sexta-feira, março 29, 2024

Resultados da Globo S.A. em 2023: lucros salvos mais uma vez pelas receitas financeiras

Os resultados da Globo S.A. em 2023 mostram que as receitas das aplicações financeiras salvam mais uma vez o balanço do Grupo Globo. Receita financeira de R$ 2 bilhões levou ao lucro líquido geral de R$ 837 milhões (33% menor do que os R$ 1,2 bilhão de 2022) na soma de todos os negócios do grupo. Desta receita financeira de R$ 2 bilhões em 2023 se pagou R$ 1,5 bilhão de serviço das dívidas que totalizam R$ 5 bilhões. 

Essa receita financeira não foi citada na matéria que o Valor (Grupo Globo) veiculada ontem (28/03/2024) na P.B6. Ou seja, novamente, as receitas de aplicações financeiras salvam o balanço da Globo S.A., apesar da receita total líquida ter atingido a R$ 15,1 bilhões.

Esse valor de R$ 2 bilhões de receitas financeiras em 2023, comparados aos R$ 15 bilhões de receita total, é mais uma prova sobre como a financeirização entra em todos os negócios da economia real. Em 2023, na Globo S.A. contribui com 13,2% da receita total, mas é fundamental para o lucro líquido ao final do balanço.

A holding Globo diz ainda em seu balanço ter R$ 14,2 bi em caixa e que as despesas e seus custos diminuíram. Porém, é bom que se diga que em boa parte com demissões de pessoal. Em 2023 tinham 11 mil trabalhadores, 2 mil a menos do que em 2022, quando eram 13 mil funcionários e já chegaram a ter 15 mil trabalhadores, hoje chamados de colaboradores. A Globo S.A. pagou em 2023 um total de R$ 1,071 bi de salários, valor inferior aos 1,109 bi de 2022, sem considerar a inflação e mesmo sabendo que a "pejotização" é muito presente em todo o grupo.

[Ver postagem do blog em 28 de março de 2023: "Globo S.A. um grupo cada vez mais financeiro".

As receitas operacionais da Globo S.A. em 2023 foram, em boa parte, de publicidade, 63% (+2%) com 37% de conteúdo (-6%). Menos pessoas, menos conteúdo produzido.

De outro lado, cada vez mais o grupo Globo tem menos receita com TV paga e mais receita com o streaming Globo Play, reflexo também da plataformização, cuja quantidade exata de assinantes, não é informada, embora diga ter cerca de "20 milhões de pessoas passando por essa plataforma".

Não é necessário falar de outros números. Apenas por esses dados citados, é fácil deduzir e entender porque a mídia corporativa luta tanto pela lógica financeira em seus noticiários.

Não é só a defesa da lógica dos bancos, seus principais anunciantes, é a receita própria de seus investimentos financeiros que se misturam aos dos demais negócios.

Plim-plim & dim-dim juntos, misturam o rentismo às atividades de comunicação e negócios da TV Globo (aberta e canais fechados ou a cabo); Globo Play; Globo.com; G1, GE; Gshow; Editora Globo; O Globo, valor. Gestora de fundos Globo Venture; Sistema Globo de Rádio, etc.

PS.: Evolução de resultados (lucro ou prejuízo) da Globo Comunicação e Participações S.A. entre os anos de 2017 e 2023. Como se vê, o grupo Globo não voltou mais ao patamar de lucratividade que chegou a ter até o período em torno do golpe parlamentar-midiático-jurídico-político de 2016.

2017 R$ 1,8 bi;
2018 R$ 1,2 bi;
2019 R$ 752 milhões;
2020 R$ 167 milhões;
2021 - R$ 173 milhões (prejuízo);
2022 R$ 1,2 bilhão;
2023 R$ 837 milhões.

PS.: Clique sobre as imagens para ver em tamanho maior.

PS.2: Atualização às 14:10. Para cesso aos resultados da Globo S.A. ver Central de Resultados publicados no Valor. Link: https://valor.globo.com/valor-ri/empresa/globo-comunicacao-e-participacoes-sa/


quarta-feira, março 20, 2024

IA da Google no futebol: humano como base, mas com avanço da dominação tecnológica

Quem pensou que a tecnologia no futebol ficaria restrita ao VAR e às estatísticas de desempenhos isoladas dos jogadores, apostou na Best errada (sic). O Google, já passou a utilizar uma potente, volumosa e extraordinária base de dados de várias jogadores, partidas e campeonatos que trabalhadas com tecnologia IA podem definir táticas para times de futebol.

O TacTicAI do Google sugere táticas, em especial, em jogadas de bolas paradas. Os seguidos casos de usos ampliados da economia de dados em variados setores, demonstra como é difícil mensurar seu tamanho ou extensão que são cada vez mais utilizados em extensa e enorme cadeia. Jogadores se transformarão em extensões das máquinas? Não. Até porque todos nós já somos ciborgues (ou cyborg – organismo que mistura partes orgânicos e cibernéticas ou digitais) quando não nos desgrudamos (olhos, mentes e dedos) de nossos celulares.

Não deve demorar, para que os clubes de maiores investimentos, passem a destinar mais dinheiro para aquisição de softwares e aplicativos desses dados, do que, exatamente, em bons jogadores. O humano continuará a ser e sempre a base dos dados capturados para serem depois algoritmizados. O humano prevalece e por isso esse jogo (futebol) vem atraindo tanto dinheiro.

Assim, os recursos disponíveis para clubes de grandes fundos investidores ficarão ainda mais fortes, embora o imponderável possa ainda prevalecer. Nos outros esportes coletivos como basquete e vôlei, as chances de um clube pequeno (hoje chamado de menor investimento) ganhar de uma equipe poderosa e com muito recursos é quase nula. No futebol, ainda não.

Observe na matéria do jornalista Rafael Garcia, em O Globo (20/03/2024, p.28) que as primeiras táticas sugeridas pelo aplicativo TacTic do Google são para ações e jogadas mais fáceis de serem programadas, com estratégias que podem ser treinadas para bolas paradas como faltas, escanteios, etc. e contra times específicos já mapeados. A tendência é que os grandes clubes de futebol, ou aqueles de maiores investimentos, fiquem ainda mais fortes. O que também tende a ampliar a financeirização no futebol, já grande entre SAF e FC S.A.

Porém, mais que o esporte futebol em si, a notícia deve despertar nossa observação para o tamanho da economia digital e para a sua atuação transversal, com fortes impactos sobre praticamente todos os demais setores econômicos e da vida em sociedade. O que ajuda a explicar o gigantismo das Big Techs, os maiores oligopólios da história da humanidade.

Oito a nove (8/9) das dez empresas de maior valor de mercado mundo são do setor de tecnologia, de onde faço a leitura sobre a “dominação tecnológica imbricada à hegemonia financeira”, ambos baseados na racionalidade neoliberal que redundam na interpretação sobre a estrutura desse fenômeno, que venho denominado, com outros pesquisadores, como o “tripé do capitalismo contemporâneo”.


PS.: Texto com colaboração de comentários a partir de postagem sobre o tema no perfil nas redes sociais (FB; Instagram e Twitter).

terça-feira, março 05, 2024

Dominação tecnológica no capitalismo contemporâneo

Atualizando dados para uma mesa de debates que envolve a dominação tecnológica no capitalismo contemporâneo, observei que a soma de valores de mercado das 10 maiores corporações de tecnologia já equivale a 4 vezes à soma das 10 maiores petroleiras no mundo.

Há menos de um ano (nove meses) essa relação entre as dez maiores companhias de tecnologia e as dez maiores petroleiras do mundo era de três vezes.

Observa-se ainda que a maior corporação de tecnologia hoje, a Microsoft, vale 3,089 trilhões. 50% a mais que a maior petroleira, a Saudi Aramco que vale 2,023 trilhões. Só a Microsoft vale, ainda, 19% mais que a soma do valor de mercado das demais nove petroleiras.

Hoje, três das maiores corporações de tecnologia (Microsoft, Apple e Nvidia) valem, individualmente, mais que a petroleira saudita, Saudi Aramco. E oito das dez maiores corporações em valor de mercado do mundo são do setor de tecnologia. Tudo isso, num momento em que a Inteligência Artificial (IA) ainda dá os primeiros passos, em termos de captura e/ou geração de valor na economia em sua totalidade. 

Processo que venho chamando de “dominação tecnológica”, profundamente imbricado à “hegemonia financeira” no capitalismo contemporâneo com liderança do oligopólio das Big Techs que lutam e disputam dia-a-dia para avançar para monopólios que já se tornaram reais em alguns subsetores.

Vale ainda observar que se trata de dois setores transversais com enorme capacidade de atravessar todos os outros setores da economia e da vida em sociedade.

O setor de tecnologia digital como etapa contemporânea da reestruturação produtiva possui características multidimensionais e transescalares.

Além disso, tem o predicado de se espalhar e penetrar muito facilmente em rede nas diversas atividades humanas, seja como meio de produção (negócios e logística) ou como meio de comunicação, caso das conhecidas mídias digitais onde exerce a capacidade de influenciar nas potentes relações de poder e política, para além da economia.

Ou seja, no plano da superestrutura, mediado pela noção de totalidade, há ainda muito a ser analisado sobre o fenômeno contemporâneo da digitalização de quase tudo que vem transformando o capitalismo enquanto sistema nos diferentes espaços do mundo.