quarta-feira, janeiro 13, 2021

Os governadores precisam agir contra a 2ª onda da Covid no Brasil e ir além da inconsequente disputa pela vacina

A insana e inconsequente guerra política pela vacina no Brasil está impedindo enxergar que mesmo com o início da vacinação (para fotos de Bolsonaro e/ou Dória), ela não impedirá que os estados decidam por novos lockdowns (parciais e/ou totais) no país.

Já se sabe que a segunda onda está sendo muito mais veloz e violenta que a primeira nos EUA e Europa. O Reino Unido já faz vacinação há mais de um mês, e, ainda assim, há mais de uma semana decretou seu 3º lockdown, que vai durar pelo menos até meados de fevereiro. Ainda assim, ontem o Reino Unido bateu o recorde desde o início da pandemia com 1.564 mortos. Também ontem os EUA teve o triste recorde de 4.327 mortos por Covid num único dia.

Na primeira onda da pandemia no Brasil, foram os governadores que puxaram a prevenção que salvaram milhares de vidas. De lá para cá, pressionados por cima pelo desgoverno Bolsonaro e por baixo pelos prefeitos, preocupados com suas reeleições, os cuidados dos governadores foram sendo, paulatinamente, suspensos.

Tenho dúvidas se hoje conseguiriam convencer sobre a necessidade de ampliar o isolamento social, mesmo com a tendência quase certa do agravamento da situação em quase todo o Brasil, de forma diversa do que ocorreu na primeira onda lá em abril e maio.

Num país sem governo, tudo vai se transformando num salve-se quem puder, em meio à briga política pela vacina, que é super bem-vinda e necessária, mas não produz os efeitos, em termos coletivos, em prazo curto.

Por isso, as discussões atraídas pela politicagem são indevidas, se o o objetivo for cuidar das pessoas. Os genocidas nunca farão isso. Tem-se aí mais uma responsabilidade histórica.

segunda-feira, janeiro 11, 2021

Fundos financeiros batem todos os recordes no Brasil e atingem R$ 6 trilhões de patrimônio no ano da pandemia

Enquanto se tem notícia do fechamento da Ford, demissão de milhares de bancários e fechamento de quase mil pontos de atendimentos no Banco do Brasil, em um país que já tinha mais de 15 milhões de desempregos, o setor financeiro não para de crescer e acumular rendimentos e lucros.

Com os números fechados do ano de 2020 da Anbima, os fundos financeiros conseguiram fechar o trágico ano de 2020, com um patrimônio líquido de R$ 6 trilhões, superior em mais de 10% o já muito alto patrimônio dos fundos financeiros no ano passado.


Nos últimos doze anos, o patrimônio dos fundos mais que triplicaram de R$ 1,9 trilhão para R$ 6 trilhões e cada vez controlam mais empresas (e ativos) em diferentes setores da economia. Em especial, estão nos últimos quatro anos adquirindo a preço de xepa o controle acionário das empresas estatais que estão sendo privatizadas.

Com R$ 6 trilhões de patrimônio líquido, os fundos financeiros já passaram de 80% de todo o PIB do Brasil, embora seja uma comparação meio indevida, porque o PIB é renda e anual, enquanto o valor do patrimônio dos fundos é valor de mercado, portanto em capital fictício.

Assim, os investidores dos fundos financeiros vão conduzindo a enorme extração de valor da produção real nesta escalada da hegemonia financeira do capitalismo contemporâneo. Tudo isso num nível que caminha para esgarçar o sistema e se torna um dos elementos que ajudam a explicar o porquê das bolsas de valores, o mercado de capitais e os fundos financeiros fazem sucesso e batem recordes, se desgarrando cada vez mais da economia real, onde a população trabalhadora que produz a riqueza sofre.

quarta-feira, janeiro 06, 2021

Negócios no setor de gás do fundo americano EIG que controla a Prumo e o Porto do Açu

O fundo financeiro americano EIG, que controla a holding Prumo e o Porto do Açu, decidiu vender sua participação de 27,5% no gasoduto Bolívia-Brasil (TBG) para investir em projetos de gasodutos que ligam o terminal portuário do Açu a outras conexões ligadas à bacia de Campos. Um ramal do gasoduto Gascav que liga Macaé a Vitória do projeto Gasog (46Km) e outro do projeto Gasinf (105 km) que ligaria o Açu a Macaé (Cabiúnas com 105 km).

Historicamente, vale lembrar que o fundo americano EIG assumiu em 2013, os ativos da antiga LLX que depois passou a ser chamada de Prumo, quando da derrocada de Eike e se transformou numa holding (grupo) que controla e é sócia de diversos negócios e empresas sediados no Porto do Açu, para além dos dois terminais portuários. 

Hoje o fundo americano EIG detém 76% da Prumo e outros 24% é controlado pelo fundo árabe Mubadala que avançou na participação acionária inicial, a partir das das dívidas das empresas de Eike (grupo EBX) com o fundo.
 
Assim, o fundo americano EIG entra e aproveita as facilidades geradas pela privatização dos gasodutos e o tal "novo marco legal do gás" Outro projeto anunciado pelo fundo americano é para um ramal de gasoduto offshore que traria o gás abundante do pré-sal para alimentar sua UTE (Termelétrica GNA) e outros projetos que demandariam esse insumo no Distrito Industrial.

Neste processo não é difícil identificar que o EIG está de olho nos gasodutos já instalados chamados de Rota (1,2 e 3), em especial o Rota 2 que liga a Bacia de Santos a Cabiúnas em Macaé.
 
Tudo isso confirma, o que comentei lá atrás quando previ que os fundos financeiros avançariam para todos os ativos que eram da Petrobras, em especial os de infraestrutura como terminais portuários, termelétricas e gasodutos.
 
Esse processo começou quando em 2016, o fundo financeiro canadense comprou a rede de gasodutos de cerca de 2,5 mil km, Nova Transportadora Sudeste, por US$ 5,2 bilhões. E logo depois o fundo também canadense CDPQ e a belgo-francesa Engie ficou com a rede de gasodutos da TAG (Transportadora Associada de Gás), a maior do Brasil com cerca de 9 mil km por US$ 8,6 bilhões.

Essas malhas de gasodutos são aquelas que esses fundos que adquiriam faturam em 18 meses meses de tarifas, o valor pago por todo o ativo que segue sendo operado pela Petrobras.

terça-feira, janeiro 05, 2021

China tenta impedir que a dominação tecnológica amplie a hegemonia financeira global a partir de suas Big Techs: Alibaba e Tencent

Há várias razões para se compreender a decisão regulatória tardia do governo chinês sobre a megacorporação chinesa do grupo Alibaba desde outubro, quando foi suspenso a autorização para o lançamento de ações (IPO) que seria o maior da história do mundo, estimado em quase US$ 40 bilhões. [1]

A partir desta decisão, o Ocidente de forma geral, passou a acusar Xi-Jiping de arbitrariedade econômica do partido único chinês, que inclusive já ganhou o apelido de Xi-nomics. Porém, o fato é que a Comissão de Regulação de bancos e Seguros da China e mesmo o Banco Central perceberam os imensos riscos de deixar que a dominação tecnológica avançasse para a hegemonia financeira controlada até aqui pelos bancos estatais chineses.

Controles e regulações similares sobre as corporações tecnológicas têm sido acenadas pela UE e pelos EUA, mas ainda se encontram circunscritos aos debates legislativos e judiciários, sem decisões finais que acabam envoltas em pressões e lobbies poderosos.

No meu livro sobre “A ´indústria´ dos fundos financeiros: potência, estratégias e mobilidade no capitalismo contemporâneo” eu abordo de passagem (p.166), um relatório do FSB (Financial Stability Board, órgão de finanças do G-20), em 2018, cujo título é "FinTech and market structure in financial services: Market developments and potencial financial stability implications" que trata dos riscos inerentes à capacidade de atuação das Big Techs sobre o setor financeiro a nível global. [2] [3]

Outros relatórios posteriores foram divulgados pelo FSB, ampliando as preocupações, num contexto, que já considerava a ampliação do uso de tecnologias digitais e plataformas informacionais (Inteligência Artificial, Big Datas, algoritmos, robôs de mineração, etc.) no sistema financeiro, que cresciam com as fintechs, à margem do chamado sistema financeiro existente (privado e/ou estatal). A FSB insistia para o G-20 que esses riscos seriam razões urgentes de intervenções contra a explosão do sistema. Assim, se percebe que é nessa linha que a China resolveu agir para proteger seu sistema econômico, contra esse monopólio com poder de ação sobre todos os demais setores econômicos (frações do capital).

O capitalismo de estado chinês permitiu a liberdade de ação e de competição de mercado entre corporações dentro de seu planejamento (ou planificação, como queiram chamar). No caso das corporações de tecnologia (suas Big Techs) esse avanço nos últimos anos (em especial última década) foi colossal e, de certa forma, até superior ao que se vê na dominação das cinco Big Techs americanas com ação sobre todo o Ocidente e parte do Oriente.

Neste percurso, no final de 2019, as holdings chinesas Alibaba e a Tencent alcançaram um valor de mercado superior a US$ 700 bilhões cada uma delas que atuam em áreas distintas e complementares, desde o comércio de varejo e às redes sociais, jogos, etc. porém, ambas com atuação crescentes e ampliadas nos serviços financeiros e meios de pagamento.

As empresas AliPay da Alibaba e o We Chat Pay da Tencent oferecem empréstimos, corretagens, vendem seguros de todos os tipos e articulam fluxos financeiros os mais variados possíveis, a partir do uso dos meios de pagamentos que desenvolveram e que hoje atende a mais de 700 milhões de chineses. Estes mecanismos de pagamentos geram fluxos financeiros que superam ao usos de cartões de crédito no ocidente. Cartões que na China não chegaram a ser usados de forma maciça, sendo logo superados por estes meios de pagamento digitais móveis usados até para gorjetas e esmolas nas ruas.

Assim, com a enorme capilaridade que as plataformas destas corporações de tecnologia chinesas conquistaram junto aos seus usuários, a partir da captura dos dados e da tecnologia dos algoritmos (IA), que se alimentam das informações sobre os interesses e as rendas dos clientes, foi se efetuando essa potente aliança entre a dominação tecnológica e as centenas de mecanismos financeiros espalhados globalmente.

Tudo isso, foi potencializando os riscos, que tanto o FSB (G-20) quanto as autoridades chinesas foram percebendo, na medida em que o setor da finanças perpassa todos os demais setores da economia, ao exercer uma hegemonia que cada vez é mais evidente no capitalismo contemporâneo.

É preciso compreender claramente que não há como analisar a dominação tecnológica das plataformas digitais (plataformismo), sem observar as relações e o processo que reforça a hegemonia financeira na dinâmica contemporânea. Essa articulação une a reestruturação produtiva a um modo de produção capitalista de base monopolista, que amplia a utilização do sistema informacional e financeiro transfronteiriço e desregulado.

É disto que trata a disputa que se vê na geopolítica cibernética atual. A disputa pelo poder tecnológico que se desenvolve em várias dimensões. O uso exponencial e quase total das plataformas digitais traz repercussões para além da dimensão econômica e passa pela política e geopolítica. A dimensão economia é onde se tem a extração de valor do trabalho que sofre enorme precarização e à captura da riqueza pelo setor dominante da tecnologia e seus controladores. Assim, digitalização e financeirização andam juntas.

Neste processo se vive hoje também o que chamo de “startupização” com inúmeras empresas-plataformas criadas em incubadoras e universidades. Essas startups são depois adquiridas e/ou controladas por fundos financeiros criados exclusivamente para ficar com as ideias-negócios que já passaram pelo teste e crivo do mercado. Assim, os donos dos dinheiros (investidores) reduzem os riscos de empreender e ainda capturam a mais valia do trabalho dos jovens mais qualificados e recém formados.

Só no Brasil em uma década (2011-2020) o número de startups cresceu vinte vezes. No Brasil da depressão (entre 2018 a 2020), os fundos financeiros captaram e investiram cerca de US$ 7,5 bilhões nas startups em diferentes classes de aplicação e controle acionário. Só no desastroso 2020, ano da pandemia, foram fechados 450 contratos de investimentos em startups com aporte de US$ 3,1 bilhões (R$ 16 bilhões), cerca de metade destes recursos alocados, exatamente, para criação e desenvolvimento das fintechs (startups financeiras). [4]

Porém, a digitalização dos negócios e a plataformização vai muito além da dimensão econômica. Hoje já é conhecida a enorme manipulação que as plataformas digitais exercem na política, através do uso expansivo das redes socais, que hoje já é acessível a quase metade da população do planeta, mas por quase todas as pessoas dos países considerados desenvolvidos, embora com ainda enorme desigualdades.

Neste cenário é natural que os Estados-nações busquem se proteger, com todas as limitações e interesses que estão embutidos nos Estados, sejam os controlados diretamente pelos mercados, seja pelas experiências de modelos híbridos do capitalismo de Estado ou socialismo de mercado.


Referências:

[1] CAMPOS, José Roberto. Negócios da China. Artigo Valor, 04 jan. 2020. Disponível em: https://valor.globo.com/opiniao/coluna/negocios-da-china.ghtml

[2] PESSANHA, Roberto M. A ‘indústria’ dos fundos financeiros: potência, estratégias e mobilidade no capitalismo contemporâneo. Rio de Janeiro: Consequência, 2019.

[3] Relatório publicado em 14 fev. 2018 pela FSB. FinTech and market structure in financial services: Market developments and potential financial stability implications [FinTech e es- trutura de mercado em serviços financeiros: evolução do mercado e possíveis implicações para a estabilidade financeira]. Disponível em: http://www.fsb.org/wp-content/uploads/ P140219.pdf

[4] MATSUURA, Sérgio. Apetite para o risco: após captação recorde de US$ 3,1 bi em 2020, start-ups segue a mira dos investidores. Matéria em O Globo 4 jan. 2021, p. 21.

sexta-feira, janeiro 01, 2021

A palavra e o ser: a literatura como parte essencial da vida

Em especial dois livros de literatura me marcaram, em diferentes períodos. O primeiro foi do poeta chileno Pablo Neruda, que li aos vinte anos “Para nascer, nasci”. Outro da escritora espanhola, Rosa Montero, “A louca da casa” que li há quase duas décadas depois, em torno dos meus quarenta anos, logo após o livro ter sido lançado.

A relação de proximidade com ambos autores da língua espanhola, deve ter relação com as narrativas literárias da vida dos dois. Uma relação de ficção com laços de autobiografia, em que Montero lembra Barthes, quando este afirmou que “toda autobiografia é ficcional e toda ficção é autobiográfica”.

Os relatos das histórias de ambos é uma das coisas mais saborosas que a escrita e as narrativas podem oferecer ao sujeito, às suas subjetividades e aos nossos demônios.

Porém, em especial, aproveitando a marcação do tempo do calendário anual findo e simultaneamente iniciante, eu acabei reencontrando Montero na estante. Assim reli essa passagem magistral sobre as palavras e sobre a linguagem que divido com vocês nesse espaço.

“As palavras são como peixes abissais que só nos mostram um brilho de escamas em meio às águas pretas. Se elas se soltarem do anzol, o mais provável é que você não consiga pescá-las de novo. São manhosas as palavras, rebeldes e fugidias. Não gostam de ser domesticadas. Domar uma palavra (transformá-la em clichê) é acabar com ela”.

A literatura é um bálsamo e uma amostra que o ser humano ainda pode ter salvação, embora tenha cada vez menos crédito e graça. A narração é psicanalítica por essência. Aliás, como diz, a própria Montero: “a narrativa é arte primordial dos seres humanos. Para ser, temos que nos narrar”.

Literatura é vida, assim a sua busca, mais do que uma fuga da realidade, deve ser uma forma radical de re-energizá-la, em meio ao desencanto com o presente que urge ser transformado.