terça-feira, maio 21, 2019

Maricá segue liderando receitas dos royalties no ERJ em maio

Com dados da Agência nacional de Petróleo (ANP) e tabulação do Wellington Abreu, superintendente de Petróleo, Gás e Tecnologia da PMSJB, abaixo segue as quotas dos royalties do petróleo do mês de maio, que serão depositadas amanhã nas contas das prefeituras fluminenses.

















A liderança nas receitas segue sendo do município de Maricá que receberá R$ 52,2 milhões. Em segundo vem Macaé com receita de R$ 48,5 milhões, confirmando a mudança espacial dos municípios petrorrentistas fluminenses que lidera agora estas receitas. Em terceiro no ranking fica o município de Niterói com R$ 43 milhões.

Campos dos Goytacazes agora é apenas a quarta maior receita, se computado apenas as quotas mensais e não as participações especiais (PE) que são pagas trimestralmente, por conta da alta produção nos maiores campos de petróleo. Na quota de maio, Campos dos Goytacazes terá direito de recebe amanhã o valor de R$ 31,7 milhões.

Em relação ao mês anterior de abril, as quotas que serão recebidas amanhã por esses municípios são na média entre 14% e 22% maiores, por conta do aumento do valor do barril de petróleo e também da cotação do dólar que baliza a conta sobre os valores dos royalties paga aos municípios, estados e à União.

"O preço da reconstrução", por Vitor Menezes!

O professor e jornalista Vitor Menezes publicou há pouco em seu perfil no FB, um texto crítico e de reflexão, sobre o desgoverno Bolsonaro, que merece ser lido e divulgado para se compreender o presente e se pensar em saídas e formas de reconstrução da nossa atacada Nação:


O preço da reconstrução

Já pensaram quanto o estado brasileiro vai precisar gastar para desfazer as bobagens desse governo?

1 - Será necessário investir em um descomunal programa de desarmamento para convencer os cidadãos de bem a devolverem os seus fuzis, após o crescimento alarmante das mortes por armas de fogo.

2 - Será necessário investir pesado em educação superior e tecnológica para reconstruir o que vai se deteriorar nos próximos anos.

3 - Será necessário investir em programas sociais ainda mais robustos do que os existentes para dar conta dos desvalidos da previdência e do aumento da miséria.

4 - Será necessário investir nas polícias e demais forças de segurança para que se reeduquem para uma atuação cidadã, após anos de extermínio de negros pobres.

5 - Será necessário investir pesado para recompor a base industrial do setor petróleo, que seguirá em processo de desmontagem.

6 - Será necessário investir em política externa de alto nível para recuperar a imagem internacional do Brasil.

7 - Será necessário investir milhões e milhões para recuperar áreas desmatadas pelo afrouxamento das regras de preservação ambiental.

8 - Será necessário investir em saúde pública para recuperar o SUS e combater os efeitos do aumento do uso de agrotóxicos no alimento.

9 - Será necessário investir em desenvolvimento local e regional para combater o aumento do desemprego.

10 - Será necessário investir em educação básica para formar cidadãos que não permitam, nunca mais, que o País caia em desgraça semelhante.

segunda-feira, maio 20, 2019

Brasil diante de um trevo: mais crise e caos ou busca uma saída. O mercado está espantado, mas quer esperar, porém Bolsonaro precipita um desfecho

Dólar segue em alta. 

Previsão do PIB feita pelo Banco Central cai ainda mais.

Três anos após o golpe, o quadro da economia só piora, a despeito dos argumentos que era só tirar a Dilma.

É fato que desde 2014, e mais depois de 2015, já com a ameaça de anulação das eleições e do golpe, “nenhum setor produtivo conseguiu retornar aos níveis registrados antes da crise”. Nesses cinco anos a economia foi sendo ainda mais atolada em meio à ideias ultraliberais que se imaginavam salvadoras da pátria, mas que só agravam a economia com essa fixação permanente nos ajustes fiscais.

Matéria do Estadão relata e detalha que atividades como a construção civil encontra-se 27% abaixo do registrado em 2014 e a indústria está 16,7% aquém do desempenho no mesmo período. No setor de varejo a queda é 5,8% e na área de serviços o desempenho é 11,7% inferior. 

Na reportagem, o economista-chefe do Banco Votorantim, Roberto Padovani, afirma que "há uma diversidade de diagnósticos. Quando se tem isso, é porque ninguém está entendendo direito o que está acontecendo – o que é raro de se ver". "Havia a ideia de que a mudança do ciclo político (com a chegada de Michel Temer à Presidência, em 2016) daria um choque de confiança e melhoraria a situação. Mas houve uma frustração, porque a ociosidade era tão grande que mesmo os mais otimistas não investiram". 

O mercado e o setor financeiros não têm solução para o imbróglio que ajudou a montar. 

Aguardam ainda um desfecho que lhes interesse no projeto para previdência e sua capitalização, mas já buscam alternativas.

Bolsonaro precipita o desfecho quando, ele próprio resolve atirar contra, simultaneamente, a política, o Legislativo e o Judiciário com a convocação da manifestação do próximo domingo.

Não há governo.

Ou teremos crise mais intensa (com risco de caos completo) ou uma saída mais ou menos acordada com a sociedade.

domingo, maio 19, 2019

ANP cria ferramenta de estimativa de receita de royalties do petróleo para estados e municípios

Não é possível avaliar a qualidade da estimativa que as simulações feitas no portal da Agência Nacional de Petróleo (ANP) para as receitas dos royalties do petróleo para municípios e estados brasileiros.

É uma variável que depende do valor do barril de petróleo e da cotação do dólar, além da produção nos campos e poços, onde ainda é necessário ter em conta as paradas de manutenção das plataformas que fazem a extração do petróleo.

De toda a sorte é uma ferramenta a ser utilizada pelas gestões públicas e por pesquisadores. A ferramenta trabalha com um horizonte de 5 anos, portanto faz avaliações de receitas do ano 2019 até 2024.

Num primeiro momento, se observa que a estimativa são apenas para as quotas dos royalties do petróleo pagas mensalmente, não incluindo as previsões sobre as participações especiais, pela grande produção de alguns campos de petróleo e que são pagas trimestralmente.

Segundo a ANP as estimativas são realizadas a partir com as variáveis:

1 - Volumes de produção dos poços e campos declarados pelas empresas, preços de referência do petróleo e do gás natural (U.S. Energy Information Administration – EIA);

2- Taxas de câmbio (Sistema Expectativas de Mercado – Banco Central do Brasil);

3 - Alíquotas de royalties previstas nos contratos de exploração e produção de petróleo e gás, e decisões judiciais.

A ANP informa no seu portal que "em função das incertezas inerentes a estas variáveis, não há qualquer garantia de efetivação das estimativas ao longo do período simulado". As estimativas podem ser feitas neste link do portal da ANP: http://www.anp.gov.br/royalties-e-outras-participacoes/estimativa-royalties, conforme imagem ao lado.

PS.: Atualizado às 13:29: Para acrescentar comentário de que estas previsões de receitas não incluem os valores das participações especais (PE).

sábado, maio 18, 2019

A explosividade da política de preços dos combustíveis: a quem interessa?

Esta política de internacionalização dos preços dos combustíveis implementada por Temer e Bolsonaro é explosiva por vários fatores.

Hoje, são enorme os riscos do cenário que envolve a geopolítica da energia diante dos conflitos iminentes que podem levar o barril do petróleo a US$ 90. Hoje está em torno de US$ 70. 

Isto determinaria preços de diesel e gasolina 30% ainda maiores que hoje.

O caso é ainda pior na medida que reduziram a produção de combustíveis em nosso parque de refino, conforme a primeira imagem abaixo.*

Outras imagens mostram a redução da produção de diesel no Brasil. O interesse é o de preparar a venda das refinarias da Petrobras.

A terceira imagem mostra a ampliação da importação de diesel que o Brasil passou a fazer desde o golpe em 2016. 

Aumentaram assim a dependência e a relação com os preços internacionais de combustíveis, que não é compatível para um país que produz tanto petróleo como o Brasil e tem ainda uma parte ociosa considerável em seu parque de refino.

Já a quarta imagem mostra o volume expressivo de exportação de petróleo que o país está fazendo, tendo demanda de combustíveis e quase 1/4 do parque de refino nacional ocioso.

A quinta imagem mostra o aumento absurdo do preço do diesel no país.

Essa questão é explosiva.

Os caminhoneiros já sabem disso e já estão ampliando as reações.

Resta saber quem lucrará com os conflitos que explodirão.

Eu já comentei no blog e aqui nesse espaço que quando o barril de petróleo voltar a ficar acima de US$ 100 dólares o barril, como esteve no período entre 2010 e 2014 - único na história por tempo tão extenso - esta política de preços dos combustíveis e a economia política nacional explodem juntos, porque o litro do diesel passará dos R$ 5 e da gasolina dos R$ 7. 

Estão pagando para ver algo que é tão facilmente previsível.

A conferir!

PS.: Atualizado às 08:45 de 19/05/19 para registrar os créditos das imagens/gráficos ao economista Claudio da Aepet (Associação dos Engenheiros da Petrobras).





sexta-feira, maio 17, 2019

Mais debates sobre os fundos financeiros como importante ferramenta para a mobilidade do dinheiro no capitalismo contemporâneo

Estou em São Paulo participando do 6º Seminário Internacional FinGeo, sobre "Geografia, Finanças e Desenvolvimento Desigual" que começou na 4ª feira (15/05) e segue até o final da tarde hoje (17/05), no auditório Milton Santos da USP. Veja mais detalhes aqui no portal da USP e aqui no site do evento.
6º Seminário Financeirização, Geografia e Desenvolvimento Desigual.
Mesa de abertura no auditório Milton Santos - USP.

Ontem, eu tive a oportunidade de apresentar e debater com os participantes, uma comunicação parcial de minhas pesquisas sobre "O crescente papel dos fundos financeiros e sua enorme mobilidade no espaço e entre as frações do capital no capitalismo contemporâneo".

O tema tem sido objeto de vários textos e comentários nesse espaço e no meu blog e será objeto de uma publicação que será lançada no Colóquio Espaço-Economia, que será realizado na UERJ entre os dias 10 e 12 de junho.

A rede global de financeirização (bancária e não bancária - shadow banking) precisa ser melhor entendida, assim como a seu vínculo com o circuito do valor, tanto na produção material, quanto em sua dimensão fictícia (capitalização), num movimento simultâneo em que o centro é o dinheiro e tem nos fundos financeiros, um dos principais instrumentos para a sua reprodução. Suas gestoras esse vinculam umbilicalmente ao sistema bancário, quando os bancos perceberam ter nos fundos uma excelente ferramenta com capacidade de movimentação transfronteiriça (entre o global e o local) e de menor regulação.

Os fundos financeiros, em especial desde a crise de 2008, tem sido o instrumento que melhor oferece ao capital uma "hipermobilidade", num movimento e numa trajetória "helicoidal" de acumulação infindável (Harvey), em torno de um um único eixo que é o dinheiro (finanças), em novo e perigoso patamar no capitalismo contemporâneo, que segue esgarçando os limites do regime, entre ciclos e crises, envolvendo diferentes setores e consumindo a frágil democracia representativa ocidental.

terça-feira, maio 14, 2019

Quando a escravidão e as milícias se encontram no desgoverno Bolsonaro

O jornal Valor traz aqui a matéria que o desgoverno Bolsonaro anunciou a redução de 90% das normas de segurança do trabalho no Brasil.

O Brasil de Bolsonaro segue seu destino de levar o Brasil de volta para a escravidão e na direção da barbárie, porque a civilização que exige condições mínimas de trabalho, é vista também como empecilho aos ganhos desta forma, imorais.

O trabalhador é visto sempre como problema e nunca como parte do sistema.

As normas de segurança e saúde no trabalho possuem problemas, mas são a garantia mínima de defesa da saúde e da vida do trabalhador que produz a riqueza.

Tem-se aí um governo dos ricos e para os ricos que não se incomoda de dizer a quem serve. E o acinte é ainda maior porque esse anúncio veio no dia 13 de maio, data simbólica do fim da escravidão no Brasil, há 131 anos, tempo a qual o país está sendo levado.

Enquanto isso, fica-se sabendo que a negociata de Moro libera as milícias.

Milícia para controle das cidades e escravos para enriquecer os donos dos dinheiros.

Esse desmonte da nação tem limites e será de alguma forma barrado.

sábado, maio 11, 2019

Gestoras de fundos financeiros ameaçam e querem sugar até a última gota da renda do trabalho

Os bancos controlam a maioria das gestoras dos fundos financeiros e pretendem sugar até a última gota da renda do trabalho, por isso fazem ameaças. (Vide aqui matéria do Globo Online)

O BTG Pactual é atualmente, a 6ª maior gestora de fundos financeiros no Brasil, onde controla um volume de ativos de US$ 97 bilhões.

A relação dos financeiros no Brasil com os fundos globais fica clara nesta reportagem. 

Mais detalhes e análises sobre como esse instrumento do setor financeiro ganhou potência e mobilidade na última década, poderão ser vistos na publicação "A ´indústria´ dos fundos financeiros´: potência, estratégias e mobilidade no capitalismo contemporâneo", que estará sendo lançado daqui a um mês.

terça-feira, maio 07, 2019

Geopolítica da "reeletrificação" e as transformações no território

Estou em Évora, Portugal participando do V Simpósio sobre história de eletrificação que tem o tema: "Eletricidade, Cidades e Quotidianos". Aqui apresentei a comunicação “A geopolítica da ´reeletrificação´ e as transformações territoriais”.

Apresentação no Simpósio em Évora em 6 maio de 2019.  
No evento, embora mais ligado à história, eu procurei olhar o passado com o viés da retrospectiva e de cenários e prospecções sobre hipóteses sobre o futuro.

No dia 17 de março quando ainda escrevia sobre essa comunicação para esse simpósio de Évora, eu escrevi nesse espaço o texto "A “era pós-petróleo”, a “reeletrificação”, os ciclos históricos e o potencial do Brasil no sistema-mundo" que pode ser lido aqui neste link do blog.

Assim, eu sustentei a hipótese de que um século depois se vive um processo de “neoeletrificação” onde as energias renováveis e o gás natural como fontes primárias alimentam o uso da eletricidade para o consumo industrial, pessoal, serviços e agora cada vez mais, nos transportes.

A “reeletrificação” representa um processo com continuidades e descontinuidades, em relação à aquele quando do início da eletrificação no mundo, que ajudou a constituir circuitos econômicos e produziu as aglomerações urbanas e a metropolização como conhecemos.

A neoeletrificação se dá em novas bases, onde junto da intensificação do uso da eletricidade se tem a digitalização e uma sociedade mais complexa no capitalismo contemporâneo.

O capital se ajusta e busca se reorganizar nesta nova fração, onde buscará mais acumulações em outras atividades que usam o territórios com investimentos em novas tecnologias, equipamentos e redes.

Estratégias de reprodução no capitalismo contemporâneo a partir das frações.
Elaboração do autor. Arte: Maycon Aguiar.
Novas estratégias de reprodução e acumulação no capitalismo são desenvolvidas num movimento entre as frações do capital como mostra a figura ao lado que consta do texto. Tem-se aí a junção da produção de valor e o uso de novos circuitos espaciais de produção que se movimenta entre os setores econômicos, nesse caso vinculado à energia.

A descarbonização com menor uso do petróleo será gradual e passará pelo combustível de transição, o gás natural, que hoje é transportado cada vez mais, de forma líquida (LNG), através de navios e não apenas de dutos e desemboca também na geração de eletricidades para o consumo de energia.

Até 2040, a previsão ainda é de maior produção e consumo de petróleo, que paulatinamente deixará de ser usado como combustível para o transporte que passará gradualmente para a eletricidade e o combustível fóssil passará para os petroquímicos e fertilizantes para a produção de alimentos entre outros produtos.

Ao mesmo tempo que se discute a “reeletrificação”, o mundo ainda possui 1/6 da população do planeta (1,2 bilhão de pessoas) sem acesso à eletricidade, onde se observa mais uma das contradições do capitalismo e um desenvolvimento desigual e combinado.

Enfim, um debate sobre hipóteses a respeito da gradual migração energética com a ampliação do peso da eletricidade na produção material e na transformação da vida urbana e social, quando a superação do capitalismo enquanto regime, continua sendo uma utopia a ser perseguida.

Os militares e a conjuntura política no Brasil

Os militares não se deram ao respeito que sua instituição merecia.

Agiram de forma oportunista e comprometeram a instituição que tem função de estado e não de governo.

Namoraram o fascismo e abraçaram o neoliberalismo entreguista, abandonando a ideia de um projeto de nação, em meio à globalização e à  vida numa sociedade complexa e na maioria das vezes contraditória e desigual.

O retorno à situação anterior - com ou sem autocrítica - não será fácil, se tornou não apenas possível, mas necessário.

Desconhecer essa realidade aprofundará não apenas a crise política e econômica, mas ampliará os riscos do descontrole.

A saída é a retomada da democracia e afastamento da aposta da "não política".

O Brasil precisa retomar seu caminho.

quarta-feira, maio 01, 2019

1 milhão de trabalhadores brasileiros que atuam na "economia do compartilhamento" podem ser vistos como escravos que alimentam o rentismo dos fundos financeiros

O dia do Trabalhador é simbólico para a reflexão sobre a renda do trabalho no capitalismo contemporâneo. A mídia brasileira divulgou no último dia 28 de abril que 4 milhões de trabalhadores "autônomos" atuavam no Uber, iFood e outros aplicativos gerenciados do exterior. (Veja aqui

Se um total de 4 milhões de brasileiros obtém renda a partir do trabalho nessas plataformas da chamada de "economia do compartilhamento", é possível então interpretar que "1 milhão de trabalhadores" brasileiros estão se esforçando para produzir renda para os donos dos dinheiros.

Sim, porque a cobrança pelo uso das plataformas se dá no percentual em torno de 25% do valor de toda a renda auferida com o seu trabalho. Um quarto de toda a renda apenas pelo uso das plataformas. todo o restante é bancado pelo trabalhador: carro, combustível, licenciamento, multas, manutenção, seguro, etc.). 

Se for retirado esse custo não seria demais dizer que o trabalhador chamado de autônomo estaria quase dividindo a renda do seu trabalho com os donos dessas plataformas. Nessa conta, poderíamos dizer que ao invés de 1 milhão, seriam 2 milhões dos 4 milhões de trabalhadores dessas plataformas gerando renda para os rentistas que controlam a economia do compartilhamento.  

Imaginem, é como se um 1 milhão de trabalhadores (25% de 4 milhões) fossem escravos a serviço dos donos dos dinheiros (ou do capital).

Isso é o que eu tenho interpretado c omo sendo uma "renda derivada" que vai alimentar o "rentismo" do setor financeiro e dos fundos globais.

A Uber que nasceu em 2009, em 2017 já estava presente em 450 cidades do mundo, quando já tinha sido capitalizada com US$ 70 bi dos fundos financeiros globais que agora capturam os excedentes das economias locais/nacionais.

Dessa forma, os fundos financeiros aspiram a renda originária do trabalho e movimentava as economias locais e que assim alimenta o rentismo da mercadoria dinheiro do capitalismo financeiro atual.

Portanto, ao contrário do que imagina, é algo que vai além da disputa entre taxistas e jovens sem emprego.

Outras plataformas digitais dessa economia do compartilhamento faz o mesmo, só que nesse caso se apoderando de outra renda, a do aluguel da propriedade que também alimenta o rentismo. 

Porém, a primeira é mais perniciosa porque se apropria de um quarto da renda do trabalho, enquanto a do aluguel é renda dos proprietários e da disputa com redes de hotéis também controlada em boa parte pelos fundos financeiros.

Investigar o rentismo é ir além da ideia dos juros bancários e compreender as rendas derivadas e de quem elas alimentam.

Na publicação que lançaremos em breve sobre a "indústria dos fundos financeiros" nós avançamos nessa análise e na interpretação de seus movimentos no capitalismo contemporâneo.

domingo, abril 28, 2019

A "venda" dos gasodutos Rota 1, 2 e 3 completa o entreguismo dos ativos da logística de gás da Petrobras

A entrega dos gasodutos Rota 1, 2 e 3 completa o serviço de quem já dadivou a malha de gasodutos do Sudeste (NTS) e do Norte/Nordeste TAG para fundos financeiros globais. (Vide aqui matéria da Reuters)

Com esta 3ª parte do entreguismo serão quase 10 mil quilômetros de dutos - uma renda de monopólio (porque não há outros dutos) - repassados a um custo que em no máximo 18 meses devolvem aos compradores a receita do valor da venda sob a forma de tarifas.

Malha de gasodutos da Petrobras e subsidiárias entregue aos fundos globais
E o pior a própria Petrobras, através da Transpetro segue operando e mantendo a rede de gasodutos para os novos donos.

Não se interessaram nem por parcerias para construção de outros dutos para escoamento do gás que já está sendo produzido. 

Estão entregando tudo que já está pronto e funcionando.

Assim, esses empregos do mercado vão concluir a entrega da renda de monopólio obtida sobre o pré-sal.
Não há outros dutos de escoamento. E com um outro e importante agravante. 

No pré-sal não há como extrair petróleo sem escoar o gás que é abundante e tem limites para queima definidos pela ANP e Ibama.

Um sabujismo e um crise de lesa-pátria dos mais graves, a favor da "indústria" dos fundos financeiros globais cuja forma de atuação precisa ser melhor compreendida.

Em breve teremos uma publicação sob a forma de livro sobre o assunto.

terça-feira, abril 23, 2019

Os benefícios pagos pela Previdência Social movimentam as economias locais. Em 2018 foram pagos R$ 26,5 bilhões na capital; R$ 1,1 bilhão em Campos e R$ 452 milhões em Macaé. Sua redução concentrará recursos no rentismo financeiro

Dados oficiais do Ministério da Previdência Social sobre a quantidade e os valores dos benefícios pagos nos municípios brasileiros, mostram uma realidade distinta do que tem aformado Paulo Guedes e o mercado, a quem representa.

Esses dados servem para contestar a ideia de que retirando os benefícios das pessoas as coisas irão melhorar para todos. Ao inverso, menos benefícios para os cidadãos, significarão dinheiro mais concentrado nas metrópoles e nas mãos dos donos dos dinheiros, os financistas e rentistas. Menor quantidade de dinheiro em circulação no consumo da população de baixa renda afeta a atividade econômica e também a arrecadação de impostos, indo direto para as mãos dos rentistas.

Os governadores, prefeitos e deputados que estão batendo palmas para as alterações na Previdência Social precisam deixar de ser enganados sobre o discurso mercadista. A população que vai perder vai marca-los. Mesmo os gestores locais têm pouca informações sobre a origem do dinheiro que circula nos seus municípios. Esse é um dado que todo vereador e prefeito deveria conhecer.

É possível levantar esses dados rapidamente para todos os 5.571 municípios brasileiros. O blog vai citar no quadro abaixo a realidade da capital fluminense e mais seis municípios da região Norte Fluminense para expor a quantidade de recursos que é injetado mensalmente nas cidades que mexe na vida das pessoas e movimenta a economia local. Esses recursos têm enorme importância para a geração de empregos e movimentação da atividade econômica, mesmo nos municípios petrorrentistas que recebem as colossais receitas dos royalties do petróleo.
















O quadro acima coloca por terra alguns outros argumentos. A de que o interior é o grande vilão destes pagamentos. Isso não é verdade, nem em termos absolutos e nem relativos.

Na capital fluminense, 17,2% da população recebe esses benefícios previdenciários, contra 7,2% no pobre município de São Francisco do Itabapoana; 9% em Macaé; 11% em Quissamã e 14,8% em Campos dos Goytacazes.

Em termos absolutos os valores pagos na capital são expressivos de R$ 26,5 bilhões. Porém, em SJB, o valor de R$ 84,4 milhões equivalem a 28% do orçamento público municipal onde estão as receitas dos royalties do petróleo. No município de Campos dos Goytacazes, em 2018 foram recebidos de benefícios da Previdência Social R$ 1,189 bilhão, que foi equivalente a quase 60% do orçamento público ano passado, também já incluído as receitas dos royalties do petróleo. Em 2018, em todo o país foram pagos R$ 500 bilhões e 30,2 milhões de brasileiros. 

Há muitas outras interpretações possíveis a serem retirados desses dados por município e no geral. Porém, o que se pretendeu aqui, com dados do próprio governo federal que o ministro Paulo Guedes tenta esconder, de todas as formas, é chamar a atenção sobre os impactos que a redução dos benefícios pagos pela Previdência Social trará não apenas para a população mais pobre, mas para a economia e a atividade econômica dos municípios brasileiros.

Depois de ver esses dados e a interpretação aqui exposta, é natural que você se pergunte, por que isso não está sendo discutido em Brasília? Por que o discurso único da aprovação das mudanças nas regras da Previdência Social?

Eu tenho repetido que algum ajuste é necessário, por vários fatores, incluindo a vida média da população, mas a retirada que se quer fazer dessa renda originária do Trabalho para ser concentrada no setor financeiro é absurda e inaceitável.

quinta-feira, abril 18, 2019

Política de preços do diesel e gasolina: os "jênios" do mercado espalharam combustível no chão e jogaram os fósforos para o alto

Lá atrás eu escrevi sobre o assunto aqui neste espaço.

Entre 2010 e 2013, o preço do barril de petróleo esteve oscilando sempre acima de U$ 100.
Verdade que se trata de um caso único na história.

Na ocasião pagávamos entre R$ 2,60 e R$ 2,80, o litro da gasolina. O diesel estava na faixa de R$ 1,60.

Hoje, o barril de petróleo está cotado em torno de US$ 70, enquanto o litro da gasolina já passa dos R$ 5 e o do diesel dos R$ 3,70.

Por essa política de preços, se o barril de petróleo voltar a oscilar entre US$ 100 e US$ 120 no mercado mundial, como entre 2010 e 2013, a gasolina vai chegar a R$ 8 ou R$ 9 reais e o diesel acima entre R$ 5 e R$ 6.

Os "jênios" do mercado estarão apagando fogo com gasolina.

Eles não entendem, ou não querem entender que é preciso haver alguma mediação para evitar o colapso para um insumo cujo preço é estratégico e repercute em toda a economia.

Pensam que o mercado resolve tudo. 

Parente, um desses "jênios", também pensava assim e deu no que deu.

Essa turma, parece apostar no pior - muito pior - para passar a visão de que é preciso entregar a Petrobras - integralmente - para o mercado, como se esse algum dia, esse "mercado" tivesse alguma preocupação com as tarifas públicas. 

Por isso, o mercado (poder econômico) não abre mão de controlar o poder político (Estado), a qual atribui todos os nossos males. 

Querem sempre um Estado para si.

Observemos o que acontece com as concessões. 

No dia seguinte que batem nas mãos privadas as tarifas aumentam sem freio (telefonia, luz, água), quando o Estado perde a sua capacidade - ou interesse - de regular, quando esse entrega os instrumentos para assim agir.

Os "jênios" do mercado querem um governo para si e, desta forma, espalharam os combustíveis pelo chão e jogaram para o alto, os fósforos. 

Há incêndios cujas causas nunca podem ser verdadeiramente descobertas.

Você ainda tem dúvida sobre isso: pergunte ao Parente ali no posto Ipiranga.

segunda-feira, abril 15, 2019

"O núcleo urbano de Campos dos Goytacazes e as lagoas", por Soffiati

O amigo Aristides Soffiati, professor, pesquisador e ambientalista, brinda o blog com mais um interessantíssimo artigo sobre a história da ocupação urbana da região Norte Fluminense com foco na expansão urbana de Campos dos Goytacazes. Neste novo texto, Soffiati aprofunda questões e análises já feitas em vários outros ricos artigos publicados aqui nesse blog e em outros espaços da rede digital e também em seus livros. 

A descrição, relativamente sucinta e recheada de mapas e ilustrações nos trazem informações muito valiosas sobre a ocupação urbana em Campos dos Goytacazes, quando Soffiati levanta também hipóteses - bastante documentadas -, sobre as relações desse processo com o sistema-mundo, num período temporal, em que a colonização era a forma de globalização daquela época e que nos trouxe os dias atuais. 

Há também pistas muito ricas sobre problemas presentes e que tiveram a sua gênese escamoteada no passado. Essas agruras continuam nos assombrando com as cheias e os alagamentos nas áreas urbanas, sem que a drenagem dessa área da Planície, escolhida para área central da urbe, tenha sido implantada para permitir o convívio na pólis menos problemática, especialmente, para os mais pobres empurrados para a periferia.  

Como sempre, vale conferir esse novo texto do Soffiati que continua incansável na sua produção intelectual que fica à disposição de quem queira estudar, numa época de tantas informações soltas, fragmentadas, que tomam tempo das pessoas e contribuem pouco, ou nada, com a ampliação do conhecimento sobre a realidade dessa parte do Estado do Rio de Janeiro. 

Soffiati, assim se afirma para a história do ERJ, como um pensador que dá prosseguimento às contribuições de Saturnino de Brito e Alberto Lamego. E como homem do seu tempo, Soffiati  amplia e aprofunda o conhecimento sobre a nossa realidade, usando, organizando e reinterpretando, de forma conjunta e integrada, a produção intelectual desses e muitos outros estudiosos - brasileiros e estrangeiros - sobre o processo de formação desse território.



O NÚCLEO URBANO DE CAMPOS DOS GOYTACAZES E AS LAGOAS
Arthur Soffiati

Primórdios da colonização europeia contínua na planície dos Goytacazes
            Em 1627, sete fidalgos e os jesuítas requereram sesmarias no âmbito da Capitania de São Tomé, devolvida por Gil de Gois em 1619. A intenção dos fidalgos, que passaram à história com o nome de Sete Capitães, era criar gado bovino em terras consideradas incultas, pois a planície do Rio de Janeiro (Guanabara) é estreita e já estava ocupada pelo plantio de cana e por engenhos. O gado era necessário como recurso subsidiário, como aconteceu no Brasil durante o período colonial. A Carta Régia de 1701 proibiu a criação de gado numa faixa de 10 léguas da costa, assegurando terras para o plantio de cana e o funcionamento de engenhos. Nessa faixa, o gado só era admitido com atividade completar à plantação de cana e à construção de engenhos. O gado só era admitido em pequena escala para não ocupar o espaço destinado à cana.
Os Sete Capitães ergueram três currais entre 1632-34, período em que vieram tomar posse de suas sesmarias. Um foi instalado em Campo Limpo, o segundo nas imediações do Cabo de São Tomé e o terceiro nas proximidades do futuro distrito quissamaense de Barra do Furado. Não era projeto dos fidalgos a fundação de um núcleo urbano na planície norte do Rio de Janeiro. Quanto às ordens religiosas dos jesuítas e dos beneditinos, seus interesses eram a catequese dos nativos e a prática econômica. Quando Salvador Correia de Sá e Benevides tomou conhecimento da fertilidade das terras da planície, requereu-as como capitania e pleiteou a ocupação de um vasto latifúndio. Tudo indica que foi ele quem conseguiu o caráter de freguesia para um núcleo de povoação que se formou no local correspondente ao sítio da Igreja de São Francisco, na segunda metade do século XVII.
Havia poucas pessoas reunidas na freguesia de São Salvador dos Campos dos Goitacazes. Certamente, havia mais pessoas fixadas na área rural que na futura vila de Campos, que deve ser entendida como extensão do campo. A baixa densidade demográfica da planície não levou a uma justa compreensão do problema que era ocupá-la. No primeiro momento, não se notou com clareza que as águas de transbordamento do rio Paraíba do Sul pela margem direita corriam em direção à linha da costa, ocupando as rasas lagoas da planície fluviomarinha, em busca da bacia do rio Iguaçu, subsidiário do Paraíba do Sul num grande delta. Essas águas não voltavam mais ao grande rio quando seu nível baixava. Na margem esquerda, ligeiramente mais alta que o nível médio do Paraíba do Sul, após as cheias de verão, as águas retornavam ao rio, ficando apenas retidas nas lagoas de tabuleiros e de restinga.     

Características da planície dos Goytacazes
         A planície dos Goytacazes é formada por um terreno aluvial e uma restinga com menos de 5.000 anos de existência e uma restinga, entre Barra do Furado e a margem esquerda do rio Macaé, com idade de 120 mil anos. Seus limites se estendem do rio Guaxindiba ao rio Macaé. As duas unidades de tabuleiros na sua retaguarda, embora baixas, não devem ser consideradas parte da planície.

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As unidades geológicas formadoras da região norte-noroeste fluminense. A baixada dos Goytacazes é constituída pela planície aluvial e por duas unidades de restinga que a ladeiam

A planície fluviomarinha dos Goitacazes não é apenas uma das planícies do Estado do Rio de Janeiro, mas a maior delas. Em 1934, Hildebrando de Araujo Góes anotou que a Baixada dos Goytacazes tem 8.300 km², ou seja, um quinto do território da Holanda. E ele não considerou a ponta da restinga na margem esquerda do rio Paraíba do Sul nem a planície do rio Macaé (brejo da Severina). O Paraíba do Sul é o grande formador dessa planície. A soma das outras três planícies fluminenses supera a dos Goytacazes em apenas 1.000 km². Ela compreende uma grande área de origem aluvial e a maior restinga do Estado. Associa-se a ela outra grande restinga, de origem mais antiga, a restinga de Jurubatiba. Na retaguarda dessa planície, a zona serrana se constitui da Serra do Mar, bastante íngreme, interrompida abruptamente na margem direita do Rio Paraíba do Sul, e de uma formação cristalina antiga e baixa na sua margem esquerda.
A segunda característica da Baixada dos Goytacazes é a distância entre a zona serrana e o mar. A planície poderia ser longa e estreita sem deixar de ter as mesmas dimensões. Mas ela é larga. De Itereré, ponto em que o Paraíba do Sul deixa a zona serrana, até sua foz, o grande rio percorre uma longa distância em terras baixas que ele próprio criou. O fluxo é muito lento. Nos transbordamentos, as águas vertiam pela margem direita formando uma infinidade de lagoas, das quais a maior era e ainda é a lagoa Feia. As águas que transbordavam pela margem esquerda encontravam terrenos mais altos, acumulavam-se em depressões, sendo a mais expressiva a que se denominou lagoa do Campelo, e voltavam ao rio quando suas águas baixavam.
Já no segundo sistema hídrico, que denomino de Iguaçu, as águas das chuvas adquiriam um caráter de enxurrada por conta da vertente atlântica da Serra do Mar. Elas desciam pelos pequenos rios que desembocam no rio Imbé, engordavam a lagoa de Cima, vertiam com dificuldade pelo estreito rio Ururaí, provocando cheias, alastravam-se pela lagoa Feia e saíam apertadas pelo rio Iguaçu. O que reduzia o impacto das águas tanto na bacia do Paraíba do Sul quanto na bacia do Iguaçu eram as densas florestas da serra e dos tabuleiros e suas várzeas. Como, antes de 1534, os índios viviam bem integrados à natureza, as cheias não causavam danos aos seus parcos bens. Era só procurar as terras altas da baixada como refúgio até o fim da estação chuvosa. Enxurradas no trecho final do Paraíba do Sul ocorriam apenas na vertente interior da Serra do Mar, pelos rios Grande e do Colégio, principalmente.
A terceira característica dessa planície é a declividade mínima dela entre a margem direita do Paraíba do Sul e o mar, o que dificulta o escoamento das águas fluviais e pluviais. Transbordando em períodos de cheia pela margem direita, as águas do Paraíba do Sul derivavam lentamente e formavam um verdadeiro pantanal. Foi na margem direita, problemática em termos de drenagem, que se instalaram a cidade de Campos e a fatia mais significativa da agroindústria sucroalcooleira.
A quarta singularidade da Baixada dos Goytacazes é que, a rigor, só existiam três defluentes originais e regulares das águas acumuladas no continente para o mar: os rios Paraíba do Sul, Iguaçu e Guaxindiba, que enfrentavam e enfrentam permanentemente a grande energia oceânica, quinta característica, que tende a fechar qualquer desaguadouro. Enquanto os rios que drenam as Baixadas de Sepetiba e da Guanabara desembocam em baías protegidas e os que drenam a Baixada de Araruama são capturados pela lagoa de mesmo nome e por outras, os da baixada de Goytacazes lutam contra o mar aberto e violento. Não sem razão, Alberto Ribeiro Lamego considerou o mar – não o Paraíba do Sul e as lagoas – como o maior adversário da agropecuária e da vida urbana. Assim, as águas das chuvas abundantes fluíam lentamente pela grande baixada por canais naturais sinuosos, tomados por vegetação nativa, até chegar ao mar com dificuldade.


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Baixadas do Estado do Rio de Janeiro segundo Hildebrando de Araujo Góes (1934)

As lagoas da baixada dos Goytacazes
            Uma das mais singulares características da planície fluviomarinha do norte do Rio de Janeiro é a profusão de lagoas. Já se aludiu à declividade da baixada entre o rio Paraíba do Sul e a linha de costa, configuração geomorfológica que permitiu a formação de uma profusão de lagoas. As águas do rio Paraíba do Sul, em regime médio, alimentavam essas lagoas pelo lençol freático. Em tempos de cheia, as águas que transbordavam pela margem direita corriam em direção à bacia do rio Iguaçu e engordavam as lagoas. As águas derivadas de chuvas abundantes também corriam para as lagoas.
            Podemos situar as lagoas em dois contextos geomorfológicos: as lagoas da planície aluvial e as lagoas de restinga. Dentre as primeiras, sobressai-se ainda hoje a lagoa Feia. Em torno dela, havia um colar de lagoas menores, embora de considerável grandeza, como as lagoas do Jesus, da Piabanha, das Aboboreiras, de Saquarema Grande e Pequena, dos Coqueiros e muitas outras mais. Entre as lagoas de restinga, a maior é a lagoa do Campelo, mas devemos considerar também as lagoas de Gruçaí, de Iquipari e do Açu, antigos braços auxiliares do rio Paraíba do Sul que tiveram suas barras fechadas e se transformaram em lagoas alongadas. O mapa abaixo, traçado por Alberto Ribeiro Lamego em 1954, ilustra a profusão de lagoas Baixada dos Goytacazes, embora ultrapasse suas dimensões e inclua as lagoas de tabuleiros e serranas.


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         Lagoas da planície aluvial (rosa) e das restingas (amarelo) em carta de Alberto Ribeiro Lamego



A expansão do núcleo urbano de Campos e as lagoas
            Na área em que Campos vem crescendo desde a segunda metade do século XVII, havia muitas lagoas. O primeiro documento a relacionar algumas é o próprio Roteiro dos Sete Capitães. André Martins da Palma exalta a lagoa Feia. O cartógrafo Manoel Martins do Couto Reis menciona as maiores. Nenhuma das que ficavam nos arredores do núcleo original de Campos deve ter merecido a atenção dele por serem muito reduzidas em comparação às muitas outras. No seu mapa, o que merece destaque nos arredores de Campos é o córrego do Cula, também chamado de córrego Grande. Trata-se de uma ramificação do Paraíba do Sul que começava no terreno em que se ergueu Campos e que corria para o rio Iguaçu. Barrado pela restinga, ele formava um grande banhado que ainda existe. Quanto ao Cula, seu eixo orientou um caminho de terra que dava continuação ao caminho que procedia do Rio de Janeiro, ligando Campos a essa cidade. Mais tarde, esse caminho foi substituído pela ferrovia São Sebastião e pela rodovia Campos-Farol. Trata-se de um dos roteiros da colonização europeia da região. Quanto ao Cula, restaram dele alguns fragmentos. O pequeno trecho que se encontra na cidade foi tombado pelo governo estadual e está em franco processo de desaparecimento. No mapa do cartógrafo, aparecem ainda uma pequena lagoa não nomeada, que deve ser a lagoa do Furtado, e o brejo do Espinho.


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Trecho do Mapa de Couto Reis (1785), mostrando o rio Paraíba do Sul, o córrego do Cula, uma pequena lagoa (junto ao rio) e o brejo do Espinho

            No acervo da Biblioteca Nacional, encontra-se um mapa desenhado por autor anônimo anteriormente à elevação da vila à cidade, pelo que se pode ler no rodapé. O autor menciona as lagoas mais conhecidas na malha do núcleo urbano, como se pode ler: lagoa do Osório ou do Furtado, lagoa do Curtume e outra área alagada e alagável, além do rio Paraíba do Sul. Trata-se de um precioso documento.


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Mapa de autor desconhecido formulado antes de 1835, quando Campos ainda era vila

            O perímetro urbano do núcleo pouco mudou entre sua elevação à condição de vila, em 1677, e a elevação à cidade, em 1835. Uma planta de Campos formulada por Henrique Luiz de Bellegarde Niemeyer mostrava Campos como um pequeno núcleo urbano, embora, em 1815, o naturalista alemão Maximiliano de Wied-Neuwied descrevesse a vila como o mais expressivo núcleo urbano entre o Rio de Janeiro e Salvador. Na planta de Bellegarde, aparecem com distinção o rio Paraíba do Sul, a lagoa do Furtado, as ruas e as quadras.


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Planta da cidade de Campos por Henrique Luiz de Bellegarde Niemeyer
            Vinte anos depois da planta desenhada pelo major Bellegarde Niemeyer, Antonio Justiniano Rodrigues formulou a “Planta geral do canal do Nogueira”. Embora seu foco não fosse a cidade de Campos, ela aparece na grande curva da Lapa. As lagoas envolvidas pela malha da cidade não figuram no desenho. Pode- se perceber, contudo, que a cidade já se alastrava para o sul e para o norte, acompanhando a margem do Paraíba do Sul e ultrapassando o perímetro delimitado por Américo Pralon, em 1842. 


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Antonio Justiniano Rodrigues. Campos na “Planta geral do canal do Nogueira”. Rio de Janeiro: 1857

            Tornou-se famosa a enchente de 1833. Um mapa também de 1857, do acervo da Biblioteca Nacional, informa que o transbordamento do rio Paraíba do Sul pela margem direita seguiu pelo córrego do Cula, causando grandes estragos. Na breve legenda a seu lado, lê-se: “Valão por onde em 1833 na sua enchente extraordinária transbordou o Rio Paraíba bem assim anteriormente em casos semelhantes se bem que pouco vulgares”. No seu início, ao norte, o(s) cartógrafo(s) registra(m) “Cemitério Público fechado com estacada”.


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Córrego do Cula em torno de 1857 ao lado de uma seta que aponta para o norte. Assinala-se a parte de Campos realmente existente e a parte destinada à expansão urbana, sobretudo em direção oeste. Acervo da Biblioteca Nacional.

            Em outra planta de autor desconhecido, figura a lagoa do Furtado de forma destacada dentro da malha urbana de Campos. Pelas características do desenho, o canal Campos-Macaé já deveria existir, mas o autor não o assinalou.


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Planta de autor desconhecido mostrando o rio Paraíba do Sul, a lagoa do Furtado e o núcleo urbano de Campos em expansão.

            Na década de 1920, o engenheiro sanitarista campista Francisco Saturnino Rodrigues de Brito completou seu trabalho do início do século XX: “Saneamento de Campos” de 1902. O complemento é uma planta para a drenagem completa das lagoas que restavam na malha urbana. O engenheiro concebeu dois canais de drenagem nas margens direita e esquerda do canal Campos-Macaé. Ambos deviam correr a céu aberto. O da direita drenaria a baixa área da Pelinca, já dentro do perímetro urbano da cidade, que cresceu até a ferrovia, por um lado, alcançando a avenida Sete de Setembro, por outro. Um canal secundário se entroncaria a esse para drenar a lagoa Dourada, atrás do antigo Fórum hoje prédio da Câmara Municipal. Esse canal ramificado escoaria as águas para o canal Campos-Macaé na altura dos remanescentes da lagoa do Furtado, que seria totalmente drenada.
            Pela margem esquerda, outro canal esgotaria as águas das lagoas do Goiabal, Santa Ifigênia e João Maria, desembocando no canal Campos-Macaé. Na planta, assinalei ainda a área correspondente à lagoa do Curtume, que já havia sido drenada para o Paraíba do Sul, e a lagoa do Saco, que ainda existia fora do perímetro urbano. Se os canais fossem abertos, talvez Campos não enfrentasse alagamentos, ainda tão comuns hoje nos pontos em que existiram as lagoas apontadas por Saturnino de Brito.


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Planta de 1926, feita por Saturnino de Brito mostrando as lagoas Dourada, do Osório ou do Curtume, do Goiabal, Santa Ifigênia e de João Maria. Acrescentei as lagoas do Saco e do Curtume

As lagoas assinaladas por Saturnino de Brito na malha urbana de Campos não existem mais. Elas foram mal drenadas e, na sua área, foram erguidas casas e abertas ruas. Quando chove, os principais pontos de alagamento correspondem ao espaço ocupados por essas lagoas extintas. As lagoas ressurgem. A rua Rocha Leão, nas proximidades da Alberto Torres, fica alagada. Parece ser o ponto mais baixo da antiga lagoa do Saco. Assim também na rua que corre atrás da Câmara Municipal. É a área da extinta lagoa Dourada. Os brejos do eixo Pelinca voltam rapidamente. O fantasma das lagoas do Furtado sai da sepultura com ímpeto. Depois da construção da ponte Leonel Brizola, ele se tornou mais assustador, já que a água desce pela ponte como um rio e se acumula numa de suas cabeceiras. Ao mesmo tempo, a prefeitura construiu um sistema inadequado para o escoamento das águas acumuladas em direção ao canal Campos Macaé. A lagoa do Curtume é a mais modesta. Só mesmo com chuvas fortes, ela reaparece na beira-rio. Já a lagoa do Goiabal cria problemas com as inundações no Novo Jóquei. A lagoa de Santa Ifigênia ressuscita na rua Formosa, no trecho em que se ergue o quartel do 8º BPM. A lagoa João Maria volta na rua Edmundo Chagas e em torno do edifício Salete quando chove, o mesmo acontecendo no Parque Aurora, na borda sul de Campos.
Uma das plantas do Plano Urbanístico Coimbra Bueno, de 1944, não mostra mais as lagoas assinaladas por Saturnino de Brito em 1926. Provavelmente, elas já teriam sido drenadas ou soterradas com terra ou lixo, algo que era muito comum nos séculos XIX e XX. Primeiro, a população jogava lixo nas lagoas. Depois reclamava do poder público providências contra a poluição e os alagamentos. A planta do Plano de 1944 mostra apenas a lagoa do Saco, que será drenada posteriormente pelo canal do mesmo nome, à medida que a cidade se expandia para além da ferrovia.


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Planta do Plano Diretor Coimbra Bueno (1944), assinalando a Lagoa do Saco à esquerda

Em 1933, o governo federal criou a Comissão de Saneamento da Baixada Fluminense para promover obras que conquistassem terrenos aos brejos, lagoas e rios das quatro baixadas do Estado do Rio de Janeiro, como mostra seu primeiro diretor num relatório essencial para compreender os trabalhos das comissões anteriores e do Departamento Nacional de Obras e Saneamento, que a sucedeu.
            No que concerne à baixada dos Goytacazes, o caminho escolhido para sua drenagem foi o plano que Saturnino de Brito formulou na década de 1920. Houve modificações significativas feitas pelo DNOS, mas ele serviu de base. O órgão federal abriu um longo e largo canal entre a lagoa Feia e o mar – o canal da Flecha. Entre a margem direita do rio Paraíba do Sul e o canal da Flecha, concentraram-se as obras de drenagem do órgão. Foram abertos oito canais primários entre as bacias do Paraíba do Sul e do Iguaçu: Itereré, Cacumanga, Campos-Macaé (já existente e que agora se integra à rede como canal de drenagem), Coqueiros, Cambaíba, Saquarema, São Bento e Quitingute. Deles partiam canais secundários, terciários e outros sucessivamente. Do canal Campos-Macaé, partiu o canal de Tocos, até a lagoa Feia.
            Em 1950, a rede de canais da margem direita já estava praticamente estruturada, como mostra o mapa a seguir. Nas décadas de 1950 e 1960, o órgão irá se ocupar de consolidar e promover a manutenção da rede da margem direita e cuidar da margem esquerda do Paraíba do Sul.


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Obras efetuadas pelo DNOS até 1950
Na parte meridional da cidade, longe dela ainda, o DNOS abriu alguns canais para drenagem de brejos e lagoas, de modo a aumentar a oferta de terras para o cultivo de cana. Havia ali o brejo do Cachorangongo e as lagoas da Piabanha, da Caraca e da Barata, além de uma grande área de baixada sujeita a inundações até a lagoa Grande. O canal de São José drenou a área associada à lagoa Grande. O canal do Rosário drenou o brejo do Cachorangongo e as lagoas da Caraca e da Barata. Com o tempo, as áreas destinadas à cana, no sul do perímetro urbano de Campos, foram ocupadas por bairros novos. O pioneiro foi o Parque Aurora. Com o aumento dele, novos bairros foram criados, como o Parque São Lino, o Parque Dr. Beda, o Parque Rui Barbosa e o Parque São Benedito. E a expansão continua numa área verde em direção ao canal de Tocos.


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Mapa desenhado por Alberto Ribeiro Lamego em 1954, mostrando a área com lagoas e brejos hoje ocupada pelo Parque Autora e outros bairros

            Na revisão do Plano Diretor, de 2008, o perímetro urbano, a oeste, tangencia o canal de Cacumanga, que recebe o canal do Saco, que drenou a lagoa do Saco, e alcança o rio Ururaí. É grande a poluição nos dois, devido a uma urbanização intensa e desprovida dos serviços básicos de coleta de esgoto e lixo. O início do canal de Coqueiros já foi assimilado pela área urbana. Na extremidade leste, o perímetro foi estabelecido no canal de Cambaíba. Na verdade, já existe uma continuidade urbana entre Campos e Goytacazes. A cidade tende a alcançar Tapera e Ururaí. Na margem esquerda, ela já englobou o distrito de Travessão. Difícil crer que uma linha traçada como perímetro detenha a expansão da cidade.
            O indiscutível, entretanto, é o uso dos canais como vias de drenagem por ocasião de chuvas e transbordamentos. O centro do sistema é o canal Campos-Macaé. Ele está ladeado pelos canais de Cacumanga, Coqueiros e Cambaíba. Mas canais desprezados, como o canal natural do Cula, são fundamentais para a drenagem urbana. A avenida Pelinca e seu entorno dependem dele. 


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Perímetro urbano (linha tracejada) para o Plano Diretor revisto




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Canais: 1- Cacumanga; 2- Campos-Macaé; 3- Coqueiros; 4- Cambaíba; 5- Saco; 6- Cula; 7- Goiabal; 8- Tocos; 9- São José; 10- Rosário

            Campos dos Goytacazes é uma cidade de matriz europeia. Nada nela nos leva a concluir que tenha derivado de modelos asteca, maia ou inca. Ou ainda indiano e chinês. A Europa cristã fez experiências com um modelo urbano extremamente dinâmico, com mudanças constantes. No mundo extra-europeu, esse modelo de cidade desenvolveu-se com um marcante traço: a grande desigualdade social. Essa característica leva as cidades a se desenvolverem de forma desordenada, com a ocupação de áreas ambientalmente frágeis. Daí os frequentes desastres causados por chuvas, alagamentos e deslizamentos de encostas.

Referências
ALMEIDA, Oswaldo. A história pouco conhecida da freguesia de São Salvador dos Campos dos Goytacazes, origem da cidade de Campos dos Goytacazes. Campos dos Goytacazes: Cristiane Maria Hilel, 2018. 
BRITO, Francisco Saturnino Rodrigues de. Saneamento de Campos, Estado do Rio de Janeiro: Campos: Typographia de Silva Carneiro & C., 1903.
COUTO REIS, Manoel Martins do.  Manuscritos de Manoel Martins do Couto Reis – 1785: Descrição geográfica, política e cronográfica do Distrito dos Campos Goitacazes. Campos dos Goytacazes: Fundação Cultural Jornalista Oswaldo Lima; Rio de Janeiro: Arquivo Público do Estado do Rio de Janeiro, 2011.
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PALMA, André Martins da. Representação sobre os meios de promover a povoação e o desenvolvimento dos campos dos Goitacases em 1657. Revista Trimensal do Instituto Histórico, Geográfico e Etnográfico do Brasil tomo XLVII, parte I. Rio de Janeiro: Laemmert, 1884.
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