terça-feira, janeiro 22, 2019

Em 2018, o Brasil exportou 40% de todo o petróleo cru que produziu (quase todo o pré-sal) e segue importando mais derivados

Em boa matéria do Fernando Mellis, publicada hoje no portal R7, foram apresentados alguns números gerais que o setor de petróleo fechou em 2018. Os dados da Agência Nacional de Petróleo (ANP) indicam que o Brasil vendeu 1,12 milhões de barris por dia (bpd) de óleo cru (13,3% a mais que em 2017) e equivalentes a 40% de toda a produção em nossas bacias. Sim quase metade de todo o petróleo que produzimos, quase todo o pré-sal, considerando apenas o petróleo e sem o gás natural.

Esse fato se deve não apenas às vendas externas da Petrobras, mas ao aumento da produção e vendas internacionais por parte das petroleiras estrangeiras que atuam cada vez mais no Brasil - como operadoras e/ou concessionárias - e que direcionam para onde querem as suas produções crescentes no país.

Segundo o Boletim da Produção de Petróleo e Gás, edição de novembro de 2018 da ANP, só as cinco petroleiras estrangeiras que estão logo abaixo da Petrobras, produziram no Brasil um total de 711 mil barris de petróleo e gás por dia (22% da produção no país). Pela ordem em termos da prodção de óleo + gás natural: a anglo-holandesa Shell (400 mil boepd); a portuguesa Petrogal (114 mil boepd); norueguesa Equinor (89 mil boepd); o consórcio espanhol-chinês Repsol-Sinopec (84 mil boepd); e a chinesa Sinochen (24 mil boepd). 

Os principais importadores que levaram em 2018, o nosso óleo cru para ser processado em suas refinarias foram: China (56,5%), EUA (11,9%) e o Chile (8,43%). Essas exportações geraram um volume de US$ 25,1 bilhões em divisas ao país. 

Em volume, em 2018, o Brasil exportou um total de quase meio bilhão de barris de petróleo. Em números absolutos 412 milhões de barris. Veja no gráfico ao lado, a evolução da exportações de óleo cru do Brasil, ano a ano, entre 2000 e 2018.

Ainda segundo a reportagem, a EPE (Empresa de Pesquisa Energética), ligada ao Ministério de Minas e Energia, estima que a produção de petróleo no pré-sal dobre nos próximos oito anos e que isso deverá levar a que o país se torne um dos cinco maiores exportadores do mundo — atualmente o Brasil está entre os dez principais.

Assim, a previsão é que até 2027, o Brasil triplique as exportações de óleo cru, superando 3,1 milhões de barris por dia, segundo o superintendente de petróleo da EPE, Marcos Frederico Farias de Souza.

Há algum tempo, o blog vem mostrando aqui nesse espaço as contradições para a economia nacional, na medida em que vendemos quase metade de nossa produção de petróleo e importamos derivados em refinarias estrangeiras (em valores muito mais altos, além dos custos dos transportes de ambos) para ser aqui consumido.

Em passado recente, o Brasil deixou de construir as refinarias projetadas Premium I e II no Ceará e Maranhão e não terminou ainda o Comperj, em Itaboraí. Além disso, a partir do governo Temer, o país passou a reduzir o refino em nossas refinarias que chegaram a cair abaixo de 70% da capacidade de refino total. A modelagem das plantas dessas novas refinarias, acrescidas da construída em Pernambuco (Rsnet), permitiria processar o petróleo mais pesado produzido em alguns campos produtivos do país que há algum tempo obriga um percentual de exportação de óleo cru.
 
Assim, na contramão do aumento de exportações, o Brasil segue com alta importação de derivados que incluem gasolina, diesel, GLP (usado nos botijões de gás), querosene de aviação e lubrificantes.

Por baixo, a estimativa é que a cada barril de óleo bruto exportado gasta-se pelo menos US$ 12 (cerca de R$ 45) a mais por barril de derivado importado. Dessa forma, segundo a ex-diretora-geral da ANP, Magda Chambriard, essa diferença entre o que se deixa de refinar para importar foi de cerca de R$ 6,56 bilhões, fora os custos com logística e transportes.

Sobre a demanda interna, um estudo da EPE prevê que o Brasil deverá demandar importação em  de 213 mil barris por dia só de óleo diesel em 2027. Por essas informações fica evidente que o Brasil tem sim necessidade de investir em novas infraestruturas de abastecimento, incluindo a construção de refinarias. Hoje a capacidade de refino do país é de 2,4 milhões de barris por dia, sem acrescentar o Comperj que tem previsão de entrar em funcionamento no início do segundo semestre do ano que vem.

No meio de toda essa realidade, o atual governo quer vender refinarias do Norte/Nordeste e Sul do país, pertencentes à Petrobras e com mercado garantido no país, para petroleiras estrangeiras. 

Vale dizer que essa etapa da cadeia produtiva do petróleo é a que mais se apropria da renda petroleira
- constituída em toda a sua extensão - quando se tem o mercado garantido como é o caso brasileiro.

É necessário e urgente rever esse processo. São poucos que conseguem compreender essa realidade. Porém, é necessário manter o esforço para traduzir, de forma mais simples e compreensível, essa complexidade que atinge a nação e o nosso povo.

segunda-feira, janeiro 21, 2019

Royalties de janeiro têm queda de mais de 20% em relação a dezembro

As quotas mensais dos royalties do petróleo são pagas dois meses da produção. Assim, os valores que serão depositados amanhã na conta dos municípios são os referentes à produção de novembro, onde o preço do barril de petróleo no mercado internacional já havia caído bastante.

Os dados são da Agência Nacional de Petróleo (ANP), mas foram tabulados mais uma vez pelo Wellington Abreu, superintendente de Petróleo, Gás e Tecnologia da PMSJB. Pela tabela abaixo é possível ver que, em termos absolutos, as maiores perdas são das prefeituras de Macaé e Campos dos Goytacazes com valores de aproximadamente R$ 13 milhões a menos do que recebido em dezembro.

Nessa quota de janeiro de 2019, em maiores valores em termos absolutos recebidos são do município de Macaé de R$ 47,1 milhões; seguido de Maricá com R$ 46,1 milhões; Niterói com R$ 38,1 milhões e em quarto lugar, Campos dos Goytacazes com R$ 33,8 milhões. A previsão é de que as quotas de fevereiro sejam ainda menores pelas mesmas razões.

PS.: Para ver a imagem da tabela em tamanho maior clique sobre ela.




sábado, janeiro 19, 2019

Desverticalização nacional e re-verticalização global no setor de gás no Brasil: a contradição liberal

Cena 1: Dia 16 jan. 2019, o Superior Tribunal de Justiça (STJ) suspendeu liminar que impedia venda da Transportadora Associada de Gás (TAG), subsidiária da Petrobras que detém como ativo uma malha de 4,5 mil km de gasodutos no Norte e Nordeste do País. Sobre o assunto leia aqui postagem anterior do blog em 25 abr. 2018.

Cena 2: Dia 17 jan. 2019, a corporação francesa Engie que opera no setor de energia (gás e eletricidade) em várias partes do mundo, informa que pretende retomar e finalizar as negociações em consórcio com o fundo de pensão canadense Caisse de Depot et Placement du Quebec (CDPQ) para compra da TAG  por um valor estimado entre US$ 8 bilhões e US$ 9 bilhões.

Cena 3: Dia 17 jane. 2019, a Agência Nacional de Petróleo (ANP) em ofício ao Cade (Conselho Administrativo de Defesa Econômica) defende a desverticalização completa da indústria de gás no país".

Cena 4: Dia 17 jan. 2019, a mesma Engie informa que está avaliando investir no setor de distribuição de gás natural no Brasil e diz que esse interesse faz parte da "estratégia da corporação  de aumentar os investimentos no Brasil e de entrar em negócios que aproxime a empresa de consumidores finais com aquisição de distribuidoras estaduais de gás". Através do CEO (presidente) da Engie Global, Maurício Bähr, disse ainda que através da subsidiária Engie Brasil Energia (EBE) pretende mais: "o Brasil é um país que oferece oportunidades que têm escala. Você consegue fazer uma alocação de capital de porte, robusta".

Ato Final e Conclusões: Em dois dias apenas se observa com clareza a lógica dos movimentos. Enquanto os governos mercadistas do Brasil desmontam e desverticalizam o setor de óleo & gás e eletricidade no país, as grandes corporações globais aproveitam a oportunidade e compram em bloco as empresas, na prática re-verticalizando o setor, não mais sobre o controle estatal dessa área estratégica, mas sob os domínios de uma corporação privada estrangeira. É importante relembrar que o setor gás natural é ainda mais estratégico, porque se trata da matriz de transição de energia, menos poluente.

Desde 2016, consultores, lobistas e escritórios de advocacia contratos pela Engie escrevem para os burocratas do governo e parlamentares, o marco regulatório que desejam para o setor de gás. Lá deixam as brechas (chamadas de flexibilidade) para ditar regras do mercado onde as tarifas definirão as enormes margens de lucro e as possibilidades de saída e venda do setor na hora que quiserem.

Esse processo eu já analisei mais profundamente em artigos aqui no blog e também em publicações acadêmicas. Para resumir e melhor explicar esse processo elaborei um infográfico (abaixo) que expõe esses movimentos que podem ser observados em detalhes em cada um desses setores, mas que mantém sempre a mesma lógica.

É importante destacar, inclusive, para aqueles com mentes colonizadas (ou os conhecidos cabeças de planilha) do mercado financeiro, que não há justificativas para o crime de lesa-pátria que produz o esquartejamento e venda, a preço vil dos negócios das subsidiárias da holding Petrobras.

Na verdade esta é uma enorme contradição não respondida pelos liberais. Eles dizem que é preciso privatizar para aumentar a competitividade dos setores, mas na prática, o que se vê em curso é a oligopolização, ou mesmo monopolização de setores estratégicos. Não mais nas mãos do governo e sim de corporações privadas. Esses movimentos reproduzem decisões políticas daqueles que chegaram ao poder pelo apoio do poder econômico dessas corporações.

Sim, é preciso cuidar da corrupção, especialmente essas de maior volume e danos para a nação. Esse tipo de corrupção - pouco percebida - sempre é travestida de abstratos aspectos de legalidade, por parte daqueles que operam no Estado, os interesses privados.

  Fonte: Tese de doutorado do blogueiro (p.205) cujo título é "A relação transecalar e muldimensional "Petróleo-Porto" como produtora de novas territorialidades". PPFH-UERJ, defendida em março 2017. P. 222.


sexta-feira, janeiro 18, 2019

A máquina das dívidas amplia a financeirização, produz novo padrão de acumulação e ameaça esgarçar o sistema no capitalismo contemporâneo

A "máquina das dívidas" tem sido a fórmula básica para se criar valor no mundo das finanças.

O setor financeiro cresce basicamente com a ampliação das dívidas, tanto públicas quanto privadas. Aliás, agora mais intensa por parte das corporações do que dos governos. Na década pós crise de 2008, vive-se uma enorme expansão da liquidez "floating capital" ou capital fictício.

Assim se assiste à crescente financeirização que é puxada pelas dívidas que dessa forma mantém em movimento a economia mundial. A produção material prossegue, mas em ritmo menor. A renda deixou de ser a impulsionadora e foi substituída pelo crédito como motor da economia global.

Neste processo, o volume atual da dívida global já chega, segundo o FMI, a US$ 182 trilhões (60% acima de 2007, um ano antes da crise do subprime). [Agência EFE/Exame Online, 1 out. 2018]

Segundo o FMI, hoje, essa dívida global acumulada chega a 225% do PIB. Lembrando novamente que esse percentual é maior do que antes da crise financeira de 2008. [Valor, 18 jan. 2019, P.A7]

Essa "máquina das dívidas" vem puxando o sistema e a alimentado a "espiral de acumulação infindável” (HARVEY, 2018)

No meio desse processo cresce o rentismo e o papel dos fundos financeiros que não param de ver seus ativos aumentarem.

A americana BlackRock, maior gestora de fundos de investimentos do mundo, acumula ativos no valor de R$ 5,98 trilhões (R$ 22 trilhões). Outro grande fundo americano, o Vanguard tem ativos de R$ 5 trilhões.

Apenas esses dois fundos de investimentos possuem ativos equivalentes a mais de 6 vezes o valor do PIB brasileiro.

Observa-se assim, a intensificação do uso do dinheiro (e seus papeis (títulos do tesouro, bônus, debêntures, etc) como mercadoria e não mais apenas, como equivalente geral das trocas.

Assim, esse processo que vem sendo genericamente chamado de financeirização da economia, com ampliação do "capital improdutivo” (DOWBOR, 2017), ao mesmo tempo que amplia a mobilidade entre suas frações e aumenta os riscos do esgarçamento do sistema.

O próprio FMI, desde o segundo semestre de 2018, vem chamando a atenção para esses riscos. Aliás, o problema se tornou também o tema central do debate de Davos, onde se reúnem os donos desses dinheiros.

Governos mercadistas - que são apenas décimos das riquezas - diante desses fundos se tornam periféricos no debate de Davos, onde há preocupações com as reduções de crescimento nas maiores economias do mundo.

Enquanto isso, o ministro da Fazenda do Brasil diz que nada disso importa.

Aliás, em entrevista à revista Época (14.01.19, p.24), o ministro Guedes, garbosamente, disse que para o Brasil "esse tipo de situação dramática seria uma dádiva e uma oportunidade para construir consenso político em torno de medidas duras".

Em que ponto chegamos. Quando um agente público torce para uma grave crise mundial, para ter meios políticos para arrochar ainda mais "os de baixo", em favor dos donos dos dinheiros, o que se pode esperar?

Vai torrar as nossas reservas de US$ 380 bilhões, vender e privatizar tudo e entregar o nosso futuro ao deus mercado.

E ainda há quem tenha dúvidas sobre para quê e para quem servem as crises.

O caso é mais grave porque, aparentemente, o capitalismo contemporâneo parece estar saindo de uma fase cíclica, para um novo e mais radical padrão de acumulação, onde o esgarçamento e a "destruição criativa" pode se impor.

PS.: Atualizado às 15:02 e 16:46 e 16:54: Para fazer ajustes, correções e breves acréscimos no texto original.

quarta-feira, janeiro 16, 2019

Relatório da Geo Costeira (UFF-Campos) sobre as causas, consequências e ideias de solução para o problema da erosão costeira em Atafona é bem recebido em reunião no MPF em Campos

Há cerca de três meses, o professor e pesquisador Eduardo Bulhões, da Unidade de Estudos Costeiros (Geo Costeira) do Departamento de Geografia da UFF-Campos, encaminhou a esse blog, um relatório de sua autoria, que atendeu a uma requisição da Dra. Ana Carolina P. de Araújo, da Defensoria Pública do ERJ sobre a erosão costeira no Balneário de Atafona, litoral do município de são João da Barra. Trata-se de um estudo com análise detalhada que contém abordagem ampla, além de vários mapas, imagens e gráficos que estudam o problema e investiga ideias e soluções.

Por razões diversas, eu só agora fui ler o documento. Porém, o professor Bulhões informou hoje que no último dia 7 de dezembro aconteceu uma reunião no Ministério Público Federal (MPF) em Campos para discutir a temática da erosão costeira no litoral de Atafona, SJB.

Segundo o professor Eduardo Bulhões da UFF, além dele, participaram da reunião os professores especialistas em erosão e obras costeiras, Dieter Muehe (UFES) Paulo Rosman (COPPE UFRJ), a defensora pública Ana Carolina Palma de Araújo da DPE RJ, o procurador Bruno Ferraz (MPF-RJ Campos dos Goytacazes), o anfitrião da reunião e mais um perito oceanógrafo do MPF, baseado em Brasília, secretários da PMSJB Meio Ambiente, Obras, Defesa Civil, Procuradoria dentre outros técnicos.

Seguindo o relato do professor Bulhões, nessa reunião foram debatidas algumas opções para estabilização da erosão costeira em Atafona e para a captação de recursos. Quanto as alternativas discutidas foram consideradas as sugeridas anteriormente (no relatório/projeto do INPH) e as do relatório da Geo Costeira da UFF. Em especial foi apresentada de forma inédita e debatida a opção proposta pelo relatório do professor Bulhões que sugeriu "a recuperação artificial do sistema praia-duna que consiste basicamente na reposição mecânica de areias compatíveis com as que foram perdidas no pontal (essa opção as vezes aparece como engordamento de praia ou alimentação artificial de praia) de forma a criar um fluxo de materiais para a praia, fluxo esse que o rio não consegue mais prover".

Ainda conforme relato do professor Bulhões a proposta foi muito bem aceita pelo corpo técnico presente, sobretudo após a apresentação dos benefícios dessa intervenção, no que tange as boas práticas internacionais, os baixos impactos ambientais negativos no ecossistema de praia, duna e restinga e uma estimativa inicial de custo na ordem de R$ 15 milhões o que seria mais acessível para o município. Nesse contexto foi encaminhado a criação de um grupo de trabalho para organizar e viabilizar as etapas necessárias para esse tipo de intervenção.

Bulhões diz que ainda não possui a Ata da reunião, mas assegura que resumidamente foram esses os pontos-chaves das três horas de reunião. A seu ver, "agora o município tem em mãos uma proposta economicamente viável, com exemplos de resultados comprovadamente sólidos e uma perspectiva sustentável de intervenção junto aos ecossistemas costeiros aliado a manutenção da estabilidade da linha de costa".


O relatório do Geo Costeira da UFF-Campos sobre a erosão em Atafona
Com autorização do professor Eduardo Bulhões o blog disponibiliza aqui neste link a íntegra de 37 páginas do relatório "Erosão costeira e avanço do mar na localidade Atafona. Causas, consequências e propostas de intervenção".

Ao iniciar no relatório a abordagem da questão da erosão costeira, o professor Bulhões faz referência a uma publicação da revista Nature Luijendijk et al (2018), que reporta uma pesquisa com base em quase dois milhões de imagens de satélite entre 1984-2016 que indica que a erosão no caso do balneário de Atafona é extrema.

Nessa publicação citada no relatório, seus autores afirmam que 31% do litoral mundial é formado por praias arenosas. Considerando todas as praias do planeta, 48% se apresentam como estáveis, 28% crescem em direção ao mar (acresção) e 24% recuam persistentemente sob efeito da erosão costeira, em taxas que excedem 0,5 metro por ano (m/ano). Nas áreas onde ocorre recuo da linha de praia em taxas superiores a 5 m/ano a erosão costeira é considerada extrema e representa cerca de 4% do conjunto global de praias arenosas. Essa última, erosão costeira extrema, é a realidade do litoral junto à foz do rio Paraíba do Sul, em São João da Barra-RJ, na localidade denominada Atafona.

P.32 do Relatório
Enfim, vale conferir o relatório na íntegra, em especial o item sobre "Possibilidades de Mitigação da Erosão Costeira" onde comenta que "o sistema praia-duna recua à taxas elevadas desde a década de 1970 e que até 2003 já havia destruído um total de 183 unidades residenciais cadastradas, distribuídas em 14 quadras, mais localizadamente na área do pontal. Considerando que muitas casas, sobretudo as mais simples, não haviam sido devidamente cadastradas, o número de edificações destruídas é superior". 

O professor Bulhões em seu relatório além de utilizar dados do monitoramentos que tem feito em suas pesquisas na linha da costa em Atafona, também faz referência aos trabalhos anteriores do professor Gilberto Pessanha Ribeiro e do INPH (Instituto Nacional de Pesquisas Hidroviárias) sobre o mesmo tema, assim como comenta várias soluções adotadas para problemas similares em outros pontos do litoral brasileiro e de outros países.

terça-feira, janeiro 15, 2019

Os militares no Brasil atual deixam o Estado e voltam-se apenas para o governo

Os militares no Brasil atual parecem estar gostando do rumo da política no país.

Não se trata de projeto de nação, mas estão gostando.

Abandonaram o nacionalismo e voltaram aos cargos demonizando as mesmas coisas de meio século atrás.

Porém, não percebem que enquanto instituição, estão sendo envolvidos até o pescoço com o governo, abandonando as posições de Estado.

Movimentos desse tipo não costumam levar a bons caminhos.

Com todos os estudos de estratégia que os de alta patente dizem ter, não há um sequer, a gritar para, pelo menos, ir devagar, porque o andor pode ser de barro.

Os salários que duplicam os soldos parecem falar mais alto que a antiga preocupação com os destinos da nação.

sábado, janeiro 12, 2019

O norte fluminense num antigo roteiro náutico. Por Soffiati

O eco-historiador, professor e pesquisador, Aristides Soffiati, apresenta aos leitores do blog - o primeiro esse ano - mais um texto ilustrado sobre a eco-história do Norte-Noroeste Fluminense.

Nesse artigo Soffiati visita textos de quem conheceu ou descobriu a região no século XVI como parte de um movimento maior de expansão do capitalismo europeu pelo mundo em busca de mercados quando as informações começaram a ser reunidas em mapas e cartas náuticas que orientavam os exploradores e colonizadores em suas buscas de riquezas e mercados.

A partir de suas pesquisas históricas, Soffiati intui que já ali, naquele período, o norte fluminense passaria a ter menor interesse, por parte de nossos colonizadores, em relação a outras áreas do litoral brasileiro. Os registros comentados pelo autor sobre a história da geografia da região é muito interessante.

Vale conferir e conhecer um pouco mais dessas investigações no campo da história ambiental regional. Outros artigos e texto do Soffiati sobre a eco-história da região que envolve o sul capixaba e o norte e noroeste fluminense podem ser acessados em duas seções no lado direito do blog.



O norte fluminense num antigo roteiro náutico
Arthur Soffiati
            Foi intensa a atividade cartográfica europeia nos séculos XV e XVI. Navegantes dos países ibéricos, principalmente, mas também italianos, holandeses, franceses e ingleses lançavam-se no oceano Atlântico rumo às Índias para alcançar as caras mercadorias orientais que chegavam à Europa pelas mãos de muçulmanos e venezianos. Cumpria romper esse monopólio alcançando os centros produtores diretamente. E era necessário orientar-se por mapas e roteiros.

            A tese sustentada por Cristóvão Colombo era alcançar o oriente navegando em direção ao ocidente, pois a terra sendo redonda permitiria alcançar o ponto oposto ao de saída. Assim, ele chegou à América, que acabou sendo batizada de Índias Ocidentais. Logo a seguir, Vasco da Gama atingiu a Índia contornando a África e alcançando o oriente, denominado pelos europeus de Índias Orientais.

            Vasco da Gama coroa um trabalho paciente de vários navegantes portugueses no século XV, como mostra Jaime Cortesão em “Os descobrimentos pré-colombianos dos portugueses” (Lisboa: Portugália, 1966). Pouco a pouco, os lusos avançaram pela costa atlântica e índica da África até a viagem de Pedro Álvares Cabral, em 1500, que não deve ser vista isoladamente como se estuda ou estudava nas escolas, mas parte de um movimento maior de expansão do capitalismo europeu pelo mundo em busca de mercados.

            A produção de cartas náuticas e de mapas conheceu um esplendor no século XVI. Aos mapas-múndi da civilização greco-romana, foram elaborados novos mapas em que aparecia o continente americano. Cantino foi o primeiro a elaborar um mapa-múndi com a América, em 1502. Muitos outros foram desenhados depois. Acontecia de cartógrafos serem navegadores e desenharem mapas com conhecimento de primeira mão. Havia aqueles que partiam de mapas já desenhados para enriquecê-los. Havia ainda os cartógrafos que traçavam mapas falados, como se fazem retratos falados pela polícia.

            Houve poucos casos interessantes de navegadores que redigiam roteiros sem mapas ou acompanhados por mapas. Não devemos confundi-los com os diários de bordo, a exemplo de Antonio Pigafetta, que acompanhou Fernão de Magalhães na primeira viagem de circunavegação do mundo (“A primeira viagem ao redor do mundo”. Porto Alegre: L&PM, 1997) nem com o diário de Pero Lopes de Sousa, que fazia parte da tripulação do navio de Martim Afonso de Sousa, seu irmão, entre 1530-32 (“Diário de Navegação”. Cadernos de História, volume I. São Paulo: Parma, 1979).

Luís Teixeira é autor de um trabalho entre a cartografia e o diário de bordo. Ele redigiu um roteiro dos sinais que encontrou nas costas do Brasil entre o cabo de Santo Agostinho e o estreito de Magalhães. Seu título original é “Roteiro de todos os sinais, conhecimentos, fundos, alturas e derrotas que há na costa do Brasil desde o cabo de Santo Agostinho até o estreito de Fernão de Magalhães”. Como foi encontrado na Biblioteca da Ajuda, em Lisboa, é também conhecido como “Roteiro da Ajuda”. 

A obra integra um roteiro manuscrito de parte da América do Sul e treze cartas e plantas coloridas de núcleos urbanos. Consta também de uma carta naval da América do Sul com uma grande legenda em seu canto superior esquerdo. Nela se lê: “A terra do Brasil é a que parte a linha vermelha desta do Peru a qual linha é a demarcação que os reis de Castela, os católicos dom Fernando e dona Isabel e El-Rei Dom João II de Portugal fizeram no descobrimento geral. As capitanias que vão repartidas por linhas vermelhas são mercês que os reis de Portugal D. Manuel e D. João seu filho o terceiro deste nome fizeram a homens que muito bem os serviram no descobrimento e conquista das Índias Orientais: a que diz de Sua Majestade foi de Francisco Pereira Reimão que, morrendo e ficando sem herdeiros, ficou à Coroa, nesta está a baía de Todos os Santos e cidade do Salvador, onde assiste o governador e o bispo. Todas as mais são vilas exceto a cidade de São Sebastião no Rio de Janeiro, capitania de Pero de Gois a qual cidade foi tomada aos franceses pelo governador Mem de Sá. 

As melhores e mais ricas destas capitanias são a de Sua Majestade e a de Jorge de Albuquerque. Estas são as que mais engenhos têm de açúcar; e assim tem mais trato de mercadores. Tem cada uma destas capitanias pela costa do mar 50 léguas e, para o sertão tanto, até chegar à linha de demarcação como repartição delas se vê é povoada de gentio da terra do Brasil toda de portugueses quanto dizem as capitanias e somente há costa do mar, e quando muito 15, 20 léguas pelo sertão é muito povoada de gentio da terra. Tem muitos mantimentos. Em parte dela há ouro, assim de minas como de lavagês (?)”

1 - Carta geral da América do Sul por Luís Teixeira, c. 1586

 Segundo Jaime Cortesão em outro livro (“História do Brasil nos velhos mapas”, 2 volumes. Rio de Janeiro: Ministério das Relações Exteriores, 1965) “... a carta geral de Luís Teixeira, que devemos datar de cerca de1586, representa não só um grande avanço sobre a carta de Bartolomeu Velho, mas ficou pertencendo ao número dos mais notáveis monumentos da cartografia portuguesa de Quinhentos.”

Para o almirante Max Justo Guedes, reconhecido especialista em cartografia, parece não haver dúvida de que o roteiro foi escrito pelo cartógrafo entre 1573 e 1578, acompanhado de desenhos de 1586. O original está na Biblioteca da Ajuda, em Portugal, e foi publicado no Brasil com o título simplificado de “Roteiro de todos os sinais na costa do Brasil (Rio de Janeiro: Instituto Nacional do Livro, 1968) como homenagem ao quinto centenário de nascimento de Pedro Álvares Cabral. A publicação foi fac-similada, com reprodução em letras atuais ao lado do original manuscrito, o que torna difícil a leitura por quem não conheça minimamente a grafia portuguesa do século XVI. Auxiliam muito os comentários de Max Justo Guedes.

            Para nossos fins, apenas os trechos relativos ao território que denomino, com fins de estudos, de ecorregião de São Tomé (entre as desembocaduras dos rios Itapemirim e Macaé), merecerão atenção. Atualizei as palavras e a grafia para melhor entendimento do leitor. Primeiro, transcrevo os registros de Luís Teixeira antecedidos pelas iniciais LT. Os comentários de Max Justo Guedes são precedidos das iniciais MJG. Minhas observações também vêm precedidas das iniciais AS. Assim, o texto é examinado em três camadas: LT, MJG e AS.  

2 - Escrita de Luís Teixeira

LT. “... a terra tem umas serras muito altas na orla do mar. Todas de arvoredos, a primeira serra destas é uma montanha alta e grossa e, como for ao sul dela, logo lhe verei uma silha ou coisa como esta. E no pico mais alto, ao pé dele para a banda do mar, deste tem outros dois montes e discorrendo para baixo contra o sudoeste está outro monte redondo à orla do mar todos de arvoredos.  E o primeiro monte destes é um monte alto e grosso que estará do dito monte cerca de 3 léguas (quanto à vista pouco mais ou menos). E junto deste monte ao pé há outro monte pequeno agudo. E da outra banda até uma légua há outros dois montinhos pequenos. E toda orla é muito chã e cheia de arvoredos. E estes sinais verei quando quer que estiver os ditos montes ao sudoeste. E esta montanha grande que digo que ficava mais para a banda do nordeste se chama serra de São Tomé. E dos ditos montes para a banda de sudoeste estão muitas serras e montes altos os quais estão na altura de 21º graus largos. E quando estiver tanto avante como os ditos montes olharei para o sudoeste e verei um monte redondo como de trigo, e tem um pico agudo em meio e sai mais ao mar que nenhum outro. E toda esta costa é muito limpa para poder surgir porque é toda parcelada de areia e tem de fundo 25, 30, 40 braças. E poderei chegar à terra até 5, 6, 7, 8 léguas e quando andar de longo da terra andarei uma praia muito grande de areia.”

MJG. “Ao descrever a orografia da região do paralelo 21º S o autor do ‘Roteiro da Ajuda’ enumera tal número de montes e serras que, à primeira vista, parece impossível a identificação. No entanto, a leitura atenta do texto permite, senão a cabal associação dos acidentes descritos aos existentes, ao menos o reconhecimento dos mais conspícuos. Não é difícil identificar a serra de São Tomé com a atual serra do Itapemirim e as ‘muitas serras e montes altos os quais estão em altura de 21º graus largos’ a sudoeste de São Tomé constituem a atual serra de Itabapoana. A ‘Silha ou coisa como esta’, ao sul da que identificamos como ‘do Itapemirim’ é, obviamente, a serra do Pico, entre ela e a costa. Os dois picos, Freira e Frade, devem ter dado ao roteirista, a impressão de ‘silha’. O ‘monte redondo como de trigo com um pico agudo em meio’ que ‘sai ao mar mais que todos os outros’, só pode ser o morro do Agá (332 m) que o ‘RoteiroDHN’ diz ser ‘facilmente reconhecível por sua forma cônica e por se achar isolado junto ao mar’.   

AS. No tempo de Luís Teixeira, ainda não havia precisão em definir coordenadas. Na época de Max Justo Guedes, elas já eram precisas. Talvez tenham ficado mais ainda com os meios eletrônicos, pois, no “Google Earth”, o paralelo 21º S passa pouco ao norte da foz do rio Itapemirim, que tomo como um dos limites do que denomino Ecorregião de São Tomé. Com essa informação, devemos descartar as serras do Itapemirim, do Pico, do Frade e a Freira e o monte Agá, que já ficaram para trás. Ao olhar para o interior, Luís Teixeira divisaria da costa as montanhas esculturais do sul do Espírito Santo e do norte do Rio de Janeiro.

            Confesso não conhecer alguma serra com o nome de Itabapoana. As “serras muito altas na orla do mar” parecem corresponder às falésias de tabuleiros que dominam a costa entre os rios Itapemirim (ES) e Manguinhos (RJ). No século XVI e por muito tempo ainda, toda essa costa era coberta de florestas. Correndo ao largo dessas falésias, o navegante poderia ver serras do cristalino, como a Pedra Lisa, o morro do Baú e o morro do Coco. Quanto à Serra de São Tomé, era o nome dado ao pequeno e baixo maciço do Itaoca, visto por quem passasse pelo cabo de São Tomé. Quando Luís Teixeira produziu seu roteiro, a serra de São Tomé já estava presente na cartografia europeia, correspondendo ao morro do Itaoca. Registro minha estranheza com a localização de Luís Teixeira da serra de São Tomé em ponto tão distante. Minha estranheza é a mesma com relação ao comentário de Guedes, pois Luís Teixeira já contava com uma grande tradição cartográfica. Vários acidentes por ele apenas descritos já estavam batizados.

  

3 - Falésias de tabuleiros no sul do Espírito Santo

LT. “e junto com o monte que sai ao mar mais que todos os outros, há uma ilhota que parece poço sem a ver”.
MJG: “A observação da Carta Brasileira nº 1400 mostra ser ela a ilha do Francês, na extremidade meridional da baía de Benevente, a cerca de 2 milhas da costa e a ela ligada por um baixo.”
AS: Como já assinalamos, Luís Teixeira se refere à costa do mar ao sul do paralelo 21º S, que quase toca a foz do rio Itapemirim. A baía de Benevente ficou para trás a esta altura. Tampouco ele se refere a uma ilha ligada ao continente por um cordão arenoso, fenômeno atualmente conhecido como tombolo, ou seja, uma ilha capturada por uma língua de areia, como a restinga da Marambaia. No século XVI, ela ainda podia estar isolada do continente, ligando-se a ele posteriormente. No paralelo 21º07’ S, num ponto em que um pequeno cabo pouco acima da lagoa das Pitas faz a costa infletir para sudoeste, há um conjunto de ilhas quase a flor do mar que deveriam ser mais aparentes no século XVI, pois que derivadas da erosão das falésias de tabuleiros.
LT. “Da banda do noroeste atrás há outras duas ilhotas de pedra, muito rasas como o mar”.
MJG: “Ainda na mesma Carta Brasileira pode ser feita a identificação. São as ilhas Piúma, no interior da baía de Benevente.

AS: As ilhas mencionadas pelo estudioso estão praticamente encostadas no continente, num ponto muito raso e perigoso para a navegação. No conjunto de ilhotas resultantes de erosão costeira, há algumas que deveriam ser mais visíveis no século XVI. Parece que a dimensão temporal não foi considerada por Guedes. As ilhas de tabuleiros poderiam perfeitamente ser confundidas por pedra.


4 - Ponta do Retiro em São Francisco de Itabapoana. Foto de Wellington Rangel

LT. “E como for lesueste ou esnoroeste desta ilhota maior. E olharei contra o nornoroeste e verei as outras duas pequenas, e se olhar contra oeste, verei um monte afastado um pouco do mar muito alto a pique”
MJG: “O morro Bobo, que aparece nesta posição (levando-se em conta a declinação magnética da época), é o referido pelo roteirista”.
AS: na direção apontada pelo navegante, há um morro com altitudes acima de mil metros.
LT. “... e mais à banda do sudoeste verei uma montanha muito grossa e alta que não se mete entre ela e o mar senão terra chã cheia de arvoredos”.
MJG: “O morro do Garrafão (910 m) satisfaz plenamente a esta descrição, como pode ser verificado na Carta 1400 e no ‘Roteiro – DHN’, pois eleva-se completamente isolado no meio da planície.”
AS. Luís Teixeira deve estar passando na costa da restinga de Marobá, no extremo sul do Espírito Santo. Trata-se da menor restinga da Ecorregião de São Tomé, encravada numa antiga enseada de tabuleiros. No século XVI, devia ser toda coberta de vegetação de restinga, hoje bem reduzida. Na sua ponta sul, desemboca o rio Itabapoana. Luís Teixeira ainda não deve ter alcançado a costa da planície fluviomarinha do norte fluminense. Ao fundo, as elevações no planalto cristalino não têm muita altitude, mas podem ser vistas do mar. Se essa pedra coincidir com o morro do comentarista, o salto dado na análise dele terá sido descomunal.
LT: “... e mais adiante pela costa além do dito monte que sai ao mar, verei um monte muito alto e muito agudo com cerca de 6,7 léguas adiante, e este verei se andar 4 ou 5 léguas da terra o qual monte está em altura de 21° graus e ali fenecem todas as serras grandes que vêm  da banda do nordeste.”
MJG: “Veja-se o ‘Roteiro – DHN’ (I, pág. 360): ‘O morro Baú, grossa montanha de cimo achatado, em cuja escarpa W se eleva um obelisco muito notável, denominado Pedra-Lixa (1.150 m). Este apresenta, principalmente quando a SW, o perfil de um quepe com penacho; aumentando a marcação o penacho desaparece, para só deixar visível uma grossa montanha isolada, ‘que é a última que se vê ao N’” (grifo do comentarista).
AS: Parece que os ponteiros do relógio de Max Justo Guedes estão se regulando aos do meu. Estamos ambos de acordo que se trata da Pedra Lisa, tratada por ele de Pedra-Lixa, talvez pela lisura de seu pico. Se eu estiver certo, Guedes pulou do paralelo 20°50’ para o 21º S. Vim acompanhando Luís Teixeira passo a passo e cheguei, sem nenhum salto, no mesmo ponto em Guedes chegou, ao que parece pulando um grande trecho costeiro.
LT. “... e dali começa outra terra chã que tem alguns montes agudos e altos e dali aparece outra montanha grande e muito alta e grossa que está em 22 graus que se chama a serra de Santo André”.
MJG: “Ao cabo da interrupção que vimos existir após o morro do Baú, inicia-se outra série de serras  que correndo a SW vai se unir às terras altas do Rio de Janeiro; a primeira delas é a serra da Onça, na margem esquerda do rio Paraíba, em sua junção com o Muriaé; tem cerca de 1400 metros de altitude e apresenta três elevações distintas. É isolada e bem característica” (‘Roteiro – DHN’, I, pág. 362). Julgamos ser esta a serra que o ‘Roteiro da Ajuda’ (e só ele, ao que saibamos) chama de Santo André. Segue-se-lhe a serra das Almas, que começa na margem direita do Paraíba e vai se unir à serra dos Órgãos.’
AS. Não tenho dúvida de que a serra das Almas mencionada por Guedes trata-se do primeiro segmento da serra do Mar, que se estende de Santa Catarina à margem direita do rio Paraíba do Sul, nas proximidades da cidade de Campos dos Goytacazes. Serra dos Órgãos é um nome local da Serra do Mar no sul fluminense. No norte fluminense, o nome local é serra do Imbé. Na margem esquerda do rio Paraíba do Sul, as elevações do terreno são baixas. As principais são as serras do Sapateiro, São Luís e Onça. Esta se localiza a 21°31’ S e alcança em torno de 400 m. Concordo com Guedes que ela pode corresponder à serra de Santo André.
LT. “... em que há uma restinga que entra dentro no mar 3 ou 4 léguas e é todo banco de areia e dar-lhe-ei aquele resguardo que me parecer que logo verei na serra de Santo André um pico muito alto como um castelo e este é o melhor conhecimento que se tem. Há muito bom mar para surgir, muito limpo de areias e assim mesmo fica da banda do nordeste uma montanha muito grande e muito grossa com um pico muito agudo e delgado todo. À orla do mar arvoredos de palmas e de outras maneiras de árvores. E defronte desta montanha grossa que se chama de Santo André, há duas ilhotas que aparecem porque estão. E em uma há água. E em outra não.”
MJG. “Veja-se o que diz do famoso banco de São Tomé o ‘Roteiro – DHN’: ‘Ao largo do cabo de São Tomé está situado o banco de São Tomé, alto-fundo de areia que na distância de cerca de 2 milhas da costa, na latitude do farol de São Tomé, desta para e por cerca de 9 milhas, tendo  sua maior largura cerca de 2 milhas. Constituído de areia fina, apresenta alguns cabeços, dos quais o menor, situado na parte W, tem 3,3 metros (I, pág. 362)’. Como vemos, foi notável a precisão do roteirista dos quinhentos, pois orçou em 9,6 a 12,8 milhas (3 a 4 léguas) o comprimento do banco, que tem hoje 9 milhas; deu-lhe, outrossim, a constituição (‘é todo banco de areia’).”

“Diz o ‘Roteiro – DHN’ que na serra das almas já mencionada o ‘pico do Frade... é o único que se destaca da serra de igual elevação; ele tem uma das faces a pique e 1620 metros de altitude (I, pág. 364)’. Cremos que esta descrição do Frade caracteriza perfeitamente o ‘pico muito alto como um castelo do ‘Roteiro da Ajuda’”.
AS. Quanto ao cabo de São Tomé e o banco de areia dentro do mar, que resultou de um longo processo de erosão, Teixeira, Guedes e eu estamos de acordo. Considero estranho que Luís Teixeira não tenha reconhecido o cabo pelo nome, pois ele está assinalado e nomeado na sua carta de 1586. Moacyr Soares Pereira, em “A navegação de 1501 ao Brasil e Américo Vespúcio” (Brasil: ASA Artes Gráficas, 1984), escreve: “Cavério e os outros dois mapas (de Kunstmann II e de Maggiolo) somente consignam uma serra à altura do Cabo de São Tomé atual, no estado (atual) do Rio de Janeiro, a ‘Serra de Sam Tomé’, nome por que logo ficou conhecido o cabo existente no sítio onde a costa sofre brusca inflexão para oeste-sudoeste. Faz sentido que a(s) elevação (ões) vista(s) ao fundo do cabo, no continente, fosse(m) o morro do Itaoca (com cerca de 400 m de altura) e a serra do Imbé, ainda mais distante. Eu não me arriscaria a buscar precisão em Luís Teixeira quanto a essas elevações.  






























5 - Cabo de São Tomé

Quanto às ilhotas, MJG escreve: “São elas as ilhas de Santana, fronteiriças à ponta de Imbitiba, grupo formado por duas ilhas ou três ilhotas, a maior delas com 141 m de altitude a visível a 20 milhas”.
AS. Da minha parte, estranho que Luís Teixeira não tenha identificado pelo nome o arquipélago de Santana, ponto de parada obrigatória de navegadores europeus que se dirigiam a Cabo Frio ou à baía do Rio de Janeiro. Jean de Léry, antes dele, e Gabriel Soares de Sousa descreveram o conjunto de ilhas com bastante precisão. A identificação do pico do Frade parece correta.
LT. “E terei aviso que me não prolongarei da terra ao sul cerca de 3 ou 4 léguas que me pareça da terra em torno de 12 léguas ao mar”.
MJG: “Diz o ‘Roteiro – DHN’, confirmando cabalmente esta advertência do roteirista da Ajuda: ‘do cabo de São Tomé até a ponta de Imbitiba, numa extensão de cerca de 50 milhas, a costa é extremamente baixa e arenosa e tem a direção geral de WSW’. Sendo ‘extremamente baixa’, é lógico que o navegante avisado pareceria estar mais distante.”
AS. De fato, do cabo de São Tomé à ponta de Imbitiba, na foz do rio Macaé, a costa é toda de restinga, numa grande extensão por não haver nenhuma interrupção. Ainda não existia a vala do Furado. Também não se tem certeza de que a lagoa de Carapebus era um rio que mantinha sua barra permanentemente aberta.

            Começamos a análise do “Roteiro da Ajuda”, de Luís Teixeira na foz do rio Itapemirim e a concluímos na foz do rio Macaé, os limites supostamente estabelecidos da Capitania de São Tomé e da ecorregião de São Tomé. E sem dar saltos. E a conclusão é a desconhecimento ou de interesse da costa que se estende do rio Itapemirim ao rio Macaé. Ela era e continua sendo constituída por terras sem portos naturais, como enseadas e fozes protegidas (algo que deveria ser observado pelos construtores dos píeres do canal da Flecha, em Barra do Furado, do Porto do Açu e da praia artificial de Marataízes. Em comparação com as terras da Bahia para o norte e de Cabo Frio para o sul, o trecho costeiro que examinamos não parecia contar com riquezas facilmente encontráveis, como pau-brasil e metais preciosos. Além do mais, pairava sobre ela o mito de que era habitada por índios ferozes. A única experiência de colonização europeia do século XVI foi a de Pero de Gois, sabidamente fracassada.


6 - Baía do Rio de Janeiro (Guanabara) em carta de Luís Teixeira

Militares e inteligência, por Nilson Lage

O professor Nilson Lage publicou em seu perfil no Facebook, uma breve e muito interessante análise sobre a relação entre a política e o papel dos militares, onde a inteligência seria parte estratégica, senão fosse ofuscada pelo presente e cego ódio que colocam o Brasil sob riscos. Nessa linha é lapidar sua posição: "O sectarismo é antiprofissional." Vale conferir.


Militares e inteligência

Não sei por que chamam a espionagem militar de “inteligência”.

Não que a coleta de informações de fontes públicas e sua complementação menos confiável seja ineficiente. Pelo contrário: militares são geralmente bem informados.

O problema é que não tiram as melhores conclusões das informações que têm.

Vejamos: a guerra é a menos inteligente das soluções; armar exércitos justifica-se, no lema clássico, para evitar que elas aconteçam. Superada a mística dos uniformes, a adrenalina das paradas e a exaltação do heroísmo sem causa – tudo isso, na verdade, propaganda enganosa – militares deveriam ser as criaturas mais pacifistas, porque têm melhores condições do que os demais de saber das desgraças que as guerras causam e do pouco que importam na História: não é fato, agora mesmo, que o fascismo renasce na Europa (não só lá, dependente, agora)? E que o patriarca de Moscou não celebra ante Vladimir Putin, ex-KGB?

Se inevitáveis, guerras devem ser rápidas, eficientes e concluídas com sólidos acordos de paz – não “cessação de combates”, como os americanos entendem “peace”, mas no sentido russo de “luz” e “mundo”, ou no entendimento chinês de “destino humano comum”. Em suma, com o mínimo possível de ressentimentos.

Guerras conduzidas com inteligência não podem demorar décadas, como no Afeganistão ou na Síria, nem levar a derrota o exército mais forte, como no Vietname. Não deixam mágoas tamanhas, como no Iraque, nem terra arrasada, como na Líbia, ou, no caso de guerras de infiltração, desastres humanitários, como os que se preveem para o Brasil, em futuro próximo.

As guerras mundiais do Século XX – as quentes e a fria – (na verdade, outras mais antigas, a dos 30 anos, a dos cem anos, as em Cartago, do Peloponeso) foram, na verdade, conflitos políticos entremeados de ações militares, precedidas e, eventualmente, substituídas por demonstrações de força. 

Nessa perspectiva, a operação comandada por Rommel no Norte da África foi uma guerra à parte, abortada por desdém (acho que o Reich fazia pouco dos Estados Unidos, que estariam ameaçados em seu território caso os alemães chegassem a Dacar), tanto quanto a Operação Barbarossa, a invasão alemã da Rússia, temerária em si, iria frustrar-se mais rapidamente por obstinação insensata.

Eis a chave da inteligência: a guerra é um momento da política e toda ação militar é essencialmente uma ação política, isto é, algo apoiado em interesses econômicos, fantasiado com discursos retóricos e conduzido pela máquina do Estado, que deve compromisso à Nação e ao povo.

Modelos de gestão podem ser equivalentes e categorias dadas por exclusivas podem se compor, como no socialismo democrático nórdico europeu ou no capitalismo contido pelo domínio do Partido Comunista, na China. Há um mundo de possibilidades em aberto, e a escolha se faz pela aceitação e a oportunidade.

O sectarismo é antiprofissional.

Os exércitos latino-americanos caíram, por essa via, em uma armadilha ideológica que, omitindo a escolha – portanto, a condição de sujeito – subordina a ação militar a pressupostos arbitrários. Isso explica poque nossos militares não dialogam; têm o comportamento condicionado, em última instância, como o das moscas de Watson.

Militares sujeitos a tais restrições são personas dramáticas. Penso na evolução ideológica de um rígido Ernesto Geisel; ou, antes, em um mais maleável Humberto de Alencar Castelo Branco. 

Alinhado com grupos de intelectuais conservadores, tinha um projeto para o país e, já em setembro de 1964, traçava metas, em carta a seu colega Hélio Ibiapina: “assegurar o funcionamento do Congresso, a coexistência com o Executivo e o Judiciário, garantir o processamento eleitoral, as eleições e a posse do eleito para 31 de janeiro de 1966”. Não cumpriu nenhuma delas e morreu em um conveniente desastre de avião, em 1967, antes de explicar exatamente porque.

sexta-feira, janeiro 11, 2019

Os preços do petróleo estão mais vinculados à especulação e à geopolítica do que à relação entre produção e consumo

Há ainda quem pense que os preços do petróleo tenham relação exclusiva entre oferta (produção) e a demanda (consumo).

Isso não é verdade.

Em outubro, o preço do barril oscilava em torno de US$ 80. Em dezembro chegou a US$ 50. E hoje está em US$ 61.

Por que tamanha flutuação?

O mercado futuro de petróleo ampliou a especulação de preços do mercado dessa commodity.
Hoje há quase o dobro de comércio do petróleo em mercado futuro do que a real circulação dessa commoodity.

Quem ganha mais com isso são as tradings que atuam no setor como a Vitol, Trafigura, Glencore entre outras. 

Todas com sedes em paraísos fiscais e com negócios escusos com gerentes de petroleiras em todo o mundo. Incluindo a Petrobras. 

Bom lembrar que em 2015/2016, no momento de mais baixo preço do barril de petróleo, quando chegou a US$ 27 o barril, a Vitol, a maior do mundo no setor, apurou o seu maior lucro em toda a sua história, mostrando que é a especulação que aumenta os seus lucros e não o preço da commodity

Para entender a relação entre produção e consumo de petróleo em todo o mundo - que tem forte componente geopolítica - veja este gráfico entre 2013 e 2018 com dados sobre a produção e consumo mundial de petróleo, cuja fonte é a AIE (Agência Internacional de Energia) e que foi divulgado em matéria do Nexo Jornal, em junho do ano passado.

Em azul a produção e em vermelho está o consumo mundial em milhões de barris de petróleo por dia.

Essa commodity mexe com o preço de outras commodities porque é responsável pela circulação de todas as mercadorias, inclusive, a própria.

terça-feira, janeiro 08, 2019

A expansão extraordinária do transporte ferroviário na China

A estatal China Railway Corp. anunciou ontem que adicionará 6,8 mil quilômetros de linhas ferroviárias neste ano, um aumento de 40% em relação ao valor adicionado no ano passado. Os planos incluem 3.200 quilômetros de trilhos de alta velocidade.

A decisão tem relação com as demandas de transportes urbanos com a maior densidade populacional nas grandes metrópoles, mas também tem o objetivo de manter a expansão da economia chinesa, nessa época de guerra comercial com os EUA.

A China é o segundo país com a maior malha ferroviária do mundo com 124 mil km de extensão, mas possui a maior extensão em rede ferroviária de alta velocidade do mundo, com 22 mil km, que com a construção de mais 3,2 mil km este ano, ultrapassará os 25 mil km.

As ferrovias de alta-velocidade na China já transportaram hoje, mais de 7 bilhões de passageiros. Pelo planejamento do governo chinês, a extensão total das ferrovias de alta velocidade deverá atingir os 38.000 km até 2025 e 45 mil km em 2030.

A prevalência dos fundos financeiros sobre a poupança no Brasil

Segundo o Banco Central, no final de 2018, o saldo total de investimentos em caderneta de poupança somava R$ 797 bilhões. Um volume que é R$ 17 bilhões a mais que no ano anterior.

Já nos fundos financeiros, o patrimônio líquido supera R$ 4,5 trilhões, R$ 500 bilhões a mais que no ano anterior, segundo a Anbima.

Assim, se observa um volume de investimentos que foi em 2018, nos fundos, quase 6 vezes maior que na poupança.

Tudo isso vai mostrando como os fundos financeiros se tornaram o mais importante instrumento de recolhimento dos excedentes econômicos que circulam na sociedade.

Os investidores e os gestores já intitulam a ferramenta como "indústria dos fundos", atuando através de plataformas, onde se fazem as captações que são hoje amplamente divulgadas. 

Atualmente, as cotas mínimas são muito baixas (R$ 500) e por isso concorrem com a poupança e fazem crer aos seus investidores que eles são capitalistas, enquanto os gestores e administradores decidem onde e quanto investir. 

Por tudo isso, não há como deixar de aprofundar os estudos sobre esse fenômeno que propiciou enorme mobilidade ao capital.

segunda-feira, janeiro 07, 2019

Fiori atualiza sua análise geopolítica

No portal GGN do Nassif, o professor pesquisador José Luiz Fiori, fez uma leitura atualizada da geopolítica e dos seus efeitos na América, em especial a Latina. Vale conferir, por isso o blog republica abaixo.


Geopolítica e Fé 
por José Luís Fiori

While the US government is moving toward a policy of regime change in Venezuela, its action may simply lead to a prolonged standoff. Stratfor Worldview, Daily Brief, Oct, 4, 2018

[Tradução: Enquanto o governo dos EUA se move para mudar a política e o regime na Venezuela, sua ação pode simplesmente levar a um impasse prolongado]. Stratfor Worldview*

Três anos depois do início das sanções econômicas americanas contra a Venezuela, o presidente Donald Trump anunciou, numa entrevista coletiva no estado de New Jersey – concedida no dia 14 de agosto de 2017 – que os EUA poderiam fazer uma ação militar na Venezuela. E um ano depois, no dia 8 de agosto de 2018, o jornal NYT noticiou que, de fato, vários funcionários americanos já haviam se reunido com militares venezuelanos, para promover a derrubada do presidente venezuelano, Nicolás Maduro. Por outro lado, e dentro deste mesmo tabuleiro, no mesmo mês de agosto de 2018, o presidente venezuelano visitou Pequim e recebeu o apoio político e financeiro do presidente Xi Jinping, assinando 28 acordos de cooperação com a China, nas áreas de energia e mineração.

Tais acordos alargam e aprofundam uma relação econômica de mais de uma década, que já superou a casa dos 50 bilhões de dólares emprestados ou investidos em 780 projetos econômicos financiados pelos chineses ou montados em parceria com os venezuelanos. Paralelamente, o presidente Maduro visitou e foi recebido na cidade de Moscou como um “aliado estratégico” da Rússia, com quem assinou acordos de investimento, no valor de R$ 6 bilhões de dólares, destinados aos setores de petróleo e mineração de ouro.

Não há dúvida, no entanto, de que esse “conflito anunciado” mudou de qualidade, no dia 10 de dezembro do ano passado, quando aterrissaram no aeroporto internacional de Caracas dois bombardeiros estratégicos Tu-160, um avião de transporte militar An124 e uma aeronave Il-62, da Força Aeroespacial da Rússia, para participar de exercícios militares conjuntos com as forças venezuelanas. Nesse momento, com toda certeza, a Venezuela mudou de posição no cenário internacional e passou a ocupar outro lugar, muito mais importante, na competição entre as três grandes potências que lutam pelo poder global neste início do século XXI.

Uma disputa aberta e sem fim previsível que se acelerou na segunda década do século, depois da posse de Vladimir Putin e Xi Jinping, em 2012 e 2013, respectivamente, e ainda mais, depois da posse de Donald Trump, em janeiro de 2017. Como todos os analistas já entenderam, Donald Trump abandonou a velha política norte-americana de apoio e promoção ativa de regras e instituições de governança multilateral e adotou, como bússola de sua política externa, o modelo westfaliano de solução dos conflitos mundiais, através da competição e do uso agressivo do poder econômico como arma de guerra, e o uso permanente da ameaça militar para o caso em que as sanções econômicas não funcionem. Trata-se de uma luta sem quartel e sem religião, orientada pelo mesmo nacionalismo econômico da Rússia e da China, e de todos os demais países que têm ainda algum peso no sistema mundial.

O petróleo não é a causa de todos os conflitos do sistema internacional. Não há dúvida, entretanto, de que a grande centralização de poder que está em curso no sistema interestatal também está transformando a permanente luta pela “segurança energética” dos Estados nacionais numa guerra entre as grandes potências pelo controle das novas reservas energéticas que estão sendo descobertas nos últimos anos. Uma guerra que se desenvolve palmo a palmo, e em qualquer canto do mundo, seja no território tropical da África Negra ou nas terras geladas do Círculo Polar Ártico; seja na turbulentas águas da Foz do Amazonas ou na inóspita Península de Kamchatka.

Não há dúvida de que as descobertas mais importantes e promissoras deste início de século foram as areias betuminosas do Canadá, o pré-sal brasileiro e o cinturão do rio Orinoco, na Venezuela. Este transformou a Venezuela na maior reserva de petróleo do mundo, calculada hoje em 300 bilhões de barris, enquanto as areias monazíticas transformaram o Canadá na terceira maior reserva, estimada em 170 bilhões de barris, logo depois da Arábia Saudita, mas muito à frente do Brasil. Este assim mesmo saltou para o décimo-quinto lugar do ranking mundial, com reservas estimadas de 13 milhões de barris¹, 2 sem levar em conta, evidentemente, as estimativas de alguns centros de pesquisa que falam que haveria até 176 bilhões de barris de reserva em todo o “polígono do présal” brasileiro.

Se somarmos a isto o salto da produção americana de petróleo e de gás, nos últimos três ou quatro anos, produzido pelo “fracking boom”, entenderemos por que o continente americano está se transformando no novo grande foco da geopolítica energética mundial. E entenderemos também duas outras coisas: a decisão norteamericana de voltar a ser o maior produtor de petróleo do mundo, e pivot ou controlador – em última instância – dos níveis de produção e preço do mercado mundial de petróleo.

O problema é que agora, do outro lado desta disputa, já não está apenas a OPEP, liderada pela Arábia Saudita, que segue sendo um “Estado-cliente” dos Estados Unidos. Está a Rússia, que é o segundo maior produtor mundial de petróleo, e que está cada vez mais próxima e articulada com a OPEP, e com a própria Arábia Saudita. E está ainda a China, cada vez mais interessada em diversificar e garantir seu fornecimento de energia, impedindo ao mesmo tempo que os Estados Unidos imponham sua supremacia e seu controle sobre o mercado do petróleo, somando-o ao controle que já exercem sobre a moeda de referência internacional.

Tudo indica que essa disputa deverá se acirrar ainda mais no ano de 2019, quando os EUA estarão tentando aumentar a produção mundial de óleo, enquanto a Rússia e a OPEP estarão forçando na direção contrária. Mesmo ano de 2019 no qual, aliás, a OPEP será presidida pela Venezuela, e a Rússia talvez entre na organização com o apoio da Arábia Saudita. Dessa perspectiva, talvez se possa compreender melhor a “ordem unida” que os norte-americanos decidiram impor em seu hemisfério, e o enfrentamento geopolítico e geoeconômico que se anuncia na Venezuela.

Dentro desse quadro de enorme complexidade econômica e geopolítica, soa absolutamente delirante, quase infantil, imaginar que está sendo travada na Venezuela uma batalha em defesa da fé cristã, e dos valores e arquétipos da civilização ocidental. Esse tipo de visão milenarista costuma reaparecer de tempos em tempos, em certas idades, e em alguns momentos da história, mas não costumam chamar atenção nem causar maiores danos coletivos enquanto se mantenham como uma fantasia individual.

No entanto, tudo muda de feição quando esses arroubos milenaristas se transformam numa Cruzada que pode dar lugar a uma guerra insana – neste caso, envolvendo pelo menos três países da América do Sul que não têm a menor experiência, nem a menor competência técnica, logística e psicológica para fazer uma guerra com suas próprias pernas. Em momentos como este, de grande exuberância teológica e entusiasmo salvacionista, é bom lembrar aos cruzados uma velha lição da história, a respeito dessas “guerras santas”, entre pequenos “peões militares” terceirizados pelas grandes potências: depois que começam, elas não costumam ter fim.

José Luís Fiori - Professor titular de Economia Política Internacional, Instituto de Economia, UFRJ; coordenador do GP do CNPq "Poder Global e Geopolítica do capitalismo" e do Laboratório "Ética e poder global", do Nubea/UFRJ. Pesquisador do Instituto e Estudos Estratégicos do Petróleo, Gás e Biocombustíveis (INEEP). Publicou recentemente o livro “Sobre a Guerra” pela Editora Vozes

* Stratfor Worldview é uma plataforma de inteligência geopolítica e editora estadunidense fundada em 1996 em Austin, Texas]

¹ Dados publicados em 1º de janeiro de 2017, no The World Factbook, da Central Intelligence Aghency/ CIA, www.cia.gov/library

sábado, janeiro 05, 2019

Os princípios da resistência democrática no Brasil contemporâneo

O texto do Ion de Andrade aqui, no portal GGN do Nassif, levanta questões importantes para enfrentar a conjuntura que nos trouxe até à quadratura atual.

Mais do que uma frente, há que se organizar temas para a resistência que sustentem os princípios da democracia. Sem ela iremos para a guerra civil que interessa a quem ocupou o poder.

As oposições (sim, no plural, na medida que não há um único projeto) deverão ter alianças táticas na defesa do que é comum. Melhor seria uma única força, mas não há que se ficar desejando o que hoje não é possível.

Evidente que a defesa das condições de trabalho, da previdência e os espaços institucionais é uma das pautas para uma luta comum entre as oposições e devem assim buscar aliados mais amplos.

Por elas é possível construir, na prática, coalizões convergentes para defender a democracia e o garantir o máximo possível do mínimo que chegamos a obter de condições de bem-estar-social.

As coalizões serão tão mais fortes, quanto maior a capacidade de unir grupos com posições distintas a serem acordadas. Progressistas nos diversos campos, alguns líderes religiosos e do setor produtivo que hoje, já se preocupam e questionam o desenrolar atabalhoado do governo eleito.

Alguns já questionam os riscos e começam a querer dialogar. Eles não serão aliados naturais e nem virão dialogar se não houver vontade para tal. Por isso, o espaço a ser construído coletivamente não deverá ser, estrategicamente, para retomar o poder em enfrentamento direto e geral.

Trata-se sim, em ir acumulando forças e resistências com atuação política e coalizões naquilo que é mais essencial e que reúne mais apoios até entre alguns que apoiaram a candidatura vencedora.

Há algumas pistas. Hoje, o Datafolha divulgou pesquisa mostrando que 60% dos brasileiros rejeitam as privatizações e 57% são contra o fim dos direitos trabalhistas contidos na CLT. Uma pauta de luta diversa daquela que ganhou a eleição, mas não a posição da maioria.

A estimativa é de uma atuação com perspectivas de prazo mais longo e de alianças mais amplas, sem a qual, as oposições se manterão isoladas. Porém, como dizia o poeta espanhol Antonio Machado, é caminhando que se traça o caminho.

Enfim, nessa direção, eu penso que o texto do Ion de Andrade tece alguns exemplos, para uma linha de atuação das oposições que, após a assunção do governo eleito - e diante de suas primeiras e fortes debilidades - nos mostra a necessidade de ir além das opiniões individuais nas redes sociais.


Por uma ação robusta do campo democrático, por Ion de Andrade

Sem querer desmerecer o humor político, a guerra de memes é tudo menos construtiva nesse período de sombras, muitas vezes resvala para a expressão de baixezas que não servem para nada mais do que para aumentar os ódios que já tornam irrespirável o Brasil atual.

Agregue-se a isso que já há quem recomende o uso de fakenews pelo campo progressista...

Na verdade todo esse movimento exprime uma perplexidade sobre como enfrentar os desafios postos pelo Poder político que se consolidou em Brasília.

Recentemente o governador do Ceará, Camilo Santana, com razão, sinalizou, a um Bolsonaro que não se considerou presidente para os estados do Nordeste, com uma ideia que aponta para uma nova realidade à qual teremos todos que nos submeter: a campanha acabou e os eleitos têm a obrigação de portar-se com a devida responsabilidade ante os interesses da população. Portanto, e corretamente, Camilo Santana evocou a bandeira do republicanismo (sim, exatamente) como alerta quanto a derrapagens institucionais autoritárias.

Além da governança republicana, desenha-se também uma outra importante luta institucional tocante à garantia da permanência da Justiça do Trabalho como garantidora, num país ainda tão marcado pelas injustiças e assimetrias sociais, pelo menos, de alguma proteção aos direitos dos mais vulneráveis. Outras batalhas em torno de direitos consolidados na Constituição, basilares para a democracia, como o direito de associação, ou como a Reforma da Previdência, dentre outros, estarão muito em breve na ordem do dia.

Não será com memes que essas batalhas serão vencidas. Ao contrário, será com políticas capazes de unir sob um mesmo teto organizações bem diferentes umas das outras, de aparar divergências e alergias recíprocas para garantir aquela dada conquista social ou democrática ameaçada naquela quadra.

A frente que defenderá a Justiça do Trabalho será, provavelmente, diferente da que defenderá a Previdência Social, ou da que exigirá ao menos um plebiscito para a decisão definitiva quanto ao porte de armas, o que cobrará capacidade ampla de diálogo. Não nos esqueçamos de outro fato emblemático, que poderíamos também classificar aqui, desse tipo de enfrentamento em defesa da democracia, que foi a vitória no STF do princípio da autonomia e da liberdade nas universidades perante forças político-judiciais que já salivavam ante a possibilidade de invadir os campi universitários e de prender professores e estudantes por serem, por exemplo, contra o fascismo.

Será preciso também demonstrar ao governo que não somente o mundo árabe tem Poder sobre a balança comercial e os negócios do Brasil, tornando difícil a transferência da embaixada brasileira para Jerusalém. Outros temas polêmicos, tais como, por exemplo, o do afrouxamento do controle do trabalho escravo podem vir a ser coroados por retaliações comerciais por organizações de consumidores em conexão com os setores diretamente prejudicados no Brasil em seus direitos fundamentais. O mesmo raciocínio e as mesmas conseqüências poderiam advir da estratégia de baratear os preços dos produtos brasileiros à exportação não por ganhos de produtividade pelo incremento da mecanização ou da informatização, mas pelo achatamento agressivo de um salário mínimo já quase quatro vezes menor do que o que o DIEESE calcula como necessário a cada ano...

Não podemos empobrecer o nosso repertório de lutas apenas às manifestações de rua ou às greves gerais, mas devemos saber conjugar essas importantes ferramentas, que deveriam estar reservadas à expressão de temas estratégicos e amplos, com as demais outras que incluem responsabilidade institucional exercida e cobrada ou o diálogo e articulação com amplos setores da sociedade no Brasil e no exterior para construir os contrapesos. Não se trata de preconceitos, se trata de utilizar com competência a melhor ferramenta possível para cada momento dado.

Tudo isso deve ser feito sob a égide do que está previsto na Constituição (que defendemos) a menos que a Carta Magna tenha sido desfigurada ao ponto de mergulhar o país num cenário de perda geral da democracia política, que inclui de forma proeminente o livre direito de expressão e de associação e a garantia dos direitos e prerrogativas individuais e coletivos.

Portanto, o que se deve ter em vista é a formação de contrapesos de grande magnitude, ancorados em consensos largos e numa robusta vontade coletiva. Essa é que é a tarefa estratégica que está dada, não para impedir o governo de governar, mas para defender aquilo que é de grande importância aos olhos do campo democrático, em nome do direito constitucional ao exercício da oposição política. Isso servirá em primeiríssimo lugar a garantir o teatro de operações onde se dá o jogo político, o “Estado de direito”, que é como teimosamente denominamos um estado de coisas que ainda se remete, respeita e jura a Constituição de 88.

PS.: Atualização às 20:27: Para acrescentar um parágrafo nos comentários que apresenta o texto do Ion de Andrade.