terça-feira, janeiro 21, 2020

640 mil pessoas físicas investem (R$ 67 bilhões) em fundos imobiliários no Brasil

Em junho de 2019 publicamos um livro sobre "A ´indústria´ dos fundos financeiros” no Brasil e no mundo. Desde lá, tenho uma atenção especial para os fundos imobiliários e também para os investimentos dos fundos em projetos de inovação tecnológica nas chamadas startups.

Os fundos imobiliários (FII) é o sexto tipo de fundo em volume de investimentos no Brasil, possuindo em dezembro de 2019, apenas 2,1% do total de R$ 5,4 trilhões de patrimônio dos fundos financeiros no Brasil.

Esse colossal volume de R$ 5,4 trilhões dos investimentos em fundos financeiros no país já é hoje superior a 80% do PIB do Brasil e com a perspectiva de quem em até cinco anos, supere o PIB total do país, considerando o ritmo de crescimento anual.

Portanto, os investimentos em FII de R$ 113 bilhões ainda são pequenos diante do total de patrimônio dos outros fundos, em especial, o Renda Fixa; Ações; Multimercados (Hedge); FIP e FIDC), mas o patrimônio dos FII vem crescendo mais que os demais. Em relação ao volume total de investimentos de todos os fundos financeiros no Brasil, eles saíram de 1,4% em 2017 para 2,1% em 2019.
 
Este é um dos motivos pelos quais tenho acompanhado com maior atenção a evolução dos fundos imobiliários, assim como suas estratégias no movimento desta fração do capital no Brasil, em relação ao conjunto dos fundos financeiros. A outra razão é essa extraordinária e crescente participação de investidores pessoas físicas neste tipo de fundo.

Os fundos imobiliários vendem a ideia de que suas cotas são mais vantajosas do que a compra de imóvel para investimentos. Hoje, esses papeis (cotas) possuem enorme liquidez em relação as atuais dificuldades para vender um imóvel diretamente. Assim, os FIIs evitam os custos e o trabalho dos seus proprietários com manutenção, registros (cartório), impostos e os rendimentos das cotas dos fundos (taxa de retorno ou dividend yeld) costumam ser pagas mensalmente (como se fossem aluguéis) e estão aumentando com a redução das taxas de vacâncias dos imóveis. Além disso os rendimentos são isentos de tributação. É muito provável que tudo isso explique o enorme crescimento dos investimentos de pessoas físicas (CPF) em cotas de fundos imobiliários, que pode refletir a migração dos antigos investidores na poupança.

Um olhar mais apurado sobre essa evolução no período dos últimos três anos (2017 a 2019), mostra em destaque uma maior participação das Pessoas Físicas (CPFs) no total depositado em FII.

Em 2017, 120 mil pessoas (CPFs) investiam em FII, já em dezembro de 2019, segundo a B3, um universo de 640,8 mil pessoas eram investidores em FII, equivalentes a 59% de todo o dinheiro investido em FII no país. Em agosto de 2019, só a gestora ligada ao BTG possuía R$ 19 bilhões em FII. (Valor, 07/08/2019, P.C8)

Abaixo um quadro sobre a evolução dos investimentos em Fundos Imobiliários (FII) no Brasil, a participação das pessoas físicas neste investimento e a relação dos investimentos em FII em relação ao patrimônio total de todos os fundos financeiros no Brasil no período mais recente entre 2017 e 2019.













Essa relação financeira entre construção civil (moradia, prédios comerciais, shoppings, galpões e outros) e os investimentos destes fundos imobiliários ajuda a explicar a força do setor imobiliário sobre a valorização e uso do solo, a legislação urbana (planos diretores e zoneamento/perímetro urbano) e sobre o poder políticos de prefeitos e governadores.

Numa escala ainda mais geral, esses movimentos reforçam o que já apontávamos no livro A "indústria" dos fundos financeiros, para uma espécie de "capitalismo de acionistas" que segue dirigindo a produção material imbricada ao capital financeiro, com um aumento colossal e crescente da captura da renda do trabalho (produção material e real). Seguiremos acompanhando.

PS.: Atualizado às 21:22 e 21:38: Para breve acréscimo no texto.

PS.: Atualizado às 21:46: Ainda sobre o assunto vale complementar que existe um estímulo para tornar o mercado de títulos imobiliários ainda mais atrativos no Brasil. Até aqui boa parte destes investimentos no setor imobiliário vinha dos recursos da Poupança e do FGTS. Agora a ideia é ampliar o espaço para os FII. O mercado, apoiado no Guedes, espera aumentar a participação do crédito imobiliário no PIB brasileiro. Hoje ele está na faixa dos 9%, metade do percentual de participação no Chile e ainda mais inferior à participação do capital imobiliário no PIB americano que ultrapassa 50%. Aí sim, teríamos uma inundação que não tem como ser implantada no Brasil.

segunda-feira, janeiro 20, 2020

Será mesmo que evoluímos muito desde o feudalismo ou escravismo?

Matéria do Valor "Desigualdade globa está fora de controle" (veja aqui) sobre a pesquisa da Oxfam, divulgada em mais um evento do Fórum Econômico Mundial em Davos, na Suíca, traz mais uma vez um dado crítico sobre o sistema econômico mundial em que tentamos sobreviver.

O capitalismo contemporâneo amplia as desigualdades esgarçando o processo civilizatório.
2,1 mil ricos bilionários (com mais de US$ 1 bilhão - R$ 4,2 bilhões) possuem juntos mais dinheiro que 60% da população mundial somada.

Há poucos dias, comentamos aqui dados da revista americana Forbes, citada pelo professor Dowbor, que 206 bilionários brasileiros nos últimos 12 meses, aumentaram as suas fortunas em 230 bilhões de reais.

É um processo de acumulação avassalador que tende a destruir o capitalismo enquanto sistema.

Observar o movimento do capital em seu processo de acumulação é a melhor forma de identificar as consequências dessa realidade sobre a vida das pessoas em seu cotidiano.

Será mesmo que enquanto ser social com o capitalismo (ou o modo de produção capitalista) evoluímos em relação aos períodos feudal e/ou escravista?

O Brasil do desgoverno Bolsonaro, como governo dos ricos e para os ricos, reforça esse processo ampliando o fosso entre o dono do dinheiro e das propriedades e a maioria esmagadora dos brasileiros.

O poder econômico dirige o poder político e o Estado, acabando com a ideia de democracia e reforçando aquilo que se chama de plutocracia, governo dos ricos para os ricos.

O futuro será perverso, porque não há como esse esgarçamento e estrangulamento se manterem sem reações da maioria.

Quem tem mais perderá mais.

domingo, janeiro 19, 2020

Excedentes econômicos da produção de petróleo e a hegemonia criada pelo petrodolar

Até a década de 70, o preço do petróleo estava na casa dos US$ 2 dólares. No período entre 2010 e 2014, o barril de petróleo, pela primeira vez na história do mundo, esteve sempre acima dos US$ 100, embora tenha tido o seu maior pico em 2007/2008, um pouco antes da crise financeira global de 2008, quando o barril (brent) esteve em torno de US$ 160.

Porém, foi depois da década de 70, com os dois chamados "choques do petróleo", que essa riqueza passou a ter maior valor para mundo e fez esse excedente de dinheiro originário do petróleo migrar dos países ricos e consumidores (em especial dos EUA e Europa) para o Oriente Médio (países produtores da Opep).

Esses excedentes ao trocar de mãos não encontraram países produtores de petróleo com condições de consumir outras mercadorias em volumes equivalentes e assim passaram a possuir enormes excedentes de capital.

Em resumo daí surge a ideia do "petrodólar", onde os EUA, como grande consumidor, volta a garantir sua hegemonia fazendo com que todo o petróleo do mundo fosse negociado em dólar.
Assim, os exportadores de petróleo passariam a manter seus excedentes de capital em forma monetária e com o dólar.

Os detalhes sobre isso podem ser vistos no livro "The Hidden Hand of American Hegemony" (A mão oculta da hegemonia americana) que me foi repassado pelo parceiro de FB, Aguinaldo Junior.
Em minha pesquisa (e tese doutoramento) eu tinha tratado do assunto, mas sem detalhes.

Já no livro sobre a "indústria dos fundos financeiros" eu também comentei sobre o assunto, ao me referir ao momento mais claro em que os excedentes globais cresceram e passaram a ajudar a criar a mágica financeira que conhecemos, que em seguida os grandes fundos passaram a operar mais ou menos ligados aos sistema bancários e aos mercados de capitais.

Tudo isso ajuda a explicar a consolidação da hegemonia financeira dos EUA que agora com o movimento Eurásia e comércio nas moedas chinesas e russas começam a colocar em disputa no campo da geopolítica.

quarta-feira, janeiro 15, 2020

Dowbor: "Segundo a Forbes, o Brasil tem 206 bilionários que nos últimos 12 meses aumentaram as suas fortunas em R$ 230 bilhões"

A afirmação foi feita pelo professor Ladislaw Dowbor da PUC-SP em interessante entrevista ao site Humanitas da Unisinos publicada hoje.

Ladislaw Dowbor afirma:
"No Brasil é evidente: a desigualdade. Nós temos 206 bilionários que, nos últimos 12 meses, segundo a revista americana Forbes, aumentaram as suas fortunas em 230 bilhões de reais — isso com a economia parada. Só lembrando: o Bolsa Família consome 30 bilhões de reais. Logo, não é o Bolsa Família e a aposentadoria dos velhinhos que estão prejudicando a economia, e sim a enorme extração de recursos por parte desses grandes grupos financeiros que não produzem, mas são, essencialmente, aplicadores financeiros.

Em 2012, quando começou o embate contra a Dilma [Rousseff], nós tínhamos 74 bilionários; hoje, são 206. Esse sistema não está funcionando para a economia e para a população, mas para alguém está funcionando. Essas famílias — não estamos falando do valor das empresas, mas dos grupos pessoais, que, aliás, não pagam impostos no Brasil porque lucros e dividendos distribuídos são isentos — tinham uma fortuna, em 2012, de 346 bilhões de reais e, em 2019, passaram a ter uma fortuna de 1 trilhão e 206 bilhões de reais."


Vale conferir a entrevista na íntegra aqui no portal do IHU Online:

segunda-feira, janeiro 13, 2020

Fundo financeiro americano EIG, dono do Porto do Açu, quer comprar as refinarias da Petrobras

Os fundos financeiros estão entre os principais interessados na compra das 5 refinarias (Rlam, BA; Rnest, PE; Regap, MG; Repar, PR; e Refap, RS,que o desgoverno Bolsonaro está entregando ao mercado.

Segundo o InfoMoney (site da mídia corporativa e mercado financeiro), o fundo americano EIG que controla a holding Prumo (dona do Porto do Açu), junto do fundo soberano de Abu Dhabi, o Mudaballa que também é sócio da Prumo (EIG 76% + 24% Mubadala) estão entre os mais fortes interessados no negócio de compra das cinco refinarias.

Junto destes fundos financeiros estão as grandes tradings de petróleo cru e derivados do mundo, a Vitol e Glencore, que não querem perder a chance de buscar o controle do mercado de combustíveis do Brasil, depois que esse desgoverno decidiu fatiar e desintegrar a Petrobras.

É oportuno lembrar que o Brasil é um dos maiores mercados do mundo em derivados de petróleo e combustíveis, exatamente este que está sendo entregue com o argumento de ampliar a competição.

Nenhum país do mundo entrega, quase de graça, o seu mercado a estrangeiros, com o argumento de que pretende que ele seja competitivo.

O mundo das plataformas digitais programa venda de energia elétrica por aplicativo

As plataformas digitais ampliam cada vez mais os seus usos.

Os mais conhecidos são os de transportes, entregas de comida e vendas online.

Porém, o leque de ofertas cresce e já há estudos para a comercialização direta de algumas commodities.

O caso da energia elétrica que ainda não é vista como commodity (mercadoria comum), mas é, por ser mais vinculada à oferta do que à demanda, é um destes casos.

O Valor na edição de hoje (aqui), traz uma matéria informando que o banco Itaú Unibanco já está estudando uma fórmula para aproximar ainda mais o mercado financeiro do mercado de energia elétrica.

A ideia é usar uma plataforma digital (aplicativo) através do qual o banco pretende comercializar energia elétrica para seus seus clientes pessoas físicas.

Imagine você poder comprar a energia elétrica que vai usar por um aplicativo de celular.

O Itaú, assim como as empresa do setor petróleo, vislumbra integrar e ter controle maior da cadeia produtiva desse setor de infraestrutura, onde já possui participações em empresas do setor de energia (gás e eletricidade) e distribuição.

Enquanto isso, a equipe do ministro Guedes promove a desintegração (fatiamento) das empresas estatais de energia para entregar ao setor privado, que faz o inverso integrando-as para obter melhor lucro e ter maior controle do mercado.

O caso do Itaú Unibanco mostra que a intenção com a plataforma digital de comercialização busca juntar o setor de finanças ao de energia.

Este caso serve para se identificar aquilo que venho chamando de "capitalismo de plataformas", onde a verticalização das redes digitais permite um maior controle das demandas antes vinculadas às corporações estatais de infraestrutura que estão sendo transferidas para o capital privado.

Além disso, esses negócios vão se tornando vinculados e controlados por grandes oligopólios em relação estreita com a fração financeira do capital.

Ineep descreve potencial de exploração e produção de petróleo na Guiana - América do Sul amplia sua importância na geopolítica do petróleo

Em texto dos pesquisadores Isadora Coutinho e Sérgio Trabali Neto do Intituto de Estudos Estratégicos de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis Zé Eduardo Dutra (Ineep) da Federação Única dos Petroleiros (FUP), eles mostram a expansão da exploração de petróleo, reservas e produção na Guiana, indicando e reforçando a maior importância da América do Sul na geopolítica do petróleo.

Sem empresa estatal, a Guiana planeja mais royalties e fundo soberano, para evitar que a renda petroleira seja apropriada apenas pelas operadoras estrangeiras.

"A Guiana surge como um dos projetos de desenvolvimento mais importantes da Exxon, sendo fundamental para o objetivo da petrolífera de atingir 5 milhões de barris de produção de óleo equivalente até 2025".

Acesse o texto aqui. A matéria foi publicada originalmente no site do Le Monde Diplomatique.

quarta-feira, janeiro 08, 2020

O caso Carlos Ghosn e o mundo particular dos oligopólios no capitalismo contemporâneo

As declarações do brasileiro Carlos Ghosn que foi presidente da aliança de montadoras Renault-Nissan-Mishitubishi e que fugiu do Japão para o Líbano, é apenas uma pitada sobre como se formam e operam os oligopólios (alianças de grandes corporações) no mundo.

A forma como Ghosn fala da relação com os chefes de estado e do poder financeiro em diferentes Estados-nações, mostra como o capitalismo contemporâneo se movimenta.

A fuga "espetacular" do Ghosn reflete um movimento idêntico aos fluxos do capital transfronteiriço. Sem controle.

Já a forma como o Estado japonês busca se impor, reflete uma tentativa dos Estados-nações para regular os processos econômicos de natureza mundial. Sem êxito.

Serve ainda para observar que mesmo com toda a reestruturação produtiva mundial, as cadeias de valor global e globalização, o Estado-nação ainda continua a ser forma como os países tentam fazer valer alguns interesses de sua população (ou sua elite).

Um gestor de corporações globais costuma saltar de país em país, para garantir a produtividade e os lucros para os investidores e acionistas do negócio.

Sem muita relação com o novo país, esses gestores têm mais facilidades para fazer "reengenharia", demissões e fechamento de fábricas, alianças entre corporações e, ao mesmo tempo, ser descartado mais facilmente pelos investidores.

Além disso, esse caso serve para observar como corrupção pode ser um uma espécie (quase abstrata) de conceito para definir e operar no campo das relações e da disputa de poder.

Por tudo isso (e outras questões) esse é um caso que merece ser ainda mais acompanhado, para uma melhor compreensão sobre os movimentos do capital, as relações de poder e o papel do Estado no capitalismo contemporâneo.

segunda-feira, janeiro 06, 2020

Disputa pela renda petroleira nos momentos de crise

Guedes e seus menudos estão estudando uma fórmula para retirar parte da renda petroleira que é arrecadada sob a forma de impostos para os entes públicos, visando a constituição do que estão chamando de "fundo de emergência", para quando o petróleo aumentar um pouco acima do normal.

Faz isso a pedido das corporações, mas sob o argumento de evitar que o preço dos combustíveis, aumente demais para o consumidor.

Nessa hora o liberalismo esquece que os riscos justificariam os lucros para os mercados. Assim, usam o Estado para ajustar seus interesses.

Não pensem que ficarão só nos impostos.

Lembremos que a renda petroleira é obtida ao longo da cadeia produtiva, desde a exploração (perfuração e produção), transporte, beneficiamento (refino) e distribuição para o consumo.

Sempre, e em qualquer lugar do mundo, a renda petroleira é uma disputa entre as corporações e o Estado, onde a sua parte é cobrada sob a forma de royalties e impostos.

Eles estão também já estudando formas para apanhar também uma parte dos royalties e Participações Especiais que são pagas aos entes governamentais para a constituição desse fundo de emergência.

Ou seja, uma outra forma de subsídio que diz combater ao deixar o preço do combustível oscilar com o preço do barril de petróleo, como foi feito desde 2016 e de lá mantido, sem nenhuma preocupação com a população e a nação que é produtora e hoje exporta quase metade de todo o petróleo que produz.

Agora estão apavorados, porque a gasolina já está acima de R$ 5, com o barril de petróleo a US$ 68. Imaginem se chegar a US$ 120, como esteve em 2010/20111, ou a US$ 150, antes da crise financeira de 2008.

Ou seja, retirar dinheiro (parte da renda petroleira) que seria para atender a população com serviços públicos para garantir o mercado como se ele estivesse livre. Na verdade querem ficar livres dos reais donos da riqueza petrolífera.

Os estados e municípios chamados de produtores de petróleo, tendem assim, a perder os ganhos que tinham com o aumento das receitas quando o preço do petróleo ou do dólar subiam.

Querem um liberalismo de mercado, mas para fazer no estado o que interessa às corporações e aos ricos.

PS.: É muito provável que as discussões em torno da liminar a ser julgada no STF (em abril próximo) sobre a forma de repartição dos royalties do petróleo, possa trazer embutida (pelo menudos) algumas diretrizes nessa linha pretendida. O governador Witzel sonhava na possibilidade de um acordo para evitar o risco da derrota na Côrte. Porém, agora surgem novos interesses, sempre na linha de ficar com um "naco" da renda petroleira disputada não apenas entre Estado e corporações, mas também entre as frações do Estado, ou níveis de governo. Escritórios de advocacia e consultores (pagos a peso de ouro e por instituições como IBP, Abespetro, Firjan e outras) neste momento já trabalham nessas propostas. A conferir!

domingo, janeiro 05, 2020

Fim do domínio americano no Oriente Médio?

A força militar dos EUA, acima de todas as demais, não encontra nenhum comparativo com o seu domínio, cada vez menor no mundo.

As ações tresloucadas de Trump é, quase diariamente, confrontada com a de outras lideranças no mundo, mais próximo daquilo que se poderia chamar "posições de estadistas", mesmo que todas elas defendam os seus interesses.

O Oriente Médio (hoje, alguns já chamam de porção da Ásia Ocidental) sempre foi dominado por potências estrangeiras.

Desde o fim do império Otomano, o Reino Unido e depois também a França e a seguir os EUA (em especial no período em torno do primeiro choque do petróleo) buscou o controle sobre aquela região que foi ficando cada vez mais conturbada.

Porém, é fato que exato neste momento do assassinato do general iraniano por ordem de Trump, representa, na prática o declínio da influência dos EUA sobre o Oriente Médio, que hoje passa a ser paulatinamente ocupado pelo próprio Irã em aliança com a Rússia, China e Turquia.

É oportuno lembrar que hoje a Rússia e a China conversam mais amplamente com a Arábia Saudita e os Emirados Árabes (antes aliados incondicionais americanos), inclusive em termos de negócios nucleares e de energia que envolve o setor petróleo e derivados.

Dessa forma, mesmo com capacidade bélica ainda avassaladora dos EUA, a distância daquelas bases regionais, significa que o seu domínio político, e consequentemente geopolítico tende a se reduzir, quaisquer que sejam, os desdobramentos a partir desse novo conflito.

Com os EUA cada vez mais dividido, a liderança tuiteira de Trump aprisiona e limita os objetivos do império.

Observem os diversos fatos que estão se sucedendo ao assassinato do general iraniano em Bagdá.
As falas das lideranças mundiais e ainda do mesmo Oriente Médio e os twites de Trump e veja como é cada vez mais limitada as ações dos EUA.

Trump mais parece aquele playboy arruaceiro e inconsequente diante do brinquedo dado pelos eleitores americanos, sem noção do que está ao seu redor. Assim, se torna uma presa ainda mais fácil de ser controlada pelo Deep State americano.

A consequência disso tudo é uma redução da influência americana sobre diversas regiões do mundo, mesmo que ainda possua, de forma disparada, maior poder bélico, o que nem sempre garante o poder, como aliás, deveria ter ensinado o caso da guerra do Vietnã.

Continuemos observando.

sexta-feira, janeiro 03, 2020

EUA x Irã - II

Os momentos que se sucedem ao assassinato político decidido pelo império produzem movimentos e narrativas que parecem explicar uma parte dos interesses em jogo nesse tabuleiro da geopolítica mundial.

Por mais incrível que pareça o Irã parece estar hoje maior que antes do assassinato do general Soleimani, cometido ontem, por ordem do presidente norte-americano, Donald Trump.

Ao contrário do caso do Bin Laden, o império não produziu antes o horror e o ódio de boa parte do mundo contra um líder muçulmano ou islâmico, como era o protocolo do império.

Há forte desconfiança - de vários lados e nações - de que Trump, pode ter percebido que este era um momento que não poderia ser adiado, para tirar o foco da questão do seu impeachment político no congresso americano, para de tentar buscar para si, o sentimento de unidade do povo americano, como nos casos anteriores, considerando que sua eleição se decide no final deste ano.

Aliás, vale observar que há uma contradição entre as falas nesta tarde do secretário de Estados dos EUA Mike Pompeo que disse que "não interessa uma guerra com o Irã" e a do presidente Trump que disse que "os EUA atuaram para parar uma guerra".

Parece que presidente e secretário dos EUA não combinaram bem o discurso pós-assassinato, o que reforça a hipótese de uma decisão atabalhoada e oportunística.

A Rússia e a China como adversários dos americanos manifestaram posições de estadistas, de quem estaria acima de tudo isso, questionando a irresponsabilidade americana para desestabilizar uma região complexa e historicamente conflituosa, como é o Oriente Médio, como suas enormes reservas de petróleo.

No plano nacional, a mídia comercial chama um aumento até aqui de cerca de US$ 3 dólares (pouco mais de 4%) de "disparada de preços". Mandam repórteres para corretoras para reproduzir a voz do mercado, sem levar em conta a disputa de hegemonia política mundial, não considerando o efeito desse desejo unipolar e de dominância americana, sobre o nosso cotidiano.

A voz da ONU ninguém consegue ouvir e nem respeitar, mostrando que o império do capital age sem freios e sem preocupações com a questão civilizatória.

As consequências são conhecidas, embora, o jogo de posições no tabuleiro estejam ainda se movimentando.

Bom lembrar que é a primeira vez que um conflito num país do Oriente Médio (Irã) com os EUA, encontra uma relação tão próxima deste com a neo e forte aliança Rússia e China, que assim aparece para o mundo com posição de moderação, como aliás, pede grandes nações do mundo, para evitar uma escalada maior deste conflito.

Tudo isso são simbolismos com repercussões que podem ultrapassar o fato em si, do assassinato político do general Soleimani, chefe do exército iraniano, por ordem direta de Trump.

EUA x Irã

Em que difere o ataque com drones dos EUA em Bagdá, daqueles que a Casa Branca chama de terrorismo?

Até o jargão usado pela mídia comercial ontem, no final da noite, foi idêntico, ao afirmar que os EUA reivindicava a autoria dos ataques que matou líderes iraniano e iraquiano no aeroporto da capital do Iraque.

A repercussão geopolítica do ato dependerá da extensão das respostas. A demora delas têm significado, na medida em que na semana passada Irã, Rússia e China fizeram exercícios militares conjuntos naquela região.

Até aqui o preço do barril de petróleo subiu cerca de US$ 2, pouco mais de 3%. Há ainda muito petróleo sobrando, mas a circulação de petroleiros na região do Golfo é que definirá esse movimento dos preços conforme a extensão do conflito.

Quanto mais tempo demorar a resposta iraniana, mais provável é que ela esteja articulada com as posições da Rússia e China. A segunda tem interesses internacionais mais amplos e esses conflitos tendem a criar problemas em todo o comércio global. De outro lado, espantar Trump em sua guerra comercial, também não é ruim para os chineses. 

O tabuleiro é complexo. Qualquer peça mexida pode alterar mais ou menos a geopolítica e a disputa pelo poder mundial.

No Brasil, os estados e municípios petrorrentistas se alegrarão com mais royalties, porém os motoristas consumidores de gasolina e diesel se irritarão com os aumento dos preços. A conferir!

quinta-feira, janeiro 02, 2020

Em 2019, o Brasil exportou 1,3 milhão de barris por dia de petróleo cru e importou cerca de 600 mil barris por dia de derivados - desmonte do setor nacional de petróleo, em processo de nigerização!

Os números das exportações de petróleo pelo Brasil em 2019 já foram fechados. Um volume total  exportado de 64,6 milhões de toneladas (equivalentes a 1,297 milhão de barris por dia) de óleo cru. Este volume é 9% superior ao volume exportado em 2018 que foi de 1,188 milhão de barris por dia de petróleo cru.

Já os números das importações de derivados de petróleo feitas pelo Brasil em 2019, ainda não foram divulgados, mas deve ficar em cerca de 600 mil barris por dia entre combustíveis (diesel e gasolina) entre outros derivados como querosene de aviação, nafta, solventes, coque, lubrificantes, etc. A maior parte é de diesel e gasolina, importada em sua grande maioria desde 2016 dos Estados Unidos.

Ou seja, o país segue vendendo a preço vil suas refinarias, que estão operando com capacidade abaixo da nominal, enquanto o Brasil compra os derivados refinados de petróleo, por valores muito maiores, que o do óleo cru aqui extraído e exportado.

O quadro tende a piorar, pois o Brasil segue aumentando significativamente a sua produção de petróleo, por conta da enorme produtividade dos poços da Bacia de Santos e do Pré-sal. Além disso, uma parte cada vez maior das reservas descobertas (ativos) pela Petrobras foram e continuam sendo transferidas para petroleiras estrangeiras que fazem o que bem entendem do petróleo extraído.

Esse esse volume exportado de 1,3 mibpd em 2019, equivale quase a metade da produção de petróleo no Brasil (só petróleo e não gás natural) que em outubro de 2019 foi de 2,964 milhões de barris. Isso mesmo, hoje, o Brasil exporta 44%, quase a metade do petróleo que produz.

Segundo a ANP, o Brasil será em 2030, o 4º maior produtor de petróleo do mundo. Sairá de uma produção atual de 3,3 milhões de barris por dia (mibpd) hoje, para 7 milhões de bpd em 2030, quando deverá estar exportando entre 4 e 5 milhões barris por dia (mibpd), demandando assim mais terminais portuários, navios petroleiros, etc. (Vide aqui postagem do blog, em 10 de setembro de 2019,
"As previsões de demandas de infraestrutura e equipamentos para dobrar a produção de óleo e gás no Brasil até 2030, comprovam as razões do desmonte da Petrobras e das empreiteiras no país".

Enquanto isso, a Petrobras vende seu parque de refino e o controle do mercado que era até aqui da estatal.

Assim, o Brasil ficará ainda mais dependente da importação estratégica e cara de combustíveis do exterior, em boa parte petróleo aqui extraído e vendido lá fora. Em 2017, o blog já comentava sobre o início deste movimento, em texto repercutido aqui pela Federação Única dos Petroleiros (FUP) e diversos outros sites e blogs.

Tem-se assim, uUm processo semelhante ao que vive outras nações produtoras e desindustrializadas, como a Nigéria, que ao contrário do Brasil projeta dobrar sua capacidade de refino.

Ou seja, após o golpe político no país em 2016, assistimos a um desmonte do setor de petróleo e de ferino. A Petrobras foi fatiada, desintegrada (deixando de ser uma empresa de energia do poço ao posto) e está sendo entregue em partes às petrolíferas estrangeiras e fundos financeiros globais, enquanto no país, o preço do combustível dispara, com a gasolina a quase R$ 6, mesmo estando o barril de petróleo a pouco mais de US$ 60, no mercado internacional.

PS.: Atualizado às 22:58: Para breve acréscimo no texto original.

PS.: Atualizado às 23:44 e 23:51: Para maior espanto de todos, esse volume exportado de 1,3 mibpd equivale quase a metade da produção de petróleo no Brasil (só petróleo e não gás natural) que em outubro de 2019 foi de 2,964 milhões de barris. Isso mesmo, hoje, o Brasil exporta 44%, quase a metade do petróleo que produz.

PS.: Atualizado às 00:58: Para corrigir título para 1,3 milhão.

domingo, dezembro 29, 2019

Fiori: "A esquerda, os militares, o imperialismo e o desenvolvimento"

As análises do professor José Luiz Fiori merecem ser acompanhadas e discutidas. Faço isso desde que li alguns de seus livros que me ajudam a interpretar fenômenos políticos dentro do que ele chama do sistema interestatal capitalista e da geopolítica.

Neste último artigo, Fiori fala sobre como os países se colocam em relação à potência dominante no interior do sistema mundial e numa interessante e sintética leitura que envolve o papel dos militares. Assim, mostra como os EUA, como potência dominante da América Latina, no presente momento radicalizou sua posição com o aprofundamento do pensamento neoliberal (e defesa do ultraliberalismo), "com forte viés autoritário, sem nenhum tipo de preocupação social ou promessa para o futuro, seja de maior justiça ou de maior igualdade", que determina sua forma de atuar sobre o Brasil e os demais países do continente,

Vale a leitura e o debate porque o texto propõe ao final que diante das "bifurcações históricas”, é preciso ter coragem de mudar a forma de pensar, é preciso “rebobinar” as ideias, mudar o ângulo e trocar o paradigma". Ou seja, é necessário ter a compreensão das relações de poder na disputa por um projeto de nação e de desenvolvimento.



A esquerda, os militares, o imperialismo e o desenvolvimento
As grandes potências são aqueles Estados de toda parte da Terra que possuem elevada capacidade militar perante os outros, perseguem interesses continentais ou globais e defendem estes interesses por meio de uma ampla gama de instrumentos, entre eles a força e ameaças de força, sendo reconhecidos pelos Estados menos poderosos como atores principais que exercem direitos formais excepcionais nas relações internacionais.” (Charles Tilly, Coerção, Capital e Estados Europeus. São Paulo: EDUSP, 1996, p. 247)
Foi depois da Primeira Grande Guerra que o movimento socialista internacional repudiou o colonialismo europeu e transformou o “imperialismo” no inimigo número um da esquerda mundial. Assim mesmo, quando os socialistas chegaram pela primeira vez ao poder, na Europa, e foram obrigados a governar economias capitalistas, não conseguiram extrair consequências da sua própria teoria do imperialismo para o plano concreto das políticas públicas. E quando foram chamados a comandar diretamente a política econômica, como no caso de Rudolf Hilferding, entre outros, seguiram o receituário vitoriano clássico, do “sound money and free markets” – até muito depois da Segunda Guerra, quando aderiram, já nos anos 60 e 70, às ideias, propostas e políticas keynesianas. Mas na década de 80, estes mesmos partidos se converteram ao programa ortodoxo da austeridade fiscal e das reformas liberais que levaram à desmontagem parcial do Estado de Bem-estar Social.

Esse mesmo problema reapareceu de forma mais dramática quando lhes tocou aos socialistas e às forças de esquerda governarem países “periféricos” ou “subdesenvolvidos”. Também nestes casos, os teóricos do imperialismo e da dependência tiveram muita dificuldade para decidir qual seria o modelo de política econômica “ideal” para as condições específicas de um país situado no “andar de baixo” da hierarquia mundial do poder e da riqueza.

No caso da América Latina, a CEPAL formulou nos anos 50 uma teoria “estruturalista” do comércio internacional e da inflação, e propôs um programa de industrialização por “substituição de importações” que lembrava as teorias e propostas de Friederich List, economista alemão do século XIX, com a diferença de que as ideias cepalinas não tinham nenhum tipo de conotação nacionalista, ou de coloração anti-imperialista. Na prática, entretanto, dentro e fora da América Latina, os governos de esquerda dos países periféricos acabaram, quase invariavelmente, derrubados ou estrangulados financeiramente pelas grandes potências do sistema mundial, sem terem conseguido descobrir o caminho do crescimento e da igualdade, dentro de uma economia capitalista subdesenvolvida, e no contexto de um sistema internacional assimétrico, competitivo e extremamente bélico. Apesar de tudo, essas experiências deixaram um ensinamento fundamental: que os modelos e as políticas econômicas que funcionam em um país do “andar de cima” não funcionam necessariamente em países situados nos escalões inferiores do sistema, e menos ainda, quando estes países do “andar de baixo” tiveram a ousadia de querer mudar sua posição relativa dentro da hierarquia mundial do poder.

Desta perspectiva, para poder avançar neste debate, é útil distinguir pelo menos quatro tipos ou grupos de países,[1] do ponto de vista de sua estratégia de desenvolvimento e de sua posição com relação à potência dominante em cada um dos grandes tabuleiros geopolíticos e econômicos do sistema mundial. No primeiro grupo, encontram-se os países que lideram ou lideraram a expansão do sistema mundial, em distintos níveis e momentos históricos, as chamadas “grandes potências”, do presente e do passado, desde a origem do sistema interestatal capitalista; no segundo grupo, estão os países que foram derrotados e submetidos pelas grandes potências, ou que adotaram voluntariamente estratégias de integração econômica com as potências vitoriosas, transformando-se em seus dominiums econômicos e protetorados militares; no terceiro grupo devem ser situados os países que lograram se desenvolver questionando a hierarquia internacional estabelecida e adotando estratégias econômicas nacionais que priorizaram a mudança de posição do país dentro do poder e da riqueza mundiais; e por fim, no quarto grupo, podemos situar todos os demais países e economias nacionais situadas na periferia do sistema e que não puderam ou não se propuseram sair dessa condição, ou mesmo sofreram um processo de deterioração ou decadência depois de terem alcançado níveis mais altos de desenvolvimento, como no caso de alguns países africanos e latino-americanos.

No caso da América Latina, a potência dominante sempre foram os Estados Unidos. E desde a Segunda Guerra Mundial, até o final da década de 70 pelo menos, os Estados Unidos defenderam e patrocinaram na sua “zona de influência” um projeto de tipo “desenvolvimentista” que prometia rápido crescimento econômico e modernização social, como caminho de superação do subdesenvolvimento latino-americano. Mas depois da sua crise dos anos 70, e em particular na década de 80, os norte-americanos mudaram sua estratégia econômica internacional e abandonaram definitivamente seu projeto e patrocínio desenvolvimentista. Desde então, passaram a defender, urbe et orbi, um novo programa econômico de reformas e políticas neoliberais que ficou conhecido pelo nome de “Consenso de Washington”, que se transformou no núcleo central de sua retórica vitoriosa depois do fim da Guerra Fria. Combinavam a defesa dos mercados livres e desregulados com a defesa da democracia e da desestatização das economias que haviam seguido seu ideário anterior, que propunha um crescimento econômico rápido e induzido pelo Estado. Foi o momento em que o neoliberalismo se transformou no pensamento hegemônico de quase todos os partidos e governos da América Latina, incluindo os partidos socialistas e social-democratas. Na segunda década do século XXI, entretanto, os Estados Unidos voltaram a redefinir e mudar radicalmente seu projeto econômico para a periferia latina e mundial, defendendo um ultraliberalismo radical e com forte viés autoritário, sem nenhum tipo de preocupação social ou promessa para o futuro, seja de maior justiça ou de maior igualdade.

É nesse contexto hemisférico que se deve ler, interpretar e discutir a trajetória econômica brasileira da Segunda Guerra Mundial até hoje, começando pelo sucesso econômico do seu “desenvolvimentismo conservador”, que foi sempre tutelado pelos militares e apoiado pelos Estados Unidos. Em troca, durante todo esse período, os militares brasileiros submeteram-se à estratégia militar dos Estados Unidos durante a Guerra Fria, transformando-se no único caso de sucesso no continente latino-americano daquilo que alguns historiadores econômicos costumam chamar de “desenvolvimento a convite”, que se encaixa diretamente no segundo tipo de estratégia e de desenvolvimento da nossa classificação anterior. Ressalva deve ser feita ao governo Geisel, que se manteve fiel ao anticomunismo americano, mas ensaiou uma estratégia de centralização e estatização econômica e de conquista de maior autonomia internacional, que foi vetada e derrotada pelos Estados Unidos e pelo próprio empresariado brasileiro.[2]

É exatamente o período “geiselista” do regime militar brasileiro que deixa muitos analistas confundidos quando o comparam com o ultraliberalismo do atual governo “paramilitar” instalado no Brasil em 2018. Na verdade – excluída a “excrecência bolsonarista” – os militares brasileiros seguem no mesmo lugar, ocupando a mesma posição que ocuparam nos golpes de 1954 e de 1964: aliados com as mesmas forças conservadoras e com a extrema-direita religiosa, e alinhados de forma incondicional e subalterna com os Estados Unidos. E é por isto exatamente que não representa nenhum constrangimento para eles o fato de terem sido “nacional-desenvolvimentistas” na segunda metade do século XX, e serem agora “nacional-ultraliberalistas” neste início do século XXI. Acreditam que, uma vez mais, seu alinhamento automático com os Estados Unidos lhes garantirá o mesmo sucesso econômico que tiveram durante a Guerra Fria, só que agora através de mercados desregulados, desestatizados e desnacionalizados.

O que os atuais militares brasileiros ainda não perceberam, entretanto, é que a estratégia de desenvolvimento ultraliberal esgotou-se em todo mundo, e em particular no caso dos Estados e economias nacionais de maior extensão e complexidade, como o Brasil. E que os Estados Unidos já não estão em condições nem querem assumir a responsabilidade pela criação de um novo tipo de “dominium canadense” ao sul do continente americano. Além disso, nesta nova fase os Estados Unidos estão inteiramente dedicados à competição entre as três grandes potências que restaram no mundo;[3] não têm mais nenhum tipo de aliado permanente ou incondicional, com exceção de Israel e Arábia Saudita; e consideram que seus interesses econômicos e estratégicos nacionais estão por cima de qualquer acordo ou aliança com qualquer tipo de país, que por definição será sempre passageira. Por sua própria conta, a agenda ultraliberal pode garantir um aumento da margem de lucro dos capitais privados, sobretudo depois da destruição da legislação trabalhista, e durante o período das grandes privatizações. Mas, definitivamente, a agenda ultraliberal não conseguirá dar conta do desafio simultâneo do crescimento econômico e da diminuição da desigualdade social brasileira.

No entanto, esse “fracasso anunciado” traz de volta o grande desafio e a grande incógnita da esquerda e das forças progressistas, até porque o antigo desenvolvimentismo brasileiro não foi uma obra de esquerda, como já dissemos, mas sobretudo uma obra conservadora e militar que não teria tido grande sucesso se não tivesse contado com o “convite” norte-americano. E exatamente por isso fica muito difícil querer reinventá-lo utilizando apenas novas fórmulas e equações macroeconômicas. Talvez por isto mesmo às vezes se tem a impressão, hoje, de que a esquerda econômica vive prisioneira de um debate circular e inconclusivo, sempre em busca da fórmula mágica ou ideal que supõe ser capaz de responder por si só triplo desafio do crescimento, da igualdade e da soberania.

Nesses momentos de grandes “bifurcações históricas”, é preciso ter coragem de mudar a forma de pensar, é preciso “rebobinar” as ideias, mudar o ângulo e trocar o paradigma. Isto é muito difícil de esperar dos militares porque eles foram educados para pensar sempre da mesma maneira, e foram treinados para fazer a mesma coisa todo dia, em ordem unida. O problema maior, entretanto, vem da resistência dos economistas progressistas que, quando ouvem falar em “imperialismo”, “dependência” ou em “assimetria do poder internacional”, preferem se esconder atrás do argumento velho e preguiçoso de que se trata de uma “visão conspiratória” da História, sem querer enfrentar a dura realidade revelada por Max Weber, quando nos ensinou que “os processos de desenvolvimento econômico são lutas de poder e dominação [e por isto] a ciência da política econômica é uma ciência política, e como tal não se conserva virgem com relação à política quotidiana, a política dos governos e das classes no poder, e pelo contrário, depende dos interesses permanentes da política de potência das nações”.[4]

30 de dezembro de 2019

Referências:
[1] Fiori, J.L., “História, estratégia e desenvolvimento”, Editora Vozes, Petrópolis, 2015, p: 43 e 44

[2] “O governo Geisel tentou impor um novo movimento de centralização econômica, mas já não encontrou o apoio social e político – nacional e internacional – de início do regime militar. Por isso fracassou, e apesar da aparência em contrário, seu intento acelerou a divisão interna dos militares, que cresceu ainda mais nos anos seguintes e acabou levando-os à impotência final”. FIORI, J.L. Conjuntura e ciclo na dinâmica de um Estado periférico. Tese de Doutoramento, mimeo, USP, 1985, p. 214.

[3] COLBY, E.A. e MITCHELL, A.W. The Age of Great-Power Competition. How the Trump Administration Refashioned American Strategy. Forerign Affairs This Week. December 27, 2019.

[4] Weber, M. “Escritos Políticos”, Folio Ediciones S.A., México, 1982, p: 18.

sexta-feira, dezembro 27, 2019

A catequese contemporânea do deus dinheiro!

Virou moda falar em "educação financeira".

Aos incautos parece a alfabetização para chegar à riqueza como se essa pudesse prescindir do trabalho.

Os bancos, os fundos e as fintechs falam em educação financeira, como se existisse um saber possível de retirar alguém da pobreza, apenas por por ele.

Na verdade todos eles estão de olho em aumentar a captura de "rendas não bancarizadas" ou "não financeirizadas" através de papeis.

Os bancos e as gestoras de fundos estão levando a tal educação financeira para as zonas rurais, para as favelas das periferias urbanas, pequenas igrejas, etc. e agora até para povos e aldeias indígenas.

Engraçado é que reclamam que estes grupos são muitos comunitários e assim possuem dificuldades para compreender os princípios da educação financeira que querem passar, que é fundamentalmente individual, porque as pessoas - nas suas singularidades - tratam de forma distinta a relação com a riqueza e os meios de troca que é o dinheiro.

Daí se tem um exercício difícil para eles. Tirar as pessoas de suas tradições de pensar a vida mais coletivamente e não de forma individual e monetizada.

Tem-se aí uma espécie de catequese contemporânea do império do dinheiro e das finanças ampliando os ganhos e a acumulação dos capitalistas, dentro do sonho (pesadelo) de um crescimento guiado pelas finanças.

O império do capital busca estender e extrapolar as fronteiras das colônias e dos povos, a concepção mental que sustenta a abstração do valor do dinheiro como forma de manter sua hegemonia. Há limites para tudo isso!


PS.: Atualizado às 17:34: A catequese financeira visa também ao aumento do poder do império e de sua capacidade de controle quase totalizante no capitalismo contemporâneo que é hegemonicamente financeiro. Quem resiste a ele sofre o estado de exceção (Agamben).

terça-feira, dezembro 24, 2019

Banqueiro-ministro dá presente de Natal aos amigos com recursos do Estado (nosso)

A notícia está nos jornais de hoje. Na FSP "BC propõe projeto de socorro a bancos e prevê uso de recursos públicos".

Banqueiro-ministro Paulo Guedes (posto Ipiranga e sua trupe) agindo com o poder de ministro de Estado da Economia, a favor dos seus.

Estado para si e para os amigos ricos.

Sua iniciativa oportunística na véspera de Natal, reforça o que de pior existe na chamada velha política, que seu chefe dizia e falseava, dizendo querer combater.

A origem da medida permite interpretar dois cenários.

O primeiro é se aproveitar do leve e curto voo da galinha da economia, para garantir em lei, que o risco de atividade bancária seja garantida pelo Estado (por todos nós), se já não bastassem os bilionários lucros (este só para os amigos todos ricos), inclusive, e em especial nos períodos de crise. Reforçando a contradição do capitalismo que alega que os riscos justificam os lucros.

O segundo é que ministro-banqueiro Guedes também não acredita no voo da galinha da economia brasileira e assim, já antevê e pretende se prevenir de problemas no sistema bancário e financeiro que, evidentemente, negará.

Quem tem reservas e aplicações em fundos - e não é amigo de banqueiros - que se cuide.

sábado, dezembro 14, 2019

A economia do compartilhamento e o capitalismo de plataformas nascem à luz da modernidade, mas caminham para o subterrâneo das cavernas (underground capitalism)

No Brasil, segundo o IBGE já são mais de 4 milhões de pessoas vendendo trabalho (a maioria na informalidade) para as plataformas digitais. No atual estágio do capitalismo, essa forma de trabalho acaba sendo quase a única alternativa para obter renda e garantir a sobrevivência. Mesmo que explorado e percebendo que uma boa parte do sua renda líquida é capturada pelos vampiros modernos. Sob o manto e a aura da modernidade digital das chamadas startups, os vampiros digitais chupam parte da renda originada no trabalho local de transporte de passageiros e de entrega de alimentos, em processos ainda pouco observados pela maioria  das pessoas. [1]

O caso do transportes de passageiros, já chamados de "uberização", mesmo que com outras plataformas para além do Uber, serviu de referência para outras modalidades de intermediação entre produtor e consumidor, desde o transporte de pessoas às entregas de comida, que se espalham numa velocidade enorme, em que os trabalhadores desta rede logística se espremem pelas vias urbanas em motos e bicicletas, que em muitos casos são alugadas, como os carros nos aplicativos de transportes.

Do lado do consumidor este tipo de demanda parece que dá status de modernidade a quem o solicita por estar "antenado" e por ter o conhecimento sobre o uso destas plataformas digitais, hoje acessíveis por quase todos os celulares, além de propiciar economias, em relação às refeições feitas nos restaurantes, mesmo que self-service, onde o trabalho do garçom já foi sendo abolido.

Para os trabalhadores destas plataformas digitais, alguma renda é melhor que nenhuma renda. Para aqueles que produzem os alimentos, o argumento é que sem a entrega barata dos pratos, não há como sobreviver no mercado, numa época que a chamada comodidade e um novo modus de vida dos tempos atuais "brotaram nas pessoas" chamadas quase permanentemente de consumidores. 

Para os donos das plataformas digitais, estes dois argumentos servem para apresentar sua conta e os seus ganhos, onde a modernidade e o conhecimento digital justificariam a vampirização da renda em proporções absurdas. Mesmo não fazendo e nem entregando os alimentos, essas plataformas ficam com um percentual entre 15% e 30%. Além disso, são os únicos a conhecer a fundo todas as informações de todo esse processo de produção e consumo de algo que todos precisam: os alimentos.

Os proprietários das plataformas digitais montam seus bigdatas e assim, sabem quais são os pratos preferidos, os horários e regiões de pedido e entrega, quem vende mais e o quê, para onde e com pessoas de que perfil. Quem paga e como paga. 

Enquanto isso, os trabalhadores das entregas com aqueles enormes isopores pendurados nas costas são obrigados a se submeterem a práticas cada vez mais precárias e sem nenhuma proteção e sem direitos nas vias conturbadas e caóticas das cidades. Os consumidores consomem e pensam que não têm nenhuma relação ou culpa dos processos e o sistema serem dessa forma que são, ao mesmo tempo que comemoram, individualmente, a conquista da comodidade, fruto da chamada modernidade que serve a alguns, enquanto quase escravizam a quem lhe serve. Escravos da pós-modernidade.

Por conhecerem as pontas de quem atua no processo como produtor ou consumidor, os gestores das plataformas digitais passam a interferir na definição dos cardápios - defendendo que sejam reduzidos -, para objetivar escolhas que não gerem dúvidas, numa lógica da velocidade contemporânea, para aumento da produtividade, que inclui novas localizações das cozinhas para reduzir os custos de percursos, terem vantagens de aglomeração e massificação, etc. 

Neste processo, os donos das plataformas digitais (vampiros tecnológicos) já avançaram em suas atividades. Além de conectar produtor, consumidor e trabalhador das entregas, eles já estão usando as informações que possuem de todo o processo para interferir nos negócios destas pontas, aumentando ainda mais os seus ganhos e buscando a massificação (oligopolização), exigindo em troca destes agentes uma fidelização, assim como fazem aos consumidores com descontos para quem mais utiliza as plataformas.

O caso mais recente que se tem conhecimento é o das cozinhas escuras e subterrâneas (dark kitchens) quando os restaurantes passaram a ser apenas produtores das comidas, orientados pelas plataformas digitais (IFood, Uber Eats e Rappi). Ainda na busca do discurso da modernidade, há quem chame essas dark kitchen (ou cloud kitchens) de restaurantes virtuais. [2]

Hoje, boa parte dos consumidores destas comidas só conhecem os produtores de alimentos pelas redes sociais. A cozinha está indo para os subterrâneos para ampliar os ganhos de quem faz a intermediação deste negócio. As plataformas sugerem aos produtores de alimentos que eles estejam estrategicamente localizados, no centro da maioria dos pedidos, sem precisar ser visível, com pontos comerciais mais baratos e com ganhos para produção em maior escala e sem conhecer os seus consumidores.

Algumas plataformas já são também responsáveis pela montagem destas grandes “cozinhas subterrâneas” em estruturas que chamam de hubs (canais). No Brasil, a Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel) estima que o setor já movimente R$ 15 bilhões por ano, com crescimento anual de 20%, mas reclamam que os donos de plataformas deveriam compartilhar os dados dos clientes. [2]

Em todo esse processo de mergulho das cozinhas e seus trabalhadores nos subterrâneos da modernidade, se observa que a chamada economia do compartilhamento que nasceu com o discurso de ampliação da sociabilidade e da cooperação, serve hoje para o capturar as rendas locais para o andar superior das finanças que hoje controlam essas plataformas digitais.

Trata-se de um processo com ampla utilização da ideia da gestão do território e da intermediação entre os agentes do sistema para aspirar – como vampiros digitais – as rendas geradas pelos fluxos de dinheiros, promovendo ainda enorme concentração de renda e ampliando as desigualdades sociais. O capital necessita fazer imersão no território, através de agentes locais, para articular os negócios e assim aspirar e desenraizar as rendas regionais até o andar de cima das finanças.

O uso da internet e das comunicações online segue transformando profundamente as nossas relações sociais. Ao contrário das expectativas iniciais de democratização econômica e inclusão social, o que se vê desde então é uma concentração absurda, uma oligopolização com a captura da vida das pessoas e das rendas locais, por parte de um sistema que tem reforçado a hegemonia financeira global no capitalismo contemporâneo.

Vivemos um movimento intenso e em várias dimensões e por isso difícil de ser observado e interpretado em toda a sua totalidade por aqueles que correm e buscam sobreviver. Realizar a leitura deste processo, mesmo que de forma paulatina e ainda fragmentada, exige a junção das partes soltas deste fenômeno real e contemporâneo que deve ser investigado e analisado de forma multidimensional (dimensão social, territorial e econômico-financeira entre outras) e em várias escalas simultaneamente, ou seja, de forma transescalar. Desde o fenômeno real analisado no local, às suas relações nacionais e articulações intersetoriais e de interligações globais.

Este mergulho do capitalismo real para o “underground capitalism” é um processo que está sendo ainda mais amplamente investigado por este autor, que já identificou que boa parte do controle destas plataformas digitais são feitas por grandes investidores, através de fundos financeiros (já tratados em pesquisa divulgada), que também, e não coincidentemente, se trata de outra atividade invisibilizada para o grande público, ficando nos subterrâneos e cavernas, onde se busca a acumulação como etapa e parte do circuito de valorização e de capitalização no capitalismo contemporâneo.


Referências:
[1] IBGE em pesquisa da PNAD (abril de 2019) identificou que 3,8 milhões de brasileiros trabalham com as plataformas representando 17% dos 23,8 milhões de trabalhadores nessa condição, segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), no trimestre até fevereiro de 2019. Matéria da revista Exame: "Apps como Uber e iFood se tornam “maior empregador” do Brasil - Apps de serviços são fonte de renda para 4 milhões de brasileiros; se reunidas em uma mesma folha de pagamento, ela seria mais longa do que a dos Correios". Disponível em: < https://exame.abril.com.br/economia/apps-como-uber-e-ifood-sao-fonte-de-renda-de-quase-4-milhoes-de-pessoas/...>.

[2] Reportagem do Valor, em 11 de dezembro de 2019, P. B1. MADUREIRA, Daniele. "Aplicativos de entrega dão as cartas na cozinha". Disponível em: https://valor.globo.com/empresas/noticia/2019/12/11/aplicativos-de-entrega-dao-as-ordens-na-cozinha.ghtml


PS.: Atualizado às 13:04 de 16/12/2019: A plataforma 99 de transportes seguindo a Uber Eatas, também lançou o 99 Food. Essas plataformas de entrega de comidas agora estão avançando para entrega de supermercados. O IFood já tem acordo com 200 supermercados e planeja ampliar este acordo para mil supermercados em 2020. De certa forma, a entrega de comidas impacta em parte o negócio de supermercado. Observa-se aí uma ampliação da atuação do "capitalismo de plataformas".


PS.: Atualizado às 16:06 de 16/12/2019: Vale ler matéria do The Guardian (5 dez. 2019) "Uber’s new loan program could trap drivers in cycles of crushing debt". O Uber Money busca ampliar seu leque de atuação e controle sobre o trabalhador de aplicativos com dívidas a serem pagas com a renda do trabalho de transportes de passageiros ou entrega de comida. Ciclo de dívidas para prender o trabalhador e garantir maior captura sobre suas rendas. Uma Neoescravização digital em curso através do capitalismo de plataformas.

Trechos da reportagem: 
"Um programa de empréstimos criar uma nova e cruel forma de peonagem digital. A peonagem, usada como substituto da escravidão definitiva no sul da América pós-guerra civil, é um sistema de exploração econômica em que os trabalhadores são obrigados a trabalhar para pagar dívidas a seus empregadores... 
... Peonagem digital poderia ser muito mais explorador pelo uso de dados da empresa para determinar preços de viagens e ganhos com motoristas... 
... Os empréstimos do dia de pagamento da Uber poderiam ajudar a empresa a manter o controle coercitivo sobre sua força de trabalho supostamente independente. Com dados sobre o quanto os motoristas precisam ganhar para sobreviver, o Uber pode personalizar os juros, calibrar exatamente quanto tempo um motorista deve trabalhar para pagar esses juros e pressioná-lo para - e talvez ultrapassar - seus limites." 

Voltando às interpretações do texto principal. Temos aí uma renda derivada da escravidão (trabalho livre controlado), onde o sujeito é livre para admitir ser explorado para sobreviver. 
Por tudo isso, mais que nunca ler é necessário estudar a história da escravidão humana para entender o capitalismo contemporâneo. O servo que usa os meios digitais (bigdata) para exercer o controle coercitivo com quem precisa sobreviver e hoje possui seus dados e por algoritmos controla a força de trabalho da qual pode realizar ainda maior captura de renda derivada do trabalho.

André Araújo no GGN: "A elite americana prevê o fim do neoliberalismo"

André Araújo aqui no portal GGN publicou um texto com uma breve análise que merece ser replicada. Em resumo, o autor mostra como o esgarçamento do ciclo neoliberal puxado pela hegemonia financeira que tanto temos comentado aqui neste espaço, pode esta mostrando seus limites.

O pesadelo começa pelo lado de quem tem mais a perder e começa a vislumbrar necessidade de fazer concessões para manter o capitalismo.

Decisões como essa têm um período temporal possível, depois será depois.


A elite americana prevê o fim do neoliberalismo

As 200 maiores corporações americanas, reunidas no BUSINESS ROUNDTABLE, principal entidade de cúpula do capitalismo americano, presidido por Jamie Dimon, CEO do mega banco J.P. MORGAN CHASE, pela voz de seus executivos principais reunidos, decidiram que o credo neoliberal praticado há 40 anos, segundo o qual p principal objetivo das corporações é gerar “valor para o acionista”, está errado e deve ser revisto porque esse ideia causou um desastre que vai COLOCAR EM RISCO O PRÓPRIO CAPITALISMO. Esse desastre se chama “CONCENTRAÇÃO DE RENDA”.

Há 40 anos, segundo o Business Roundtable, 1% da população americana detinha 7% da riqueza. Hoje os mesmos 1% detém 22% da riqueza, a concentração de riqueza aumentou TRÊS VEZES. O mito neoliberal, de que se o acionista ganhar mais toda a economia prospera, ERA FALSO. A riqueza se concentra e não beneficia o conjunto da sociedade. Hoje o crescimento dos EUA está estagnado e não passa de 2% anual, inexplicável quando o desemprego é baixo. Na prática, os EUA têm pleno emprego, mas há truques embutidos nessa constatação, há muitos trabalhando abaixo de sua competência porque não conseguiram prosseguir suas carreiras pela falta de crescimento da economia, há uma estagnação e até regressão social nítida nos EUA.

A explicação do Business Roundtable é clara: NÃO CRESCE PORQUE OS SALÁRIOS SÃO BAIXOS E A POPULAÇÃO ESTÁ ENDIVIDADA, quer dizer, não basta o pleno emprego, é preciso DISTRIBUIR RENDA para que a economia cresça e as grandes corporações NÃO DEVEM TER O LUCRO PARA O ACIONISTA COMO ÚNICO OBJETIVO, PORQUE ISSO VAI DESTRUIR A ECONOMIA DE MERCADO por causa de uma crise social que pode levar à implosão do País.


O fim do ciclo neoliberal
O chamado “ciclo neoliberal’, que é uma exacerbação dos princípios da Escola Austríaca, uma espécie de crença cega no mercado muito além dos princípios da primeira fase do capitalismo moderno com Adam Smith e David Ricardo, propagado pela então Primeira Ministra Margaret Thatcher, hoje demonizada no Reino Unido, com sua biografia histórica revista muito para baixo, partia da lógica errada de que a economia de mercado, LIVRE DAS AMARRAS DO ESTADO, seria boa para todos, ricos, classe média e pobres. Segundo a conclusão do Business Roundtable, evidenciado o pensamento de 178 CEOs das maiores corporações da economia produtiva e do mercado financeiro dos EUA, essa crença É FALSA. A economia de mercado sem Estado NÃO É BOA PARA TODOS, só para os ricos e se isso não for corrigido o capitalismo não terá futuro porque ele só funciona dentro de uma sociedade organizada.


O papel do Estado
A conclusão do Business Roundtable vai mais além. Julga que é fundamental reconsiderar o papel do Estado como regulador e garantidor dos direitos da população em suas relações com o mercado, que, ao contrário do que imaginavam os neoliberais de raiz, NÃO SE AUTOREGULA porque não é de sua natureza e nem de sua capacidade. É necessário um Estado forte para que a população seja protegida da ganância excessiva do mercado.


O Brasil na contra mão adora o neoliberalismo dos anos 80
O Brasil, sempre atrasado na absorção de tendências do pensamento econômico elaboradas nos países centrais quer, em 2019, implantar no País a ideologia já caduca dos anos 1980, as ideias de Mrs. Thatcher já foram desmontadas na própria Inglaterra e sua biografia revista e piorada, a deputada Glenda Jackson, ex-artista de Hollywood, é hoje o maior algoz do papel histórico de Mrs. Thatcher e a crise de 2008 nos EUA foi atribuída à desregulamentação do mercado financeiro efetuada pelo Presidente Reagan, também sob revisão histórica.

O neoliberalismo dos anos 1980 foi desmontado no Chile pelos efeitos catastróficos que causou nas classes média e pobre do Chile, enquanto enriquecia o topo dos ricos.

O neoliberalismo com desmanche do Estado está em franca implantação no Brasil ao mesmo tempo em que é rejeitado nos países centrais, produzindo terríveis efeitos em um Pais com enorme população de baixa renda, produziu péssimos resultados em países ricos ao empobrecer a classe média, em países emergentes produzirá catástrofes de miséria e involução social. Vemos hoje no Brasil um sólido pensador econômico neoliberal de primeira linha, Arminio Fraga, fortemente preocupado, mais do que qualquer outro fator, com o desequilíbrio social, ao mesmo tempo em que neoliberais ideológicos, como o Ministro da Economia, incapaz de evoluir, pregando e colocando em prática no Brasil o receituário neoliberal antigo dos anos 1980, que fracassou redondamente no seu principal laboratório, o Chile. Cego a esse fracasso o atual núcleo que comanda a economia no Brasil insiste na fórmula chilena.

Agora, com a revisão dessas premissas nos EUA, alguma luz deve se despejar sobre a mídia e os empresários brasileiros que apoiam essa catástrofe de desmonte do Estado via privatizações absurdas e concessões fantasiosas, com a alegação infantil de “o Brasil está quebrado”, quebrado estará pela incompetência de quem deveria ter projetos e ideias de revigoramento da economia onde o Estado ainda tem e terá PAPEL CENTRAL.


O neoliberalismo como ideologia
Há dois eixos diferentes no neoliberalismo de Thatcher e de Reagan. Mrs. Thatcher tinha o neoliberalismo como uma ideologia em oposição ao Partido Trabalhista Inglês, que era (e é) um partido social democrata clássico. Já Reagan adotou uma forma mais suave de neoliberalismo, baseado na desregulamentação e não na privatização, não havia o que privatizar nos EUA, ao contrário do Reino Unido. Reagan era a favor da desregulamentação do mercado financeiro, que foi a causa da crise de 2008, isso dito pelo então Secretário do Tesouro dos EUA e era contra os sindicatos de trabalhadores. Mas Reagan não seguia a linha de considerar o neoliberalismo uma ideologia, era apenas uma praxis útil à economia, não era uma fé religiosa, Reagan era um pragmático.

Já os neoliberais brasileiros do atual grupo no comando da economia têm o neoliberalismo como IDEOLOGIA ou SEITA, é uma forma muito mais primitiva tosca, grosseira e ignorante de operar aquilo que é apenas uma escola de pensamento econômico que serve para um ciclo e não pela eternidade.O interessante é que os neoliberais da Era FHC, como Arminio Fraga, Gustavo Franco, Pedro Malan e outros não operaram a política econômica na base de ideologia, eram práticos e não fanáticos, como pessoas cultas e inteligentes alguns revisaram suas posições para ver os defeitos do neoliberalismo, caso de André Lara Rezende e Arminio Fraga, é uma característica de cérebros de primeira ordem, a capacidade de se reciclar, rever posições, refletir, e não manter a mesma ideia até a morte, caso dos burros e limitados. Keynes se reinventou várias vezes, mudando de ideia de acordo com a época, como respondeu à observação de Lady Astor “O senhor muda de ideia a toda hora”, ao que Keynes respondeu, “My lady, eu não mudo, o que mudam são as circunstâncias”. Lara Rezende e Fraga estão hoje na mesma linha do Business Roundtable, ou o capitalismo se reforma para distribuir renda ou acaba.

E a ruptura pode vir de forma repentina, como no Chile e agora também na Colômbia, com manifestações destrutivas e intermináveis, produto da frustação acumulada de classes e pessoas que viram suas vidas serem destruídas pelo desemprego e regressão social. A elite brasileira, historicamente atrasada, cega e surda, focada no mercado financeiro, dificilmente terá a capacidade revisionista de uma elite culta, mas fica do recado da elite americana.

terça-feira, dezembro 10, 2019

Ampliação da financeirização do futebol e a nova Copa do Mundo de Clubes

Não é só o francês PSG que é controlado por fundos financeiros, no caso o QIA, fundo soberano do Qatar. O fundo QIA tem um fundo subsidiário só de esportes, o QSI (Qatar Sports Investments) que sede em Doha, na Suíça.

O QIA/QSI é dono do clube PSG e também dono do canal esportivo BeIN que tem os direitos sobre o campeonato francês, vendido para todo o mundo depois da chegada de Neymar. (Veja aqui postagem do blog em 27 de agosto de 2017 sobre o assunto)

Vários outros clubes no mundo possuem donos vinculados a fundos de investimentos financeiros que controlam também os direitos de transmissão incluindo canais de TV e outras mídias.

É um processo avassalador que demonstra como a riqueza gerada por recursos minerais (entre eles o petróleo), produção imobiliária e outras frações do capital transitam também pela área de eventos para acumulações de capital em atividades que se entrelaçam.

Pois bem, agora, além dos grandes clubes da Europa e seus rentáveis campeonatos nacionais, o capital financeiro chega para perto da Fifa para assumir controles de campeonatos.

Nesta linha, o fundo financeiro inglês (de private equity) CVC Capital Partner que possui patrimônio de US$ 111 bilhões, quase meio trilhão de reais, informa que está em negociação com a Fifa e o Real Madrid para aquisição dos direitos comerciais de novos campeonatos mundiais de (espécie de Copa do Mundo de Clubes) que consideram hoje, mais populares que as seleções nacionais de futebol.

Em última instância, a criação de uma nova Copa do Mundo de Futebol tenderá disputar espaço e popularidade com as ligas nacionais e até as copas continentais.

Vale lembrar que grande parte da corrupção no futebol que veio à tona recentemente, envolvia exatamente a Fifa, os direitos de comercialização da transmissão de alguns campeonatos e agentes financeiros instalados em paraísos fiscais (offshore). Tudo em nome dos prestígios conferidos pelas torcidas que pelo amor aos clubes fecham os olhos para os bastidores da ampliação da financeirização do futebol.

segunda-feira, dezembro 09, 2019

O golpe no Brasil extinguiu o Fundo Soberano que na Noruega é agora tido como exemplo

Observando a matéria do jornalista Rodrigo Polito, hoje (9/12/19, p. A2) no ValorFundo norueguês de US$ 1,5 tri pode servir de inspiração para o Brasil” é possível fazer vários comentários. Vamos a alguns.

No meu livro "A indústria dos fundos financeiros: potência, estratégias e mobilidade no capitalismo contemporâneo", eu tratei (entre as páginas 135 e 150) dos fundos soberanos e da relação entre eles, outros fundos e os principais agentes do circuito financeiro global.

O Fundo de Riqueza Soberana (FRS) é um instrumento financeiro adotado por alguns estados nacionais para administrar seus excedentes econômicos, em especial aqueles oriundos da extração de riquezas minerais, entre eles o petróleo.

No texto eu apresentei um quadro com os maiores fundos soberanos do mundo que já era liderado por este fundo norueguês, o SPU, que em 2016 possuía um volume de ativos de US$ 824 bilhões, e agora, em 2019, já chega a US$ 1,1 trilhão.

Em 2014, o SPU possuía US$ 5,1 bilhões em ativos distribuídos em 147 empresa no Brasil, enquanto a matéria do Valor, registra que agora, em 2019, o fundo soberano norueguês possui no país ativos de US$ 6,2 bilhões, distribuídos entre 120 empresas (incluindo 1,1% da Vale; 0,83% da Petrobras e 0,97% do Bradesco entre outras), além de US$ 2,8 bilhões em títulos de dívidas.

O fato serve para reforçar a necessidade de se observar o movimento dos fundos financeiros (soberanos ou privados) sobre as diferentes frações do capital (setores econômicos), em diferentes nações (espaços) em todo o mundo, como parte da estratégias dos donos do dinheiro, no capitalismo contemporâneo, como uma espécie de "capitalismo de fundos".

A reportagem serve ainda para relembrar porque o Brasil, que prevê estar daqui a uma década exportando 3,5 milhões de barris de petróleo, em 2016, logo após o impeachment que afastou a presidenta Dilma Roussef da Presidência da República, decidiu pela extinção do Fundo Soberano do Brasil (FSB) - que já possuía um patrimônio de R$ 26,7 bilhões, 80% aplicados nas contas do Tesouro - transferindo esse valor para os bancos que possuíam títulos da dívida pública do Brasil que somavam R$ 3,55 trilhões.

O FSB havia sido instituído pela Lei Nº 11.887/08 com recursos oriundos da extração/produção de petróleo e teria como finalidade o aporte de recursos em Educação, Saúde e Ciência e Tecnologia. Esse dinheiro entregue aos bancos para pagar uma parte irrisória da dívida pública brasileira (0,7%) poderia ainda ser utilizado em parte para capitalizar a Petrobras, evitando assim o seu desmonte e privatização, no período de baixa de preços do barril de petróleo dentro do ciclo petro-econômico.

Em síntese, se tem a riqueza nacional sendo drenada para agentes privados dentro e fora do Brasil, através do imbricamento com outros fundos financeiros globais que hoje controlam o Brasil.

Por tudo isso, vale observar as diferenças em termos de políticas públicas de um Estado a serviço da nação e sua população e o que é feito para agradar apenas os agentes do setor financeiro que define e explica o papel do dinheiro na compra do verbo da mídia comercial e na política estabelecendo na prática, a plutocracia atual, com um governo dos ricos e para os ricos.

domingo, dezembro 08, 2019

Divulgação acadêmica do artigo: "Os Circuitos Espaciais de Produção do Petróleo no ERJ e SP: Formação e Integração da Megarregião Rio-SP"

Utilizo o espaço para divulgar a publicação na revista GEOgraphia, do Programa de Pós-Graduação em Geografia da UFF, de um artigo em que divido a autoria com o professor Floriano Godinho de Oliveira, cujo título é: "Os Circuitos Espaciais de Produção do Petróleo no Rio de Janeiro e São Paulo: Formação e Integração da Megarregião Rio-SP."

Trata-se de uma análise sobre como essa fração do capital (petróleo), ao longo destas últimas décadas, foi se constituindo num elemento que contribuiu para o processo de metropolização e formação desta megarregião no sudeste brasileiro.

Como o assunto é bastante estudado por outros pesquisadores, resolvemos divulgar mais amplamente o acesso ao artigo, também com o objetivo de ampliar as trocas e os debates sobre o tema que perpassa nosso campo de pesquisa "Espaço e Economia".

Além do texto do artigo, chamamos ainda a atenção para dois anexos cujos links estão disponíveis na rede:
Anexo 1 – Com 14 quadros em 17 páginas.
Anexo 2 – Álbum com 57 imagens dos 10 polos operacionais de O&G CEPR/MR Rio-SP.

O acesso ao artigo e o download do mesmo pode ser obtido no link:

Abaixo disponibilizo o Mapa do Circuito Espacial do Petróleo e dos Royalties da Megarregião Rio-SP que é a Figura 4 do artigo, p.12.






sábado, dezembro 07, 2019

inDriver é alternativa ou aprofundamento do capitalismo de plataformas?

Já está no ar o aplicativo “inDriver” que faculta a quem precisa de transportes, um esquema de oferta (ou leilão) em tempo real, no qual o passageiro coloca o valor que está disposto a pagar pela viagem e a proposta será aceita ou não pelo motorista, que está disposto a fazer a viagem pelo valor proposto.

Aqui neste link é possível acessar às informações sobre esta nova plataformas de serviços de transportes e ao lado é possível ver a propaganda do aplicativo nas redes digitais no Brasil

O aplicativo começou a funcionar na fria cidade russa Yakutsk localizada na Sibéria em 2012.  Em 2013, a ideia foi incorporada pelo grupo russo Sinet. 

Entre 2017 e 2018 já eram mais de 120 cidades russas atendidas entre outras do leste asiático. Em 2018, a empresa se expandiu para a América Central e em dezembro chegou à João Pessoa no Brasil e segue se espalhando.

O aplicativo informa que hoje já estaria presente em 28 países, mais de 300 cidades e 38 milhões de pessoas já estariam usando o aplicativo pelo mundo.

O aplicativo se apresenta como uma alternativa ao Uber, 99, Cabify e outros que cobram entre 9% e 30% de taxa aos motoristas.

Ainda não sei precisar se seria exatamente uma alternativa ao esquema de transportes destas plataformas digitais hoje comandadas, em sua quase totalidade, por fundos financeiros, num esquema de capitalismo de plataformas digitais, quando inovações e recursos digitais conectam indivíduos a esquemas financeiros de pagamentos e transações online e assim espremem e sugam – como vampiros - a renda de quem efetivamente trabalha.

Desconfio que o risco é enorme para um maior esgarçamento da renda do motorista-trabalhador.
Se de um lado o aplicativo pode ser uma real alternativa para fugir das altas taxas dos donos das plataformas, de outro pode ser uma forma também perversa de espremer ainda mais a renda do real trabalhador do setor de transportes num processo de precarização mais intensiva.

A postagem visa também solicitar que eventuais usuários e motoristas deste “esquema de leilões de ofertas de transportes”, para que possam relatar suas experiências reais sobre este leilão de preços por transportes.

Será ainda interessante observar lobies que os gestores do Uber e outras plataformas possam fazer, para reagir de forma similar, ao que antes fizeram os motoristas de táxis. A conferir!

Verba & verbo em relação explícita!

Seguindo uma tendência mundial, o setor bancário e financeiro está deixando de comprar a pauta e o conteúdo das notícias para adquirir logo a empresa de mídia.

No Brasil, o banco BTG Pactual arrematou, em leilão judicial nesta semana, por R$ 72,3 milhões, a revista Exame.

Nesse caso é uma mídia já do setor financeiro, em outros casos, como a Globo, a corporação já fatura mais com investimentos financeiros do que com o seu negócio de informação.

No início deste ano, o Grupo Abril, dono da revista Veja entre outros, que foi da família Civita foi adquirida pelo fundo de investimentos, Cavalry Investimentos, de propriedade do empresário Fábio Carvalho.

O fato é que essa conexão estreita não pode mais ser considerada uma hipótese e sim uma relação biunívoca e de dependência.

Uma relação explícita entre verba & verbo.

segunda-feira, dezembro 02, 2019

"Os EUA são o maior refúgio para dinheiro sujo do mundo" diz editor do Financial Times

"Os EUA são o maior refúgio para dinheiro sujo do mundo". A afirmação é de Edward Luce, editor e colunista do Financial Times, tradicional e centenário jornal inglês, que trabalha com ênfase especial em negócios e notícias econômicas sobre o capitalismo mundial.

O texto original foi publicado aqui no Financial Times, no último dia 28 de novembro de 2019, com o título How money laundering is poisoning American democracy, foi traduzido e republicado no dia seguinte (29/11/2019), aqui, pelo jornal Valor (P. A19) com o título: "Uma ameaça à democracia americana - Os EUA são o maior refúgio para dinheiro sujo do mundo".

É um artigo que merece ser lido para quem insiste no moralismo colonizado que interpreta que o Brasil seria o pária da maior corrupção e lavagem de dinheiro do mundo, sem sem querer observar o que se passa no capitalismo central entre os EUA e Reino Unido de forma mais especial. Vou repetir o que disse Edward Luce: "os EUA são o maior refúgio para dinheiro sujo no mundo". Em outras palavras, os EUA é a maior lavanderia de dinheiro sujo no mundo. 

Imagino que você que comprou a ideia vendida pela mídia comercial tupiniquim de que o Ministério Público dos EUA ajudava a justiça brasileira a moralizar a política, como não deve se sentir vendo isto sendo falado e sustentado, não por alguém de esquerda, mas por um dos editores do Financial Times.
















Luce diz mais: "Seus fluxos de dinheiro ilícito superam de longe os de qualquer outro território, a não ser que considere o Reino Unido e seus paraísos fiscais marítimos como apenas um. O tesouro dos EUA estima que US$ 300 bilhões são lavados no país no país a cada ano. Isso é apenas uma fração do número real. Ainda pior, o governo dos EUA não tem ideia de quem controla as empresas que canalizam o dinheiro, porque o país carece de um registro central de pessoas jurídicas". 

Luce afirma também que "os bancos não relatam atividades suspeitas e muito menos as bancas de advocacia, as firma imobiliárias, negociantes de artes, empresas incorporadoras e instituições financeiras não bancárias".

Os EUA de Trump não têm o que oferecer ao Brasil: tarifaço é só mais um exemplo!

Os EUA de hoje não têm nada a oferecer, muito menos, a quem se subjuga em dependência assumida após golpe. Isso explica o novo tarifaço de Trump contra as exportações do aço do Brasil divulgado hoje. Ver aqui.

Enquanto isso, a China nos últimos anos emprestou mais recursos que o FMI e o Banco Mundial juntos em mais de 100 países, segundo o estudo "China´s Overseas Lending" sobre movimentação financeira entre países. (Acesse aqui o estudo)

A China tinha em 2018, um volume de US$ 5 trilhões (6% do PIB mundial) em créditos e títulos soberanos, volume que é dez vezes maior do que em 2000.

São empréstimos comerciais em sua maioria, muitas vezes com pagamento exigido em commodities, com prazos longos e taxas de juros abaixo do mercado. Não são bonzinhos, mas enxergam objetivos diversos dos EUA que também tem parte dos títulos do seu tesouro nas mãos dos chineses.

O desgoverno do Brasil foi à China, e mesmo com a desconfiança destes, voltou com várias propostas de acordos comerciais e financiamentos em infraestrutura.

Já os EUA quer apertar o cinto no pescoço de quem aceitou ser golpeado e controlado. Submissão é isso, o resto é conversa para boi dormir.

domingo, dezembro 01, 2019

Brasil vive maior fuga de investimentos na Bolsa em 15 anos - 50% maior do que na crise financeira global de 2008

Já se falou bastante sobre a saída de investimentos estrangeiros do Brasil nos últimos meses, em especial na Bolsa de Valores (B3). Porém, parece que a dimensão do fato ainda não foi bem absorvida e suas consequências compreendidas. Creio que o fato possa estar relacionado à invisibilidade que estas questões financeiras possuem na sociedade de uma forma geral.

O mercado financeiro na semana passada trabalhava com a previsão de que este ano (estamos no último mês) aconteça a maior fuga de capitais da Bolsa dos últimos 15 anos. Só em novembro a saída foi superior a R$ 7,72 bilhões. 

Já em todo o ano de 2019 a saída de recursos financeiros são superiores a R$ 38 bilhões, volume que supera em mais de 50%, a fuga de capital, na crise financeira mundial de 2008, quando nos primeiros onze meses a saída neste segmento alcançou 24,2 bilhões no Brasil. Isso mesmo a fuga atual é 50% superior à de 2008.
A saída de recursos no mercado de ações ainda estão compensadas, em parte, com a entrada em outros segmentos, entre eles os fundos de investimentos em ações, mas ainda assim, o déficit geral é colossal, o maior desde 2004.
Essa aversão dos investidores estrangeiros ao mercado de ações no Brasil é um fato é revelador do contrário daquilo que estimava e vendia a equipe econômica do governo. Talvez, isso explique as ameaças de ditadura do Paulo Guedes. 

Os dados da movimentação da Bolsa com crescimentos acima dos 100 mil pontos parecem reproduzir algo distante da realidade que também pode estar inflando o dólar para além das consequências da fala do ministro. O quadro pode ser ainda mais preocupante se forem observados outros fatos mundo afora. Vale conferir!