terça-feira, julho 17, 2018

As consequências da venda da Braskem e desnacionalização do setor petroquímico no Brasil

Este blog já tratou deste tema em pelo menos três postagens recentes (aqui, aqui e aqui), mas vai voltar ao tema da desnacionalização do setor de petroquímica que é estratégico para o Brasil. [1] [2] [3]

O petróleo é uma mercadoria estratégica e especial responsável por mais de outros 3 mil produtos. As petroleiras que operam a exploração sabem de seu papel estratégico e por isso atuam em articulação e admitem a coordenação dos seus Estados-nações que se movimentam pelos interesses geopolíticos.

Não é por outro motivo que essa mercadoria especial (o petróleo) está no centro de vários conflitos regionais e geopolíticos no mundo. Há uma luta permanente que busca garantir ao acesso à esta mercadoria e às suas reservas, assim como à sua extensa e potente cadeia produtiva, que envolve ainda a segurança energética das nações e suas populações.

É importante ainda saber que a cadeia produtiva do petróleo vai bem para além da exploração das reservas, produção do petróleo e seu refino(beneficiamento). Mas, o refino é muito importante porque agrega valor com a distribuição e comercialização de combustíveis, mas também porque estas unidades estão cada vez mais integradas à produção de petroquímicos.

A produção de petroquímicos envolve outras gerações de produtos que têm como insumos os derivados imediatos de petróleo, obtidos numa primeira etapa do refino: etileno, polietileno prolipropileno, óxido de propileno, óxido de etileno, etc. Produtos que são bases para uma série de outras indústrias de plásticos, PVC, embalagens, etc. 

A petroquímica aumentará a sua importância à medida que o petróleo deixe de ter a sua maior utilização como energia para o transportes como acontece atualmente. Estima-se que num cenário entre 3 e 4 décadas isso mude, com menor uso do combustível oriundo do petróleo e maior utilização dos veículos elétricos e híbridos.

Assim, a petroquímica passará a ser a principal demanda para uso do petróleo. O mundo todo sabe disto. Por isso, quase todas as novas plantas de refino de petróleo no mundo estão vinculadas às unidades petroquímicas, como é o caso que se vê na China, Índia e até no Oriente Médio.

A holandesa LyondellBasse que está comprando a brasileira Braskem está entre as três maiores petroquímicas do mundo. As duas maiores são a chinesa Sinopec e a americana Exxon. A Braskem com a produção de polietileno e polipropileno é a sexta em termos de produção mundial.

Infográfico do Valor Online em 18 jun. 2018 [4]
Com a incorporação da Braskem pela LyondellBase esta passará a ser a maior produtora do mundo de resinas plásticas. A Braskem tem unidade produtiva em Houston nos EUA e escritórios e várias partes do mundo, para além das bases operacionais no Brasil.

A Braskem no Brasil tem a sua maior planta na Bahia, onde atualmente emprega milhares de funcionários. Possui ainda bases produtivas junto aos polos petroquímicos em São Paulo, Rio Grande do Sul e Rio de Janeiro. Nos EUA, há algum tempo, a Braskem vinha se beneficiando e estava se expandindo usando o barato shale gas (xisto).

As razões da incorporação da Braskem pela LyondellBase vão para além do aumento da produção de petroquímico, e se traduz de uma forma geral, no interesse desta corporação em aumentar a capacidade de controlar preços e boa parte do mercado de petroquímicos no mundo, no qual o Brasil passará a ser dependente. 

A Shell também holandesa, na verdade anglo-holandesa já é a maior produtora de petróleo no Brasil e em 2020 já terá produção maior que meio milhão de barris por dia e poderá ser fornecedora da LyondellBase.

Desta forma, a venda da Braskem significa a perda do controle nacional sobre a produção de petroquímicos, um setor que tende a crescer sua importância na cadeia do petróleo e responsável pela produção de milhares de outros produtos secundários. Com esta venda o Brasil ficará fora de mais um setor estratégico ao desenvolvimento nacional.

É bom lembrar que a Braskem tem o controle da Odebrecht (que foi estraçalhada com as intervenções do judiciário) e da Petrobras. Vale também reforçar o entendimento do aumento do peso dos fundos financeiros sobre as empresas no Brasil, neste momento de crise em que nossos ativos estão “baratinhos”.

A corporação petroquímica holandesa LyondellBasell que está incorporando a Braskem (Odebrecht e Petrobras) é controlada por acionistas tendo entre estes os fundos financeiros (Acess Industries com 18,2% das ações; Fidelity com 8,7%; Vanguard (6,3%) e o fundo americano BlackRock com 5,2%). 

A Braskem é uma empresa controlada pela Petrobras e Odebrecht, sendo que a estatal como co-controladora, possui direito de preferência e de “tag along” (venda conjunta) da empresa. A parte da Odebrecht na Braskem hoje estás nas mãos de bancos credores (Banco do Brasil, Itaú, Bradesco, Santander e BNDES). Eles ficaram com as ações da Braskem como garantia para os R$ 12 bilhões em dívidas da empresa.

A diretoria pós-golpe da Petrobras declarou publicamente, mais de uma vez, o desejo de sair do setor petroquímico e vender (em dinheiro, como desinvestimento), a sua participação na Braskem. Já os atuais gerentes da Odebrecht sustentam que o plano é o de se manter no setor petroquímico, mas trocando sua participação na Braskem por algumas ações da LyondellBasell.

O desmonte do setor petroquímico nacional se insere no contexto do golpe político no Brasil, oriundo do impedimento de um governo eleito, que teve no setor petróleo - e toda a sua estratégica cadeia que envolve ainda outras empresas de infraestruturas de energia (Eletrobras, Furnas e concessionárias) – uma das principais razões.

O documento golpista (“Uma ponte para o futuro”) elaborado por agentes do mercado para o PMDB asfaltar o caminho do impeachment, a pedido de Moreira Franco, atual ministro das Minas e Energia, registra os interesses do mercado na desregulação destes setores, o apetite para acesso a estes ativos por parte das grandes corporações transnacionais, que representam os oligopólios do setor no mundo assim como os grandes fundos financeiros globais.


Referências
[1] Postagem do blog em 16 jun. 2018. Segue o desmonte de toda a cadeia produtiva do petróleo no Brasil. Agora é a petroquímica. Disponível em: 

[2] Postagem do blog em 18 jun. 2018. Mais sobre a desnacionalização da petroquímica no Brasil com a venda da Braskem. Disponível em: 

[3] Postagem do blog em 12 jul. 2018. O movimento da holding Odebrecht explica a pinguela para o passado. Disponível em: https://www.robertomoraes.com.br/2018/07/o-movimento-da-holding-odebrecht.html

[4] Matéria do Valor em 18 jun 2018. Lyondell e Braskem criariam líder mundial. Disponível em: https://www.valor.com.br/empresas/5600519/lyondell-e-braskem-criariam-lider-mundial 

segunda-feira, julho 16, 2018

O petróleo segue sendo base dos interesses americanos, russos e chineses

Este foi o primeiro assunto abordado por Putin e Trump na entrevista hoje, logo após o encontro dos dois líderes, na Finlândia.

Putin e Trump garantiram interesses de suas duas nações na manutenção de um preço médio do barril de petróleo e prometiam manter esta posição.

Fora, os consensos divulgados hoje para efeito de entrevistas, a China tinha garantido há pouco tempo ao Irã, a manutenção e ampliação de sua demanda por petróleo. 

A Rússia, mesmo como grande produtora, como parte de sua geopolítica, pouco antes do encontro com Trump, havia oferecido apoio à indústria de petróleo do Irã com investimentos de até US$ 50 bilhões. 

Fato que manteria o Irã como grande exportador mundial de petróleo, apesar da ameaça de novo embargo dos EUA.

Em meio às entrevistas, Copa do Mundo e outros salamaleques, está claro que a atuação da Rússia e China no Oriente Médio cresce na mesma proporção em que decresce a força dos EUA, vinculado quase que exclusivamente às relações com a Arábia Saudita, que por sua vez, conversa cada vez mais com a Rússia e com a China sua importadora mais forte.

Como se vê, o petróleo segue sendo bases de consenso ou dissenso, mais ou menos, explícitos.

No meio de tudo disto está também a troca paulatina do dólar, como base dos negócios do setor petróleo (o petrodólar) para acordo de comércio em outras moedas como o yene (ou renminbi) e o rublo.

Pela entrevista de Putin e Trump, mais uma vez se vê que a China aparece em todos os horizontes, mesmo que o encontro seja entre Trump e a Otan, Trump e a Coréia do Norte e Trump com Putin.


PS.: Atualizado às 15:24: Ainda sobre o assunto petróleo é bom que se diga que num horizonte entre 5 e 10 anos, a manutenção do preço do barril nesta faixa em torno dos US$ 70, interessa mais à Rússia que aos EUA. O primeiro mantém sua atual estabilidade econômica-social. Enquanto, os EUA estará consumindo boa parte de suas reservas de xisto.

Lá pelo meio da próxima década, a tendência é que os EUA esteja importando mais petróleo do que fazia antes das novas tecnologias de extração de xisto (fracking) no início desta década. Neste momento as reservas de petróleo da Rússia estarão bombando para atender à sedenta China.

Também neste período o nosso pré-sal, agora entregue a preço de xepa, estará mais que nunca, sendo disputado, como as reservas de petróleo dos países do Oriente Médio. 

quinta-feira, julho 12, 2018

O movimento da holding Odebrecht explica a pinguela para o passado

A despeito da necessidade de aperfeiçoar a política e as relações entre o poder econômico e o Estado no capitalismo nacional-tupiniquim, o que se vê é uma reviravolta no movimento das elites econômicas, que retoma de forma radicalizada, o neoliberalismo e a lógica da submissão e dependência do país.

A despeito dos problemas, simplesmente, jogou-se fora o projeto de nação com bases nacionais-desenvolvimentistas, que reconhecia o movimento globalizante e pretendia com inclusão social se inserir em novas arranjos geopolíticos multipolares.

O caso da Odebrecht parece ser um exemplo emblemático. A holding Odebrecht possuía empresas fortes e consolidadas nos setores de infraestrutura, construção pesada e civil, energia, petróleo e gás, petroquímica, etc., onde atuava sozinha com financiamento dos fundos (bancos nacionais) ou em parcerias com outras grandes empresas privadas e estatais.

Após a “onda lavajatista”, a holding Odebrecht decidiu que está deixando de ser uma corporação brasileira com atuação internacional, vinculada ao setor produtivo e passará a ser apenas uma empresa rentista com participações acionárias em alguns de seus antigos negócios, depois que foi estraçalhada com as intervenções do judiciário sobre suas operações ligadas ao poder político no país.

Várias das empresas da holding Odebrecht estão sendo repassadas - no todo ou em partes -para corporações internacionais ligadas a grandes fundos financeiros globais. O Brasil e suas empresas estão “baratinhas”, neste momento de dólar beirando os 4 reais. Os fundos financeiros globais estão com apetite devorando um a um todos estes ativos.

Os questionamentos a este processo não diz respeito apenas ao debate nacionalista que alguns chamam de xenófobo, mas a perda de controle nacional sobre a produção material no país sobre setores estratégicos, como infraestrutura, energia, petróleo, petroquímico, aviação, etc.

Assim, a nação sai menor da “Pinguela para o passado”, aquele documento golpista (“Uma ponte para o futuro”) elaborado por agentes do mercado para o PMDB asfaltar o caminho do impeachment, a pedido de Moreira Franco, atual ministro das Minas e Energia.

Este documento registrava os interesses do mercado na desregulação destes setores, o apetite para acesso a estes ativos por parte das grandes corporações transnacionais, que representam os oligopólios do setor no mundo assim como os grandes fundos financeiros globais.

O resultado de tudo isto não é apenas o perda do controle nacional sobre estes setores, mas a entrega de um mercado fabuloso a corporações e fundos que como oligopólios verticalizados destes setores tomarão decisões e farão imposição de preços.

Nunca serão preços de mercado, mas de oligopólios globais que controlam todo o processo. Os oligopólios decidirão sobre a produção nestas unidades no Brasil quando quiserem, independentes de produtividades na indústria. A automação crescerá e assim teremos também menos empregos, menos arrecadação de impostos, mais crises fiscais resultando em ainda mais arrocho sobre direitos sociais.

Neste movimento dos capitais globais teremos: menos empresas nacionais competitivas; a desindustrialização crescerá; e se verá um avanço ainda maior do rentismo. As elites econômicas apostarão ainda mais em frações de investimentos dos capitais globais sobre o país, para ficar com baixos percentuais deste “capitalismo de laços”.

Este processo está em curso em diversos setores como os citados de energia, petróleo, infraestrutura e logística, construção e finanças. Tudo que leva a um Brasil menor, mais submisso e dependente.

Entender este processo para além da Operação Lava-Jato, das delações “premiadas”, das disputas intercapitalistas, setoriais e geopolíticas é uma necessidade quase que imperial, diante de uma mídia e um judiciário moralistas e sem nenhuma moral nas suas verdadeiras intenções.

Durante todo o tempo, a articulação midiática-jurídica-parlamentar vem fingindo não entender a dinâmica em curso. Este movimento - e sua lógica - nunca pretendeu, como se tem vendido, higienizar as relações entre o poder econômico e o poder político (Estado) e sim tutelar o segundo, conforme os interesses dependentistas e rentistas dos donos dos dinheiros.

Não há nada de modernização, mesmo que conservadora no país. O que está em curso é a radicalização da entrega dos setores estratégicos do país que intensificará ainda mais, a condição dependente do capitalismo tupiniquim brasileiro.

Quanto mais se entende este movimento do capital controlando o poder político e o Estado golpista, mais se fortalece a compreensão da urgência em inverter a direção deste movimento.

quarta-feira, julho 11, 2018

Corrupção na Glencore. Negócios da trading no Brasil

Mais um caso de corrupção de uma grande empresa multinacional vem à tona. Trata-se da corporação Glencore Xstrata plc, de origem anglo-suíça que atua como trading de commodities que inclui mineração, petróleo e derivados.

A Glencore que tem sua sede internacional em Baar, na Suíça recebeu na segunda-feira intimação do governo americano questionando o descumprimento de leis e práticas anticorrupção e lavagem de dinheiro internacionais, referentes a seus negócios na Nigéria, Congo e Venezuela, num período que começaria em 2007 até agora. Por conta destes questionamentos as ações da mineradora estão recuando agora pela manhã cerca de 5% nas Bolsas de Valores. (Ver aqui e aqui)

A Glencore atua no Brasil com sede em São Paulo e unidades em outros oito estados do país, como trading em negócios de importação e exportação, inclusive de petróleo e combustíveis.

Atualmente está em fase de conclusão para a compra da rede Alesat com cerca de 2000 postos de combustíveis em 22 estados brasileiros.

As relações da Glencore com a Petrobras cresceram muito no período recente da gestão de Pedro Parente à frente da estatal, quando esta passou a exportar quase um milhão de barris por dia de petróleo cru e importar derivados e combustíveis. 

Este novo caso da Glencore serve para demonstrar como a corrupção trata-se de negócios que envolve o poder econômico sobre o controle e a regulação do Estado. 

Os seguidos casos de carteis, sonegação de impostos, lavagem de dinheiro e corrupção de agentes públicos das grandes corporações e oligopólios internacionais colocam em xeque os discursos de compliance e sustentabilidade usados por estas corporações que tentam na maioria das vezes culpar apenas os agentes políticos, como se pudesse existir corrupção sem corruptor.

domingo, julho 08, 2018

Delfim questiona perda do protagonismo do Executivo para o Judiciário, a “multiplicação dos centros de poder” e diz que “só a política pode salvar o Brasil”

Delfim Neto é um liberal conhecido. Com autenticidade transita pelo neoliberalismo e bem antes disso, ajudou aos governos militares em diversos ministérios e programas.

Delfim costuma reverberar com grande fluência aquilo que pensa e deseja a elite econômica do país. Em especial a paulista que se considera como sendo singularmente - e em síntese - todo o país.

Assim, vale ler os alguns trechos (para mim principais) do artigo do Delfim Neto aqui na revista Carta Capital da semana passada. O texto teve como título “Só a política pode salvar o Brasil”.

Esta chamada em si, mostra já alguma identidade com o que Delfim Neto diz, mesmo havendo tanta diferenças de concepção e na forma como vemos o mundo.

Vale lembrar que Delfim Neto apoiou o impeachment e acreditou, piamente, que o receituário liberal-econômico era capaz de dar conta dos problemas da nação. Assim, vale ler o que Delfim agora diz, neste momento conturbado da vida do país:

“A administração da sociedade brasileira está se tornando cada vez mais difícil pela perda de protagonismo do Poder Executivo desde o início do segundo governo da presidenta Dilma...

... A crise expôs uma multiplicação de centros autônomos de poder arbitrário, cuja domesticação será muito difícil, porque pode ser confundida com um ataque à Operação Lava Jato...

... A multiplicação dos “centros de poder” levou a confusão ao paroxismo: a judicialização das atividades do Executivo e do Legislativo que aumentou a ficção orçamentária; a politização da Justiça com novas interpretações de uma Constituição analítica (que regula até transfusão de sangue); e, finalmente, a transferência para o Supremo Tribunal Federal, a pedido do setor privado, de atividade típica dos Poderes Legislativo e Executivo. Estes, de bom grado, aceitaram o fato, porque sabem que uma solução, ainda que não seja impossível, tem probabilidade próxima de zero. Muito em breve, o Supremo Tribunal Federal verificará que caiu numa armadilha...

... Esse imbróglio só será resolvido quando o novo presidente da República, o único que será diretamente empoderado pelo voto majoritário da sociedade e, portanto, o único que a representa, nos rigorosos limites da Constituição, convocar um concílio entre os presidentes do Legislativo (cujos membros são eleitos não majoritariamente) e o presidente do Poder Judiciário (escolhidos por concurso ou, em nome da sociedade, pelo poder eleito) para sugerir que cada um recolha seus pseudópodes de abuso do poder e volte a respeitar a Constituição de 1988, não a reinterpretando para atender a uma suposta “vontade do povo”...

... O Brasil encontra-se numa situação social deplorável (um desemprego gigantesco de jovens) e econômica assustadora (um desequilíbrio fiscal muito maior do que a maioria suspeita). Se não as discutirmos com cuidado e entendermos que só um amplo exercício político poderá acomodar, com equanimidade, os sacrifícios que qualquer que seja o novo presidente terá de exigir de todos, ele fracassará antes de começar.”

sexta-feira, julho 06, 2018

Geração de caixa da Petrobras demonstra a falsa necessidade da venda dos ativos, segundo economista da Petrobras

Segundo Cláudio da Costa Oliveira, economista aposentado da Petrobras em artigo publicado aqui no site da Aepet (Associação dos Engenheiros da Petrobras), o quadro de Usos e Fontes apresentado pelo PNG 2018/2022 é um atestado da falta de necessidade de venda de ativos.

Costa Oliveira diz ainda que “para fechar os números com venda de US$ 21 bilhões de ativos (Fontes) foi necessário aumentar o caixa em US$ 8,1 bilhões (Usos). Um absurdo pois o caixa da empresa já é elevadíssimo (US$ 22 bilhões) e a companhia ainda tem a receber US$ 6 bilhões de vendas de ativos realizadas em 2016 e créditos com a Eletrobras de outros US$ 6 bilhões, sem falar no acordo da seção onerosa ainda indefinido.

A Empresa de Pesquisa Energética – EPE aponta que em 2026 a produção da Petrobras alcançará 5,2 milhões de barris/dia. Desde total só o super gigante de Búzios, descoberto em 2010, responderá por 2,4 milhões de barris/dia.

Entre todas as grandes petroleiras do mundo a Petrobras é de longe a de maior eficiência financeira. Sua capacidade de Geração Operacional de Caixa – GOC é inigualável.

O economista Cláudio Oliveira apresenta ainda uma tabela para demonstrar a divisão da Geração Operacional de Caixa (GOC) pela Receita Bruta comparada de importantes petroleiras:


Assim, Cláudio Oliveira finaliza:
“Vejam que mesmo com os subsídios, com a corrupção e a elevada carga tributária, a Petrobras é imbatível. Esta tabela resume a eficiência financeira entre as empresas. É boa para calar aqueles que dizem que a Petrobras é ineficiente.

Dá para imaginar qual não será a Geração Operacional de Caixa desta empresa nos próximos anos. Então como justificar venda de ativos? Impossível. Logo tudo vai ficar muito claro para todos.”

Vamos repetir. Mesmo com a desintegração e desverticalização que já fizeram na estatal com a venda de vários ativos estratégicos, a estatal: "entre todas as grandes petroleiras do mundo a Petrobras é de longe a de maior eficiência financeira".

quinta-feira, julho 05, 2018

Anglo American pode ser vendida a fundo indiano que controla a mineradora Vedanta Resources

Está em curso a negociação para que a mineradora Anglo American passe a ser controlada pelo fundo indiano Volcan Investiments que é dona da Vedanta Resources, mineradora britânica.

Os agentes do mercado falam em fusão das duas corporações que assim totalizariam ativos no valor de US$ 7 bilhões. A Vendanta Resources, teve no exercício de 2016 receita de US $ 15,4 bilhões. Até aqui, o fundo indiano Vedanta Resources já possuía 19,35% do capital social da mineradora anglo-sul-africana Anglo American. [1]

No Brasil, a Anglo American possui dois empreendimentos extrativos-exportadores. Extração de minério de ferro com o projeto Minas-Rio que possui uma mina no município mineiro de Conceição de Mato Dentro e um mineroduto de 522 km até o Porto do Açu, onde exportava para o Oriente médio e Ásia.

Terminal da Ferroport (Anglo e Prumo) no Porto do Açu.
Apres. Corporativa da Prumo em 19 mar. 2018. Slide 7/27.
O projeto de exportação de minério acontece através da joint-venture, Ferroport, junto com a Prumo controladora do Porto do Açu e se encontra parado desde abril, quando dois vazamentos aconteceram no percurso do mineroduto que gerou uma multa de R$ R$ 72,6 milhões. O segundo empreendimento é de extração de níquel numa mina no estado de Goiás.

Há uma semana, a Anglo American no Brasil anunciou o rompimento de um contrato de 20 anos estimado em US$ 1 bilhão, para fornecimento de minério de ferro para a empresa Bahrain Steel do Oriente Médio que previa a entrega de 13 milhões de toneladas de minério de ferro por ano. [2]

A suspensão do contrato com o Bahrain ressalta a gravidade dos problemas da Anglo com o projeto Minas-Rio e pode ter relação direta com a negociação com o fundo e a mineradora indiana, visando trocar lideranças e controles do projeto.

Dois estudos e publicações sobre os problemas e impactos socioambientais do Sistema Minas-Rio foram produzidos por pesquisadores. Em 2014, o Ibase, Associação de Geógrafos Brasileiros (AGB), o Grupo de Estudos em Temáticas Ambientais (GESTA) da UFMG, da UFF e do IFF produziram a publicação “O projeto Minas-Rio e seus impactos socioambientais: olhares desde a perspectiva dos atingidos” que colaborei com um dos capítulos da publicação. [3]

Agora, em 2018, o um trabalho de pesquisa e extensão conduzido pelo programa transdisciplinar Polos de Cidadania, sediado na Faculdade de Direito da UFMG, desde 2015, sobre os conflitos e efetivação dos direitos humanos do projeto Minas-Rio produziu a publicação “Violências de mercado e de Estado no contexto do empreendimento minerário Minas-Rio”. A publicação que pode ser acessada aqui, se baseia em um trabalho conduzido entre maio de 2015 e dezembro de 2017, pelos pesquisadores que também acompanharam situações vivenciadas pelas comunidades afetadas pelo empreendimento. O livro traz relatos orais de moradores e trechos de atas de reuniões e de documentos de órgãos ambientais que têm relação com os problemas elencados. São duas publicações interessantes e complementares para se entender o contexto de implicações sócio-territoriais do empreendimento da Anglo American. [4]

A fusão das corporações reforça ainda o aumento do controle dos fundos financeiros sobre a produção material no Brasil, assim como a oligopolização das atividades vinculadas à extração de produção de commodities em todo o mundo.

O controle sobre alguns empreendimentos nem sempre estão vinculados à ampliação da produção, mas ao controle sobre o mercado e formação de valor.

Por isso, o acompanhamento do movimento do capital explica melhor as consequências sobre a repercussão espacial daquilo que é produzido no território que no caso do negócio das commodities tem implicações globais e menos locais.

É ainda interessante observar a movimentação do controle do capital sobre o empreendimento do Sistema-Minas-Rio desde a sua elaboração como projeto por Eike Batista na empresa MPX e depois MMX, a sua venda para a mineradora anglo-africana Anglo American, a transformação do projeto em unidade instalada com a mina, duto e terminal portuário no Açu e agora, o provável repasse do controle a um fundo financeiro indiano com atuação no setor extrativo-mineral.

Cada um destes movimentos produz impactos sobre o território com repercussões sobre as populações. Raramente estes movimentos transescalares conseguem ser bem compreendidos pelos lugares em que as instalações fixas dos empreendimentos são localizadas.


Referências:
[1] Matéria do Valor em 4 de jul. 2018. Ações da Anglo sobrem com notícias de fusão com grupo indiano. Disponível em: https://www.valor.com.br/empresas/5637627/acoes-da-anglo-american-sobem-com-noticias-de-fusao-com-grupo-indiano

[2] Matéria do portal G1 em 27 jun. 2018. Anglo American suspende contrato com Bahrain Steel após vazamento em MG. Disponível em: https://g1.globo.com/economia/noticia/anglo-american-suspende-contrato-com-bahrain-steel-apos-vazamento-em-mg.ghtml

[3] Publicação Ibase-AGB em mar. 2014. O projeto Minas-Rio e seus impactos socioambientais: olhares desde a perspectiva dos atingidos. Disponível em: https://issuu.com/ibase/docs/liv_ibase_minerio_final4

[4] Publicação do Projeto Polos de Cidadania da Faculdade de Direito da UFMG em maio 2018.  Faculdade de Direito da UFMG. Violências de mercado e de Estado no contexto do empreendimento minerário Minas-Rio. Disponível em: http://polosdecidadania.com.br/biblioteca/violencias-de-mercado-e-de-estado-no-contexto-do-empreendimento-minerario-minas-rio-conceicao-do-mato-dentro-mg-2015-2017/

PS.: Atualizado às 20:12: Para corrigir no 5º parágrafo que a Anglo American anunciou "o rompimento" de um contrato de 20 anos estimado em US$ 1 bilhão, para fornecimento de minério de ferro para a empresa Bahrain Steel.

quarta-feira, julho 04, 2018

GE e Phillips repetem na saúde do Rio, os esquemas de cartel do setor de transportes em São Paulo e as ações sobre o setor de óleo e gás

A americana GE, a holandesa Phillips e outras corporações que atuam no setor de saúde no ERJ e Brasil vinham praticando cartel para superfaturamento e controle do mercado de equipamentos de diagnósticos e tratamento.

Repete-se o esquema de corrupção do setor de transporte ferroviário e metroviário em SP, no esquema que ficou conhecido como o "trensalão tucano", que envolvia a alemã Siemens, a francesa Alstom, a canadense ADTranz (Bombardier), a espanhola CAF e a japonesa Mitsui. Nada diferente do que se viu no setor de óleo e gás e que envolvia também as empreiteiras que faziam construção e montagens de grandes obras de infraestrutura.

Será que ainda há quem avalie que só a política e o gestores são responsáveis pelos desvios? Carteis e controles dos mercados são ações que dizem respeito às corporações que também seguem sendo questionadas sobre pressões para obterem isenções e subsídios fiscais de governos, autorizações para rápidos licenciamentos com menores regulações e até financiamentos a juros baratos para os seus projetos.

Os casos se sucedem e não são apenas no Brasil. Vem acontecendo com frequência no centro do capitalismo EUA, Alemanha, Japão, Inglaterra, etc. A visão colonizada aqui nos trópicos é que tenta passar a ideia de que se trata de problemas das nações periféricas.

Como se percebe não são casos isolados. Eles demonstram uma lógica, e um "modus operandi" em diferentes espaços e em várias e seguidas situações que envolve também as "contabilidades criativas" fáceis de serrem implantadas com as suas ações globais e supranacionais.

Sempre relações entre o poder econômico e o político para obter vantagens do estado. Os oligopólios e controles do mercado são sempre das grandes corporações que costumam discursar sobre “compliance”, responsabilidade sócio-ambiental, sustentabilidade, etc. tudo que acaba na defesa da privatização e da autonomia de atuação em relação às regulações do Estado.

A exposição destes novos casos deveria servir de reflexão para quem julga que o problema é apenas da política que exige um salvador da pátria. Assim, seguem desmontando a nação e entregando a estes mesmos do mercado e das corporações as nossas empresas estatais e o controle da nossa economia e das ações de regulação do Estado brasileiro.

PS.: Atualizado às 18:06 e 18:18: É ainda oportuno que se diga que este esquema de cartel no setor de equipamentos médico-hospitalares vai apara além da venda aos governos estaduais e envolve também os municípios-pólo ou de médio porte que atendem em hospitais de referência às populações regionais. O número de fabricantes é pequeno e formam oligopólio e/ou monopólio quando operadores preferem sempre as mesmas marcas.

Além disso, envolve também a questão da manutenção destes caros equipamentos sempre nas mãos de empresas ligadas aos próprios fabricantes, o que reduz o ciclo de vida dos mesmos, e a necessidade de novas compras e reposição empurradas pelos fabricantes do cartel.

Sobre o assunto, recordo-me em especial de uma proposta de técnicos da Unicampi, junto ao MEC, no final da década de 90, quando identificaram os gastos bilionários com compras desnecessárias de equipamentos. A proposta visava que as ETFs/Cefets implantassem cursos técnicos de manutenção de equipamentos hospitalares, quando era gestor do Cefet Campos. Professores fizeram cursos na Unicampi. Cursos e disciplinas foram implantadas, mas os fabricantes de equipamentos emperraram a profissão em termos de atuação prática.

Os fabricantes nunca tiveram interesse em ampliar a vida útil dos equipamentos, evitando custos de milhões de reais desnecessariamente para as gestões públicas. Era melhor criar as condições para vender novos e mais caros equipamentos, para os quais a propaganda e o marketing são sempre essenciais.
O assunto é vasto e tem várias dimensões para serem analisadas e investigadas.

Talvez, a cena atual da política brasileira possa ser melhor explicada na psicanálise

Observando as últimas cenas do panorama político embrulhado do Brasil e refletindo um pouco mais sobre o protagonismo atual do judiciário brasileiro na vida da nação, começo a crer que mais do que a política, no caso de alguns ministros do STF, o ódio ao ex-presidente Lula, pode ter mais explicações na psicanálise do que na política.

Seria como se estivessem respondendo com alguns de seus atos (em especial Fachin, Carmem Lúcia, Fux e Barroso), como que desejando pontificar que por seus méritos e competências, eles nunca precisaram do ex-presidente para ser o que imaginam que são.

Se fosse uma querela pessoal, freudiana ou lacaniana, seria menos mal.

Porém, para pontificarem estes seus “méritos” diante da mídia-espelho, eles se abraçaram ao estado de exceção e à entrega das riquezas da nação à dependência consentida e reafirmada do mercado, sem nenhum pudor, assumindo para isso, narrativas que antes negavam.

Entre imaginários e inconscientes, oh, malditos espelhos!


sexta-feira, junho 29, 2018

O que os municípios petrorrentistas podem aprender com quem não vive esta dependência

Eu tenho questionamentos em relação a alguns dos critérios do IFDM (Índice Firjan de Desenvolvimento Municipal), mas entendo que, em determinados casos, ele pode ser usado para fazer análises comparativas. Assim como o Índice Desenvolvimento Humano (IDH) criado pela ONU e que também possui uma versão para analisar e rankear os municípios.

O IFDM também trabalha com três indicadores básicos: educação, saúde e emprego-renda que difere do IDH que usa longevidade para avaliar saúde. O IFDM também varia de 0 a 1. De 0 a 0,4 é baixo; 0,4 a 0,6 regular; 0,6 a 0,8 moderado e 0,8 a 1,0 alto.

Ontem, seus organizadores divulgaram o IFDM 2016. Há várias observações comparativas interessantes de serem feitas. Porém, vou iniciar com uma interpretação que me chamou a atenção.

Apenas dois municípios do ERJ - que vive enorme crise econômica, social e fiscal – apresentaram alto desenvolvimento: Itaperuna e Nova Friburgo, primeiro e segundo colocado respectivamente no ranking do ERJ. Em 2013 eram 15 municípios nesta situação.

No plano nacional, Itaperuna e Nova Friburgo estão, respectivamente, na 265ª e 346ª colocações, enquanto Campos dos Goytacazes, por exemplo, está em 28ª colocação no estado e 1.691ª colocação no ranking nacional.

A situação em outros municípios petrorrentista: Macaé está 16ª colocação no ERJ e 1.084ª no país. SJB é 34ª no ERJ e 1,942ª posição no ranking nacional. Maricá que agora tem enorme e crescente receita de royalties do petróleo está 49ªposição no ERJ e 2669ª no ranking nacional.

Vale observar que nem Itaperuna e nem Nova Friburgo possuem grandes orçamentos e nem são petrorrentistas com as goradas receitas dos royalties do petróleo.

O caso serve para reforçar o que eu tenho dito em alguns debates por onde tenho ido discutir temas relacionados ao desenvolvimento regional: ao contrário do que muitos pensam os municípios não petrorrentistas, incluindo os da região Noroeste Fluminense, tem muito a ensinar, em especial, aos petrorrentistas que dizem querer viver de forma menos dependente destas rendas. 

As eleições estaduais e o protagonismo pouco conhecido dos governadores

Impressiona o fato de que a pouco mais de três meses das eleições gerais e que envolve os executivos estaduais, nada ou pouco, se saiba sobre as intenções em termos de programas, ou pelo menos de ideias dos candidatos a governador.

Ao contrário do que muitos pensam, o executivo estadual tem um protagonismo muito grande, tanto sobre o desenvolvimento dos municípios, quanto, na escala cima, no governo federal.

É a escala intermediária de governo. Muitas vezes eles se colocam entre as duas esferas de poder, seja para articular políticas ou para mediar interesses de uma com a outra. Porém, eles são mais que isto em termos estratégicos seja político, seja econômico.

São os governadores que lideram suas bancadas no Congresso. Porém, mais importante que isso, são os governadores aqueles que são procurados pelos investidores para facilitar o acesso ao território para investimentos em projetos de produção material e prestação de serviços.

São os governadores facilitam as licenças ambientais e as autorizações junto aos prefeitos para autorizações de uso do solo. Mediam isenções e/ou subsídios de impostos territoriais e urbanos e serviços, muitas vezes, após disputa que estimula entre os municípios agindo em nome das corporações.

No plano estadual, os governadores promovem as isenções do ICMS e costumam carregar nos braços os investidores para a facilitação de licenças federais e financiamentos dos agentes financeiros sob o seu controle.

Quer lembrar um caso marcante sobre essa relação? Lembre Sérgio Cabral no Estado do Rio de Janeiro, com os R$ 138 bilhões de isenções fiscais e relações promíscuas com investidores e empresários.

O federalismo brasileiro tem um déficit de articulação supramunicipal e infraestadual, que faz com que os prefeitos, assim como os governadores na suas escalas, trabalhem de forma concorrencial e, quase nunca de forma articulada, em consórcios setoriais e regionais com políticas públicas complementares que busquem a eficiência nos programas e projetos públicos.

Os governadores abdicam deste papel de articulação das ações regionais, em nome de políticas eleitorais pontuais que têm como base as alianças partidárias e quase nunca os projetos regionais que ampliem a eficiência da máquina e dos serviços públicos.

Novamente vale puxar o "case" do ERJ, onde diferentes governos, desde Marcelo Alencar, Garotinho/Rosinha, Cabral/Pezão, preferem a cooptação dos prefeitos em projetos financiados, pelo conhecido PADEM (Programa de Apoio do Desenvolvimento Municipal) que atende a pedidos por construções isoladas de estradas, rodoviárias e outros equipamentos públicos, em detrimento do financiamento de políticas que busquem e valorizem a integração regional com políticas públicas consorciadas.

Em contraponto ao caso do ERJ, vale observar o que o estado da Bahia, sim Bahia, no Nordeste brasileiro vem fazendo em termos de consórcios e integração regional. São vários casos bem sucedidos e interessantes, mesmo que ainda falte muito por ser feito, em termos de demandas sociais. Vale lembrar que a referência vale para se conhecer e não copiar, porque a realidade e os territórios são distintos. 

´E neste contexto, que argumento e reclamo da falta deste tema no debate político eleitoral dos candidatos a governador nos diferentes estados da federação. Em especial, no RJ, onde o estado vive uma profunda crise econômica, social e fiscal e o debate segue raso, fisiológico e ao gosto das corporações.

No ERJ este tema e debate são essenciais e não apenas importantes, por isso exponho aqui este breve e simples alerta, como sugestão, mesmo que o tempo seja exíguo.

As eleições nacionais junto das estaduais não têm ajudado nesta direção. Porém, é dever nosso - como cidadão - tentar fazer com que o debate das políticas públicas possa avançar, para além da mediocridade que tem sio vista na maioria dos estados.

quarta-feira, junho 27, 2018

Fundo americano EIG - dono do Porto do Açu - fez oferta para compra do polo de Enchova da Petrobras na Bacia de Campos

A informação do interesse da EIG Global Energy foi veiculada aqui pela agência Reuters e diz que outro fundo financeiro americano, o Warburg Pincus quer ficar com o campo de Pampo, também na Bacia de Campos. [1]

O apetite destes fundos (e bancos) americanos é grande. O conhecido fundo Carlyle e o banco Goldman Sachs também manifestaram interesses em financiar aquisições de campos de petróleo no Brasil.

Isto tem uma lógica não apenas comercial e de investimentos, mas geopolítica e estão vinculados aos interesses dos EUA. O assunto mesmo que não divulgado abertamente foi assunto tratado no encontro ontem do vice-presidente americano Mike Pence ao Temer em Brasília. Segundo matéria da revista Exame: “A China será um dos tópicos de discussão e o vice-presidente deverá ressaltar o papel dos EUA como parceiro comercial e fonte de investimentos para o Brasil.” [2]

Os interesses geopolíticos dos EUA se relacionam ao enfrentamento global e comercial entre os EUA e a China. Sabe-se que os setores de alimentos e energia são os de mais forte interesses da China e nos quais os EUA possuem forte atuação, assim como o Brasil. É ainda bom recordar que três companhias petrolíferas chinesas estão avançando em ritmo forte a sua atuação no Brasil.

Estas decisões seguem o movimento que venho comentando sobre o aumento da participação de fundis financeiros internacionais pelos ativos de petróleo da Petrobras que vêm sendo fatiados e vendidos numa velocidade inimaginável.

O polo de produção de petróleo de Enchova na Bacia de Campos inclui os campos Marimba, Enchova, Bonito, Enchova Oeste Bicudo e Pirauna e possuem atualmente, 32 poços produzindo um volume de 25,1 mil barris de óleo equivalente por dia (óleo + gás).

É certo que este interesse do fundo EIG controlador da Prumo e do Porto do Açu se relaciona ao adensamento do projeto do polo de gás natural que está sendo construído no Açu, que previa, inicialmente, a importação de gás liquefeito (LNG) e uma unidade de regaseificação.

Mapa sobre campos à venda pela Petrobras. Fonte: energyway.com.br
O projeto pretende atender com gás natural a geração de energia, através de uma usina Termelétrica (UTE), além de um ramal de gasoduto que ligará o Porto do Açu ao ramal do gasoduto Gascav (que sai de Macaé para Vitória, ES e Bahia), na localidade da Tapera em Campos dos Goytacazes.

O campo de Enchova é de onde sai um dos gasodutos que ligam ao polo de processamento de gás natural em Cabiúnas, Macaé e de onde sai o gasoduto que passa por Campos e depois vai para Vitória e Bahia como mostra o mapa ao lado. (Clique na imagem para ver em tamanho maior). Os fatos mostram como o polo de Enchova é estratégico para a holding Prumo, controlada pelo fundo EIG e dona do Porto do Açu. 

O polo de produção de petróleo de Enchova e Pampo são classificados como campos maduros em águas rasas e foram colocados à venda pela Petrobras, neste pacote de desintegração de desverticalização dos seus investimentos que a direção atual chama de desinvestimentos.

É certo que esta desmobilização da estatal em campos de petróleo na Bacia de Campos terá repercussão sobre o emprego direto e indireto da Petrobras.

As informações obtidas pelos fundos de investimentos americanos, que monitoram em detalhes o setor petróleo em todo o mundo, tem relação com o potencial destes campos e com o fato de novas reservas de petróleo estarem se escasseando. E é sempre muito melhor, mais rápido e econômico adquirir reservas já exploradas do que investir na procura de novas reservas.

Para isso, usa-se poderes geopolíticos de controle sobre empresas e nações.

No caso do Bacia de Campos é sempre bom recordar que a reserva do pré-sal está abaixo destes campos de petróleo do pós-sal e portanto, se torna uma fronteira petrolífera com potencial que vai muito para além dos campos maduros que estão sendo adquiridos a preços de fim de feira. Veja o mapa abaixo para melhor compreensão sobre estas intenções. O blog retornará ao assunto.

Mapa do pré-sal.





























Referências
[1] Matéria da Agência Reuters, em 26 de jun. 2018. EXCLUSIVO-EIG e Warburg Pincus participam de ofertas por campos maduros da Petrobras.  Disponível em: https://br.reuters.com/article/businessNews/idBRKBN1JM27S-OBRBS

[2] Matéria Exame em 26 jun. 2018. Vice-presidente dos EUA se reúne com Temer em sua primeira visita ao país - O presidente Michel Temer se reuniu com o Mike Pence e os líderes conversaram sobre a crise imigratória da Venezeula, cooperação espacial, defesa e comércio. Disponível em: https://exame.abril.com.br/brasil/vice-presidente-dos-eua-se-reune-com-temer-em-sua-primeira-visita-ao-pais/

PS.: Atualizado às 10:20: para breve acréscimo no texto.

terça-feira, junho 26, 2018

Até a quantidade passos que você dá e seus hábitos de sono são monitorados pelo big-data

Hoje, não só os comentários e as curtidas que se dá nas redes sociais estão sendo guardadas e interpretadas pelos algoritmos nos big-datas.

Quem acompanha estes big-datas mais de perto garante que também o número de passos que damos, assim os nossos hábitos de sono, que são identificados nos dados do smartphones, são armazenados.

Segundo os mesmos, a extração e coletas de dados está apenas começando e já se acelera numa velocidade até há pouco não imaginada. E o destino não será apenas para marketing e comércio.

Esta base de dados seria apenas uma espécie de espinha dorsal deste novo mundo que está sendo construído ao nosso redor, sem que nos apercebamos. As implicações de longo prazo não são ainda identificáveis.

Os mais otimistas garantem que a privacidade estaria garantida e que os dados extraídos, armazenados, utilizados são compreendidos sem que a pessoa específica seja identificada. Quem acredita nisto, pode ser considerado o mais crédulo dos homens que já habitaram este mundo.

Falam em dados confidenciais e pessoais que seriam usados ​​para melhorar nossas vidas e as vidas das futuras gerações com o uso de uma criptografia chamada de “blockchain”. 

Dizem que as ações são gravadas, a informação seriam auditáveis e palatáveis, permitindo que os seres humanos possam obter mais conhecimento sobre as mentes robóticas. 

Chegam a se referir a organizações autônomas descentralizadas” (DAOs), com um conjunto de dados crescente e um meio que seria seguro para transferir dados. 

Mesmo não sendo brucutu analógico é difícil acreditar que este novo mundo líquido possa nos levar a lugares seguros e mundo melhor.

domingo, junho 24, 2018

Dúvidas de investidores sobre quando haverá o pico da demanda mundial de petróleo pode estar aumentando os riscos de abastecimento e de explosão do preço do barril já na década de 20. O que o pré-sal tem a ver com isto?

Fundos de investimentos que bancam o setor econômico do petróleo no mundo avaliam, junto com as operadoras-petroleiras, os riscos e as preocupações com o futuro do setor. Em resumo é isto que nos traz a matéria do Financial Times reproduzida pelo Valor Online neste sábado (ver aqui) que tem o título: "Grandes petroleiras enfrentam questão de “vida ou morte”.

O pico da demanda de petróleo (e combustíveis) estaria próximo? Se estiver próximo, o melhor seria não investir mais em projetos de exploração caros e de longo prazo.

Porém, de outro lado, a demanda mundial nunca esteve tão grande, se aproximando rapidamente dos 100 milhões de barris por dia. Cresce na razão de 1,7 milhão de barris por dia desde 2014, que é o dobro do ritmo do início da década, quando o barril do petróleo estava a US$ 100.

Essa preocupação com a redução da demanda e com o pico do maior consumo mundial já levam a uma redução dos investimentos e no abandono de projetos complexos e de longa duração.

O resultado óbvios disso é o aumento exponencial dos riscos da escassez, que assim poderia ocorrer já nesta próxima década, com menos projetos de produção e redução das descobertas de campos petrolíferos de grande potencial assim como das reservas de petróleo mais viáveis.

Atualmente há queda mundial de mais de 40% nas perfurações convencionais em terra entre 2014 e 2016. Entre 2010 e 2015, os investimentos totais em bens de capital dos grandes grupos de petróleo e gás, na fase de expansão do ciclo do petróleo, chegaram a 875 bilhões. Abaixo infográfico publicado junto da matéria do FT.

























Já na segunda metade desta década, conforme se vê no infográfico acima, os investimentos caíram para quase a metade, US$ 443 bilhões, embora a redução de custos desta indústria, tenha levado ao aumento da produção das grandes petrolíferas, estimado em média, em 3,5% por ano entre 2017 e 2020.

A importância do Pré-sal
Em resumo, o cenário tratado pelo experiente especialista do setor Anjli Raval do Financial Times é de que os riscos de investir nas petroleiras pode levar a estoques de reservas que podem ficar sem uso e produção. Já os riscos em não se investir pode, levar à escassez o que levaria o preço do barril de petróleo - em novo ciclo petro-econômico - a um patamar que tumultuará a economia mundial e desarranjará o consumo (demanda) pelo alto preço do combustível.

A reportagem cita entre outros especialistas, Tony Hayward, ex-executivo-chefe da BP e hoje presidente do conselho de administração do grupo de mineração e comercialização de commodities Glencore que coloca em dúvida a estratégia das grandes petrolíferas e disse ao Financial Times que “observando a trajetória, mais provavelmente o que teremos no início dos anos 20 é uma escassez de oferta".

Observando este quadro, em resumo, eu fico cada vez mais convencido que, a despeito das dúvidas sobre investimentos de bilhões de dólares e sobre quando ocorrerá, de fato, o pico de demanda por petróleo - que será seguindo de aumento do consumo das energia não convencionais – é de como as reservas do pré-sal são estratégicas para todo o mundo.

Diante desta realidade exposta pela análise feita pela matéria do Financial Times (que aconselho que seja lida na íntegra) se vê que as reservas do pré-sal são ainda muito mais valiosas do que até aqui se poderia imaginar.

Tratam-se de áreas conhecidas, campos com potencial avaliados e projetos já desenhados e em andamento. Áreas com potencial e custos já identificados e possíveis de serem rapidamente explorados, ao contrário de outras áreas pelo mundo. Entregar toda essa joia da coroa a preço vil é muito mais que um equívoco: é um crime de lesa-pátria.

sábado, junho 23, 2018

"Sem poderes, qual democracia?" por Nilson Lage

O professor Nilson Lage em seu perfil do FB fez uma boa análise do Estado pós-democrático no capitalismo contemporâneo:

"O esvaziamento do Estado democrático é o que mais põe em risco, atualmente, a democracia. Não se trata mais de disputar o seu controle, mas de retirar-lhe poderes: inicialmente, o de julgar, transferido a corporação técnica que manipula o Direito para corrigir a lei; o mesmo com a economia, que passa a ocultar com discurso esotérico interesses de negócio. O projeto de globalização concebido há pouco menos de meio século prevê substituição similar das funções, antes atribuídas ao Estado, de regular atividades produtivas, gerir monopólios naturais (como a coleta e distribuição de de água ou energia elétrica) e serviços oferecidos aos cidadãos, da educação à prevenção de doenças e atendimento médico. Restarão a coleta de impostos."

Vale conferir na íntegra o texto que posto abaixo.


Sem poderes, qual democracia?
A ideia veio de sociedades tribais, mas prosperou em Atenas: o governo, não de um guerreiro ou clérigo, mas do conselho de cidadãos reunidos em assembleia. Deu-se bem na cidade portuária habitada por comerciantes e pescadores, cercada de outros pequenos estados gregos potencialmente agressivos. Permitiu-lhe prosperar – até que, em decorrência da prosperidade, diversificou-se a economia, amiudaram-se os conflitos de interesse e a população cresceu com a incorporação periódica de levas de imigrantes. 

Diante de milhares de pessoas reunidas na ágora, a praça parlamentária, oradores terciam argumentos. Como havia em jogo dinheiro e poder, demagogos – líderes do povo – inventaram o raciocínio falseado, os sofismas, e as alavancas de persuasão, as falácias. Mas não só por isso o apogeu da Atenas democrática aconteceria sob a ditadura de Péricles: também porque os generais não podiam debater de público as estratégias do exército, nem os magistrados, sem constrangimento, pendências delicadas, nem os financistas as malandragens do comércio. 

Daí a solução de se elegerem colegiados dirigentes. Dentre todos os estados da Antiguidade que pretenderam adotar este modelo, Roma foi o que mais o aperfeiçoou, desenvolvendo, paralelamente, até o requinte, a arte da demagogia: o apoio popular é o melhor suporte de qualquer governo, discricionário ou não.

O que se comprova da larga experiência acumulada desde então é que não existe nem “estado democrático” acabado nem “regime democrático” perfeito. Se o povo jamais governa diretamente, o poder deverá ser exercido “em nome do povo” e “em benefício do povo”. A representação popular e a orientação das políticas públicas são questões em aberto em sociedades de classes, nas quais, por definição, o conflito de interesses é permanente; deverão ser equacionadas a partir das circunstâncias, do espírito da época, e da representação que cada nação faz de sua história.

No pensamento político moderno, predomina visão individualista de democracia, decorrente da hegemonia burguesa e saxônica. A liberdade dos cidadãos, considerada bem supremo, é vista como permissão, não como possibilidade concreta: autoriza-se, o mais das vezes, o que, para a maioria, é inviável. O homem radicalmente livre é o mais inseguro e, portanto, o mais agressivo; a rebeldia é proposta como seu espaço: o Estado, ao estabelecer limites e conter privilégios, o inimigo visível.

O esvaziamento do Estado democrático é o que mais põe em risco, atualmente, a democracia. Não se trata mais de disputar o seu controle, mas de retirar-lhe poderes: inicialmente, o de julgar, transferido a corporação técnica que manipula o Direito para corrigir a lei; o mesmo com a economia, que passa a ocultar com discurso esotérico interesses de negócio. 

O projeto de globalização concebido há pouco menos de meio século prevê substituição similar das funções, antes atribuídas ao Estado, de regular atividades produtivas, gerir monopólios naturais (como a coleta e distribuição de de água ou energia elétrica) e serviços oferecidos aos cidadãos, da educação à prevenção de doenças e atendimento médico.

Restarão a coleta de impostos, a serem repartidos entre os novos senhores, e o poder de coerção, este regido basicamente por diretrizes supranacionais – oriundas de centros que, detendo sabedoria irrecorrível, restarão fora de qualquer controle que reflita a dialética social.

quarta-feira, junho 20, 2018

A eletrificação dos carros no capitalismo lubrificado pelo petróleo

Segundo a Agência Internacional de Energia (AIE), em 2017, as vendas globais de veículos elétricos aumentaram 54% e ultrapassaram 1 milhão pela primeira vez. Assim, o quantidade de carros elétricos no mundo chegaram a 3 milhões de veículos.

Parece muito, mas é apenas 0,3% do total estimado em 1 bilhão de automóveis hoje no mundo. Desta forma, a eletrificação do transporte individual avança, mas ainda em velocidade pequena para dar conta do total da frota e do consumo do petróleo que tende a se manter forte por um período de pelo menos meio século.

O material para as baterias mantém seu custo alto. Problemas com o descarte das baterias, pontos de eletrificação (carregamento) e a demanda da energia elétrica são problemas que terão que ser resolvidos aos poucos. Assim, ainda estamos longe da massificação dos chamados carros de passeio.

Além disso, o consumo de combustíveis com o transporte que está também vinculado ao transporte de massa de materiais e pessoas é uma outra dificuldade, onde a eletrificação está um pouco mais distante para atender grandes caminhões, enormes navios petroleiros, graneleiros e contêineiros e aviões para viagens intercontinentais.

Porém, o avanço da produção, com o uso de carros elétricos e a produção de energia solar e eólica tenderão a atender parte do crescimento da demanda que ainda se tem dos combustíveis fósseis. Desta forma, ainda estão longes de substituir o atual consumo diário de quase 100 milhões de barris por dia.

Este fato ajuda a explicar a influência ainda grande da geopolítica do petróleo no mundo. Como lembra o professor alemão, Altvater, até lá o capitalismo, infelizmente, tende a continuar sendo lubrificado pelo petróleo.

No meio de tudo isso, as reservas estão ficando mais escassas e esta cada vez mais caro explorar e extrair petróleo. Os EUA e a China sabem disso. Diante desta realidade o nosso pré-sal como maior fronteira petrolífera descoberta na última década no mundo é uma das maiores fontes de cobiça em termos de geopolítica da energia.

segunda-feira, junho 18, 2018

Mais sobre a desnacionalização da petroquímica no Brasil com a venda da Braskem

Na última sexta-feira (15 jun. 2018), eu comentei aqui neste espaço sobre o assunto com a nota de título "Segue o desmonte de toda a cadeia produtiva do petróleo no Brasil. Agora é a petroquímica". Porém, é um tema que merece ser mais detalhado e aprofundado.

A corporação holandesa LyondellBasell, petroquímica que está em acordo para incorporar a Braskem (Odebrecht e Petrobras) é controlada por acionistas tendo entre estes os fundos financeiros (Acess Industries com 18,2% das ações; Fidelity com 8,7%; Vanguard (6,3%) e o fundo americano BlackRock com 5,2%).

Como se percebe o movimento que se assiste no controle das corporações mundo afora são dos fundos financeiros, interpretação que venho construindo com estes dados empíricos como argumentos que explicam o fenômeno.

A incorporação da Braskem reforça este movimento sobre "o Brasil baratinho" nesta fase de baixa do seu ciclo econômico. Ver aqui outra postagem do dia 15 de junho de 2017: A sede dos fundos sobre um Brasil baratinho!

A Braskem vale hoje em trono de R$ 50 bi e seus papéis tiveram valorização só na sexta-feira de cerca de 20%. Já a holandesa LyondellBBasell é avaliada na bolsa de Nova York no valor de US$ 45,7 bilhões, quase quatro vezes maior que a Braskem a quem está incorporando.

Infográfico do Valor Online.
O resultado da incorporação é a constituição de enorme oligopólio com uma líder global de resinas termoplásticas do mundo. Como a Braskem e Lyondell possuem ativos complementares, o porte do oligopólio que ultrapassará a chinesa Sinopec e a americana ExxonMobil se tornará uma concentração absurda, que terá poder enorme sobre o mercado em que atuam. Para ampliar este espectro, diz-se que a Lyondell se interessou pela Braskem pela capacidade na produção de aromáticos e solventes que são importantes na produção de tintas e colas.

Além disso, a Lyondell poderá comprar sua matéria prima (petróleo ou seus subprodutos eteno e propeno) para produzir o polietileno (PE) e prolipropileno (PP) - ambos derivados do eteno - de outros fornecedores que não a Petrobras, como por exemplo da anglo-holandesa Shell que hoje já é o segundo maior produtor de petróleo do país, se aproximando de meio bilhão de barris por dia. 

Diante deste quadro não é difícil imaginar que a Shell e/ou petroleiras europeias (incluindo a francesa Total) sejam as maiores interessadas em ficar com parte do parque de refino brasileiro colocado à venda, especialmente a Landulfo Alves na Bahia, onde está a maior base da Braskem.

Em todo este processo, outra questão ficou mais clara, a Odebrecht seguirá se desafazendo de seus ativos pretendendo se manter apenas como gestora de participações de diversos ativos espalhados no mundo. 

Inclusive do oligopólio que surgirá desta incorporação em que a Odebrecht poderá ficar com 10% em participação. Esta decisão que agora ganha caráter não mais de intenções e sim de execução terá influência sobre muitas outros negócios e empregos no Brasil.

"O pré-sal brasileiro está entre os recursos petrolíferos mais atraentes do mundo, com potencial de crescimento contínuo no médio e longo prazo"

Para quem, como colonizado, carece sempre da confirmação de um alto executivo estrangeiro do
setor, que seja representante de um dos países centrais, para avalizar o que já se diz há tempo aqui nos tópicos, veja o que disse hoje, o diretor-executivo da Agência Internacional de Energia (AIE), Fatih Birol, em entrevista ao bom e atento correspondente do Valor junto à ONU e relações comerciais no mundo, Assis Moreira:

“O pré-sal brasileiro está entre os recursos petrolíferos mais atraentes do mundo, apontando para um potencial de crescimento contínuo no médio e longo prazo.”

A matéria e entrevista com o diretor-executivo da AIE pode ser lida na íntegra aqui:

Após licitação da Petrobras, o Porto do Açu participará como base de apoio portuário para exploração do campo de Libra

O Porto do Açu participará como base de apoio portuário para exploração do campo de Libra, o maior do país e do pré-sal, através da empresa americana Edison Chouest, após licitação da Petrobras fechada na semana passada.

Tratou- se uma complexa licitação da Petrobras para contratação integrada de apoio logístico (serviços terrestres, portuários, marítimos e aéreos) para exploração do campo de Libra na Bacia de Santos.

No dia 9 de fevereiro de 2018, este blog comentou obre esta licitação em nota aqui neste espaço com o título “Disputa para contratação de logística integrada de apoio para exploração do campo de Libra envolve bases portuárias no Rio, Niterói e Açu” que pode ser lida aqui. [1]

A informação sobre os resultados da licitação aberta no dia 11 de junho foram divulgados na última sexta-feira (15 jun. 2018) pelo site Brasil Energia com o título: "PB-Log oferta menor preço por apoio integrado à Libra" [2]

A participação do Porto do Açu se dará junto da subsidiária da Petrobras PB-Log e através da empresa americana Edson Chouest que é arrendatária de píer do terminal 2 (T2) no Açu e que já atende às demandas de apoio portuário, através de contrato com a própria Petrobras para atender movimentações de cargas junto à Bacia de Campos e Espírito Santo.

Logística integrada para exploração offshore. Tese do Autor [3], Figura, nº 34. P.344
em que cita apresentação da Brasco Offshore, ago. 2014. 























Na licitação para contratação integrada (tipo 3), a PB-Log ofertou R$ 802 milhões pela prestação de serviços terrestres, portuários, marítimos e aéreos e ficou na frente do consórcio formado pelo porto Sepetiba Tecon e a operadora de helicópteros CHC, foi o único concorrente da PB-Log nesse modelo, propondo cerca de R$ 1 bilhão. 

O estranho é que a licitação é da Petrobras e uma empresa sua subsidiária, a PB-Log é que articulou o consórcio vencedor que envolve a Edison Chouest no atendimento do apoio portuário, mas também envolve o terminal portuário da Petrobras de Imbetiba e ainda o terminal Triunfo de poio offshore, contratado pela Petrobras e que funciona atualmente junto ao Porto do Rio, bem próximo à Rodoviária na capital.
Mapa resumido sobre localização campo de Libra

O blog ainda não tem a informação sobre o prestador de serviços por transporte marítimo, aéreo e terrestre neste consórcio vencedor. Pelo que se depreende até aqui, com este resultado, a Petrobras como operadora do campo de Libra que tem a concessão de outras petrolíferas em diferentes percentuais de participação, poderá escolher as bases para a sua movimentação de carga.

Desta forma, o Porto do Açu não tem garantias de servir de base, mas passou a ser uma opção. Os terminais portuários da PB-Log disponíveis seria da Triunfo no Rio de Janeiro; Macaé (Imbetiba) e São João da Barra (Brasil Port, do grupo Edison Chouest). Já os aeroportos estão são o de Jacarepaguá, no Rio; Macaé, Campos e Farol de São Tomé.

A contratação integrada facilita a situação da Petrobras, mas deixa em suas mãos a decisão sobre fluxos de cargas, porque o material entre as empresas e as plataformas precisam de transporte terrestre, área de estocagem no retroárea do porto, transporte marítimo e aéreo que envolve o transporte de pessoas. Tudo isso confere à esta gestão, após a licitação muito poder e que envolve muito dinheiro.

Houve ainda licitação integrada para serviços marítimo e terrestre vencida pelo grupo Wilson Sons, com proposta de R$ 505 milhões e também só para a prestação de serviços de apoio aéreo vencida pela Líder Aviação ao ofertar o menor preço para serviços de apoio aéreo com helicópteros de médio e grande porte.

Muito sobre este processo precisa ainda ser informado. O blog seguirá acompanhando com a sua imensa rede de contatos, network.


Referências:
[1] Postagem do blog em 9 de fevereiro de 2018. Disputa para contratação de logística integrada de apoio para exploração do campo de Libra envolve bases portuárias no Rio, Niterói e Açu. Disponível em:

[2] Matéria do site da revista Brasil Energia. PB-Log oferta menor preço por apoio integrado à Libra. Disponível em: 

[3] Tese do autor defendida em mar. 2017, no PPFH-UERJ: “A relação transescalar e multidimensional “Petróleo-porto” como produtora de novas territorialidades”. Disponível na Rede de Pesquisa em Políticas Públicas (RPP)-UFRJ: http://www.rpp.ufrj.br/library/view/a-relacao-transescalar-e-multidimensional-petroleo-porto-como-produtora-de-novas-territorialidades

sábado, junho 16, 2018

Segue o desmonte de toda a cadeia produtiva do petróleo no Brasil. Agora é a petroquímica

Com a venda da Braskem (Petrobras e Odebrecht), o Brasil deixará de ter assim controle sobre uma das cinco maiores petroquímicas do mundo.

Assim, o país se tornará refém de corporações estrangeiras na produção de químicos básicos que incluem etileno, polietileno prolipropileno, óxido de propileno, óxido de etileno, etc. 

Estes produtos são bases para uma série de outras indústrias de plásticos, PVC, embalagens, etc. 

A corporação holandesa LyondellBasell do setor de petroquímicos que está negociando o acordo para a aquisição da Braskem, que a tornaria a maior do mundo, é sucessora da antiga e conhecida Atlantic Richfield Company (ARCO) e da alemã Hoechst. Ver ao lado infográfico do Valor Online sobre as produções das maiores petroquímicas no mundo.

A LyondellBasell atua com 13 mil funcionários possui 3 plantas na área industrial do Porto de Roterdã, na Holanda, outra na Wesseling, na Alemanha e outras 3 plantas no Texas, EUA. 

A Braskem no Brasil com a maior planta na Bahia tem cerca de 8 mil funcionários.

As plantas industriais do setor petroquímico são muito automatizadas e por isso possuem uma quantidade relativamente baixa de funcionários, apesar da alta produção.

Abaixo uma das plantas petroquímicas da LyondellBasell, junto ao Porto de Roterdã, na Holanda que tive a oportunidade de ver a instalação por fora, ao visitar no segundo semestre de 2014.

Fonte: LyondellBasell.com



sexta-feira, junho 15, 2018

A sede dos fundos sobre um Brasil baratinho!

Com o dólar no novo normal de R$ 4, podendo seguir além, o Brasil fica ainda mais baratinho.

Nossas empresas (chamadas de ativos pelo mercado) estão quase de graça.

Os fundos financeiros avançam seus apetites sobre negócios não apenas de infraestrutura, energia (petróleo) e do setor imobiliário. 

As áreas de logística, agronegócio, saúde e até comércio (shoppings e varejo) estão sendo cada vez mais controladas pelos fundos financeiros.

Estes nomeiam seus executivos para dirigirem as empresas.

Buscando metas e um destaque em seus portfólios de carreira, assim avançam em buscas de resultados.

Desta forma, aplicam a tal reengenharia, estendem as terceirizações, precarização do trabalho e as baixíssimas relações com as populações a quem servem ou se servem.

Os fundos financeiros como eu tenho dito, não têm rosto e ninguém sabe quem aplica neles.
Eles só divulgam em que áreas aplicam os dinheiros captados.

No Brasil, ao contrário do que dizem, os fundos seguem com enorme apetite enorme aproveitando o "Brasil baratinho" desta fase de colapso do ciclo econômico.

Juntam o rentismo de dentro ao da economia global em articulações pouco compreendidas pelas fiscalizações.

Tudo sem dinheiro, só troca de informações.

Os bancos centrais das nações perdem poder com o avanço dos fundos.
 
É uma lógica que explica muito do que nos cerca, sem que o processo e os movimentos sejam percebidos.

Assim, os ativos financeiros avançam e cooptam a maior parte do lucro do setor produtivo tornando o rentismo uma prática que esgarça o sistema.

Como eu tenho dito, em dois anos, o Brasil se tornou um dos maiores "cases" em termos de volume e velocidade em que se deu a implantação desta racionalidade que avança sobre a produção no Brasil dominado pelo mercado.

Em tempos de derivativos, especulação e avanço do capitalismo ultra-financeirizado, as contradições e os impasses se ampliam.

Isto tudo tem limites, mesmo no capitalismo desregulado.

quinta-feira, junho 14, 2018

Ilhabela e outras novas cidades petrorrentistas em SP e no ERJ: o que há de novo e o que se repete?

Desde o final da década de 90, aqui no ERJ com o vertiginoso crescimento das receitas dos royalties do petróleo, decorrente do aumento da produção e mudança legas, vários estudiosos passaram a propor que os municípios petrorrentistas criassem fundos com os recursos dos royalties e participações especiais.

O objetivo em geral é para que pudessem compensar os imprevistos equilibrando os valores quando da redução da produção por acidentes, ou pela redução do preço do barril de petróleo.

A ideia era também criar setores e cadeias produtivas que pudessem ser incentivadas para romper a petrodependência, considerando ainda se tratar de um bem intergeracional.

Os gestores sempre foram contra a inciativa por considerarem que eles não deveriam deixar para outros mandatos, os recursos que poderiam ser usados em suas gestões. Uma ou outra experiência foi tentada nesta linha com péssimos resultados.

O Fundecam, em Campos dos Goytacazes, que saiu a partir de pressão da sociedade e um fórum de desenvolvimento regional é um deles e já mereceu diversos estudos e análises críticas mais ou menos detalhadas nas universidades. 

Infelizmente, os resultados foram desastrosos em termos de abertura de alternativas econômicas contra a dependência do petrorrentismo. Projetos tiveram curto espaço de sobrevivência, eram pontuais sem serem de cadeias os setores produtivos, os empregos foram perdidos e outros projetos eram formas apenas de acessar fundos públicos para fins privados. O resultado é um passivo de algumas centenas de milhões de reais que poderiam ter amortizado as consequências no período da redução dos royalties.


A mudança espacial das receitas dos royalties nos municípios litorâneos: do ERJ para SP
Pois bem, duas décadas depois, os municípios do litoral fluminense do Norte e Baixadas Litorâneas começam a ver estas receitas se reduzirem porque os campos de petróleo offshore se tornaram maduros, enquanto outros municípios metropolitanos no ERJ e no litoral paulista começam a ver o aumento da receitas com a produção colossal nos campos da Bacia de Santos.

No ERJ, os exemplos mais conhecidos é o de Maricá e Niterói. No estado de São Paulo o caso de São Sebastião, Caraguatatuba e Ilhabela têm receitas de royalties crescentes. 

No ano passado (2017), o município paulista de São Sebastião com 74 mil habitantes recebeu R$ 86,9 milhões. Caraguatatuba com 101 mil habitantes recebeu royalties de 81,9 milhões. [1]

Porém, outro município paulista de Ilhabela com 28 mil habitantes,, em 2018 teve a maior petrorrenda com receita de R$ 474,8 milhões em 2018. Valor que foi quase o dobro de dois anos antes, em 2015, quando a receita dos royalties na cidade tinha sido de R$ 239,7 milhões. [1]

Os royalties recebidos por São Sebastião em 2017 de R$ 474 milhões em 2017 foi superior ao de Campos dos Goytacazes, que neste mesmo ano recebeu R$ 470 milhões, depois de ter recebido R$ 1,3 bilhão em 2012. Enquanto São João da Barra, no ERJ recebeu em 2017 R$ 115 milhões, depois de ter recebido R$ 237 milhões, no pico desta receita, em 2014. [1]

A produção crescente nos campos de petróleo da Bacia de Santos e das reservas do Pré-sal no litoral paulista explicam esta evolução da receita dos royalties mesmo com o petróleo estando distante do preço superior aos R$ 100, o barril, em todo o período entre 2101 e 2014.

Em 2018, Ilhabela tem um orçamento aprovado de R$ 650 milhões com previsão de que mais de R$ 500 milhões tenham origens nas petrorrendas. Com 347 km² (área menor que SJB que tem 458 km²) Ilhabela tem problemas e questionamentos similares àqueles feitos aos nossos municípios petrorrentistas no ERJ: shows, patrocínios e obras questionáveis em termos de prioridades e caras em termos de preços, além do enorme crescimento das despesas de pessoal e custeio, de forma especial nos últimos três anos. [2]

Um dado interessante é que os setores de Educação (R$ 141 milhões) e Saúde ,(R$ 94 milhões) em São Sebastião são as funções com maior dotação dentro do orçamento do ano em curso no município paulista de Ilhabela. Veja aqui a LOA 2018 do município de São Sebastião, SP. [3]


O que é viver na Economia dos Royalties
Porém, muitas outras questões merecem ser analisadas quando se observam problemas similares nos municípios que passam à condição de petrorrentistas e desta forma vivem a Economia dos Royalties, como base fundamental de sua receita.

Uma outra informação que merece ser melhor apurada - e que tem relação com o início desta postagem - é a de que o município de Ilhabela, sendo um município com características turísticas, resolveu constituir um fundo para desenvolvimento do turismo que se inicia com um percentual de 1% dos royalties e que teria uma previsão para chegar ao longo de um tempo a 25%.

Novamente se vê que a receita para o fundo se ampliará em mandatos futuros, comprometendo assim menor parte da receita atual. Nenhum prefeito quer ajudar a organizar o futuro abrindo mão de parte considerável da receita. 

Ainda assim, a prefeitura de Ilhabela tem divulgado que nos próximos quatro anos deverá investir R$ 328 milhões em projetos de ampliação da infraestrutura turística. Há neste item projetos caros como a construção de parques aquáticos e marinas que visam angariar receitas com turismo de cruzeiros que hoje é muito disputado.

Porém, há que se saber como a população local está sendo atendida e preparada para atuar neste setor, de forma a que este investimentos com fundos públicos não sirvam apenas, ou basicamente para engordar lucros de uma elite local ou regional.

Há algum tempo, este tema, vinculado basicamente às investigações sobre o uso dos fundos públicos (orçamentos) dos municípios petrorrentistas, deixou de ser foco das minhas pesquisas mais detalhadas, mas nunca deixou de sair completamente do meu radar de observação.

Desta forma, esta postagem tem também o objetivo de chamar a atenção de professores e pesquisadores que atuam no tema para aprofundar a análise sobre os caminhos trilhados pelas novas cidades petrorrentistas no ERJ (Maricá, Niterói) e SP (Ilhabela, São Sebastião e outras).


Referências:
[1] Informações sobre a receita dos royalties (quota mensal) e participações especiais (quotas trimestrais) disponível no portal InfoRoyalties da Ucam-Campos. Disponível em: https://inforoyalties.ucam-campos.br

[2] Matéria da Folha de São Paulo em 24 set. 2017. PAMPLONA, Nicola. Ilhabela vive benefícios e risco dos royalties. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/mercado/2017/09/1921224-ilhabela-vive-beneficio-e-risco-dos-royalties.shtml

[3] Lei Orçamentária Anual (LOA) de 2018 do município paulista de São Sebastião. Site da Prefeitura. Disponível em: http://transparenciaonline.ilhabela.sp.gov.br/wp-content/uploads/sites/2/arquivos/2018/01/Lei-1.250_2017-LOA-Lei-Or%C3%A7ament%C3%A1ria-Anual-para-2018-1.pdf