sexta-feira, setembro 04, 2015

O bicentenário da expedição científica de Maximiliano de Wied-Neuwied - II

O historiador e ecologista Aristides Soffiati segue com o segundo artigo da série de seis, sobre a expedição científica do alemão Maximiliano de Wied-Neuwied - II. O primeiro texto foi publicado aqui no blog, no dia 2 de setembro.

O bicentenário da expedição científica de Maximiliano de Wied-Neuwied - II

De Macaé a Campos

Arthur Soffiati

Partindo do Rio de Janeiro rumo a Salvador, a expedição científica organizada por Maximiliano de Wied-Neuwied passou por Cabo Frio e chegou a Macaé em setembro de 1815, há exatamente duzentos anos. O naturalista escreve em seu diário, "Viagem ao Brasil" (Belo Horizonte/São Paulo: Itatiaia, Edusp, 1989), que "A pequena vila de S. João de Macaé se estende entre capoeiras, às margens do rio, que forma, na foz, uma curva em torno de uma ponta saliente de terra." Ele registrou o tipo das casas, acachapadas, limpas, bonitas, de barro, pau a pique, rebocadas de branco. Quintais cercados para o plantio de mandioca, feijão, milho, arroz e um pouco de cana e a criação de cabras, porcos e aves de diversas espécies. Nas fazendas, a agropecuária era também praticada. Notou também a exportação de madeiras por navios costeiros, sumacas e lanchas. Madeira indica desmatamento, prática denunciada por Auguste de Saint-Hilaire, em 1818, no mesmo lugar.

Maximiliano chamou atenção para a presença de índios guarulhos na famosa Freguesia de Nossa Senhora da Neves, Rio Macaé acima. Conhecer índios ainda pouco aculturados era um dos objetivos do príncipe, mas ele não se dispôs a subir o rio. Nos seus planos, estava a intenção de visitar a redução indígena de São Fidélis.

Coletando plantas, a expedição partiu de Macaé rumo a Campos, quase repetindo o trajeto empreendido pelos Sete Capitães em 1632. Adiante de Macaé, foram vistas capoeiras e florestas até a fazenda do Barreto. As trilhas da floresta eram sombrias. Maximiliano devia estar cruzando a mata de restinga, experiência que ele já vivera nas florestas marginais ao Rio São João. Os integrantes mais populares da expedição encontraram dois botequins nos arredores da sede da Fazenda Barreto e se envolveram em brigas. Maximiliano teve de partir depressa do local.

Daí até Campos, a viagem rende muitos frutos para o naturalista, mas a expedição enfrenta problemas. Um deles é a dificuldade de marchar na areia perto da costa, problema já notado dois século antes pelos Sete Capitães. Maximiliano anota em seu diário: "A viagem para o norte, ao longo da praia, é fatigante, em parte na areia solta."

Contudo, embora mais interessado em aves, o príncipe se encanta com as mimosas, com as bignônias, com as cássias e outras árvores. Percebe que, apesar de solitário, o terreno já era cultivado com coco, mandioca e palmito, avistando também marcas acentuadas de queimadas. Ele encontra uma espécie vegetal ainda não descrita, a que batiza com o nome científico de Andromeda coccinea.

Em meio ao descampado, a expedição topa com ruínas de um grande prédio, evidenciando a existência de lugares mais prósperos no passado. Muitas são as aves avistadas por ele, entre elas o urubu, papagaios maracanãs, periquitos, tucanos, gavião pomba, papa-ostra, pega do mar, piru-piru, caburé, sabiá-da-praia.

Nesse trecho difícil de ser percorrido, o vento violento vindo do mar para o interior não permitia o desenvolvimento de árvores, mas apenas de vegetação arbustiva, como ainda hoje se observa nas restingas da Ecorregião de São Tomé, onde medra o cacto e o tucum das várzeas. No século XX, o botânico campista de renome internacional, Alberto José de Sampaio, definiu as zonas de vegetação das restingas da Ecorregião de São Tomé. A limitação ao desenvolvimento da vegetação nativa até hoje são os fortes ventos e a salinidade do ar. Na primeira zona, logo depois das praias, as plantas crescem rasteiras. Numa zona intermediária, a vegetação adquire o porte arbustivo. Só nos locais mais afastados da costa, as plantas assumem caráter arbóreo.

Na Lagoa Paulista, a expedição encontrou um pastor solitário e a lagartixa de parede, originária da África e muito bem adaptada no Brasil. É um réptil muito comum nas paredes de casas urbana ainda hoje. Daí em diante, os integrantes da comitiva encontraram dunas e, nas sempre elegantes palavras de Maximiliano, "Extensos paludes e lagoas, cobertos de caniçais, onde pastavam bois e cavalos, por vezes em grande número, afundados até o ventre". É o que se conhecia como gado do vento, parecendo não ter dono.

Saudoso e orgulhoso da Europa, ele descreve: "Essa vasta planura, coberta de matagal, é habitada por manadas de bois, entregues a si próprias, mesmo à distância de vinte ou vinte e cinco milhas de qualquer morada humana. Uma ou duas vezes no ano, conduzem-nas os donos, proprietários das fazendas próximas, a um curral, ou recinto de estacas, onde são contadas e marcadas. Fizemos pouso essa noite no chamado Curral de Ubatuba, a cinco léguas de Paulista, numa espaçosa cabana de barro, situada para dentro da cerca. A região circunvizinha é uma vasta planície que excede o alcance da vista."

E exclama: "É sem dúvida admirável que esse útil animal pela extraordinária atividade e o cuidado dos europeus, já se encontre na maior parte do globo. No norte, o boi pasta nas frígidas florestas de bétula; na zona temperada, nos nossos aprazíveis vales relvosos, entre matas sombrias de faias; nos trópicos, sob palmeiras e bananeiras; nas ilhas dos mares do Sul, debaixo das Melaleuca, Metrosideros e Casuarina. Indispensável ao homem civilizado, o boi, multiplicando-se por toda parte, engrandece-lhe a riqueza e a prosperidade."

Além da areia fofa e difícil de trilhar, o segundo problema encontrado pela expedição foi o bicho-de-pé. Os habitantes da região já estavam acostumados com ele e nem reclamavam dos incômodos que sofriam. Para o estrangeiro, contudo, o bicho-de-pé era um tormento. Todos os naturalistas que estudaram o Brasil foram acometidos por ele e se queixaram. Não foi diferente com Maximiliano, mais propenso a se extasiar com a paisagem, com os animais e com as pessoas. Ele pouco reclama das dificuldades, encarando-as como inerentes aos seus objetivos. Também não manifesta repulsa aos lugares visitados e tampouco se lamenta por estar num ambiente hostil, longe do seu confortável castelo na Alemanha. Com relação ao bicho-de-pé, a atitude de Maximiliano é a mesma da de Guilherme Piso, em 1648: observar e descrever, como um cientista distanciado. A diferença é que Piso não foi atacado por ele, e o príncipe sim. Em suas palavras de analista:

"Na casa triste e arruinada, onde a chuva entrava pelo teto, pouco repouso tivemos nas redes que armamos, porque uma infinidade de pulgas não nos deu trégua, além de uma multidão de bichos-de-pé, dos quais, no dia seguinte, tiramos um número incrível dos pés. Esse inseto, sobretudo comum em todas as casas vazias das regiões arenosas, penetra entre a pele e a carne da planta dos pés e dos artelhos, e muitas vezes mesmo sob as unhas dos dedos. Dizer-se, como se ouve algumas vezes, que ele penetra no próprio músculo, é exagero; localiza-se sempre entre a pele e a carne, apenas. Violenta comichão torna-lhe logo sensível a presença, transformando-se, depois, em leve dor; é aconselhável, portanto, tirá-lo imediatamente com uma agulha, sem lesar-lhe o corpo, que é como uma vesícula cheia de ovos. Para evitar a inflamação, é bom friccionar a picada com pó de tabaco ou unguentum basilicum, vendido pelos farmacêuticos brasileiros."

A comitiva prosseguiu viagem rumo a Campos. Depois da Lagoa Paulista, o naturalista chegou à Lagoa de Ubatuba, relatando que, "Ao norte de Ubatuba, a planície se entremeia de extensas lagoas, pouso de inumeráveis patos, garças e outras aves aquáticas e palustres; as espécies peculiares à região podem estudar-se nesse lugar, com particular facilidade. As lagoas eram divididas por molhes cobertas de mato, constantemente procuradas por aves de rapina, das quais caçamos algumas " A descrição corresponde à realidade da região, povoada de lagoas, como já figura no mapa de Arrowsmith, que lhe serve de orientação. A diferença é que, naquela época, as lagoas eram mais numerosas e sadias. Ainda assim, o ornitólogo Davi Tavares, estudioso de aves migratórias que frequentam essas lagoas, concordaria com as palavras de Maximiliano.

Sobre Barra do Furado e Lagoa Feia, ele escreve: "A cinco léguas de Ubatuba, há um lugar chamado Barra do Furado, onde a lagoa Feia se lança ao mar, como está corretamente registrado no mapa de Arrowsmith (...) A Lagoa Feia divide-se em duas partes, ligadas por um canal; a sua configuração não está rigorosamente inscrita em seu mapa, porque apenas a atravessei e não lhe pude abranger toda a superfície. De acordo com a Corografia Brasílica a parte norte tem cerca de seis léguas de comprimento de este a oeste, e perto de quatro léguas de largura; a parte sul, cinco léguas de comprimento e uma e meia de largura. Peixe abundante, água doce. A extensa superfície é geralmente agitada pelo vento e, por isso, quase sempre perigosa para canoas; não dá calado a embarcações maiores. A Barra do Furado seca nos períodos em que o nível da água baixa. Toda a região é recortada, ao longo da costa, de numerosos lagos, muitos dos quais omitidos no mapa. Com tal abundância d'água e a fertilidade do solo, cedo se tornaria uma das zonas mais produtivas do país, caso a habilitasse um povo mais ativo e laborioso."





















Figura 1- A Lagoa Feia no mapa de Arrowsmith. Notar a profusão de lagoas nos arredores dela

A Vala do Furado foi a primeira grande obra de drenagem realizada na Ecorregião de São Tomé. Lidando com as enchentes anuais, o Capitão José de Barcelos Machado, um dos herdeiros dos Sete Capitães, notou que o Rio Iguaçu, defluente natural da Lagoa Feia, corria perto da costa. Para acelerar, então, a drenagem das águas acumuladas pelas chuvas em suas terras, ele decidiu rasgar uma vala do Rio Iguaçu para o mar, em 1688. De fato, a drenagem tornou-se mais veloz. Porém, rapidamente o mar bravio da costa tapava sua barra. Daí em diante, só abertura do Canal da Flecha, entre 1942 e 1949, substituirá a Vala do Furado, mas enfrentando os mesmos problemas de força das correntes marinhas. O mapa de Arrowsmith não era então o mais fiel. A cartografia já avançara mais na Capitania do Rio de Janeiro depois do capitão cartógrafo Manoel Martins do Couto Reis. Contudo, Maximiliano necessitava de um mapa que o guiasse entre Rio de Janeiro e Salvador, cruzando três capitanias da colônia.

Fica claro que os apontamentos feitos pelo naturalista em sua viagem foram complementados por pesquisa de gabinete quando de sua volta à Alemanha, pois Corografia Brasílica, de Manoel Aires de Casal só seria publicada em 1817. Outros livros editados posteriormente à expedição também serão consultados para dar mais consistência à Viagem ao Brasil. A descrição da Lagoa Feia também é primorosa.

Em direção ao Rio Bragança que, nascendo na Lagoa Feia, contribuía para a formação do extinto Rio Iguaçu, a expedição encontrou duas humildes cabanas de pescadores. Nos arredores, havia cinco ou seis soldados para coibir contrabando de diamantes de Minas Gerais. Todos eles andavam descalços e maltrapilhos, vivendo da pesca.





Figura 2- Cabanas de pescadores pobres nas margens do Rio Bragança, nas imediações da Lagoa Feia. Paisagem desenhada dentro da concepção do romantismo incluída na primeira 1ª edição de "Reise nach Bresilien" ("Viagem ao Brasil"), de 1820


Nesta altura, Maximiliano faz considerações sobre o uso do fumo pelos pobres no Brasil e sobre sua hospitalidade. Ele crê que tal qualidade decorre do catolicismo. Uma nota de rodapé assinada por Olivério Pinto informa que, no Rio Bragança, Maximiliano coletou o único exemplar de socozinho vermelho (Ixobrychos exuis erythromelas) em toda a sua viagem. Até a solitária igreja de Santo Amaro, hoje bastante procurada no dia do seu padroeiro, a expedição enfrentou alagadiços e chuvas abundantes. Daí em diante, Maximiliano diz que as imensas e verdejantes campinas (Planície dos Goitacás) estendiam-se a seus pés até o Rio Paraíba do Sul. Foram estes campos que maravilharam os Sete Capitães no século XVII e deram nome à cidade de Campos. Assim como os Sete Capitães, o príncipe vaticinou que essas imensas campinas eram excelentes pastos.

Antes de alcançar Campos, o grupo pousou no Convento de São Bento. Maximiliano informou que os beneditinos do prédio contavam com 50 escravos e um engenho de açúcar, além de cavalos, bois e currais em suas cercanias. O costume dos locais que chamou a atenção do príncipe foi usar esporas nos pés descalços. Ao longo da estrada de terra em direção a Campos, as casas se tornavam mais numerosas. Sabemos que esse caminho de terra, em suas origens, seguia o Córrego do Cula, que derivava do Rio Paraíba em direção à Baixada, integrando seu delta. Posteriormente, a ferrovia seguiu essa rota. Atualmente, em seu lugar, estende-se a rodovia RJ-216 ou Campos-Farol.

Embora já existisse nesse trecho um comércio rudimentar, Maximiliano percebe claramente uma das astúcias da economia de mercado: a falsa cordialidade para atrair fregueses. "Ao longo de todo o caminho, o viajante encontra vendas, cujos proprietários cumprimentam delicadamente os transeuntes, convidando-os a entrar, portanto, a esvaziar seus bolsos."

De tal forma Campos impressiona Maximiliano que suas anotações serão assunto do próximo artigo.

Um comentário:

Renato castilhos disse...

Ótimo conhecer mais um pouco do meu passado.