quarta-feira, junho 26, 2019

A abertura (entrega) descarada do setor de gás no Brasil é um novo crime de lesa-pátria

A gente até cansa de ficar repetindo a mesma questão.

Essa história de que se deve entregar todos os investimentos nacionais em gás natural no Brasil, para as empresas estrangeiras para que esse insumo de energia estratégico fique mais barato é conto da carochinha. 

Entregaram o setor elétrico com as concessões elétricas para reduzir as tarifas de energia. E o que temos?

Entregaram o setor de água e esgotos para as concessionárias e o que aconteceu?

Entregaram o setor de telecomunicações e temos hoje uma das mais caras tarifas de telefonia e internet do mundo.

E o pior é que, em alguns casos, como a eletricidade, saneamento, gás, entre outros, você não tem mais de um fornecedor. Assim, se está falando de renda de monopólio que você entrega ao controle de uma grande corporação nacional ou estrangeira. Tira do monopólio estatal e nacional para entregar ao monopólio de grupos privados globais.

É só ver o nome e atuação destas corporações e dos seus grupos controladores para confirmar isso que já venho pesquisando há pelo menos seis anos de forma intensa.

Nem se trata de impedir a participação de empresas privadas no setor. 

Elas poderiam entrar para fazer o que não hoje não existe, ocupando espaços no mercado que eles tanto veneram.

Mas, elas não querem. 

As corporações e os fundos estrangeiros batem o pé e dizem que só entram se tiverem controle de todo o setor, acima até de quem de quem tem esse papel que é o governo com seu poder de regulação,para que a disputa se dê em bases concorrenciais. 

As corporações que controlam o setor de gás natural a nível global querem garantia de tarifas altas, rentabilidades colossais e baixa regulação, apenas das "mãos e bolsos invisíveis do mercado".
No caso do gás natural é uma aberração.

Em vários países do capitalismo central as gestões públicas estão retomando o controle de alguns destes setores que são por sua natureza monopolísticos. Porque não cabe deixar esse monopólio a favor dos lucros privados contra toda a coletividade.

Mas o caso atual do Brasil é único tamanha a velocidade e a forma descontrolada com que entregam tudo. 

Parece haver uma competição surreal entre as instituições do governo e estatais para saber quem é mais entreguista: o Cade (Ministério da Fazenda), Ministério das Minas e Energia (MME), ANP, CNPE, Petrobras, etc.

E o pior para entregar tudo o que temos e que foi construído e implantado por nossas empresas estatais e pelo governo, como são os casos dos gasodutos, unidades de processamento de gás natural, etc. 

Etapas do processo de liquefação do Gás - LNG 
As redes de distribuição até as concessionárias já foram concedidas às empresas privadas, em quase todo o país.

E o pior, o Cade (Conselho Administrativo de Defesa Econômica, -sic, defesa de quem?) está agora e ainda mais proibindo que a Petrobras participe dessa etapa da cadeia desde o poço onde o gás é extraído.

Isso mesmo, no liberalismo deles, a garantia é dada às suas empresas. 

Assim, já entregaram quase 10 mil quilômetros de gasodutos. No caso da malha de 2,5 mil km da região Sudeste, a primeira parte entregue, em apenas 18 meses, a Petrobras pagou em dezoito meses de tarifas, tudo o que ainda vai receber (porque a venda foi à prazo) pelo gasoduto que construiu e ainda opera para os novos donos. E esses valores pagos como tarifas podem ser conferidos no relatório anual de prestação de contas da Petrobras. 

Sim, é difícil de acreditar, mas é real. 

Agora estão decidindo dentro do chamado novo "marco legal do gás" no Brasil - todo escrito e desenhado pelas corporações e fundos financeiros estrangeiros que atuam no Brasil - que as unidades de processamento de gás natural em funcionamento também devem ser entregues a essas empresas. 

Repito: ficando a Petrobras proibida de atuar no setor.

E dizem para você que tudo isso produzirá, daqui a quatro (4) anos - quando você não mais se lembra disso, como não se lembra das promessas de tarifas baixas de luz, água, telefone - uma redução das atuais tarifas .

Aí lá em 2023/2024, eles vão dizer e pagar a mídia para te convencer que isso de fato aconteceu, só que a correção da inflação é que elevou as tarifas.

E vou voltar a lembrar a atual diretoria da Petrobras está concordando que ela tem que ficar fora desse setor de gás natural que é estratégico, como combustível de transição, e que foi encontrado em colossais volumes no Pré-sal, também descoberto pela estatal e cujas áreas também estão sendo entregues para corporações petroleiras estrangeiras.

Em termos de bilhões de dólares, esse crime de lesa-pátria com entrega das joias da coroa, já é pelo menos, umas dez vezes maior do que os desvios feitos por larápios na Petrobras.

Repito o gás natural passou a ser nos últimos anos estratégico como combustível de transição para uma matriz mais limpa e que ganhou enorme mobilidade, depois que o processo de liquefação para transporte em navios gaseiros se tornou - mesmo que ainda cara - mais viável, podendo a sua logística de transporte prescindir dos gasodutos. 
Veja aqui artigo que publicamos no blog há 3 anos (em 11 de julho de 2016) com o tútulo "A ampliação do poder estratégico e geopolítico do Gás Natural (GNL) na matriz energética mundial".
 
Por tudo isso afirmo que é preciso expulsar e punir severamente estes vendilhões da Nação que necessita ser reconstruída para os brasileiros.

segunda-feira, junho 24, 2019

Recordes mundiais de consumo e produção de petróleo em 2018 reforçam o seu peso sobre a geopolítica

No início deste mês a BP publicou a 68ª edição a revisão estatística de 2019 sobre a energia mundial. (Statistical Review of World Energy).[1] No que diz respeito à área de petróleo e gás além dos dados e indicadores mais expressivos fazemos análises e comentários sobre evolução dos mesmos ao longo do tempo, assim como a relação com os interesses das nações e a geopolítica.

É ainda importante ainda dizer que há diferenças de tabulações entre os dados estatísticos da BP e da AIE (Agencia Internacional de Energia) que se referem à métodos de apuração e contabilização, em especial no que diz respeito às estatísticas de volume de gás, computados como m³ ou em barris de óleo equivalente que se soma aos de petróleo.

As análises sobre esses dados e indicadores relativos à produção, consumo e as reservas de petróleo, são fundamentais para uma interpretação sobre a geopolítica do petróleo (energia), como parte dos debates tanto sobre esta potente cadeia global de valor dessa fração do capital, assim como relativos à soberania, à hegemonia das nações e ainda sobre a geopolítica de uma forma ampliada.


Consumo mundial de petróleo
O relatório Statistical Review of World Energy 2019, indicou que em 2018, o mundo estabeleceu um novo recorde de consumo de petróleo de 99,8 milhões de barris por dia. É o nono ano consecutivo em que a demanda global por petróleo aumentou. A demanda por petróleo em 2018 cresceu 1,5%, acima da média de 1,2%. 

Em 2018, mais uma vez se confirmou os EUA como o maior consumidor (disparado) e também o maior produtor do mundo como será visto diante. O consumo médio de petróleo dos EUA em 2018 foi de 20,5 milhões de barris por dia (mibpd). Em 2º lugar está a China com 13,5 mibpd e em 3º lugar a Índia com 5,2 mibpd. Em 4º lugar a Arábia Saudita com 3,7 mibpd, Japão está em 5º lugar com 3,9 mibpd e a Rússia em 6º no ranking com 3,2 mibpd.

O Brasil é o sétimo maior mercado consumidor de petróleo do mundo com 3,1 mibpd, bem próximo da Rússia. Fato que também explica o interesse das petroleiras estrangeiras sobre o Brasil, mostrando que ele vai bem além do acesso às reservas do pré-sal, mas visam também chegar ao refino, às redes de distribuição e ao consumo de derivados e combustíveis.

Abaixo publicamos os dados das doze nações que mais consumiram petróleo no mundo em 2018. Para melhor visualização de como esse consumo foi relativamente pouco alterado ao longo desse período, o quadro também traz uma série histórica dos consumos dos anos de 2015, 2016 e 2017. É oportuno lembrar que esse foi o período em que houve uma grande variação nos preços do barril de petróleo no mercado internacional e mesmo assim diante dessas oscilações, praticamente, não aconteceram alterações no ranking das nações que mais consumiram petróleo na última década.



Os dados mostram ainda que o aumento geral de consumo de petróleo no mundo de 1,5%, se deve basicamente ao crescimento da demanda dos três maiores consumidores (EUA, China e Índia). Aliás, a China e a Índia tiveram uma média de crescimento do consumo de petróleo de pelo menos 5% ao ano na última década.

A região da Ásia-Pacífico tem sido o mercado de petróleo que mais cresceu na última década no mundo: crescimento médio anual de 2,7%, depois a África e o Oriente Médio. No longo prazos a China e a Índia, pela suas densidades populacionais, devem seguir como as maiores demandas de petróleo no mundo. Isso também deverá manter o movimento, já em curso de instalação de mais refinarias na Ásia (China e Índia) e também Oriente Médio.

Infográfico O Globo em 21 jun. 2019.
Matéria: "Irã derruba drone americano no golfo Pérsico".
Vale também registrar o apetite americano por petróleo que é mais de 50% superior ao da China, segundo maior consumidor mundial. Já comentamos aqui algumas vezes sobre o documentário "Pump" (bomba em inglês) do diretor Tickell [2] sobre esse vício americano e como ele foi se constituindo historicamente a partir do acordo dos Rockfellers e Ford na década de 20.

Além disso, esses dados também reforçam a explicação sobre como o capitalismo foi sendo lubrificado pelo petróleo; a hegemonia e o "império" estadunidense foram se ampliando, e desta forma, aumentando a relação com a geopolítica, quando o país hegemônico, visa ter controle sobre os demais, especialmente, sobre aqueles que possuem as maiores reservas.

Não por outro motivo, os EUA possuem hoje 30 mil militares no Oriente Médio. Veja ao lado, no infográfico publicado em O Globo, em 21/06/2019, os dados numéricos e espaciais que buscavam explicar as consequências do conflito dos EUA com o Irã naquela região rica em petróleo e gás [3].

Os EUA querem não apenas se suprir da mercadoria que mais necessita (o petróleo, a mercadoria lícita mais comercializada no mundo), como também ter segurança energética para o futuro, e por isso agem geopoliticamente, para controlar antigas reservas (Oriente Médio) e novas reservas (Pré-sal brasileiro).




Produção mundial de petróleo 
O Statistical Review da BP (WE 2019) também chamou a atenção para o novo recorde mundial de produção de petróleo em 2018, que atingiu o volume de 94,7 milhões de barris de petróleo por dia (bpd), um aumento de 2,22 milhões de barris por dia em relação ao ano anterior.

Nos dados sobre produção de petróleo da BP - WE 2019 estão incluídos petróleo bruto, óleo de xisto, areias betuminosas, condensados ​​(condensado de arrendamento e condensado de gás) e LGNs (líquidos de gás natural - etano, GLP e nafta separados da produção de gás natural). Porém, estão excluídos os combustíveis líquidos de outras fontes, como biomassa e derivados de carvão e também gás natural.

Os EUA ampliaram sua liderança como o maior produtor de petróleo do mundo para um recorde de 15,3 milhões de barris diários de petróleo (bpd). Além disso, os EUA lideraram todos os países no aumento da produção em relação ao ano anterior, com um ganho de 2,18 milhões de bpd (equivalente a 98% do total de adições globais). Fato explicado pela alta produção dos EUA nas reservas de xisto com o "tight oil e o "shale oil". Quase metade da produção de 15,3 mibpd têm origem no shale oil. O que é muito expressivo e reforça no presente a volta dos EUA como grande produtor de petróleo.

Em 2º lugar no ranking de produção ficou a Arábia Saudita com 12,3 mibpd; Em 3º lugar, a Rússia com 11,4 mibpd. Esses três maiores produtores mundiais lideram esse ranking há mais de uma década. Antes esse revezamento se dava basicamente entre a Arábia Saudita e a Rússia, mas desde 2014, a produção de xisto foi se ampliando nos EUA. O Canadá com o petróleo das areias betuminosas da província de Alberta seguiu em 4º lugar. E a China, desde que o petróleo caiu de preço em 2014/2015, tirou o pé do acelerador da sua produção e simultaneamente ampliou a importação, sendo hoje o maior importador mundial, ao passar os EUA que reduziu a importação com o aumento de sua produção interna.

Nesse movimento os EUA têm perspectivas, segundo alguns analistas, de até se tornar autossuficiente em termos líquidos entre produção e consumo (óleo + gás), em torno do ano de 2023 . Sobre o futuro após 2025, há muitas incertezas, considerando a redução das reservas de xisto que são rapidamente se exaurem depois que as jazidas são rompidas pelo fracking. [4] Há quem veja nesse temor, o fato dos EUA ampliarem o seu controle hegemônico sobre os países com grande reservas, numa disputa que envolve os riscos e a disputa com os países dos Brics.

O Brasil vem subindo, paulatinamente no ranking dos maiores produtores mundiais tendo ficado em 2018 na décima posição, ao ultrapassar o México e a Venezuela, se situando bem próximo da produção do Kuwait, um dos fortes produtores do Oriente Médio.

Nesse sentido o Brasil desde a descoberta do pré-sal, a maior fronteira petrolífera descoberta na última década do mundo (com seis dos dez maiores campos de petróleo), o país entrou no radar da geopolítica do petróleo. Tem uma produção crescente (10ª maior), sendo ainda o 7º maior mercado consumidor do mundo e com um enorme mercado de combustíveis e derivados. Lembrando que o Brasil explorou até aqui pouco mais de 1% de toda as reservas estimadas do Pré-sal (Veja nota do blog aqui em 18 jun. 2018). [4-1] Abaixo o quadro dos maiores produtores mundiais de petróleo e gás.


O ciclo de preços do petróleo e sua relação com o movimento de um setor de escala global - O ciclo petro-econômico e a geopolítica que o envolve [5]

Ao relembrar um período mais longo, um pouco antes da crise financeira de 2008, os preços globais do petróleo chegaram próximos a US$ 150 por barril. Depois, durante a crise do subprime (entre 2008 e 2009), os preços caíram para um patamar de US$ 40. Porém, rapidamente depois, entre 2010 e 2013, pela primeira vez na história, os preços do barril de petróleo, oscilaram sempre acima de US$ 100 o barril. Depois a partir de 2014 e 2015, veio a fase de colapso co ciclo petro-econômico, quando ele chegou a cair a US$ 27 o barril.

Ainda assim, desde então, a produção mundial de petróleo aumentou em 11,6 milhões de bpd. No mesmo período, a produção de petróleo dos EUA aumentou em 8,5 milhões de bpd - equivalente a 73,2% do aumento global da produção. Assim, se percebe que sem o boom do petróleo de xisto nos EUA, os preços do petróleo nunca teriam caído para menos de US$ 100, o barril. 

Aqui há contradições que precisam ser melhor compreendidas. A intervenção no ciclo de preços mundial do petróleo no final de 2014 interessava aos EUA e à Arábia Saudita. Aos EUA para segurar o impulso da Rússia e a força de Putin que voltava para novas articulações, em direção ao leste, por conta dos grandes excedentes que estava obtendo com a venda de petróleo a um valor acima de US$ 100, o barril. Além disso, os EUA também quebrava as ações da Venezuela de Chaves, e de quebra, mas não menos importante, tumultuaria o Brasil (lembrem de 2013 e da NSA em 2014) que avançava rapidamente na exploração do pré-sal, onde o golpe institucional parece ter sido parte dessa estratégia.

Da parte da Arábia Saudita, ela interessava criar dificuldades para o seu arqui-rial, o Irã, que na ocasião estava voltando ao mercado de petróleo após a suspensão do anterior embargo dos EUA. Assim, o Irá pretendia retomar os espaços que tinha de comércio com outras nações, que haviam trocado o fornecimento para a Arábia Saudita. Além disso, os sauditas ainda testavam os limites mínimos de custo de produção e ponto de equilíbrio (break-even) do óleo de xisto americano (seu parceiro no geral) e do pré-sal brasileiro, onde se dizia que o custo de um barril chegaria a US$ 75 e hoje se vê a US$ 8, líquido e incluindo os custos do dinheiros e participações governamentais (royalties) oscila em torno de US$ 25.. 

Pois bem, em 2019, decorridos cinco anos desta intervenção geopolítica no ciclo petro-econômico, a Arábia Saudita manteve o seu mercado, mas de outro lado, percebeu que a redução dos custos de contratos, o aumento da produtividade com novas tecnologias entre outras razões levaram tanto o pré-sal brasileiro, quanto o xisto americano a produzir muito mais e a custos bem menores. 

No caso brasileiro um colosso de produtividade nunca antes sequer sonhada. Já no caso dos EUA com a injeção de bilhões de dólares dos fundos private equity americanos junto com o relaxamento das exigências ambientais dos órgão reguladores, a expansão da produção de óleo de xisto e shale gas, também se expandiu a um nível também inimaginável, a pontos dos EUA, pela primeira vez, ter passado a autorizar a exportação de petróleo.
   
Nessa toada a Arábia Saudita vem se mantendo como segundo maior produtor, com 12,3 milhões de barris por dia, deixando de ser um regulador do mercado como antes, mas ainda forte player. A Rússia está em terceiro no ranking com uma produção de 11,4 milhões de barris por dia. O Canadá acrescentou a segunda maior produção do mundo, com um ganho de 410.000 bpd em relação a 2017. Isso foi um pouco à frente do aumento de 395.000 bpd da Arábia Saudita.

Essa nova situação dos EUA com uma produção bem maior, também vem ajudando a produzir uma relação (não esperada) maior entre Arábia Saudita e Rússia, com negócios na área de petróleo, refinarias, petroquímicas e outras infraestruturas. Antes, com o alinhamento da A.S. com os EUA que envolve proteção militar isso nunca ocorreu, com os EUA protegendo os sauditas e fazendo questão de não entender e enxergar a ditadura vigente. Agora com a A.S. disputando com os EUA a supremacia na produção mundial de petróleo e a Rússia tendo entrado em disputas no Oriente Médio que interessam os sauditas, essa equação se tornou mais complexa e menos automática.

Observando os números do lado das nações produtoras de petróleo, há que se observar os declínios da Venezuela (-582 mil de bpd), Irã (-308 mil bpd), México (-156 mil bpd), Angola (-143 mil bpd) e Noruega (-119 mil bpd) foram também compensados por essa maior oferta americana, russa, saudita e até brasileira. 

É também oportuno comentar que as diferenças entre os números do consumo mundial (99,8 milhões de barris por dia) e as estatísticas mundiais de produção (94,7 milhões de barris de petróleo por dia) se devem a alterações nos estoques, consumo de aditivos não-petrolíferos e combustíveis substitutos, assim como aquilo que a BP chama de "disparidades inevitáveis ​​na definição, medição ou conversão de dados de oferta e demanda de petróleo".

Para uma melhor visualização espacial sobre a movimentação e fluxos de petróleo cru pelo mundo, abaixo apresentamos um mapa que mostra as origens e os destinos do óleo entre nações produtoras, exportadoras, beneficiadoras e importadoras em todo o mundo. Os números entre as setas dos fluxos indicam os volumes em toneladas que é como os EUA consideram os volumes de óleo bruto.

Mapa da movimentação de petróleo cru no mundo em 2018: em milhões de toneladas.
Fonte: Statistical Review of World Energy - 2019. p.29/62.
























O aumento da produção mundial de gás natural (GN) e a enorme produção/exportação de gás liquefeito (LNG) nos EUA: o combustível de transição na matriz energética mundial [6]

Este ano, pela primeira vez, o relatório Statistical Review of World Energy da BP fez um relato da contribuição para a produção global de petróleo em função do gás natural liquefeito (GNL). A produção de GNL dos EUA é de longe a mais alta de qualquer país, com 4,3 milhões de bpd (um subproduto do boom do gás de xisto).

Isso é mais do que todo o Oriente Médio e responde por 37,6% da produção global total de GNL. Em parte o GN vai subtraindo a produção global de petróleo. Em termos apenas da produção de gás, a maior do mundo ainda é da Rússia com 11,2 milhões de bpd; seguido de perto pelo EUA com 11,0 milhões de bpd. Em terceiro a Arábia Saudita com 10,5 milhões de bpd. 

O aumento da produção de gás pelos EUA ampliou a disputa com a Rússia para fornecimento a outras partes do mundo como Europa e Ásia. Antes a exportação de gás se dava apenas através dos pipelines (dutos) e dessa forma a Rússia abastecia praticamente toda a Europa e uma parte da Ásia. Com o relativo barateamento das unidades de liquefação (LNG), o transporte do gás natural sob a forma líquida se expandiu, beneficiando atualmente os EUA a partir especialmente das exportações no porto da Louisiana, através dos navios gaseiros. Abaixo um mapa dos fluxos (comércio) de Gás natural (GN) e Gás Natural Liquefeito (LNG) - em bilhões de m³ no mundo em 2018.

Mapa dos fluxos (comércio) de Gás Natural e GNL em 2018: em bilhões de metro cúbicos.
Fonte: Statistical Review of World Energy - 2019. p.41/62.

























O relatório Statistical Review of World Energy da BP informou ainda que as reservas globais de petróleo/gás comprovadas aumentaram apenas 0,1%, para 1,73 trilhão de barris. 

O fato mostra aquilo que já vem sendo comentado. A produção continua avançando em ritmo maior do que as descobertas de novas reservas. E em segundo lugar, está cada vez mais caro prospectar novas reservas, que ainda se encontram majoritariamente nas mãos das petroleiras estatais (NOCs). A petroleiras privadas (IOCs) preferem gastar menos com exploração e investir depois em acesso aos governos e negócios com as petroleiras estatais, e/ou na privatização ou contratos de concessão para a exploração. 

Vale ainda lembrar que ainda existem enormes questionamentos sobre o que efetivamente se tratam as reservas provadas e o que de fato existe de petróleo nos campos. O volume e o potencial efetivamente só são confirmados depois dos TLD (Testes de Longa Duração), que acontecem já com o início da produção, quando as variáveis analisadas com a produção real e não indicadores permitem ter com maior precisão o potencial efetivo de produção e e reservas dos poços e campos de petróleo.


Considerações finais
Por fim, como se vê, esse setor econômico (cadeia produtiva global, ou fração do capital) tem enorme potência em várias escalas e dimensões que envolve para além da econômica, a política, geopolítica, financeira, ambiental, industrial equipamentos e instalações (refinarias, petroquímicas, dutos, portos, navios, apoio offshore, tecnológica-industrial, empregos, social, etc. 

Entender estas dimensões geopolíticas, econômicas, territoriais e de infraestruturais do petróleo, amplia também a capacidade de se avaliar o capitalismo contemporâneo e as hipóteses e limites de desenvolvimento dos Estados-nações. É um setor concentrador de poder e riqueza. O capitalismo tem sido intensamente lubrificado pelo petróleo, como diz o professor alemão Elmar Altvater (2010)[7]. 

É um setor da economia onde os oligopólios e as cadeias globais de produção atuam com enorme força. Elas dificultam e muitas vezes impedem que projetos nacionais integrados se desenvolvam. O desmonte e as privatizações de parte das atividades dessa cadeia - que é desenvolvida autonomamente nas nações - tendem a ser engolidas e controladas globalmente.

Por isso, eu tenho sustentado a interpretação de que essa fração do capital - petróleo - talvez seja, a ideal para investigar os motivos da “redefinição das escalas” e de suas consequências sobre as relações de poder Estado), econômico, político, social e o capitalismo contemporâneo.

Essa fração do capital induz a criação e/ou adensamento de circuitos econômicos extensos - e mais o menos densos - que atuam sobre o território criando dinâmicas que tanto faz circular rendas como apropriá-las para o andar superior onde estão os donos dos dinheiros.

[2] Documentário Pump. 2014. Josh Tickell e Rebecca Harrell Tickell. Informações sobre o filme na Wikipedia. Disponível em: https://en.wikipedia.org/wiki/Pump_(film)

[3] Matéria em O Globo, 21 de jun. 2019. Irã derruba drone americano no golfo Pérsico. Disponível em: https://oglobo.globo.com/mundo/ira-derruba-drone-americano-no-golfo-persico-trump-chama-de-erro-grande-mas-depois-ameniza-23753187

[4] Postagem do blog em 13 de dezembro de 2018. A disputa por narrativas sobre a hipótese da autossuficiência americana por energia. Disponível em: http://www.robertomoraes.com.br/2018/12/a-disputa-por-narrativas-sobre-hipotese.html

[4.1] Postagem do blog em 18.jun. 2019. Toda a reserva do Pré-sal equivale a 7 vezes o PIB. Só 1% foi extraído e boa parte está sendo entregue. Disponível em: https://www.robertomoraes.com.br/2019/06/toda-reserva-do-pre-sal-equivale-7.html

[5] Sobre Ciclo Petro-Econômico ver tese do autor defendida em mar. 2017, no PPFH-UERJ: “A relação transescalar e multidimensional “Petróleo-porto” como produtora de novas territorialidades”. Disponível no Banco de Teses da UERJ: http://www.bdtd.uerj.br/tde_busca/processaPesquisa.php?pesqExecutada=1&id=7433&PHPSESSID=5vd3hsifip5hdg3n1icb57l9m6

[6] Mais detalhes sobre o aumento do papel estratégico do uso do LGN no mundo pode ser visto aqui na postagem do blog feita em 11 de jul de 2016, com o título: A ampliação do poder estratégico e geopolítico do Gás Natural (GNL) na matriz energética mundial. No texto que é um artigo há várias referências e outras postagens que falam do aumento do poder estratégico do gás natural na matriz energética mundial e na geopolítica.
Disponível em: http://www.robertomoraes.com.br/2016/07/a-ampliacao-do-poder-estrategico-e.html

[7] ALTVATER, Elmar. O fim do capitalismo como o conhecemos. 1. ed. Rio de Janeiro. Civilização Brasileira, 2010. 364p.

RAPIER, Robert. The US accounted for 98% of global oil production growth in 2018. Peak Oil. 23 ju. 2019. Disponível em: https://peakoil.com/production/robert-rapier-the-us-accounted-for-98-of-global-oil-production-growth-in-2018


PS.: Atualizado às 02:24 de 26/06/2019: Alertado pelos comentários feitos pelo professor Marcelo Simas e Marco Aurélio -Taquil, o blog corrige a edição original, que repetiu o quadro das nações que são os maiores consumidores, onde deveria estar o quadro das nações que mais produzem petróleo. Agradeço o alerta e as boas referências ao texto-análise. Correção feita.

PS.: Atualização às 03:12: Esclarecendo um pouco mais e ajustando o texto que ficou confuso. Os dados da produção de petróleo não incluem a produção de gás natural. Portanto no quadro da produção não são de barris de óleo equivalentes por dia (boepd) e sim de barris por dia (bpd) apenas de petróleo.
Assim foi incluído no texto acima a observação que "os dados sobre produção de petróleo da BP - WE 2019 estão incluídos petróleo bruto, óleo de xisto, areias betuminosas, condensados ​​(condensado de arrendamento e condensado de gás) e LGNs (líquidos de gás natural - etano, GLP e nafta separados da produção de gás natural). Porém, estão excluídos os combustíveis líquidos de outras fontes, como biomassa e derivados de carvão e também gás natural". No caso da produção do Brasil e outros países essa alteração não é grande, mas nos EUA sim, onde há muito óleo da origem de xisto, também conhecido como "tight oil" ou "shale oil".

PS.: Atualizado às 13:02: Para alguns acréscimos ao texto original.

domingo, junho 23, 2019

"Partido da Lava Jato" atacou a política fingindo fazer Justiça e agora está exposto!

As revelações de hoje do Intercept com o jornal Folha de São Paulo são bombásticas e tornam a situação de Moro/Dallagnol insustentáveis, mesmo que tenham ido procurar socorro nos EUA.

Elas são esclarecedoras sobre as procedimentos e as armações do que deve ser chamado pelo nome correto, o "Partido da Lava Jato".

O "Partido da Lava Jato" atacava a política e alguns políticos em especial para fazer política. Nunca quiserem fazer Justiça.

Isso levou ao resultado eleitoral conhecido.

Um partido sem ser reconhecido como tal falava mal da política e dos partidos, fazendo política, como se partido fosse.

E assim agiu.

E como partido fez surgir (ou ressurgir) - de forma escamoteada e ampliada - o campo de direita, que acabou por conduzir a narrativa que gerou o golpe institucional de 2016 e foi ocupando os espaços eleitorais em 2018 no Brasil.

Esse ambiente político produziu um falso partido, falsas provas e uma falsa narrativa que levou uma falsa solução à Presidência do Brasil.

A confusão é grande, mas não há como deixar no cargo um ministro que controla a Polícia Federal que não pode deixar de investigar o seu chefe.

Por muito menos outros ministros caíram.

O Brasil precisa reencontrar um projeto de Nação.

sexta-feira, junho 21, 2019

"Brazilgate está se transformando na Russiagate 2.0", por Pepe Escobar

Abaixo artigo do jornalista Pepe Escobar sobre o que chama de "Brasilgate". O texto foi publicado ontem no site Consortiun News, especializado em jornalismo investigativo.

Como o texto original estava em inglês utilizei um tradutor automático para passá-lo para o português, de forma mais rápida, mesmo que com alguns problemas.

PEPE ESCOBAR: Brazilgate está se transformando na Russiagate 2.0

20 junho de 2019 - Por Pepe Escobar em Paris - Especial para o Consortiun News

A bomba da Intercept sobre corrupção brasileira está sendo ridicularizada pela mídia e militares do país como uma “conspiração russa”, escreve Pepe Escobar.

Era um vazamento, não um hack. Sim: Brazilgate, lançado por uma série de bombas revolucionárias publicadas pela The Intercept, pode estar se transformando em uma Russiagate tropical.

A Garganta Profunda do Intercept - uma fonte anônima - finalmente revelou em detalhes o que qualquer um com metade do cérebro no Brasil já sabia: que a máquina judicial / de lei da investigação unilateral de lavagem de carro era de fato uma farsa maciça. e a raquete criminosa empenhada em realizar quatro objetivos.

 Criar as condições para o impeachment da presidente Dilma Rousseff em 2016 e a subseqüente ascensão de seu vice, manipulador de elite, Michel Temer.
 Justifique a prisão do ex-presidente Lula em 2018 - assim como ele estava pronto para vencer a mais recente eleição presidencial em um deslizamento de terra.
 Facilitar a ascensão da extrema-direita brasileira via recurso Steve Bannon (ele o chama de “capitão”) Jair Bolsonaro.
 Instale o ex-juiz Sergio Moro como ministro da Justiça com esteroides capazes de promulgar uma espécie de Patriot Act brasileiro - pesado em espionagem e luz sobre as liberdades civis.

Moro, lado a lado com o promotor Deltan Dallagnol, que liderava as 13 forças-tarefa do Ministério Público, são as estrelas vigilantes da briga de serviços de justiça. Nos últimos quatro anos, a mídia brasileira hiperconcentrada, debatendo-se em um pântano de notícias falsas, glorificou esses dois como heróis nacionais dignos do Capitão Marvel. Hubris finalmente alcançou o pântano.

Os Goodfellas brasileiros
O Intercept prometeu liberar todos os arquivos em sua posse; bate-papos, áudio, vídeos e fotos, um tesouro supostamente maior que o de Snowden. O que foi publicado até agora revela Moro / Dallagnol como um duo estratégico em sincronia, com Moro como capo di tutti i capi , juiz, júri e carrasco em um só - repleto de invenções em série de provas. Isso, por si só, é suficiente para anular todos os casos da lavagem de carros em que ele esteve envolvido - incluindo a acusação de Lula e as sucessivascondenações baseadas em “evidências” que nunca se sustentariam em um tribunal sério.

Em conjunto com uma riqueza de detalhes sangrentos, o princípio Twin Peaks - as corujas não são o que parecem - aplica-se plenamente ao Brazilgate. Porque a gênese do Car Wash envolve nada menos que o governo dos Estados Unidos (USG). E não apenas o Departamento de Justiça (DoJ) - como Lula vem insistindo há anos em todas as suas entrevistas. O op foi Deep State no seu mais baixo.
O WikiLeaks já havia revelado issodesde o início, quando a NSA começou a espionar a gigante de energia Petrobras e até mesmo o telefone inteligente de Dilma. Em paralelo, inúmeras nações e indivíduos aprenderam como a auto-atribuída extraterritorialidade do DoJ permite que ele vá atrás de qualquer pessoa, de qualquer maneira, em qualquer lugar.
Nunca foi sobre anticorrupção. Em vez disso, trata-se da “justiça” americana que interfere em todas as esferas geopolíticas e geoeconômicas. O caso mais gritante e recente é o da Huawei.

No entanto, o “comportamento maligno” de Mafiosi Moro / Dallagnol (invocar o Pentágono) atingiu um novo nível perverso na destruição da economia nacional de uma poderosa nação emergente, um membro do BRICS e líder reconhecido em todo o Sul Global.

A Lava Jato devastou a cadeia de produção de energia no Brasil, que por sua vez gerou a venda - abaixo dos prêmios de mercado - de muitas reservas valiosas de petróleo do pré-sal, a maior descoberta de petróleo do século XXI.

A Lava Jato destruiu os campeões nacionais em engenharia e construção civil e também em aeronáutica (como na Boeing, comprando a Embraer). E a Car Wash comprometeu fatalmente importantes projetos de segurança nacional, como a construção de submarinos nucleares, essencial para a proteção da “ Amazônia Azul ”.

Para o Conselho das Américas - que Bolsonaro visitou em 2017 -, bem como o Conselho de Relações Exteriores - para não mencionar os “investidores estrangeiros” - ter o garoto neoliberal de Chicago, Paulo Guedes, instalado como ministro da Fazenda, era um sonho molhado. Guedes prometeu no disco virtualmente colocar todo o Brasil à venda. Até agora, sua tarefa tem sido um fracasso absoluto.

Como abanar o cachorro
Mafiosi Moro / Dallagnol eram "apenas um peão em seu jogo", para citar Bob Dylan - um jogo que ambos ignoravam.

Lula ressaltou repetidamente que a questão-chave - para o Brasil e o Sul Global - é a soberania. Sob Bolsonaro, o Brasil foi reduzido ao status de uma neocolônia de banana - com muitas bananas. Leonardo Attuch, editor do portal líder Brasil247 , diz que “o plano era destruir Lula, mas o que foi destruído foi a nação”.

Tal como está, os BRICS - uma palavra muito suja no Beltway - perderam o seu “B”. Por mais que possam valorizar o Brasil em Pequim e Moscou, o que está entregando o momento é a parceria estratégica "RC", embora Putin e Xi também estejam fazendo o melhor para reviver "RIC", tentando mostrar à Índia Modi que a integração eurasiana é o caminho a percorrer, não desempenhando um papel de apoio na difusa estratégia indo-pacífica de Washington.

E isso nos leva ao cerne da questão do Brazilgate: como o Brasil é o cobiçado prêmio na mestra narrativa estratégica que condiciona tudo que acontece no tabuleiro de xadrez geopolítico em um futuro previsível - o confronto sem barreiras entre os EUA e a Rússia-China.
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Já na era Obama, o Deep State dos EUA identificou que, para incapacitar os BRICS de dentro, o nó estratégico “fraco” era o Brasil. E sim; mais uma vez é o óleo, estúpido.

As reservas de petróleo do pré-sal podem valer até US $ 30 trilhões. O ponto não é apenas que o USG quer um pedaço da ação; o ponto é como controlar a maior parte do petróleo do Brasil está ligado à interferência com poderosos interesses do agronegócio. Para o Deep State, o controle do fluxo de petróleo do Brasil para o agronegócio é igual a contenção / alavancagem contra a China.

Os EUA, o Brasil e a Argentina, juntos, produzem 82% da soja mundial - e contam. A China implora a soja. Estes não virão da Rússia ou do Irã - que por outro lado pode fornecer à China petróleo e gás natural suficientes (ver, por exemplo, o poder da Sibéria I e II). O Irã, afinal, é um dos pilares da integração eurasiana. A Rússia pode eventualmente se tornar uma potência de exportação de soja, mas isso pode levar até dez anos.

Os militares brasileiros sabem que as relações próximas com a China - seu principal parceiro comercial, à frente dos EUA - são essenciais, o que quer que Steve Bannon possa reclamar. Mas a Rússia é uma história completamente diferente. O vice-presidente Hamilton Mourao, em sua recente visita a Pequim, onde se encontrou com Xi Jinping, parecia estar lendo um comunicado do Pentágono, dizendo à imprensa brasileira que a Rússia é um “ator maligno” que está implantando uma “guerra híbrida ao redor do mundo. "

Assim, o Estado dos EUA pode estar cumprindo pelo menos parte do objetivo final: usar o Brasil em suaestratégia Divide et Impera de dividir a parceria estratégica Rússia-China.

Fica muito mais picante. Lavagem de carro recondicionada como lavagem de vazamento também poderia ser decodificada como um jogo de sombras massivo; um cão abanar, com o rabo composto de dois ativos americanos.

Moro era um ativo certificado pelo FBI, CIA, DoJ e Deep State. Seu uber-chefe seria, em última análise, Robert Mueller (assim, Russiagate). No entanto, para Team Trump, ele seria facilmente dispensável - mesmo que ele seja o Capitão Justice trabalhando sob o ativo real, o menino Bannon Bolsonaro. Se ele cair, Moro terá a garantia do indispensável paraquedas de ouro - completo com residência nos EUA e palestras em universidades americanas.

Greenwald, do Intercept , é agora celebrado por todas as vertentes da esquerda como uma espécie de americano / brasileiro Simon Bolivar com esteróides - com e em maio casos sem qualquer ironia. Ainda há um problema enorme. O Intercept é de propriedade do praticante hardcore de guerra da informação, Pierre Omidyar .

De quem é a guerra híbrida?
A questão crucial à frente é o que as forças armadas brasileiras estão realmente fazendo neste pântano épico - e quão profundas elas estão subordinadas à Divide et Impera de Washington.

Ele gira em torno do todo-poderoso Gabinete de Segurança Institucional, conhecido no Brasil pela sigla GSI. Stalwarts GSI são todos os consensos de Washington. Depois dos anos "comunistas" de Lula/Dilma, esses caras estão agora consolidando um Estado profundo brasileiro supervisionando o controle político de espectro total, assim como nos EUA.

A GSI já controla todo o aparato de inteligência, bem como a Política Externa e Defesa, através de um decreto sub-repticiamente lançado no começo de junho, apenas alguns dias antes da bomba do Intercept. Até o capitão Marvel Moro está sujeito ao GSI; eles devem aprovar, por exemplo, tudo o que Moro discute com o DoJ e o Estado Profundo dos EUA.

Como discuti com alguns dos meus principais interlocutores brasileiros informados, o antropólogo do crack, Piero Leirner, que sabe em detalhes como os militares pensam, e o advogado internacional suíço e conselheiro da ONU Romulus Maya, a Deep Stateseems dos EUA está se posicionando como a mecanismo de desova para a ascensão direta das forças armadas brasileiras ao poder, assim como seus garantes. Da mesma forma, se você não segue nosso roteiro ao pé da letra - relações comerciais básicas apenas com a China; e isolamento da Rússia - podemos balançar o pêndulo a qualquer momento.

Afinal, o único papel prático que o USG teria para as forças armadas brasileiras - na verdade, para todas as forças armadas da América Latina - é como tropas de choque de “guerra às drogas”.

Não há arma fumegante - ainda.Mas o cenário de Leak Wash como parte de um psyops extremamente sofisticado, de domínio de espectro completo, um estágio avançado da Hybrid War, deve ser seriamente considerado.

Por exemplo, a extrema-direita, bem como poderosos setores militares e a Globo império de mídia de repente começou a girar que Tele INTERCEPT bombshell é uma “conspiração russa”.

Quando alguém acompanha o principal site militar do think tank - com muitas coisas praticamente copiadas e coladas diretamente da Escola de Guerra Naval dos EUA - é fácil se surpreender com a crença fervorosa em uma Guerra Híbrida Rússia-China contra o Brasil, onde a cabeça de ponte é provido por “elementos anti-nacionais” como a esquerda como um todo, bolivarianos venezuelanos, FARC, Hezbollah, LGBT, povos indígenas, o nome dele.

Depois de Leak Wash, uma blitzkrieg de notícias falsa combinada culpou o aplicativo Telegram ("eles são os russos do mal!") Por hackear os telefones de Moro e Dallagnol. O Telegram oficialmente desmascarou isso em pouco tempo.

Surgiu então que a ex-presidente Dilma Rousseff e a atual presidente do Partido dos Trabalhadores, Gleisi Hoffmann, fizeram uma visita “secreta” a Moscou apenas cinco dias antes da bomba Leak Wash.Confirmei a visita à Duma, bem como o fato de que, para o Kremlin, o Brasil, pelo menos por enquanto, não é uma prioridade. Integração eurasiana é. Isso, por si só, desmascara o que a extrema-direita do Brasil faria como Dilma pedindo a ajuda de Putin, que então libertou seus malvados hackers.

Leak Wash - a segunda temporada da Lava Jato - pode estar seguindo o padrão Netflix e HBO. Lembre-se que a terceira temporada do True Detective foi um sucesso absoluto. Precisamos de rastreadores dignos de Mahershala Ali para detectar fragmentos de evidências sugerindo que as forças armadas brasileiras - com o total apoio do Deep State dos EUA - poderiam estar instrumentalizando uma mistura de Leak Wash e Guerra Híbrida "Russos" para criminalizar a esquerda para sempre e orquestrar um golpe silencioso para se livrar do clã Bolsonaro e seu QI coletivo de sub-zoologia. Eles querem controle total - sem intermediários clownish. Eles estarão mordendo mais bananas do que podem mastigar?

Pepe Escobar, um veterano jornalista brasileiro, é o correspondente geral do Asia Times, de Hong Kong.

Abaixo o link da publicação original:

quinta-feira, junho 20, 2019

"Privatização do pré-sal, a ditadura do mercado está instalada no país": Podcast para Sindipetro-NF

Ontem, quarta-feira (19 jun. 2019), o Sindipetro-NF colocou no ar (aqui), um podcast com uma entrevista que concedi à Juliana Maciel Rádio NF, sobre o tema da privatização do pré-sal, o desmonte e a desintegração das atividades da Petrobras com o fatiamento da estatal e repasse ao setor privado. Várias questões foram abordadas numa fala de cerca de 50 minutos.

Assim, a Rádio NF apresentou o podcast:
"As descobertas no pré-sal estão entre as mais importantes em todo o mundo na última década e trouxeram riqueza, tecnologia e novas oportunidades de emprego no Brasil. Por não conseguir melhorar as expectativas quanto ao dinamismo da economia, o governo Bolsonaro mantém essa fake news, de 'Petrobras quebrada', só para sabotar a maior estatal brasileira."

O áudio (podcast) com a entrevista pode ser ouvida aqui no site da Rádio NF, ou acessada no link abaixo:



PS.: Atualizado às 17:17. Para acrescentar o nome da jornalista Juliana Maciel.

quarta-feira, junho 19, 2019

No Brasil a democracia viaja sem mala e não diz quando volta!

Na segunda-feira (17 jun.), o desgoverno Bolsonaro vetou a volta da bagagem de 23 kg gratuita nas viagens de avião. Mostra assim mais uma vez para quem ele e Guedes governam.

No dia 12 de abril eu postei no meu perfil no Facebook, uma informação da Anac (Agência Nacional de Aviação Civil) com suas estatísticas. Elas registravam que o faturamento das empresas aéreas com as bagagens aumentou 120,9%, entre janeiro e setembro de 2018, enquanto a tarifa média para os voos domésticos subiu 1%. Assim, apenas nos 9 primeiros meses dessa medida entre janeiro e setembro de 2018, as empresas aéreas do Brasil faturaram R$ 511,7 milhões com despacho de bagagens.

Nessa ocasião ainda havia quem acreditasse nas empresas aéreas. Elas diziam que iam trocar ganhos dos bilhetes das passagens que seriam – seriam - mais baratas, pelas taxas para quem tinha bagagens superiores a 10 kg. Nada. O resultado está sendo e agora reconfirmado e autorizado: passagens mais caras e maiores lucros com taxas extras das passagens.

Agora o desgoverno Bolsonaro mostra que não quer regular nada e sim entregar as vantagens para o mercado e o poder econômico. Diga-se de passagem, mercado de um setor com pouquíssima concorrência, assim como acontece na áreas de telefonia e energia.

Aliás, no setor de telecomunicações, recentemente o governo através da Anatel perdoou, em algumas dezenas de bilhões, referentes às multas das operadoras de telefonia, por descumprimentos de regras básicas. Por conta disso, as concessionárias de energia estão deitando e rolando em cobranças abusivas, sem medo das multas da Aneel.

Esse é um país, onde o capitalismo vive completamente sem regulação. Com um mercado que não vive sem as tetas do Estado que serve aos donos dos dinheiros como garantia para suas concessões, isenções tributárias, perdões (waive) para fazerem o que bem entende. Estado nas mãos do mercado, regulado como os bancos e as corporações gostam: pelas mãos e os bolsos "invisíveis" do mercado.

Tem-se aí uma maximização dos lucros sobre a população desprotegida. Essas corporações globais cada vez capturam (vampirizam) mais renda de quem trabalha. Junto com os fundos (e setor financeiro) essas sociedades multinacionais vão se perpetuando como donas do mundo. Tem-se aí a ditadura do mercado e o fim da democracia.

Enquanto isso, a população e os trabalhadores pagam a conta na previdência e pela péssima qualidade dos serviços. O mercado monopolizou o poder ideológico e político e segue controlando os governos, a partir do financiamento das eleições, mas a culpa sempre é da política.

E paradoxalmente, as pessoas, ao perceberem os governos – eleitos pelos donos dos dinheiros – confiam ainda menos na política e nos políticos, numa interpretação equivocada desse processo que reforça ainda mais a ditadura do mercado expressa nas figuras ultraliberais de Trump, Bolsonaro entre outros.

terça-feira, junho 18, 2019

Toda a reserva do Pré-sal equivale a 7 vezes o PIB. Só 1% foi extraído e boa parte está sendo entregue

Há muitas pessoas que ainda não têm uma dimensão do tamanho da reserva de petróleo e gás do Brasil. 

Todo o Pré-sal equivale a cerca de 7 vezes o atual PIB do Brasil.

Isso mesmo! 

Para ser mais exato 6,9 vezes toda a riqueza material atual do país. 

O que foi explorado até agora equivale a pouco mais de 1% do total de petróleo e gás natural, mesmo considerando que o pré-sal, hoje já produz cerca de 2 milhões de barris por dia (boe), ou 60% do total da produção no país.

Infelizmente, grande parte disso está sendo entregue a preço vil para as petroleiras privadas estrangeiras (IOCs), depois de ter sido descoberto pela Petrobras. 

Assim, a renda petroleira extraída dessa riqueza passa para o controle externo. 

Como os novos donos desse petróleo e gás extraídos, as petroleiras estrangeiras decidem o que fazer de sua produção e certamente levarão a maior parte para ser beneficiada fora do país, onde suas receitas se multiplicarão, na medida em que o produto processado ganha mais valor.

Da mesma forma, serão eles que decidirão onde e com quem comprar (ou fretar) plataformas, equipamentos, serviços e tecnologia que deixarão de empregar até 8 milhões de pessoas no Brasil (em funções de altas qualificações) na próxima década.

Assim, o golpe institucional de 2016, inverteu a lógica e começou a entregar, a preço de xepa, a joia da coroa, descoberta pelos geólogos do Brasil.

segunda-feira, junho 17, 2019

EUA x China

Martin Wolf, editor e analista econômico do conhecido jornal inglês de negócios e política, Financial Times, com prestígio global, publicou artigo que foi reproduzido (e traduzido) pelo Valor, em 5 jun. 2019, P. A13 com o título: “O conflito secular entre EUA e China: ataque à China é a guerra errada, lutada de forma errada no terreno errado”.

WOLF, afirma que a China pode ser o inimigo ideológico, militar e econômico que tantos precisam nos Estados Unidos. Diz ainda que essa “rivalidade generalizada com a China vem se tornando o princípio organizador das políticas econômica, externa e de segurança dos EUA”, no governo Trump. Lembra ainda as declarações da diretora de planejamento de políticas do Departamento de Estado dos EUA, Kiron Skinner, quando esta afirmou que [esta seria] “a primeira vez que vamos ter uma grande potência concorrente que não é caucasiana”, (esquecendo, segundo Wolf, o Japão), porém colocando na ordem do dia a hipótese de “uma guerra racial e civilizacional, como um conflito insolúvel”.

WOLF afirma taxativamente que “acusar a China de trapacear é hipocrisia quando quase todas as políticas comerciais adotadas pelo governo Trump violam as regras da OMC”. Diz ainda que não é aceitável “insistir que os chineses aceitem o papel dos EUA como juiz, júri e verdugo”.

O jornalista britânico fala também dos riscos que os EUA têm ao fomentar na população chinesa uma profunda hostilidade. Para Wolf, “a acusação de roubo de propriedade intelectual reflete em grande parte, as inevitáveis tentativas de um economia ascendente em dominar as tecnologias da atualidade. Acima de tudo, uma tentativa de preservar um domínio de 4% da humanidade sobre o resto é algo ilegítimo”.

E por fim, ao pinçar partes do seu texto, Wolf diz que “o que acontece agora é que o governo americano está simultaneamente lançando um conflito entre duas potências, atacando aliados dele e destruindo as instituições de ordem mundial do pós-guerra”.

A realidade desta disputa é cada vez mais percebida e sentida em boa parte do mundo. Segundo, Pepe Escobar, jornalista brasileiro especializado em geopolítica (guerra híbrida) e Eurásia, na atualidade, tudo de mais significativo que ocorre no mundo está de uma forma ou outra vinculada à disputa EUA x China-Rússia. Inclusive a luta de todos contra todos no Brasil.

"Estranho um país que exige que um hacker aja dentro da lei e um juiz não"

"Estranho um país que exige que um hacker aja dentro da lei e um juiz não."

A frase faz parte do artigo de José Armando Neto, advogado, jornalista, delegado aposentado da Polícia Federal e ex integrande da Interpol em São Paulo, publicado aqui no portal GGN do jornalista Luiz Nassif.

O texto na íntegra tem como título: "Ou a casa cai de vez ou irão dizer: foi golpe mesmo e daí?"

domingo, junho 16, 2019

Eventos acadêmicos no campo "Espaço-Economia-Poder" representam resistência ao obscurantismo

Na semana que passou, em meio às divulgações do The Intercepter que colocam em cheque importantes instituições da República no Brasil, este blogueiro esteve em mais dois importantes eventos acadêmicos, agora, no Rio de Janeiro: III Colóquio Espaço e Economia organizado pela UERJ-UFRRJ e IFF e realizado na UERJ (entre os dias 10 e 12 de junho) e o Workshop Espaço e Poder no dia 13 junho no IPPUR/UFRJ.

No III Colóquio Espaço e Economia tivemos 4 mesas-redondas, sessões de apresentações de pesquisas, além das palestras de abertura e encerramento em torno da temática geral: "Transformações no capitalismo mundial e a produção social do espaço".

Na oportunidade foi lançado o livro deste autor (blogueiro) A ´indústria´ dos fundos financeiros: potência e mobilidade no capitalismo contemporâneo, que foi apresentado e debatido na mesa-redonda com o tema "Os movimentos das frações do capital, os circuitos espaciais de produção e a crescente financeirização da economia diante de um novo padrão de acumulação".

A mesa-redonda teve ainda a presença dos professores Carlos Brandão, IPPUR/UFRJ. Leandro Bruno Santos, Geografia UFF-Campos, RJ e Cláudio Zanotelli (PPGG-UFES). O livro está disponível para a venda no site da editora (imagem e link ao lado), ou por pedido através do email do blog.

No III Colóquio Espaço e Economia foi ainda instituída formalmente uma Rede de Investigadores de Espaço Economia, confirmada a edição de dois números especiais da Revista Espaço e Economia, com artigos apresentados num dos oito grupos de trabalho do evento, mais um livro que será publicado com uma coletânea das participações dos pesquisadores nas quatro mesas-redondas.

Já no Workshop Espaço e Poder: infraestrutura, desenvolvimento e território organizado por professores do IPPUR/UFRJ com painéis nos dias 13, 24 e 25 de junho de 2019. Assim, no dia 13 de junho de 2019, eu participei na Faculdade de Letras do painel "Espaço Poder e Petróleo", tendo ainda como debatedores, os professores Claudio Zanotelli (PPGG/UFES) e Eduardo Pinto (IE/UFRJ).

Na oportunidade um conjunto expressivo de temas e linhas de investigação foram levantados e debatidos (dando forma a uma agenda de pesquisas), relacionadas ao poder e a potência do setor petróleo; a intensa disputa pela renda petroleira entre o setor público e os interesses privados; a produção do espaço por decorrência das atividades vinculadas à esta cadeia de produção global, onde há profundos interesses geopolíticos entre corporações e os estados-nações.

Os dois eventos se complementaram em termos de temas e interesses de pesquisas vinculados aos movimentos socioeconômicos espaciais. Os debates nos eventos permitiram a formulação inicial de ideias e proposições em termos de alternativas, sob a lógica das nações que fazem parte do capitalismo periférico diante de uma economia globalizada.

O clima agradável de debates e de colaboração acadêmica entre pesquisadores dos laboratórios e núcleos de estudos envolvidos em ambos os eventos, animaram e ampliaram a disposição de seguir em frente em trabalhos e pesquisas conjuntas, em meio às dificuldades impostas pelo desgoverno atual com os seguidos e profundos cortes orçamentários e de obscurantismo.

O apagão na Argentina é parte do atual colapso ultraliberal da América Latina

O grave apagão deste domingo na Argentina/Uruguai é mais um exemplo das consequências do colapso do neoliberalismo sobre as infraestruturas (energia elétrica, rodovias, telefonia, etc.) e a vida das pessoas no cotidiano da América Latina.

O choque ultraliberal centrado na ideia exclusiva de conter o déficit público vai promovendo o caos, em meio ao vampirismo sobre a renda e os direitos do trabalhadores e das populações.

É o esgarçamento de um regime/sistema a favor dos mais ricos, sem se importar com as pessoas. 

Se esse processo não for contido estaremos caminhando cada vez mais para a barbárie e nos distanciando da ideia sobre aquilo que se pode chamar de civilização.

sexta-feira, junho 14, 2019

Ambiente atual na política brasileira indica ameaças de endurecimento de regime num governo já autoritário e truculento

Por uma conjugação enorme de fatores, o ambiente que marca a greve de hoje no Brasil (mesmo que parcial, mas inequivocamente expressiva), guarda muitas similaridades com o aquele que o Brasil viveu no entrono do ano de 1968.

Manifestação 14-J na avenida
Presidente Vargas no Rio de Janeiro.
É um protesto contra as mudanças da Previdência, contra as privatizações, já num ambiente fortemente autoritário, truculento nas ruas e de ameaças de endurecimento.

A conflito considerado híbrido e de confrontação de posições tá se acirrando de forma muito acelerada, em direção à uma forma ditatorial sem escamoteamentos. 

A narrativa que levou ao golpe institucional e às várias interferências nas eleições do ano passado, está se diluindo, quando vemos a forma como está sendo despido o manto que encobria a verdade daquilo que era essencial do processo político do país, nesse mais recente período.

Instituições se deixaram usar, sem o mínimo cuidado com a República e com as consequências para além dos interesses imediatos que existem em qualquer sociedade e nação.

Há blocos de poder se engalfinhando no meio de um desgoverno. O desmonte é claro e tem metas definidas que vão além do ultraliberalismo.

As instituições estão todas, uma a uma, perdendo a legitimidade e a capacidade para intermediar soluções

De outro lado, é preciso ir além da resistência. Estamos saindo de um atordoamento mas ainda no meio de muita confusão e sem direções e estratégias definidas. 

O projeto de Nação carece de coerência para ultrapassar essa complexa fase.

Os riscos crescem. E as saídas precisam ser construídas.

PS.: Atualizado às 21:18 para breve acréscimo no texto.

terça-feira, junho 11, 2019

É cretina a naturalização que se tenta fazer das armações de Moro e Dallagnol: isso retardará o reencontro do Brasil com seu projeto de Nação

Há uma evidente tentativa de "naturalizar" a aberração que envolve as relações da justiça com o Ministério Público Federal (MPF) na montagem das armações do Moro e a turma da Lava Jato que foi exposta nas reportagens do "Arquivo Secreto do Brasil" divulgado pelo The Intercept.

Parte da mídia comercial e das forças políticas que sustentam o atual desgoverno fazem parte dessa estratégia.

É evidente que temem pelo pior, mas o pior já foi cometido. 

O escárnio está posto sobre a mesa e foi feito por um membro da instituição judiciário, com o uso do aparelho do Estado de um dos três poderes (aquele que tem poder de árbitro), comprometendo toda Justiça e a estrutura do Estado brasileiro.

Esse caminho é ainda muito mais perigoso para a República alvejada no seu maior escândalo.
Ao contrário do que imaginam essa tentativa de "naturalização" do que fez Moro, Dallagnol e seus comparsas é arrastar ainda mais o que resta da República para o caos.

Os fatos mostram porque o Dallagnol com apoio do Moro queria ter sob seus domínios aquele fundo de R$ 2,5 bilhões que foi obrigado a devolver.

O que está exposto em termos de armações e formação de quadrilha está sendo visto por todo o mundo. Nos dias atuais, não há mais como construir versões assim tão distantes da realidade com narrativas que tentam esconder o essencial.

Porém, o que virá ainda à tona é ainda mais difícil de acreditar, se não fosse pelos áudios e pelas fontes das conversas.

Esse tentativa de naturalização dessa escabrosa trama retardará ainda mais a busca de soluções e de superação dessa etapa em que a nação brasileira foi jogada, em nome do poder e de interesses inconfessáveis e de um falso moralismo, que está aí a mostrar a que serviu.

O Brasil precisa reencontrar o seu projeto de Nação para todos!

domingo, junho 09, 2019

O retrato nu e cru das armações dos procuradores e o juiz da Lava Jato: a Nação brasileira precisa retomar o seu caminho!

Não há como ler os diálogos entre o(s) procurador(es) e o juiz e não pensar em formação de quadrilha.

Eles agiam em nome de um dos três poderes da República, logo aquele faz a arbitragem no caso dos litígios.

O grau de promiscuidade para as tratativas e armações superam muitas tramas e roteiros de filme, ou os esquemas da milícia e/ou do tráfico no país ou fora.

O desrespeito à Constituição Brasileira tratada como detalhe a ser superado é de doer e chorar.

O caso é gravíssimo em todas as dimensões.

O STF como a suprema corte é a mais vilipendiada, mesmo que parte dos seus membros tenham sido coniventes. 

A Corte agora está emparedada, não haverá saída fácil para retomar, mesmo que aos poucos, algo próximo à normalidade.

O que fazer com os prejudicados e atingidos?

O que fazer com os responsáveis por tudo isso?

O que fazer com a Nação que segue sendo desmontada, tal qual esse demolição que fizeram da instituição judiciária.

A política e os demais poderes serão paralisadas. 

Seria estranho se for diferente, dando uma de avestruz fingindo não ver o que está à frente do nariz, mesmo que cheire mal. Muito mal.

A Nação não merecia isso e precisa retomar o seu caminho junto com a população.

The Intercept Brasil revela armações entre procurador e o juiz Moro no julgamento de Lula

O The Intercept Brasil publicou há pouco no seu site, revelações e acordos entre Dallagnol e o juiz Moro na ação contra Lula feitas em conversas pela internet (chat).

Entre outros registros há um em que o juiz "Moro sugeriu trocar a ordem de fases da Lava Jato, cobrou novas operações, deu conselhos e pistas e antecipou ao menos uma decisão, mostram conversas privadas ao longo de dois anos".

Os conteúdos divulgados aqui são dos jornalistas Rafael Moro Martins, Alexandre de Santi, Glenn Greenwald.

As provas trazem evidências das armações, lembrando que procurador (promotor) em tese acusam contra o crime, numa atuação que em tese seria em defesa da sociedade.

Já o juiz arbitraria e julgaria sem negociações que é uma aberração jurídica e expõe os processos usados no golpe institucional jurídico-midiático que seguiu à derrubada Dilma e interferiu nas eleições de 2018.

Como se sabe, o juiz Moro logo depois foi beneficiado por uma nomeação de quem ajudou a ganhar eleição em outro "acordo político".

PS.: Atualizado às 20:58:

Não se deve esquecer que o Greenwald tem credibilidade enorme depois que foi o repórter que denunciou o esquema da NSA dos EUA. A mídia internacional já desconfiada de todo esse processo no Brasil deverá tratar o tema rapidamente.

Fica quase evidente que a questão divulgadas de que os celulares de Moro e Dallagnol teriam sido hackeados deve ter sido uma forma de tentar evitar o escândalo. Aliás, as acusações simultâneas de hackeamento de Dallagnol e Moro, só reforçam a veracidade dessas informações vazadas para o The Intercept. As fontes teriam guardado as informações que tiveram acesso no exterior para evitar pressões.

O STF fica emparedado e deverá ser arguido ainda nesta segunda-feira pela defesa de Lula.

sexta-feira, junho 07, 2019

"A danação da história e a disputa pelo futuro", por José Luís Fiori

O artigo do professor José Luís Fiori merece ser lido com apuro. É um texto lúcido, calcado numa consistente análise do processo histórico, vinculado ao conceito de sua autoria sobre o "sistema interestatal capitalista", mesmo que não diretamente mencionado. Ele foi publicado originalmente aqui no portal Carta Maior.

Neste breve artigo, Fiori faz um exercício que muitos pensadores fogem, de analisar os cenários (ele trabalha com duas hipóteses) e a possibilidades de atuação. Como outros, Fiori identifica que o atual momento será determinante (mais que outros) para o que se coloca diante dos desafios do nosso país, do continente e de todos nós. 

Assim, é por um lado amedrontador (não menos que o presente) mas é também promissor, em termos de possibilidades de se retomar as rédeas e reconstruir um projeto da Nação Brasil. Vale conferir!


A danação da história e a disputa pelo futuro
Depois de 1940, a Argentina entrou num processo entrópico de 
divisão social e crise política crônica, ao não conseguir se unir 
em torno de uma nova estratégia de desenvolvimento, adequada 
ao contexto geopolítico e econômico criado pelo fim da Segunda 
Guerra Mundial, pelo declínio da Inglaterra, e pela supremacia mundial dos Estados Unidos.

J.L.F.História, estratégia e desenvolvimento.Petrópolis: Editora Vozes, 2014, p. 272


Existe uma pergunta angustiante que está parada no ar: o que passará com o Brasil quando a população perceber que a economia brasileira colapsou e que o programa econômico deste governo não tem a menor possibilidade de recolocar o país na rota do crescimento? Com ou sem reforma da Previdência, qualquer que seja ela, mesmo a proposta pelo Sr. Guedes. E o que ocorrerá depois disso?

O mais provável é que a equipe econômica do governo seja demitida e substituída por algum outro grupo de economistas que atenue os traços mais destrutivos do programa ultra-liberal do governo do governo. Mesmo assim, não estará afastada a possibilidade de que o próprio presidente seja substituído por algum dos seus aliados dessa coalizão de extrema-direita construída de forma apressada e irresponsável, em torno de uma figura absolutamente ignorante, despreparada e insana. Mas se nada disso acontecer e as coisas seguirem se arrastando e piorando nos próximos tempos, o mais provável é que as forças de extrema-direita venham a ser fragorosamente derrotadas nas próximas eleições presidenciais.

O problema é que, quando isto ocorrer, o Brasil já terá completado mais uma “década perdida”, o que torna ainda mais difícil de prever e planejar o que acontecerá, e o que possa ser feito na década de 2020 para retirar o país do caos. Entretanto, é indispensável e urgente que se imagine e reflita sobre esse futuro, para não repetir erros passados. Para tanto, o melhor caminho é começar pela releitura do próprio passado e, em seguida, analisar com mais atenção o caso de alguns países que fizeram idênticas escolhas, e que vão antecipando as consequências do rumo adotado pelo Brasil.

Comecemos, portanto, de forma extremamente sintética, pela década de 80 do século passado, quando o “desenvolvimentismo sul-americano” entrou em crise e foi abandonado por todos os países do continente, onde ele havia sido hegemônico desde o fim da II Guerra Mundial. Esse colapso ocorreu de forma simultânea com a “crise da hegemonia americana” da década de 70, e com a mudança da estratégia econômica internacional dos Estados Unidos durante o governo de Ronald Reagan, na década de 80. Foi nesse período que se deu a grande “virada neoliberal” da América do Sul, quando as elites políticas e econômicas do continente adotaram em conjunto, e quase simultaneamente, o mesmo programa de reformas e políticas liberais preconizado pelo que se chamou, na época, de “Consenso de Washington”.

No entanto, em todos os países em que foram aplicadas, essas políticas neoliberais produziram baixo crescimento econômico e aumento das desigualdades sociais. E na entrada do novo milênio, os resultados negativos contribuíram para que a América do Sul fizesse uma nova meia-volta, desta vez “à esquerda”, aproveitando-se do vácuo criado na região pela guerra global ao terrorismo, o que deslocou a atenção dos Estados Unidos para o Oriente Médio. Em poucos anos, quase todos os países do continente elegeram governos de orientação nacionalista, desenvolvimentista ou socialista, com uma retórica anti neoliberal e com um projeto econômico cujo denominador comum apontava numa direção muito mais nacionalista e desenvolvimentista do que liberal. Foi nesse período, já na primeira década do novo milênio, que o Brasil e alguns outros países do continente decidiram aumentar o controle estatal ou reestatizar diretamente seus recursos energéticos, como aconteceu na Venezuela, depois da descoberta das suas grandes reservas de petróleo do Orinoco, no Brasil depois da descoberta do petróleo do pré-sal no Brasil , e na Argentina, depois da descoberta das suas reservas de gás não convencional da Patagonia. E a América do Sul retomou então seu velho projeto de integração regional, agora sob a liderança brasileira, com a ampliação do Mercosul e a criação da Unasul.

Uma vez mais, entretanto, como na lenda de Penélope, o continente latino-americano desfez tudo de novo depois da crise econômica internacional de 2008 e, em particular, depois da mudança da doutrina estratégica dos Estados Unidos, com o governo de Donald Trump, que patrocina golpes de Estado e governos ultra liberais, ao mesmo tempo que pratica – paradoxalmente – o protecionismo e o nacionalismo econômico in domo suo. Mas parece que tudo está andando cada vez mais rápido, porque já existem fortes indícios de que esta nova onda liberal será ainda mais breve do que a anterior, como é o caso – fora da América do Sul – da vitória de Lopez Obrador no México, e da enorme reação popular contra o governo ultraliberal de Mauricio Macri, na Argentina.

A Argentina, aliás, é o caso mais longevo e paradigmático dessa verdadeira “gangorra sul-americana”. O programa econômico do governo de Maurício Macri, por exemplo, reproduz quase integralmente as idéias ultraliberais do economista Domingo Cavallo, que já haviam sido provadas nos governos de Carlos Menem(1989-1999) e de Fernando de la Rua (1999-2001), antes dos governos peronistas de Nestor Kirshner (2003-2007) e de Cristina Kirshner (2007-2015), que desembocaram, por sua vez, no retorno do liberalismo, com a vitória eleitoral de Maurício Macri em outubro de 2015.O apoio parlamentar de Maurício Macri permitiu que ele aprovasse, sem maiores problemas, as famosas reformas da Previdência e da legislação trabalhista, mantendo rigorosa política de austeridade fiscal e de privatizações do que ainda restava nas mãos do Estado argentino.

Apesar de tudo isso, a política econômica do governo Macri tem produzido resultados desastrosos. Em 2018, a economia argentina sofreu uma queda de 2,5% e, em 2019, o PIB do país deverá ter outra queda de 3,1%, segundo as previsões mais otimistas. Com uma taxa de inflação de cerca de 46%, uma taxa de desemprego próxima dos 10%, e com 32% da população abaixo da linha de pobreza, a Argentina se transforma, pouco a pouco, num país subdesenvolvido, coisa que nunca havia sido. Pelo contrário, no início do século XX, a Argentina era uma das seis economias mais ricas do mundo e, mesmo até a década de 1940, seguiu sendo o país mais rico e homogêneo de toda a América do Sul. E foi só depois dos anos 50 que a Argentina perdeu o impulso econômico da sua Idade de Ouro (1870-1930), enfrentando, desde então, um prolongado processo de fragmentação social e política cada vez mais profundo e radical, que avança na forma de um movimento pendular e repetitivo, que ora aponta na direção liberal, ora na direção do peronismo, mas com a destruição mútua, por cada uma das partes, na rodada anterior.


O Brasil entrou nessa mesma “gangorra”, mas só a partir da crise econômica da década de 1980, que foi sucedida por três governos neoliberais entre 1990 e 2002, e por três governos híbridos, mas mais próximos de um “desenvolvimentismo progressista”, com forte viés de inclusão social e de afirmação da soberania internacional do país, entre 2003 e 2015. E voltou à agenda liberal depois do golpe de Estado de 2015/16, de forma ainda mais radical do que no período de FHC, com a proposta econômica do ministro Paulo Guedes e de sua equipe de velhos alunos da Escola de Chicago. Na verdade, sua reiterada defesa da necessidade de “destruir” completamente a herança desenvolvimentista, lembra muito mais as posições do economista liberal Eugenio Gudin, defendidas no debate que manteve nos anos 1940 com o empresário industrialista Roberto Simonsen, a respeito do papel “correto” do Estado, do mercado e do planejamento no desenvolvimento brasileiro.

Não há dúvida de que o ministro Guedes e sua equipe colocam-se ao lado de Eugenio Gudin, na sua defesa comum da “vocação primário-exportadora” da economia brasileira – o que significaria, nesta altura do século XXI, um verdadeiro salto para trás, para começar tudo de novo, com o objetivo, ou utopia, de transformar o Brasil numa imensa Nova Zelândia. Um projeto muito parecido com o dos presidentes paulistas da República Velha, e com o do governo argentino de Maurício Macri em anos mais recentes. A diferença é que hoje, no Brasil, essa agenda liberal aparece hoje sustentada por uma aliança e um governo formado por grupos de extrema-direita, de militares aposentados, seitas religiosas fundamentalistas, milícias privadas, clubes de tiro e senhoras rezadeiras, financiados pelas elites tradicionais, tutelados pela grande imprensa conservadora e sustentados, em última instância, pelo governo norte-americano.

Esse verdadeiro Frankenstein talvez explique porque o desastre brasileiro esteja acontecendo de forma mais rápida do que na Argentina, o que aumenta a probabilidade de que o Brasil acabe prisioneiro da mesma “gangorra” que condena o país vizinho, e a própria América do Sul, a fazer e desfazer a mesma coisa dezenas de vezes, praticamente sem sair do lugar – ou pior ainda, baixando cada vez mais de lugar. Com a diferença de que, se isto se repetir no Brasil, o processo de desintegração deverá ser muito mais rápido e perverso do que na Argentina, porque o Brasil parte de um nível de desigualdade e pobreza muito maior do que tinham nossos vizinhos no século passado. Neste caso, o mais provável é que o Brasil entre num longo processo de “estagnação secular e precoce” ou, o que é pior, numa prolongada depressão econômica, interrompida por pequenos “soluços expansivos”, incapazes de conter o avanço da desintegração social, que deverá ser cada vez mais violenta e cruel com a imensa maioria da população brasileira, que é a mais pobre e desprotegida. De qualquer maneira, esse será o país que encontrar(ao)emos? pela frente, e será o desafio gigantesco dos novos governantes brasileiros que venham a ser eleitos em 2022 para substituir o atual capitão-presidente, ou qualquer outro personagem de extrema-direita que possa vir a ocupar seu lugar.

Mas atenção, porque o Brasil ainda não está condenado definitivamente a repetir a “gangorra argentina”, nem precisa necessariamente recorrer ao seu mesmo modelo desenvolvimentista do passado. No caso de vitória de alguma coalizão de forças progressistas, é muito difícil antecipar desde já as medidas de política econômica que deveriam ser implementadas para afastar o país do caos, mas uma coisa é óbvia: com as dimensões e a heterogeneidade do Brasil, é uma completa sandice propor uma “refundação neozelandesa” de um país que tem todas as condições de “construir um caminho alternativo dentro da América do Sul, de alguma forma similar ao da economia norte-americana, que conseguiu combinar indústrias de alto valor agregado com a produção de alimentos e commodities de alta produtividade, sendo ao mesmo tempo auto-suficiente do ponto de vista energético.

Para isto, antes que nada, o Brasil terá que mudar radicalmente a sua postura internacional, em particular com relação aos Estados Unidos, que se considera com pleno direito ao exercício da sua soberania dentro de todo o “hemisfério ocidental”. Ou seja, do nosso ponto de vista, a luta por um novo projeto de desenvolvimento para o Brasil terá que começar por uma nova estratégia de poder internacional. Mas se este for o caminho escolhido pelos brasileiros, não há como enganar-se: os novos governantes eleitos em 2022 terão que colocar uma pá de cal em cima da vergonhosa política externa deste governo de extrema-direita, e começar um novo tipo de relacionamento com os Estados Unidos, que será sempre, ao mesmo tempo, de complementaridade, competição e conflito, sobretudo dentro da América do Sul e com relação aos fluxos e recursos do Atlântico Sul. De qualquer forma, e em qualquer caso, o fundamental é que o novo governo brasileiro se oriente sempre, e em primeiro lugar, pela bússola dos seus próprios objetivos sociais, econômicos e geopolíticos Conscientes de que terão pela frente um caminho muito estreito e complicado, e que este caminho tomará muito tempo para se consolidar. Mas ao mesmo tempo, com a certeza de que este é o tempo que tomaram todos os grandes países para construir o seu próprio futuro sem ser humilhados, nem envergonhar-se jamais de si mesmo e do seu passado.

Junho de 2019

José Luís Fiori é professor permanente do Programa de Pós-Graduação em Economia Política Internacional da UFRJ, coordenador dogrupo de pesquisa “Poder Global e Geopolítica do Capitalismo”, e do Laboratório de “Ética e Poder Global”,pesquisador do Instituto de Estudos Estratégicos de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (Ineep).Publicou, “O Poder Global e a Nova Geopolitica das Nações”, Editora Boitempo, 2007 e “História, estratégia e desenvolvimento”, Boitempo, em 2014.

quinta-feira, junho 06, 2019

STF aprova desmonte do setor de energia das estatais brasileiras desde que a entrega seja por fatias através das subsidiárias

Decisão do STF autorizando venda das subsidiárias das estatais premia o fatiamento.
 
É o estilo Jack, o estripador: em partes pode tudo!

Pode vender as joias da coroa, desde que seja em fatias na xepa, na bacia das almas.

E ainda há quem ainda não entenda toda a amplitude do golpe institucional-parlamentar-jurídico-midiático iniciado em 2016.

Aliás, pelo menos os votos de Fux e Barroso, praticamente não tratou dos aspectos referentes às constitucionalidades e outras tecnicalidades do universo das leis.

Se referiu ao discurso único da concepção neoliberal do estado mínimo, da "mão invisível" e toda poderosa do mercado, como se fosse o sujeito.

Assim, na prática, apenas com os olhos e a ditadura do mercado, o direito vai servindo ao poder econômico legalizando o desmonte das estatais, sem se importar se suas decisões servem e atendem aos oligopólios estrangeiros.

Pouco importa que a venda da malha de 2,5 mil km do gasoduto da região Sudeste da subsidiária NTS, depois de dezoito meses, a Petrobras já tenha pago de tarifa pelo uso dos dutos, o valor equivalente ao que recebeu pela sua venda. 

Desmonte do setor de petróleo e elétrico nacional terá controle
simultaneamente re-verticalizado pelas corporações globais oligopolizadas.
Fonte: Tese de doutorado do blogueiro (p.222): "A relação transescalar e multidimensional 
"Petróleo-Porto" como produtora de novas territorialidades". Março 2017 PPFH-UERJ.
Essas grandes corporações ou fundos de investimentos de controle oligopolizados estão assim obtendo com o aval da justiça (politizada) brasileira para assumirem as partes das empresas estatais que trabalham em setores que geram rendas de monopólio - onde atuarão sem concorrência -, em setores estratégicos de uma nação que dessa forma, abre mão de sua soberania.

Desta forma, o país abre mão do controle monopolístico de um setor que será dirigido de forma verticalizada por oligopólio que controlará esses setores de forma global, sem se importar as nações, os seus estados e muito menos o seu povo.


quarta-feira, junho 05, 2019

Convite para o lançamento do livro "A ´indústria´ dos fundos financeiros: potência, estratégias e mobilidade no capitalismo contemporâneo"

Hoje, eu vou usar esse espaço para a divulgação desse livro do próprio autor do blog, embora ele seja em parte resultado de uma produção coletiva, na medida em que se trata de um assunto que venho debatendo em várias mesas-redondas nas universidades e instituições, assim como neste e outros espaço das redes sociais já há algum tempo.

Trata-se de um convite aos amigos e interessados no tema, para o lançamento do livro que é fruto de uma pesquisa - ainda em andamento - e também uma contribuição ao debate, sobre um dos instrumentos da financeirização, que ganhou potência após a crise de 2008.

Embora lançamento mesmo seja só um, o primeiro, a ideia é organizar outros em debates por onde houver convites. Diz questão de que ele ocorresse no Colóquio Espaço-Economia, porque foi nas versões anteriores desse evento (em especial o segundo) que o tema ganhou relevância e pesquisa se começou a se estruturar.

Os fundos financeiros ganharam agilidade para se enraizar e desenraizar em investimentos no território e para se mover entre setores econômicos (frações do capital) e nações (espaço).
O livro impresso já está disponível para venda aqui no site da Editora Consequência e, em breve, também estará acessível em e-book

Agradeço ao PPFH-UERJ e Sindipetro-NF / FUP por compreenderem a importância da temática que resultou no importante apoio para o projeto de editoração e viabilização dessa publicação.

Para sustentar esse convite eu trago abaixo, parte do texto do prefácio generoso da professora Sandra Lencioni que também conta da contracapa (4ª página) sobre o livro:

"Roberto Moraes Pessanha apresenta uma análise da frenética mobilidade dos fundos financeiros no capitalismo contemporâneo no qual as finanças desenvolvem um mundo de ficção em que o valor se confunde com o antivalor, e o capital, com capital fictício. Central no texto, a discussão dos fundos financeiros se constitui na motivação escolhida para nos alertar sobre os riscos da barbárie que nos ronda nessa fase de desenvolvimento capitalista que pode comprometer todo o processo civilizatório que experimentamos até agora. 

O desvendamento que faz busca sensibilizar e motivar os leitores a compartilharem com ele o tema, que permite de maneira indiscutível conhecer os labirintos do capitalismo contemporâneo. Roberto procura compreender o capital em movimento, qualificando-o como helicoidal, um movimento em torno de um eixo que jamais passa por um mesmo ponto e, portanto, não constrói círculos e nem elipses que se fecham em si, mas trajetórias helicoidais em que o plano seguinte do movimento se situa num outro patamar. A imagem é de um movimento em espiral no qual a valorização e a capitalização essa última relativa ao mundo das finanças - se movem em conjunto.

Pessanha se debruça sobre um tema novo que, em geral, não é de fácil interpretação. Seu livro, porém, tem o mérito de permitir o entendimento pelos não especialistas nas finanças, por aqueles que simplesmente querem tornar claro o capitalismo contemporâneo. E porque somente compreendendo este mundo é possível projetar mudanças.

O convite à leitura instigante está feito com a convicção de que este livro tem muito a nos ensinar."

Sandra Lencioni
Professora titular do Departamento de Geografia da FFLCH da USP.