sexta-feira, julho 24, 2026

Divulgação acadêmica do Dossiê no campo Espaço e Economia: “Dominância financeira, capitalismo de plataforma e reestruturação produtiva”

Convite à leitura. A Rede Latinoamericana de Investigadores em Espaço e Economia (ReLAEE) organizou e realizou entre os dias 25 e 28 de novembro do ano passado (2025), o V Colóquio Internacional Espaço e Economia na Universidade Federal de Goiás (UFG). Foram 5 mesas de debates, além da conferência de abertura e da mesa de encerramento. O evento ainda contou com um trabalho de campo no Porto Seco de Anápolis e 7 intensos e produtivos grupos de trabalho. Eu tive o grato prazer de coordenar o GT-1 com o tema “Dominância financeira, capitalismo de plataforma e reestruturação produtiva” junto com os professores Beatriz Rufino (USP), Fábio Tozzi (UFMG) e Cláudio Zanotelli (UFES) que selecionou 26 trabalhos inscritos para apresentação no Colóquio.

A partir dos trabalhos e comunicações de pesquisas apresentados no evento, os artigos foram depois selecionados e criteriosamente avaliados pela coordenação, visando a publicação de um dossiê com o mesmo título do GT, na revista Geografares do Programa de pós-graduação em Geografia da UFES que tem como editor Claudio Zanotelli. Os GTs dos outros seis temas terão seus dossiês também publicados em revistas dos programas de pós-graduaçãovinculados aos organizadores da ReLAEE. 

Assim, o dossiê  Dominância financeira, capitalismo de plataforma e reestruturação produtiva traz além da apresentação dos organizadores, um total de 12 artigos que cobrem uma ampla diversidade de subtemas dentro da temática mais geral da relação entre financeirização, digitalização/dataficação, plataformização e reestruturação produtiva.


Por fim, para estimular a leitura dos artigos, vou destacar alguns destes subtemas: soberania e infraestrutura digital, dilemas dos usos da digitalização, plataformização e aplicativos nas áreas de saúde, transportes, locação e gestão residencial, aluguel por temporada, leilões digitais de imóveis, comércio e atacarejo, intensificação e precarização do trabalho plataformizado, financeirização, digitalização do dinheiro e reorganização dos novos meios de pagamento, presença das fintechs na metrópole dataficada etc.

Os artigos trazem uma vasta descrição de elementos empíricos dessa realidade em várias regiões do Brasil e da América Latina, que estão bem articulados com o conhecimento teórico e metodológico que vem sendo desenvolvido por vários grupos de pesquisas e programas de pós-graduação, em especial nas áreas de geografia, economia, planejamento urbano e regional, comunicação e TIC e outros. Enfim, por tudo isso, vale o convite para o acesso, leitura e, se for o caso, downloads dos textos. Pensamos que se trata de uma boa contribuição ao debate do tema. Sigamos em frente!


Links de acesso:

Apresentação: https://periodicos.ufes.br/geografares/pt_BR/article/view/53400

Lista dos doze artigos: https://periodicos.ufes.br/geografares/pt_BR

terça-feira, julho 21, 2026

Como se desenvolve a hegemonia financeira e o rentismo ligados ao negócio futebol, demais eventos esportivos e mega shows no espaço global

A matéria do Valor "Copa fortalece futebol como um dos grandes negócios do planeta" (19 jul 2026) [1] do jornalista Humberto Saccomandi remete a uma questão que tratei em pesquisa sobre a financeirização e o papel dos fundos financeiros no mundo contemporâneo.

Em 2019 quando lancei o livro da "A 'indústria' dos fundos financeiros: potência, estratégias e mobilidade no capitalismo contemporâneo" [2] eu chamei a atenção para o papel do setor de eventos (incluindo futebol e mega shows) para a hegemonia financeira e a racionalidade neoliberal em curso.
 
Como mostra o infográfico (abaixo), um movimento horizontal transsetorial lubrificado pelo instrumento dos fundos que já garantia uma hipermobilidade ao capital extraído na base da pirâmide destes diferentes setores (petróleo, negócios imobiliários, eventos de futebol, outros esportes e mega shows.

O fato que despertou e deu clareza para a interpretação desse processo, se deu a partir do caso da transferência de Neymar (em agosto de 2017) para o PSG por cerca de R$ 800 milhões. O dono do PSG era um fundo árabe, subsidiária do fundo soberano de Abu Dhabi. O fundo também controlava o canal de TV francês que transmitia as partidas e também exercia algum controle sobre o campeonato.

Fonte: A ´indústria´dos fundos financeiros, p.185/233. [2]


A extração dessa grana do futebol de diferentes territórios (nações) dava a mobilidade vertical ao capital que se mistura à extração do capital dos outros setores. As gestoras dos fundos lubrificam esse capital acumulado no andar superior das "altas finanças", como se referia Giovanni Arrighi. Um esquema colossal que junta a FIFA, COI, donas de marcas de espetáculos que ganharam tração, aos estados das nações centrais e também das periféricas.

Para movimentar e controlar tudo isso, a lógica da financeirização é essencial. Daí surgem as SAFs e outros esquemas que envolvem os clubes, as confederações e agentes nacionais/locais.

Trata-se de circuito transsetorial lubrificado pelas finanças em que o capital imobiliário que envolve construções e a demanda das conhecidas "Condições Gerais de Produção" em que o Estados entram bancando e os investidores chamam de "legado" para as populações locais, sem perceber o que é extraído.

Observem que, atualmente, não se fala mais em estádios, mas sim em "arenas multiusos" que aproveitam as infraestruturas para os mega shows que também agradam às plataformas de hospedagem tipo Airbnb que também extraem frações dessas rendas locais. São movimentos que juntam capitalização e valorização, mas sobretudo, extração de capital local.

Há muitas outras questões interessantes a serem observadas no entorno desses negócios no capitalismo contemporâneo. Uma delas, que vale a pena destacar, é a incrível história da FIFA também ganhar percentuais nas seguidas vendas de ingressos dos jogos que são revendidos em sua plataforma e com o seu aval. É como se a plataforma da entidade conseguisse também extrair uma fração da renda obtida pelos cambistas, sem nenhum risco.

Para fechar, cito essa outra ideia mais recente da FIFA de realizar o evento da Copa do Mundo em dois ou três países. Em 2026 foi nos EUA, México e Canadá e a Copa de 2030 está prevista para ser na Espanha, Portugal e Marrocos. Essa é também uma forma de estimular uma disputa entre esses países, extraindo mais das gestões nacionais para os seus interesses, além de ampliar as possibilidades do público envolvido.

Os fatos citados trazem evidências sobre como a hegemonia financeira se ampliou, exercendo um controle ainda maior sobre os negócios globais com extração de rendas nacionais, ainda maior concentração e acumulação de capital, exercida por pequenos grupos rentistas, normalmente ligados às gestoras dos fundos financeiros com controle dos ativos num processo chamado de assetização.


Referências:
[1] Matéria do Valor online em 19 jul 2026. SACCOMANDI, Humberto: Copa fortalece futebol como um dos grandes negócios do planetaDisponível em: https://valor.globo.com/mundo/noticia/2026/07/19/copa-fortalece-futebol-como-um-dos-grandes-negocios-do-planeta.ghtml

[2] PESSANHA, R. M. A ‘indústria’ dos fundos financeiros: potência, estratégias e mobilidade no capitalismo contemporâneo. Rio de Janeiro: Consequência, 2019.