sábado, abril 10, 2021

Amazon, símbolo da superexploração do Plataformismo

O New York Times (NYT) informa (aqui) que a gigante de tecnologia (Big Tech) Amazon, ganhou dos sindicatos + Democratas (Biden e Sanders) e garantiu relações trabalhistas diretas com seus 1,3 milhão de trabalhadores, quase 70% nos EUA.

Em síntese, uma vitória do tecnofeudalismo e da servidão, quando o trabalhador agradece e reverencia o patrão, pelo seu direito de ser superexplorado para sobreviver. PLATAFORMISMO!

Trata-se de um fase posterior ao Fordismo e ao Toyotismo dentro do Modo de Produção Capitalista (MPC).
 
O Plataformismo não é apenas exatamente uma nova etapa, mas faz parte de um ciclo mais agudo e intenso de acumulação, porque de certa forma significa um "neo-Taylorismo", na medida em que exerce uma controle e uma supervisão total sobre o tecno-trabalhador que é comandado pelos algoritmos das plataformas digitais. 

Além disso, o Plataformismo também adiciona a ideia da acumulação flexível do Toyotismo que levou o modo de produção capitalista à ampliação da financeirização e do rentismo como forma de extrair e expropriar a renda da economia real nos diversos cantos do planeta.
 
A inovação passou a ser completamente capturada pelo andar de cima (processo de startupização), enquanto o atual sistema de extração de valor amplia, em níveis colossais, a renda do trabalho que se torna ainda mais precarizado com desigualdade recorde e ampliada.

Por isso é importante situar e debater o "Plataformismo" neste momento do capitalismo contemporâneo, quando a dominação tecnológica reforça a hegemonia financeira.

Referência
Sobre o tema leia o artigo "Disputa no e-commerce de varejo no Brasil: entre o intangível do digital e a materialidade da infraestrutura de logística", deste autor, publicado em 2 de novembro de 2020, na revista ComCiência do Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo da Unicamp e SBPC. Disponível em: https://www.comciencia.br/disputa-no-e-commerce-de-varejo-no-brasil-entre-o-intangivel-do-digital-e-a-materialidade-da-infraestrutura-de-logistica/

quinta-feira, abril 08, 2021

Globo & Google: de tubarão nacional a sardinha global da gigante de tecnologia

O acordo anunciado ontem entre a Globo e Google (veja aqui) traz evidências sobre a dominação tecnológica das Big Techs americanas no ocidente. A Globo vai de tubarão nacional a sardinha global da gigante de tecnologia.

Um caso clássico da dependência revisitada com a Globo deixando só de apanhar, perdendo receitas e aumentando despesas e dando murro em água e passa a aceitar a dominação da Big Tech, Google, a mesma que controla o poderoso YouTube. 

É a Globo se submetendo às veias abertas da América Latina do saudoso Eduardo Galeano. Que nessa fase da dominação digital depende do que eu chamo da "plataforma-raiz", no caso, o trilionário Google, a que todos setores econômicos, corporações e indivíduos, acabam se submetendo. 

Google, contra a qual a Globo lutava até ontem, sem resultado. A Big Tech hegemônica das buscas na internet, dos vídeos on-demand do YouTube e das clouds, as estranhas nuvens que não estão no ar e sim, no território, onde a gigante de tecnologia desossa os nossos dados já extraídos, para ganhar valor nos negócios tocados pela máquina trituradora de algoritmos sob o comando da Inteligência Artificial (IA). 

Isso que a Globo anunciou não é parceria é contrato de dependência e extrativismo de dados. Colonialismo digital. Esse contrato mira garantir a dominação do espectro nacional que estava se diluindo. 

Na essência, o velho acordo do hipercapitalismo de laços entre o gigante do império e a elite econômica nacional de outrora. Neocolonialismo digital que ao invés de entregar o pau brasil e o ouro, entregam  ao império os nossos dados. 

O contrato garante ao império digital global, o controle dos nossos mercados no varejo e a manipulação política no controle sobre o Estado nacional. Não se enganem essa "parceria" é o acordo Time Life revisitado seis décadas depois e mira também limitar e podar aquilo que se chama de mídia alternativa aqui nos trópicos.

Os acertos da Globo com a Google Cloud é só o começo, mas já levará para longe, algumas centenas de empregos de gente qualificada na área de tecnologia da informação. Colonialismo digital na veia. Sim, há quem não queira enxergar o que está em curso. Entregar comida ao tubarão, desde que este deixe as migalhas para a elite econômica nacional. 

Não há progresso nisso. Há mais submissão. Trata-se de etapas predatórias do esgarçamento do capitalismo contemporâneo. Como temos insistido, ele possui base tecnológica-digital que já exerce a dominação global sob o controle das Big Techs e do Deep State dos EUA, onde se encontra com a hegemonia financeira de Wall Street do mercado de capitais e dos grandes fundos financeiros globais.

Os Marinhos? Há mais de meio século o acordo já erra esse. Aceitar ser cabeça de sardinha, desde que  com poder de manipular os mercados e o controle da política (Estado) no Brasil. Essa nova etapa da dominação da tecnologia apenas atualizou o acordo. Agora com um novo agente: a Big Tech, Google.
 

PS.: Atualizado às 13:07: Vale lembrar a matéria do Valor do correspondente Assis Moreira, em Genebra, mostrando com as Big Techs, entre elas o Google, paga no Brasil 75%de impostos que os outros setores no Brasil. Link: https://valor.globo.com/brasil/noticia/2021/04/06/gigantes-da-internet-pagam-at-75-pontos-percentuais-menos-impostos-do-que-outros-setores-no-brasil.ghtml


O Globo, 8 de abril de 2021, p.23.

terça-feira, abril 06, 2021

Salários nas petroleiras Petrobras, Shell, BP, Total e Equinor expõem as mentiras que sustentam o desmonte e a entrega de nossa estatal e do Pré-sal

O levantamento feito por Marcelo Gauto com dados oficiais que constam dos Relatório Anuais (2019 e 2020) destas corporações petroleiras, joga por terra os argumentos fantasiosos contra a estatal Petrobras e seus funcionários, no que diz respeito tanto ao quantitativo de funcionários, quanto aos seus salários. 

É oportuno ainda informar que além da Petrobras, a petroleira norueguesa Equinos (ex-Statoil) é também estatal e a Total ainda mantém forte participação do governo francês. 

A Petrobras dentre as cinco petroleiras (mais Shell, BP, Total e Equinor), a estatal brasileira possui menor número de funcionários, 49 mil trabalhadores em 2020, só ficando atrás da Equinor que possui 21,7 mil trabalhadores. 

No que diz respeito aos salários médios, os da Petrobras são os menores, com valor médio mensal de US$ 5.198, enquanto os salários médios mensais da francesa Total é de US$ 7.032; da anglo-holandesa, Shell US$ 8.832; da inglesa BP, US$ 9.300 e da norueguesa Equinor, US$ 10.061.

Abaixo o infográfico com as tabelas que mostram ainda a evolução entre 2018 e 2020 dos número de empregados, os custos com as folhas salariais e os salários médios mensais e anuais destas cinco petroleiras. 

É evidente que a análise destes números remete a um debate mais complexo que envolve, o custo de vida em cada um destes países, as estratégias diversas de cada corporação dentro da geopolítica do petróleo e da energia, etc.. 

Porém, é também claro que esses números são representativos para se fazer comparações menos irreais e injustas do que aquelas que normalmente, são realizadas para difamar a estatal e seus funcionários - que descobriram a maior bacia petrolífera nas últimas décadas no mundo que é o nosso Pré-sal - com interesse de seguir vendendo suas fatias a preço de final de feira.

segunda-feira, abril 05, 2021

Eike, os fundos financeiros, os negócios do Porto do Açu e a região

É possível saber em quais negócios os fundos financeiros investem - até porque eles precisam desta divulgação para manter e ampliar os investidores -, mas não se sabe quem coloca dinheiro nas gestoras de fundos de investimentos, tanto no Brasil quanto no exterior.

Há algum tempo eu passei a chamar a atenção para o papel dos fundos como instrumento da financeirização no capitalismo contemporâneo, em especial, após a crise do subprime em 2008/2009.

No Brasil, a ação dos fundos financeiros globais - enlaçados aos fundos nacionais - ficaram mais claros e expostos, após o golpe político de 2016 (documento Ponte para o Futuro) com o processo de privatização de diversos setores da economia. Porém, de forma mais especial me refiro àqueles empreendimentos vinculados ao setor de óleo e gás. Vários ativos foram e continuam sendo vendidos, a preços irrisórios (subsidiárias da Petrobras) para esses fundos canadenses, franceses e americanos.

Em 2013, quando da debacle dos negócios de Eike Batista, na holding EBX, em especial na subsidiária de petróleo, a OGX, o empresário viajou por uma semana aos EUA e de lá voltou com o negócio do Porto do Açu, da empresa LLX, entregue ao fundo financeiro americano, EIG Global Energy Partners.

Vale ainda recordar que outro fundo, neste caso de pensão dos professores da província canadense de Ontário, OTPP, tinham sido um dos primeiros investidores a aportar capital, na recém criada LLX, empresa de logística responsável pelo planejamento e construção do Porto do Açu e Porto Sudeste.

Assim, sob o controle do fundo EIG, a empresa LLX se transformou em Prumo e logo depois também se converteu numa holding (grupo). Hoje possui várias subsidiárias e negócios instalados na colossal área de cerca de 90 Km², em boa parte desapropriada de pequenos agricultores (maioria não indennizada), pelo governo do estado a favor da empresa.

Esse processo foi manejado via um acordo que usou a Codin, para criar o Distrito Industrial de São João da Barra (DISJB), que na prática é controlado - e de forma privada - pela Prumo Logística Global, que era uma Sociedade Anônima (S.A.), com capital na Bolsa, B3, e mais adiante fechou o seu capital.

 

A debacle da holding EBX de Eike e os negócios com os fundos americano e agora chinês

No segundo semestre 2013, Eike informou e a mídia corporativa engoliu que ele entregou esse ativo da LLX, em troca de investimentos do fundo americano EIG. Mas não foi dito e nem perguntado o que Eike ganhou com isso, além de proteger a LLX da debacle dos seus negócios.

Há quem afirme – e garanta -, que Eike tenha também alocado na EIG, uma parte do lucro da venda do Sistema Minas-Rio por US$ 3,3 bilhões à mineradora, anglo-africana, Anglo American e que hoje exporta mensalmente cerca de duas dezenas de milhões de toneladas de minério de ferro pelo terminal T1 do Porto do Açu, através de empresa joint-venture, a Ferroport, com a holding Prumo.

Aliás, vale recordar, que na época, a Receita Federal abriu um processo questionando empresa´rio Eike Batista, sobre o pagamento de impostos federais, devido pela valorização mobiliária que redundou nessa venda bilionária do Sistema MMinas-Rio, tendo a maior parte deste dinheiro permanecido nos EUA. Daí se surge a ligação com a hipótese do investimento no fundo EIG na LLX, transformada em Prumo da qual, Eike passaria a invstidor.

Durante todo, este tempo, de cerca de 7 anos, é bastante conhecida as incursões frequentes de Eike Batista na área do Porto para “visitas” e prospecção e discussão de “novos” negócios. Visitas que sempre poderiam ser consideradas que o a “engorda do boi depende do olhos do dono”.  

Há algum tempo, há discussões para saber se essa hipótese, hoje já teria elementos para se transformar em tese, sobre a manutenção de um controle indireto sobre parte dos negócios do Açu, conforme acordos mantidos com a gestora do fundo EIG, em dezembro de 2013, nos EUA.

O fato é que Eike, agora, ao invés do acordo com fundo financeiro americano, foi buscar aliança com um fundo financeiro chinês, o China Development Integration Limited (CDIL), que tem relações e negócios com o governo da China, inclusive na nova Rota da Seda (Belt and Road Initiative), mas possui sede na financeira cidade de Hong Kong.

Como quase todo o negócio financeiro, sempre há outros intermediários nestes negócios de captura de investidores e decisão sobre aquisição de ativos para investimentos. Diz-se que os chineses vão entrar com capital e Eike “as ideias” e os projetos.

Mas pode ser além disso. Por trás das conversas há algum aporte de capital nas demais subsidiárias da finada holding EBX, como a MMX, OGX, OSX (essa tem enorme área alugada no Porto do Açu onde fica o terminal T2) e que ficaram em recuperação judicial desde 2014, devendo a muita gente Brasil e mundo afora.


Fundo chinês CDIL aparece no Açu da mesma forma que surgiu o fundo americano EIG

O fundo chinês já atua junto à MMX que tem mina no Quadrilátero Ferrífero e exportação via Porto Sudeste, planejado também por Eike, em Itaguaí, na Baía de Sepetiba, mas também com controle acionário repassado, como o Porto do Açu para da grande trading holandesa de commodities: Trafigura.

Porém, não é difícil intuir que os negócios maiores entre Eike e os fundos financeiros passam pelo ativo do Porto do Açu, controlado pela Prumo/EIG e que hoje tem no governo do ERJ, um grande "aliado", o secretário de Desenvolvimento Econômico. Digamos que uma espécie de “despachante de luxo” dos vários interesses da Prumo no que diz respeito a um conjunto enorme de projetos, entre licenciamentos e articulações para financiamentos de fundos públicos e privados.

Esquema gráfico slide de apresentação da tese PESSANHA, R.M. (2017, PPFH-UERJ), "A relação transescalar e multidimensional "Petróleo-Porto" como produtora de novas territorialidades".[1] 


Entre os “novos negócios” está a um megaprojeto de geração de energia com potência de 1,1 MW, quase similar à capacidade da UTE-1 da GNA, que está prestes a entrar em funcionamento no Porto do Açu. As placas solares seriam fornecidas por outra empresa chinesa com tradição na produção destes equipamentos e que o CDIL tem participação acionária, a Trina Solar.

O site BrazilJournal, controlado pela gestora do fundo BR Partners, que também participa das negociações, informa hoje (aqui) [2] que os primeiros 300 MW da usina solar seriam instalados numa área adjacente ao Porto do Açu, que se supõe, que passa ser no terreno que a OSX dispõe, alugado ainda na época da LLX.

 

É necessário entender o circuito financeiro por trás dos negócios destas corporações e suas relações com o Estado

É nesse contexto que é importante observar os movimentos financeiros dos fundos junto aos negócios do Porto do Açu. Para a população da região, o empreendimento não tem mais um dono conhecido como foi no passado. 

Fundo financeiro não tem cara e muito menos coração. Parece que o empreendimento não tem dono, embora, os seus gerentes atuem como se fossem, atrás de cumprir as metas para bem remunerar os investidores curto-prazistas desses fundos, mesmo que explorando a muitos.

A Prumo, a EIG, os fundos, o Porto do Açu todos têm poucas ou nenhuma relação com a comunidade regional. Na verdade, eles a evitam. Funcionam, como uma espécie de enclave, que vê a comunidade local, como problema à fluidez de seus negócios.

Um porto ganha com a fluidez das cargas, ainda mais um porto de 5ª geração (ZIP-Zona Portuária-Industrial) que como o complexo do Açu está instalado em área mais afastada dos circuitos urbanos, exatamente para evitar essa relação que o empreendedor e seus investidores entendem como problemas.

Enfim, esse relato com a ligação de fatos pretéritos e atuais, tem o objetivo de permitir que se tenha uma leitura mais integrada e mais ampla dos negócios do Porto do Açu. Uma interpretação sobre vínculos e interesses dos diversos agentes envolvidos nos negócios, para além da propaganda enganosa da mídia corporativa regional e nacional.

Os agentes financeiros, as corporações controladas pelos fundos, os agentes públicos das diversas escalas, a mídia corporativa, a Justiça e outros fazem parte destas relações de poder. 

Assim, só conhecendo um pouco mais quem são estes agentes. Como operam, as suas estratégias e vinculações em diferentes escalas e dimensões será possível entender melhor os reflexos sobre a comunidade regional, onde o capital fixo destes fundos chegam para extrair valor, lucros e acumulação no território. 

É preciso compreender o papel destes diversos agentes, as escalas em que atuam, as funções, suas posições na estrutura de poder e nas relações política. Só desta forma, os interesses da sociedade e das comunidades, mais ou menos atingidas do entorno regional, poderão ser melhor questionados e, eventualmente, negociados.

 

PS.: Detalhes e mais informações de muitos fatos citados podem ser vistos em centenas de postagens do blog (desde 2007 e de forma especial deste 2015 na seção ao lado direito, (“Últimas do Porto do Açu) sobre os investimentos no complexo logístico portuário do Açu, litoral Norte do ERJ.

Referência:

[1] Tese do autor PESSANHA, Roberto M., defendida em mar. 2017, no PPFH-UERJ: A relação transescalar e multidimensional “Petróleo-porto” como produtora de novas territorialidades. Disponível no Banco de Teses da UERJ: http://www.bdtd.uerj.br/tde_busca/processaPesquisa.php?pesqExecutada=1&id=7433&PHPSESSID=5vd3hsifip5hdg3n1icb57l9m6

[2] Matéria do BrazilJournal em 05 de abril de 2021. Os Chineses que estão apostando em Eike Batista - e querem investir bilhões no Brasil. Disponível em: https://braziljournal.com/os-chineses-que-estao-apostando-em-eike-batista-e-querem-investir-bilhoes-no-brasil https://braziljournal.com/os-chineses-que-estao-apostando-em-eike-batista-e-querem-investir-bilhoes-no-brasil