quinta-feira, maio 28, 2020

Agora, ou se enfrenta o fascismo do BolsoMilitarismo ou o Brasil e a AL caminharão para uma teocracia miliciana-militar

Não tem jeito. A velocidade de enfrentamento entre o BolsoMilitarismo e seu contra-poder, que hoje inclui a maioria da sociedade, não tem como ser contida, sem que o autoritarismo ganhe espaço para avançar sobre os outros poderes e as instituições.

O STF e as frentes políticas não podem recuar diante das ameaças do BolsoMilitarismo tresloucado. 

As frentes políticas nunca são frutos de um planejamento, e sim, reações cidadãs e naturais de sobrevivência para enfrentar o fascismo. Em nosso caso, claramente, uma frente anti-fascista, onde cabe quem se opõe a este regime que está se formando e avançando sobre outros poderes.

O passo seguinte é uma outra coisa, mesmo que derivada desta, naturalmente.

Com o que já se sabe, está exposto e escancarado como a máquina das fake news operava (desde julho de 2018) e segue operando, financeiramente e politicamente, para atacar e agredir quem faz oposição ao Bolsomilitarismo, inclusive os ex-bolsonaristas que saíram do desgoverno.

Isso é crime. Aliás, para ser justo, aquela matéria (manchete de capa) da Patrícia Melo na FSP, entre o primeiro e segundo turno em outubro de 2018, falava exatamente disso que está no processo no TSE que pede a cassação da chapa Bolsonaro/Mourão.

Se há resistência nesse nível contra as investigações sobre a forma de atuar das milícias digitais bolsonaristas, imagine se tivesse que verificar o que vinha sendo acompanhado pelo Centro de Defesa Cibernética do Exército.

O Partido Militar se estruturou para um longo projeto de poder.

É muito triste que essa situação calamitosa deixe de lado as mais de mil mortes diárias de um total de 25 mil pessoas pessoas vitimadas, em boa parte, por esse comando genocida que desdenha a pandemia.

Os crimes estão evidentes. O país e seus ministérios parados. A execução orçamentária da maioria dos ministérios de peso, inclusive (pasmem), o da Saúde está em torno de 15% a 25% e já estamos no meio do ano e no meio do sofrimento das mortes.

Além dos crimes, esse grupo de militares que chegou ao poder, não sabe governar. Não tem projeto de governo e muito menos de nação. Abraçaram o terraplanismo, as milícias, o neoliberalismo e a uma ideia vaga e atabalhoada de uma teocracia militar para o Brasil e a América Latina.

Ou se enfrenta este devaneio ou as mortes e o caos econômico e social se ampliarão no Brasil e em toda a América Latina.

quarta-feira, maio 27, 2020

Agora o BolsoMilitarismo se defronta com o contra-poder

Não se esqueçam do haitiano na Porta do Palácio do Planalto dizendo: "acabou Bolsonaro".

Por ironia do destino, o capitão está se escorando nos generais que construíram a gênese de retomada do poder político no Brasil, exatamente, a partir das matanças do Haiti.

Pois bem, só agora, o BolsoMilitarismo começou a enfrentar o contra-poder.

A velocidade dos fatos amplia a confrontação que agora se dá, no âmbito jurídico-político, em três frentes:

1 - O inquérito com Celso de Melo que passaria - ou não - pelo Aras e iria para a Câmara aceitar ou não pedido de impeachment.

2 - A CPI da Fake News no Congresso que mesmo diversa, atua junta desse inquérito iniciado no STF por decisão de Toffoli e relatado pelo ministro Alexandre Moraes que foi para cima hoje de todas as evidências, em especial sobre o financiamento das fake news, que se trata do esquema 'Brasil 200 Empresarial' tocado pelo Instituto Brasil 200. O Alexandre Moraes mapeou isso e hoje fez buscas sobre os seus agentes que remetem à articulação entre Carlucho e Bannon.

3 - É o processo no TSE para cassação da chapa Bozo/Mourão que o ministro Luiz Barroso estaria pautando, a princípio, para julgamento em dois meses.

As três frentes no âmbito jurídico-político levam a caminhos distintos e em prazos diversos, mas têm um fim claro e parece que com apoio forte de setores que antes estavam com Bolsonaro e agora temem o caos e a ruptura com consequências graves econômicas e sociais.

O Bolso Militarismo mesmo que mais isolado, não dá sinais de que vai apenas assistir este desfecho.

Alguma racionalidade é necessária e ela está do lado da maioria que hoje passou a enxergar o risco do fascismo, da ampliação do autoritarismo.


PS.: Atualizado às 16:38: O procurador Geral da República, Augusto Aras pediu para arquivar o inquérito que é conduzido pelo ministro Alexandre Moraes no STF. Isso não paralisa o inquérito, apenas levará a que o Pleno do STF tenha que se manifestar sobre a continuidade do inquérito. Que pela conjuntura atual deve reafirmar a necessidade da investigação. E, talvez, precipitar outras decisões que viriam a seguir. A posição do Aras (PGR) é um pouco de praxe, porque o MPF, a que preside, questiona inquéritos que não sejam conduzidos pelos procuradores federais e sim, diretamente por um ministro da Suprema Corte.

PS.: Atualizado às 18:18:
Manchete do Globo Online "Queba de sigilo de suspeitos de financiar ataques ao STF inclui período eleitoral de 2018" é a que mistura (junta na prática) o inquérito do STF, que está com Alexandre Moraes, com o processo de anulação da chapa que está para ser julgado no TSE.

PS.: Atualizado às 18:22:
Revista Crusoé, blog Igor Gadelha: "Bolsonaro convoca todos seus ministros para uma reunião extraordinária neste momento no Palácio do Planalto para discutir uma possível reação às recentes decisões do STF que afetaram o Executivo". (Veja aqui)

PS.: Atualizado às 18:26
O quadro parece surreal. A fração do capital que tem peso passou a agir no tribunal e na mídia. É como na época do golpe, mas agora, às avessas, como se fosse para desfazer o que foi feito. O embate entre o BolsoMilitarismo e o contra-poder que surgiu e se articula como frente está acelerando o processo. Poder e contra-poder tentam agir no contrapé do outro. Os dois lados perceberam que não podem esperar.

Sigamos observando os movimentos dos agentes e os fatos que estão produzindo e, então, poderemos ir checkando as hipóteses. O objetivo aqui foi tentar deixar mais claro onde estamos e as variáveis. Não consigo ainda enxergar que esse contra-poder ao BolsoMilitarismo tenha clareza do caminho ou direção. Ele depende também que a frente política apareça no cenário, sem ela, eles recuarão. No momento, apenas tentam criar limites. Mas, o isolamento do BolsoMilitarismo é flagrante e intenso. Diferente de 64, neste sentido.

Boa entrevista do Roteirices com o professor João Roberto Martins-UFSCar, sobre o BolsoMilitarismo

Carlos Alberto Jr. é um jornalista que tem origem em Campos, RJ, depois trabalhou na Época, Gazeta Mercantil, Correio Brasiliense e TV Brasil, quando foi correspondente na África e onde nos encontramos em Luanda, Angola. Carlos Alberto desenvolveu ainda projetos e roteiros de cinema e atualmente, está morando nos EUA, onde edita, há cerca de um ano, o "Roteirices", um espaço com mais de 60 boas entrevistas em podcasts.

Carlos divulgou hoje, uma entrevista com João Roberto Martins Filho, professor sênior da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), sobre "o papel dos militares no governo Bolsonaro". "As recentes manifestações de generais no entorno do presidente da República levantam dúvidas sobre o comportamento das Forças Armadas no processo democrático".

Vale conferir a entrevista para compreender um pouco mais o momento atual, a forma como o BolsoMilitarismo teve origem, atuou no golpe de 2015/2016, chegou ao poder e hoje está em vias de aumentar o controle autoritário sobre os outros poderes e as instituições no Brasil.

https://anchor.fm/carlos-alberto-jr/episodes/63--O-que-pensam-os-militares-brasileiros--com-Joo-Roberto-Martins-Filho-eekm2h

PS.: Atualizado às 14:04: para corrigir as passagens de Carlos Alberto Jr. como jornalista.

terça-feira, maio 26, 2020

BolsoMilitarismo convoca a milícia para aprofundar o golpe e o autoritarismo sobre os outros poderes, as instituições e a democracia


O vídeo ao lado tem uma organização mais profissional, uma concepção e produção mais elaborada e está sendo divulgada nas redes BolsoMilitaristas de onde ele foi sacado. 

O vídeo retrata a escalada autoritária, numa nova fase do golpe, que começa lá atrás, 2013, 2016, 2018 e agora 2020. Tenta-se entrar numa nova etapa com ainda mais autoritarismo militar junto com as milícias para avançar sobre os outros poderes, as instituições e a nossa cada vez mais frágil democracia.

O BolsoMilitarismo percebe que vem perdendo a cada dia mais base política, parte crescente da mídia corporativa e até do judiciário. A disputa se acelerou e se antecipou.

O vídeo é uma prova contundente da convocação para o avanço das milícias-militares do Bolsonistão contra as instituições.

Assim, Bolsonaro mais que dobra a aposta. Junto com as milícias vai para o tudo ou nada, se aproveitando do isolamento social por conta da pandemia que impede maior resistência política à esta escala autoritária.

#ForaBolsonaro
#ForaComandoMilitar

segunda-feira, maio 25, 2020

Interessante & Inacreditável

Interessante

Interessante, o país que tem o maior número de contaminados com a Covid no mundo (EUA), proíbe que as pessoas oriundas da nação que tem a segunda maior contaminação (Brasil) entrem em seu território, enquanto este (Brasil) continua aceitando que os moradores de onde há mais contaminados (EUA) sigam entrando, normalmente, no Brasil e ainda declara que julga natural a decisão do presidente americano.
A tragédia pandêmica já é cruel demais, mas a submissão e a colonização são endemias antigas que este comando militar conhece bem.


Inacreditável
É quase inacreditável a sede de poder destes generais do comando BolsoMilitar do Planalto.
Mancham a instituição Exército e as Foças Armadas da nação.
Não é possível que os demais militares aceitem esse nível de desgoverno que estes generais haitianos foram colocando a instituição como fiadora.
Não é possível que não se envergonhem do baixo nível das relações de poder e da falta de um projeto.
Hoje, o desgoverno é fruto da mesma espinha do Exército. É para isso que queriam voltar ao poder?
Com todo o treinamento de estratégias que dizem receber, parece que não percebem que entraram numa bolha ideológica terraplanista a que se se jactam com o capitão e família.
Pior, alimentando e armando as milícias que se tornaram aliadas de primeira hora.
Está em curso um autoritarismo gradual que avança sobre as instituições e os demais poderes que acuadas pela pandemia e ainda desnorteada pelo golpe de que foram fiadoras, ainda temem cumprir seu dever de atuar, como contra-poder, que precisa garantir o mínimo de democracia na nação à beira do caos.
Na medida em que cresce o isolamento e a perda de apoio, o desastrado desgoverno BolsoMilitarista tende a acirrar a força e a relação com as milícias.
O Brasil segue, de forma acelerada, para um encontro consigo mesmo, ali, não muito longe, na próxima esquina. A história mostra que não há marcha sem contra-marchas.

sábado, maio 23, 2020

Os paradoxos de uma Justiça e um Brasil, ambos surreais

Há evidências e convicções de que Bolsonaro ameaçou sim intervir na PF em defesa dos filhos. Mas a reunião não traz provas reais, embora desnude a república militar-miliciana.

As delações e os power-points que, excepcionalmente, já serviram para trazer evidências e convicções sem provas, não vão servem mais. Perderam a serventia, porque só atendem às exceções do poder majoritário.

O STF sabe disso.

A Justiça passou a usar máscara, manteve a toga, mas só usa a venda quando convém.

Apesar de tudo isso, o momento é oportuno para que confirmemos que nós mortais devemos querer sempre que a Justiça trabalhe com provas, sem ela se faz política. E a vítima seremos sempre nós.

O método Moro desmoronou. Por óbvio, só funcionou numa excepcionalidade.

O surreal acabou por des"moro"nar evidências e convicções e assim, nos oferece provas clarividentes, sobre como as pressões e os interesses produzem os resultados para o lado mais forte.

A Pandemia? Para os genocidas é apenas um instrumento, uma "janela de oportunidades".

O Brasil segue para um encontro consigo mesmo, ali numa esquina, não muito longe.

quinta-feira, maio 21, 2020

New York Times diz que 36 mil mortes poderiam ter sido evitas nos EUA, se isolamento tivesse sido adotado apenas uma semana antes

Nos EUA, um total de 36 mil mortes poderiam ter sido evitadas se o isolamento estivesse sido adotado apenas uma semana antes. Se fosse adotado duas semanas antes, 54 mil mortes teriam sido evitadas, apenas até 3 de maio. Veja mais detalhe aqui.
Os dados e infográfico abaixo são do New York Times, que também diz que em 9 semanas, os EUA somou 38 milhões de desempregados.
Só pode ser um jornal comunista (sic).


quarta-feira, maio 20, 2020

Parcela mensal dos royalties do petróleo cai em torno de 30%

Oito dias depois que foram liberadas as receitas das Participações Especiais (quota trimestral) com redução dos repasses em até 93%, agora, as quotas mensais (maio) dos royalties do petróleo, serão depositadas amanhã (21/05), com um redução em média de 30%, em relação ao mês de abril e quase 50% em relação a maio do ano anterior de 2019.

Os dados são da ANP e foram tabulados e enviados ao blog pelo Wellington Abreu, superintendente de Petróleo e Gás da Prefeitura de São João da Barra. Os dados do quadro abaixo apresentam as quotas de 21 municípios, sendo 19 do ERJ e 2 de São Paulo. Para ver a tabela em tamanho maior clique sobre ela.

















Dentre os municípios petrorrentistas listados o que receberá a maior receita será, mais uma vez, Maricá com R$ 4,1,8 milhões, seguido de Macaé com R$ 33,1 milhões. Em terceiro, Saquarema com R$ 31,5 milhões e em quarto lugar Niterói com R$ 25,7 milhões. Campos dos Goytacazes fica com a quinta maior receita, mas com apenas R$ 16,3 milhões, que é 30,5% menor que a receita de abril de R$ 23,5 milhões, que também tinha sido menor que o mês anterior de março passado.

Como se observa mais uma vez, os municípios litorâneos dos campos de petróleo da Bacia de Santos, com maior produção do que aqueles da Bacia de Campos, já em declínio, tiveram menores reduções da quota mensal, que reflete o ainda baixo preço do barril de petróleo no mercado internacional. 

Os royalties só não caíram ainda mais por conta do câmbio e do alto preço do dólar, moeda em que é cotado o barril de petróleo para efeito do cálculo dos royalties. A situação para o mês de junho deverá se situar mais ou menos na mesma faixa do mês de maio.

terça-feira, maio 19, 2020

China atualiza sua 'Arte da Guerra (Híbrida)', por Pepe Escobar

Abaixo o blog republica (traduzido) abaixo, o artigo do Pepe Escobar que foi postado hoje no portal Asia Times (aqui) sobre os movimentos da China, diante da disputa crescente sino-americana, que eu identifico que hoje está sustentada em dois pilares: o conflito no campo da pandemia e conflito biológico (no âmbito da OMS) e a guerra tecnológica, no campo dos chips (5G e Huawei). 

Se desejarem se aprofundar sobre estes dois conflitos veja duas matérias. Sobre a disputa no âmbito da OMS, essa matéria do New York Times U.S.-China Feud Over Coronavirus Erupts at World Health Assembly aqui neste link. E sobre o conflito no campo dos chips, tecnologias e 5G, essa outra reportagem do Asia Times que é rica em Trump bets the farm on Huawei equipment ban aqui neste link. 

O texto do Pepe ajuda a compreender melhor esse contexto desta elevação das tensões políticos-econômicas. 


China atualiza sua 'Arte da Guerra (Híbrida)'
O general chinês Qiao Liang argumenta: 'Se temos que dançar com os lobos, não devemos dançar ao ritmo dos Estados Unidos'

Em 1999, Qiao Liang, então coronel sênior da Força Aérea no Exército de Libertação Popular, e Wang Xiangsui, outro coronel sênior, causaram um alvoroço tremendo com a publicação de Guerra Irrestrita: o Plano Diretor da China para Destruir a América .

Guerra irrestrita era essencialmente o manual do PLA para guerra assimétrica: uma atualização da Art of War de Sun Tzu. Na época da publicação original, com a China ainda muito distante de sua influência geopolítica e geoeconômica atual, o livro foi concebido como traçando uma abordagem defensiva, longe do sensacionalista "destroy America" ​​adicionado ao título da publicação americana em 2004.    

Agora, o livro está disponível em uma nova edição e Qiao Liang, como general aposentado e diretor do Conselho de Pesquisa em Segurança Nacional, ressurgiu em uma entrevista bastante reveladora publicada originalmente na edição atual da revista Zijing, com sede em Hong Kong (Bauhinia). 

O general Qiao não é um membro do Politburo com direito a ditar políticas oficiais. Mas alguns analistas com quem conversei concordam que os postos-chaves que ele destaca em termos pessoais são bastante reveladores do pensamento do PLA. Vamos revisar alguns dos destaques. 


Dançando com lobos
A maior parte de seu argumento concentra-se nas deficiências da indústria manufatureira dos EUA: "Como os EUA hoje podem entrar em guerra contra a maior potência industrial do mundo enquanto sua própria indústria está esvaziada?"

Um exemplo, referente ao Covid-19, é a capacidade de produzir ventiladores: “Das mais de 1.400 peças necessárias para um ventilador, mais de 1.100 devem ser produzidas na China, incluindo a montagem final. Esse é o problema dos EUA hoje. Eles possuem tecnologia de ponta, mas não os métodos e a capacidade de produção. Então eles têm que confiar na produção chinesa. ”  

O general Qiao descarta a possibilidade de que o Vietnã, Filipinas, Bangladesh, Índia e outras nações asiáticas possam substituir a mão-de-obra barata da China: “Pense em qual desses países tem trabalhadores mais qualificados que a China. Que quantidade de recursos humanos de nível médio e alto foi produzida na China nos últimos 30 anos? Qual país está educando mais de 100 milhões de estudantes nos níveis secundário e universitário? A energia de todas essas pessoas ainda está longe de ser liberada para o desenvolvimento econômico da China.”    

Ele reconhece que o poder militar dos EUA, mesmo em épocas de epidemia e dificuldades econômicas, é sempre capaz de "interferir direta ou indiretamente na questão do estreito de Taiwan" e encontrar uma desculpa para "bloquear e sancionar a China e excluí-la do Ocidente". Ele acrescenta que, "como país produtor, ainda não podemos satisfazer nossa indústria de manufatura com nossos próprios recursos e confiar em nossos próprios mercados para consumir nossos produtos".   

Em conseqüência, ele argumenta, é uma “coisa boa” para a China se engajar na causa da reunificação, “mas sempre é uma coisa ruim se for feita na hora errada. Só podemos agir no momento certo. Não podemos permitir que nossa geração cometa o pecado de interromper o processo de renascimento da nação chinesa. ”

O general Qiao aconselha: “Não pense que apenas a soberania territorial está ligada aos interesses fundamentais de uma nação. Outros tipos de soberania - econômica, financeira, defesa, alimentação, recursos, soberania biológica e cultural - estão todos ligados aos interesses e à sobrevivência das nações e são componentes da soberania nacional. ”  

Para deter o movimento em direção à independência de Taiwan, “além da guerra, outras opções devem ser levadas em consideração. Podemos pensar nos meios de agir na imensa zona cinzenta entre guerra e paz, e até pensar em meios mais particulares, como iniciar operações militares que não levarão à guerra, mas que podem envolver um uso moderado da força. ”

Numa formulação gráfica, o general Qiao pensa que, “se tivermos que dançar com os lobos, não devemos dançar ao ritmo dos EUA. Deveríamos ter nosso próprio ritmo, e até tentar quebrar o ritmo deles, para minimizar sua influência. Se o poder americano está brandindo seu bastão, é porque caiu em uma armadilha. ” 

Em resumo, para o general Qiao, “a China deve, antes de tudo, mostrar uma prova de determinação estratégica para resolver a questão de Taiwan e, em seguida, paciência estratégica. Obviamente, a premissa é que devemos desenvolver e manter nossa força estratégica para resolver a questão de Taiwan pela força a qualquer momento.”

As luvas estão descartadas
Agora compare a análise do general Qiao com o fato geopolítico e geoeconômico até agora óbvio de que Pequim responderá de igual para igual a qualquer tática de guerra híbrida empregada pelo governo dos Estados Unidos. As luvas estão definitivamente fora. 

A expressão padrão-ouro surgiu em um editorial do Global Times sem restrições : “Devemos deixar claro que lidar com a supressão dos EUA será o foco principal da estratégia nacional da China. Deveríamos melhorar a cooperação com a maioria dos países. Espera-se que os EUA contenham as linhas de frente internacionais da China, e devemos derrubar essa trama dos EUA e fazer da rivalidade China-EUA um processo de auto-isolamento dos EUA. ”

Um corolário inevitável é que o all-out ofensivo para paralisar Huawei será  counterpunched em espécie, tendo como alvo a Apple, Qualcom, Cisco e Boeing, incluindo até mesmo “investigações ou suspensões de seu direito de fazer negócios na China.” 

Portanto, para todos os propósitos práticos, Pequim divulgou publicamente sua estratégia para combater o tipo de afirmações do presidente dos EUA, Donald Trump, “Poderíamos cortar todo o relacionamento”. 

Uma matriz tóxica de racismo e anti-comunismo é responsável pelo sentimento anti-chinês predominante nos EUA, abrangendo pelo menos 66% de toda a população. Trump a apreendeu instintivamente - e a re-embalou como seu tema de campanha de reeleição, totalmente aprovado por Steve Bannon. 

O objetivo estratégico é ir atrás da China em todo o espectro. O objetivo tático é forjar uma frente anti-China através do Ocidente: outro exemplo de cerco, estilo de guerra híbrido, focado na guerra econômica. 

Isso implicará uma ofensiva concertada, tentando impor embargos e tentando bloquear mercados regionais para empresas chinesas. A lei será a norma. Mesmo congelar ativos chineses nos EUA não é mais uma proposta absurda.   

Todas as ramificações possíveis da Rota da Seda - na frente de energia, nos portos, na Rota da Seda da Saúde, na interconexão digital - terão como alvo estratégico. Aqueles que sonhavam que o Covid-19 poderia ser o pretexto ideal para um novo Yalta - unindo Trump, Xi e Putin - podem descansar em paz.       

"Contenção" entrará em overdrive. Um exemplo interessante é o almirante Philip Davidson - chefe do Comando Indo-Pacífico - pedindo US $ 20 bilhões por um  "cordão militar robusto"  da Califórnia ao Japão e pela Orla do Pacífico, completo com "redes de ataque de precisão altamente sobreviventes" Orla do Pacífico e "forças conjuntas rotativas baseadas em frente" para combater a "ameaça renovada que enfrentamos devido à grande competição por energia".

Davidson argumenta que, "sem um impedimento convencional válido e convincente, a China e a Rússia serão encorajadas a tomar medidas na região para suplantar os interesses dos EUA".


Assista ao Congresso do Povo
Do ponto de vista de grandes áreas do Sul Global, a atual incandescência extremamente perigosa, ou Nova Guerra Fria, é interpretada principalmente como o fim progressivo da hegemonia da coalizão ocidental sobre todo o planeta.

Ainda assim, dezenas de nações estão sendo solicitadas, sem rodeios, pelo hegemon a se posicionar mais uma vez em uma guerra global de “você está conosco ou contra nós” contra o terror.  

Na sessão anual do Congresso Nacional do Povo, a partir desta sexta-feira, veremos como a China estará lidando com sua principal prioridade: reorganizar-se internamente após a pandemia.  

Pela primeira vez em 35 anos, Pequim será forçada a abandonar suas metas de crescimento econômico. Isso também significa que o objetivo de dobrar o PIB e a renda per capita até 2020 em comparação com 2010 também será adiado. 

O que devemos esperar é uma ênfase absoluta nos gastos domésticos - e estabilidade social - sobre uma luta para se tornar um líder global, mesmo que isso não seja totalmente esquecido.

Afinal, o presidente Xi Jinping deixou claro no início desta semana que um “desenvolvimento e implantação de vacinas Covid-19 na China, quando disponível”, não estará sujeito à lógica das grandes empresas farmacêuticas, mas “será transformado em um bem público global. Essa será a contribuição da China para garantir a acessibilidade e a acessibilidade das vacinas nos países em desenvolvimento. ” O Sul Global está prestando atenção. 

Internamente, Pequim aumentará o apoio a empresas estatais fortes em inovação e em assumir riscos. A China sempre desafia as previsões dos "especialistas" ocidentais. Por exemplo, as exportações aumentaram 3,5% em abril, quando os especialistas previam uma queda de 15,7%. O superávit comercial foi de US $ 45,3 bilhões, quando os especialistas previam apenas US $ 6,3 bilhões. 

Pequim parece identificar claramente a crescente lacuna entre um Ocidente, especialmente os EUA, que está mergulhando de fato no território da Nova Grande Depressão com uma China que está prestes a reacender o crescimento econômico. O centro de gravidade do poder econômico global continua se movendo inexoravelmente em direção à Ásia.

Guerra híbrida? Pode vir. 

segunda-feira, maio 18, 2020

Cenários sombrios do crepúsculo do capital, por Douglas da Mata

Douglas da Mata traz uma boa análise sobre o cenário geopolítico de confrontação em que vivemos com riscos de explosão. O texto está no seu perfil do FB e é parte do que ele vem chamando do seu Diário da pandemia. Vale conferir!


Cenários sombrios do crepúsculo do capital

Há uma estranha simbiose entre a narrativa produzida pela fábrica de boatos (hoje mais um item "gourmetizado", chamado de "fake news"), o desenrolar das mudanças dos arranjos territoriais e financeiros do capital, e seus cenários políticos correspondentes, o que Marx chamava de superestrutura.

Olhados de maneira isolada, raramente percebemos a sinergia entre eles, e comumente percebe-se apenas os ruídos desse deslocamento de "placas tectônicas" do capital, que ruma para o inevitável "BIG 01", o grande abalo sísmico que está previsto para a região da falha (geológica) de San Andreas.

Esse terremoto teria proporções para separar parte da Califórnia, onde está a mega cidade de Los Angeles, transformando aquela península em ilha.

Chamo atenção aos sinais de que as "placas tectônicas" do capital rumam para um BIG ONE:

Quando um jornal como O Dia, que não é lá um veículo de densidade na abordagem de qualquer tema, assemelhando-se mais a um tabloide, traz notícia de que a China recomendou suas empresas de processamento e importação de grãos (leia-se, soja, dentre outras)a iniciar um processo de estocagem e provisão, algo soa muito estranho, e muito mais estranho é que ninguém se apavore com isso.

Ao mesmo tempo, Fiori (José Luiz) nos alerta, em veículo um pouco mais sério (blog do Nassif) que há uma escalada de gastos militares em andamento.

Vamos juntar as pontas.

A História não se repete, isso é óbvio.

Mas de tempos em tempos há eventos que guardam similaridade entre si, como se experimentássemos versões ampliadas e mais dramáticas, a partir de encadeamentos que sugerem um "método".

Todos os grandes conflitos globais, ou todas as grandes crises, sejam as econômicas e/ou sanitárias (quase sempre andam juntas) que os precederam, tiveram como apoio narrativo aquilo que eu chamo de "recrudescimento da racionalidade".

Crises econômicas sempre estão associadas, umas mais outras menos, ao abandono das soluções chamadas "racionais", e o apego quase que hegemônico das soluções do campo da "superstição", e quando eu falo de "superstição" não indico somente a questão religiosa, strictu sensu, mas a elevação, ou melhor dizendo, o rebaixamento da ciência ao nível comum da especulação.

Esse é um pilar fundamental na escalada de violência na Humanidade e sua História.

Não é por acaso que isso acontece.

Periodicamente, a História novamente nos ensina que os sistemas econômicos quando colapsam empurram as sociedades a um tipo de saída "evolucionista", grandes banhos de sangue destinados a "rearrumar" os canais institucionais que assentam aquele modo de produção em suas interfaces com tais sociedades.

Dentro dos limites dos países, há vários exemplos.

O esgotamento do modo escravagista e o acirramento com o modelo salarial industrializado que nascia, levou a um conflito devastador nos EUA, no fim do século XIX, A Guerra de Secessão.

A incapacidade da Rússia dos Romanov de deixar para trás os arranjos absolutistas e feudais, e a constante necessidade de participar das disputas hegemônicas entre as grandes potências capitalistas do início do século XX, levaram ao colapso e a Revolução de Outubro de 1917, dentre tantos outros motivos.

Processo parecido com o chinês.

Voltando ao eixo principal, é preciso estar alerta aos movimentos, embora essa atenção não sejam suficientes para cessar essa dinâmica.

Parece claro que uma grande parte do mundo escolheu, e a outra parte parece ignorar, o esgarçamento e abandono do que chamamos de processo civilizatório, compreendido como a capacidade de manter os conflitos políticos dentro de regras institucionalizadas pré-estabelecidas.

O que o governo do Bozo sinaliza é o constante desafio a qualquer lógica e bom senso, mas isso não é uma manifestação de loucura ou falta de inteligência, mas sim um ato deliberado, que se destina a provocar rupturas nas estruturas institucionais, até que elas não aguentem mais o próprio peso.

E por que isso?

É só um delírio de poder absoluto, advindo da concentração que deriva do caos?

É mais que isso.

O capital como modo de produção organizador das sociedades, na medida que ao longo de seu processo de acumulação histórica, quando nenhum outro modelo provocou tantas mudanças e nunca gerou tanta riqueza em tão pouco tempo, reificou TODAS as formas de relação humana e interpessoais.

Se colapso (do capital) traz a certeza, para aqueles que se preparam para o pós-capitalismo (os donos do capital), que os chamados sistemas de representação política, legislativos e judiciários não mais serão capazes de manter as hordas de expurgados dentro daquilo que eu chamo de "resiliência estrutural" (Marx chamava de alienação), bem como não serão mais capazes de garantir ao capital formas seguras de reprodução, principalmente na era de transição pós-capitalismo.

Nas periferias do capital, como sempre, esse processo é sempre muito mais violento e dramático, e daí a presença de déspotas como o Bozo, e a tentativa de colocar na direção dos países periféricos aqueles que aceitem essa "solução final".

Com eles (os Bozos), sem exceção, a aposta na piora e no genocídio econômico das populações, esperando que elas se lancem ao fratricídio, e que os aceitem como solução um Deus Ex Machina.

Um exemplo?

A aberração que representam as "carreatas" contra o isolamento, quando ricos e classes médias vociferam nas ruas que pobres retornem ao trabalho e ao risco de morte por contaminação.
Tal postura demonstra claramente que está em curso uma nova forma de organização social e econômica, onde os expurgados de qualquer vínculo com o mundo formal do trabalho (que aliás, se extingue irreversivelmente) serão jogados aos "leões" em nome da sobrevivência mais elementar.

Esse modelo se sustenta na economia GIG (dos aplicativos), que transforma as relações de produção conhecidas em plataformas de intermediações de serviços, onde a conhecida concorrência é elevada a antropofagia digitalizada.

Sob o manto da falácia do empreendedorismo individual, temos uma nova horda de "predadores", dispostas a devorar seus "concorrentes", e assim teremos "empreendadores".

Já no campo externo, da geopolítica, assistimos, como em outras épocas, a destruição paulatina da diplomacia, que dá lugar a violação sistemática dos princípios de coexistência.

Isso não quer dizer que a diplomacia fosse coisa de anjos, mas há uma sensível diferença entre o uso da diplomacia na defesa soberana de interesses, mas com viés de alguma preservação, e o que assistimos hoje.

Os acenos recentes indicam que a China se prepara para algo mais que as guerras tecnológicas e comerciais com os EEUU.

Não há o mais leve indício de que as potências envolvidas no Oriente Médio agora sequer finjam que desejam a estabilização naquele enclave.

Emoldurando todo esse quadro, as atuais guerras sanitárias e biológicas.

Enfim, preparemo-nos para o fim do mundo como o conhecemos.

Segundo a AIE, o uso de eletricidade cai quase 30% durante isolamento e o consumo residencial aumenta cerca de 40%

O relatório do final de abril da Agência Internacional de Energia (AIE), sobre a variação da demanda de eletricidade em alguns países, após as medidas de isolamento e bloqueio, mostram variações expressivas. As mais significativas entre as avaliadas foram: Itália -27%, Reino Unido -22% e Índia, -20%.

Fonte: IEA - https://www.iea.org/reports/global-energy-review-2020/electricity#abstract



















Um novo relatório até 11 de maio está previsto para sair na quinta-feira, 21 de maio, com dados até 11 de maio e deverá mostrar o nível de recuperação após a redução parcial do isolamento. 

Como se sabe, as maiores reduções de demandas foram no setor de serviços. Na indústria houve queda que varia por países e se verificou um maior uso residencial. Segundo o relatório, "na última semana de março e na primeira semana de abril, a demanda residencial durante a semana foi até 40% maior em certas economias europeias do que nas mesmas semanas de 2019".

Em termos de fontes de energia, uma boa novidade é que no mix de energia utilizada aumentou o uso de energia de fontes renováveis, caindo o uso do carvão na Índia e aumentando o uso do gás natural nos EUA. 

Resta saber como se comportará essa demanda após o pico do contágio e redução das atividades econômicas nos diversos países. Como já comentamos no caso das reduções de demandas de petróleo e combustíveis, eles também se situaram próximo aos 30%.

quarta-feira, maio 13, 2020

A plataformização digital da vida pós-Covid ampliará a vampirização da renda do trabalho num processo de retroalimentação do sistema

Observando o dia-a- dia é impossível não identificar que com o avanço da pandemia do Covid-19, os comportamentos individuais, sociais e corporativos explodiram o uso indiscriminado das plataformas digitais, que a maioria nem tem ideia que seja assim denominada.

Eu vinha, já desde o segundo semestre de 2019, intensificando os estudos e as pesquisas sobre o capitalismo de plataformas e a digitalização da vida social. O uso das plataformas digitais para intermediação entre negócios entre produtor e consumidor e para a captura de dados sobre os sujeitos. Postei aqui neste espaço alguns breves textos sobre o assunto. (P.e: aqui, aqui, aqui, aqui, etc.)

Pois bem, de lá para cá, os usos das plataformas digitais se multiplicam exponencialmente. Uma utilização que pode ser interpretada como quase sistêmica, embora permaneçam excludentes para uma boa parte da população que precisa de socorro para receber os R$ 600 na Caixa. Ou ainda, para “mandar os documentos pelo computador” para viabilizar suas aposentadorias no INSS. Por ali, estes, também têm recebido as primeiras ofertas de empréstimos consignados, porque as financeiras, hoje, sabem antes do cidadão, que esse algoritmo foi reconhecido como aposentado.

A digitalização da vida social entra assim na vida da maioria das pessoas, capturando dados na ânsia do capitalismo de plataformas, que separa quem tem renda para ser capturada, daqueles que são apenas números e bytes. Compras online de todo o tipo até no vizinho. Home-banking. Home-office. Netflix. Amazon Prime, YouTube, Zoom, Google, Uber, AirBNB, IFood, WhatsApp, etc. Plataformização ampla dos negócios e da vida.

O “neohigienismo” que um século depois seguirá como padrão pós-pandemia, empurrará ainda mais pessoas para o capitalismo das plataformas digitais. A sazonalidade entre isolamento e afrouxamento social que determinarão essa nova “forma societal” entre as ondas (surtos) da contaminação por regiões, serão seguidas e controladas pelos rastro de dados que deixamos pelos caminhos digitais.

Os dados exames dos contaminados já são bytes e algoritmos e estão nos bancos de dados das “nuvens” separando os “imunizados” dos doentes e dos que ainda permanecem em risco.

A plataformização digital também serve e se interliga à tecnopolítica que controla a opinião, os medos, ódios e votos dos sujeitos de uma democracia combalida. Sobre a tecnopolítica eu já havia comentado em postagem aqui no blog, em 3 de fevereiro de 2020, sobre o livro Os engenheiros do caos do Giuliano Da Empoli e os movimentos desde a política newtoniana da democracia liberal, á política quântica dos algoritmos e das fake news, que nos trouxe ao momento atual.

As inter-relações do capitalismo de plataformas são ainda mais ampla e com mais vínculos como por exemplo com a “plataforma digital dos fundos de investimentos” que alimenta a si próprio como instrumento do moto-contínuo capitalismo que engorda vampirizando as rendas (onde quer elas estejam) em processos agora automáticos de retroalimentação do sistema.  

Enfim, os que sonharam com uma tecnologia que nos levasse a uma sociedade moderna e solidária do compartilhamento, está tendo como resultado pós-moderno, o controle que sobre os indivíduos que ainda têm renda a ser sugada por ofertas de consumismo frenético.

Os demais cidadãos são os “invisíveis” que apareceram nas filas da Caixa na busca apavorada e sem alternativas por sobrevivência material e assim, sofrem o riscos de serem as vítimas do eugenismo BolsoMilitar da necropolítica do presente no caso do Brasil.

Para encerrar, é ainda impressionante observar que nem o esgarçamento societário com o isolamento físico-social que sofremos no presente, no auge desta pandemia, parece capaz de deter o monstro que se agiganta morro abaixo alimentado pela digitalização interessada sobre as nossas vidas pessoais e sociais.

segunda-feira, maio 11, 2020

Petrobras é a petrolífera mais desvalorizada no mundo em 2020 na Bolsa Nova York: -60,41%

O resultado é fruto do levantamento feito pelo Boletim Ineep do Mercado Financeiro na última semana: 30/04 a 07/05/2020, com dados da Bolsa de Valores de Nova York, EUA. No levantamento desta última semana, a Petrobras também foi a petrolífera que mais perdeu valor: -8,39%.

O Instituto de Estudos Estratégicos de Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis(Ineep/FUP) apresenta um quadro com e um gráfico do índices das ações na Bolsa de Nova York, de nove petroleiras. Além da estatal brasileira estão listadas as americanas: Chevron e Exxon; a francesa Total; a britânica BP; a anglo-holandesa Shell; a norueguesa Equinor; a italiana ENI; e a chinesa Sinopec.

A variação desde janeiro varia de 18% da Sinopec à -60% da Petrobras. O fato ajuda a mostrar o que as duas últimas direções da Petrobras promoveram desmontando a estatal que se tornou uma companhia desintegrada e completamente vulnerável às oscilações internacionais - incluindo a pandemia -, ao contrário do que acontecia antes, quando a corporação atuava do poço ao posto, podendo auferir vantagens financeiras das diferentes etapas de sua cadeia de negócios.


sábado, maio 09, 2020

“O mundo nos tenebrosos horizontes de 2020” por Emilio Gennari


A conjuntura complexa e instigante em que vivemos exige análises setoriais e regionais, mas também análises mais amplas e estruturais. É neste contexto que o blog sugere a leitura do texto “O mundo nos tenebrosos horizontes de 2020” do educador popular, Emilio Gennari. 

O autor faz uma interessante análise sistêmica e numa perspectiva totalizante sobre a crise contemporânea do capitalismo, em que o autor nos lembra bem que a crise atual é anterior à contaminação da Covid e que com ela se agrava. E também recorda que a crise não é igual nem em termos espaciais e nem de classe. É bom ainda que a análise tenha sido feita, a partir de um olhar do sul global, embora sem deixar a perspectiva totalizante.

É uma análise fortemente subsidiada e referenciada em fatos e com descrição de alguns agentes que ajudam a explicar os processos em curso. No terço final do texto, o autor remete à uma necessária análise sobre a superestrutura e como ela se coloca no interior deste processo de acumulação sistêmica, através de um esgarçamento civilizatório. 

Esse texto, me fez lembrar do Arrighi sobre os movimentos na pirâmide do capital entre a base e o andar das altas finanças, recolhendo os excedentes. Numa análise que nos ajuda a explicitar como as contradições do sistema apontam a “destruição criativa” – que a pandemia acelera – funciona como o seu “modus vivendi”.

O Gennari também trata de um tema a que estou me dedicando a “plataformização dos negócios através da ampliação da digitalização da vida social”. Esse processo vem ganhando enorme expansão com o isolamento físico derivado do combate à Covid, que ainda assim garante o fluxo de boa parte dos capitais.

E, ao final, como não existe economia sem política, usando a Economia Política, o autor nos mostra como os riscos do autoritarismo tendem a avançar para garantir mais “uma nova rodada de neoliberalismo”.

 Em meio à fragmentação do mundo contemporâneo, ainda facilitado pelos instrumentos do mundo digital e das redes quânticas, o texto traz uma leitura transsescalar, ampla e sistêmica. Eu gosto deste tipo de interpretações, porque entendo que muitas vezes carecemos de análises mais totalizantes. 

Assim, insisto que vale a leitura do texto “O mundo nos tenebrososhorizontes de 2020” na íntegra que pode ser acessado neste link: https://drive.google.com/file/d/1txyzJSLon4CZw7YMAtVyn3kLnlzsX9JE/view?usp=drivesdk

sexta-feira, maio 08, 2020

"A hibernação como reforço da política de descaso e entrega da Petrobras", por Francismar Cunha

O geógrafo, mestre e doutorando em Geografia pela Universidade Federal do Espírito Santo (UFES) e pesquisador sobre o setor de petróleo e suas repercussões sobre o território, oferece mais uma  potente interpretação sobre a relação entre as decisões de colocar plataformas e campos de petróleo em "hibernação" e processo de desmonte e venda por parte da direção atual da Petrobras.

Francismar faz uma leitura a partir da localização espacial (com mapas de quatro bacias produtoras de petróleo no Brasil) que identifica os ativos de produção colocados em "hibernação" (eufemismo similar ao que gostam de usar como "desinvestimentos") e os que estão sendo colocados à venda (desinvestimentos) pela estatal.

Todo bom pesquisador começa trabalhando com as informações e junto com os estudos teóricos e as pesquisas empíricas, passa à fase de formulação de hipóteses, para se tentar interpretar o fenômeno que está observando.

Neste caminho, o pesquisador Francismar Cunha conseguiu com a espacialização destas decisões corporativas, localizar o nexo de negócios que expõe de forma clara, que a atual direção da Petrobras, enxerga e usa a pandemia, como "janela de oportunidades" para radicalizar, o processo de desmonte da companhia, cumprindo desejo dos seus maiores investidores, a quem na verdade, representam, exclusivamente. Vale conferir abaixo o texto na íntegra.


A hibernação como nova política de descaso e entrega da Petrobras

Nos últimos anos nota-se uma brusca mudança na diretriz da gestão da Petrobras e isso tem engendrado uma crescente privatização da empresa. Este processo incide por vários segmentos da petroleira, indo desde a produção até a distribuição. Nessa conjuntura, a empresa bem como seus trabalhadores próprios e terceirizados tem seus futuros marcados por incertezas.

Várias subsidiárias da Petrobras já foram vendidas como é o caso da Transporte Associado de Gás (TAG), da Nova Transportadora do Sudeste (NTS), da Liquigás, da BR distribuidora e etc. Do mesmo modo, vários campos de produção onshore e offshore também já foram vendidos. Para exemplificar, somente na Bacia Potiguar foram vendidos 34 campos terrestres para a Petrorecôncavo, na Bacia de Campos os campos de Enchova, Pampo, Vermelho, Pargo, Carapeba, etc. também já foram vendidos. Todas as vendas da Petrobras somavam 24 bilhões de reais, o que correspondia a 60% do lucro da empresa em 2019 segundo o economista Cláudio da Costa Oliveira.

Para além dos ativos vendidos, chama à atenção a verdadeira liquidação que a atual gestão da Petrobras vem fazendo conforme aponta sua página de “relações com investidores” (teasers). A empresa vem sendo ofertada ao mercado em fatias e nesse movimento já foi colocada à venda as suas participações em usinas eólicas, no segmento de bicombustíveis e até mesmo no refino onde nove refinarias foram oferecidas ao mercado. Soma-se a isso, a inserção de dezenas de campos e blocos colocados a venda nas diferentes bacias. Nas bacias Pará-Maranhão, Ceará, Potiguar, Tucano do Sul e Pelotas a Petrobras colocou todos os seus blocos exploratórios e campos a venda. Até o dia 07/05 na bacia do Solimões três campos haviam sido colocados a venda e um (Azulão) já foi vendido. Na Bacia Sergipe-Alagoas 19 campos e 19 blocos estavam a venda, na bacia do Espírito Santo 34 campos e 3 blocos estavam a venda, além disso, 3 campos já haviam sido vendidos para a Imetame. Na bacia do Reconcavo 38 campos e 8 blocos estavam a venda, em Camanu 1 campo, na bacia de Santos 4 campos e na bacia de Campos 24 estavam a venda, e desses, 7 haviam sidos vendidos juntamente com 1 bloco. Vale ressaltar ainda que a Petrobras também vendeu participações e percentual de participações em campos e blocos do pré-sal como o caso do campo Carcará (antigo BM-S-8) para a Equinor, a participação 35% no campo Lapa na bacia de Santos para a Total, dentre outros.

Atualmente, a gestão da petroleira vem utilizando estratégias que poderão acelerar o processo de privatização e que tem diretamente efeitos econômicos e também sobre o trabalho. Uma delas consiste no programa de hibernação de plataformas. A Petrobras iniciou em abril o processo de hibernação de 62 plataformas em campos de águas rasas nas bacias de Campos, Sergipe, Potiguar e Ceará. De acordo com a Petrobras, as plataformas que serão hibernadas não têm viabilidade econômica para operar no contexto atual com os baixos preços do petróleo e a queda da demanda devido à pandemia de COVID-19.

O mesmo argumento de que não há viabilidade econômica utilizada para a venda de campos maduros, se repete agora para hibernar plataformas. Contudo, produção de muitos campos que estão sendo vendidos pela Petrobras deve dobrar ou triplicar de acordo com a avaliação da ANP em função dos investimentos realizados nesses campos. Investimentos esses que a gestão da Petrobras, desde a era Temer, não vem fazendo.

Em meio a isso, destaca-se o curioso fato de que as plataformas hibernadas das bacias de Sergipe, Ceará e Potiguar são exatamente aquelas que se localizam em campos que estão com anúncio de venda. O mesmo acontece com a maior parte das plataformas que estão em processo de hibernação na bacia de Campos. Os mapas a seguir demonstram esta constatação. Os mapas ampliam a evidência de que não se trata de uma coincidência e sim um estratégia em que a hibernação se tornou estratégia corporativa de negócios escusos e de privatização em larga escala de grande quantidade de ativos da Petrobras.

O primeiro mapa (Mapa 1) sobre a Bacia de Campos localiza as plataformas hibernadas e os campos de petróleo colocados à venda. No Mapa 2, estão apontados os campos e blocos colocados à venda na Bacia Sergipe-Alagoas e no Mapa 3, os campos vendidos e com anúncio de venda nas bacias do Ceará e Potiguar. Assim, a Petrobras, reduz-se ao mínimo com a produção para se tornar uma empresa pequena (enxuta) e caminhando para se fixar apenas, e quase somente, no Pré-sal e Bacia de Santos, como deseja os investidores.
 

Mapa 1: Plataformas hibernadas e campos à venda na Bacia de Campos até 07/05/2020
































Mapa 2: Campos e blocos com anúncio de venda pela Petrobras na Bacia de Sergipe-Alagoas

































Mapa 3: Campos vendidos e com anúncio de venda nas bacia do Ceará e Potiguar































Logo, a hibernação das plataformas nada mais é do que uma forma de acelerar e aprofundar o desmonte da Petrobras que vem sendo intensificado pela gestão Castello Branco. Aproveitam-se assim, do que chamam de “janela de oportunidades” gerada pelos efeitos da Covid-19. Afinal, em meio à pandemia, as mobilizações para resistir a essas medidas tendem a ser menores e mais difíceis. 

Os trabalhadores da petroleira dessas plataformas serão realocados para outros ativos sem garantia nenhuma de retorno, além disso, tem-se a política de desligamento voluntário da empresa que faz com que muitos deixem a companhia. Essas e outras medidas nada mais são do que formas de erodir a mobilização dos trabalhadores.

Além disso, a hibernação implica ainda em outros prejuízos. Do ponto de vista do trabalho a hibernação tende a levar a demissão de trabalhadores terceirizados. Por outro lado, tem-se a consequência econômica onde juntamente com a queda da produção ocorrerá a queda da arrecadação de royalties, o aumento do desemprego em toda cadeia produtiva e também no setor hoteleiro, comércio e afins. O que trará uma dificuldade adicional para os municípios conforme nota do Sindipetro-NF.

Vale ressaltar ainda que a hibernação se estende para além das plataformas, tem-se a hibernação de campos terrestres e também da fabrica de fertilizantes Araucária Nitrogenados (ANSA). Essa ultima em especial, também colocada a venda.

Em resumo, a hibernação significa muito mais que uma forma de gestão da Petrobras no contexto de queda do preço do petróleo e da pandemia. Ao contrário, a hibernação é a nova modalidade da política de descaso e entrega da Petrobras. Representa uma estratégia que se aproveita da dificuldade de se organizar as mobilizações de resistência para acelerar o desmonte da empresa.

terça-feira, maio 05, 2020

As articulações do BolsoMilitarismo

Não adianta e nem é necessário tergiversar.

A origem e a forma das agressões seguidas de Bolsonaro, partem dos três generais, ministros do Planalto (Ramos, Heleno e Braga Neto).

Em especial do Eduardo Ramos.

O vice, também general, assim como o porta-voz (esse há algum tempo mudo) apenas assiste.
Ramos é quem comanda de forma siamesa com Bolsonaro as suas calculadas agressões.

Bobagem se repetir que esses controlam o "cavalão".

Segundo um militar da reserva que conhece bem esses generais, Ramos seria uma espécie de irmão do Bolsonaro em suas ações.

O Heleno seria o pai impotente diante de um adulto sem noção. O Braga Neto seria o amigo do amigo do "irmão", que foi chamado pra cuidar do quartinho do Bolsonaro, arrumar os brinquedos, limpar as coisas... não tem muita intimidade... aliás, foi escolhido pelo próprio "irmão" Ramos, para fazer esse papel.

Ramos é que vai à maioria destas manifestações autoritárias que pede novo AI-5 e quer censurar as notícias, como se fosse propaganda de sua junta de generais.

Ramos seria aquele sujeito que gosta de conversa (por isso foi quem se aproximou do pessoal sem pudor do Centrão), não "muito culto", pragmático e por isso também próximo da família 02, 03 e 04.
Age da forma que age, mas conversando com os irmãos generais e o pai, o general mais velho, ouvido por consideração.

Todos fazem parte do que tenho chamado dos generais haitianos.

Esta nomenclatura se deve ao fato de que foi na missão da ONU no Haiti em que o Brasil foi convocado para liderar, que esses generais forjaram a inflexão da entrada forte deles, no controle do poder político no Brasil, como um projeto de longo prazo. Assim, trabalham hoje, como se o Haiti fosse aqui.
Lista de militares no governo.
Um verdadeiro quartel no Palácio do Planalto. 

Já conquistaram o poder, hoje controlado por mais de 3 mil militares , entre eles muitos ainda da ativa. Confira ao lado lista de cargos que precisa ser atualizada, porque é ampliada, praticamente, todos os dias, desde a posse.

Depois do plano golpista que se iniciou, formalmente em 2013, o movimento ganhou corpo com o twitter do outro general, o Villas Boas.

Agora, o trabalho é de tomar conta da máquina pública (tendo a pandemia como janela de oportunidades - em meio aos mortos - que limita as oposições) e de operar para manter o poder. 

Assim, passarão por cima de todas as instituições (mídia, justiça, sociedade civil, etc.) que se insurgirem, alegando que chegaram ao poder pelo voto. "E cale a boca".

Até aqui seguem com sucesso a missão militar.

O povo? A nação? O sofrimento da pandemia?

Tudo isso são detalhes para esta junta de generais. Há dissidências em relação a esta direção por parte de militares que questionam a participação dos militares no comando do poder político do país, que mistura as instituições das Forças Armadas (FA) com o governo.

Assim, esses generais da junta do governo também se sentem vingados, contra o que consideram perseguição (à geração anterior de generais) daquilo que não teria sido em 64, uma ditadura.

Isto posto, não admitem discussão e vão seguir cada vez mais mandando calar a boca todos, que como nós seguiremos afirmando que a ditadura voltou.

Ela passará, como já dizia lá atrás, os versos do Chico Buarque ... vai passar pela avenida um movimento popular... Sim, vai passar!


PS.: Com um complemente ao texto publicado originalmente no Facebook, vale acrescentar uma observação após a divulgação do depoimento de Moro à Polícia Federal vazado agora pouco para a imprensa. Esse complemente foi publicado como comentário na postagem deste texto no Facebook: 

"Para quem tem dúvidas sobre a articulação bolsomilitarista que envolve os generais, observe que partiu desta junta de generais, junto com Bolso, a ideia de nomear hoje, às pressas do diretor da PF do Rio, para a diretoria-executiva da PF em Brasília, para proteger a todos depois dos depoimentos do Moro vazados e que agora, são divulgados abertamente na mídia. Isso faz parte do episódio do "cala a boca" de hoje pela manhã. É só acompanhar os fatos e agente que todo o contexto fica mais claro."

segunda-feira, maio 04, 2020

"A encruzinhada e o humanitarismo", por Douglas da Mata

O blog reproduz o ótimo texto do Douglas Barreto da Mata, como parte da série de postagens que chamou de "Diário da pandemia".  A arte é por conta do blog, não identifiquei sua autoria.


A encruzilhada e o humanitarismo

Confesso o extremo desconforto que senti ao ver Lula e Dilma ombro a ombro com fhc e outros golpistas (ainda que indiretos, como ciro, o canalha) nos atos digitais de Primeiro de Maio.

Deu voltas no estômago.

Vociferei impropérios, como já de costume.

Disse em alto e bom som: que se fodam, foram golpeados com ajuda desses micróbios políticos, e mesmo assim ainda têm tolerância para reunirem-se a eles.

Também confesso que não pude deixar de comemorar, com certa (grande) alegria, o fato dos lacaios das empresa de comunicação estarem sob ataque das milícias bolso-moristas, que por ora se dizem rivais.

Passada a indignação com Lula e Dilma, e o regojizo com as "pedaladas fascistas" sofridas pelos porcalistas, me vejo em uma armadilha.

Sim, esse é o eterno paradoxo da chamada democracia.

Como defender o direito democrático daqueles que atacam-na, como fazem a mídia e seus lacaios?

Como entender que Lula e Dilma possam, em nome do resgate democrático, se unirem àqueles que empregaram toda sorte de ações e omissões para golpear um governo legítimo, e que respeitava os limites constitucionais do Estado de Direito?

A questão é complexa, mas as escolhas parecem óbvias.

Não construiremos, não no curto e médio prazo, um alternativa política de força que faça o fascismo jurídico-militar-bolso-morista retornar às suas cavernas, de onde foram desentocados e alimentados pelo ressentimento político de setores que hoje choram pitangas, como fhc, ciro, psol, mídia, etc.

Notem que mesmo em meio a esse furacão, esses cretinos, que deram azo ao asno que ocupa a presidência, se negam ao reconhecimento e retratação de seus equívocos políticos (ou escolhas, melhor dizendo) frente a nação brasileira, e agem como se nada tivessem a ver com esse desfecho trágico que se aproxima.

No entanto, essa constatação de que temos como "aliados" uma corja de cretinos não nos leva a nada, senão ao imobilismo do ressentimento, que por sua vez aumenta o ressentimento do imobilismo.

É preciso reunir todas as forças políticas para soterrar esse movimento político internacional, preparando as sociedades para o enfrentamento de tempos sinistros do pós-capitalismo que vem por aí, onde as pessoas serão meros objetos de avaliação algorítmica.

A raça humana, como a conhecemos, está sim em extinção.

Eu sempre me perguntei o que fazia uma pessoa como Dilma (nesse caso muito mais que Lula, que nunca foi vítima de tortura) passar por tudo que passou, e agir democraticamente, sentando ao lado de seus algozes no jogo político-institucional.

Ela que, tempos atrás, se arriscara na luta armada. O que move uma mulher como essa, que depois de chegar ao topo de sua carreira política como presidenta, caiu como vítima de violências verbais indizíveis?

Acho, vejam bem, só acho:
Talvez a sua vivência e o fato de ter experimentado a falta de opção que a levou a clandestinidade, bem como todo sofrimento ali encarnado, tenham construído uma fé inabalável que não podemos levar a experiência humana a pontos de não retorno, de falta de perspectiva que faça a violência ser a única mediadora.

Talvez seja essa a "religião" de Dilmas e de Lulas, a "religião do humanitarismo".

Me senti envergonhado, porque afinal nunca experimentei (e nem quero) situações tão precárias e tão limítrofes em minha vida, que pudessem orientar meus sentidos em escolhas em momentos de tamanha envergadura histórica.

Só me resta então confiar nesse "instinto racional" de sobrevivência (física e política) desenvolvido por eles.

Torço para estar errado, e que eles tenham razão.

Todos contra o fascismo!

Todos contra o capitão da morte!

quinta-feira, abril 30, 2020

Mapa da incidência de Covid-19 nas bacias de Campos e Santos, por Francismar Cunha, UFES

O geógrafo, pesquisador e doutorando de Geografia da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), Francismar Cunha Ferreira elaborou um mapa sobre a incidência da contaminação de Covid-19, nas plataformas das bacias de Campos e Santos, em especial chama a atenção para o “cluster de Covid-19” nas plataformas do campo de Marlim na Bacia de Campos.

A situação é calamitosa e expressa as atuais e péssimas relações e condições de trabalho nas unidades da Petrobras, indicando o grau de precarização e pouco caso com os trabalhadores da empresa e os terceirizados. Abaixo o texto e o mapa, elaborados por Francismar Cunha da UFES.


Distribuição espacial da contaminação de Covid-19 nas plataformas das bacias de Campos e Santos: cluster de Covid-19 no campo de Marlim

Com a pandemia da Covid-19 diversas adaptações foram/estão sendo feitas nas rotinas dos trabalhadores. Entretanto, não se pode afirmar categoricamente que essas alterações visam o bem estar e a saúde do trabalhador. Esse posicionamento ganha força quando se verifica que em alguns setores produtivos como, a indústria petrolífera, se assiste a um aumento expressivo do número de casos de pessoas infectadas pelo vírus.

Até o dia 23/04* havia 10 plataformas de produção de petróleo e gás com registro de casos de trabalhadores infectados entre as bacias de Campos e Santos. São elas: a P-26, P-18, P-35, P-20, P-33 (no campo de Marlim na Bacia de Campos), P-62 (campo do Roncador) e P-50 (campo Albacora Leste) todas da Petrobras e as FPSOs Cidade de Santos e Cidade de Anchieta, ambas afretadas pela Petrobras, respectivamente da japonesa Modec e da Holandesa SBM Offshore. Para além das plataformas têm-se constatações de casos de contaminação nos campos terrestres no Amazonas, conforme apontou João Gilberto e Francisco Gonçalves, em texto publicado no dia 29/09 na página da AEPET.






























Em geral, foram confirmados até o dia 28 de abril 625 casos de Covid-19 nas empresas que executam atividades de Exploração e Produção de Petróleo e Gás Natural no Brasil, sendo que 243 profissionais acessaram instalações marítimas de perfuração e produção, conforme mapa acima. O total de suspeitos nessas empresas soma 1.445 de acordo com a ANP.

Dentre os trabalhadores expostos à contaminação de Covi-19, chama à atenção a situação dos trabalhadores terceirizados. De acordo com a FUP, as condições desses trabalhadores pioraram no contexto da pandemia, pois além de se encontrarem em situações de trabalho precárias, estão sob risco de contaminação que se associa ao temor de perder seus empregos. O pior, ainda segundo a FUP, é que algumas empresas ainda estão amplificando esses problemas ao não cumprir a legislação trabalhista, as convenções e acordos feitos com os sindicatos.

Em síntese, nota-se uma tendência de aumento de casos de contaminação, especialmente, no caso das plataformas no campo Marlim, onde se percebe um verdadeiro “cluster de COVID-19”. Soma-se a isso, as pressões sobre os trabalhadores, especialmente os terceirizados. Em paralelo, a Petrobras vem afirmando que vêm adotando medidas preventivas alinhadas às recomendações de autoridades sanitárias e órgãos reguladores.

A petroleira afirmou para a Reuters que reduziu o efetivo em unidades operacionais, tomando medidas mais rigorosas no setor offshore, como isolamento domiciliar monitorado e triagem médica no pré-embarque, com suspensão do embarque de quem apresentar qualquer sintoma. Entretanto, de acordo com João Gilberto (Diretor do Sindipetro Caxias), a Petrobras impôs um plano de resiliência que reduz a jornada e salários dos empregados administrativos em 25% e insiste em impor soluções sem ouvir ou negociar com representantes dos trabalhadores. João Gilberto aponta ainda que o atual governo e sua gestão na Petrobras se utilizam da Covid-19 para acelerar o desmonte e entrega da Petrobrás à iniciativa privada, um grande contrassenso, quando bancos, empresas de aviação, dentre outros, pedem socorro ao Estado em função da crise.


PS.: Atualizado às 21:52: para corrigir a data* no 2º parágrafo. O correto é até o dia 23/04 (e não 23/03 como saiu antes)  havia 10 plataformas de produção de petróleo e gás com registro de casos de trabalhadores infectados entre as bacias de Campos e Santos.

terça-feira, abril 28, 2020

Fundos de investimentos perdem R$ 121 bilhões em patrimônio em 2020 no Brasil. Mais de 100 mil cotistas deixaram os fundos nos últimos dois meses

Os fundos financeiros seguem sendo um dos maiores instrumentos para oferecer mobilidade e lucratividade ao capital. Ainda assim, vale observar seus movimentos nesta fase de baixa da economia global e brasileira em função da pandemia e de um processo histórico.

Tomemos uma reportagem de hoje do Valor que lista a situação de 20 expressivos fundos (multimercados e ações). Na reportagem da Adriana Cotias, é possível identificar 107 mil cotistas deixaram um dos 20 fundos listados (entre gestoras XP, Itaú, BB, CEF, etc.), tipo multimercados (hedge) e de ações, listados no quadro abaixo publicado hoje no Valor (28/04, P.C6).

Só nestes 20 expressivos fundos (multimercados e ações) os valores resgatados alcançaram cerca de R$ 10 bilhões. Estes vinte fundos apurados na matéria do Valor, possuem agora no final de abril patrimônio de cerca de R$ 50 bilhões. Ou seja, perderam 20% neste período de dois meses entre o final de fevereiro e de abril. O retorno de rendimentos deste patrimônio ficou negativo em até -36%. (Abaixo o infográfico do Valor. Veja aqui matéria na íntegra "Na crise, fundos veem saída de cotistas")

Infográfico do Valor. Caderno de Finanças, em 28-04-2020, P.C6.

























Algumas gestoras de fundos de investimentos dizem que no momento há ativos sendo vendidos no mercado por valores até 60% menores do que há dois meses atrás, o que aponta a perda de valor (real ou fictício).

Segundo, dados atuais da Anbima (Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais) de hoje (Referência 22/04/2020), o total de patrimônio líquido em todos os fundos de investimentos no Brasil são de R$ 5,306 trilhões, valor que é R$ 121 bilhões a menos do que o valor fechado em dezembro de 2019 que alcançou R$ 5,427 trilhões.

Aí está um parte importante do movimento do capital no andar superior das altas finanças. Um patrimônio financeiro vinculado ao rentismo (praticado mesmo por boa parte das empresas produtivas da economia real) e à política dos derivativos que capturam a renda do trabalho. Hoje, o patrimônio total dos fundos de investimentos supera 80% do PIB do país.

A perda, até aqui, relativamente pequena (2,3%) do do patrimônio total investidos nos fundos financeiros, demonstram, como esse instrumento se tornou um dos mais importantes instrumentos do capitalismo contemporâneo, que confere potência e enorme mobilidade ao capital para transitar entre suas frações e os investimentos em diferentes regiões mundo afora, nas diferentes fases do ciclo da economia (expansão e colapso).

Os fundos financeiros (no geral incluindo os fundos soberanos e os fundos de pensão vinculados à previdência dos trabalhadores) com sua inter-conexão e inter-relação com os diversos agentes financeiros se transformaram numa das mais importantes estratégias do capitalismo contemporâneo, hegemonicamente financeiro.

As gestoras dos fundos financeiros interligam o sistema bancário tradicional (bancos comerciais); o mercado de capitais (bolsa de valores e ações; derivativos e mercado futuro); a rede não bancária (shadow banking); os bancos centrais dos países; as grandes companhias de seguro (e agora também de auditoria e avaliação de riscos);  e centros financeiros off shore a nível global.

A realidade que estamos assistindo neste período de auge da contaminação da Covid-19, reforça tudo aquilo que havíamos exposto no livro "A ´indústria´ dos fundos financeiros", editado em junho de 2019, pela Consequência.

segunda-feira, abril 27, 2020

O Brasil sem ministro da Saúde e na rota do genocídio

Estamos no meio de uma pandemia com mais de 4 mil mortos (na verdade pelo menos 12 mil mortes) e... cadê o ministro da Saúde? 
Quem é ele mesmo? O que faz? Ou o que deveria fazer? 
Bolsonaro escolheu um sabujo para deixar que as mortes fiquem mais silentes como tanto quer o general Ramos. Isso tem nome: genocídio!

#TAG REPORT 62: "Espiral de Incertezas": Análise de conjuntura, por Helena Chagas e Lydia Medeiros

O blog recebeu e repassa o conteúdo do relatório #TAG REPORT 62 de 26-04-2020 que republica abaixo:

Espiral de incertezas - Uma análise da conjuntura

Brasília, 26/4/2020 - nº62

Passadas 48 horas da demissão de Sérgio Moro, há no mundo político um sentimento de que o governo Jair Bolsonaro que assumiu em 1º de janeiro de 2019 acabou. Sobram dúvidas, porém, sobre se, como e quando serão removidos os destroços da edificação implodida — ou seja, tirar Bolsonaro da Presidência dentro das regras da Constituição e do Estado Democrático de Direito. As revelações de Moro sobre interferência na Polícia Federal e outros crimes já seriam graves o suficiente para  deflagrar um processo de impeachment se o establishment estivesse hoje tão disposto a cassar o presidente quanto esteve, lá em 2016, a se livrar de Dilma Rousseff com “pedaladas fiscais”. Até agora, tudo indica que não está — e por razões que unem direita e esquerda.

A principal delas atende pelo nome de Sérgio Moro. Diversos pedidos de impeachment foram apresentados nas últimas horas, e muitos outros virão. Mas o ex-ministro e ex-juiz sairá enormemente fortalecido como candidato presidencial em 2022 se vingar algum deles, baseado em sua “delação”. Pré-candidatos ao centro e à direita, como os governadores João Doria (SP) e Wilson Witzel (RJ), por exemplo, sabem que é mau negócio disputar o campo conservador com alguém tendo no currículo não só a Lava-Jato, mas a derrubada de Bolsonaro.

À esquerda, caciques petistas garantem que não faltará um só voto de sua bancada a favor de um pedido de abertura de impeachment que chegue ao plenário da Câmara. Vão apoiar a campanha Fora Bolsonaro. Mas, no PT, Moro é o algoz. Formar ao lado dele, ainda que na excepcionalidade de um processo desses, não será nada confortável. Contribuir para fortalecê-lo, impensável. Sem contar que, no partido, a perspectiva de um Bolsonaro sangrando até 2022 parece melhor do que a de enfrentar uma novidade vitaminada por um novo governo.

Diz-se também, nos meios políticos, que os partidos do Centrão que estão ganhando do presidente cobiçados cargos da administração também estarão, em sua maioria, votando a favor do impeachment no plenário. Até lá, vão encher as burras, sustentando um discurso de que, neste momento de pandemia, não se deve gastar energia com essa briga — argumento que até faz sentido, e vem servindo também para blindar a narrativa de quem decide, como Rodrigo Maia.

Há fatores, porém, que podem mudar a situação de uma hora para outra. Um deles, a evolução das investigações que correm no Supremo Tribunal Federal. Manchete da Folha de S.Paulo deste domingo trouxe um alerta ao revelar que o inquérito que apura a rede de fakenews e ameaças    montada contra autoridades tem entre seus articuladores o vereador Carlos Bolsonaro. Isso cria fatos novos, e graves. Quem conhece o estilo da PF e do próprio Moro de brigar sabe que a guerra de vazamentos envolvendo Bolsonaro e família vai ser pesada e centralizar as atenções daqui por diante. Moro também estará no alvo do outro lado, e a esperança de alguns é que também acabe queimado e deixe de ter sua digital tão clara num eventual impeachment.

Outro fator seriam as ruas, que agora, aliás, são apenas panelas. Não há impeachment sem povo na rua, e não há povo na rua com pandemia. Nem se ouviu falar, em algum lugar do mundo, de impeachment conduzido e votado remotamente. Por outro lado, as avaliações gerais são que o governo Bolsonaro — pelo conjunto da obra envolvendo também economia e pandemia — não tem volta em termos de capacidade de organização e governabilidade. E se, por enquanto, também não há previsão de ida — a ida para casa —, são grandes as chances de o país entrar numa triste espiral de incertezas, estagnação, doenças e mortes nos próximos meses.

SAÍDA PELO STF — MAS CÂMARA TEM QUE ABRIR A PORTA
No primeiro momento, será cômodo para os políticos deixar o destino do presidente da República nas mãos do STF. Afinal, três inquéritos podem chegar a Jair Bolsonaro: os dois relatados por Alexandre
Moraes, que investigam as fakenews e já chegaram ao filho Carlos, e a organização das manifestações pró-golpe militar; por fim, o que deverá ser aberto esta semana por Celso de Mello para apurar as denúncias de Sergio Moro de interferência na PF.

Advogados próximos relatam que os ministros do Supremo acham que muitas outras ações sobre o tema devem entrar nos próximos dias na Câmara e reverberar por lá. OAB e ABI devem apresentar pedidos de impeachment. Parlamentares de oposição vão tentar barrar a nomeação de Alexandre Ramagem para a Polícia Federal com base no precedente que impediu Lula, por liminar de Gilmar Mendes, de ocupar a Casa Civil de Dilma Rousseff. O deputado Rui Falcão (PT-SP) apresentou representação ao procurador-geral da República, Augusto Aras, pedindo que ele inclua no inquérito solicitado a Mello investigações sobre diversos atos de Moro relacionados à PF em sua gestão na pasta de Justiça.

O STF terá muito trabalho, e um grande protagonismo — conforme já previa este TAG REPORT em sua edição de 5 de abril (nº 59). Mas estará o impeachment judicializado? Não em última instância. Nada que a suprema Corte do país venha a descobrir terá maiores consequências se a Câmara dos Deputados não aprovar, por dois terços, o afastamento do presidente da República para que ele seja processado em denúncia a ser formulada pelo PGR. Muitas águas ainda vão rolar até que isso aconteça. Bolsonaro precisa de 172 votos para que não aconteça.

SOB CONTROLE
Procuradores que analisaram o pedido de inquérito de Augusto Aras ao Supremo acham que o procurador-geral jogou para controlar o processo. Assim como não citou Jair Bolsonaro no inquérito sobre a manifestação ocorrida diante do QG do Exército, optando por apurar a participação de parlamentares na organização do ato que pedia o fechamento do Congresso e do STF, Aras agora pede que sejam investigadas as acusações de Sérgio Moro. Todas se referem ao presidente
da República, mas o nome de Bolsonaro não é citado.

Ao comandar os inquéritos, Aras controla também o tempo para apresentar ou não uma denúncia. Também impede que outras investigações sejam abertas em instâncias inferiores. A diferença entre os dois casos é que Moro, desde a sexta-feira, não tem mais foro privilegiado, como têm os deputados federais. Logo, não caberia ao procurador-geral investigá-lo. Aras fez uma aposta de risco: o ministro Celso de Mello pode devolver-lhe os autos, ainda esta semana, e pedir que aponte qual autoridade com foro justificaria seu pedido. O nome, claro, é Jair Bolsonaro.

ZAP VERDE-OLIVA: AGUENTA SÓ MAIS UM POUQUINHO
Sérgio Moro mal acabara de falar quando os grupos de WhatsApp de generais — a maioria da reserva, inclusive ex-companheiros de ministros palacianos — já fervilhavam de mensagens. “O Bolsonaro já era”, postou um deles, completando que o presidente calculou mal ao achar que Moro, por apego ao cargo, não iria reagir. Para outro, o presidente “avaliou mal”, achando que, depois de demitir Luiz Henrique Mandetta sem maiores consequências, seria o mesmo no caso de Moro. “Cavou não só sua sepultura, como a da família”, concluiu. Um terceiro oficial informou: “Tive uma confirmação agora de que tudo o que o Moro está fazendo é real.” Ao que outro colega aduziu: “Muita gente amiga e conhecida se voltando contra o presidente. Isso não vai acabar bem, infelizmente.”

Nas mensagens, os militares lamentam por amigos e colegas que  estão no Planalto, agora em difícil situação. “O (Augusto) Heleno sempre esteve ao lado do Moro. Foi traído pelo presidente”, disse um.
As mensagens mais expressivas dessas conversas não são escritas. São figurinhas com a foto do vice Hamilton Mourão sorridente, marcadas com dizeres como “Aguenta só mais um pouquinho” e “Tô chegando”…

GUEDES CONTINUA DIGITANDO
Depois das demissões de Luiz Henrique Mandetta e Sérgio Moro, e somadas à crise em torno do comando do plano de retomada do crescimento pós-pandemia, Paulo Guedes vinha sendo dado como carta fora do baralho por dez entre dez observadores do cenário político. Sua demissão já estaria sendo inclusive “precificada” pelo mercado. Nas últimas horas, porém, o quadro parece estar mudando. Pelo lado de Jair Bolsonaro, que segundo aliados estaria chegando à conclusão de que
perder Guedes neste momento aceleraria a erosão do próprio governo.

Por seu lado, Guedes — que, sem paletó e de máscara isolou-se do resto da equipe durante o pronunciamento de Bolsonaro na última sexta-feira — também teria resolvido ficar e lutar para controlar a política econômica no pós-pandemia. Abriu confronto direto com o ex-auxiliar e hoje ministro do Desenvolvimento Rogério Marinho, que descobriu estar por trás dos movimentos ostensivos do ministro chefe da Casa Civil, Braga Netto de apresentação de um plano desenvolvimentista de recuperação. Vai ser um duelo de titãs.

Desde a apresentação do plano, Guedes tenta argumentar no governo que apenas com investimentos privados será possível tentar sair da crise econômica agravada com a crise sanitária — e com a crise de confiança provocada pela confusão política instalada no país. Ele tem dito que todo o investimento público que o governo puder fazer não chegará 1% do PIB, algo muito distante do necessário. Acha que o plano de Marinho foi inconveniente e que seu ex-subordinado agiu como oportunista.

O diagnóstico do ministro é que para atrair esses investidores será fundamental insistir em reformas, mas, principalmente, e em ritmo mais rápido, em mudança de legislação, citando os marcos regulatórios do saneamento e do setor elétrico que, segundo Guedes, travam a chegada do capital privado. Outra prioridade nessa lista é a revisão das regras do setor de óleo e gás, preferencialmente estabelecendo um modelo único, o de concessão.

A nova estratégia de Guedes ainda está no rascunho. O momento, tem dito o ministro, é de pensar apenas na Saúde, que tem toda a prioridade no gasto público. O “plano Marinho” atrapalha o ministro — sobretudo por exigir uma resposta mais rápida do chefe da Economia.

DORIA E WITZEL, MUITO AMIGOS DE MORO
Sérgio Moro saiu do Ministério da Justiça de Bolsonaro diretamente para a cartela de candidatos à presidência da República. Mas não vai ser tão simples assim. Perdeu seu lugar de fala, e precisa encontrar outro adequado, que he dê visibilidade nos próximos dois anos. Além disso, ao longo desse tempo, estará no centro do alvo de Jair Bolsonaro e todos os seus desafetos, sobretudo no papel de pivô de uma investigação do STF contra o presidente da República. Moro terá, sobretudo, que adquirir alguma malícia política para navegar até 2022.

Por exemplo. Entre elogios mis ao ex-juiz, os governadores João Doria (SP) e Wilson Witzel (RJ) lamentaram profundamente a demissão, aproveitando a ocasião para criticar de forma contundente o presidente, com quem vivem às turras. Que ninguém se engane, porém: Doria e Witzel, candidatos agora competitivos do campo da direita, de tudo farão para trucidar a candidatura Moro — ou ao menos para ter controle sobre ela, transformando o ex-ministro num companheiro de chapa na vice.
Isso acontecerá sobretudo se Sergio Moro aceitar convites para fazer parte do secretariado de algum desses governadores. Rápido no gatilho, Witzel não levou nem meia hora para convidá-lo.

MOURÃO E MORINHO
Já publicamos aqui neste TAG REPORT que, certa vez, um dos filhos de Jair Bolsonaro disse a um político que o maior arrependimento de seu pai, no governo, fora o convite a dois de seus integrantes: “o Mourão e o Morinho”. Agora o presidente poderá começar a ter problemas somados com a dupla, que se dava muito bem. Nos bastidores, frequentadores do Planalto comentam que, para Moro, não seria nada mau que Mourão assumisse o cargo num eventual impeachment de Bolsonaro — até
novembro, a tempo de nomeá-lo para o STF.

INFORMAÇÃO SEGURA
A nomeação do delegado Alexandre Ramagem para o comando da Polícia Federal tem tudo para confirmar uma suspeita que há muito incomoda políticos em Brasília, a de que são alvo de espionagem do governo. Depois que Sérgio Moro revelou o desejo de Jair Bolsonaro de se
manter “informado” pela PF, a expectativa é que a “arapongagem”, que supostamente vinha sendo conduzida por Ramagem como diretor da Abin, ganhe corpo e mais recursos. O novo diretor-geral da PF está com o presidente desde a campanha eleitoral e tem a total confiança dele e de seus filhos. Na edição de 11 agosto do ano passado, o TAG REPORT já informava o temor de parlamentares de serem alvo dos serviços de inteligência do governo.


NOVA POLÍTICA 

Os movimentos ostensivos de Roberto Jefferson para abraçar o governo Bolsonaro podem até ter sucesso, mas não foram combinados com o partido — muito menos os ataques a Rodrigo Maia, que teriam sido movidos por motivações regionais. A bancada petebista na Câmara teve alto índice de renovação, e Jefferson perdeu boa parte da influência que exercia no Congresso. O líder, deputado Pedro Lucas Fernandes (MA), por exemplo, tem 41 anos e é ligado a Rodrigo Maia.

HORA DE SAIR DO GRUPO 
 Desde o inicio do governo as relações de Onyx Lorenzoni com oDEM não vão nada bem. Mas hoje a convivência é considerada impossível. Há um esforço para que o ministro da Cidadania deixe a legenda. Além de sua presença no governo não ter a marca do partido e ser uma indicação pessoal de Jair Bolsonaro, a avaliação no DEM é que Onyx só trabalha em causa própria, visando a eleição para o governo gaúcho,sem qualquer benefício para o partido.

AGITAÇÃO NAS REDES


A saída de Sérgio Moro do governo, na manhã da última sexta-feira, mobilizou a opinião pública no Twitter. A agitação política tomou conta da rede, e as hashtags mais populares foram majoritariamente contra Jair Bolsonaro. Já o pronunciamento do presidente, às 17h daquele dia, teve pouca força para impulsionar seus apoiadores, que para usaram a tag #FechadoComBolsonaro. “Como já nos acostumamos a ver, o grupo de apoio forma uma rede mais fechada. No caso de sexta-feira, ela ficou unida, mas claramente isolada. As interações contrárias a Jair Bolsonaro, dessa vez, formaram um grande grupo (bolha). Sua coesão foi interligada pela tag #ForaBolsonaro”, diz o pesquisador Antonio Dione Santibanez, que analisou 60.534 menções no Twitter.