quarta-feira, maio 25, 2022

Case em matéria jornalística expõe fenômeno da startupização, financeirização e plataformismo

Numa única matéria (abaixo) é possível interpretar um conjunto de fenômenos e relações, sobre o que tratei numa palestra (última semana) na UFC (https://www.youtube.com/watch?v=H0seAHzSKRQ), a respeito da reestruturação produtiva/digitalização, capitalismo de plataformas e financeirização no mundo contemporâneo.

A reportagem (O Globo, 25 mai. 2022, p.17) destaca o desempenho de uma startup mexicana, ligada à área de logística que realiza o que tendo chamado "simbiose entre a virtualidade do digital e a infraestrutura material da logística".

A startup Nowports atua nessa franja, sem criar valor (extrai renda de outras atividades) realizando a intermediação entre produtores e consumidores, reduzindo a etapa de circulação da mercadoria (chamo de uma quase revolução) no Modo de Produção Capitalista (que denomino como Plataformismo).

A mexicana Nowports (nome que exprime bem seu papel de intermediação) é, na verdade, um sistema operacional (empresa-plataforma). Instalada em Monterrey e funcionado há apenas 5 anos, recebeu aportes de fundos financeiros e bancos (o japonês Softbank) seguindo a linha do fenômeno da startupização (capitalismo sem riscos) fortemente vinculado à financeirização.

Em pouco tempo, já se transformou num "unicórcio" (startup com valor de mercado superior a US$ 1 bilhão) e atende um mercado de outras empresa-plataformas de e-commerce, ao mesmo tempo, em que articula a logística de transporte material junto à infraestrutura de modais de portos e ferrovias para entregas +rápidas.

Em síntese, insisto que se observe essa espécie de "quase revolução da etapa de circulação da mercadoria" (encurta a etapa de circulação que retiraria valor da mercadoria produzida), numa atividade iminentemente rentista, que amplia a captura de valor (mais-valia) entre a produção e distribuição para o consumo, a favor destes novos agentes extratores de renda (empresas-plataformas) dos demais setores produtivos e, que estão imbricados à financeirização que se hegemoniza no capitalismo contemporâneo.

Enfim, um caso concreto e empírico que ajuda na compreensão do complexo fenômeno vinculado à interação entre a virtualidade do digital (Big Techs e corporações de tecnologia) e a materialidade da logística de transportes.

segunda-feira, maio 09, 2022

Governo militar usa infraestrutura cibernética para manutenção do projeto de poder

Em 2018 a sociedade quase não identificou a presença dos militares nas redes sociais e na eleição de Bolsonaro. As redes eram coisa do filho Carlos. A pressão pelo impedimento de Lula concorrer e ser preso foi atribuído só ao twitt do general Vilas Boas. Não se percebia até então, o papel do CDC Exército.

O Centro de Defesa Cibernética (CDC) do Exército teve seu orçamento multiplicado 5X ainda em 2019, por Bolsonaro. Assim, se passou a desconfiar que o segredo/agradecimento do PR a Villas Boas na posse de que iria levar para o túmulo, ia bem além do twitt.

Desde 2019, mais de 7 mil militares foram para o governo. E paulatinamente, passamos a saber que: a) 1- O CDC opera uma rede paralela de internet que se cruza à que nós mortais (paisanos) usamos; b) O CDC passou a operar em conjunto c/ GSI e em busca de softs espiões e desconfia-se que também em impulsionamentos de perfis políticos de direita e de autoridades e políticos do governo militar.

O GSI e o CDC operam de forma sigilosa protegidos por lei. Em termos eleitorais, não é preciso atingir 100% dos eleitores. Pacotes de publicidade direcionada das Big Techs, podem facilmente separar, entre os que usam as redes sociais, os 43% de Lula e os 30% de Bolsonaro. Sobra no foco restante, cerca de 1/4, se tanto.

Filtrando ainda mais, é só "buscar" quem no 2º turno de 2018 votou Bolsonaro e que agora está voltando para Lula ou ainda está em dúvida. Aí se chega a essa franja de uns 15% no limite entre uma e outra opção. Com espionagem contra coordenação de campanha do adversário se pode chegar ainda mais perto do perfil desejado. Ao juntar e recuperar essas pontas do novelo se chega a parte da estratégia para a batalha cibernética de 2022.

Além de atuar em duas direções: espionagens e impulsionamentos, essa articulação das autoridades militares de instituições governamentais protegida por sigilo, os generais buscam alcançar votos para seu candidato dos generais. Se estes continuarem insuficientes, continuarão a desacreditar as urnas, o TSE e o STF para tentar anular vitória oposicionista representada por Lula.

Esse processo está em curso. Por um lado, não é interessante divulgar esse tipo de análise, porque vai na linha de uma das 3 estratégias eleitorais dos generais de ameaçar e amedrontar parte da sociedade deixando no ar uma sensação de risco de caos e necessidade de ordem.

Porém, de outro lado, a sociedade brasileira precisa de vacina em defesa e garantia da "Democracia" e "Soberania" popular.

quinta-feira, maio 05, 2022

A propriedade das Big Techs e a dominação tecnológica-digital ampliam as desigualdades e a assimetria no capitalismo contemporâneo

Muitos dizem que a digitalização cria valor e não basicamente extrai renda da sociedade. Interessante essa afirmação, porém, se fosse verdade como explicar que as Big Techs não param de crescer, enquanto, simultaneamente, a economia global patina?

Nove das 10 maiores corporações em valor de mercado na economia mundial são da área de tecnologia. As cinco primeiras têm valor de mercado acima de U$ 1 trilhão cada. Mesmo com a queda média de não esperada de 14%, neste último mês de abril, anunciada ontem (04/05/22), juntas, as Big Techs superam US$ 8 trilhões e até aqui puxaram a valorização das bolsas de valores, enquanto a economia em geral, antes mesmo da pandemia e da guerra, segue bem pior.

Agora, ainda no final da pandemia e com a escalada do conflite EUA-OTAN x Rússia na Ucrânia, esse quadro piorou com a redução das atividades econômicas e inflação, mas as ações destas gigantes empresas de tecnologia (Big Techs) seguem disparando, enquanto a economia segue tropeçando. Assim, se observa que as desigualdades se ampliaram.

Para começar a entender a “dominação tecnológica-digital” e sua “aliança com a financeirização” é necessário ir um pouco mais fundo na análise dos modelos de negócios que essas Big Techs desenvolveram.

 

É preciso observar que mais que apropriar dados, as Big Techs apropriam renda

Para observar esse processo deve-se olhar a propriedade e os fluxos de capital. Onde e como, efetivamente, essas gigantes de tecnologia (como agentes) atuam e capturam renda e valor. Os processos que utilizam e as estratégias que dirigem seus negócios.

Neste exercício, não é difícil observar que e concentração de atividades que explicam a monopolização (oligopolização) do setor. As gigantes da tecnologia controlam publicidade, direitos de uso/acesso e captura de dados, através de suas enormes e tentaculares infraestruturas. Assim, expandem suas atuações e ampliam o controle da propriedade com a"propriação" de renda — mais que a apropriação de dados — sobre todos os demais setores da economia e da sociedade.

A apropriação é feita pelo setor de tecnologia, mas acontece de forma externa à digitalização, através dos proprietários destas gigantes de tecnologia que capturam renda e valor dos demais setores da economia e em todos os lugares, desde o centro sede de seus negócios, à periferia do sistema-mundo.

Em síntese e refletindo melhor (e com Srnicek, 2021) sobre esse processo, é possível observar que os dados acabam sendo "meio" que servem para alcançar as rendas dos demais setores em que a digitalização vai chegando.

Esse processo se expande com o lançamento de mais ramais de cabos de fibras óticas pelo mundo em terra e pelo oceanos. Hoje, essa infraestrutura já passa de 1,3 milhão de quilômetros. Atualmente, o lançamento de mais ramais de cabos de fibra ótica cresce na ordem de 100 mil km de novos cabos por ano. Abaixo o mapa para melhor visualizar a extensão e densidade pelo mundo.

Mapa do 1,3 milhão km de cabos submarinos instalados no mundo. Fonte: https://www.submarinecablemap.com/ 


Parte de propriedade das operadoras de telefonia e cada vez mais são instalados cabos de propriedade das Big Techs. É no âmbito dessas infraestruturas que o processo de intermediação realizada pelas Big Techs se vale de técnicas, arranjos de propriedade, algoritmos e infraestruturas que envolve as plataformas digitais dirigidas por grandes empresas-plataformas ou empresas-aplicativos. 

São investimentos em infraestruturas (IE) de tecnologia que possibilitarão amplia ainda mais a extração de renda, a condição de monopólio rentista das Big Techs, sobre um mercado de demanda quase infinita, que ao final leva à instituição dessa espécie de império rentista-digital que se observa.

 

Vampirização e rentismo das plataformas digitais sobre demais setores leva à plutocracia

É no interior dos seus modelos de negócio que o setor de tecnologia vai sugando a riqueza produzida pelos demais setores da vida humana desde a produção material à imaterial. Um processo de vampirização digital sobre os demais setores.

Todas as empresas de todos os setores passaram a depender cada vez mais das empresas-plataformas que como intermediários se transformaram em rentistas sugando lucro de todos os setores e empresas de todos os portes. Processo que tende a uma disputa intercapitalista, entre empresas-plataformas que se apropria de valor das empresas não plataformas e se transformam em monopólios (oligopólios).

Tudo isso amplia a desigualdade e a disputa intercapitalista no interior do sistema, ao reduzir margens de lucros em outros negócios da economia real, ao mesmo tempo, em que torna hegemônica a participação e relação entre a tecnologia e a financeirização no sistema-mundo. Esses dois setores atuam transversalmente — e de forma intensa — sobre todas as demais frações do capital na contemporaneidade. Fenômeno que alguns autores passaram a denominar essa etapa de capitalismo informacional, que vai para além das plataformas digitais vistas como partes deste processo.

Vampirismo digital, talvez seja, uma expressão simbólica para explicar a extração de renda e valor dos demais setores da economia, assim como dos excedentes da sociedade. Um processo que amplia a concentração de renda em propriedades de corporações oligopólicas que atuam de forma imbricada às inovações financeiras, impondo uma espécie de dominação (império financeiro-digital), em nova (superior) etapa de acumulação de capital. 

Para finalizar não se pode esquecer que a dominação digital é desenvolvida com profunda repercussão nas relações de poder. A digitalização se desenvolve não apenas como meio de produção, comércio e finanças, mas também como meio de comunicação com imenso poder de manipulação política e de controles sobre o poder no interior e entre nações. Na hierarquia (e assimetria) entre as nações, na direção da plutocracia (regime político dos ricos), que em última instância, significa a geopolítica na chamada ordem global.

segunda-feira, abril 25, 2022

Campos dos Goytacazes tem maioria de mulheres universitárias e 39% de negros

Mais alguns dados sobre as matrículas no Ensino Superior no município de Campos dos Goytacazes. Informações extraídas da base de microdados do Inep/MEC, Censo 2020, tabuladas pelo professor José Carlos Slomão Ferreira (IFF).

Um número expressivo de 4.206 docentes atuando no ensino superior presencial no município. Há mais mulheres como estudantes (61%) do que como docentes (48%). Assim como, há mais negros e pardos como estudantes (39%) do que como docentes (9%).
 
A presença de pretos e pardos crescem a partir de 2012, quando do início da Política de Quotas. Em 2011, apenas 12% eram pardos e negros, enquanto 67% não declaravam a raça com 21% declarados como brancos. 

Abaixo o detalhamento também dos dados sobre as matrículas dos estudantes com 61% de mulheres.

Estudantes (graduandos) em matrículas presenciais:
Total: 18.050 matrículas;
61% mulheres x 39% homens;
Pardos + pretos 39% x 55% brancos x 15% não declarados;
61% matrículas noturno x 39% diurno.

Docentes atuando no Ensino Superior presencial:
Total: 4.206 professores;
52% homens (2.181) x 48% (2.025) mulheres;
52% com titulação de mestrado; 25% de doutorado e 22% especialização;
66% atuam em tempo integral;
18% tem idade 40-44 anos; 16% idade 35-39 anos e 16% entre 45-49 anos; 12% acima de 60 anos e 12% entre 30-34 anos;
59% não declaram raça; 31% brancos; 9,2% pardos e negros.

sexta-feira, abril 22, 2022

Corporações de tecnologia deixam bem para trás empresas do setor de petróleo em valor de mercado

Já sabemos que os saltos de valor das corporações do setor de tecnologia são colossais, mas nem sempre temos ideia disso em termos comparados e relativos. Visto dessa forma, esses indicadores podem nos apontar a dinâmica contemporânea do capitalismo contemporâneo.

Assim, dando prosseguimento às minhas pesquisas sobre os movimentos do capital e sobre a economia digital ao nível global, eu me deparei com dados atualizados que julguei interessante compartilhar. Não é exatamente uma informação nova, mas os dados são simbólicos, por isso, merecem destaque.

Simbolizam as transformações do capitalismo contemporâneo, as bases da reestruturação produtiva da chamada economia de plataformas/digitalização - plataformismo - e sua relação com a financeirização e a hegemonia do tal "mercado".

Assim, usando a base de dados "online" do Infinite Market Cap, tabulei uma lista com o valor de mercado atualizado das dez maiores empresas do setor de tecnologia e do setor de petróleo e gás. Coloquei lado a lado para melhor no quadro abaixo para melhor visualização dessa transformação.


A comparação é útil para se perceber a transformação e a transferência do controle do setor de petróleo - que lubrificou o capitalismo, durante quase um século -, sendo agora paulatinamente, dividido e repassado para o setor de tecnologia que hoje lubrifica a financeirização.

Estamos falando de corporações que atuam de forma transescalar, multidimensional e transversal sobre os demais setores da economia, como também é o caso do setor petróleo, no interior do capitalismo contemporâneo. Não por acaso, ambos os setores econômicos (frações do capital) se concentram em grandes oligopólios, centralizados e sediados (grande maioria) nos EUA. 

Os dados impressionam e falam por si. As corporações de tecnologia não apenas estão entre as maiores do mundo, mas há algum tempo passaram as cias de petróleo em valor de mercado. A exceção é a petroleira estatal Saudi Aramco da Arábia Saudita, 2ª no ranking global, que recentemente apareceu na lista por ter aberto seu capital.

As demais oito petroleiras da lista estão abaixo da décima na lista das corporações de tecnologia. A coreana Samsung e a anglo-holandesa Shell estão praticamente empatadas no valor de mercado. Merece destaque ainda a presença da Petrobras como 10ª maior petroleira em valor de mercado, quando já esteve bem melhor situada em passado recente.

Vale registrar que rankings são feitos a partir de diferentes indicadores. Há rankings que avaliam as maiores companhias por receita, outros por lucros. Esta tabulação lista as empresas por valor de mercado. São corporações que atuam no mercado aberto de capitais, nas bolsas de valores onde, vendem suas ações. As companhias de capital fechado não aparece nesse ranking.

Outra informação importante é que esse ranking por valor de mercado é "online", assim se alteram minuto a minuto. Os dados aqui tabulados são de 20 abr. 2022, às 12 horas. Os dados das empresas asiáticas em especial da China devem ser vistos com reservas porque os valores globais são distintos do que eles consideram.     

quarta-feira, abril 20, 2022

Entre 2003 e 2020, IES públicas do ERJ cresceram 91% das matrículas no ensino superior presencial, enquanto IES privadas perderam alunos

O número total de matrículas nas Instituições de Ensino Superior (IES) no ERJ segue caindo desde o pico em 2018, quando chegaram a 544 mil matrículas. Em 2019 teve uma queda de 5% e em 2020 de 4,3% chegando a 494.616 matrículas. Porém, a expansão na rede pública segue avançando e quase que dobrou o número de matrículas desde o ano 2003. 

Desde o golpe de 2016 houve um freio na expansão do número total de universitários, embora o movimento de crescimento no setor público tenha continuado, por conta do impulso dos programas das universidades e institutos federais no Estado do Rio de Janeiro pensado nos governos do PT.

No período de 15 anos, entre 2003 e 2018 ouve uma evolução de 36%, saindo de 420 mil para 544 mil matrículas no ensino superior presencial que no ano de 2019 era desenvolvido em 42 (46%) dos 92 municípios fluminenses.

O blog repete o que vem fazendo nos últimos anos ao divulgar os dados dos números de matrículas nos municípios fluminenses, a partir do microdados do Inep-MEC, tabulados pelo professor José Carlos Salomão Ferreira. (Para ver a tabela abaixo em tamanho maior clique sobre ela)

Um total de 40 dos 92 municípios fluminenses possuem matrículas em cursos presenciais no ensino superior. No ano de 2020, 18 deles tiveram aumento no número de matrículas, enquanto outros 22 municípios perderam alunos.   

O dado mais significativo a ser ressaltado e analisado, enquanto política pública, é que o crescimento das matrículas de 124 mil matrículas entre 2003 e 2018, se inverteu em 2019 e manteve queda também em 2020. Porém, vale destacar que a despeito desta redução no total, os resultados das instituições públicas segue positiva em 2020, em relação a 2019. Enquanto o número de matrículas nas instituições privadas caiu 25.252 matrículas, nas instituições públicas houve um crescimento de 3.032 matrículas.


Este esforço é ainda resultado do governo federal no período Lula (1-2) e Dilma (1) que resultou na criação nas universidades públicas de mais 74 mil matrículas nos municípios fluminenses entre 2003 e 2020. Em números absolutos, as instituições públicas aumentaram de 82.057 matrículas em 2003 para 156.813 matrículas em 2020 no ERJ, com um crescimento em números relativos 91%.

Neste mesmo período, a instituições privadas saíram de 338.432 matrículas em 2003 para 337.803 matrículas em 2020, ou seja, uma redução de 629 matrículas. É oportuno ainda registrar que essa redução de matrículas nas IES vem ocorrendo de forma seguida na virada de 2017 para 2018. Ou seja, na crise é o Estado que supre a demanda de vagas em todos os níveis de ensino.

Vale registrar que as matrículas no ensino superior nas instituições públicas (universidades e institutos) crescem ou se mantêm a despeito das crises econômicas, enquanto no setor privado o ciclo de recessão se refere imediatamente no número de matrículas, por conta da dificuldade de pagamento dos estudantes.

Além disso, vale observar que quase que apenas nas instituições públicas há investimentos e articulação (mesmo que em graus variados) às duas outras duas pernas do tripé que dá qualidade ao ensino superior: a pesquisa e a extensão, para além do ensino. No caso das instituições privadas são raros e pontuais os investimentos em projetos e programas de pesquisas e pós-graduação. Isso em todo o país e não apenas no caso do ERJ.

Outra questão observável na tabela é que no período entre 2003 e 2020 houve uma significativa interiorização da oferta de matrículas no ensino superior, apesar da ainda enorme concentração das vagas na capital fluminense.

Em 2003, 260 mil de 420 mil matrículas estavam na capital, equivalentes a 62%. Em 2020, a capital tinha 52,7% do total de matrículas em todo o ERJ. Um percentual ainda muito alto. Em 2003 eram 31 municípios com cursos superiores e em 2020, um total de 40 dos 92 municípios fluminenses possuíam cursos de graduação presenciais.


Polos de ensino superior no ERJ

Por fim, vale observar ainda 13 (treze) polos, com importância crescente no número de matrículas no Ensino Superior no ERJ. Eles estão em municípios de porte médio e se desdobram de outros polos regionais. Cinco deles reforçam o peso da quantidade vagas na Região Metropolitana do Estado aumentando a centralização já existente com as 52,7% das matrículas do ensino superior na capital.

Vale observar que nos últimos anos há variações nestes números de matrículas por município, devido à presença majoritária de instituições públicas de ensino superior (que se mantém ou crescem), enquanto as instituições privadas perdem matrículas rapidamente com a chegada das crises.

Região Metropolitana + Serrana: 2020 (2019)

Niterói: 52.557 matrículas (54.197) = -.630 matrículas.
Nova Iguaçu: 24.811 matrículas (24.818) = -7 matrículas;
Duque de Caxias: 14.454 matrículas (16.643) = -2.189 matrículas;
São Gonçalo: 11.142 matrículas (11.398) = -256 matrículas;
Seropédica: 11.855 matrículas (10.625) = + 1.230 matrículas;
Petrópolis: 9.961 matrículas (9.918) = + 43 matrículas

Região Norte e Noroeste Fluminense + Baixadas Litorâneas

Campos dos Goytacazes: 18.050 matrículas = -987 matrículas;
Macaé: 9.509 matrículas = + 111 matrículas;
Itaperuna: 7.717 matrículas = -974 matrículas;
Cabo Frio: 7.632 matrículas = + 404 matrículas;

Região Sul Fluminense

Volta Redonda: 13.485 matrículas (13.485) = -376 matrículas;
Resende: 6.594 matrículas (6.594) = + 241 matrículas;
Barra Mansa: 4.738 matrículas (4.738) = -273 matrículas.


EaD no ERJ

No segundo quadro acima é possível ainda observar a evolução das matrículas em Educação à Distância (EaD) no ensino superior no ERJ nos últimos quatro anos (2017-2020). Neste período, as matrículas em EaD se multiplicaram 2,5 vezes, saindo de 106.149 matrículas em 2017 para 259.646 matrículas em 2020. 


O aumento mais expressivo foi do ano 2019 para o ano 2020, quando da Pandemia. Saiu de 170 mil para 259 mil matrículas, um incremento de cerca de 90 mil matrículas, um aumento de mais de 50%. No ERJ, as matrículas em EaD estão majoritariamente nas IES privada (65%) e concentradas espacialmente na capital com 42% das matrículas.  

O aprofundamento da investigação deste conjunto expressivo de dados permite análise em várias outras dimensões para além da evolução do número de matrículas ao longo dos últimos dezessete anos.


PS.: Atualização às 19:20: Abaixo as tabelas com o número de matrículas presenciais e EaD em 88 dos 92 municípios fluminenses. Para ver a imagem das tabelas em tamanho maior clique sobre elas.




segunda-feira, abril 18, 2022

Nº de matrículas no ensino superior presencial cai 5% em 2020, em Campos, RJ. Porém, somado à EaD chegam a 25 mil graduandos

Este blog, há quase duas décadas, publica a evolução das matrículas nas instituições de ensino superior no município de Campos dos Goytacazes, RJ e demais municípios fluminenses. Os números têm sido tabulados, em trabalho dedicado e pesado feito exclusivamente para o blog (e pesquisadores que aqui colhem informações), pelo professor José Carlos Salomão Ferreira (IFF), usando a complexa "base de microdados" do Censo do Inep/MEC.

Neste último ano, o Inep atrasou muito a divulgação por conta do atraso dos calendários da IES por conta da Pandemia e assim, só há cerca de dez dias, o MEC disponibilizou os dados do Censo do Ensino Superior do ano de 2020. Normalmente, isso era feito em outubro ou novembro do ano seguinte.

Esses microdados do Censo ES trazem informações sobre os números de matrículas no ensino superior (graduação) presencial nas 12 (doze) instituições que ofertam vagas no município de Campos dos Goytacazes, RJ. E pela, primeira vez, também traz os dados sobre a Educação a Distância (EaD) no Ensino Superior por município e por instituições.

O quadro abaixo elaborado pelo professor Salomão mostra a evolução do quantitativo de matrículas presenciais no município desde 2003 até 2020, a tabulação do quantitativo de matrículas pelas IES públicas e pelas IES privadas e também o número de matrículas em EaD, em Campos dos Goytacazes, RJ, o principal polo de ensino superior no interior e para além da região metropolitana do ERJ. Para ver a imagem do quadro em tamanho maior clique sobre ele:



Pelo quadro/tabela acima é possível identificar e destacar várias questões que merecem comentários:

1) Uma queda de 5% em relação ao número de matrículas do ano de 2019, embora, seja uma redução até pequena, se considerarmos a ocorrência da Pandemia, oficializada em março de 2020. Em números absolutos, a queda foi de 987 matrículas. Caindo de 19.037 matrículas em 2019, para 18.050 universitários na graduação presencial, em 2020, no município de Campos dos Goytacazes, RJ. Se forem acrescidos a estes números, as 7.339 matrículas na Educação à Distância (EaD) elas totalizaram 25.389 graduandos em 2020 no município.

2) A queda de matrículas de 2020 em relação a 2019, em Campos dos Goytacazes, RJ, ocorreu em oito instituições do total de doze instituições de Ensino Superior no município. O número caiu mais nas IES privadas (desceram de 10.487 universitários para 9.543 matrículas). Já nas quatro instituições públicas o número de matrículas regrediu menos, de um total de 8.550 para 8.507 universitários. O IFF perdeu 251 matrículas, mas foi compensado, em parte pela UENF que cresceu 199 matrículas As variações foram pequenas na UFF e no Isepam. Entre todas as IES no município, as que mais perderam matrículas foi a UCam (-468) e Isecensa (-230).
 
3) Em termos percentuais o crescimento das vagas nas instituições públicas subiu para 47%, quando em 2003 era de apenas 17%, ao passo que nas instituições privadas reduziu de 83% para 53%, embora ainda seja maioria no município de Campos dos Goytacazes, assim como em quase todo o país.

4) Considerando o enorme desmonte que vem sendo implementado nas instituições públicas de ensino superior em todo o Brasil, desde o golpe político de 2016, com redução de orçamento para investimentos, custeio e bolsas, o fato merece registro e demonstra, não apenas a capacidade de resistência institucional, mas a disposição de atender à sociedade, a despeito do pouco caso dos gestores do Ministério da Educação (MEC) do desgoverno Bolsonaro.

5) Voltando à quantidade de matrículas no ensino superior em Campos dos Goytacazes, em 2020, o Instituto Federal Fluminense (IFF) continua sendo a instituição com maior quantidade de matrículas com 3.560 universitários, embora tenha perdido 251 alunos em relação a 2019, quando já tinha perdido 72 alunos em relação a 2018. Essa liderança foi alcançada no ano de 2017, quando o IFF ultrapassou pela primeira vez, a Estácio de Sá, para se tornar a instituição com o maior número de matrículas na graduação presencial no município de Campos dos Goytacazes, RJ. A Estácio continua sendo a instituição com o segundo maior número de universitários em Campos dos Goytacazes, tendo inclusive ganhado 109 matrículas em 2020, em relação a 2019, chegando assim a 2.776 universitários, seguido de perto, em terceiro lugar pela UFF-Campos que em 2020 a 2.453 graduandos.

6) Ainda pelo Censo 2020 (MEC/Ineep-2020), no município de Campos dos Goytacazes, a ordem do maior número de matrículas em Campos dos Goytacazes, RJ, teve alterações a partir destas três maiores IES já citadas: 4) a UENF com 1.911 matrículas (+199 universitários); 5) Isecensa com 1.668 (-230 matrículas); e 6) UCam com 1.659 universitários; 7) Uniflu 1.053 graduandos (-127 universitários); 8) Universo 1.047 matrículas (-64 estudantes); 9) FMC com 890 matrículas (+41 estudantes); 10) Isepam com 583 matrículas (-2 estudantes); 11) Redentor com 398 matrículas (-160 estudantes; e 12) FABERJ (Batista) com 52 matrículas (-25 estudantes).

7) É oportuno ainda observar o total de graduandos no município de Campos dos Goytacazes, RJ. Juntando o número de matrículas de cursos de graduação presencial em Campos (18.050) com o número de matrículas em Educação à Distância no município (7.339) se chega a um total de 25.389 graduandos no município. Aqui é bom explicar que o número de matrículas em Campos em EaD não são necessariamente destas 12 IES que atuam fisicamente no município. Apenas 4 delas possuem matrículas em EaD no município: Estácio EaD (3.150 matrículas); UCam (399 matrículas); Universo (171 matrículas) e UENF (25 matrículas). Além destas 4 ofertantes de EaD no município há 30 outras IES que possuem alunos matriculados em Campos dos Goytacazes. Vale destacar a UNOPAR-Pitágoras-Anhanguera com 1.356 matrículas e a UNIASSELVI de Santa Catarina com 711 matrículas.

8) Por fim, é possível ainda estimar que juntando aos números de matrículas nas graduações presenciais, mais as matrículas em EaD e ainda as matrículas nos cursos de pós-graduação (especialização, mestrado e doutorado), estimadas em cerca de 5 mil, o número total de estudantes universitários no município de Campos dos Goytacazes deve estar se situando na faixa das 30 mil matrículas. [6] [7] [8] [9].

9) É necessário observar os dados do próximo Censo ES (2021) para ver se há grandes alterações, por conta da extensão de mais um ano atingido pela Pandemia. De qualquer forma, vale registrar, em ano de debates e eleições gerais no Estado e no país, que este segue sendo um dos importantes potenciais a ser utilizado para pensar o território e a região. 
Embora, não se deva considerar matrículas em IES com com atuação em pesquisas e extensão, características das universidade e feitas especialmente, nas IES Públicas e, só pontualmente, nas IES provadas. 

É ainda interessante ainda observar a estabilidade destes números e que esse quadro resista à debacle da economia petrorrentista em decadência desde 2015 na região Norte Fluminense.
Adiante, o blog pretende publicar, como faz nos anos anterior, o quantitativo de matrículas no ensino superior (graduação) presencial em todos os municípios do ERJ. Abaixo nas referências, o blog lista os links das postagens anteriores sobre o quantitativo de matrículas em Campos dos Goytacazes, RJ e comentários.


Referências:

[1] Postagem do blog em 1 de novembro de 2202. Nº de matrículas no ensino superior presencial cai 4% em Campos, RJ, mas com ligeiro aumento nas instituições públicas. Disponível em: http://www.robertomoraes.com.br/2020/11/n-de-matriculas-no-ensino-superior.html

[2] Postagem do blog em 22 de setembro de 2019. Nº de matrículas no ensino superior presencial se estabiliza em Campos nos últimos 4 anos: percentual aumenta nas públicas. Disponível em: http://www.robertomoraes.com.br/2019/09/n-de-matriculas-no-ensino-superior.html

[3] Postagem do blog em 23 de setembro de 2018. Apesar da crise, as matrículas no ensino superior em Campos se estabilizam em 20 mil graduandos. Disponível em: http://www.robertomoraes.com.br/2018/09/apesar-da-crise-as-matriculas-no-ensino.html

[4] Postagem do blog em 11 de novembro de 2017. Censo do Ensino Superior 2016: Campos com 19,8 mil universitários. E a qualidade? Disponível em: http://www.robertomoraes.com.br/2017/11/censo-do-ensino-superior-2016-campos.html

[5] Postagem do blog em 8 de dezembro de 2017. Entre 2003 e 2016, as matrículas no ensino superior no ERJ cresceram 36%. Nas instituições públicas cresceram (82%). Mais de três vezes que (25%) o crescimento nas instituições privadas. Disponível em: http://www.robertomoraes.com.br/2017/12/entre-2003-e-2016-as-matriculas-no.html

[6] Postagem do blog sobre o Censo no anos anteriores. Em 23 nov. 2016.
Campos aumenta nº estudantes no Ensino Superior para 19,3 mil matrículas. Disponível em: http://www.robertomoraes.com.br/2016/11/campos-aumenta-n-estudantes-no-ensino.html

[7] Postagem do blog em 1 de mar. 2016. Campos possui 18 mil alunos no Ensino Superior. Disponível em: http://www.robertomoraes.com.br/2016/03/campos-possui-18-mil-alunos-no-ensino.html

[8] Postagem do blog em 18 de ago. de 2015. Ensino superior em Campos perde 4 mil matrículas em 5 anos. Disponível em: http://www.robertomoraes.com.br/2015/08/ensino-superior-em-campos-perde-4-mil.html?m=1

[9] Postagem do blog em 31 jul 2015. Campos tem 17,1 mil alunos matriculados no Ensino Superior. Disponível em: http://www.robertomoraes.com.br/2015/07/campos-tem-171-mil-alunos-matriculados.html

quarta-feira, abril 13, 2022

A ilusão da democracia digital diante do peso do dinheiro e da plutocracia

O peso do dinheiro nas redes sociais ainda é muito pouco percebido. São trilhões de dólares girando entre corporações e interesses financeiros. Geralmente, permanece uma falsa ideia de que a tecnologia é democratizante, por envolver cada vez mais usuários (sim, como no caso das drogas).

Pura ilusão diante das centenas de "fazendas de likes", ações de "impulsionamentos de conteúdos", uso de robôs, controle e espionagem digital entre outros artifícios regiamente pagos que expõem a assimetria entre os interesses de usos digitais.

Hoje, as agências de publicidade (formais e informais) ganham mais que antes na intermediação de informação, a partir das Big Techs, atuando na compra e venda de dados de segmentos sociais específicos do interesse de anunciantes (políticos e donos de produção e serviços) como estratégia de comunicação para chegar até ao consumidor.

Não adianta olhar o passado antes da internet quando os negócios ou a política funcionavam sem captura de dados dos potenciais interessados. Antes a comunicação era ampla para atingir a massa. Hoje, com a mineração de dados, ela permite identificar ideologia, o perfil de consumo, o hábito das pessoas, etc. para assim melhor direcionar a mensagem.

No ambiente web, o arranjo de comunicação distribui acessos e envio de mensagens em redes distribuídas, mas o resultado desse controle maciço de metadados vem está sendo a fragmentação, que envia aos guetos (bolhas) só acessíveis para quem controla os fluxos de informação.


O uso que a extrema-direita faz das ferramentas digitais: agentes, processos e estratégias

A extrema-direita tem usado todas essas ferramentas digitais sem pudor e nem culpa e só se preocupa com manifestações de rua, quando é para produzir imagens e estéticas com poder de multiplicação política em seu campo de atuação.

Quem tem dinheiro, quase sempre não tem pudor e nem escrúpulos (ou princípios) e acaba fazendo o que quer nas redes transformando o ambiente nas ruas e a temperatura na política. O livro do italiano Giuliano da Empoli “Os engenheiros do caos” nos deu uma pequena amostra de como esse processo se desenrola em diferentes partes do mundo. [1]

Twitter, Facebook, Instagram, Google, WhatsApp (esse surgiu há pouco mais de sete anos) são plataformas digitais que atuam como instrumentos e meios de comunicação, onde o dinheiro age livre e fortemente. Junto e integrado às grandes mídias corporativas, essas empresas-redes sociais, potencializam a comunicação manipuladora que vem definindo as relações de poder na política e na disputa por hegemonia na geopolítica.

Numa dessas pontas observamos a monetização de vídeos usados nas plataformas por políticos da extrema-direita. Com milhões de seguidores, muitas vezes comprados destas fábricas de likes, evidencia a inter-relação entre a política e a economia na dupla e imbricada direção do mercado e manipulação política.

Outro agente deste processo, são as agências de publicidade ou os corretores digitais pessoais que agem a partir do conhecimento e do contato direto com representantes das plataformas digitais. Ambos, correm atrás de nacos desse dinheiro que correm entre os fluxos e os acessos digitais-financeiros. Eles valem mais que o conteúdo que transmitem. Ao final importa menos o conteúdo e mais os lucros capturados nos circuitos econômicos por onde transitam.


Economia política da informação, oligopolização e extração supraterritorial de valor

Tudo isso é ainda muito abstrato para a maioria, mesmo para aquela parcela da sociedade mais informada, mas pouco conhecedora dos meandros da economia política da informação. A economia digital-dataficada segue transformando nossas sociabilidades, subjetividades e o nosso imaginário num processo que oferece vantagens e extrai valor. [2]

Assim, as Big Techs montaram esse império digital que hoje soma valores de trilhões de dólares com um colossal poder político (e geopolítico). Exercem na prática, uma dominação neocolonialista oligopólica que atua de forma transfronteiriça, supraterritorial e supranacional no sistema-mundo (Wallerstein, 2007). [3] Dominação com centro de poder ainda mais concentrado e com enorme controle econômico-político-social sobre as colônias periféricas e dependentes.

A digitalização se desenvolve mais aprofundadamente há duas décadas e meia, mas dó ganhou amplitude de uso nos últimos dez anos. É preciso reconhecer que ela é altamente atrativa pelas facilidades que oferta, além de trazer embutida a ideia difusa de progresso, mesmo que discutível. Negá-la hoje seria uma aberração pueril e sem consequência.

É por conta dessa atração que a digitalização e a dominação digital conseguem capturar a nossa atenção, nosso tempo – cronofagia [4] - e também, as nossas relações sociais e políticas, transformadas em mercadoria, no processo que Eugênio Bucci (2021) chamou de “superindústria”. [5]

Esse é o caminho que leva a digitalização a avançar de forma potente sobre a extração de valor, a partir de nossos zilhões de dados, identificando nossos percursos existenciais, não para a produção de massa, mas para direcionar o atendimento aos desejos agora descobertos de nossas subjetividades e do nosso imaginário mais íntimo e muitas vezes nem identificado por nós mesmos.

Também é fato que hoje (em abril de 2020), comparado a quatro ou cinco anos antes, há muito mais pessoas acompanhando, estudando e entendendo esse processo. Pessoas que conhecem os agentes que atuam nesse circuito, investigam esses processos e que já começaram a compreender as estratégias que estão sendo executadas pelos proprietários destas empresas-plataformas que em última instância acumulam mais capital na direção de um “hipercapitalismo”. [6]

Há ainda muitas experiências em curso do tipo “contra-hegemônicas”. Elas buscam alternativas à plutocracia que se expande e vem unindo a dominação digital/reestruturação econômica (plataformismo), à ideologia neoliberal, reforçando a hegemonia financeira, em novo desenho da superestrutura do capitalismo contemporâneo.

Será no meio deste imbróglio que se haverá de buscar alternativas para reduzir as desigualdades em nações e sociedades menos submissas e dependentes que tenha em vista um mundo multipolar e sem hegemonias.

Os caminhos continuarão a ser feitos no caminhar. Há mais perguntas e dúvidas que respostas. Porém, há direções que precisam ser interrompidas, para podermos voltar a falar em civilização e na luta por autonomia e bem-estar.

Referências:

[1] DA EMPOLI, Giuliano. Os engenheiros do caos. Como as Fake News, as teorias da conspiração e os algoritmos estão sendo utilizados para disseminar ódio, medo e influenciar eleições. Editora Vestigio, São Paulo, 2019.

[2] PESSANHA, Roberto Moraes. Commoditificação de dados, concentração econômica e controle político como elementos da autofagia do capitalismo de plataforma. Revista ComCiência. Revista digital do Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo (Labjor) da Unicamp em parceria com a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC). Dossiê 220. 16 Set. 2020. Disponível em: https://www.comciencia.br/commoditificacao-de-dados-concentracao-economica-e-controle-politico-como-elementos-da-autofagia-do-capitalismo-de-plataforma/

[3] WALLERSTEIN, Immanuel. O universalismo europeu: a retórica do poder. Boitempo Editorial. São Paulo, 2007.

[4] Artigo do SCAFFIDI, Giuseppe no portal Outras Palavras: “Cronofagia: o roubo do tempo, sono e ideias”, publicado em 17 de fevereiro de 2020. Scaffidi cita Jean-Paul Galibert e seu manifesto Cronòfagi (2015), quando afirma que Galibert foi quem cunhou pela primeira vez o termo “cronofagia”, configurando-o como uma das bases de sustentação do hipercapitalismo contemporâneo. Scaffidi também se refere à influência do termo Cronofagia em outro ensaio de 2015, “Capitalism 24/7 – Il capitalismo all’attacco del sonno” [Capitalismo 24/7 – o sono sob ataque do sistema] de autoria de Jonahthan Crary, que “evidencia como uma necessidade biológica fundamental entrou em claro contraste com as exigências voltadas a alcançar a distopia de um capitalismo 24 horas por dia, 7 dias por semana”. https://outraspalavras.net/mercadovsdemocracia/cronofagia-o-roubo-do-tempo-do-sono-e-das-ideias/


[5] BUCCI, Eugênio. A superindústria do imaginário: como o capitalismo transformou o olhar em trabalho e se apropriou de tudo que é visível. Autêntica, São Paulo, 2021.

[6] HARVEY, David. A loucura da razão econômica. 1ºed, Boitempo Editorial, São Paulo, 2018.

quarta-feira, abril 06, 2022

A contradição entre interesse da Globo no PL das Fake News e objeção à regulação de todas as mídias. Reestruturação subordinada e dependente das Big Techs

É até engraçado ver a Globo defendendo hoje a votação do projeto de lei que regula as plataformas digitais no Brasil e, ao mesmo tempo, continuar considerando a regulação de suas mídias (rádio e TV) como censura.

Nem é necessário dizer que a holding Globo já fez as contas e viu que com o PL das Fake News, poderá lhe dar ganhos acima de R$ 230 milhões, ao obrigar num dos seus itens, a que o Google e o Facebook paguem pela produção jornalística no país, como já acontece na Austrália e agora acontecerá na Europa. Por isso, o tema virou manchete de uma semana para cá. A preocupação não é com a manipulação política. É grana.

Uma incoerência que salta aos olhos para inocentes, mas não para quem acompanha, minimamente que seja, esse debate sobre informações falsas (fakes) e manipulações políticas. As notícias falsas e seus impulsionamentos podem surgir nas plataformas digitais, mas também nessas outras mídias corporativas que são concessões do Estado. Na verdade, todos sabemos ser da interação das diversas mídias que o processo ganha corpo.

É surreal que se queira regulação para atender seus interesses econômicos diretos e não para controlar a atuação oligopólica executada no país pelas famílias proprietárias das grandes mídias.

É lamentável que o PL das Fake News - pela pressa de tentar evitar a Batalha Cibernética nas eleições de 2022 - não se tenha avançado para a regulação das mídias que no mundo atual atua de forma interativa e complementar.

Toda essa exposição do PL das Fake News, agora também pelas mídias corporativas, deixa evidente que o debate sobre regulação é não só necessário, mas urgente. Para todas as mídias e não apenas para as Plataformas Digitais. Fugir dele é seguir negando a civilização e namorando a barbárie.

A comunicação de massa em todas as direções e categorias de mídia atua de forma integrada neste mundo não apenas digitalizado, mas dataficado. E neste sentido, a propriedade das empresas-plataformas (estados-plataforma) de redes e mídias é apenas a ponta do iceberg.

Não é por outro motivo que se deve observar com cuidado os acordos já firmados entre a Globo e o Google. De um lado, a Globo quer o PL das Fake News para ficar com uma parcela dos lucros da Big Tech americana, mas de outro quer exercer também a captura de dados sobre os conteúdos que circulam nas redes sociais no Brasil.

Não duvidem que o passo seguinte depois de pegar carona no PL das Fake News para receber pelos seus conteúdos (o que é legítimo), será o de também trabalhar para limitar o espaço da mídia independente no Brasil que usa em especial o Youtube que é da gigante Google. Para isso, não precisará do Congresso, basta a programação de algoritmos da Big Tech.

 

As players da mídia corporativa no Brasil se reestruturam para participar de forma ainda mais subordinada e dependente da comunicação digital global das Big Techs

Este caso do PL das Fake News serve também para ampliar a observação sobre a fase que nos encontramos do “capitalismo digital-dataficado” com o seu enorme poder de extração de dados dos usuários. Realidade que significa maiores ganhos financeiros e representa também maior concentração de poder político.

O que a holding Globo já está fazendo é saltar da fase de ganhos de publicidade e financeiros na economia nacional, para uma nova etapa de ganhos percentuais daquilo que é obtido pelas gigantes empresas digitais do ocidente.

A Globo S.A. e demais players da comunicação do Brasil estão correndo para ficar com um naco de valorização e capitalizações das Big Techs dos EUA que batem seguidos recordes, em valores de mercado, que chegam a alguns trilhões de dólares para cada uma delas. Sobre o assunto vale conferir texto que escrevi há um ano sobre acordo da Globo S.A com a Big Tech Google: (8 abr. 2021: Globo & Google: de tubarão nacional a sardinha global da gigante de tecnologia: http://www.robertomoraes.com.br/2021/04/globo-google-de-tubarao-nacional.html)

Esse caso serve ainda para observar melhor a reestruturação (vide artigo sobre balanço da Globo Comunicação e Participações S.A.: Tombo da Globo segue espetacular e fecha 2021 com prejuízo de R$ 174 milhões!) desta player da comunicação corporativa do Brasil.

Ela é parte da reestruturação capitalista no setor de mídia global com enorme concentração no centro do capitalismo ocidental (nos EUA) através das Big Techs que vem acompanhada de dependência e subordinação na comunicação na periferia do Sul Global.

As Plataformas Digitais são simultaneamente “meios de comunicação” e “meios de produção”. Elas exercem o papel de intermediação sobre a informação ou sobre a produção e os serviços. E daí extrai seus lucros.


Globo S. A. e Big Techs: tudo a ver! 

A comunicação e o extrativismo digital trabalham sem limites de fronteiras como o capitalismo financeiro do qual são partes. Assim, quanto mais acessos e conteúdo, mais extração, mais ganhos, mais financeirização, mais acumulação e mais poder de comunicação e manipulação política.

É disso que se trata os interesses dos proprietários da Globo S.A. e demais donos da mídia corporativa no Brasil. Se pendurarem nas Big Techs para ampliar seus controles sobre a informação no Brasil e aumentando seus faturamentos por um percentual dos ganhos destas gigantes de tecnologia do Ocidente.

Essa é a estratégia do Partido da Mídia, sem nenhuma preocupação com os interesses da nação e sua soberania, para o qual afirmam se tratar de conversa ideológica, enquanto se movem atrás da ideologia dinheiro. Assim, seguem atuando a favor unicamente dos seus interesses, como se fossem os interesses nacionais. Desta forma, articulam e buscam ainda mais poder político nacional, num processo que se alinha à estratégia de mais submissão e dependência dos interesses das grandes corporações, do sistema financeiro e da geopolítica ocidental centrada na OTAN, no Deep State dos EUA.

sábado, abril 02, 2022

Tombo da Globo segue espetacular e fecha 2021 com prejuízo de R$ 174 milhões!

Breve histórico de resultados: a Globo saiu de lucro líquido de R$ 1,8 bilhão (2017); R$ 1,2 bilhão (2018); R$ 752 milhões (2019); R$ 167 milhões (2020), para um prejuízo de R$ 174 milhões em 2021, tendo registrada uma dívida de R$ 5,89 bilhões.

De certa forma, uma trajetória equivalente à economia do Brasil pós-golpe, mesmo com o violento corte de custos e demissões de pessoal que vem implementando, a ponto dos seus gastos com salários em 2021 terem sido de apenas R$ 41 milhões, refletindo a conhecida e grande Pejotização. Certamente, não é coincidência. Globo e golpe tudo a ver!

O prejuízo de 2021 da Globo, se dá mesmo com aumento da receita para R$ 14,4 bi e da demissão de milhares de trabalhadores. Essa receita, 15% superior a de 2020, é oriunda ainda, em boa parte, da publicidade em TV aberta, fechada e digital e também do crescimento da base de assinaturas na Globo Play de 33%.

Como receitas extras em 2021, a Globo teve as seguintes vendas de ativos reais: a) Som Livre para a Sony por R$ 1,4 bilhão; b) Datacenter por R$ 300 milhões; Base territorial e torres de transmissão por R$ 200 milhões; além de complexo de prédios, inclusive a sede em SP (sendo agora inquilina), por mais de R$ 500 milhões que perfazem um total - já recebido - de R$ 2,4 bilhões, valor quase equivalente ao seu caixa no último dia de 2021.

Parte das receitas que diminui o impacto do prejuízo vem de aplicações financeiras, embora menores que esta categoria de despesas, com juros dos empréstimos, mais os rendimentos do seu obscuro Fundo Globo Venture que controla cada vez mais ativos financeiros e menos ativos reais.

PS.: Dados extraídos dos relatórios anuais da Administração da Globo Comunicação e Participações S.A. (2017-2021). Nas Informações Gerais do Relatório da Administração de 2021, a direção da Globo informa que “o prazo para apresentação do próximo pedido de renovação expira em outubro/2022”.

PS.: Atualizado às 18:34 de 03/04/22:

Recebi com agradecimento uma crítica de que a análise era simplista. Chegou por terceiros pela via dos grupos e comentários de whatsapp, mas resolvi trazer para este espaço de forma aqui ampliada, a minha reposta, que não teve a intenção de retrucar, mas a de trazer mais alguns elementos para o debate.

Concordei com a crítica, mas fiz algumas considerações. Na nota original eu deixei de tratar da questão das plataformas digitais, da ampliação da digitalização e papel das redes sociais e do crescimento do uso do "streaming" x TV aberta e fechada (cana). 

Porém, não se pode esquecer que por conta tanto da questão financeira, fruto da crise e do golpe, a Globo já avançou no “streaming” da Globo Play, já fez acordo com a Google, mas segue patinando no resultado geral. Vale ainda lembrar que mesmo antes do período citado, o resultado positivo da Globo era em boa medida reflexo das aplicações financeiras.

Há ainda que considerar que existe todo um contexto sobre esses últimos resultados da holding Globo S.A, mas não tem como não levar em conta, a aposta golpista feita pelos Marinhos.

Aliás, não tem também como lamentar o mal produzido pelo oligopólio (quase monopólio) exercido por décadas na TV aberta, sem regulação. Mesmo diante do que deve ser considerado como positivo, em termos de cultura, produzido pelo grupo.

A análise mais geral, inclusive deste paradoxo, exigiria um texto mais longo e de pessoas que acompanham mais diretamente o tema, onde a financeirização mais recente, não é um detalhe.

A postagem, fundamentalmente - com exceção da participação no golpe, aliás como em 64 - traz dados sobre o Relatório de Administração, que a matéria do Valor (jornal do grupo – vide aqui) sobre o tema, escondeu. Aliás, a matéria do Valor realça o aumento de receita de publicidade na ordem na TV Aberta, Fechada e Digital.

Há diferentes enfoques para quem investiga relatórios de grandes corporações. Há quem observe mais a corporação e suas potencialidades. No caso da Globo, o seu modelo de negócios, diante da Economia de Plataformas que é um processo global, como todos sabemos.

O outro enfoque é pensar a corporação e seu papel para a nação. Forma de seus proprietários agirem, muitas vezes como partido político e com olhar para os seus interesses.

É nesse contexto que se observa a aposta política dos proprietários Marinhos que construiu as bases desses últimos resultados. Eles Levaram 3/4 anos trabalhando para a Lava a Jato, o golpe e depois a eleição em 2018. Entre 2014 e 2021 são 8 anos. Tempo exato em que a transformação digital se intensificou e foi derrubando o castelo de negócios do grupo. Porém, o foco do grupo midiático-financeiro, era trabalhar pelo poder no Brasil. Enquanto isso...

segunda-feira, março 14, 2022

Live sobre "Financeirização, Fundos de Investimento e Guerra Financeira" no Diário da Crise do Eduardo Costa Pinto (IE/UFRJ)

Na última sexta-feira (11/03), atendendo a um convite do professor Eduardo Costa Pinto, eu participei do Diário da Crise, programa nº 95, no canal do IE/UFRJ). O tema foi "Financeirização, Fundos de Investimento e Guerra Financeira", o último episódio de um curso, bastante interessante, com 3 outras lives de um curso que o seu canal ofereceu sobre financeirização.

Tratamos mais longamente sobre a potência dos fundos como importante instrumento da hegemonia financeira (e arma de guerra, armamentizaçao das finanças) no capitalismo contemporâneo. Abaixo o link para aqueles que se interessam sobre o tema.

Um diálogo muito agradável em que pude tentar fazer uma síntese, apresentando e debatendo, dados atualizados que estão presentes no meu livro "A ´indústria´dos fundos financeiros: potência, estratégias e mobilidade no capitalismo contemporâneo", realçando e argumentando, porque em minha opinião, os fundos financeiros e a intensificação da financeirização (hegemonia do capital financeiro) não devem ser vistos desvinculados dos ativos reais (produção material), em suas diversas frações, onde realizam enorme captura de rendas num processo de "vampirização".

Tentei mostrar como os processos de valorização (circuito do valor) e capitalização (circuito da financeirização) ocorrem de forma simultânea, conferindo fluidez e hipermobilidade ao capital, numa estratégia que estão tornando (desde 2008, em especial) ainda mais potentes, os fundos financeiros que assim lubrificam a financeirização que hoje se tornou hegemônica no capitalismo contemporâneo. 

Há muito ainda a ser investigado nos circuitos financeiros globais e nacional, estudado os seus alcances, agentes, processos e estratégias no capitalismo atual. Os fundos compreenderam o "jogo das escalas", ganharam agilidade para se enraizarem e desenraizarem (em capital fixo no território, como ativo real), em processo de valorização e como se moverem com enorme fluidez entre frações do capital e espaços (territórios) intra e entre nações, assim como se expandir em inovações financeiras em processos de capitalização que se movimentam de forma simultânea e complementar. Os argumentos e leituras estão abertas ao debate.



quinta-feira, março 10, 2022

A guerra financeira das sanções já afeta os maiores fundos globais e ampliará a crise

A guerra EUA-OTAN x Rússia tem três dimensões ou elementos que se interagem transversalmente, conforme o nível da disputa das relações de poder envolvida. 1) Guerra tradicional/híbrida; 2) Financeira/sanções; 3) Cibernética e digital.

Assim, como em outras guerras, começa pela primeira dimensão e depois oscila também para as demais que antes ou não existia (cibernética) ou era menos importante, como a econômico-financeira, nestes tempos de mercados e finanças globalizadas.

Não é difícil perceber que estamos agora  no auge da dimensão das sanções financeiras, a maior já havida até hoje em conflitos no planeta. E tem os EUA na cabeça que é quem controla a moeda de conversão e de comércio mundial e assim, a grande maioria dos fluxos da financeirização ao nível global, agindo contra uma grande potência, porque em suma se trata de uma guerra EUA x Rússia. Sendo assim, não se pode deixar de observar que na cabeça da financeirização global estão os maiores fundos financeiros globais. 


Os fundos de investimentos lubrificam a financeirização que se tornou hegemônica

Dos dez maiores, nove são dos EUA, alguns em parcerias com grande financistas do Reino Unido. No topo desta lista é o conhecido fundo americano, Black Rock, criado em 1990 e que hoje controla volume de ativos superior US$ 9 trilhões, cerca de 15 vezes o confisco que os bancos americanos fizeram das reservas russas e quatro vezes mais o PIB russo.

Já tratei no meu livro “A ´indústria´ dos fundos financeiros: potência, estratégias e mobilidade no capitalismo contemporâneo”, editora Consequência, 2019, que os fundos de investimentos, controlam de forma crescente (em especial, depois da crise do subprime, em 2008/2009), tanto os ativos reais (produtivos), quanto ativos financeiros (títulos, papeis, ações, mercados futuros, etc.), em nações de todos os continentes do mundo. Assim, o instrumento dos fundos são hoje responsáveis, em boa monta pela acelerada financeirização ao nível global.

Nesse sentido, podemos afirmar que os fundos lubrificam a financeirização que contribuiu em boa parte pela hegemonia no capitalismo contemporâneo, globalizado que agora é colocado em xeque no confronto direto entre duas potências mundiais: EUA x Rússia.


Os fundos + digitalização ampliaram a fluidez e a mobilidade setorial e espacial do capital

Os fundos financeiros com o auxílio indispensável do avanço das tecnologias digitais (TIC) deram fluidez e mobilidade ao capital, seu desejo quase utópico de circulação sem controles ou regulação. O capital ganhou uma hipermobilidade, tanto setorial (Inter setorial entre setores e econômicos e entre os ativos reais e os financeiros), quanto espacial, entre EUA, Moscou, Hong Kong, Brasil, etc., onde se localizam os ativos destes potentes fundos.

Sem o avanço da “dominação digital” não seria possível a velocidade e densidade destes fluxos financeiros instantâneos, pelo menos, na proporção que enxergamos hoje no capitalismo contemporâneo.

Uma hipermobilidade, mas de controle centralizado. A ponto de seus proprietários, em acordo com o poder político (e geopolítico) poderem confiscar e interromper fluxos financeiros de terceiros, unilateralmente, no interior do sistema inventado pelos europeus, que o professor Fiori denominou como “Sistema Interestatal Capitalista”.

A guerra financeira, os fundos, o sistema interestatal e a disputa por hegemonia

Os fundos de investimentos também investem na economia da guerra e das armas, embora pouco se fale disso. Porém, a repercussão das sanções econômicas não são simples de serem medidas e nem compensáveis. 

A Ucrânia e seu povo sofrem essa disputa, que nessa fase se fortaleceu em termos geoeconômicos, mesmo que em meio a movimentos geopolíticos cujos resultados só adiante serão percebidos.

É nesse contexto que o freio dos fluxos financeiros, o abandono de empresas e ativos na Rússia, os bloqueios de suas exportações de petróleo e minerais, as consequências da interrupção no fornecimento de insumos e interrupções, as quebras de várias cadeias produtivas regionais, etc. já produzem impactos para as pessoas, nações e para esses grandes fundos globais que possuem controle centralizado nos EUA.  

A guerra financeira nunca terá uma direção única como o de uma bomba. Como a globalização os ativos estão interligados, a explosão vai em várias direções e em efeitos sinérgicos. Os custos das pessoas e das empresas já aumentaram com energia e com alimentos. Junto puxa a inflação nos diferentes países, mesmo que em proporções distintas decorrentes dos impactos diversos em cada cadeia, mas em todos, fortemente influenciados pela energia e alimentos.

Assim, a recessão tende a se ampliar também com a redução da produção e do comércio. É nesta toada que os ativos (reais ou financeiros) perderão igualmente, como valor real. É certo que a periferia sempre perderá mais, porque não detém os meios que as finanças centralizadas dispõem.

A guerra sempre tem um grau de irracionalidade que depois os líderes tentam superar. Porém, já é possível perceber que a globalização sofre um freio com esse fenômeno da guerra EUA-OTAN x Rússia. As nações tendem a olhar mais para dentro, para suas defesas e para as suas necessidades estratégicas. É óbvio que isso não interessa aos fundos financeiros globais. E se é verdade que a guerra financeira afeta os fundos globais ela também afetará os fundos financeiros regionais que aos globais estão imbricados.

Os fundos com suas plataformas digitais ‘online’ que funcionam 24 horas, monitoram todos os movimentos do mercado em que atuam e já devem identificar as tendências. Onde os fluxos se reduziram, foram trocados, os by-pass criados, etc. Geoeconomia determinando nova geopolítica. Por isso uma guerra entre potências (EUA x Rússia) não tem como não ser vista como um conflito de proporções globais

O Black Rock possui a potente plataforma Aladdin com trabalho de equipes com milhares de economistas, matemáticos e técnicos de computação em telas de 360º. Usam IA e redes de computadores expostas em tema que monitoram simultaneamente esses dados. Observam seus efeitos em modelagens e programações de algoritmos com aprendizado de máquinas (learning machine). Não é por outro motivo que o Black Rock trabalha, essencialmente com o ETF, um fundo de índices que visa ganhar como inovação tecnológica financeira com o monitoramento da totalidade.

Os fundos chineses são poucos conhecidos e articulados junto aos seus grandes bancos estatais. Eles possuem relações com alguns destes fundos do Ocidente, mas se movimentam com lógicas distintas por isso, devem ser bem menos afetados. De novo, há que se observar a tendência do Oriente se distanciar do Ocidente não apenas por conta da russofobia.

É evidente que são grandes os temores dos proprietários destes capitais, hoje sob a gestão destes fundos financeiros gigantes que operam juntos, e em articulação, com o Estado americano.

Neste sentido, é provável que seus gestores (Larry Fink, em especial) tenham feito uma aposta com o Poder Político da Casa Branca. Uma aposta de médio prazo de olho na manutenção da hegemonia geopolítica e financeira americana, ainda muito vinculada à moeda americana.

Porém, bombas nucleares financeiras como essas das sanções gigantes que estão sendo escaladas, não são possíveis de serem modeladas antecipadamente. Seus resultados ainda estão sendo medidos. Os by-pass monitorados entre fluxos subterrâneos, mercado negro, criptomoedas e outros.

O fato é que os proprietários destes ativos dos grandes fundos globais, também estão sendo atingidos, mesmo que muito menos que as pessoas, mas tendem a reagir. Observemos, pois, os movimentos e falas dos seus líderes e, então, enxergaremos melhor, os impactos da sangrenta guerra e veremos que a crise tende a se ampliar. Apertem os cintos o hegemon pode estar à prova.

segunda-feira, março 07, 2022

Para além da diabolização do Putin, o que poderá sair da guerra EUA-OTAN x Rússia?

A guerra é cruel, violenta, sangrenta e de consequências difíceis de serem medidas, mas a diplomacia sempre se mostrou limitada para essas grandes contendas. Não há santos em disputas deste tipo, ao contrário os diabos e os demônios nascem e se alimentam de tudo isso.

O fato é que com a guerra EUA-OTAN x Rússia, ou Rússia x EUA-OTAN, Putin que já era mal visto foi ainda mais facilmente diabolizado. Em especial no Ocidente e com ajuda das redes sociais e das Big Techs americanas que entraram na disputa como braços da OTAN. Creio que Putin sabia que isso iria ocorrer. Talvez, não na proporção, quando resolveu ir para o front da guerra tradicional e mortífera. O mundo se transforma a partir daí e produz enormes consequências de médio e longo prazos, daí se compreende porque é estratégica a aliança da Rússia com a China.

As duas potências se complementam, mas a China avança no “soft power”, como poder moderador de um lado e atenuador das sanções de outro, em meio aos riscos de uma grande crise Ocidente x Oriente, ou de alternância para uma liderança mundial eurasiana. Se a premissa tem algum sentido, na aliança entre Xi Jiping e Putin, o último, já deve ter aceitado que a China possa assumir um novo papel, num mundo que não seja unipolar e sob controle da EUA-OTAN.

A história não se encerra aí, evidentemente. As sanções estão empurrando para uma desdolarização, um comércio entre grandes nações, via moedas próprias, digitais e/ou criptos, compensações e meios de pagamento em volumes nunca dantes realizados. É um processo paulatino, mas que já está sendo testado na prática, com maior volume e ajustes acordados em tempo de guerra.

A Europa que já enxerga vantagens nas relações com a China, de outro lado teme muito agora, a expansão da guerra e os riscos de um desabastecimento energético e de alimentos, além do torpedeamento de suas potentes cadeias produtivas regionais.

Os países da UE têm suportado as pressões se mantendo na OTAN, para desgastar o “vizinho” Putin, mas já deve estar repensando os riscos que tem de um lado e também do outro, assim como as vantagens que pode ter com um mundo multipolar (sem acreditar muito nisso, após sofrer duas grandes guerras), neste momento de redefinição da ordem mundial.

Enquanto isso, a Turquia que é membro da OTAN, parece enxergar mudanças neste pêndulo, não apenas se oferecendo para moderação, mas indo um pouco mais longe, ampliando conversas e negócios com ambos os lados, assim como outros países do Oriente Médio e também a asiática e grande Índia. Se este for o cenário será também grande a hipótese de Trump retornar ao poder nos EUA, após ter sucumbido à condição de "hegemon". Mas, isso já seria outra e longa conversa.

A guerra e as tragédias humanitárias vão além destes períodos de grandes embates, batalhas, transformações e sofrimento. No dia-a-dia muitas vezes eles não são enxergados e passam despercebidos. Não por maldade, mas por banalização. Realisticamente, não cabe torcida num ambiente de guerra, mas é necessário que nos esforcemos para entender o que realmente está ocorrendo.

sexta-feira, março 04, 2022

A aceleração do tempo na guerra 4.0 (EUA-OTAN x Rússia), os riscos de expansão do conflito e reflexos nas eleições no Brasil

É importante observar a aceleração dos tempos presentes na disputa EUA-OTAN x Rússia, em relação às guerras anteriores. É um processo que pode ajudar a explicar a disputa e a perda da racionalidade que pode estar delineando um quadro tenso de uma pré-3ª Guerra.

A Ucrânia foi o estopim. Tudo se desenrola numa velocidade alucinante — bem distinto dos tempos da 2ª GM —, características do mundo digital que alimenta a guerra física, financeira e de sanções, como elementos da Guerra 4.0. (Ver artigo anterior: Três principais elementos da disputa Rússia x OTAN).

Não estou me referindo apenas a velocidade de informações e contrainformações — isso já havia antes com comunicação via rádios — mas, o "time" que as nações que vão sendo envolvidas no conflito e no tempo que têm para digerir e tomar decisões, que de forma espiral pode seguir envolvendo outras nações.

Se o conflito EUA-OTAN x Rússia se alongar no tempo, esses desdobramentos se estenderão para as questões econômicas das nações, com reflexos para as eleições nacionais de vários e importantes países. Tudo isso tende a retroalimentar e ampliar espacialmente o conflito.

 

A guerra 4.0 e as eleições no Brasil

Essas hipóteses sacodem o tabuleiro e produzem instabilidades e possibilidades para que as relações internacionais e a crise EUA-OTAN x Rússia afetem as eleições no Brasil previstas para daqui a menos de sete meses. Ainda não vi e nem li comentários sobre essas hipóteses, mas creio que elas precisam ser consideradas e avaliadas.

No caso do prolongamento do conflito e expansão espacial para outros pontos da Europa é evidente que os candidatos das eleições na França e no Brasil (entre outros países) terão que lidar mais densamente com o tema das relações externas e muito provavelmente também com posições fortemente confrontantes entre os principais candidatos.

No caso de Bolsonaro, o atual presidente já começou a produzir falas conflitantes e em dissimulação sobre a guerra, aliás como faz o tempo todo em outros assuntos. Não é difícil supor que Bolsonaro queira usar o tema para esconder seus graves problemas de administração e os poucos resultados que tem para a apresentar na busca de reeleição, mesmo não tendo liderança reconhecida ao nível global.  

Bolsonaro usaria essa nova dissimulação não apenas como uma desculpa para as dificuldades de seu período de mandato, que mistura ainda a Pandemia neste bojo. Assim, pode-se ainda imaginar que o presidente poderia tentar reapresentar o “seu governo militar” como o mais apropriado ao tempo presente, permeado de conflitos entre nações, embora o que se perceba ao nível global, seja a demanda ansiosa por lideranças que possam intermediar os conflitos, atributo que Bolsonaro nunca teve, ao contrário daquilo que é reconhecido globalmente, em seu principal opositor, Lula.

O uso da guerra para alegar a paralisação da economia, a inflação, preços altos dos combustíveis (gasolina, diesel e gás), eletricidade, alimentos, etc. são fatos que fogem à realidade de um país que em quatro anos de mandato, vem observando o desmonte das políticas públicas e de piora das condições de vida, com entrega e privatização de estatais a preço vil (inclusive das fábricas de fertilizantes da Petrobras que faz agora falta), muito anos antes de espoucar o conflito EUA-OTAN x Rússia.


Entre o medo e o horror com a guerra e a demanda por uma liderança forte e moderada

Há ainda a ser considerado, o tamanho do percentual dos brasileiros que tem medo (ojeriza) à ideia de guerra. Esses podem temer ainda mais Bolsonaro e seu governo militar. Como se pode intuir, o tema tende a trazer mais um embate político entre os principais candidatos nas eleições de outubro.

Para quem está na liderança folgada nas várias pesquisas, em quadro de estabilidade, caso do Lula, nada disso interessa. Já ao presidente que vai para a disputa à reeleição nas piores condições, por má avaliação do seu mandato na história eleitoral do Brasil, o tema pode aparecer como esforço, quase desesperado, de virar o quadro com iniciativas e decisões inesperadas.

É evidente que o percentual de pessoas que possa cair nesta nova e contraditória dissimulação não é tão grande, mas devemos lembrar que as eleições contemporâneas no Ocidente tendem a ser decididas por margens pequenas de votos.

Enfim, as ameaças da guerra EUA-OTAN x Rússia para outras regiões do mundo começa a aparecer no horizonte como um grande conflito. No Brasil, estamos a menos de sete meses das eleições de outubro. Esperava-se para abril (e depois junho), as primeiras definições que produziriam reflexos para as eleições presidenciais.

Porém, esse novo cenário chega trazendo espanto e horror pelos embates e vítimas, mas também instabilidades e possibilidades de que o tema da guerra, se prolongada no tempo e espaço, possa empurrar as definições principais das eleições no Brasil, ainda mais para a reta final do pleito por conta das grandes transformações da geopolítica global.