terça-feira, junho 18, 2019

Toda a reserva do Pré-sal equivale a 7 vezes o PIB. Só 1% foi extraído e boa parte está sendo entregue

Há muitas pessoas que ainda não têm uma dimensão do tamanho da reserva de petróleo e gás do Brasil. 

Todo o Pré-sal equivale a cerca de 7 vezes o atual PIB do Brasil.

Isso mesmo! 

Para ser mais exato 6,9 vezes toda a riqueza material atual do país. 

O que foi explorado até agora equivale a pouco mais de 1% do total de petróleo e gás natural, mesmo considerando que o pré-sal, hoje já produz cerca de 2 milhões de barris por dia (boe), ou 60% do total da produção no país.

Infelizmente, grande parte disso está sendo entregue a preço vil para as petroleiras privadas estrangeiras (IOCs), depois de ter sido descoberto pela Petrobras. 

Assim, a renda petroleira extraída dessa riqueza passa para o controle externo. 

Como os novos donos desse petróleo e gás extraídos, as petroleiras estrangeiras decidem o que fazer de sua produção e certamente levarão a maior parte para ser beneficiada fora do país, onde suas receitas se multiplicarão, na medida em que o produto processado ganha mais valor.

Da mesma forma, serão eles que decidirão onde e com quem comprar (ou fretar) plataformas, equipamentos, serviços e tecnologia que deixarão de empregar até 8 milhões de pessoas no Brasil (em funções de altas qualificações) na próxima década.

Assim, o golpe institucional de 2016, inverteu a lógica e começou a entregar, a preço de xepa, a joia da coroa, descoberta pelos geólogos do Brasil.

segunda-feira, junho 17, 2019

EUA x China

Martin Wolf, editor e analista econômico do conhecido jornal inglês de negócios e política, Financial Times, com prestígio global, publicou artigo que foi reproduzido (e traduzido) pelo Valor, em 5 jun. 2019, P. A13 com o título: “O conflito secular entre EUA e China: ataque à China é a guerra errada, lutada de forma errada no terreno errado”.

WOLF, afirma que a China pode ser o inimigo ideológico, militar e econômico que tantos precisam nos Estados Unidos. Diz ainda que essa “rivalidade generalizada com a China vem se tornando o princípio organizador das políticas econômica, externa e de segurança dos EUA”, no governo Trump. Lembra ainda as declarações da diretora de planejamento de políticas do Departamento de Estado dos EUA, Kiron Skinner, quando esta afirmou que [esta seria] “a primeira vez que vamos ter uma grande potência concorrente que não é caucasiana”, (esquecendo, segundo Wolf, o Japão), porém colocando na ordem do dia a hipótese de “uma guerra racial e civilizacional, como um conflito insolúvel”.

WOLF afirma taxativamente que “acusar a China de trapacear é hipocrisia quando quase todas as políticas comerciais adotadas pelo governo Trump violam as regras da OMC”. Diz ainda que não é aceitável “insistir que os chineses aceitem o papel dos EUA como juiz, júri e verdugo”.

O jornalista britânico fala também dos riscos que os EUA têm ao fomentar na população chinesa uma profunda hostilidade. Para Wolf, “a acusação de roubo de propriedade intelectual reflete em grande parte, as inevitáveis tentativas de um economia ascendente em dominar as tecnologias da atualidade. Acima de tudo, uma tentativa de preservar um domínio de 4% da humanidade sobre o resto é algo ilegítimo”.

E por fim, ao pinçar partes do seu texto, Wolf diz que “o que acontece agora é que o governo americano está simultaneamente lançando um conflito entre duas potências, atacando aliados dele e destruindo as instituições de ordem mundial do pós-guerra”.

A realidade desta disputa é cada vez mais percebida e sentida em boa parte do mundo. Segundo, Pepe Escobar, jornalista brasileiro especializado em geopolítica (guerra híbrida) e Eurásia, na atualidade, tudo de mais significativo que ocorre no mundo está de uma forma ou outra vinculada à disputa EUA x China-Rússia. Inclusive a luta de todos contra todos no Brasil.

"Estranho um país que exige que um hacker aja dentro da lei e um juiz não"

"Estranho um país que exige que um hacker aja dentro da lei e um juiz não."

A frase faz parte do artigo de José Armando Neto, advogado, jornalista, delegado aposentado da Polícia Federal e ex integrande da Interpol em São Paulo, publicado aqui no portal GGN do jornalista Luiz Nassif.

O texto na íntegra tem como título: "Ou a casa cai de vez ou irão dizer: foi golpe mesmo e daí?"

domingo, junho 16, 2019

Eventos acadêmicos no campo "Espaço-Economia-Poder" representam resistência ao obscurantismo

Na semana que passou, em meio às divulgações do The Intercepter que colocam em cheque importantes instituições da República no Brasil, este blogueiro esteve em mais dois importantes eventos acadêmicos, agora, no Rio de Janeiro: III Colóquio Espaço e Economia organizado pela UERJ-UFRRJ e IFF e realizado na UERJ (entre os dias 10 e 12 de junho) e o Workshop Espaço e Poder no dia 13 junho no IPPUR/UFRJ.

No III Colóquio Espaço e Economia tivemos 4 mesas-redondas, sessões de apresentações de pesquisas, além das palestras de abertura e encerramento em torno da temática geral: "Transformações no capitalismo mundial e a produção social do espaço".

Na oportunidade foi lançado o livro deste autor (blogueiro) A ´indústria´ dos fundos financeiros: potência e mobilidade no capitalismo contemporâneo, que foi apresentado e debatido na mesa-redonda com o tema "Os movimentos das frações do capital, os circuitos espaciais de produção e a crescente financeirização da economia diante de um novo padrão de acumulação".

A mesa-redonda teve ainda a presença dos professores Carlos Brandão, IPPUR/UFRJ. Leandro Bruno Santos, Geografia UFF-Campos, RJ e Cláudio Zanotelli (PPGG-UFES). O livro está disponível para a venda no site da editora (imagem e link ao lado), ou por pedido através do email do blog.

No III Colóquio Espaço e Economia foi ainda instituída formalmente uma Rede de Investigadores de Espaço Economia, confirmada a edição de dois números especiais da Revista Espaço e Economia, com artigos apresentados num dos oito grupos de trabalho do evento, mais um livro que será publicado com uma coletânea das participações dos pesquisadores nas quatro mesas-redondas.

Já no Workshop Espaço e Poder: infraestrutura, desenvolvimento e território organizado por professores do IPPUR/UFRJ com painéis nos dias 13, 24 e 25 de junho de 2019. Assim, no dia 13 de junho de 2019, eu participei na Faculdade de Letras do painel "Espaço Poder e Petróleo", tendo ainda como debatedores, os professores Claudio Zanotelli (PPGG/UFES) e Eduardo Pinto (IE/UFRJ).

Na oportunidade um conjunto expressivo de temas e linhas de investigação foram levantados e debatidos (dando forma a uma agenda de pesquisas), relacionadas ao poder e a potência do setor petróleo; a intensa disputa pela renda petroleira entre o setor público e os interesses privados; a produção do espaço por decorrência das atividades vinculadas à esta cadeia de produção global, onde há profundos interesses geopolíticos entre corporações e os estados-nações.

Os dois eventos se complementaram em termos de temas e interesses de pesquisas vinculados aos movimentos socioeconômicos espaciais. Os debates nos eventos permitiram a formulação inicial de ideias e proposições em termos de alternativas, sob a lógica das nações que fazem parte do capitalismo periférico diante de uma economia globalizada.

O clima agradável de debates e de colaboração acadêmica entre pesquisadores dos laboratórios e núcleos de estudos envolvidos em ambos os eventos, animaram e ampliaram a disposição de seguir em frente em trabalhos e pesquisas conjuntas, em meio às dificuldades impostas pelo desgoverno atual com os seguidos e profundos cortes orçamentários e de obscurantismo.

O apagão na Argentina é parte do atual colapso ultraliberal da América Latina

O grave apagão deste domingo na Argentina/Uruguai é mais um exemplo das consequências do colapso do neoliberalismo sobre as infraestruturas (energia elétrica, rodovias, telefonia, etc.) e a vida das pessoas no cotidiano da América Latina.

O choque ultraliberal centrado na ideia exclusiva de conter o déficit público vai promovendo o caos, em meio ao vampirismo sobre a renda e os direitos do trabalhadores e das populações.

É o esgarçamento de um regime/sistema a favor dos mais ricos, sem se importar com as pessoas. 

Se esse processo não for contido estaremos caminhando cada vez mais para a barbárie e nos distanciando da ideia sobre aquilo que se pode chamar de civilização.

sexta-feira, junho 14, 2019

Ambiente atual na política brasileira indica ameaças de endurecimento de regime num governo já autoritário e truculento

Por uma conjugação enorme de fatores, o ambiente que marca a greve de hoje no Brasil (mesmo que parcial, mas inequivocamente expressiva), guarda muitas similaridades com o aquele que o Brasil viveu no entrono do ano de 1968.

Manifestação 14-J na avenida
Presidente Vargas no Rio de Janeiro.
É um protesto contra as mudanças da Previdência, contra as privatizações, já num ambiente fortemente autoritário, truculento nas ruas e de ameaças de endurecimento.

A conflito considerado híbrido e de confrontação de posições tá se acirrando de forma muito acelerada, em direção à uma forma ditatorial sem escamoteamentos. 

A narrativa que levou ao golpe institucional e às várias interferências nas eleições do ano passado, está se diluindo, quando vemos a forma como está sendo despido o manto que encobria a verdade daquilo que era essencial do processo político do país, nesse mais recente período.

Instituições se deixaram usar, sem o mínimo cuidado com a República e com as consequências para além dos interesses imediatos que existem em qualquer sociedade e nação.

Há blocos de poder se engalfinhando no meio de um desgoverno. O desmonte é claro e tem metas definidas que vão além do ultraliberalismo.

As instituições estão todas, uma a uma, perdendo a legitimidade e a capacidade para intermediar soluções

De outro lado, é preciso ir além da resistência. Estamos saindo de um atordoamento mas ainda no meio de muita confusão e sem direções e estratégias definidas. 

O projeto de Nação carece de coerência para ultrapassar essa complexa fase.

Os riscos crescem. E as saídas precisam ser construídas.

PS.: Atualizado às 21:18 para breve acréscimo no texto.

terça-feira, junho 11, 2019

É cretina a naturalização que se tenta fazer das armações de Moro e Dallagnol: isso retardará o reencontro do Brasil com seu projeto de Nação

Há uma evidente tentativa de "naturalizar" a aberração que envolve as relações da justiça com o Ministério Público Federal (MPF) na montagem das armações do Moro e a turma da Lava Jato que foi exposta nas reportagens do "Arquivo Secreto do Brasil" divulgado pelo The Intercept.

Parte da mídia comercial e das forças políticas que sustentam o atual desgoverno fazem parte dessa estratégia.

É evidente que temem pelo pior, mas o pior já foi cometido. 

O escárnio está posto sobre a mesa e foi feito por um membro da instituição judiciário, com o uso do aparelho do Estado de um dos três poderes (aquele que tem poder de árbitro), comprometendo toda Justiça e a estrutura do Estado brasileiro.

Esse caminho é ainda muito mais perigoso para a República alvejada no seu maior escândalo.
Ao contrário do que imaginam essa tentativa de "naturalização" do que fez Moro, Dallagnol e seus comparsas é arrastar ainda mais o que resta da República para o caos.

Os fatos mostram porque o Dallagnol com apoio do Moro queria ter sob seus domínios aquele fundo de R$ 2,5 bilhões que foi obrigado a devolver.

O que está exposto em termos de armações e formação de quadrilha está sendo visto por todo o mundo. Nos dias atuais, não há mais como construir versões assim tão distantes da realidade com narrativas que tentam esconder o essencial.

Porém, o que virá ainda à tona é ainda mais difícil de acreditar, se não fosse pelos áudios e pelas fontes das conversas.

Esse tentativa de naturalização dessa escabrosa trama retardará ainda mais a busca de soluções e de superação dessa etapa em que a nação brasileira foi jogada, em nome do poder e de interesses inconfessáveis e de um falso moralismo, que está aí a mostrar a que serviu.

O Brasil precisa reencontrar o seu projeto de Nação para todos!

domingo, junho 09, 2019

O retrato nu e cru das armações dos procuradores e o juiz da Lava Jato: a Nação brasileira precisa retomar o seu caminho!

Não há como ler os diálogos entre o(s) procurador(es) e o juiz e não pensar em formação de quadrilha.

Eles agiam em nome de um dos três poderes da República, logo aquele faz a arbitragem no caso dos litígios.

O grau de promiscuidade para as tratativas e armações superam muitas tramas e roteiros de filme, ou os esquemas da milícia e/ou do tráfico no país ou fora.

O desrespeito à Constituição Brasileira tratada como detalhe a ser superado é de doer e chorar.

O caso é gravíssimo em todas as dimensões.

O STF como a suprema corte é a mais vilipendiada, mesmo que parte dos seus membros tenham sido coniventes. 

A Corte agora está emparedada, não haverá saída fácil para retomar, mesmo que aos poucos, algo próximo à normalidade.

O que fazer com os prejudicados e atingidos?

O que fazer com os responsáveis por tudo isso?

O que fazer com a Nação que segue sendo desmontada, tal qual esse demolição que fizeram da instituição judiciária.

A política e os demais poderes serão paralisadas. 

Seria estranho se for diferente, dando uma de avestruz fingindo não ver o que está à frente do nariz, mesmo que cheire mal. Muito mal.

A Nação não merecia isso e precisa retomar o seu caminho junto com a população.

The Intercept Brasil revela armações entre procurador e o juiz Moro no julgamento de Lula

O The Intercept Brasil publicou há pouco no seu site, revelações e acordos entre Dallagnol e o juiz Moro na ação contra Lula feitas em conversas pela internet (chat).

Entre outros registros há um em que o juiz "Moro sugeriu trocar a ordem de fases da Lava Jato, cobrou novas operações, deu conselhos e pistas e antecipou ao menos uma decisão, mostram conversas privadas ao longo de dois anos".

Os conteúdos divulgados aqui são dos jornalistas Rafael Moro Martins, Alexandre de Santi, Glenn Greenwald.

As provas trazem evidências das armações, lembrando que procurador (promotor) em tese acusam contra o crime, numa atuação que em tese seria em defesa da sociedade.

Já o juiz arbitraria e julgaria sem negociações que é uma aberração jurídica e expõe os processos usados no golpe institucional jurídico-midiático que seguiu à derrubada Dilma e interferiu nas eleições de 2018.

Como se sabe, o juiz Moro logo depois foi beneficiado por uma nomeação de quem ajudou a ganhar eleição em outro "acordo político".

PS.: Atualizado às 20:58:

Não se deve esquecer que o Greenwald tem credibilidade enorme depois que foi o repórter que denunciou o esquema da NSA dos EUA. A mídia internacional já desconfiada de todo esse processo no Brasil deverá tratar o tema rapidamente.

Fica quase evidente que a questão divulgadas de que os celulares de Moro e Dallagnol teriam sido hackeados deve ter sido uma forma de tentar evitar o escândalo. Aliás, as acusações simultâneas de hackeamento de Dallagnol e Moro, só reforçam a veracidade dessas informações vazadas para o The Intercept. As fontes teriam guardado as informações que tiveram acesso no exterior para evitar pressões.

O STF fica emparedado e deverá ser arguido ainda nesta segunda-feira pela defesa de Lula.

sexta-feira, junho 07, 2019

"A danação da história e a disputa pelo futuro", por José Luís Fiori

O artigo do professor José Luís Fiori merece ser lido com apuro. É um texto lúcido, calcado numa consistente análise do processo histórico, vinculado ao conceito de sua autoria sobre o "sistema interestatal capitalista", mesmo que não diretamente mencionado. Ele foi publicado originalmente aqui no portal Carta Maior.

Neste breve artigo, Fiori faz um exercício que muitos pensadores fogem, de analisar os cenários (ele trabalha com duas hipóteses) e a possibilidades de atuação. Como outros, Fiori identifica que o atual momento será determinante (mais que outros) para o que se coloca diante dos desafios do nosso país, do continente e de todos nós. 

Assim, é por um lado amedrontador (não menos que o presente) mas é também promissor, em termos de possibilidades de se retomar as rédeas e reconstruir um projeto da Nação Brasil. Vale conferir!


A danação da história e a disputa pelo futuro
Depois de 1940, a Argentina entrou num processo entrópico de 
divisão social e crise política crônica, ao não conseguir se unir 
em torno de uma nova estratégia de desenvolvimento, adequada 
ao contexto geopolítico e econômico criado pelo fim da Segunda 
Guerra Mundial, pelo declínio da Inglaterra, e pela supremacia mundial dos Estados Unidos.

J.L.F.História, estratégia e desenvolvimento.Petrópolis: Editora Vozes, 2014, p. 272


Existe uma pergunta angustiante que está parada no ar: o que passará com o Brasil quando a população perceber que a economia brasileira colapsou e que o programa econômico deste governo não tem a menor possibilidade de recolocar o país na rota do crescimento? Com ou sem reforma da Previdência, qualquer que seja ela, mesmo a proposta pelo Sr. Guedes. E o que ocorrerá depois disso?

O mais provável é que a equipe econômica do governo seja demitida e substituída por algum outro grupo de economistas que atenue os traços mais destrutivos do programa ultra-liberal do governo do governo. Mesmo assim, não estará afastada a possibilidade de que o próprio presidente seja substituído por algum dos seus aliados dessa coalizão de extrema-direita construída de forma apressada e irresponsável, em torno de uma figura absolutamente ignorante, despreparada e insana. Mas se nada disso acontecer e as coisas seguirem se arrastando e piorando nos próximos tempos, o mais provável é que as forças de extrema-direita venham a ser fragorosamente derrotadas nas próximas eleições presidenciais.

O problema é que, quando isto ocorrer, o Brasil já terá completado mais uma “década perdida”, o que torna ainda mais difícil de prever e planejar o que acontecerá, e o que possa ser feito na década de 2020 para retirar o país do caos. Entretanto, é indispensável e urgente que se imagine e reflita sobre esse futuro, para não repetir erros passados. Para tanto, o melhor caminho é começar pela releitura do próprio passado e, em seguida, analisar com mais atenção o caso de alguns países que fizeram idênticas escolhas, e que vão antecipando as consequências do rumo adotado pelo Brasil.

Comecemos, portanto, de forma extremamente sintética, pela década de 80 do século passado, quando o “desenvolvimentismo sul-americano” entrou em crise e foi abandonado por todos os países do continente, onde ele havia sido hegemônico desde o fim da II Guerra Mundial. Esse colapso ocorreu de forma simultânea com a “crise da hegemonia americana” da década de 70, e com a mudança da estratégia econômica internacional dos Estados Unidos durante o governo de Ronald Reagan, na década de 80. Foi nesse período que se deu a grande “virada neoliberal” da América do Sul, quando as elites políticas e econômicas do continente adotaram em conjunto, e quase simultaneamente, o mesmo programa de reformas e políticas liberais preconizado pelo que se chamou, na época, de “Consenso de Washington”.

No entanto, em todos os países em que foram aplicadas, essas políticas neoliberais produziram baixo crescimento econômico e aumento das desigualdades sociais. E na entrada do novo milênio, os resultados negativos contribuíram para que a América do Sul fizesse uma nova meia-volta, desta vez “à esquerda”, aproveitando-se do vácuo criado na região pela guerra global ao terrorismo, o que deslocou a atenção dos Estados Unidos para o Oriente Médio. Em poucos anos, quase todos os países do continente elegeram governos de orientação nacionalista, desenvolvimentista ou socialista, com uma retórica anti neoliberal e com um projeto econômico cujo denominador comum apontava numa direção muito mais nacionalista e desenvolvimentista do que liberal. Foi nesse período, já na primeira década do novo milênio, que o Brasil e alguns outros países do continente decidiram aumentar o controle estatal ou reestatizar diretamente seus recursos energéticos, como aconteceu na Venezuela, depois da descoberta das suas grandes reservas de petróleo do Orinoco, no Brasil depois da descoberta do petróleo do pré-sal no Brasil , e na Argentina, depois da descoberta das suas reservas de gás não convencional da Patagonia. E a América do Sul retomou então seu velho projeto de integração regional, agora sob a liderança brasileira, com a ampliação do Mercosul e a criação da Unasul.

Uma vez mais, entretanto, como na lenda de Penélope, o continente latino-americano desfez tudo de novo depois da crise econômica internacional de 2008 e, em particular, depois da mudança da doutrina estratégica dos Estados Unidos, com o governo de Donald Trump, que patrocina golpes de Estado e governos ultra liberais, ao mesmo tempo que pratica – paradoxalmente – o protecionismo e o nacionalismo econômico in domo suo. Mas parece que tudo está andando cada vez mais rápido, porque já existem fortes indícios de que esta nova onda liberal será ainda mais breve do que a anterior, como é o caso – fora da América do Sul – da vitória de Lopez Obrador no México, e da enorme reação popular contra o governo ultraliberal de Mauricio Macri, na Argentina.

A Argentina, aliás, é o caso mais longevo e paradigmático dessa verdadeira “gangorra sul-americana”. O programa econômico do governo de Maurício Macri, por exemplo, reproduz quase integralmente as idéias ultraliberais do economista Domingo Cavallo, que já haviam sido provadas nos governos de Carlos Menem(1989-1999) e de Fernando de la Rua (1999-2001), antes dos governos peronistas de Nestor Kirshner (2003-2007) e de Cristina Kirshner (2007-2015), que desembocaram, por sua vez, no retorno do liberalismo, com a vitória eleitoral de Maurício Macri em outubro de 2015.O apoio parlamentar de Maurício Macri permitiu que ele aprovasse, sem maiores problemas, as famosas reformas da Previdência e da legislação trabalhista, mantendo rigorosa política de austeridade fiscal e de privatizações do que ainda restava nas mãos do Estado argentino.

Apesar de tudo isso, a política econômica do governo Macri tem produzido resultados desastrosos. Em 2018, a economia argentina sofreu uma queda de 2,5% e, em 2019, o PIB do país deverá ter outra queda de 3,1%, segundo as previsões mais otimistas. Com uma taxa de inflação de cerca de 46%, uma taxa de desemprego próxima dos 10%, e com 32% da população abaixo da linha de pobreza, a Argentina se transforma, pouco a pouco, num país subdesenvolvido, coisa que nunca havia sido. Pelo contrário, no início do século XX, a Argentina era uma das seis economias mais ricas do mundo e, mesmo até a década de 1940, seguiu sendo o país mais rico e homogêneo de toda a América do Sul. E foi só depois dos anos 50 que a Argentina perdeu o impulso econômico da sua Idade de Ouro (1870-1930), enfrentando, desde então, um prolongado processo de fragmentação social e política cada vez mais profundo e radical, que avança na forma de um movimento pendular e repetitivo, que ora aponta na direção liberal, ora na direção do peronismo, mas com a destruição mútua, por cada uma das partes, na rodada anterior.


O Brasil entrou nessa mesma “gangorra”, mas só a partir da crise econômica da década de 1980, que foi sucedida por três governos neoliberais entre 1990 e 2002, e por três governos híbridos, mas mais próximos de um “desenvolvimentismo progressista”, com forte viés de inclusão social e de afirmação da soberania internacional do país, entre 2003 e 2015. E voltou à agenda liberal depois do golpe de Estado de 2015/16, de forma ainda mais radical do que no período de FHC, com a proposta econômica do ministro Paulo Guedes e de sua equipe de velhos alunos da Escola de Chicago. Na verdade, sua reiterada defesa da necessidade de “destruir” completamente a herança desenvolvimentista, lembra muito mais as posições do economista liberal Eugenio Gudin, defendidas no debate que manteve nos anos 1940 com o empresário industrialista Roberto Simonsen, a respeito do papel “correto” do Estado, do mercado e do planejamento no desenvolvimento brasileiro.

Não há dúvida de que o ministro Guedes e sua equipe colocam-se ao lado de Eugenio Gudin, na sua defesa comum da “vocação primário-exportadora” da economia brasileira – o que significaria, nesta altura do século XXI, um verdadeiro salto para trás, para começar tudo de novo, com o objetivo, ou utopia, de transformar o Brasil numa imensa Nova Zelândia. Um projeto muito parecido com o dos presidentes paulistas da República Velha, e com o do governo argentino de Maurício Macri em anos mais recentes. A diferença é que hoje, no Brasil, essa agenda liberal aparece hoje sustentada por uma aliança e um governo formado por grupos de extrema-direita, de militares aposentados, seitas religiosas fundamentalistas, milícias privadas, clubes de tiro e senhoras rezadeiras, financiados pelas elites tradicionais, tutelados pela grande imprensa conservadora e sustentados, em última instância, pelo governo norte-americano.

Esse verdadeiro Frankenstein talvez explique porque o desastre brasileiro esteja acontecendo de forma mais rápida do que na Argentina, o que aumenta a probabilidade de que o Brasil acabe prisioneiro da mesma “gangorra” que condena o país vizinho, e a própria América do Sul, a fazer e desfazer a mesma coisa dezenas de vezes, praticamente sem sair do lugar – ou pior ainda, baixando cada vez mais de lugar. Com a diferença de que, se isto se repetir no Brasil, o processo de desintegração deverá ser muito mais rápido e perverso do que na Argentina, porque o Brasil parte de um nível de desigualdade e pobreza muito maior do que tinham nossos vizinhos no século passado. Neste caso, o mais provável é que o Brasil entre num longo processo de “estagnação secular e precoce” ou, o que é pior, numa prolongada depressão econômica, interrompida por pequenos “soluços expansivos”, incapazes de conter o avanço da desintegração social, que deverá ser cada vez mais violenta e cruel com a imensa maioria da população brasileira, que é a mais pobre e desprotegida. De qualquer maneira, esse será o país que encontrar(ao)emos? pela frente, e será o desafio gigantesco dos novos governantes brasileiros que venham a ser eleitos em 2022 para substituir o atual capitão-presidente, ou qualquer outro personagem de extrema-direita que possa vir a ocupar seu lugar.

Mas atenção, porque o Brasil ainda não está condenado definitivamente a repetir a “gangorra argentina”, nem precisa necessariamente recorrer ao seu mesmo modelo desenvolvimentista do passado. No caso de vitória de alguma coalizão de forças progressistas, é muito difícil antecipar desde já as medidas de política econômica que deveriam ser implementadas para afastar o país do caos, mas uma coisa é óbvia: com as dimensões e a heterogeneidade do Brasil, é uma completa sandice propor uma “refundação neozelandesa” de um país que tem todas as condições de “construir um caminho alternativo dentro da América do Sul, de alguma forma similar ao da economia norte-americana, que conseguiu combinar indústrias de alto valor agregado com a produção de alimentos e commodities de alta produtividade, sendo ao mesmo tempo auto-suficiente do ponto de vista energético.

Para isto, antes que nada, o Brasil terá que mudar radicalmente a sua postura internacional, em particular com relação aos Estados Unidos, que se considera com pleno direito ao exercício da sua soberania dentro de todo o “hemisfério ocidental”. Ou seja, do nosso ponto de vista, a luta por um novo projeto de desenvolvimento para o Brasil terá que começar por uma nova estratégia de poder internacional. Mas se este for o caminho escolhido pelos brasileiros, não há como enganar-se: os novos governantes eleitos em 2022 terão que colocar uma pá de cal em cima da vergonhosa política externa deste governo de extrema-direita, e começar um novo tipo de relacionamento com os Estados Unidos, que será sempre, ao mesmo tempo, de complementaridade, competição e conflito, sobretudo dentro da América do Sul e com relação aos fluxos e recursos do Atlântico Sul. De qualquer forma, e em qualquer caso, o fundamental é que o novo governo brasileiro se oriente sempre, e em primeiro lugar, pela bússola dos seus próprios objetivos sociais, econômicos e geopolíticos Conscientes de que terão pela frente um caminho muito estreito e complicado, e que este caminho tomará muito tempo para se consolidar. Mas ao mesmo tempo, com a certeza de que este é o tempo que tomaram todos os grandes países para construir o seu próprio futuro sem ser humilhados, nem envergonhar-se jamais de si mesmo e do seu passado.

Junho de 2019

José Luís Fiori é professor permanente do Programa de Pós-Graduação em Economia Política Internacional da UFRJ, coordenador dogrupo de pesquisa “Poder Global e Geopolítica do Capitalismo”, e do Laboratório de “Ética e Poder Global”,pesquisador do Instituto de Estudos Estratégicos de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (Ineep).Publicou, “O Poder Global e a Nova Geopolitica das Nações”, Editora Boitempo, 2007 e “História, estratégia e desenvolvimento”, Boitempo, em 2014.

quinta-feira, junho 06, 2019

STF aprova desmonte do setor de energia das estatais brasileiras desde que a entrega seja por fatias através das subsidiárias

Decisão do STF autorizando venda das subsidiárias das estatais premia o fatiamento.
 
É o estilo Jack, o estripador: em partes pode tudo!

Pode vender as joias da coroa, desde que seja em fatias na xepa, na bacia das almas.

E ainda há quem ainda não entenda toda a amplitude do golpe institucional-parlamentar-jurídico-midiático iniciado em 2016.

Aliás, pelo menos os votos de Fux e Barroso, praticamente não tratou dos aspectos referentes às constitucionalidades e outras tecnicalidades do universo das leis.

Se referiu ao discurso único da concepção neoliberal do estado mínimo, da "mão invisível" e toda poderosa do mercado, como se fosse o sujeito.

Assim, na prática, apenas com os olhos e a ditadura do mercado, o direito vai servindo ao poder econômico legalizando o desmonte das estatais, sem se importar se suas decisões servem e atendem aos oligopólios estrangeiros.

Pouco importa que a venda da malha de 2,5 mil km do gasoduto da região Sudeste da subsidiária NTS, depois de dezoito meses, a Petrobras já tenha pago de tarifa pelo uso dos dutos, o valor equivalente ao que recebeu pela sua venda. 

Desmonte do setor de petróleo e elétrico nacional terá controle
simultaneamente re-verticalizado pelas corporações globais oligopolizadas.
Fonte: Tese de doutorado do blogueiro (p.222): "A relação transescalar e multidimensional 
"Petróleo-Porto" como produtora de novas territorialidades". Março 2017 PPFH-UERJ.
Essas grandes corporações ou fundos de investimentos de controle oligopolizados estão assim obtendo com o aval da justiça (politizada) brasileira para assumirem as partes das empresas estatais que trabalham em setores que geram rendas de monopólio - onde atuarão sem concorrência -, em setores estratégicos de uma nação que dessa forma, abre mão de sua soberania.

Desta forma, o país abre mão do controle monopolístico de um setor que será dirigido de forma verticalizada por oligopólio que controlará esses setores de forma global, sem se importar as nações, os seus estados e muito menos o seu povo.


quarta-feira, junho 05, 2019

Convite para o lançamento do livro "A ´indústria´ dos fundos financeiros: potência, estratégias e mobilidade no capitalismo contemporâneo"

Hoje, eu vou usar esse espaço para a divulgação desse livro do próprio autor do blog, embora ele seja em parte resultado de uma produção coletiva, na medida em que se trata de um assunto que venho debatendo em várias mesas-redondas nas universidades e instituições, assim como neste e outros espaço das redes sociais já há algum tempo.

Trata-se de um convite aos amigos e interessados no tema, para o lançamento do livro que é fruto de uma pesquisa - ainda em andamento - e também uma contribuição ao debate, sobre um dos instrumentos da financeirização, que ganhou potência após a crise de 2008.

Embora lançamento mesmo seja só um, o primeiro, a ideia é organizar outros em debates por onde houver convites. Diz questão de que ele ocorresse no Colóquio Espaço-Economia, porque foi nas versões anteriores desse evento (em especial o segundo) que o tema ganhou relevância e pesquisa se começou a se estruturar.

Os fundos financeiros ganharam agilidade para se enraizar e desenraizar em investimentos no território e para se mover entre setores econômicos (frações do capital) e nações (espaço).
O livro impresso já está disponível para venda aqui no site da Editora Consequência e, em breve, também estará acessível em e-book

Agradeço ao PPFH-UERJ e Sindipetro-NF / FUP por compreenderem a importância da temática que resultou no importante apoio para o projeto de editoração e viabilização dessa publicação.

Para sustentar esse convite eu trago abaixo, parte do texto do prefácio generoso da professora Sandra Lencioni que também conta da contracapa (4ª página) sobre o livro:

"Roberto Moraes Pessanha apresenta uma análise da frenética mobilidade dos fundos financeiros no capitalismo contemporâneo no qual as finanças desenvolvem um mundo de ficção em que o valor se confunde com o antivalor, e o capital, com capital fictício. Central no texto, a discussão dos fundos financeiros se constitui na motivação escolhida para nos alertar sobre os riscos da barbárie que nos ronda nessa fase de desenvolvimento capitalista que pode comprometer todo o processo civilizatório que experimentamos até agora. 

O desvendamento que faz busca sensibilizar e motivar os leitores a compartilharem com ele o tema, que permite de maneira indiscutível conhecer os labirintos do capitalismo contemporâneo. Roberto procura compreender o capital em movimento, qualificando-o como helicoidal, um movimento em torno de um eixo que jamais passa por um mesmo ponto e, portanto, não constrói círculos e nem elipses que se fecham em si, mas trajetórias helicoidais em que o plano seguinte do movimento se situa num outro patamar. A imagem é de um movimento em espiral no qual a valorização e a capitalização essa última relativa ao mundo das finanças - se movem em conjunto.

Pessanha se debruça sobre um tema novo que, em geral, não é de fácil interpretação. Seu livro, porém, tem o mérito de permitir o entendimento pelos não especialistas nas finanças, por aqueles que simplesmente querem tornar claro o capitalismo contemporâneo. E porque somente compreendendo este mundo é possível projetar mudanças.

O convite à leitura instigante está feito com a convicção de que este livro tem muito a nos ensinar."

Sandra Lencioni
Professora titular do Departamento de Geografia da FFLCH da USP.

terça-feira, junho 04, 2019

O Pré-sal já atingiu 60% da produção de óleo e gás e foi gênese da mudança política no Brasil

Em abril, em números divulgados ontem no Boletim Mensal de Produção da ANP (sempre dois meses após), a produção (óleo + gás) atingiu quase 2 milhões de barris equivalentes (boe) por dia no no Pré-sal. 

Para ser mais exato, 1,980 milhão de boe/dia, para uma produção total no Brasil incluindo pós-sal e terra de 3,314 milhões de boe/dia.

A área do Pré-sal é hoje não só cobiçada, mas já acessada por outras petroleiras, após o golpe político.

O pré-sal é uma descoberta da Petrobras.

Quando a estatal e os seus geólogos apostavam nos seus estudos/pesquisas, as petroleiras privadas junto com os liberais afirmavam se tratar de miragem, a ideia de que existia uma bacia, embaixo das bacias de Campos e Santos.

O pré-sal descoberta há mais de uma década continua sendo desde então, a maior província petrolífera descoberta no mundo, possuindo nada mais e nada menos, que seis dos dez maiores campos de petróleo descobertos neste período, no mundo.

Depois dos gastos para exploração, pesquisas e início em tempo recorde para a produção na área de cerca de 10 km de profundidade, a custos antes inimagináveis, as petroleiras privadas estrangeiras, com apoio dos governos dos seus países, colocaram em curso as estratégias da geopolítica do petróleo.

Assim, passaram a controlar estes dois últimos governos do Brasil e desta forma hoje passaram a ter acesso à exploração e produção no pré-sal brasileiro.

Não é por outro motivo que hoje, num mundo capitalista e lubrificado pelo petróleo, 90% das reservas estão nas mãos das petroleiras estatais (NOC - National Oil Company) e apenas 10% são das IOC - International Oil Company).

E tem mais. Nenhuma dessas petroleiras privadas possui condições e conhecimentos (expertises) para produzir sozinhas no pré-sal.

Por isso, não querem toda a privatização da Petrobras, para que ela continue a desbravar e liderar a exploração para continuar a garantir e expandir os seus lucros com a riqueza mineral que é propriedade da nação e do seu povo.

domingo, junho 02, 2019

O escoamento da energia elétrica produzida nas UTEs da GNA no Porto do Açu demandará nova linha de transmissão de 500 KV e subestação (SE) na Baixada Campista: impactos e interesses

As informações que constam dessa postagem têm origem nos Estudos para Licitação da Expansão da Transmissão (Análise Técnica e Econômica de Alternativas) e no Detalhamento de Alternativa de Referência, para Escoamento do Potencial Termelétrico do ERJ e ES, feitos pela Empresa Pública de Energia (EPE), vinculada ao Ministério das Minas e Energia (MME). Ambos divulgados em julho de 2018.

São estudos extensos e com muitos dados técnicos e econômicos que fazem diversas análises sobre a interligação da produção da energia elétrica ao Sistema Integrado Nacional (SIN). Aqui será exposto apenas um breve resumo dos mesmos objetivando ampliar o conhecimento sobre o mesmo.

O volume de energia elétrica que será gerado pelas usinas termelétricas da Gás Natural Açu (GNA-I e II - além da previsão de outras unidades numa segunda etapa) demandarão novas linhas de transmissão e interligação ao Sistema Integrado Nacional (SIN).

Estas duas usinas termelétricas estão sendo instaladas junto ao Porto do Açu, controlado pela Prumo Logística Global S.A. e se utilizarão da interligação da UTE à subestação (SE) de Furnas em Campos, mas também de uma nova Linha de Transmissão (LT) de 500.000 volts - e não mais 345.000 volts - como a linha de transmissão que faz a integração com o primeiro ramal já construído pela Prumo e hoje de propriedade da GNA.

Essa nova linha de transmissão (LT) deverá ter um percurso, em parte paralelo à outra na direção a Rio Novo do Sul (ES) – 127 km de Campos - e Mutum (MG) – 246 km de Campos. Os acessos em direção ao Espírito Santo, ainda não estão claros para o autor desse blog, embora tenha obtido informações de proprietários rurais do município de São Francisco do Itabapoana, que foram contatados para negociações, indenizações e reservas de área.

Área projetada para subestação de 500 KV na Baixada Campista.
A subestação na Baixada Campista foi projetada para a área de Tocos, próximo a um conjunto habitacional e um aeródromo, localização também próxima a um sítio arqueológico e a áreas de processos minerários que incluem extração de argila, segundo os estudos. Veja ao lado a imagem da área delimitada para a subestação (SE-2) que consta dos estudos.

Os estudos informam ainda que não identificaram na área prevista para a subestação, assentamentos rurais, unidades de conservação, terras indígenas, territórios quilombolas e nem cavernas. O mesmo não se sabe em relação ao trajeto desenhado para as Linhas de Transmissão, considerando que a de 345 KV construída pela Prumo desde o Açu até Campos. Este trecho, como é conhecido, foi objeto de fortes impactos sociais que geraram processos judiciais, porque eles não se tratam de desapropriações, que só podem ser feitas pelo governo, mas sim de indenizações de empresas particulares pelo uso das áreas de terceiros.

Os estudos trabalham com três (3) alternativas de áreas, para as quais também estimaram os custos para a instalação da subestação em torno de R$ 3,20 por metro quadrado, o que daria um valor total para a área entre 300 mil m² e 350 mil m² prevista de cerca de R$ 1 milhão.

Os estudos além dos aspectos técnicos-econômicos levaram em consideração aquilo que os seus autores chamaram de “complexidade socioambiental, potenciais atrasos no processo de licenciamento ambiental e os custos e a complexidade fundiária” do trajeto para a LT.

Considerando as várias etapas até expansão em 2029, em toda a extensão dessa interligação da rede de energia elétrica, o custo total dos investimentos atinge o valor acumulado de cerca de R$ 4,3 bilhões, contemplando a instalação de 2.320 km de linhas de transmissão em 500 kV, três novas subestações de rede básica e 6.600 MVA em novas transformações.

Abaixo segue o mapa do Corredor para a LT 500 KV2 de Campos até Mutum-MG, passando pelo ES. O corredor foi previsto com largura de 10 km para possibilitar alternativas factíveis de traçado numa extensão de 230 km. O estudo diz que esse corredor possui boa acessibilidade em termos de rodovias (federais: BR-101; BR-262; BR-356; BR-482; estaduais: RJ, 158; 194; ES-181; ES-472; ES-484; ES-379 e MG-108) entre outras estradas vicinais. 


Mapa do projeto do corredor da LT de 500 KV do Açu (SJB); Campos; ES e MG.

Análise econômica-social-espacial-ambiental dessa rede de energia elétrica e suas implicações 
Em termos de análise no campo “espaço-economia”, esse tipo de empreendimento se trata do que chamamos de redes técnicas (linhas de transmissão de energia e telecomunicações, rodovias, ferrovias e dutos) que cortam e produzem o território, integra regiões, mas possui o foco corporativos em seus extremos. 

Pode-se ainda interpretar que essa rede técnica amplia a integração entre os circuitos espaciais da energia (petróleo e gás natural no caso como fonte primária) instalados entre o ERJ e o ES, de forma mais especial, assunto que venho tratando aqui, já há algum tempo.

Sobre o uso do solo, há que se observar que os locais de passagens de suas redes sempre representam para os empreendedores, mais problemas e impactos em relação aos seus objetivos em termos de soluções e transporte para a sua energia. 

Os empreendedores possuem interesses na fluidez no transporte de sua energia, e assim evitam se envolver (enlaçar) com as comunidades percorridas pelos suas redes técnicas e assim, esses territórios (onde se incluem as pessoas e populações) são vistas como problemas, com as suas rugosidades e o seu cotidiano. Interessa a verticalidade e a fluidez dos negócios e se rejeita a horizontalidade da vida cotidiana nas populações nativas.

Assim, como a energia elétrica é cada vez mais uma commodity determinada pela oferta e o seu percurso entre geração (nas diferentes formas termelétrica, eólica, solar, hídrica, etc.) e sua distribuição e consumo são cada vez mais controladas por sistemas integrados digitais. 

Desta forma, as decisões sobre tudo isso depende pouco da regulação dos governos e cada vez mais são controlados pelas corporações que passaram a um novo patamar de apropriação das rendas da energia gerada a partir da especulação sobre preços controlados pelo mercado.

Nesse esquema, a produção o controle da distribuição em circuito integrada atende mais aos interesses e controle sobre preços (semanais e diários no mercado de energia) do que à demanda e aos consumos das regiões.

Por isso, tenho insistido tanto na necessidade de se entender as cadeias de produção por setor econômico - e seus enlaces em outras frações – em várias dimensões e de forma transescalar do local, ao nacional e global onde os vários interesses se encontram. No caso em questão se trata da produção e distribuição de energia com a participação de capitais americano e alemão.

A exposição desses dados em o objetivo de ampliar a divulgação das informações sobre o que se projeta sobre as regiões envolvidas e também de levantar questões para um debate mais amplo, sob diferentes aspectos, mas certamente envolvendo os interesses comunitários das populações das regiões envolvidas.


PS.: Atualizado 11/06/2019: Para acrescentar comentário de um observador sobre as obras na LT que ligam o Açu à Baixada Campista e ao entrocamento em Campos:

"Professor eu moro em goitacazes e tenho notado muita movimentação de operarios instalando os cabos nas torres que foram construidas algum tempo atras e que pareciam abandonadas. Tem duas redes uma de 345 que ja conta com 3 fases ligadas e a oitra rede de torres começaram a instalar os cabos nas ultimas semanas. Joje mesmo vi muitos realizando montagem de estrutura para passar os cabos sobre a estrada dos ceramistas. Em relação a subestação existe uma area sendo cercada pela mesma equipe na antiga fazenda da tocaia proximo ao condominio da cobstrutora realiza,em goitacazes que fica dentro desse raio que esta no mapa que o senhor postou, onde eu estou imaginando que será a subestação. A empresa é engelift e tem muitos carros com adesivo cinza padrão porto do açu escrito ALB.
Então pelo que percebi ja esta andamento a execução desse projeto."

sexta-feira, maio 31, 2019

A potência e a capilaridade da manifestação 30M dos estudantes podem ajudar a reconstruir o Brasil

A energia dos jovens é contagiante e com indicativos de perenidade.

Aliás, essa é uma outra confrontação com o desgoverno que ainda está sendo pouco percebida.

O movimento alicerçado pelos estudantes e sustentado na "Defesa da Educação", se contrapõe a uma ideia de passado, enquanto os jovens reivindicam o futuro.

Manifestação 30M em São Paulo 
Há quase um embate geracional em curso, para além da disputa entre classes sociais e governo e oposição no geral.

As diferenças de idade na média é flagrante e sintomática as perspectivas de um e outro polo dessa disputa que é, fundamentalmente, de natureza política.

E sendo de natureza política o que se contrapõe é a capacidade de um e outro lado buscar aliados às suas causas.

Nessa linha, é natural que a causa da Educação já esteja sendo agregada e apoiada por trabalhadores, pelos pais e brevemente por boa parte da periferia que é majoritária em termos de densidade e força para as mudanças.

30M em Campos dos Goytacazes. Foto Wellington Rangel
Aliás, este poderia ser o tom das lideranças estudantis de se aproximarem ainda mais dessa massa que tem peso não apenas de devolver as verbas e os orçamentos para a Educação, mas revirar o desgoverno dos ricos e banqueiros do mercado, para um governo de futuro como os jovens.
Essa aliança poderá reconstruir a Nação brasileira.

Tem um outro fator bem identificado pelo professor Nilson Lage, a interiorização desse movimento dos estudantes.

Essa capilaridade da reação está sendo puxada pelos campi dos Institutos Federais (IFs) e Universidades Federais (UFs). Isso tem uma potência enorme, mas que custa a ser percebida pelo centro metropolitano, especialmente do Sudeste.


As pessoas do interior criaram esperanças, expectativas e mesmo já viram resultados de ascensão social pela educação dos seus filhos e se dispõem a lutar por estas instituições. Isso é relativamente novo no Brasil complexo de hoje.

A força desse movimento não poderá ser medida por número de cidades e manifestantes, apenas. É mais que isso, na medida que a sociedade é única.

Assim, eu repito, esse movimento e suas alianças poderão reconstruir a Nação brasileira.

Sigamos em frente!

quarta-feira, maio 29, 2019

Breve história natural e social do rio Ururaí (I), por Arthur Soffiati

O professor e eco-historiador Aristides Arthur Soffiati, nos brinda hoje, com a história de um importante bairro (freguesia, como chamam os portugueses) do município de Campos dos Goytacazes. Ururaí fica localizado no extremo sul da área urbana de Campos sendo hoje um bairro densamente ocupado. 

Soffiati viajou no tempo e no espaço para trazer alguns apontamentos sobre as origens desse simpático bairro inclusive a melhor hipótese sobre a gênese de seu nome. Um bairro cujos moradores-trabalhadores no passado alimentaram a usina de açúcar com o seu nome e hoje, ajudam a manter uma boa parte das atividades de serviços da cidade. 


Breve história natural e social do rio Ururaí (I)
Arthur Soffiati
            Entre 10 e 5 mil anos passados, o mar avançou na área continental correspondente à planície dos Goytacazes e chegou à lagoa de Cima. O antigo continente foi erodido e deu lugar a uma imensa laguna, que mantinha contatos com o mar em vários pontos. A partir de 5 mil anos, o mar começou a recuar. Aos poucos, o rio Paraíba do Sul e outros pequenos rios transportaram sedimentos da zona serra e dos tabuleiros. Esses sedimentos foram depositados na área da antiga laguna, formando uma imensa planície aluvial. A constituição de uma grande restinga pelo mar e pelo rio Paraíba do Sul completou a planície. Argila e areia formaram a maior planície do futuro Estado do Rio de Janeiro, uma planície fluviomarinha.



1 - Em 5.100, o avanço do mar sobre o continente chega perto da lagoa de cima. A futura baixada dos Goytacazes já foi mar. Chegando ao máximo, o mar começa a recuar e um novo continente passa a ser construído com material trazido da zona serrana pelo rio Paraíba do Sul e outros menores

            O rio Ururaí associa-se ao processo de formação da planície. Ela nasceu com o recuou do mar e a formação da baixada. Com origem há cinco mil anos antes do presente, é um rio novo. Ele se formou como escoadouro das águas da lagoa de Cima, que, por sua vez, é formada pelos rios Imbé e Urubu. O Imbé coleta águas de pequenos rios que descem da Serra do Mar, que funciona como divisor de águas: pelo rio Imbé, as águas da vertente direita chegam ao mar. Pelo rio Paraíba do Sul, as águas da vertente esquerda alcançam o oceano.

            Todo rio busca a parte mais baixa do terreno. O Ururaí não é diferente. Ele coleta as águas da lagoa de Cima e recebia, como afluente pela margem esquerda, o rio Preto. A tendência de qualquer rio é chegar ao mar, mas ele pode encontrar no caminho outro rio ou lagoa. Foi o que aconteceu com o Ururaí. Ele encontrou a lagoa Feia no caminho, também formada pela construção da grande planície. Esta, por sua vez, desaguava por vários pequenos braços que formaram o rio Iguaçu (hoje muito mutilado), que alcançou o mar onde hoje fica a barra da lagoa do Açu.

            Assim, podemos estabelecer uma continuidade complexa da nascente do rio Imbé à foz do rio Iguaçu: o Imbé corre ao pé direito da Serra do Mar até a lagoa de Cima, que também recebe águas do rio Urubu; deságua no rio Ururaí, que recebe a contribuição do rio Preto; corre entre a zona serrana e a planície aluvial formando algumas lagoas, das quais as mais importantes são as lagoas de Pau Funcho. Alcança a lagoa Feia, que forma o rio Iguaçu por vários distributários. Este, por sua vez, corria até o mar.

Cabe aqui uma palavra sobre o rio Preto. Seu curso o conduz ao rio Paraíba do Sul, no qual, outrora, desaguava. Com as cheias deste, porém, seu curso era obstruído e desviava-se para o rio Ururaí, do qual atualmente é tributário, mantendo, porém, uma foz facultativa fixada por ação do Departamento Nacional de Obras e Saneamento (DNOS), que pode funcionar também como tomada d’água. Manoel Martins do Couto Reis diz que ele se bifurca, fazendo barra no Paraíba do Sul e lançando um braço limitado para o Ururaí. Manoel Aires de Casal entende-o como uma grande curva do Ururaí que se aproxima do Paraíba do Sul, podendo comunicar-se com ele através de um canal. A tendência natural das cheias e o rio Preto demonstram a íntima ligação entre as bacias do Paraíba do Sul e da lagoa Feia.



2 - O novo continente quase formado em torno de 2500 anos antes do presente. Destaque para os rios Preto, Ururaí, Imbé, lagoa de Cima e lagoa Feia

            Por correr o rio Ururaí entre dois terrenos distintos e de idades muito distantes uma da outra, naturalmente suas formações vegetais nativas também são diferentes. Pela margem direita, a vegetação, originalmente, era formada pela Mata Atlântica na sua feição ombrófila densa. Vale dizer, a Mata Atlântica na sua fisionomia mais conhecida: úmida, complexa, de grande biodiversidade. Ela cobria as margens da lagoa de Cima e dos rios Imbé e Urubu, apresentando feição contínua até elevados pontos da Serra do Mar. Já pela margem esquerda do Ururaí, alastrava-se um tipo de vegetação que Henrique Veloso denomina de pioneira de influência fluvial, com duas formas: permanentemente alagada ou alagável em períodos de cheias. A primeira é a vegetação típica de lagoas rasas. A segunda permite o crescimento de algumas plantas arbustivas e arbóreas.



3- Os dois tipos de vegetação de influência fluvial: ao fundo, mata inundável; na frente, vegetação aquática.

            A primeira informação sobre o rio Ururaí de que se tem notícia está no “Roteiro dos Sete Capitães”. Na segunda viagem que os fidalgos empreenderam à região, em 1633, a viagem de batismo dos acidentes geográficos, o capitão Antonio Pinto proclamou a seus colegas: “Já temos dado apelido a outros lugares, é necessário ir dando a outros também, pois estamos em um país inculto, que está em uma escuridade, é necessário que nós lhe demos a luz da aurora, para os nossos vindouros e para a sua civilização.”. Seus companheiros concordaram prontamente. Assim é que, topando com um rio que formava um pântano cercado da palmeira raraí, decidiram emprestar este nome ao curso d’água. Por sua posição, tudo leva a crer que se trata mesmo do rio Ururaí. Noutra passagem do documento, escreve-se que “... seguiu a campina e atravessou alguns lagos, direito a um alto que lhe demos o apelido do “Retiro”, por estar no centro desse alto não muito longe de um riacho d’água que fica ao sudoeste à beira de um mato, vai em direitura à grande Lagoa-feia; desta beira à sua margem da parte norte, por não podermos atravessar a grande Lagoa-feia, até apanhar a barra do rio dos Macacos, vizinho do Ururaí.” O rio aparece de repente, sem ter sido nomeado antes. Ururaí, em tupi, significa água de jacaré. A espécie de jacaré que ainda ocorre na região é o ururau. Água em tupi é í. Daí Ururaí. Quanto ao rio dos Macacos, deve ele corresponder ao hoje denominado rio Macacuá, intimamente ligado ao Ururaí e com matas alagáveis que deveriam ser o abrigo de macacos, pois macacuá significa em tupi mato de macaco. 
            Manoel Martins do Couto Reis, em 1785, mais de um século depois dos Sete Capitães, explica que o rio Ururaí esgota as águas da lagoa de Cima para a lagoa Feia, descrevendo um trajeto com grandes meandros, o que tornava a navegação enfadonha. O capitão cartógrafo ainda faz um registro importante sobre o rio: “Ele dá excelente transportação às madeiras que descem do sertão em canoas ou balsas. Seria de muita utilidade se nas maiores voltas se fizessem cortaduras para encurtar e facilitar a navegação.” Pela informação do autor, o desmatamento dos tabuleiros e da zona serrana baixa já estava em curso no final do século XVIII. Sua sugestão de retilinizar o rio será acatada pelo Departamento Nacional de Obras e Saneamento (DNOS), que, no século XX, substitui os meandros do rio, entre a localidade de Ururaí e a lagoa Feia, por linhas retas. Cada sistema econômico lida coma natureza de forma distinta. O sistema capitalista é o mais radical de todos. Podemos dizer, assim, que o rio Ururaí já estava sendo ocidentalizado pelo capitalismo no século XVIII, pelo menos quanto à navegação e ao desmatamento.





















4 - O rio Ururaí entre a lagoa de Cima e a localidade de Ururaí. Como nesse trecho não houve canalização, o rio apresenta meandros acentuados

Manoel Aires de Casal observou que o Ururaí cumpria o papel de desaguadouro da lagoa de Cima. José Carneiro da Silva ressaltou que o rio Ururaí nasce na lagoa de Cima e deságua na lagoa Feia, enquanto José de Souza Azevedo Pizarro e Araujo limita-se a dizer que ele fermenta na lagoa de Cima. Henrique Luiz de Niemeyer Bellegarde também o menciona rapidamente, explicando que “deriva-se da extremidade oriental da Lagoa de Cima, e vem por junto da Serra do Itaoca, fazer barra na Lagoa Feia, com 6 léguas de curso. Antonio Muniz de Souza encantou-se com a lagoa de Cima. Já existiam povoadores nela, mas ainda podiam ser vistas densas florestas habitadas por antas e tamanduás-bandeira. Sobre o rio Ururaí, contudo, ele se limita a repetir o que outros autores escreveram antes dele. Por sua vez, José Alexandre Teixeira Mello repete Bellegarde apenas substituindo as 6 léguas por 52 quilômetros.

Referências

BELLEGARDE, Henrique Luiz de Niemeyer. Relatório da 4ª seção de Obras Públicas da Província do Rio de Janeiro apresentado à respectiva diretoria em agosto de 1837. Rio de Janeiro: Imprensa Americana de I.F. da Costa, 1837.
CASAL, Manuel Aires de. Corografia brasílica. São Paulo: Edusp, 1976.
COUTO REIS, Manoel Martins do.  Manuscritos de Manoel Martins do Couto Reis – 1785: Descrição geográfica, política e cronográfica do Distrito dos Campos Goitacazes. Campos dos Goytacazes: Fundação Cultural Jornalista Oswaldo Lima; Rio de Janeiro: Arquivo Público do Estado do Rio de Janeiro, 2011.
GABRIEL, Adelmo Henrique Daumas e LUZ, Margareth da (orgs.); FREITAS, Carlos Roberto B.; SANTOS, Fabiano Vilaça dos; KNAUS, Paulo; SOFFIATI, Arthur (notas explicativas) e GOMES, Marcelo Abreu. Roteiro dos Sete Capitães. Macaé: Funemac Livros, 2012.
MELLO, José Alexandre Teixeira de. Campos dos Goytacazes em 1881. Rio de Janeiro: Laemmert., 1886.
PIZARRO E ARAUJO, José de Souza Azevedo. Memórias históricas do Rio de Janeiro, 3º vol., 2ª ed. Rio de Janeiro: Imprensa Nacional, 1945.
SILVA, José Carneiro da. Memória topográfica e histórica sobre os Campos dos Goitacases (1ª ed.: 1819). Rio de Janeiro: Leuzinger, 1907.
SOUZA, Antonio Muniz de. Viagens e observações de um brasileiro, 3ª ed.  Salvador: Instituto Histórico e Geográfico da Bahia, 2000.
VELOSO, Henrique Pimenta; RANGEL FILHO, Antonio Lourenço Rosa; e LIMA, Jorge Carlos Alves. Classificação da vegetação brasileira, adaptada a um sistema universal. Rio de Janeiro: Fundação Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, 1991.

segunda-feira, maio 27, 2019

Fusão da Fiat com a Renault é mais um indicativo do avanço da oligopolização das montadoras e da corrida para o carro elétrico

O anúncio feito hoje a nível mundial sobre a fusão entre a italiana Fiat e a francesa Renault é mais um forte indicativo da ampliação da oligopolização entre as montadoras de automóveis.

O fato tem origem na produtividade das montadoras asiáticas que reorganiza produção e controle de mercados na Europa e América Latina, já que essa fusão Fiat-Renault passará a ser a maior montadora no Brasil.

A relação da Renault com as japonesas Nissan e Mitsubishi pode ampliar o porte do oligopólio que surge nessa expressiva reestruturação.

O amigo de pesquisas no campo da geografia econômica, professor e pesquisador da UFF-Campos, Leandro Bruno lembra bem que "com os carros elétricos e híbridos e a tendência de compartilhamento, marcada pela entrada dos gigantes Uber e Google, estamos passando por rearranjo do oligopólio global".

Eu acrescento o fato de que a Europa já compreendeu essas ameaças. No caso das montadoras a alemã Volkswagem, com o episódio da falsificação das emissões conhecida com "dieselgate" retratado no documentário "Dirty Money" (Na rota do dinheiro sujo), mas também tenta correr atrás nas pesquisas e produção de carros híbridos e elétricos.

Todo este movimento trará ainda mais e profundas mudanças nos circuitos econômicos e espaciais. Transformações territoriais decorrentes da intensificação - um século depois - da eletrificação que já tratei aqui em algumas postagens. No dia 17 de março 2019 com o texto A “era pós-petróleo”, a “reeletrificação”, os ciclos históricos e o potencial do Brasil no sistema-mundo; e, no dia 7 de maio de 2019 com uma síntese do texto que apresentei no V Simpósio sobre história de eletrificação: "Eletricidade, Cidades e Quotidianos" com o título Geopolítica da "reeletrificação" e as transformações no território.

Como se trata de um setor da economia que é intensivo em capital, isto também está produzindo (como esse caso mostra) alterações sobre as decisões de investimentos em capital fixo em outra fração do capital, assunto que pretendo analisar e aprofundar mais adiante também relacionado a esse setor.

É certo que se a fusão for confirmada, o processo de reestruturação das duas montadoras no Brasil terá significativos efeitos sobre os empregos e as regiões onde as duas empresas possuem bases operacionais, especialmente nos estados do Rio de Janeiro, Minas Gerais e Pernambuco.

sexta-feira, maio 24, 2019

As estratégias da China diante da guerra comercial de Trump, os efeitos na geopolítica e as consequências para o Brasil atual, assumidamente submisso e dependente

A guerra comercial EUA x China embaraça o comércio global, mas explode outras questões regionais de países que possuem alguma importância, mesmo que de forma especial nas exportações de commodities.

Por enquanto, de forma bem resumida, é possível intuir que diante das pressões da guerra comercial instituída por Trump, a China escolheu alguns caminhos para seguir e que já estão sendo trilhados.

Xi Jiping sabe que as políticas e pressões dos EUA envolvem sanções comerciais, bloqueios econômicos e tarifaços. O tipo de pressão depende se o contendor é o Irã, Rússia ou a China. Assim, os chineses entendem que seria preciso fugir de algumas dependências de outras regiões do mundo que são hoje geopoliticamente controladas pelos EUA.

Assim, com o plano “Made in China 2025” decidiu aumentar a parcela de componentes e matérias-primas que hoje são em boa parte importadas para o parque industrial chinês. A decisão é voltar a produzi-las internamente na própria China. Quantitativamente é um plano ousado o de elevar esse percentual para 40% em 2020 e até 70% em 2025.

Embora, uma decisão nessa proporção não seja simples de implementar, ela produzirá enorme impactos sobre as economias emergentes, incluindo o Brasil com enormes relações com as exportações de minério de ferro e produtos agropecuários.

A China há algum tempo cuida de manter estrategicamente, alguns minerais em suas reservas, optando pela importação, especialmente, após a redução dos preços globais desde o final de 2014.

Essa decisão altera as relações econômicas não apenas com as nações chamadas de emergentes e fornecedoras tradicionais, mas todo o comércio global, na medida em que a compra de menos matérias primas (commodities) de algumas nações tendem a reduzir as compras que estas fazem de produtos chineses.

As consequências desta decisão mexe na reestruturação produtiva global que vem há pelo menos duas décadas favorecendo a lógica das cadeias globais não apenas de suprimentos, mas também de produção com etapas espalhadas em pontos (espaços) diferentes do mundo.

Outra direção tomada pela China que carece de maiores investigações é a decisão de ao invés de importar esses insumos para sua produção, passar a produzir nas próprias nações que as extraem (produzem), desde que essas possuam grandes mercados, como é o caso do Brasil.

A ampliação desses mercados fogem do controle direto dos tarifaços e sanções dos EUA evitando as pressões direta contra a China, que assim passa a ter condições de negociar também com outras nações, executando também triangulações comerciais, com produção em bases produtivas nesses outros países, onde terá apenas controle sobre parte das corporações.

Neste tipo de ação há vários projetos em andamentos e em negociação entre bancos, fundos e corporações chineses com o Brasil. Há interesses e negócios ligados à energia, alimentos e logística que possam se relacionar ao grande projeto geopolítico chinês que é a Rota da Seda. Nesse linha há claramente regiões no Brasil que se tornaram mais ou menos estratégicas para essa integração além-mar.

Porém, a China sabe que isso não impedirá uma redução do comércio global e nem evitará uma eventual decisão americana - se o processo de pressões comerciais fugir ao controle -, a favor de um enfrentamento e uma disputa militar mais “hard” (menos soft) na luta pela manutenção de sua hegemonia ameaçada.

Uma análise mesmo breve desse quadro mostra como o Brasil e a América Latina são chaves num embate desse tipo com características globais.

No caso do Brasil, o xadrez é mais complexo, porque os EUA não tem como ajudar o Brasil a sair de sua crise econômica. Aliás, não fez isso nesses três anos após golpe e aproximação submissa do país aos EUA, numa assunção clara de dependência e de condição subimperialista.

De outro lado, a China tem várias propostas de acordos entre que interessaria ao Brasil com característica complementar à chinesa, sem exigir submissão e com propostas pragmáticas e de interesses que poderiam ser negociados na linha da ampliação do valor agregado de nossa produção e ainda no setor de tecnologia.

Para circular nesse confuso cenário e disputas comerciais, políticas e geopolíticas, o Brasil precisaria ter maior capacidade de intervir entre um lado e outro, com propostas e interesses que poderiam ajudar a arbitrar soluções e negociações.

Porém, ao contrário disso, o atual governo (desgoverno) do Brasil, vem optando por ampliar a dependência não apenas política e ideológica, mas também comercial, apesar de nada receber em troca, o que reforça na prática a condição de submissão.

O assunto merece ser melhor estudado e acompanhado, porque a geopolítica e a disputa por hegemonia estão se ampliando de forma colossal, na mesma proporção em que o controle financeiro sobre o capitalismo contemporâneo é cada vez maior.

quinta-feira, maio 23, 2019

O Nordeste e o Norte podem salvar o Brasil!

Observem bem a articulação que nasceu dos governadores a partir do Nordeste.

É um acordo surgido a partir da crise de violência na região, que serviu de pressão para o ministro da Justiça ter que se curvar, mas que avançou para um consórcio - melhor estruturado e já aprovados em várias assembleias legislativas -, a partir das demandas de segurança e que avança para outros setores e outros estados, além do Nordeste.

O caso da pressão dos 14 estados contra o armamento geral da população é mais uma ação emblemática disso que estou sustentando.

É uma institucionalidade que vai para além de pleitos regionais e passou a ter peso político em negociações, pós -eleição e para além do conhecido fisiologismo da região, em relação ao poder central.

Eu tenho dito que para além das afinidades políticas, o Nordeste e o Norte podem salvar o nosso país.

Ouvindo o amigo Edilson Pereira Júnior do Ceará, eu tive ainda mais convicção para sustentar a interpretação de que o Norte e o Nordeste, ao contrário do Sudeste e do Sul, perceberam na prática, os impactos positivos de políticas redistributivas, chamadas também de keynesianas dos governos anteriores de centro-esquerda.

Até boa parte da elite econômica destas regiões se movimentou de forma diferente daqueles de outras regiões, percebendo de forma mais clara, as melhores saídas para o nosso Brasil, desde as conturbadas eleições de 2018.

Esse movimento institucional de governadores é inédito e segue sendo muito bem articulado, de forma especial pelos governadores do Maranhão, Bahia e Ceará, mas também possui em todos os demais, uma avaliação bem mais clara dos interesses comuns dessa região.

É evidente que o poder central tenta minar essa unidade e articulação, mas não tem tido êxito, porque os governadores até aqui têm tido posições claras e um interesse em negociações mais macro e não micro-localizadas ou setoriais. 

É neste sentido que volto a afirmar que o Nordeste e Norte podem salvar o Brasil.

A mídia comercial sulista e que pensa o Brasil a partir do seu umbigo, não tem olhos para observar essa realidade e os movimentos decorrentes dele. 

Por isso, insisto observem melhor e mais profundamente a sua organização, suas articulações, assim como o poder institucional que está sendo estruturado num momento em que do outro lado, o que se vê é desmonte de várias formas e diferentes setores e regiões.

terça-feira, maio 21, 2019

Maricá segue liderando receitas dos royalties no ERJ em maio

Com dados da Agência nacional de Petróleo (ANP) e tabulação do Wellington Abreu, superintendente de Petróleo, Gás e Tecnologia da PMSJB, abaixo segue as quotas dos royalties do petróleo do mês de maio, que serão depositadas amanhã nas contas das prefeituras fluminenses.

















A liderança nas receitas segue sendo do município de Maricá que receberá R$ 52,2 milhões. Em segundo vem Macaé com receita de R$ 48,5 milhões, confirmando a mudança espacial dos municípios petrorrentistas fluminenses que lidera agora estas receitas. Em terceiro no ranking fica o município de Niterói com R$ 43 milhões.

Campos dos Goytacazes agora é apenas a quarta maior receita, se computado apenas as quotas mensais e não as participações especiais (PE) que são pagas trimestralmente, por conta da alta produção nos maiores campos de petróleo. Na quota de maio, Campos dos Goytacazes terá direito de recebe amanhã o valor de R$ 31,7 milhões.

Em relação ao mês anterior de abril, as quotas que serão recebidas amanhã por esses municípios são na média entre 14% e 22% maiores, por conta do aumento do valor do barril de petróleo e também da cotação do dólar que baliza a conta sobre os valores dos royalties paga aos municípios, estados e à União.

"O preço da reconstrução", por Vitor Menezes!

O professor e jornalista Vitor Menezes publicou há pouco em seu perfil no FB, um texto crítico e de reflexão, sobre o desgoverno Bolsonaro, que merece ser lido e divulgado para se compreender o presente e se pensar em saídas e formas de reconstrução da nossa atacada Nação:


O preço da reconstrução

Já pensaram quanto o estado brasileiro vai precisar gastar para desfazer as bobagens desse governo?

1 - Será necessário investir em um descomunal programa de desarmamento para convencer os cidadãos de bem a devolverem os seus fuzis, após o crescimento alarmante das mortes por armas de fogo.

2 - Será necessário investir pesado em educação superior e tecnológica para reconstruir o que vai se deteriorar nos próximos anos.

3 - Será necessário investir em programas sociais ainda mais robustos do que os existentes para dar conta dos desvalidos da previdência e do aumento da miséria.

4 - Será necessário investir nas polícias e demais forças de segurança para que se reeduquem para uma atuação cidadã, após anos de extermínio de negros pobres.

5 - Será necessário investir pesado para recompor a base industrial do setor petróleo, que seguirá em processo de desmontagem.

6 - Será necessário investir em política externa de alto nível para recuperar a imagem internacional do Brasil.

7 - Será necessário investir milhões e milhões para recuperar áreas desmatadas pelo afrouxamento das regras de preservação ambiental.

8 - Será necessário investir em saúde pública para recuperar o SUS e combater os efeitos do aumento do uso de agrotóxicos no alimento.

9 - Será necessário investir em desenvolvimento local e regional para combater o aumento do desemprego.

10 - Será necessário investir em educação básica para formar cidadãos que não permitam, nunca mais, que o País caia em desgraça semelhante.

segunda-feira, maio 20, 2019

Brasil diante de um trevo: mais crise e caos ou busca uma saída. O mercado está espantado, mas quer esperar, porém Bolsonaro precipita um desfecho

Dólar segue em alta. 

Previsão do PIB feita pelo Banco Central cai ainda mais.

Três anos após o golpe, o quadro da economia só piora, a despeito dos argumentos que era só tirar a Dilma.

É fato que desde 2014, e mais depois de 2015, já com a ameaça de anulação das eleições e do golpe, “nenhum setor produtivo conseguiu retornar aos níveis registrados antes da crise”. Nesses cinco anos a economia foi sendo ainda mais atolada em meio à ideias ultraliberais que se imaginavam salvadoras da pátria, mas que só agravam a economia com essa fixação permanente nos ajustes fiscais.

Matéria do Estadão relata e detalha que atividades como a construção civil encontra-se 27% abaixo do registrado em 2014 e a indústria está 16,7% aquém do desempenho no mesmo período. No setor de varejo a queda é 5,8% e na área de serviços o desempenho é 11,7% inferior. 

Na reportagem, o economista-chefe do Banco Votorantim, Roberto Padovani, afirma que "há uma diversidade de diagnósticos. Quando se tem isso, é porque ninguém está entendendo direito o que está acontecendo – o que é raro de se ver". "Havia a ideia de que a mudança do ciclo político (com a chegada de Michel Temer à Presidência, em 2016) daria um choque de confiança e melhoraria a situação. Mas houve uma frustração, porque a ociosidade era tão grande que mesmo os mais otimistas não investiram". 

O mercado e o setor financeiros não têm solução para o imbróglio que ajudou a montar. 

Aguardam ainda um desfecho que lhes interesse no projeto para previdência e sua capitalização, mas já buscam alternativas.

Bolsonaro precipita o desfecho quando, ele próprio resolve atirar contra, simultaneamente, a política, o Legislativo e o Judiciário com a convocação da manifestação do próximo domingo.

Não há governo.

Ou teremos crise mais intensa (com risco de caos completo) ou uma saída mais ou menos acordada com a sociedade.