do professor do Instituto de Economia (IE) da UFRJ e foi publicado originalmente no portal GGN.

O artigo faz ainda uma breve análise das decisões financeiras que enfraquecem ainda mais a estatal, mesmo num período que já acena para uma nova fase de expansão de um novo ciclo petroeconômico. Vale conferir!


Financeirização e desintegração vertical da Petrobrás: quem ganha com isso?

A Petrobrás, desde a sua criação no governo de Getúlio até a descoberta do pré-sal durante o governo Lula, sempre esteve no centro da política desenvolvimento do setor de petróleo e gás brasileiro, bem como do próprio projeto de desenvolvimento nacional.

A centralidade da Petrobrás foi e é fruto de sua capacidade de coordenar e induzir o setor em virtude de sua: constituição histórica, escala produtiva (verticalização – do poço ao poste), capacidade de acumulação de capital e de desenvolver tecnologia.

Essas capacidades são o reflexo da dupla função (duas faces) que a Petrobrás exerce como setor produtivo estatal. Por um lado, uma “face estatal – orientada para a realização de objetivos políticos [projeto nacional] e de ordem macroeconômico [inflação, balança comercial, etc.]” e, por outro, uma “face empresarial – orientada para a realização de objetivos de natureza estritamente microeconômica [acumulação de capital, endividamento, fluxo de caixa, etc.]”¹.

Cabe observar que essas duas faces estão sempre em tensão latente em virtude das dificuldades de conciliação entre os interesses estatal/público – já que proprietário majoritário dessa empresa é o Estado que representa os interesses da população brasileira – e empresarial/privado dessa empresa que necessita acumular capital para desenvolver seus projetos e investimentos. Apesar das dificuldades é sim possível integrar os ganhos empresariais com os benefícios sociais e as estratégias nacionais, ainda mais no setor de exploração e produção de petróleo que é caracterizado pela elevada geração de excedente econômico ainda mais com a descoberta do pré-sal em que a Petrobrás possui elevada expertise exploratória.

No entanto, a atual gestão da Petrobrás tem buscado desarticular essa dupla face da empresa por meio da redução a sua capacidade de atuação em diversos mercados com a venda de ativos (que tem provocado a redução do seu market share no mercado de derivados e na distribuição) para focar na exploração e produção de Petróleo. A questão que está posta é: a redução da face estatal não implicou em ganhos na face empresarial da empresa. Por que isso está acontecendo? Quem está ganhando com essa estratégia da empresa?

A estratégia atual da Petrobrás de concentrar de suas atividades na área de produção e exploração em detrimento do refino (fragmentação e desintegração vertical), aumenta a exposição da empresa a variáveis que ela não controla, como câmbio e preço do petróleo, e reduz suas margens no segmento do refino aumento seus custos e riscos em virtude das características especificas desse setor. Abrindo assim espaço para novos entrantes internacionais, inclusive na exploração do pré-sal.

Daniel Yergin, em seu livro clássico O Petróleo: uma história de ganância, dinheiro e poder, nos mostrou que a história do Petróleo é a trajetória da configuração da formação dos grandes conglomerados empresariais (Standard Oil fundada pela família Rockefeller que tem a ExxonMobil como principal herdeira, Shell, etc.) que para atuar nesse segmento precisaram realizar o processo de integração vertical. As grandes empresas desse segmento continuam adotando essa estratégia.

Não é por acaso que a atual estratégia da gestão da Petrobrás não tem gerado os lucros esperados². Na verdade, isso reflete uma terceira face da empresa que entra em choque com as duas últimas apresentadas. É a face da financeirização que não apresenta apenas uma dimensão macroeconômica, pois tem também uma forma microeconômica.

Os segmentos financeiros impõem sua capacidade de influenciar a Petrobrás tanto de fora para dentro como de dentro para fora em virtude dos espaços decisórios da empresa ocupados por indivíduos com laços pregressos com as finanças.

Isso fica expresso no desembolso de cerca de R$ 145 bilhões, entre o 4º trimestre de 2016 e o 3º trimestre de 2017, com pagamento de juros e do principal da dívida da Petrobrás. Desse total, cerca de R$ 75 bilhões foi para pagamento de banco públicos nacionais e o restante (R$ 70 bilhões) para instituições financeiras internacionais.

Além desse desembolso, a Petrobrás vem adotando recentemente (no último trimestre de 2017) a estratégia de adiantar o pagamento de dívidas junto aos seus credores emitindo novos títulos com prazo mais alongado e com certa redução do custo médio das dívidas. Dentre esses pagamentos recentes, cabe destacar os destinados aos bancos chineses (US$ 4 bilhões) e ao banco de investimento norte-americano JPMorgan Chase & Co. (US$ 2,5 bilhões). Este último havia recomendado, em fevereiro de 2017 (segundo matéria do Valor Econômico), a retomada das compras das ações da Petrobrás em virtude da alta dos preços do petróleo e da política de desinvestimentos.

É preciso observar a possibilidade de existência de interesses cruzados entre os bancos internacionais credores da Petrobrás e as grandes petroleiras internacionais concorrentes da mesma. JPMorgan Chase & Co. e a ExxonMobil podem ser um exemplo disso, uma vez que essas duas empresas têm as mesmas três instituições (Vanguard Group, Inc., Blackrock Inc., State Street Corporation) como seus principais acionistas que detém cerca de 18% de suas ações. No caso da China, há uma articulação explícita e coordenada pelo Estado entre as estratégias financeiras de seus bancos e a busca pela obtenção de reservas e produção de petróleo por parte de suas petroleiras. Esse tipo de articulação explícita, no exemplo da China, e implícita, no caso dos Estados Unidos, aumenta a pressão externa tanto para a financeirização da Petrobrás como para a redução de sua atuação na exploração do pré-sal e nas áreas de refino e distribuição.

Essa estratégia reduzirá o pagamento de juros, mas mantém o processo de financeirização da empresa com a nova emissão de novos títulos (e todos seus efeitos dos riscos cambiais, etc.) e com a busca pela meta de desalavancagem prevista em seu Plano de Negócios e Gestão 2017-2021 (relação dívida líquida/LTM EBITDA de 2,5 em 2018) que implica necessariamente numa política de desinvestimento e de desintegração vertical. Com isso, a pressão externa é reforçada (e vice-versa) pelo atual PNG 2017-2021 da Petrobrás.

Como a elevação recente do preço do petróleo e com as variações positivas na taxa de câmbio, os desafios financeiros de curto prazo da Petrobrás estão sendo revertidos. Isso permitiria agora a Petrobrás, associado com os possíveis ganhos vindouros da exploração do pré-sal, configurar uma estratégia que articulasse as suas faces estatal e empresarial. No entanto, não há sinais que isso possa acontecer na atual gestão mantendo uma estratégia que não resulta nem em ganhos privados (caso esses ocorram dependem fortemente da mudança do preço do petróleo) nem sociais.

Quem está ganhando com a atual estratégia (financeirização e desintegração vertical) são, por um lado, os segmentos financeiros nacionais e, sobretudo, os internacionais; e, por outro, as grandes empresas petrolíferas integradas (Shell, BP, ExxonMobil, Total, CNOOC, CNODC, etc.) com a exploração do pré-sal e a abertura de novos mercados no refino/importações de derivados e da distribuição coma redução do papel da Petrobrás.

Quem perde, com isso, é a própria Petrobrás que reduz sua capacidade de acumular em termo empresariais em decorrência de sua desintegração vertical. Alveal 1994, p. 89) deixa isso muito claro ao afirmar que: “Razões de ordem econômica mais do que técnica exigem a integração vertical para realizar o elevado potencial de acumulação da indústria petrolífera, dado os riscos e custos financeiros associados a cada segmento da cadeia produtiva são diferentes”. Não é por acaso que a atual política de preços da empresa (atrelado ao mercado internacional) não aumentou as suas receitas, mas implicou em maiores custos para a sociedade com o aumento dos preços dos combustíveis e do botijão de gás, num contexto em que a nossa produção de petróleo bate recordes. Como explicar isso para a população!

Perde ainda a sociedade quando a Petrobrás deixa de exercer a sua face estatal reduzindo a capacidade de estimular a geração de renda, emprego e desenvolvimento tecnológico, aumento assim os seus custos sociais.

O pré-sal que poderia ser uma benção, mas está se tornando uma maldição para o Brasil em virtude da atual estratégia da Petrobrás e dos segmentos governamentais responsáveis pelo setor de petróleo e gás que estão muito mais preocupados com interesses das grandes petroleiras (mudança dos índices de conteúdo local e subsídios tributários) do que com os interesses nacionais.
 

Eduardo Costa Pinto - Professor do Instituto de Economia da UFRJ e integrante do Grupo de Estudos Estratégicos e Propostas (GEEP) da Fundação Única do Petroleiros (FUP). E-mail: eduardo.pinto@ie.ufrj.br

Notas:
¹ ALVEAL, Carmem. Os desbravadores: a Petrobrás e a construção do Brasil. Rio de Janeiro: ANPOCS, 1994 (p. 43)
² Ver PINTO, E. & PEREIRA, C. Petrobras: uma análise dos resultados do 3º trimestre e a estratégia da empresa