quarta-feira, novembro 13, 2019

Prumo, controladora do Porto do Açu, assina Memorando de Entendimentos (MoU) na área de energia com os chineses da State Power Investment Corporation durante reunião dos Brics

A Prumo Logística Global controlada pelo fundo americano EIG Global Energy Partners assinará, amanhã (13/11), um MoU (Memorando de Entendimento) com o grupo a empresa Pacific Hydro que é controlada pela gigante chinesa State Power Investment Corporation (SPIC) da área de energia, mais a corporação alemã Siemens, que prevê a cooperação para o desenvolvimento de projetos de energia no Brasil.

A cerimônia está programada com a presença dos principais executivos das companhias: pela SPIC, Qian Zhimin, presidente do Conselho, Adriana Waltrick, CEO, Waldo Perez, CFO; pela Siemens, Lisa Davis, membro da Diretoria Executiva da Siemens AG; e pela Prumo, Blair Thomas, presidente do Conselho de Administração e CEO do EIG Global Energy Partners.

Obras implantação UTE da GNA (Prumo e Siemens) Porto do Açu
A Pacific Hydro (SPIC) atua há mais de 20 anos em projetos de energias renováveis e eletricidade no Brasil e está vinculada State Power Investment Overseas of China (SPIC Overseas). A SPIC é um dos cinco principais grupos de geração de energia na China, com ativos totais de US $ 113 bilhões e uma capacidade instalada total superior a 100 GW. A SPIC atua nas indústrias de geração, carvão, alumínio, logística, finanças, proteção ambiental e alta tecnologia. A SPIC tem presença em 36 países e regiões no exterior, incluindo Austrália, Chile, Malta, Japão, Brasil, Turquia e Vietnã.

Ainda não está claro o primeiro objetivo deste Memorando de Entendiemntos (MoU), porém, o mais provável é que a holding chinesa State Power Investment Overseas of China está disposta a ampliar seus investimentos no Brasil de olho na capacidade de geração termoelétrica à gás que está sendo realizada no Porto do Açu com a implantação das 3 Usinas Termlétricas à Gás Natural (UTE) por parte da GNA-Açu que é um consórcio formado pela Prumo, Siemens e BP com financiamento do banco alemão KfW e garantia do BNDES.


PS.: Atualizado às 16:50 e 16:58: São três grandes grupos chineses atuando no setor de eletricidade no Brasil: A State Grid, a China Three Gorges e a State Power Investment Corporation (SPIC). No ano passado (2018), a State Power Investment Corporation (SPIC), pagou R$ 7,18 billhões no leilão para ter a usina de São Simão. A SPIC aportou 30 por cento do valor envolvido no negócio, enquanto 70 por cento foram financiados junto a um pool de bancos internacionais, incluindo chineses.

O setor de energia elétrica em todo o mundo se transformou numa grande commodity onde o preço da energia elétrica está vinculado ao fornecimento e controle do mercado (e preços) do que propriamente à demanda por energia elétrica fornecida ao cliente, seja ele residencial, comercial ou industrial.

No Brasil, este "negócio" passou a ser controlado pela Aneel, quanto aos investimento em infraestrutura de geração e linhas de transmissão e ao Operador Nacional de Sistema que controla e opera a geração e distribuição entre as três parte do sistema, desde a geração, transmissão e distribuição/consumo. Ficando os operadores de cada parte com um pedaço do valor da energia vendida ao cliente.

terça-feira, novembro 12, 2019

Brasil segue os descaminhos de parte da América Latina

A confusão no Brasil é cada vez maior.

PEC, constituinte, criação de partido, contas da rede social da famiglia detonada, Enem devassado, ameaça aos adversários...

E o país caminhando para o caos, para então colocar a culpa em quem pretende retomar o projeto de Nação.

É preciso seguir na luta e ampliar a organização.

segunda-feira, novembro 11, 2019

Os EUA quer hoje o caos na América Latina como forma de manter seu quintal

O projeto do "Deep State" (Estado Profundo) dos EUA é mais que o controle dos Estados-nações.

Neste momento, em especial, a ideia é criar o "caos", como forma de impedir novos alinhamentos, a partir do descontentamento com as condições de vida produzida pelo neoliberalismo com trabalho precário, desemprego, previdência desmontada e nenhum estado de bem-estar-social.

Como sempre lembra o jornalista Pepe Escobar investigador da geopolítica, o "Deep State" é mais profundo que a gestão dos EUA e age dentro das entranhas institucionais americanas, em especial, as Forças Armadas, mas também na articulação entre poder econômico-financeiro mais a mídia corporativa e suas redes.

A lógica estimulada é a de que o caos na América Latina, segura as vontades nacionais e garante o quintal da América do Norte.

Os movimentos políticos nos dois maiores países da América Latina, Argentina e Brasil, acenderam a luz amarela.

O momento era de passar a aproveitar todas as oportunidades possíveis de desestabilização nos Estados-nações da América Latina, em especial os que possuem recursos naturais e minerais estratégicos, em que os EUA disputam com a China, para além da Guerra Comercial.

O quadro é grave e tende a ser longo e penoso.

Os EUA pensam em si. Exclusivamente.

Mais de 3 mil trabalhadores da Andrade Gutierrez e Acciona das obras Termoelétrica do Porto do do Açu continuam em greve pelo sexto dia consecutivo

Passados seis dias, prossegue a greve de mais de 3 mil trabalhadores da Andrade Gutierrez e Acciona que atuam nas obras Termoelétrica da GNA, no Porto do do Açu.

Nesta segunda-feira (11/11) os trabalhadores não chegaram nem a ir em ônibus ao local ficando em suas residências até que voltem a ser chamados para assembleia sobre as negociações com as empresas.

Foto das obras de implantação da UTE no Porto do Açu em outubro de 2019
São várias as reivindicações e consta que como as obras da unidade 1 está próxima de ser concluída que até dezembro a maioria deve ser demitida. Esse fator pode estar atrasando a possibilidade de uma negociação sobre condições de trabalho, nº de demissões, plano de saúde, pagamento por mais descanso, pressão por produtividade, fato que gera ameaças e muitas das demissões, etc.

Como já informamos a maioria destes trabalhadores são de fora da região e ficam alojados em Campos, fato que vem sendo questionado pelas Prefeitura e Câmara de Vereadores de São João da Barra.

Alguns trabalhadores alegam que há solicitações da empresa para transferência de seus títulos de eleitores, fato que não tem como ser provado, embora se saiba que as empresas que atuam no Porto do Açu, podem ter as isenções de ISS suspensas se os percentuais de trabalhadores locais não tiverem sendo cumpridos.

A Usina Termelétrica (UTE-1) é da empresa Gás Natural Açu (GNA-Açu) que é um consórcio entre a holding Prumo (proprietária do Porto do Açu), a BP e a Siemens. O projeto prevê outra unidade e tem custo total de implantação estimado em R$ 4,5 bilhões.

sexta-feira, novembro 08, 2019

Globo é quem mais perde com decisão do STF que tanto tentou impedir

A empresa Globo é quem mais perde com a decisão de ontem do STF.

A Lava Jato também perde. Porém, a Globo perde mais. Ela apostou todas as fichas até os últimos minutos da prorrogação que vem sendo adiada há cerca de dois anos.

Aliás, a sua pressão, com uso de uma espécie de VAR, é que foi postergando essa decisão natural que reafirma que o que vale é a Constituição.

Não se pode dizer que a Globo perdeu tudo, porque ela ganhou um presidente (vice que assumiu com o golpe) e outro que ajudou a criar e eleger, depois deste mesmo STF decidir o que ontem, desfez.

Não tenham dúvidas que a holding Globo se movimenta para manter um certo controle sobre o que se sucede.

Porém, a confusão é grande.

Há mais a perder.

A outra saída é a Globo renegociar o reencontro com a democracia.

Acompanhemos e nos movimentemos porque a Globo é ainda um forte partido político porque controla os líderes de diferentes siglas. A conferir!

Greve dos trabalhadores que atuam na obra da Termoelétrica da GNA no Porto do Açu, continua pelo 3º dia consecutivo

Greve dos trabalhadores das empresas Andrade Gutierrez e Acciona que atuam na obra da Termoelétrica da GNA, no Porto do Açu, continua pelo terceiro dia consecutivo.

Ontem e hoje pela manhã, em enormes assembleias com quase todos os trabalhadores destas duas empresas, as lideranças têm conseguido manter a mobilização e a paralisação que busca atendimento às reivindicações.

Os trabalhadores questionam as seguidas demissões sem razão com enorme rodízio de trabalhadores, o não pagamento de plano de saúde, assim como o pagamento de folgas aos sábados de descansos alternados.

Há também muitas reclamações dos trabalhadores quanto à pressão por produtividade, fato que gera ameaças e muitas das demissões. A maioria destes trabalhadores são de fora da região e ficam alojados em Campos.

As empresas estariam ainda questionando a atuação do Sindicato de Trabalhadores de Montagens em nome dos trabalhadores que atuam nas obras da UTE, que segundo eles dizem estão adiantadas, em relação ao cronograma.

As obras da Usina Termelétrica (UTE-1) é da empresa Gás Natural Açu que é um consórcio entre a holding Prumo (proprietária do Porto do Açu), a BP e a Siemens. O projeto prevê outra unidade.

A Construtora Andrade Gutirrez foi contratada para fazer as obras de terraplanagem, construção e montagem da termelétrica. Já a espanhola Acciona que atuou na construção do terminal 2 (onshore) do Porto do Açu, realiza a construção e montagem do Terminal de Regaseificação, onde será recebido o gás natural para atender à UTE.

As obras de implantação da UTE da GNA são financiadas com créditos de R$ 1,76 bilhão do BNDES e garantia do banco alemão KfW. A engenharia financeira decorreu de uma análise de riscos que começou feita há dois anos pelo IFC, um braço do Banco Mundial que esteve na região avaliando os riscos que envolvem, inclusive as áreas desapropriadas no Açu. 

Esses recursos se destinam à implantação da UTE-1 que tem capacidade de geração de 1.700 MW e um custo total planejado de R$ 4,5 bilhões com previsão de conclusão e entrada em operação em janeiro de 2021.

A articulação de todo esse projeto saiu da Prumo Logística Global que é controlada pelo fundo financeiro americano EIG. 

Mais informações sobre esse empreendimento com uma análise dos significados da expansão do porto e questionamento sobre ausência de real responsabilidade comunitária e social dos empreendedores que no Açu foi feita aqui em postagem deste blog em 21 de dezembro de 2018 com o título: "UTE do Porto do Açu capta R$ 1,76 bilhão com o BNDES e garantia do banco alemão KfW".

PS.: Atualizado às 10:58: Para inclusão da segunda foto que mostra a mobilização e assembleia desta sexta-feira (08/11/2019).

Última parcela trimestral de 2019 referente às Participações Especiais (royalties) trazem variações expressivas

No mesmo dia em que se sabe que o STF decidiu adiar em quatro meses a decisão sobre a mudança nos critérios de distribuição dos royalties do petróleo, também se fica sabendo que na quarta e última parcela trimestral das Participações Especiais (PE) dos royalties, paga pela grande produção dos maiores campos do petróleo, traz alterações muito significativas em relação às parcelas anteriores para os municípios fluminenses.

Maricá, sozinho com receita de R$ 245 milhões recebe três vezes mais que a receita de todos os demais municípios somados, exceto Niterói que é a segunda maior receita com R$ 240 milhões. A terceira maior receita é da capital Rio de janeiro com R$ 41 milhões, confirmando mais uma vez, a migração espacial dos maiores campos produtores de petróleo da Bacia de Campos para a Bacia de Santos, no litoral defronte a estes municípios fluminenses.

Campos dos Goytacazes tem agora apenas a quarta receita de PE, mas com apenas R$ 16,9 milhões, que é equivalente a menos da metade do que recebeu na parcela anterior paga em agosto, numa redução já esperada e mal calculada pelos gestores locais.

Como pode ser visto na tabela abaixo, com dados da ANP e tabulação do superintendente de Petróleo da Prefeitura de São João da Barra, Wellington, as variações de valores em relação à quota anterior paga em agosto e a de novembro do ano passado, são muito expressivas. Esta última quota trimestral das PEs estão previstas para serem depositadas hoje nas contras da prefeituras. Para ver a imagem da tabela em tamanho maior clique sobre a mesma.




quarta-feira, novembro 06, 2019

Entrevista com o geógrafo Paulo Soares que está no Chile e fala sobre a reação popular no país: "o neoliberalismo chileno não é apenas um modelo econômico, é um experimento de sociedade, toda uma construção ética e ideológica a partir do mercado, que está ruindo"

O Chile segue em forte convulsão social. Na sexta-feira passada este o blog contactou o geógrafo e pesquisador da UFRGS Paulo Soares que está em Santiago. O objetivo era ter informações sobre os acontecimentos políticos naquele país e propor uma entrevista para o blog. Na segunda-feira novos protestos se espalharam pelas grandes cidades chilenas.

Nesta terça-feira, a manutenção do quadro, fez com que a Conmebol decidisse por retirar a decisão da Copa Libertadores da América de Santiago para Lima, no Peru, considerando a insegurança para a realização da partida no próximo dia 23 de novembro.


Este blogueiro conheceu o professor Paulo Soares junto com outros pesquisadores geógrafos, sociólogos, urbanistas e sociólogos nos eventos acadêmicos nestes últimos anos.

Paulo Roberto Rodrigues Soares é professor do Departamento de Geografia e do Programa de Pós-graduação em Geografia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Graduado e doutor em Geografia, atualmente realizando estadia como professor visitante e estágio pós-doutoral no Instituto de Geografia da PC-Chile. Pesquisador do Observatório das Metrópoles, abordando especialmente os temas da metropolização, financeirização, produção imobiliária e direito à cidade.

Segundo Soares, ele preferiu deixar passar o final de semana para acompanhar os acontecimentos e depois responder às questões. Ontem (terça-feira, 05/11) Paulo informou por email:

"Hoje foi chamada uma "super-segunda" de manifestações. Teve uma grande na Plaza Italia, mas nem perto da manifestação do 1 milhão, que acho será difícil ser superada. Como todo o movimento este já teve seu ápice, mas as manifestações continuam. Vamos ver até quando o movimento vai conseguir manter as mobilizações. Agora estou aqui no meu apartamento escutando o panelaço da noite. na semana passada também foram mais fortes."

Por tudo isso, vale conferir a entrevista do Paulo Soares, a quem agradeço pela entrevista e pela cessão e seleção das fotos que acompanham a publicação abaixo:


Blog Roberto Moraes: Professor Paulo Soares quando chegou e o que está fazendo no Chile?
Paulo Soares: Cheguei em Santiago no dia 2 de setembro, vim para estar por três meses (até o final de novembro) em uma estadia como professor visitante no Instituto de Geografia da PUC-Chile, bem como uma pesquisa de estágio pós-doutoral. Minha ideia é realizar uma pesquisa sobre a financeirização da produção imobiliária no Chile numa perspectiva comparativa com o processo de financeirização no Brasil. Evidentemente que estou tentando cumprir meu plano de pós-doutorado, mas os acontecimentos de Outubro em Santiago me obrigaram a abrir uma nova perspectiva de análise, desta verdadeira “revolução urbana” que está ocorrendo por aqui.

Foto 1:Ocupação Estação do Metrô. Fonte: Fonte: Latercera.cl
Blog: Como você pode classificar depois de décadas esse levante popular em todo o Chile que era considerado referência do neoliberalismo na América Latina?
Paulo Soares: Eu classificaria como um esgotamento do modelo neoliberal chileno. As pessoas, especialmente a classe trabalhadora, estão cansadas das estafas do modelo que promete o paraíso na terra, mas que na verdade está transformando a vida de muita gente em um inferno. O Chile se caracteriza como uma sociedade de consumo, Santiago, que concentra 1/3 da população do país, tem inúmeros shopping centers, grandes lojas de departamentos, mas este paraíso não está encaixando nos baixos salários, no custo dos serviços privatizados, na precarização do trabalho. Há um descontentamento geral e um grande endividamento das famílias. A juventude, grande parte universitária (o Chile, com 1,2 milhão de universitários, tem uma das taxas mais altas de jovens entre 18 e 24 anos na universidade da América Latina), também se encontra em um dilema, primeiro pelo custo da universidade, toda ela, inclusive as públicas, paga, o que exige esforço das famílias e endividamento dos jovens, segundo pela formação universitária que grande parte da população vai ter, mas que não vai encontrar correspondência em um mercado de trabalho cada vez mais flexibilizado, precarizado e que substitui postos de trabalho qualificados por tecnologia.

Assim, não fica difícil entender as razões deste “estallido social”, são anos de “abusos” como dizem aqui. Ao mesmo tempo os partidos políticos do establishment (incluindo a oposição de centro-esquerda) não dão conta das reivindicações nem de mudanças de fundo no modelo, apenas “ajustes” compensatórios. Como a progressiva introdução da gratuidade do ensino universitário, que avança lentamente e que não é para todos. E no outra ponta da pirâmide etária está o problema das aposentadorias e pensões, extremamente baixas, algumas com valor de metade do salário mínimo. Isso é o resultado dos 40 anos do sistema de capitalização implantado na ditadura. A geração de trabalhadores/trabalhadoras que está se aposentando é a que viveu toda sua vida laboral no sistema de capitalização e está percebendo valores baixíssimos de aposentadoria, muito aquém dos seus rendimentos no período de trabalho. É que o sistema de capitalização é individual e recai todo ele sobre o trabalhador, o que torna os recursos do sistema insuficientes para remunerar a todos.

"Eu classificaria como um esgotamento do modelo neoliberal chileno. As pessoas, especialmente a classe trabalhadora, estão cansadas das estafas do modelo que promete o paraíso na terra, mas que na verdade está transformando a vida de muita gente em um inferno..."
...

"Eu diria que existem centenas de lideranças, inúmeras organizações de base, coletivos, movimentos sociais, que estão na “liderança” dos movimentos, entretanto não há uma personalidade, que dê cara ao movimento..."


Foto 2 – Passeata na “Alameda”. Autor: Paulo Soares. 
Blog: Como você responderia às informações e análises da situação chilena que interpreta que o processo no Chile não possui lideranças? Se possui quais são as instituições e lideranças desse processo?
Paulo Soares: Eu diria que existem centenas de lideranças, inúmeras organizações de base, coletivos, movimentos sociais, que estão na “liderança” dos movimentos, entretanto não há uma personalidade, que dê cara ao movimento. Nas mobilizações estudantis de 2011 se destacou a liderança de Camila Vallejo, estudante de Geografia da Universidad de Chile e líder da federação dos estudantes daquela universidade. Hoje Camila é uma atuante deputada federal pelo PC Chileno, ela tem se pronunciado sobre os acontecimentos, mas não tem nenhum papel de liderança, que por sinal não passa pelos tradicionais partidos da esquerda chilena (PS e PC) e até mesmo da Frente Ampla, um novo agrupamento de partidos e movimentos de esquerda. Movimentos integrantes desta última participam das manifestações, mas não tem o protagonismo e a liderança dos movimentos que é bastante difusa, configurada por um conjunto de organizações, movimentos e centrais sindicais. A plataforma Unidad Social, reúne grande parte destes movimentos e tem assumido o papel mais coordenador em algumas convocatórias e no chamado à discussões de base.

Blog: De forma, os primeiros dias do movimento popular no Chile, lembram processos similares à primavera árabe e o 2013 no Brasil. Em que essa reação popular chilena pode ter relação com um ou outro?
Paulo Soares: Lembram em três aspectos importantes a meu ver: primeiro no “estopim” que se deu pela elevação da tarifa do transporte. Que é um tema que afeta a grande maioria da população, ainda mais em uma metrópole de 7 milhões de habitantes. Ainda tem o agravante de que o metrô santiaguino, nos horários de pico é mais caro, o que onera ainda mais o trabalhador que se desloca para sua jornada. Segundo pela difusão pelo território. Iniciadas em Santiago, logo foram se espalhando por todo o país, além de irem agregando reivindicações, primeiro o transporte, logo as tarifas de luz e água, as pensões, os pedágios nas estradas, e culminando por uma assembleia nacional constituinte. Terceiro pela crítica ao establishment político e no rechaço aos partidos políticos, vistos como componentes do sistema, mesmo os da oposição.

Foto 3: Mapuches na manifestação de 1 milhão. 
Autor: Paulo Soares.
Blog: A manifestação da sexta-feira (25/10) que reuniu mais de 1 milhão de pessoas foi muito significativa e simbólica, considerando a população chilena e a força popular. Ela pode ser considerada uma evolução da organização popular?
Paulo Soares: Com certeza. O aumento das tarifas foi no dia 6 de outubro. O movimento se radicalizou e ganhou as ruas no dia 18 de outubro, o governo também radicalizou e decretou estado de emergência e toque de recolher. A resposta do movimento foi chamar novas manifestações. No dia 23 (quarta-feira) houve uma grande manifestação (umas 300 mil pessoas talvez) chamada pela CUT (Central Unitária dos Trabalhadores) e pelos sindicatos. Já na quarta-feira começaram os chamados para a sexta-feira, quando as manifestações completariam uma semana e anunciando a “marcha más grande de Chile”. Uma convocação ambiciosa e que realmente se configurou. Foi a maior manifestação da democracia, superando a grande manifestação pelo “Não” no plebiscito de permanência ou não de Pinochet no poder. No dia 25 pela manhã fui ao centro de Santiago, desde as horas finais da manhã já se via muitas pessoas na rua com bandeiras e cartazes. Ao longo da tarde as ruas e avenidas foram tomadas em passeatas rumo à Plaza Italia, o epicentro das manifestações. A Plaza Italia, junto à estação Baquedano do metrô é uma centralidade importante e o local tradicional das manifestações em Santiago.

A manifestação foi multitudinária, os próprios meios oficiais admitiram a participação de mais de um milhão de pessoas, evidentemente a maioria das classes populares e da classe média. Aqui cabe uma referência ao Brasil: enquanto em nosso país hoje em dia a classe média parece estar toda a favor do neoliberalismo e à política de direita (em temas, como por exemplo o “Escola sem Partido”, privatizações), aqui no Chile existe um segmento importante da classe média com pensamento progressista, o que contribui para uma capilaridade e apoio dos próprios meios de comunicação às manifestações.

O pós manifestação também foi interessante. Não ocorreram tantos atos violentos como no dia 18, e a população ficou nas ruas e praças celebrando e festejando a manifestação. Além disso no sábado e domingo (26 e 27) foram realizadas diversas assembleias populares, rodas de discussão, manifestações culturais em praças, centros comunitários, tanto no centro como nas periferias de Santiago. O mesmo tem ocorrido em outras cidades do Chile, especialmente em Valparaíso, sede do poder legislativo (o Congresso do Chile se localiza lá), onde grande número de atividades político-culturais está ocorrendo. A meu ver este é um novo momento de organização popular, horizontal, de baixo pra cima, a população discutindo e definindo os seus rumos.

Foto 4 – Assembleia Popular na Plaza Ñuñoa. Autor: Paulo Soares.

Blog: O presidente Piñera destituiu grande parte do seu governo, fez concessões em termos de algumas políticas sociais, mas o descontentamento prossegue. O que hoje esse movimento político pretenderia?
Paulo Soares: Eu diria que pretende “mudar para que tudo fique como está”. A jogada política foi: ele solicitou que todos os ministros colocassem seus cargos à disposição; posteriormente destituiu aqueles que ficaram mais expostos durante a crise, especialmente o Ministro do Interior e Segurança (que tem responsabilidade sobre a polícia). No final das contas foram trocados oito ministérios, mas apenas cinco ministros, pois houve também o que aqui estão chamando de “dança das cadeiras”, alguns mais expostos foram deslocados para funções menos polêmicas com o tema das manifestações.

Um dado importante, com relação ao Ministro de Interior, são as acusações de desrespeito aos direitos humanos nas detenções, com inclusive denúncias de tortura, prisões ilegais de menores, pessoas sem comunicação com familiares por vários dias, o que reacendeu o fantasma da ditadura. Inclusive com algumas “fake news” como as que diziam que havia presos no Estádio Nacional (uma alusão ao golpe militar de 1973). Mas é fato que houve graves violações aos direitos humanos e isto está pressionando o presidente Piñera por parte da oposição, inclusive como uma “acusação constitucional” (impeachment).

Mesmo com esta troca de ministros e a ascensão de “jovens ministros”, promissores na política (já conhecemos um pouco deste filme no Brasil, de uma geração de políticos “caras novas”, mas que aplicam as velhas políticas neoliberais), a aprovação de Piñera é risível, no momento cerca de 13% da população apoia o presidente. Poderíamos dizer que esta é a medida da elite chilena, dos ainda apoiadores do presidente. Sua rejeição já chega a 80% da população!

"A plataforma Unidad Social, reúne grande parte destes movimentos e tem assumido o papel mais coordenador em algumas convocatórias e no chamado à discussões de base."
"O neoliberalismo chileno não é apenas um modelo econômico, é um experimento de sociedade, toda uma construção ética e ideológica a partir do mercado, que está ruindo. Então a saída institucional creio que é a que os movimentos estão colocando: assembleia nacional constituinte, livre, democrática e soberana, que sepulte de vez a transição ditadura-democracia e refunde o país com um novo pacto social".


Foto 5: Cartazes nos muros de Santiago.
Blog: Há saídas institucionais para mediar essa insatisfação popular?
Paulo Soares: O governo está tentando através de paliativos, redução de tarifas, aumento de pensões e do salário mínimo, mas como disse são paliativos, não vão na raiz da questão, que é o próprio modelo econômico-social. Faço questão de colocar “econômico-social”, pois o neoliberalismo chileno não é apenas um modelo econômico, é um experimento de sociedade, toda uma construção ética e ideológica a partir do mercado, que está ruindo. Então a saída institucional creio que é a que os movimentos estão colocando: assembleia nacional constituinte, livre, democrática e soberana, que sepulte de vez a transição ditadura-democracia e refunde o país com um novo pacto social. É claro que este caminho é difícil, pois os donos do poder não irão ceder tão facilmente, dependerá do grau e da qualidade da mobilização da população.

Blog: Em termos de condições e ausências de políticas sociais que redundaram nessa situação, para além da questão previdenciária o que pode ser considerado como grandes questões e demandas populares? Habitação? Saúde? Educação?
Paulo Soares: Acredito que a questão das aposentadorias e pensões, os baixos salários médios, o elevado custo de vida, o custo dos planos de saúde, dos medicamentos, a educação universitária paga. Além disso a questão habitacional, como o alto custo da moradia e as opções colocadas: ou morar na periferia distante, com horas de deslocamento e custo de transporte, ou residir nas comunas centrais, com custo elevado e apartamentos minúsculos, de 17 a 25 m² como o mercado está oferecendo agora. Enfim, percebe-se que todo o conjunto da vida cotidiana está sendo questionado, as relações sociais e o sistema político.

Blog: A produção urbana, distribuição regional, a produção do território e concentrações metropolitanas têm relação com movimentos políticos e populares?
Paulo Soares: Sim, primeiramente porque o Chile é um país urbano e com população concentrada nas maiores áreas metropolitanas. Santiago, Concepción e Valparaíso concentram juntas cerca de metade da população do país. Por outro pelo modelo econômico extrativista, de exploração econômica do território, por parte de grandes corporações, de norte a sul do país. No norte a já tradicional mineração de cobre, salitre e outros minérios, no sul as grandes plantações de pinus para a produção de celulose e papel, as grandes fazendas salmoneras (de criação de salmão para exportação). Estes usos corporativos e extrativistas do território avançam sobre terras de populações tradicionais, povos originários, camponeses, em um processo de acumulação por espoliação. Este modelo também está sendo muito questionado.

"Todo o conjunto da vida cotidiana está sendo questionado, as relações sociais e o sistema político".


Foto 6: Cartaz nas ruas de Santiago. Autor: Paulo Soares.
Blog: Hoje, especialmente, o que os movimentos populares apresentam como demandas às instituições incluindo o executivo e o parlamento chileno?
Paulo Soares: Agora a principal é a elaboração e promulgação de uma nova constituição, uma assembleia nacional constituinte livre e soberana, uma constituição popular, que mude o modelo econômico e social chileno. Pesquisas dos meios de comunicação colocam que 87% da população apoia uma nova constituição.

Para isso Assembleias (cabildos) Populares estão sendo realizadas em todo o país, em todas as “comunas” (municipalidades) e bairros, locais de trabalho. Um movimento muito interessante de participação da população para a construção de propostas para o país sobre a vida urbana, mobilidade, habitação, questões sociais, visando uma nova constituição.

A meu ver este é o movimento mais interessante e inovador que está acontecendo, as pessoas sendo protagonistas da sua história.


PS.: O blog informa que além desta entrevista, Paulo Soares publicou na semana passada, na página do Observatório das Metrópoles, do qual é pesquisador, um interessante artigo-análise: Relato da primavera em Santiago: o outubro de 2019 que pode ser acessado aqui. De forma objetiva, mas também referenciada, o professor Paulo descreve fatos, agentes e processos sobre a crise chilena que complementa essa entrevista ao blog. 

Leilão da cessão onerosa do Pré-sal é um fracasso para o governo e os entreguistas. Vitória para a população.

Leilão da cessão onerosa do Pré-sal é um fracasso para o governo e os entreguistas. Vitória para a população.

A maior parte dos campos não teve interessados. E só a Petrobras bancou com 100% do campo de Itapu e com 90% do campo de Búzios junto com duas chineses que colocaram 5% cada uma.
Grande derrota do Décio Oddone (ANP), Paulo Guedes e desgoverno Bolsonaro. 

O fato real é que as petroleiras estrangeiras e os fundos financeiros globais fugiram do leilão. Grande derrota do Décio Oddone (ANP), Paulo Guedes e o desgoverno Bolsonaro. Na prática o mercado e os investidores sinalizaram que não acreditam neles, mesmo que tenham oferecido quase tudo ao mercado.
Veja na foto ao lado do desespero da turma do mercado. 

Vamos repetir abaixo os comentamos que fizemos em nota aqui neste espaço na segunda-feira (04/11):

"A turma do Guedes, Bolsonaro, ANP e Castelo Branco quer privatizar e entregar tudo na área de petróleo. O leilão do pré-sal pretende entregar US$ trilhões em reservas de óleo e gás já descobertas para as petroleiras privadas e fundos financeiros globais.
Porém, eles começam a desconfiar que tudo isso será revisto e os contratos suspensos tamanho o absurdo. Veja que algumas petroleiras já estão pulando fora do leilão como foi o caso das europeias BP (inglesa) e da Total (francesa).
A própria ANP já identifica que alguns magníficos campos de petróleo podem não ter sequer oferta.
Além disso, também se fala como nessa matéria do Valor (Daniell Rittner e Murilloo Camarotto) que os grupos estrangeiros (entre petroleiras e fundos) não estão dispostos a encabeçar nenhum consórcio.
Eles sabem que os riscos de questionamentos e rompimentos desses absurdos são grandes. As petroleiras e os fundos americanos, de outro lado, parecem confiar no governo dos EUA e nas ações de sua geopolítica. A conferir!"

Trabalhadores das obras da Termelétrica da GNA param atividades no Porto do Açu

Trabalhadores das construtoras Andrade Gutierrez e Acciona que atuam na construção da Usina Termelétrica (UTE) da GNA paralisaram hoje cedo, as atividades no Porto do Açu. Eles fecharam os acessos ao porto e assim interromperam as atividades. As obras da UTE-1 da GNA estão adiantas e os trabalhadores reclamam por falta de cumprimento de acordos relativas ao plano de saúde e melhoria no cartão alimentação que recebem.






















PS.: Atualizado às 08:59: A paralisação continua, mas segundo informações dos trabalhadores que estão no local, a empresa Acciona liberou os ônibus com seus trabalhadores para que eles retornem para as suas residências. No vídeo abaixo os ônibus parados próximo à entrada do Porto do Açu pela estrada da Figueira:



PS.: Atualizado às 10:04: Trabalhadores da Acciona foram liberados e não trabalharam nesta quarta-feira depois da paralisação e mobilização feira nos dois acessos ao porto que impediu também a chegada de trabalhadores de outras empresas. segundo as primeiras informações a organização do movimento reivindicatório dos trabalhadores teria partido dos mesmos, indignados com o tratamento que vem recebendo diante dos resultados e pressão das empresas (Andrade Gutierrez e Acciona) e gerentes das montagens da usina termelétrica que está bem adiantada, em relação ao cronograma.

Foto divulgada pelos trabalhadores.
PS.: Atualizado às 10:18: Informações obtidas pelo blog dão conta de que também os trabalhadores da Construtora Andrade Gutierrez encerraram a interrupção do acesso às duas portarias do Porto do Açu e retornaram para as suas residências. Está previsto para a parte desta tarde uma reunião entre representantes dos trabalhadores e das duas empresas para negociação. Os trabalhadores também reclamam muitas demissões imotivadas. 

As duas empresas Acciona Engenharia e Construtora Andrade Gutierrez emitiram há pouco uma nota dizendo que trabalharão para que as atividades sejam retomadas o mais breve possível, alegando ainda que seguem a legislação trabalhista e reforçamos nosso compromisso com nossos colaboradores e comunidades. A disposição dos trabalhadores é que dependendo do que for conversado e negociado ser submetido amanhã cedo à decisão de todos que decidiram parar hoje, antes de retornar ao trabalho. 

PS.: Atualizado às 10:36: As novas informações é que os trabalhadores destas duas empresas Andrade Gutierrez e Acciona estariam organizados pelo sindicato, Sintramon, Sindicato dos Trabalhadores Empregados nas Empresas de Montagem e Manutenção Industrial que tem sede em Itaboraí e tem uma base instalada em São João da Barra na estrada que dá acesso ao Porto do Açu.

segunda-feira, novembro 04, 2019

Fiori: “O que foi construído pelos brasileiros nos últimos 90 anos está sendo destruído e entregue... o revival neoliberal latino-americano dos últimos 5 anos durou tão pouco, porque está rigorosamente na contramão do sistema capitalista mundial”

O sociólogo e cientista político José Luís Fiori, professor de economia política internacional da UFRJ, publicou ontem, aqui no bom blog Tutameia, outra interessante análise sobre a conjuntura na América Latina, incluindo o Brasil.

Porém, Fiori vai adiante e observa que além da conjuntura é preciso observar os movimentos sob a perspectiva o processo história, da superestrutura e dos ciclos. Assim, recorre a Polany, em seu olhar sobre ordem liberal do século 19, apogeu, crise e transformação, tudo a um só tempo, a partir de 1870, para observar os fenômenos que percorrem os estados-nações latinos, naquilo que chamou de "reincidência neoliberal tardia", interpretando ainda que todo esse movimento "está rigorosamente na contramão do sistema capitalista mundial".

Fiori levanta questões importantes: por que esse novo ciclo neoliberal foi tão curto? E o que se deve esperar para o futuro? para concluir que "o Brasil terá que enfrentar o desafio extremamente complexo de reconstruir seu Estado, suas instituições e sua própria sociabilidade, ao mesmo tempo em que define os novos caminhos da sua economia. E isto só será possível a partir de um grande acordo civilizatório entre as forças políticas democráticas".

Por tudo isso, não se pode deixar de ler este novo texto do Fiori que o blog republica abaixo.


O “outubro vermelho" e a esclerose brasileira 
Por qué protestan? Es por la desigualdad económica. Y los bajos salários. También por la baja o nula movilidad social y la falta de un futuro mejor para los jóvenes. Es por los servicios públicos infames. Y por la globalización y la pérdida de puestos de trabajo…                                                                      Moisés Naim, El País, 27 de octubre de 2019
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Desta vez tudo passou muito rápido. Como se, em apenas uma noite, a América Latina tivesse dormido de direita e acordado de esquerda. Depois da avassaladora vitória de Lopez Obrador no México, em 2018, em apenas um mês, outubro de 2019, as forças progressistas venceram as eleições presidenciais na Bolívia, Uruguai e Argentina, elegeram um jovem economista de esquerda para o governo de Buenos Aires e ganharam as eleições na Colômbia, para o governo de suas principais cidades, como Bogotá e Medellín. E quase simultaneamente, uma sucessão de revoltas populares derrubou ou colocou de joelhos os governos direitistas de Haiti e Honduras e impôs pesadas derrotas aos presidentes de direita do Equador e do Chile.

Manifestações em Santiago, Chile. Postagem Paulo Soares FB.
Muitos analistas se surpreenderam com essa sequência de derrotas da direita, como se fosse inesperada, um verdadeiro raio em céu azul. Mas isto não é verdade, sobretudo nos casos iminentes da rebelião do povo chileno e da derrota de Mauricio Macri na Argentina. No caso do Chile, já tinha havido uma gigantesca manifestação de mais de um milhão de pessoas, em 1988, pelo fim da ditadura do General Pinochet, acossada pelo fracasso de uma economia que havia crescido apenas 1,6%, em média, durante os 15 anos da ditadura militar, deixando como herança um desemprego de 18%, e 45% da população abaixo da linha da pobreza.

Logo depois da redemocratização do país, a partir de 2006, sucederam-se grandes mobilizações estudantis contra a privatização e os altos custos da educação, da saúde, da água e do saneamento básico, que haviam sido privatizados durante a ditadura e permaneceram privados depois da redemocratização. Uma mobilização quase contínua, que alcançou uma extraordinária vitória em janeiro de 2018, com a aprovação pelo Congresso Nacional chileno de um novo sistema de educação universitária, universal e gratuita, tanto pública quanto privada. E foi na esteira dessas manifestações que a população chilena voltou a sair às ruas, neste mês de outubro, contra uma sociedade que, apesar do seu “equilíbrio macroeconômico”, segue sendo a mais desigual dentre todos os países da OCDE, com a concentração de 33% da riqueza nacional nas mãos de apenas 1% da população chilena. E contra os sistemas de saúde, água e serviços básicos que seguem privatizados e com custos exorbitantes, e contra um sistema de previdência privada que entrega aos aposentados apenas 33% do seu salário ativo. Um quadro de descontentamento que já prenuncia a derrota provável das forças de direita nas eleições presidenciais chilenas de 2021.

No caso da Argentina, a vitória peronista foi uma resposta imediata e explícita ao fracasso do programa econômico neoliberal do presidente Mauricio Macri, que conseguiu destruir e endividar a economia argentina, deixando como herança um crescimento negativo do PIB, com um taxa de inflação de 50%, um desemprego de 10% e 32% da população abaixo da linha de pobreza. Sabe-se que a Argentina foi, até bem pouco tempo atrás, a sociedade mais rica e com melhor qualidade de vida e nível educacional de toda a América Latina. Ou seja, resumindo o argumento, a rebelião chilena e a vitória peronista na Argentina não têm nada de surpreendentes, como acontece também com a sucessão em cadeia das demais derrotas da direita latino-americana.

Que consequências imediatas se devem esperar, e que lições extrair desse “outubro vermelho”? A primeira e mais contundente é que os latino-americanos não suportam nem aceitam mais viver em sociedades com um nível de desigualdade tão extrema e vergonhosa. A segunda é que o mesmo programa neoliberal que fracassou na década de 90 voltou a fracassar exatamente porque não produz crescimento econômico sustentado e acentua violentamente a precarização, a miséria e a desigualdade que já existem em toda a América Latina. Por outro lado, do ponto de vista estritamente brasileiro, esse fracasso neoliberal, sobretudo o fracasso do Chile e da Argentina, caem como uma bomba em cima do programa de promessas e blefes ultraliberais do senhor Guedes, cuja insistência na mesma tecla, depois de tudo o que aconteceu, sugere tratar-se de um financista que, além de fanático, parece ser cego ou burro.

Assim, permanecem no ar duas perguntas importantes: por que esse novo ciclo neoliberal foi tão curto? E o que se deve esperar para o futuro? Para refletir sobre essa questão, entretanto, é necessário afastar-se um pouco da conjuntura e de seus debates mais acalorados, recorrendo a uma hipótese de mais logo prazo sobre a natureza contraditória do desenvolvimento capitalista, que foi formulada pelo economista e historiador austríaco Karl Polanyi, na sua obra “A Grande Transformação”, publicada em 1944. Polanyi se propunha a explicar o fim da “ordem liberal do século 19”, que alcança seu apogeu e começa sua crise e transformação, a um só tempo, a partir de 1870. Segundo o economista austríaco, essa simultaneidade se deve à existência de um duplo princípio que comanda a expansão capitalista: “O princípio do liberalismo econômico, que objetiva estabelecer um mercado autorregulado, e o princípio da proteção social, cuja finalidade é preservar o homem e a natureza, além da organização produtiva.” E teria sido exatamente por isso que os Estados e sociedades capitalistas mais avançados e suas populações teriam começado a se defender do avanço do liberalismo desenfreado no exato momento em que tal avanço alcançou seu apogeu. Como consequência, segundo Polanyi, a partir de 1870, “o mundo continuou a acreditar no internacionalismo e na interdependência, mas agiu cada vez mais sob os impulsos do nacionalismo e da autossuficiência”. Por isso, na mesma hora do padrão-ouro, da desregulação dos mercados financeiros e da expansão imperialista do final do século 19, os Estados europeus começaram a praticar o protecionismo e a desenvolver as formas embrionárias de seus sistemas de proteção social, que iriam alcançar seu ápice com a criação do Estado de Bem-Estar Social, após a Segunda Guerra Mundial.

Seguindo Polanyi, podemos também formular a hipótese de que o sistema capitalista voltou a experimentar um grande impulso de internacionalização, liberalização e promoção ativa dos mercados desregulados, a partir dos anos 80 do século 20, e que esse “surto internacionalizante” entrou em crise terminal com as guerras do início do século 21 e o colapso econômico-financeiro de 2008. E foi essa crise terminal que desencadeou ou acelerou um novo grande movimento de autoproteção por parte dos Estados e economias nacionais, que começou na Rússia e na China, no início do século 21, alastrou-se pela periferia do sistema europeu e acabou atingindo o próprio núcleo financeiro e anglo-americano do sistema capitalista mundial, na hora do Brexit; e ainda mais, na hora da eleição de Donald Trump e seu “America first”. Dessa perspectiva, podemos também conjeturar que a onda neoliberal da América Latina dos tempos de Menem, Fujimori, Fernando H. Cardoso e Salinas fez parte do movimento geral de internacionalização, desregulação e globalização das décadas de 80/90, liderado pelos países anglo-saxônicos. E a “virada à esquerda” do continente, da primeira década do século 21, com seu viés nacional-desenvolvimentista, também fez parte desse novo e grande movimento de autoproteção estatal, econômico e social que está em pleno curso sob a liderança das quatro grandes potências que deverão liderar o mundo no século 21: EUA, China, Rússia e Índia.

Olhando para o mundo dessa maneira, pode-se entender melhor por que o revival neoliberal latino-americano dos últimos cinco anos durou tão pouco: porque está rigorosamente na contramão do sistema capitalista mundial. Apesar disso, essa reincidência neoliberal tardia pode fazer parte de uma disputa pelo futuro do continente, que ainda está em pleno curso e que pode se prolongar ainda por muitos anos, incluindo a possibilidade de um impasse sem solução. Ou seja, desse ponto de vista, apesar da grande vitória progressista deste outubro vermelho, o futuro da América Latina segue incerto e dependerá muitíssimo do que venha a passar na Argentina, Chile e Brasil, nos próximos tempos.

No caso da Argentina, o novo governo de Alberto Fernandez enfrentará desafios de grande proporção quase imediatos e que podem levar o país a repetir o dilema das últimas décadas, prisioneiro de uma “gangorra” que não deslancha, ora sob o comando dos “liberistas”, ora sob o comando dos “nacionalistas”, sem conseguir sustentar uma estratégia de desenvolvimento que seja coerente, consistente e duradoura. A diferença entre Fernandez e Macri foi de 8%, e apesar de que Fernandez terá maioria no Senado, não o terá no Congresso, onde será obrigado a negociar com Macri e com os demais partidos para aprovar seus projetos. Além disso, Fernandez começará seu governo no mês de dezembro, com um país quebrado e endividado, com reservas que já estão quase inteiramente comprometidas com o pagamento de dívidas de curto prazo, com altas taxas de inflação, desemprego e miséria. E com a ameaça permanente de ver seu governo torpedeado por novas explosões inflacionárias e crises financeiras que se repetem periodicamente na Argentina.

Por outro lado, no caso do Chile, as forças progressistas só poderão recuperar o governo em 2021, e até lá terão que negociar com o governo de Sebastián Piñera um programa de reformas constitucionais que terá que enfrentar o problema da reestatização dos serviços de saúde, água e saneamento básico, pelo menos, além da rediscussão do sistema de previdência social por capitalização, que fracassou rotundamente do ponto de vista dos aposentados. E a aceitação conjunta de que o desempenho macroeconômico chileno das duas últimas décadas é insuficiente para dar conta das necessidades concretas dos cidadãos comuns que não se interessam pelas cifras e querem apenas sobreviver com um mínimo de decência e qualidade de vida.

Por fim, o futuro brasileiro está cada vez mais difícil de prever depois dessa revolta continental. Mesmo que o país consiga se desfazer desse grupo de pessoas que se apoderou do estado brasileiro, evitando portanto a instalação autoritária de um regime controlado por milicianos e narcotraficantes, mesmo assim, depois do que já fizeram, eles já deixarão para trás, como uma herança funesta, um Estado e uma economia aos pedaços e uma sociedade dividida e moralmente destruída. O que foi construído pelos brasileiros nos últimos 90 anos está sendo destruído e entregue, sistematicamente, por esses senhores, em troca de promessas e blefes que não têm a menor base científica ou histórica. Mesmo sem voltar a falar da cegueira ideológica do senhor Guedes, basta ver o estrago que já foi feito pelo novo chanceler brasileiro à imagem internacional do país e à toda sua história diplomática, induzido pelos seus delírios religiosos e milenaristas, e pela sua decisão de “purificar” os costumes “ocidentais e cristãos”. A sua invasão da Venezuela já virou piada internacional, o seu Grupo de Lima implodiu e o seu servilismo aos Estados Unidos abriu portas para a formação de um novo eixo político-diplomático no continente, articulado em torno do México e da Argentina, enquanto ele próprio, se seguir por esse caminho, acabará passando para a história da diplomacia brasileira como um personagem patético: “Ernesto, o Idiota”.

Concluindo, mesmo depois que esse grupo de marginais e fanáticos seja devolvido ao seu devido lugar de origem, o Brasil terá que enfrentar o desafio extremamente complexo de reconstruir seu Estado, suas instituições e sua própria sociabilidade, ao mesmo tempo em que define os novos caminhos da sua economia. E isto só será possível a partir de um grande acordo civilizatório entre as forças políticas democráticas, que tenha como ponto de partida o rechaço terminante do projeto atual de destruição do Estado e de submissão do país à direção econômica e ao protetorado militar dos Estados Unidos. 

O que afasta algumas petroleiras estrangeiras do leilão do pré-sal?

A turma do Guedes, Bolsonaro, ANP e Castelo Branco quer privatizar e entregar tudo na área de petróleo. O leilão do pré-sal pretende entregar US$ trilhões em reservas de óleo e gás já descobertas para as petroleiras privadas e fundos financeiros globais.

Porém, eles começam a desconfiar que tudo isso será revisto e os contratos suspensos tamanho o absurdo. Veja que algumas petroleiras já estão pulando fora do leilão como foi o caso das europeias BP (inglesa) e da Total (francesa).

A própria ANP já identifica que alguns magníficos campos de petróleo podem não ter sequer oferta.

Além disso, também se fala como nessa matéria aqui do Valor (Daniell Rittner e Murilloo Camarotto), na edição desta segunda-feira (04/11) que os grupos estrangeiros (entre petroleiras e fundos) não estão dispostos a encabeçar nenhum consórcio.

Eles sabem que os riscos de questionamentos e rompimentos desses absurdos são grandes. As petroleiras e os fundos americanos, de outro lado, parecem confiar no governo dos EUA e nas ações de sua geopolítica.

A conferir!

sexta-feira, novembro 01, 2019

Volume de petróleo derramado no litoral do Nordeste é superior a 37 mil barris ou 6 milhões de litros

MPF afirma que o volume de petróleo derramado no litoral do Nordeste é superior a 5,1 mil toneladas, equivalentes e 37 mil barris ou 6 milhões de litros de óleo.

O Ministério Público Federal do Rio Grande do Norte ( MPF-RN) e o Grupo de Avaliação e Acompanhamento (GAA) da Marinha divulgaram que o volume total de petróleo derramado no litoral do Nordeste deve chegar a 5,1 mil toneladas.

Traduzindo para unidades mais conhecidas da população, este volume equivale a 37,4 mil barris de petróleo ou aproximadamente 6 milhões de litros de óleo derramado, considerando que cada barril possui 159 litros.

Isso incluindo os 26,7 mil barris de petróleo recolhidos nas parais da costa, mais os 10,7 mil barris de petróleo estimados como evaporados, fora o volume ainda não estimado que podem estar no fundo do mar.

O MPF, o GAA, a PF e segundo a Justiça Federal do Rio Grande do Norte, sustentam que o óleo saiu do navio petroleiro Bouboulina de bandeira grega e propriedade da empresa Delta Tankers LTD que teria ocorrido a 730 km da costa da Paraíba, entre os dias 28 e 29 de julho.

O petroleiro de porte pequeno teria capacidade de transportar 586 mil barris de petróleo. Isto pode significar que cerca de 10% do petróleo que estaria sendo transportado pode ter sido derramado no litoral brasileiro.

Segundo comunicado da empresa Delta Tankers, dona do petroleiro Bouboulina, o mesmo saiu desta viagem na Venezuela no dia 19 de julho com destino ao porto na província de Melaka, na Malásia.

37 mil barris ou 6 milhões de litros de petróleo é quase 10 vezes mais do que os 4 mil barris de petróleo vazados no acidente provocado pela Chevron, nas atividades de perfuração do poço de Frade na Bacia de Campos em 2011.


PS.: Atualizado ás 21:46: Há informações desencontradas sobre a capacidade de transporte do navio Bouboulina. A Reuters informou 586 mil barris, já outras mídias estão informando uma capacidade de transporte de 1 milhão de barris que teria sido o volume carregado no navio-petroleiro no Porto de San Jose na Venezuela.

quarta-feira, outubro 30, 2019

Mais de 1,16 milhões de litros do derrame de óleo no litoral brasileiro!

Muito já se falou sobre o derrame de petróleo no litoral/costa do Nordeste.

É preciso ser mais claro nas informações sobre o grave derrame de óleo no litoral brasileiro.

As informações da Marinha é que já foram recolhidos mais de mil toneladas de petróleo nas praias da costa brasileira por conta do derrame de causas ainda não divulgadas.
Fazendo a conversão de toneladas para barris de petróleo, a que o brasileiro está mais acostumado, significa que já foram recolhidos mais de 7.300 barris de petróleo. Como um barril tem 159 litros de petróleo, é possível deduzir que foram capturados mais de 1,160 milhões de litros de óleo derramados no mar.
Isso já é quase o dobro do que se afirma ter sido vazado em 2011, quando dos problemas de perfuração do campo de Frade, por parte da petroleira americana Chevron, na Bacia de Campos.
Isso foi a quantidade de óleo do derrame recolhido e não o que ainda está espalhado pelo mar.


Hipóteses sobre as causas
Sem identificar a causa o potencial de danos continua a avançar.

São duas as hipóteses mais prováveis.

Uma mais fácil de ser identificada outra mais remota.

A mais remota de ser identificada é a hipótese de vazamento em transbordo (operação ship-to-ship) entre petroleiros em que estão usando cada vez mais navios com o "transponder" desligado, para não se identificar as rotas e as cargas dos mesmos, visando furar os bloqueios de comércio impostos pelos EUA.

O tema foi muito bem tratado pelo pesquisador William Nozaki, em artigo no Le Monde Diplomatique-Brasil que tem como título: "Guerra comercial, petroleiros piratas e o vazamento de óleo" e pode ser lido aqui.

A outra hipótese é a de vazamentos em operações de perfuração de campos de petróleo no litoral do Nordeste, mais especialmente em Sergipe ou Alagoas.

Só hoje, o presidente da Petrobras admitiu que o derrame de óleo já pode ser considerado tão grande ou maior odo que o ocorrido com a sonda da BP, em 2010, no Golfo do México.

Além da paralisia em combater o problema e identificar as causas, o governo brasileiro, mostra sua tibieza diante das corporações petroleiras globais.

A crítica vale também para o Ministério Público Federal.

Em 2011 quando a Chevron foi responsável por um vazamento de 4 mil barris de petróleo, nas atividades de perfuração de um poço na Bacia de Campos, o procurador Eduardo Oliveira, que atuava no MPF em Campos, foi bastante atuante nas ações judiciais.

Infelizmente depois, a Justiça através do TRF da 2ª Região, acabou sendo leniente com a petroleira americana.

A situação é muito grave. O ES já se preocupa com a chegada do derrame de petróleo em suas praias do Norte, onde, esta noite também foi suspensa a pesca de camarão.

Hoje, diante dessa situação grave, a omissão continua sendo a tônica e mostra como o Estado, abre mão de cumprir o seu papel mínimo de regular e fiscalizar as atividades privadas, promovendo o desmonte de órgãos e políticas de fiscalização e controle das atividades exploratórias.

Os danos já são gigantescos e parecem se ampliar, tanto no ambiente natural, quanto na imagem de um país que permite tudo e se deixar desrespeitar, enquanto nação.


PS.: Atualizado às 23:12: Segundo informações do presidente em exercício Hamilton Mourão, até agora foram recolhidos 2.500 toneladas do derrame de óleo cru. Assim, atualizando as contas isso equivale a 18,6 mil barris de petróleo, apenas a parte recolhida nas praias. Ou 2,96 milhões de litros de óleo cru. Quase 3 milhões de litros de petróleo recolhidos até agora nas praias. 

sexta-feira, outubro 25, 2019

O exemplo para a América Latina é o Uruguai. Nunca foi o Chile

Estou no Uruguai há nove dias. Passamos por três dos 17 departamentos (como chamam por aqui as províncias ou estado, mas na verdade cidades). O Uruguai tem pouca extensão territorial e baixa densidade demográfica. Possui área 50% menor que o Rio Grande do Sul e uma população de 3,5 milhões de habitantes, pouco maior que metade da população apenas da cidade do Rio de Janeiro.

Por coincidência chegamos aqui pouco antes de estourar as manifestações contra o governo no Chile. Os dois países são extremos. O Chile é o país mais desigual e injusto da América Latina, enquanto o Uruguai se transformou, nos últimos anos, na nação mais igualitária da América Latina e do Caribe.

As pessoas que vive em situação de pobreza passaram de 40% em 2004 para 8,6% em 2019 com a ampliação dos investimentos sociais que aumentaram 136% em 13 anos. Os investimentos em educação subiram seis vezes, em saúde subiram mais da metade, saindo de 4% para 6,8% do PIB e em assistência e segurança social saiu de 11,4% para 14,1% do PIB. O salário mínimo cresceu 300%. Foram criados cerca de 500.000 novos postos de trabalho. As aposentadorias cresceram 65% acima da inflação. Em resumo isso explica porque a opção de 3 mandatos da Frente Ampla do Uruguai, partido de centro-esquerda levou o Uruguai numa direção e o Chile em outra.

O Uruguai se vê uma relação harmoniosa entre as áreas rurais e urbanas e uma distribuição espacial equilibrada. Desde 2011, o PIB total do Uruguai cresceu 19%, período em que outras nações latinas começavam a perder força econômica. Mesmo nos quesitos fiscais o Uruguai melhorou. Entre 2004 e 2018, a dívida do Uruguai reduziu de 78% para 41% do PIB e deixou de estar relacionada a organismos internacionais como o FMI e hoje é considerada uma dívida soberana e mantida internamente. O déficit fiscal caiu para apenas 2%.

Assim como na Argentina, escolhi esse período para passar por estes dois países, não apenas para conhecer mais essa região do sul global, mas também para observar as movimentações políticas nos dois países que vivem, no mesmo dia, próximo domingo 27 de outubro, as eleições gerais no país para o executivo e legislativo nacional e regionais.

Da mesma forma, como comentei quando passamos pela Argentina, é difícil de forma pontual identificar questões que possam explicar a relação entre a política, a vida das pessoas num país com observações ligeiras.

Porém, algumas dessas observações são clarividentes. O Uruguai fez uma opção por um desenvolvimento mais igualitário depois que a centro-esquerda através da Frente Ampla (FA) chegou ao poder depois de um século de poder dividido entre o Blanco e o Colorado.

Hoje, o Uruguai tem mais partidos e candidatos. São nove ao todo. Aproveitando disso, assim como na Argentina que elegeu Macri e no Brasil Bolsonaro, no Uruguai depois de 15 anos de gestões de centro esquerda, bem sucedida, a direita planeja se juntar para retomar o poder, apesar de todos os resultados sociais obtidos. Os mecanismos parecem muito parecidos. A mídia comercial faz o mesmo trabalho a favor dos candidatos da direita e as redes sociais, com muito dinheiro, trabalham a todo vapor de forma semelhante ao que se viu no Brasil.
Na última semana, a Frente Ampla liderada pelo engenheiro Daniel Martinez, candidanto a presidente da República e por Graciela Villar a sua vice, e que tem ainda, o ex-presidente Pepe Mujica e sua esposa, a senadora Lucia Topolanski como candidatos ao Senado vem crescendo a empolgação com muito militantes nas ruas e grandes atos finais de campanha. 

A última pesquisa eleitoral (sondagem) divulgada ontem (24/10) indicam que ampliou a liderança do Martínez com 43,6% a favor da Frente Ampla que tenta vencer no primeiro turno (volta), para evitar a junção dos ricos candidatos de direita no segundo turno (volta). 

A votação para o congresso aqui é por listas fechadas. O principal adversário da Frente Ampla é o Luis Lacalle Pou do Partido Nacional que está com 24,5%. Talvi do Partido Colorado tem 15,8%. O candidato de extrema direita, similar ao Bolsonaro, é o Manini Rios do novo partido Cabildo Abierto está com 9,5%.

A crise na Argentina de Macri, a triste situação do Brasil e a convulsão social no Chile estão servindo de mote no debate político no Uruguai que assim tenta evitar o retrocesso no seus desenvolvimento com mais justiça social.

Apesar da dimensão menor, o caso do Uruguai merece ser melhor conhecido e estudado, tanto em termos econômicos, quanto em termos de desenvolvimento social, territorial e político. É um contraponto no extremo sul da América Latina.

Ao contrário do que os defensores do neoliberalismo vendiam, o exemplo para o continente, não é o Chile e sim o Uruguai. Gestões como a do Uruguai é que podem impedir o caos chileno.

Os uruguaios vivem uma politização interessante. Há uma polarização perceptível, mesmo com mais partidos na disputa.

Há ainda, como é natural, um desgaste para o grupo político que está no poder há 15 anos, porém há também hoje, exemplos dos riscos da população perder o que se conquistou. Aliás, esta ideia está muito bem refletida no bom tema da campanha da Frente Amplio: “No perder lo bueno, hacerlo mejor. Tus sueños siguen al frente!"

Que os uruguaios saibam escolher o melhor caminho neste domingo.


PS.1: Atualizado às 11:10:
Também há ricos no Uruguai, mas eles são em menor número e concentram um pouco menos riquezas, o que leva a uma maior distribuição de renda. Porém, a pressão por voltar a concentração é muito grande diante do sistema dominante no mundo com o qual o Uruguai é parte. Até por isso, o "case" se torna ainda mais relevante.
Está em curso no Uruguai uma Estratégia Nacional de Desenvolvimento 2050, portanto de longo prazo. Há um projeto muito interessante na área de Ciência e Tecnologia com desenvolvimento de Inovação e Indústria Criativa com um importante Laboratório Tecnológico (veja aqui) com apoio a pequenas e médias empresas, mas tudo sem deixar de lado a atenção às pessoas e à cultura.

PS.: No último dia 15 de outubro de 2019, eu também publiquei no perfil do blog no Facebook uma descrição sobre o processo político na Argentina naquele dia que pode ser visto aqui. Nele há textos e fotos que também reproduzo abaixo.

Estou na Argentina há uma semana e tenho visto de perto a condição de vida dos irmãos argentinos, depois de 4 anos de governo Macri.
Aqui os ricos continuam a viver bem, apesar das condições de violenta crise econômica e social no país.
A Argentina tem hoje uma inflação anual próxima de 60%. O dólar hoje ultrapassou 60 pesos. A Argentina vive hoje a sétima maior recessão do mundo com redução das atividades econômicas.
A pobreza atinge 35% da população. No desgoverno Macri mais 15 milhões de argentinos passaram a ficar abaixo da linha da pobreza, sendo 2,7 milhões só nos últimos meses.
Diz-se aqui que a Argentina que é um país das vacas, a população está deixando de comer carne e tomar leite. O consumo de carne e leite no país tem a maior queda em décadas. Nem no pico da crise (do “corralito”) em 2001, houve tanta redução do consumo de carne e leite.
Esse quadro estatístico se observa nas ruas, onde crianças, velhos e adultos estão pelas calçadas.
Pois bem, neste quadro, eu assisti no último domingo ao primeiro debate presidencial, agora obrigado pela legislação eleitoral (o que não acontece no Brasil) entre os seis candidatos, embora polarizado entre Alberto Fernandéz da oposição e o atual presidente Maurício Macri. Antes das eleições no dia 27 de outubro, haverá um segundo debate obrigatório no próximo domingo.
Difícil para quem é de fora avaliar todo o quadro político, a partir de algumas observações pontuais e um debate político televisivo de cerca de duas horas.
Porém, é possível observar que o neoliberalismo de Macri resultou num fracasso completo. Imagine, um candidato à reeleição defender dados e indicadores de seu desgoverno, tentando fazer crer à população que tudo que só fez pior em 4 anos, a partir de sua reeleição irá melhorar.
Nas ruas se diz que Macri agora está desesperado. Promete o que não fez. Atacou as pequenas empresas, os donos dos “kioskos”, agora diz que terá um programa para eles, embora se saiba que o seu cuidado é com as grandes corporações.
Fernandéz tem como lema de campanha “Argentina de pé” e parece que hoje já inicia uma articulação que parte do setor produtivo, mas deixando claro que é preciso acabar com a fome (fambre), cuidar dos pobres, dos trabalhadores e aposentados reduzindo as desigualdades sociais e promovendo inclusão social.
Após as prévias eleitorais que indicaram grande vantagem de Fernandéz, parece que essa diferença só aumenta. A segurança do opositor no debate demonstra uma direção.
Enfim, a Argentina tem pela frente um grande desafio. Porém, a coragem deste povo, em especial de suas mulheres guerreiras é algo de emocionar, que pude ver de perto em duas manifestações nesta última semana.
A politização do argentino é algo interessante e se poder ver isso nas ruas e bairros mais periféricos. Os liberais e neoliberais veem isso como um problema. Porque se põem como neutros para implantar um governo de ricos e para os ricos.

PS.: Ao lado e abaixo três imagens. Uma foto da manifestação dos movimentos sociais nas ruas centro de Buenos Aires no dia 10 de outubro. A segunda é da pintura “El hambre” (A Fome) de Diana Dowek (1942) que vi numa exposição no Museo de Arte Modernos de Buenos Aires e que retrata o quadro não apenas argentino, mas de outras nações sul-americanas, neste período de desastre neoliberal em nosso continente. A terceira imagem é de um velho e forte militante peronista que ao saber que éramos brasileiros gritou: Lula Livre! ao mesmo tempo que mostrava toda a sua indignação contra a mídia comercial.

 

quinta-feira, outubro 03, 2019

Pré-sal já alcança quase 2/3 da produção total de petróleo e gás no Brasil

A produção de petróleo nas reservas do Pré-sal já alcança quase 2/3 do total no Brasil. Em números redondos 2,4 milhões de barris de óleo equivalentes por dia (MMboe/d - óleo + gás) para um total de 3,8 MMboe/d.

É essa joia da coroa que está sendo entregue e preço de final de feira.

Por bacia, a de Santos já produzi hoje mais de 60% do total. Enquanto isso, a Bacia de campos hoje fica apenas com 36% da produção nacional de petróleo e 14% da produção de gás natural do Brasil.

Esses resultados foram construídos lá atrás em termos de planejamento, ganhos de eficiência em termos da redução do tempo de construção dos poços entre outros.

O grande trunfo do pré-sal é a grande produtividade dos seus poços que nem os geólogos mais otimistas sonhavam. Um desses casos é o poço de 7-BUZ-10- RJS no Campo de Búzios que sozinho produziu 58,5 mil barris de óleo equivalentes por dia.

















Um total de 5 poços poços produzem acima de 50 mil barris de óleo equivalentes por dia e 30 poços com produção acima de 30 mil barris de óleo equivalentes por dia. Só os poços do campo de Lula alcançam a produção de 1,3 milhão de barris de óleo equivalentes (óleo + gás) do Brasil.

As petroleiras estrangeiras já estão produzindo quase 1 milhão de barris equivalentes (óleo + gás) por dia no Brasil. Só a Shell, a segunda tem quase metade disso 470 mil bpd.

Na imagem ao lado a tabela com as dez maiores produção por petroleira que atua no Brasil, segundo Boletim Mensal de Produção (agosto, sempre dois meses depois) liberado nesta semana pela ANP.

Um colosso! Uma pena que boa parte dessa riqueza esteja sendo entregue sem atender a boa parte dos brasileiros!

Queda da atividade industrial nos EUA e no mundo sinaliza nova recessão. A conferir!

É certo que a participação da indústria na economia como um todo é cada vez menor em todo o mundo.

Porém, a indústria ainda detém enorme capacidade de arrasto sobre todos demais setores.

Até por isso, a queda vertiginosa do setor industrial em todo o mundo é um forte indicador de que podemos já estar no início de enorme recessão global.

A queda do setor industrial nos EUA é a mais acentuada, a maior na última década.

O primeiro dos dois gráficos abaixo mostra que essa queda do setor industrial já se aproxima dos níveis vividos no auge da crise financeira (subprime), entre 2008 e 2009.

O segundo gráfico mostra que o fenômeno se repete em outras economias centrais, embora, ainda em menor grau na China.













A se manter por mais algum tempo essa realidade em parte vinculada á guerra comercial EUA x China (que também reduz em níveis acentuados os níveis do comércio global), mas também às disparidades regionais, os países que vivem das exportações de commodities (minerais e agronegócios em especial) como é o caso do Brasil devem sofrer ainda mais, porque a tendência é que os preços delas caiam. A conferir!

Os gráficos são muito claros. Eles foram produzidos pelo Financial Times, mas traduzido junto com reportagem divulgada pelo Valor (02/10/2019, P. A13).

segunda-feira, setembro 30, 2019

As redes de comércio e serviços que envolvem o nosso dia-a-dia também são controladas pelos fundos financeiros: caso da Raia Drogasil

Eu venho buscando relatar de maneira mais simples possível, como os fundos financeiros passaram a estar presentes em nosso dia-a-dia, sem que a maioria da população perceba como esse processo se desenvolve e suas consequências sobre as nossas vidas.

Ao contrário do que se imagina, essa presença dos fundos financeiros mais próxima de nosso cotidiano, vai bem além do que antes se imaginava, ligado apenas aos casos dos grandes investimentos feitos em infraestruturas e indústrias.

De uma década para cá, os fundos financeiros estão presentes também – e cada vez mais - nos setores de serviços e comércio locais, onde capturam economias que circulam regionalmente, através de negócios de redes. Estes são controlados de forma centralizada e oligopolizada, produzindo efeitos sobre os circuitos econômicos locais/regionais e sobre o território.

São várias as fórmulas. As extensas e densas redes de lojas, serviços e franquias são exemplos de como as rendas locais acabam sendo aspiradas por empresas e corporações financeiras (fundos) que ganham tanto na produção material da economia real (também nos serviços e comércios), quanto nas finanças que giram no entorno destes negócios.

Para melhor compreensão deste fenômenos vale observar o caso da Droga Raia (hoje Raia Drogasil S.A.), que nasceu como um empreendimento familiar há mais de um século no interior de São Paulo. Hoje, a Raia Drogasil é uma holding que também é dona além das redes de farmácias Raia e Drogasil, também das Farmácia Onofre e Farmácia São Paulo, estas duas muito fortes naquele estado. 

No todo, a rede de farmácias - que é a maior do Brasil - e parte dos negócios do grupo RD (Raia Drogasil) possui agora em 2019, um total de 1.917 lojas instaladas em 22 estados, tendo alcançado no final do 1º semestre deste ano uma receita bruta de R$ 16,7 bilhões (muito maior que muitas indústrias) e lucro líquido de mais de meio bilhão, para ser mais exato no valor de R$ 551 milhões.
Apresentação de resultados Raia Drogasil (RD) 2º Trimestre de 2019. Slide nº 9/45.



























Além da rede de farmácias, o grupo RD é dono ainda de várias empresas ligadas a serviços de saúde envolvendo ainda as áreas de enfermagem, nutrição e medicina especial: RD Gente, Saúde e Bem Estar; NutriGoog; CareTech; Needs; UniVers e 4Bio. 

O grupo que nasceu e cresceu juntando as famílias Pires, Pipponzi e Galvão, abriu o negócio no mercado de capitais em 1977 (depois em cresce em 2007) e, a partir daí passou a receber aportes de grandes fundos financeiros e de investidores que hoje já somam 65% do capital total desta grande corporação. 

Em 1994, a empresa cria um planejamento de gestão, ampliação e TI com foco na ampliação do mercado pela transformação demográfica (envelhecimento da população) que ampliaria o mercado farmacêutico junto da hipótese de concentração deste tipo de comércio no país, a exemplo do que já havia acontecido em outras nações.

Apresentação de resultados Raia Drogasil (RD)
 2º Trimestre de 2019. Slide nº 6/45.
Entre os grandes aportes de recursos financeiros obtidos após 2007, estão os fundos financeiros Gávea (controlado pelo ex-presidente do Banco Central, Armínio Fraga), o Pragma Patrimônio, um fundo private equity e recentemente recebeu aporte do maior fundo financeiro do mundo, o americano BlackRock que no início deste mês passou a controlar 5% do grupo RD que tem sede no bairro de Butantã, na capital paulista. Além destes fundos citados, mais de uma centenas de outros fundos financeiros possuem ações e participações no grupo Raia Drogasil (RD). (Confira aqui). 

É oportuno ainda registrar que vários destes fundos financeiros são acionistas, e em alguns casos, controladores também de indústrias farmacêuticas que fornecem medicamentos para serem comercializados pela rede de farmácias, assim como de empresas de engenharia responsáveis pelas obras de instalação das lojas.



Os fundos financeiros lubrificam a concentração de renda no capitalismo atual

Assim, como o grupo RD Raia Drogasil, outros negócios e redes de serviços (saúde, faculdades e escolas, etc.) e comércio - que incluem os shoppings - assim como as franquias de marcas conhecidas, estão aos poucos, passando a controla,r não apenas os grandes negócios de produção e de infraestrutura, mas também as redes de negócios menores que se expandem, também territorialmente, das metrópoles para os municípios de médio porte no interior dos estados brasileiros.

Há vinte/trintas anos esse fenômeno foi observado no comércio de eletrodomésticos, quando as redes das grandes lojas como Ponto Frio, Tele Rio, Casas Garson ( no ERJ) e depois Casas Bahia e Lojas Americanas foram invadindo o interior e tomando o espaço de tradicionais comércios locais.

Hoje, este processo também já se expandiu para os negócios de supermercados, novos shoppings centers, clínicas de saúde, laboratórios, etc. controlados pelos fundos financeiros nacionais e globais.

Tem-se aí uma concentração absurda destes negócios com enormes ganhos de escala. Um processo de oligopolização que ao concentrar os negócios, oferece, inicialmente ganhos aos consumidores, porém, mais adiante com o controle dos mercados, ele passam a ditar preços e condições, capturando boa parte das rendas locais e regionais.

Os lucros destes negócios que antes ficavam com as burguesias (elites) locais, hoje são repartidas com esses grandes grupos, que ficam com a maior parte desses excedentes capturados.

Estes grupos econômicos, invariavelmente, estão instalados em grandes centros financeiros localizados nas metrópoles, onde esse dinheiro se transforma em capital e também busca outros rendimentos em vários tipos de circuitos financeiros, num processo de ainda maior concentração e captura que antes, era em parte, também realizado pelo sistema bancário e suas agências no interior.

Assim, os fundos de investimentos ocuparam um novo espaço e passaram a lubrificar o capitalismo contemporâneo, que foi se tornando hegemonicamente financeiro. Através das grandes corporações organizadas em redes e controladas por gestores e dirigentes destes fundos financeiros.

Tudo isso tem ampliado enormemente a concentração de capital com o desenvolvimento do processo de oligopolização de vários setores, que capturam cada vez mais rendas locais, contribuindo assim para o aumento da precarização do trabalho, que acaba sendo imposto aos gestores intermediários dos negócios, de forma a bancar os rendimentos de quem tem os dinheiros e buscam mais rendimentos.

O caso da Raia Dogasil e deste tipo de comércio de medicamentos, evidentemente não é o único controlado pelos fundos financeiros, que assim vão substituindo em parte, o antigo papel de intermediação financeira dos bancos. Em aliança com o mercado de capitais, eles vão avançando para várias atividades econômicas e diferentes regiões do país, em busca de maiores lucros e acumulação.

No caso do Norte Fluminense pode-se listar outras atividades econômicas controladas pelos fundos financeiros: a rede Hortifruti que nasceu em Colatina, ES, para a venda de sacolões da pequena produção agrícola do interior capixaba, cresceu com lojas em outros estados e municípios e hoje, passou a ser controlada por um fundo financeiro suíço.

A rede de shopping Boulevard que é dono de todas as suas lojas, também é controlado por fundos financeiros. A holding Prumo Logística que é dona do Complexo portuário do Açu é controlada pelo fundo financeiro americano EIG Global Energy Partners. A Autopista Fluminense, concessionária da BR-101 na região (RJ-ES), que foi constituída por empresas espanholas, hoje é controlada pelo fundo financeiro canadense Brookfield, que também comprou da Petrobras, a malha de gasodutos instalada na região Sudeste com cerca 2,5 mil quilômetros de extensão. 

Trata-se de uma parte de um fenômeno em curso que ajuda a explicar o presente. As pesquisas empíricas que envolvem o campo de investigação interdisciplinar que chamamos de “Espaço e Economia” exigem observações, análises e interpretações ainda mais aprofundadas, mas também demanda um debate mais amplo e em várias dimensões. Razão da insistência com o assunto que suscitou este novo texto.