terça-feira, abril 07, 2015

Soffiati resgata a história da geografia das "Lagoas que a cidade de Campos comeu"

O pesquisador, historiador e ambientalista Aristides Soffiati brinda os leitores do blog com mais um interessantíssimo artigo. Dessa vez, Soffiati trouxe para nós a história das lagoas que a urbanização de nossa Campos "drenou" e/ou aterrou, desde a chegada dos Sete Capitães no século XVII.

Não conheço que não tenha curiosidade sobre o assunto quando ouve informações sobre a localização dessas ex-lagoas que o capitão Couto Reis registrou um século e meio depois.

Mais uma vez repetimos que conhecendo essa história da geografia de nossa Planície Goitacá fica mais fácil compreender e gerir a intervenção urbana na cidade, inclusive gastando menos recursos.

Mais uma vez, o texto vem acompanhando de mapas e registros antigos e bastantes raros. Em especial, eu chamo a atenção para o último mapa de 1926 que traz a localização de seis dessas "lagoas que Campos comeu". Confiram:

As lagoas que a cidade de Campos comeu

Arthur Soffiati

Como já expliquei em várias ocasiões, o Rio Paraíba do Sul, ao deixar a zona serrana, e Itereré, corta dois terrenos distintos na parte baixa, até chegar ao mar. O primeiro é o tabuleiro, com idade avaliada em 60 milhões de anos e que se estende da margem esquerda do rio até a margem direita do Rio Itapemirim. Ele é cortado ao meio pelo Rio Itabapoana, formando duas unidades.

Na margem direita do Paraíba do Sul, situa-se a mais extensa planície aluvial do Estado do Rio de Janeiro. Ela foi formada pelo próprio rio com sedimentos carreados da região serrana. Na sua borda, o rio e o mar arremataram o tabuleiro e a planície aluvial com a também maior restinga do Estado. Como o engenheiro sanitarista nascido em Campos, Francisco Saturnino Rodrigues de Brito, demonstrou muito bem, a margem esquerda do Rio Paraíba do Sul é ligeiramente mais alta que o nível médio do rio. Já a margem direita é mais baixa que o nível de cheia do rio. As águas que transbordam esta margem tendem a correr para o subsistema Lagoa Feia, como ilustrado na figura abaixo.

Figura 1 - Perfil da margem direita do Rio Paraíba do Sul segundo Saturnino de Brito. Legenda: R- Rio Paraíba do Sul; D- dique; A- Lagoas da planície aluvial; L- Lagoa Feia.








Além de haver uma ligação natural pela superfície, vários autores também concluíram por uma ligação pelo lençol freático. É se imaginar a quantidade de lagoas encontradas pelos Sete Capitães, iniciadores de uma colonização contínua da região quando aqui chegaram, em 1632. No diário das três viagens que empreenderam à região, eles batizaram algumas lagoas, mas não as registraram sistematicamente, como fará o capitão cartógrafo de infantaria Manoel Martins do Couto Reis, em 1785. Ele conta, nos seus mapas e relatório, um número notável de lagoas que hoje não mais existem em sua grande maioria.

A própria vila, depois cidade, de Campos envolveu e conservou várias delas durante muito tempo. Aos poucos, com o crescimento urbano, essas lagoas foram sendo drenadas e pavimentadas. Algumas foram dessecadas e niveladas. Outras, como a do Osório, foram drenadas sem nivelamento. Seu leito foi pavimentado. Quando chove um pouco mais forte na cidade, essas lagoas extintas acumulam água, como se houvesse um esforço das lagoa em voltar à vida.

As mais mencionadas lagoas em livros eram as Lagoas do Furtado, que posteriormente passou a se chamar do Osório, e do Curtume. Ambas são registradas num mapa sem autor conhecido, desenhado quando Campos ainda era vila, ou seja, ele é anterior a 1835.

Figura 2- Mapa da Vila de Campos, mostrando, em perspectiva tomada de Guarus, o Rio Paraíba do Sul, a Lagoa do Osório (centro) e Lagoa do Curtume (esquerda). O autor assinala que a Lagoa do Osório era perene e contava com bom peixe. Entre as duas lagoas, o mapa registra áreas baixas e alagadiças.






Em outro mapa, também de autor desconhecido, figuram a Lagoa do Furtado e a malha urbana de Campos cercando o corpo d'água.

Figura 3- Planta de autor desconhecido mostrando o Rio Paraíba do Sul, a Lagoa do Furtado e o núcleo urbano de Campos em expansão.









Em 1839, Conrado Jacob de Niemeyer reuniu um grupo de cartógrafos renomados para produzir a "Carta Corográfica da Província do Rio de Janeiro". Ela foi coordenada e desenhada pelo engenheiro Pedro Taulois. A presidência da equipe coube ao Brigadeiro João Paulo dos Santos Barreto. Nas bordas da carta, foram colocadas as plantas dos principais núcleos urbanos da Província do Rio de Janeiro. Coube ao jovem major Henrique Luiz de Niemeyer e Bellegarde traçar, em 1837, a cidade de Campos. Em seu traçado, aparece a Lagoa do Osório sem nome.

Figura 4 - Carta Corográfica da Província do Rio de Janeiro com carta da cidade de Campos em que se registra o Rio Paraíba do Sul e a Lagoa do Osório.








Saindo do atual Parque Leopoldina em direção ao centro, havia várias lagoas que não chegaram nem a ser mapeadas. Onde hoje fica o Shopping Boulevard, havia uma lagoa grande com água cristalina que foi drenada pelo Departamento Nacional de Obras e Saneamento (DNOS). Chama-se Lagoa do Saco. O canal que a drenou recebeu este nome, drenando as águas da lagoa para o Rio Cacumanga, que nascia no Rio Paraíba do Sul e desembocava no Rio Ururaí. Este rio alimentava a Lagoa do Cacumanga. O DNOS também retilinizou este paleocanal, que era uma dos quatro braços principais do Paraíba do Sul, drenou a lagoa e constituiu o Canal de Cacumanga, um dos oito canais primários ligando o rio à Lagoa Feia. A Lagoa do Saco ainda aparece numa das plantas do Plano Coimbra Bueno de 1944, bem a esquerda da Avenida 28 de Março, assinalada em azul. O Canal do Saco está lá para quem quiser ver. Ele não tem nascente e integra o Plano de Macrodrenagem da cidade de Campo, assim como o paleocanal Córrego do Cula. Pena que o campista, sobre tudo o governo municipal não se interessem por esta informação.

Figura 5- Planta do Plano Diretor Coimbra Bueno (1944), assinalando a Lagoa do Saco à esquerda










Nas imediações do Liceu, havia a Lagoa Dourada, que deve ter dado nome ao Barão e à Baronesa donos do prédio onde hoje funciona o colégio público estadual. Ela aparece numa planta desenhada por Saturnino de Brito, na década de 1920, já comprometida pela urbanização. Também ela foi drenada totalmente mas não teve seu fundo nivelado. Por isso, a Rua Baronesa da Lagoa Dourada ainda é ponto de alagamento quando das chuvas torrenciais.

No centro da cidade, além das Lagoa do Osório e do Curtume, havia ainda a Lagoa de Santa Ifigênia. A do Osório e de Santa Ifigênia foram drenadas pelo Canal Campos-Macaé. Parece que as água da Lagoa do Curtume foram lançadas no Paraíba do Sul, pois ela ficava muito perto do rio.

A planta de Saturnino de Brito ainda registra mais duas lagoas: uma no final da Rua Sete de Setembro, que recebe o nome da rua no seu mapa. Deve tratar-se da Lagoa do Goiabal, que foi drenada pelo canal do mesmo nome que corre hoje ao lado do CEPOP e desemboca no Canal de Cambaíba. Vestígios dela ainda estão por aquelas bandas. A outra lagoa não é nomeada por Saturnino de Brito.

Aproveitando a planta do grande engenheiro, assinalei em azul as lagoas que estão cartografadas por ele: Dourada, Santa Ifigênia, Sete de Setembro e desconhecida. Aproveitei para acrescentar as Lagoas do Saco, do Osório e do Curtume para o leitor ter uma visão de conjunto da lagoas que Campos comeu. Muitas outras deviriam existir, mas meu levantamento foi até aonde os documentos me permitiram ir: ao todo, sete lagoas.

Figura 6- Planta da década de 1920, feita por Saturnino de Brito mostrando as Lagoas Dourada, Santa Ifigênia, desconhecida e Goiabal. Acrescentei as Lagoa do Saco, do Osório e do Curtume.






Um comentário:

Anônimo disse...

Legal. Agora está explicado por que existe uma rua chamada Barão de Lagoa Dourada, aquela que passa ao lado do Liceu.