sexta-feira, abril 16, 2021

É urgente deter a precarização crescente no trabalho offshore na Bacia de Campos

A gestão do Castelo Branco e sua diretoria na Petrobras acelerou muitíssimo o processo de precarização do trabalho em diversos níveis e áreas de atuação da empresa. A precarização vai além da terceirização de atividades que acontecem cada vez mais em área, em que são extremamente especializadas e sensíveis, como a exploração de petróleo no ambiente offshore.

Tudo isso está se dando dentro de uma lógica irresponsável de pura redução de custos que está impondo uma nova “ordem no trabalho embarcado” que pode custar caro à empresas e seus acionistas que também pensam em altos rendimentos e de curto prazo.

Assim, a Petrobras e as empresas contratadas já se aproveitam da dilapidação que foi feita na CLT com a chamada “reforma” trabalhista e a previdenciária, impondo tipos de contratos de oferta de mão de obra que não existiam antes.


Um "caso" como referência da ampliação da precarização

Para ser mais preciso e localizar o início desses processos, eles começaram a ser desenhados desde 2016, quando na gestão Temer, o Pedro Parente assumiu a presidência ada Petrobras. O estímulo aos Planos de Demissão Incentiva e Voluntária (PDIV), aumento das terceirizações, quase sem limites em termos de tipos de serviços (abrangendo os especializados) e áreas, inclusive nas atividades fins.

Para ampliar a compreensão do que já está em curso, vale citar uma licitação realizada no fim de 2020, da qual participou 66 empresas (pasmem, 66 empreiteiras!), que prevê no contrato junto à Petrobras, já operado desde o fim de fevereiro deste ano, atividades de “apoio técnico especializado On e Offshore” nos ativos da Unidade de Negócios da Bacia de Campos (UN-BC).

O contrato de oferta de serviços atende as áreas em especial de Manutenção, Gestão de Materiais, Controle da Produção e SMS (Serviço Especializado em Segurança e Medicina do Trabalho). Bom lembrar que o trabalho embarcado em unidades marítimas exigem para segurança operacional - de todos a todo o tempo -, já que o ambiente profissional e de habitabilidade são os mesmos na plataforma de produção.

O detalhamento do contrato e das atividades previstas deixa claro que se trata de função de planejamento e gerência, além da própria execução/operação, em atividades que são básicas e de responsabilidade direta da estatal e que evidentemente não se trata de “apoio técnico” e sim responsabilidade efetiva. Esse contrato específico, envolve quase cinco centenas de trabalhadores que já estão atuando em várias plataformas, segundo informações obtidas junto aos mesmos.

A questão ainda mais impressionante é que a Petrobras como empresa contratante, admitiu que o contrato fosse feito com “prazo determinado” e com remuneração vinculada às atividades (individual) e não a horas-homens (HH) trabalhadas, a partir de relatórios do trabalho específico de cada trabalhador que são submetidos aos fiscais de contrato.

Se já não fosse suficiente esses problemas, há que se registrar, ao contrário do que imagina, a maior parte das pessoas, se trata de serviços bem especializados, só que com remunerações que giram em torno de apenas dois salários mínimos, só acrescidos, de alguns extras pela condição de embarcado offshore e com cortes de direitos como plano de saúde para a família que agora foi cortado.

Além disso, não se pode alegar que se trata de “trabalho por tempo determinado”, se na verdade é um serviço permanente de produção de óleo e gás, sem delimitação de início, meio e fim.


É urgente deter a precarização do trabalho no setor petróleo

Do jeito que as coisas estão caminhando, sem limites e responsabilidades, dentro de pouco tempo, a Petrobras, já estará aceitando, mesmo no ambiente de operação offshore, prestação de serviços por trabalho intermitente, em que o trabalhador só será remunerado pelo tempo trabalhado e embarcado.

Não causará espanto se a empreiteira passar a apanhar qualquer trabalhador na esquina, para embarque e exercício de atividades nas plataformas, a partir da exigência apenas dos certificados mínimos de segurança previstos em lei.

O Ministério do Trabalho, a ANP, o Ministério Público do Trabalho e os Legislativos (Congresso e Assembleias Estaduais) precisam rapidamente exercer a reponsabilidade que possuem diante desta realidade.

Essas desigualdades de remuneração do trabalho é que levam a esta precarização que apenas engorda os lucros de intermediários de mão de obra. Assim, ele atuam como uma espécie de donos de escravos especializados e explorados. Na verdade, uma espécie de parasitas certificados pela estatal Petrobras.

Os trabalhadores acabam se submetendo a estas condições de exploração, porque não encontram alternativas. Desta forma, assim como os entregadores de aplicativos digitais, eles acabam implorando e aceitando a exploração, em troca das suas sobrevivência e das suas famílias.

Eu que desde a década de 90 acompanho e pesquiso – mais ou menos diretamente - as relações de trabalho no circuito econômico do petróleo, no ERJ e outras regiões do país, sequer poderia imaginar que chegaríamos a uma situação, próxima e similar, à servidão do feudalismo.

É inadmissível que as autoridades locais e regionais só pensem no setor de petróleo sob a lógica do petrorrentismo dos royalties do petróleo que chegam aos cofres dos municípios e dos estados.

A sociedade também não pode aceitar tudo isso passivamente. O petróleo tem sido fundamental para o Brasil, sua soberania, economia, desenvolvimento de tecnologia e para a geração de empregos, etc. Até por isso não é aceitável que não se olhe para os trabalhadores do petróleo de forma ampla, solidária e responsável.

segunda-feira, abril 12, 2021

Brasil chegou a 32 milhões de trabalhadores em plataformas digitais e aplicativos

Pesquisa do Instituto Locomotiva (ex Data Popular), divulgada nesta segunda-feira (12 abr. 2021), identificou que o Brasil saiu de um patamar 13% da população adulta trabalhando em aplicativos, em fevereiro de 2020, para um total de 32,4 milhões trabalhadores atuando em aplicativos digitais. Um percentual , subindo para 20% da força de trabalho, agora em março de 2021. 

Esses números se referem aos trabalhadores que atuam no processo que denomino como a APPficação. O termo (ou conceito) é porque vai além do trabalho no aplicativo da Uber, exatamente, aquele que deu início e popularizou o uso dessas ferramentas. A criação de aplicativos hoje é uma febre e um recurso fácil de usar. 

Essas versáteis ferramentas marcam a ampliação do domínio da tecnologia sobre todos os demais setores. O aplicativo é um software adaptado ao celular, que é a internet móvel ou embarcada. A pesquisa tabulou os que trabalham integralmente para os aplicativos, quanto ao que assim se movimentam para aumentar a renda familiar. 

Esses números não se referem apenas aos prestadores de serviços, como de transporte e entregas (delivery), mas também os milhões de trabalhadores que captam clientes no mundo da internet e, ainda  àqueles técnicos, mais qualificados e melhores remunerados, que atam na criação, desenvolvimento e manutenção destas ferramentas digitais. Em apenas um ano (2020, da Pandemia), o número adicional de brasileiros que passaram a trabalhar com a APPficação subiu em 11,4 milhões de trabalhadores.

Todos os números da pesquisas são espantosos e demonstram mostra como está se deslocando o Modo de Produção Capitalista (MPC), em que o processo de Appficação através das plataformas digitais servem aos vários setores da economia e da vida em sociedade. E assim, foram se transformando nos maiores empregadores (informais), como apontam estes números no Brasil.

A pesquisa qualitativa do Instituto Locomotiva, coordenado por Renato Meirelles, ex Data Popular, parte de uma amostragem da Pnad (Pesquisa Nacional Amostragem Domiciliar) do IBGE e ouviu 1,5 mil trabalhadores. As entrevistas foram feitas entre os dias 12 e 19 de março. Portanto, como amostragem, esses dados precisarão depois serem confirmados em pesquisa direta, mas já são dados super interessantes, porque vão além do mercado formal dos trabalhadores com careira assinada. 

O trabalho digital é um tema derivado do assunto mais geral do capitalismo de plataformas ou economia de plataforma. As plataformas devem ser vistas como meios (intermediação) de produção (comércio eletrônico, o e-commerce) e também como meios de comunicação, como no caso das redes sociais.

Infográfico do autor [1].
A tecnologia ganhou mais importância como instrumento digital que realiza esta intermediação entre a produção e o consumo. Na prática, uma infraestrutura que atua remetendo a uma "quase revolução da etapa de circulação da mercadoria", dentro da leitura da tríade marxiana: "produção, circulação e consumo". [2]

As plataformas digitais são estas infraestruturas de intermediação entre grupos de produtores e consumidores de produtos serviços e também comunicação que estão produzindo transformações no Modo de Produção Capitalista com a chegada da etapa do "Plataformismo". [3]

O que nos ensina o dicionário sobre o termo "plataforma"? Trata-se de uma “superfície plana e horizontal, mais alta que que a área circundante” ou um “programa político, ideológico ou administrativo de candidato a cargo eletivo”. 

Desta forma, pode-se inferir que as plataformas digitais aparecem no mundo como um instrumento que se coloca acima do que lhe circunda oferendo uma direção. E isso pode explicar a sua potência quando consideramos as plataformas como meios (intermediação) de produção e como meio de comunicação. Exatamente "dois fatores" que podemos considerar como fundantes do “plataformismo”. 

As plataformas digitais transformam as relações de trabalho (produção) e a forma como interagimos (comunicação) e vivemos em sociedade. Na prática, produção são “meios distintos”, mas se interligam, se fundem e atuam de forma imbricada, o que aumenta muito o poder das empresas que manejam a tecnologia de integração entre elas.

O capitalismo de plataformas é movido por dois fatores fundamentais: a) enorme extração de valor do trabalho e de suas rendas no território, no lugar onde as pessoas vivem, na base da pirâmide social; b) a escala nacional global em que essas infraestruturas podem atuar descontruindo economias regionais de onde recolhem seus excedentes, eliminando parte do comércio e outros empregos e alterando as economias locais, no processo chamado de "glocal".

O resultado disso tem sido a transformação das empresas em plataformas, umas imbricadas às outras que possuem um relação entre o domínio  do “intangível digital" e a materialidade da produção e logística” que atendem aos consumidores, de forma especial e crescente, após a pandemia.

O resultado disso tem sido uma precarização do trabalho e uma superexploração do trabalho como comentamos aqui em nosso último artigo "Amazon, símbolo da superexploração do Plataformismo" em que citamos a Big Tech em sua luta conta a organização destes trabalhadores. Estamos falando de uma nova fase do Modo de Produção Capitalista (MPC), o plataformismo que está expressa nos números acima. 

O Plataformismo é uma fase posterior ao Fordismo e ao Toyotismo, embora mantenha, nas suas entranhas, um ciclo mais agudo e intenso de acumulação. Essa nova fase do MPC, de certa forma significa um "neo-Taylorismo", na medida em que exerce uma controle e uma supervisão total sobre o tecno-trabalhador - comandado pelos algoritmos das plataformas digitais -, além de também adicionar a ideia da acumulação flexível do Toyotismo. 

Essas transformações nos trouxeram a esta nova etapa do Modo de Produção Capitalista (MPC) e também à ampliação da financeirização que se hegemônica no capitalismo atual.

Há alguns autores que se referem a esta passagem no modo de produção no capitalismo contemporâneo, com o resgate de uma passagem do processo histórico, como uma nova rodada do feudalismo, agora sob o domínio da tecnologia que seria, o tecnofeudalismo. 

Teríamos como no passado, a retomada e a ampliação da servidão, numa etapa da atual precarização das relações de trabalho, quando o trabalhador (servo) chega ao ponto de agradecer e até reverenciar o patrão (senhor), pelo seu direito de ser superexplorado para sobreviver. O Hipercapitalismo que segue sendo questionado.


Referências:
[1] Matéria no Estadão/InfoMoney em 12 de abril de 2021: Brasileiro depende mais de aplicativos para ter renda: O Brasil tem hoje aproximadamente 20% de sua população adulta que utilizam algum tipo de app para trabalhar. Disponívl em: https://www.infomoney.com.br/minhas-financas/brasileiro-depende-mais-de-aplicativos-para-ter-renda/

[2] PESSANHA, Roberto Moraes. Commoditificação de dados, concentração econômica e controle político como elementos da autofagia do capitalismo de plataforma. Revista ComCiência do Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo da Unicamp e SBPC. Disponível em: https://www.comciencia.br/commoditificacao-de-dados-concentracao-economica-e-controle-politico-como-elementos-da-autofagia-do-capitalismo-de-plataforma/

[3] PESSANHA, Roberto Moraes. Disputa no e-commerce de varejo no Brasil: entre o intangível do digital e a materialidade da infraestrutura de logística", deste autor, publicado em 2 de novembro de 2020, na revista ComCiência do Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo da Unicamp e SBPC. Disponível em: https://www.comciencia.br/disputa-no-e-commerce-de-varejo-no-brasil-entre-o-intangivel-do-digital-e-a-materialidade-da-infraestrutura-de-logistica/

PS.: Atualizado às 13:24 de 13/04/2021 para acrescentar esse parágrafo:
O capitalismo de plataformas é movido por dois fatores fundamentais: a) enorme extração de valor do trabalho e de suas rendas no território, no lugar onde as pessoas vivem, na base da pirâmide social; b) a escala nacional global em que essas infraestruturas podem atuar descontruindo economias regionais de onde recolhem seus excedentes, eliminando parte do comércio e outros empregos e alterando as economias locais, no processo chamado de "glocal".

sábado, abril 10, 2021

Amazon, símbolo da superexploração do Plataformismo

O New York Times (NYT) informa (aqui) que a gigante de tecnologia (Big Tech) Amazon, ganhou dos sindicatos + Democratas (Biden e Sanders) e garantiu relações trabalhistas diretas com seus 1,3 milhão de trabalhadores, quase 70% nos EUA.

Em síntese, uma vitória do tecnofeudalismo e da servidão, quando o trabalhador agradece e reverencia o patrão, pelo seu direito de ser superexplorado para sobreviver. PLATAFORMISMO!

Trata-se de um fase posterior ao Fordismo e ao Toyotismo dentro do Modo de Produção Capitalista (MPC).
 
O Plataformismo não é apenas exatamente uma nova etapa, mas faz parte de um ciclo mais agudo e intenso de acumulação, porque de certa forma significa um "neo-Taylorismo", na medida em que exerce uma controle e uma supervisão total sobre o tecno-trabalhador que é comandado pelos algoritmos das plataformas digitais. 

Além disso, o Plataformismo também adiciona a ideia da acumulação flexível do Toyotismo que levou o modo de produção capitalista à ampliação da financeirização e do rentismo como forma de extrair e expropriar a renda da economia real nos diversos cantos do planeta.
 
A inovação passou a ser completamente capturada pelo andar de cima (processo de startupização), enquanto o atual sistema de extração de valor amplia, em níveis colossais, a renda do trabalho que se torna ainda mais precarizado com desigualdade recorde e ampliada.

Por isso é importante situar e debater o "Plataformismo" neste momento do capitalismo contemporâneo, quando a dominação tecnológica reforça a hegemonia financeira.

Referência
Sobre o tema leia o artigo "Disputa no e-commerce de varejo no Brasil: entre o intangível do digital e a materialidade da infraestrutura de logística", deste autor, publicado em 2 de novembro de 2020, na revista ComCiência do Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo da Unicamp e SBPC. Disponível em: https://www.comciencia.br/disputa-no-e-commerce-de-varejo-no-brasil-entre-o-intangivel-do-digital-e-a-materialidade-da-infraestrutura-de-logistica/

quinta-feira, abril 08, 2021

Globo & Google: de tubarão nacional a sardinha global da gigante de tecnologia

O acordo anunciado ontem entre a Globo e Google (veja aqui) traz evidências sobre a dominação tecnológica das Big Techs americanas no ocidente. A Globo vai de tubarão nacional a sardinha global da gigante de tecnologia.

Um caso clássico da dependência revisitada com a Globo deixando só de apanhar, perdendo receitas e aumentando despesas e dando murro em água e passa a aceitar a dominação da Big Tech, Google, a mesma que controla o poderoso YouTube. 

É a Globo se submetendo às veias abertas da América Latina do saudoso Eduardo Galeano. Que nessa fase da dominação digital depende do que eu chamo da "plataforma-raiz", no caso, o trilionário Google, a que todos setores econômicos, corporações e indivíduos, acabam se submetendo. 

Google, contra a qual a Globo lutava até ontem, sem resultado. A Big Tech hegemônica das buscas na internet, dos vídeos on-demand do YouTube e das clouds, as estranhas nuvens que não estão no ar e sim, no território, onde a gigante de tecnologia desossa os nossos dados já extraídos, para ganhar valor nos negócios tocados pela máquina trituradora de algoritmos sob o comando da Inteligência Artificial (IA). 

Isso que a Globo anunciou não é parceria é contrato de dependência e extrativismo de dados. Colonialismo digital. Esse contrato mira garantir a dominação do espectro nacional que estava se diluindo. 

Na essência, o velho acordo do hipercapitalismo de laços entre o gigante do império e a elite econômica nacional de outrora. Neocolonialismo digital que ao invés de entregar o pau brasil e o ouro, entregam  ao império os nossos dados. 

O contrato garante ao império digital global, o controle dos nossos mercados no varejo e a manipulação política no controle sobre o Estado nacional. Não se enganem essa "parceria" é o acordo Time Life revisitado seis décadas depois e mira também limitar e podar aquilo que se chama de mídia alternativa aqui nos trópicos.

Os acertos da Globo com a Google Cloud é só o começo, mas já levará para longe, algumas centenas de empregos de gente qualificada na área de tecnologia da informação. Colonialismo digital na veia. Sim, há quem não queira enxergar o que está em curso. Entregar comida ao tubarão, desde que este deixe as migalhas para a elite econômica nacional. 

Não há progresso nisso. Há mais submissão. Trata-se de etapas predatórias do esgarçamento do capitalismo contemporâneo. Como temos insistido, ele possui base tecnológica-digital que já exerce a dominação global sob o controle das Big Techs e do Deep State dos EUA, onde se encontra com a hegemonia financeira de Wall Street do mercado de capitais e dos grandes fundos financeiros globais.

Os Marinhos? Há mais de meio século o acordo já erra esse. Aceitar ser cabeça de sardinha, desde que  com poder de manipular os mercados e o controle da política (Estado) no Brasil. Essa nova etapa da dominação da tecnologia apenas atualizou o acordo. Agora com um novo agente: a Big Tech, Google.
 

PS.: Atualizado às 13:07: Vale lembrar a matéria do Valor do correspondente Assis Moreira, em Genebra, mostrando com as Big Techs, entre elas o Google, paga no Brasil 75%de impostos que os outros setores no Brasil. Link: https://valor.globo.com/brasil/noticia/2021/04/06/gigantes-da-internet-pagam-at-75-pontos-percentuais-menos-impostos-do-que-outros-setores-no-brasil.ghtml


O Globo, 8 de abril de 2021, p.23.

terça-feira, abril 06, 2021

Salários nas petroleiras Petrobras, Shell, BP, Total e Equinor expõem as mentiras que sustentam o desmonte e a entrega de nossa estatal e do Pré-sal

O levantamento feito por Marcelo Gauto com dados oficiais que constam dos Relatório Anuais (2019 e 2020) destas corporações petroleiras, joga por terra os argumentos fantasiosos contra a estatal Petrobras e seus funcionários, no que diz respeito tanto ao quantitativo de funcionários, quanto aos seus salários. 

É oportuno ainda informar que além da Petrobras, a petroleira norueguesa Equinos (ex-Statoil) é também estatal e a Total ainda mantém forte participação do governo francês. 

A Petrobras dentre as cinco petroleiras (mais Shell, BP, Total e Equinor), a estatal brasileira possui menor número de funcionários, 49 mil trabalhadores em 2020, só ficando atrás da Equinor que possui 21,7 mil trabalhadores. 

No que diz respeito aos salários médios, os da Petrobras são os menores, com valor médio mensal de US$ 5.198, enquanto os salários médios mensais da francesa Total é de US$ 7.032; da anglo-holandesa, Shell US$ 8.832; da inglesa BP, US$ 9.300 e da norueguesa Equinor, US$ 10.061.

Abaixo o infográfico com as tabelas que mostram ainda a evolução entre 2018 e 2020 dos número de empregados, os custos com as folhas salariais e os salários médios mensais e anuais destas cinco petroleiras. 

É evidente que a análise destes números remete a um debate mais complexo que envolve, o custo de vida em cada um destes países, as estratégias diversas de cada corporação dentro da geopolítica do petróleo e da energia, etc.. 

Porém, é também claro que esses números são representativos para se fazer comparações menos irreais e injustas do que aquelas que normalmente, são realizadas para difamar a estatal e seus funcionários - que descobriram a maior bacia petrolífera nas últimas décadas no mundo que é o nosso Pré-sal - com interesse de seguir vendendo suas fatias a preço de final de feira.

segunda-feira, abril 05, 2021

Eike, os fundos financeiros, os negócios do Porto do Açu e a região

É possível saber em quais negócios os fundos financeiros investem - até porque eles precisam desta divulgação para manter e ampliar os investidores -, mas não se sabe quem coloca dinheiro nas gestoras de fundos de investimentos, tanto no Brasil quanto no exterior.

Há algum tempo eu passei a chamar a atenção para o papel dos fundos como instrumento da financeirização no capitalismo contemporâneo, em especial, após a crise do subprime em 2008/2009.

No Brasil, a ação dos fundos financeiros globais - enlaçados aos fundos nacionais - ficaram mais claros e expostos, após o golpe político de 2016 (documento Ponte para o Futuro) com o processo de privatização de diversos setores da economia. Porém, de forma mais especial me refiro àqueles empreendimentos vinculados ao setor de óleo e gás. Vários ativos foram e continuam sendo vendidos, a preços irrisórios (subsidiárias da Petrobras) para esses fundos canadenses, franceses e americanos.

Em 2013, quando da debacle dos negócios de Eike Batista, na holding EBX, em especial na subsidiária de petróleo, a OGX, o empresário viajou por uma semana aos EUA e de lá voltou com o negócio do Porto do Açu, da empresa LLX, entregue ao fundo financeiro americano, EIG Global Energy Partners.

Vale ainda recordar que outro fundo, neste caso de pensão dos professores da província canadense de Ontário, OTPP, tinham sido um dos primeiros investidores a aportar capital, na recém criada LLX, empresa de logística responsável pelo planejamento e construção do Porto do Açu e Porto Sudeste.

Assim, sob o controle do fundo EIG, a empresa LLX se transformou em Prumo e logo depois também se converteu numa holding (grupo). Hoje possui várias subsidiárias e negócios instalados na colossal área de cerca de 90 Km², em boa parte desapropriada de pequenos agricultores (maioria não indennizada), pelo governo do estado a favor da empresa.

Esse processo foi manejado via um acordo que usou a Codin, para criar o Distrito Industrial de São João da Barra (DISJB), que na prática é controlado - e de forma privada - pela Prumo Logística Global, que era uma Sociedade Anônima (S.A.), com capital na Bolsa, B3, e mais adiante fechou o seu capital.

 

A debacle da holding EBX de Eike e os negócios com os fundos americano e agora chinês

No segundo semestre 2013, Eike informou e a mídia corporativa engoliu que ele entregou esse ativo da LLX, em troca de investimentos do fundo americano EIG. Mas não foi dito e nem perguntado o que Eike ganhou com isso, além de proteger a LLX da debacle dos seus negócios.

Há quem afirme – e garanta -, que Eike tenha também alocado na EIG, uma parte do lucro da venda do Sistema Minas-Rio por US$ 3,3 bilhões à mineradora, anglo-africana, Anglo American e que hoje exporta mensalmente cerca de duas dezenas de milhões de toneladas de minério de ferro pelo terminal T1 do Porto do Açu, através de empresa joint-venture, a Ferroport, com a holding Prumo.

Aliás, vale recordar, que na época, a Receita Federal abriu um processo questionando empresa´rio Eike Batista, sobre o pagamento de impostos federais, devido pela valorização mobiliária que redundou nessa venda bilionária do Sistema MMinas-Rio, tendo a maior parte deste dinheiro permanecido nos EUA. Daí se surge a ligação com a hipótese do investimento no fundo EIG na LLX, transformada em Prumo da qual, Eike passaria a invstidor.

Durante todo, este tempo, de cerca de 7 anos, é bastante conhecida as incursões frequentes de Eike Batista na área do Porto para “visitas” e prospecção e discussão de “novos” negócios. Visitas que sempre poderiam ser consideradas que o a “engorda do boi depende do olhos do dono”.  

Há algum tempo, há discussões para saber se essa hipótese, hoje já teria elementos para se transformar em tese, sobre a manutenção de um controle indireto sobre parte dos negócios do Açu, conforme acordos mantidos com a gestora do fundo EIG, em dezembro de 2013, nos EUA.

O fato é que Eike, agora, ao invés do acordo com fundo financeiro americano, foi buscar aliança com um fundo financeiro chinês, o China Development Integration Limited (CDIL), que tem relações e negócios com o governo da China, inclusive na nova Rota da Seda (Belt and Road Initiative), mas possui sede na financeira cidade de Hong Kong.

Como quase todo o negócio financeiro, sempre há outros intermediários nestes negócios de captura de investidores e decisão sobre aquisição de ativos para investimentos. Diz-se que os chineses vão entrar com capital e Eike “as ideias” e os projetos.

Mas pode ser além disso. Por trás das conversas há algum aporte de capital nas demais subsidiárias da finada holding EBX, como a MMX, OGX, OSX (essa tem enorme área alugada no Porto do Açu onde fica o terminal T2) e que ficaram em recuperação judicial desde 2014, devendo a muita gente Brasil e mundo afora.


Fundo chinês CDIL aparece no Açu da mesma forma que surgiu o fundo americano EIG

O fundo chinês já atua junto à MMX que tem mina no Quadrilátero Ferrífero e exportação via Porto Sudeste, planejado também por Eike, em Itaguaí, na Baía de Sepetiba, mas também com controle acionário repassado, como o Porto do Açu para da grande trading holandesa de commodities: Trafigura.

Porém, não é difícil intuir que os negócios maiores entre Eike e os fundos financeiros passam pelo ativo do Porto do Açu, controlado pela Prumo/EIG e que hoje tem no governo do ERJ, um grande "aliado", o secretário de Desenvolvimento Econômico. Digamos que uma espécie de “despachante de luxo” dos vários interesses da Prumo no que diz respeito a um conjunto enorme de projetos, entre licenciamentos e articulações para financiamentos de fundos públicos e privados.

Esquema gráfico slide de apresentação da tese PESSANHA, R.M. (2017, PPFH-UERJ), "A relação transescalar e multidimensional "Petróleo-Porto" como produtora de novas territorialidades".[1] 


Entre os “novos negócios” está a um megaprojeto de geração de energia com potência de 1,1 MW, quase similar à capacidade da UTE-1 da GNA, que está prestes a entrar em funcionamento no Porto do Açu. As placas solares seriam fornecidas por outra empresa chinesa com tradição na produção destes equipamentos e que o CDIL tem participação acionária, a Trina Solar.

O site BrazilJournal, controlado pela gestora do fundo BR Partners, que também participa das negociações, informa hoje (aqui) [2] que os primeiros 300 MW da usina solar seriam instalados numa área adjacente ao Porto do Açu, que se supõe, que passa ser no terreno que a OSX dispõe, alugado ainda na época da LLX.

 

É necessário entender o circuito financeiro por trás dos negócios destas corporações e suas relações com o Estado

É nesse contexto que é importante observar os movimentos financeiros dos fundos junto aos negócios do Porto do Açu. Para a população da região, o empreendimento não tem mais um dono conhecido como foi no passado. 

Fundo financeiro não tem cara e muito menos coração. Parece que o empreendimento não tem dono, embora, os seus gerentes atuem como se fossem, atrás de cumprir as metas para bem remunerar os investidores curto-prazistas desses fundos, mesmo que explorando a muitos.

A Prumo, a EIG, os fundos, o Porto do Açu todos têm poucas ou nenhuma relação com a comunidade regional. Na verdade, eles a evitam. Funcionam, como uma espécie de enclave, que vê a comunidade local, como problema à fluidez de seus negócios.

Um porto ganha com a fluidez das cargas, ainda mais um porto de 5ª geração (ZIP-Zona Portuária-Industrial) que como o complexo do Açu está instalado em área mais afastada dos circuitos urbanos, exatamente para evitar essa relação que o empreendedor e seus investidores entendem como problemas.

Enfim, esse relato com a ligação de fatos pretéritos e atuais, tem o objetivo de permitir que se tenha uma leitura mais integrada e mais ampla dos negócios do Porto do Açu. Uma interpretação sobre vínculos e interesses dos diversos agentes envolvidos nos negócios, para além da propaganda enganosa da mídia corporativa regional e nacional.

Os agentes financeiros, as corporações controladas pelos fundos, os agentes públicos das diversas escalas, a mídia corporativa, a Justiça e outros fazem parte destas relações de poder. 

Assim, só conhecendo um pouco mais quem são estes agentes. Como operam, as suas estratégias e vinculações em diferentes escalas e dimensões será possível entender melhor os reflexos sobre a comunidade regional, onde o capital fixo destes fundos chegam para extrair valor, lucros e acumulação no território. 

É preciso compreender o papel destes diversos agentes, as escalas em que atuam, as funções, suas posições na estrutura de poder e nas relações política. Só desta forma, os interesses da sociedade e das comunidades, mais ou menos atingidas do entorno regional, poderão ser melhor questionados e, eventualmente, negociados.

 

PS.: Detalhes e mais informações de muitos fatos citados podem ser vistos em centenas de postagens do blog (desde 2007 e de forma especial deste 2015 na seção ao lado direito, (“Últimas do Porto do Açu) sobre os investimentos no complexo logístico portuário do Açu, litoral Norte do ERJ.

Referência:

[1] Tese do autor PESSANHA, Roberto M., defendida em mar. 2017, no PPFH-UERJ: A relação transescalar e multidimensional “Petróleo-porto” como produtora de novas territorialidades. Disponível no Banco de Teses da UERJ: http://www.bdtd.uerj.br/tde_busca/processaPesquisa.php?pesqExecutada=1&id=7433&PHPSESSID=5vd3hsifip5hdg3n1icb57l9m6

[2] Matéria do BrazilJournal em 05 de abril de 2021. Os Chineses que estão apostando em Eike Batista - e querem investir bilhões no Brasil. Disponível em: https://braziljournal.com/os-chineses-que-estao-apostando-em-eike-batista-e-querem-investir-bilhoes-no-brasil https://braziljournal.com/os-chineses-que-estao-apostando-em-eike-batista-e-querem-investir-bilhoes-no-brasil

quinta-feira, março 25, 2021

O controle direto das mídias pelo setor financeiro e de igrejas no Brasil: casos da CNN Brasil – MRV, o BTG Pactual - revista Exame e XP com InfoMoney

 A divulgação hoje de que o jornalista Douglas Tavalaro (próximo da igreja Universal) que tocou o projeto de implantação da CNN-Brasil, está deixando o controle da emissora para o empresário Rubens Menin, que já era seu investido. A partir daí dois movimentos precisam ser avaliados:

1) O que Tavalaro vai fazer nos EUA e na CNN de lá? A serviço de quem?

2) A outra pergunta é por que a MRV está interessada no controle total da CNN, no mesmo movimento já feito pelo setor financeiro e de fundos?

A XP (Itaú) do portal sobre corporações e o mundo das finanças, o InfoMoney e o BTG Pactual assumiu a revista Exame. Enquanto o que restou do grupo Abril (na maior parte dívidas) foi adquirido por um operador do setor financeiro que mexe com empresas em recuperação judicial.

Há relação entre estes movimentos? Quem é o grupo MRV?

Grupo que nasce em 1979 ligado à construção civil. Hoje é uma holding com 6 subsidiárias tendo a maior construtora do Brasil com mais de 500 mil unidades vendidas. A MRV teve receita de R$6 bilhões em 2019 e Ebidata de R$ 1 bilhão. Lucro líquido de R$ 690 milhões em 2019 e R$ 550 milhões em 2020 e R$ 7,35 desde lançamento de seu IPO. 35 mil unidades habitacionais lançadas em 2020 num valor de R$ 7,5 bilhões. MRV tem um Land Bank com estoque terras no valor de R$ 63,8 bilhões. 17,5 mil funcionários em obras mais cerca de 5 mil em outras atividades. Hoje trabalha com um SuperAPP e IA em negócios imobiliários, agilização de créditos, contratos eletrônicos, etc. É uma holding com ações em bolsas. Família Menin tem o controle de 37,7% das ações. Outros acionistas 44,7%. Fundo Atmos Capital 10%. Fundo Dynamo com 6%. No setor financeiro, a família Menim é também dona do Banco Inter, antigo Banco Intermedium, com sede em Belo Horizonte que é um destes bancos digitais do Brasil, ou fintechs que se deslanchou como o Nubank e o Original vinculados a meios de pagamento não bancários. O banco Inter patrocina o time de futebol do São Paulo, enquanto a família Menin é “mecenas” do Atlético Mineiro.

Por fim, é oportuno lembrar que a Igreja Universal também possui seu braço financeiro e vários outros negócios, para além da Rede de televisão e de rádios da Record.

A leitura que precisa ser aprofundada é como as pernas financeiras e midiáticas destes grupos cresceram tanto e deixaram ser contratadas e terceirizadas, passando a ser negócios próprios e diretos de seus grupos? Há ainda que se observar a integração destes veículos com as mídias e plataformas sociais.

Isenções tributárias, lavagem de dinheiro e densos fluxos financeiros parecem ser parte destes movimentos que mostram ainda relações de poder e com o Estado que é concessionário de muitos destes veículos de comunicação que seguem desregulados no que diz respeito não apenas, ao controle acionário, mas de conteúdos.

sábado, março 20, 2021

Dá para ressuscitar a Petrobras?, por Guilherme Estrella

O Guilherme Estrella é geólogo e funcionário aposentado da Petrobras, onde exerceu por último, o cargo de diretor de Exploração e Produção entre 2003 e 2012, período em que sua diretoria foi responsável pela atuação que redundou na descoberta do Pré-sal, que como ele diz em seu texto abaixo "é a maior província petrolífera do planeta nos últimos 50 anos".

Estrella como é suscintamente chamado, deixa evidente o seu caráter, quando gosta de ser identificado como "pai do pré-sal", porque atribui o resultado da colossal descoberta, a um trabalho coletivo de técnicos competentes e comprometidos com a empresa de todos os brasileiros. 

Tive prazer de conhecer o Guilherme no período final de minha pesquisa de doutorado sobre o tema do circuito econômico do petróleo. E de lá para cá, nós tivemos dois contatos pessoais e vários outros por telefone e/ou internet, num horizonte mais dilatado no tempo, mas sempre de muito aprendizado e diálogo construtivo, com trocas de informações e análises, imaginando uma reversão do quadro trágico atual pela qual passa a Petrobras e o Brasil. Ultimamente temos falado mais sobre o avanço dos fundos financeiros sobre os ativos da Petrobras.

Assim, recebi há pouco, este importante e sintético relato de Estrella, sobre a importância de uma empresa estatal de energia como a Petrobras, para qualquer projeto de desenvolvimento de inclusão social e com redução das desigualdades. 

O artigo foi publicado originalmente no site "Manifesto Petista" e autorizado por ele, para ser republicado neste blog. Um texto que faz um retrospecto histórico, mas acima de tudo fala da importância em "ressuscitar a Petrobras". Evidente que não se tratará de um caminho fácil e sem resistências e algumas perdas. Partes podem ser definitivas, mas parte é possível ser recuperada em sues objetivos estratégicos que coincidem com os interesses da nação. Tarefa necessária e possível. 

Por tudo isso, vale conferir o texto abaixo.
 

Dá para ressuscitar a Petrobras?

Por Guilherme Estrella

A Petrobrás foi a mais importante empresa estatal brasileira.

Criada em 1953, no governo Vargas, como operadora do monopólio estatal do setor de petróleo e gás brasileiro, a Petrobrás foi a ferramenta do Estado Nacional para resolver a dificuldade central que o Brasil enfrentava para construir um projeto de desenvolvimento soberano e voltado para os nossos reais interesses como nação: a falta de suprimento energético autônomo e abundante a longo prazo.

Esta missão da Petrobrás carregava em sua mais íntima essência o conceito universalmente aceito de que autossuficiência energética, sob o controle do Estado – a representar democraticamente o povo – é o pilar principal da soberania de qualquer nação que se queira minimamente soberana.

Até por que o período recente da história mundial nos ensina, à exaustão, que as mais importantes nações deste planeta construíram seus próprios projetos de país e suas respectivas proeminências geopolíticas globais a partir de contarem com fontes de energia abundantes e acessíveis dentro de seus próprios territórios, primeiro, e quando insuficientes, no exterior, por longo prazo.

Esta condicionante exclusiva provocou a 1ª Revolução Industrial – Inglaterra, Bélgica, Alemanha, França, em seguida a Confederação Alemã (unificada 1 século mais tarde), na Europa e Estados Unidos, após a independência. Segunda metade do Século XVIII.

Fonte primária de energia = o carvão.

Como consequência imediata, já no Século XIX, a industrialização europeia promoveu a construção, no hemisfério ocidental, das nações que surgiram como potências industriais e geopolíticas hegemônicas, com impérios coloniais que perduraram até mais da metade do Século XX.

Os Estados Unidos expandem seu território nacional até o Pacífico com seus trilhos e locomotivas.

Na segunda metade do Século XIX os Estados Unidos descobrem imensas jazidas petrolíferas – a 2ª Revolução Industrial – que os lançam à liderança mundial, construída ao longo de todo o Século XX. Esta base energética norte-americana foi complementada a partir da passagem séculos XIX/XX com o domínio da produção e distribuição de eletricidade.

A razão central da atividade industrial, como sabemos, é a criação de um processo virtuoso de causa e efeito entre desenvolvimento industrial e criação/inovação de ciência, tecnologia & engenharia, com toda a infraestrutura acadêmica/universitária a lhe dar permanente sustentação.

Mas e o Brasil? Como ficamos?

A metrópole lusitana não contava com reservas de carvão e assim também a joia de sua coroa colonial.

Isto lhe custou o golpe final em sua já há muito debilitada soberania, em favor da Inglaterra.

Não temos carvão de qualidade siderúrgica no Brasil.

“Independente” a partir de 1822 – passamos o Século XIX inteiro sustentados pelo tripé energético lenha-roda d’água-tração animal. Que era periférico quanto à real energia que viabilizava o Brasil como país e sociedade = o braço escravo.

Concretamente, depois dos lampiões a gás e as primeiras ferrovias– movidas a carvão importado da Inglaterra – por um curto período é com a eletricidade de origem hídrica que o real consumo de energia industrial chega ao Brasil e damos os primeiros passos, modestíssimos, no processo industrial. Mas com tudo importado, ciência, tecnologia, engenharia, máquinas as mais simples.

Chega Vargas, em 1930, retira o Brasil do Século XVIII e traz a “novidade” = energia (água e petróleo) é a base do desenvolvimento industrial e da soberania nacional. Como tal, deve ter sua gestão nas mãos do Estado. Para isso cria os instrumentos de governo para materializar este conceito fundamental.

Com Volta Redonda iniciamos, 200 anos depois dos europeus, um verdadeiro – ainda que pequeno com respeito às nossas riquezas naturais estratégicas – processo de industrialização.

Entretanto, um “calcanhar de Aquiles” nos enfraquecia = não tínhamos petróleo/gás natural e a hidroeletricidade sozinha era insuficiente para um processo industrial mais denso, abrangente, sem estar sujeito literalmente “à chuvas e trovoadas”. E, mais importante que tudo, soberano.

E criamos a Petróleo Brasileiro S.A. que, além de tudo, se materializa em decorrência de um grande movimento popular, nas ruas de todo o Brasil, o “Petróleo é nosso”! Empresa com simbolismo político inigualável para a autoestima do povo brasileiro.

Um detalhe importante: diferentemente da quase totalidade das empresas estatais brasileiras, a Petrobrás não teve origem em processos de estatização de empresas estrangeiras já existentes.

A Petrobrás foi criada como uma empresa estatal, de capital misto com a predominância do capital estatal para garantir a gestão direta por parte da União. E a ter como primeiros ativos instalações e competências genuinamente brasileiras oriundas do Conselho Nacional do Petróleo, ainda que muito modestas para enfrentar tamanho desafio de suprir de petróleo e gás este gigantesco país.

A Lei 2004 de 1953 concede à Petrobrás o monopólio de todo o segmento de petróleo e gás natural do Brasil, exclusive a atividade de distribuição.

Como monopólio estatal, a Petrobrás identificou e descobriu a Bacia de Campos e seus imensos campos petrolíferos que nos trouxeram a autossuficiência em 2006. Efêmera na medida em que os campos daquela bacia exibem uma acelerada perda de produção e, à época, o Brasil experimentava um processo de crescimento econômico acelerado, a ter como consequência direta o aumento rápido do consumo de combustíveis.

Desde a aprovação da lei 2004, grandes interesses não brasileiros, privados e estatais combatem a Petrobrás mais por ideologia do que por concretas razões materiais, na medida em que as bacias geológicas brasileiras, por serem geologicamente pouco conhecidas não exibiam potencial exploratório petrolífero importante.

Já o mundo a conviver – a partir da garantia do colapso próximo da URSS – com a hegemonia unipolar geopolítica norte-americana, o governo dos EEUU elabora, em 1989, o chamado “Consenso de Washington”, criado por instituições financeiras situadas na capital do país: FMI, Banco Mundial, Departamento do Tesouro.

Pela definição original de seu próprio inspirador, o texto daí originado significa “o mínimo denominador comum de recomendações de políticas econômicas cogitadas pelas referidas instituições financeiras e que deveriam ser aplicadas nos países da América Latina …”

Este conjunto de “regras” – um decálogo – na verdade, se transformou nos Dez Mandamentos da política capitalista liberal e imperialista do “grande irmão do norte”.

Deles constavam, entre outros: abertura comercial; câmbio de mercado; investimento estrangeiro direto e sem restrições; privatização das estatais; desregulamentação das leis econômicas e trabalhistas. Parece com o que estamos a enfrentar hoje ou é apenas uma coincidência?

Estas regras começam a ser implantadas no Brasil principalmente a partir dos anos 1990, com destaque para os dois períodos dos governos FHC.

FHC, entretanto, não consegue vender o controle da Petrobrás mas revoga a Lei 2004, abre todo o nosso setor de petróleo e gás ao mercado e imprime à Petrobrás uma gestão privada e já com roupagem claramente não industrial mas financista.

A começar pela área de exploração e produção domésticas, na medida em que implanta uma política de abandono de regiões com menor produção e concentração na área onde os investimentos exibiam o carimbo indelével das operações bancárias = maior lucro, no menor tempo possível, com o menor risco. Na Bacia de Campos.

O restante do território nacional aberto às empresas privadas, a aguardar seus investimentos.

Na distribuição, abre o capital da BR.

Esta política inicia a quebra, o desmonte do caráter essencial da própria fundação da Petrobrás como empresa estatal, a estar presente em todo o território nacional, em todas suas áreas de atuação. No caso da exploração e produção, em todas as áreas que exibissem prospectividade para novas descobertas.

Foi assim que o governo Lula, em 2003, encontrou a Petrobrás. Quadro que foi revertido, por determinação direta do acionista controlador da empresa, a União.

A Petrobrás retoma seu compromisso com o povo brasileiro – seu verdadeiro proprietário – com o desenvolvimento nacional e reassume seu protagonismo no setor de petróleo e gás brasileiro. E não só em exploração e produção, mas como uma empresa integrada de energia e atividades diretamente decorrentes de petróleo e gás natural, em todo o amplo espectro de sua atuação – refino, distribuição (fecha o capital da BR), combustíveis renováveis, geração termoelétrica, fertilizantes, petroquímica em todo o território nacional.

A Petrobrás reativa a sua grande competência técnica, científica, tecnológica desenvolvida em 50 anos de pesados investimentos em seu quadro profissional e se consolida como a maior empresa brasileira e uma das maiores empresas petrolíferas mundiais, internacionalmente reconhecida.

A descoberta, pela Petrobrás, em 2006, da maior província petrolífera do planeta nos últimos 50 anos, o nosso pré-sal, é consequência direta da competência de seu quadro de empregados e da firme decisão política de um governo comprometido com um projeto de desenvolvimento nacional integrado e soberano.

Mas, para o “outro lado da mesa” – os representantes do poder do grande capital transnacional, os obedientes, submissos seguidores daqueles que conceberam os Dez Mandamentos do Consenso de Washington – estes fatos não passaram despercebidos.

A maior e mais importante empresa estatal brasileira surge como o principal alicerce de um projeto integrado de Brasil afinal soberano, com a total participação da empresa privada brasileira, a universidade brasileira, alicerçado numa base energética de gigantescas dimensões, a garantir energia abundante e a custos baixos, durante as próximas 4 ou 5 décadas, para a indústria e para a sociedade em geral era – e é!- inaceitável.

Um Brasil soberano certamente abalaria, a médio prazo, a segurança de suas posições geopolíticas de hegemonia, de poder.

Ainda mais com o Brics!

Desde então, como é conhecido por todos, este processo político está acelerado para arrasar com estas pretensões brasileiras.

E absolutamente nada poderia limitar as ações praticadas com este objetivo, desde espionagem a roubo de computadores do campo de Lula.

No centro de tudo estão as grandes reservas de petróleo e gás natural do nosso pré-sal, que eles enxergam como uma espécie de reserva energética estratégica, na medida em que o Oriente Médio, seu tradicional supridor, é palco de crescente e incontrolável instabilidade política apesar de sua forte presença militar na região.

O pré-sal, a ter a Petrobrás como operadora única e a representar um governo nacionalista, confronta-se diretamente com este interesse. Tornou-se imprescindível derrubar o governo e destruir a Petrobrás.

Surge a Operação Lava Jato, que tem origem no combate à corrupção mas que traz como meta central a destruição da Petrobrás e das grandes empresas de engenharia brasileiras.

Seus operadores, servidores públicos remunerados para fazer cumprir a lei brasileira, a desrespeitam de maneira grosseira e inaceitável. Todos a mando do governo norte-americano e com um só objetivo = condenar o Brasil a uma colônia do grande capital financeiro mundial.

Seus mentores estrangeiros através de seus representantes locais provocam o golpe de 2016 e instala um governo que inicia o processo de desconstrução da soberania brasileira, Petrobrás no centro de tudo.

Em processo ilegal e fraudulento, corrompem as eleições de 2018, prendem sem provas e impedem a candidatura do cidadão brasileiro que as venceria.

Este crime é fato comprovado, retira a legitimidade e torna, irremediavelmente nulas as suas decisões tomadas por esta atual governo brasileiro.

Este processo de destruição do Brasil, do Estado Nacional brasileiro é escancarado. A sociedade brasileira, estarrecida, é informada todos os dias, de crimes contra a ordem legal e constitucional de nosso país. A atentarem contra a soberania nacional porque dirigido diretamente pelo Departamento de Justiça de um governo estrangeiro anti-brasileiro.

Na verdade, o Brasil é um país ocupado por forças políticas estrangeiras, desde o golpe de 2016.

Como resultado direto, a Petrobrás não existe mais como empresa estatal. Tampouco é gerida como uma empresa privada de capital produtivo, mas sim de capital rentista.

O acionista controlador é formalmente o governo. Mas este governo – ilegítimo – é privatista, entreguista, escravo não do capitalismo liberal mas fundamentalista ideológico, de fazer corar os mais fanáticos “Chicago boys”.

Em 2019 a direção da Petrobrás torna pública sua decisão, já de há muito praticada, de reorientar os objetivos da empresa, consonante com as metas estratégicas de redução das dívidas e centradas na geração de valor para os acionistas – 64% privados, 42 % estrangeiros.

Quem dirige a empresa são os fundos transnacionais de investimentos financeiros que nada têm de compromisso com o Brasil e com o povo brasileiro. Venderam a BR Distribuidora, venderam o sistema tronco de gasodutos, venderam a refinaria de Mataripe, venderam os campos da Bacia de Campos e destruíram o complexo operacional de Macaé, vão vender todos os campos terrestres inclusive a área de Urucú, onde a Petrobrás criou um centro de produção de petróleo e gás natural em plena floresta amazônica, um patrimônio da humanidade, que é exemplo mundial de integração indústria-meio ambiente, vão vender todas as refinarias fora do eixo Rio-São Paulo, fecharam as fábricas de fertilizantes, venderam a área de bio-combustíveis.

Reduziram o Centro de Pesquisas a um “balcão de negócios”.

Apequenam a empresa e por isso reduzem drasticamente o corpo de empregados, praticam uma política de expulsão de empregados, gente da mais alta qualificação técnica, caminham para a privatização do fundo de pensão …

Todo este processo – já claramente tornado público – deverá ser acelerado neste ano e em 2022, para estar concluído antes da posse do novo governo.

A ficha precisa cair, a Petróleo Brasileiro S.A. não existe mais como empresa estatal tampouco como empresa privada brasileira!

A Petrobrás não existe mais como uma empresa estatal, é hoje apenas uma sigla a denominar uma instituição privada de investimentos financeiros cujo único e central objetivo é maximizar a remuneração de seus acionistas.

E atualmente quem são seus acionistas? Governo = 37%, acionistas privados= 63%, dos quais a maioria (42%) são estrangeiros. Logo, 63% – praticamente 2/3 – dos lucros da Petrobrás se destinam não ao povo brasileiro, representado pelo governo, mas aos proprietários privados, cuja grande maioria é de estrangeiros.

Em 2010 o governo detinha 58% das ações e os acionistas estrangeiros 30%.

Vamos então à pergunta que dá título a este texto: dá para ressuscitar a Petrobrás?

A resposta não é simples, mas há uma pré condição excludente: em razão das dimensões e do significado estratégico da Petrobrás, sua restauração como empresa estatal está irremediavelmente associada à própria recuperação da soberania brasileira, pelo povo brasileiro.

Em outras palavras, tomar de volta a Petrobrás para o Brasil vai simbolizar, material e politicamente o início do processo de recuperação da soberania nacional e da reconstrução das bases de um novo projeto de desenvolvimento do nosso país.

E, no meu modesto entender, não foi por outro motivo que o ex-presidente Luís Inácio Lula da Silva, em seu histórico discurso da última quarta-feira, nos metalúrgicos de São Bernardo do Campo tocou no único ponto específico de sua extraordinária mensagem ao povo brasileiro e ao mundo: em outras palavras, “estejam avisados todos aqueles que compraram partes da Petrobrás. Nós vamos tomá-las de volta”.

Não há espaço político para uma abordagem menos contundente em relação a esta matéria. Posições que levantam dificuldades de toda ordem para adotá-la cometem a impropriedade de considerar como atos jurídicos perfeitos decisões de um ilegítimo governo de ocupação estrangeira.

Juristas importantes e cidadãos brasileiros com consistência e prestígio político de total credibilidade apontam caminhos legais para esta proposta.

O ex-presidente Lula está certíssimo!

Esta deve ser uma cláusula pétrea, clara e inquestionavelmente incluída no programa de reconstrução nacional do Partido dos Trabalhadores apresentado ano passado ao povo brasileiro.

Somente com este posicionamento o Partido dos Trabalhadores cumprirá com seus compromissos originais para com a soberania nacional e o povo brasileiro.

Guilherme Estrela, geólogo e ex-diretor de Exploração e Produção da Petrobras (2003-2012)

sexta-feira, março 19, 2021

Royalties de março tem aumento de 20% na média

 As quotas mensais dos royalties do petróleo dos municípios neste mês de março de 2021, estão na média 20% maior do que as quotas do mês de fevereiro. As razões são o maior valor do barril do petróleo e o dólar, moeda em que se faz as contas das participações governamentais decorrentes da produção de petróleo e gás no Brasil.

Mais uma vez, Maricá é o município com a maior receita: R$ 90,1 milhões. A seguir vem Macaé com R$ 65, milhões; Saquarema com R$ 57,8 milhões; Niterói com R$ 54,2 milhões. Campos dos Goytacazes tem a quinta maior receita com R$ 34, 9 milhões. Cabo Frio com R$ 21,4 milhões; Armação de Búzios com 17,7 milhões; Quissamã com R$ 15,9 milhões; Rio das Ostras com 12,5 milhões; Angra dos Reis com R$ 13,4 milhões e São João da Barra com R 11,3 milhões.

Esses valores serão depositados na próxima segunda-feira nas contas das prefeituras pela ANP. Os dados são da ANP e foram tabulados e enviados ao blog pelo Wellington Abreu, superintendente de Petróleo e Gás da Prefeitura de São João da Barra. Os dados do quadro abaixo apresentam as quotas de 21 municípios, sendo 19 do ERJ e 2 de São Paulo entre os meses março de 2020 e março de 2021. Para ver a tabela em tamanho maior clique sobre ela.


  

quinta-feira, março 18, 2021

Opinião crítica, corajosa e clarividente de Marcelo Pimentel no Podcast Roteirices: "Os miliares e a crise brasileira"

Vale muito conferir a entrevista que o Marcelo Pimentel Jorge de Souza ao jornalista Carlos Alberto Jr. e seu Podcast Roteirices, episódio Nº 110 que teve como título: “Os militares e a crise brasileira”.
 
Marcelo, coronel da reserva e chefe de estado-maior da região militar sediada no Recife*, tem sido uma voz altiva e crítica do caminho adotado pelos generais de politização do Exército e das Forças Armadas e a militarização da sociedade. Pimentel, utiliza diariamente as redes sociais, em especial o Facebook, para emitir opiniões críticas e corajosas em defesa da democracia.
 
Marcelo rejeita, compreensivamente, ser citado pelo cargo que tece quando esteve ativo na corporação que foi aqui descrito, apenas a título de referência, mas acima de tudo, ele não abre mão do direito eu consta da lei que garante aos militares da reserva o direito de expressarem suas opiniões.
 
Marcelo Pimentel é um dos autores do livro como o mesmo título do Podcast “Os militares e a crise brasileira, organizado pelo professor João Roberto Martins, junto de outros quinze pesquisadores que investigam o papel dos militares e das Forças Armadas no poder político do país.
 
Por tudo isso, vale conferir a entrevista e entender um pouco mais como o Partido Militar chegou ao Planalto, através do Bolsonaro, feito como instrumento, para um projeto de poder que abandona a ideia das Forças Armadas como instrumento de Defesa da nossa soberania.

Link do Podcast abaixo:



PS.: Atualizado às 13:38: corrigindo informação equivocada que dizia que Marcelo Pimentel tinha sido comandante do Exército do Nordeste, quando na verdade, seu último posto na ativa foi como chefe de estado-maior da região militar sediada no Recife

PS.: Atualizado às 00:20 de 19/03/2021: Vale ainda mais conferir a segunda parte da entrevista com o Marcelo Pimentel Jorge de Souza, coronel da reserva que pede para ser identificado pelo nome e não pelo cargo no Exército. Marcelo fala sobre as origens e o modo de operação do Partido Militar, que passa a desenvolver o projeto de poder, agora de dentro do Palácio do Planalto. Na postagem abaixo é possível ver a primeira parte da entrevista no ótimo Podcast, Roteirices, do jornalista Carlos Alberto Jr.

Link: 

PS.: Atualizado às 15:52: Terceira e última parte da entrevista do Podcast Roteirices com o Marcelo Pimentel sobre "os militares e a crise brasileira". Com ela se fecha a trilogia com os episódios 110, 111 e 112.

Link:
 

terça-feira, março 16, 2021

Plataformas digitais e Big Techs: inovação, financeirização e monopólio

Há algum tempo, ao abordar as plataformas digitais e o capitalismo de plataformas, eu venho tentando chamar a atenção para a relação entre inovação e financeirização no mundo atual.

Elas são almas-gêmeas e estão fortemente imbricadas e inter-relacionadas. Não existiriam as Big Techs sem a financeirização hegemônica no capitalismo contemporâneo. Assim, esse oligopólio da dominação tecnológica vai em direção ao desejo original de monopólio do capitalismo.

A financeirização apoiada pela tecnologia se aproxima da obtenção do monopólio de controle sobre o sistema que extrai o valor do trabalho e elimina, sem nenhum pudor, a concorrência de mercado.

 plataformização, as empresas-raiz-plataformas, não apenas transformam o Modo de Produção Capitalista (MPC), mas avançam com a força do poder de monopólio que manipula a política e controla o Estado.

As plataformas-raiz são as corporações que exercem a dominação tecnológica e avançam como predadores ou vampiros, capturando e engolindo as concorrências e promovendo aquilo que já foi amplamente estudado, só que como hipótese, que agora está prestes a ser realizar o antimercado. 

Essas primeiras leituras são partes das investigações científicas sobre dois movimentos que venho acompanhando mais de perto. Elas buscam compreender a extensão do fenômeno do capitalismo de plataformas ou do processo que venho chamando de “plataformização” ou “plataformismo”.

Trata-se de uma etapa mais recente do Modo de Produção Capitalista (MPC), que antes passa pelo taylorismo (fordismo) e pelo Toyotismo, mas sem deixar de conviver com estas fases anteriores, agora, sob novas roupagens, como o neo-taylorismo do trabalho precarizado e supervisionado pelos aplicativos. Já abordei esse assunto no artigo “Commoditificação de dados, concentração econômica e controle político como elementos da autofagia do capitalismo de plataforma”. [1]

 

E-commerce de varejo, meios de pagamento, rentismo e financeirização

Os dois processos a que me refiro, substantivando-o, passa ainda pela migração do comércio tradicional para o e-commerce de varejo e para a startupização. Assim, a inovação tecnológica e o empreendedorismo, estão sendo capturados pelo setor financeiro que desta forma elimina os custos e os riscos da inovação, ao mesmo tempo em que garante o controle dos “ativos vencedores” da economia real na atualidade.

De forma breve, é possível observar o movimento no comércio e circulação das mercadorias em que atuam as empresas-plataformas do e-commerce de varejo, tema tratado no meu artigo “Disputa no e-commerce de varejo no Brasil: Entre o intangível do digital e a materialidade da infraestrutura de logística” [2].

Em síntese, identifica-se nesse processo, uma migração da era do boleto, passando pelo cartão de fidelidade, chegando agora ao “superAPP”, os aplicativos que integram as vendas no e-commerce de varejo às operações financeiras decorrentes dos meios de pagamento.

Só para ter uma ideia, o Mercado Pago, um braço da empresa-plataforma de e-commerce de varejo, o Mercado Livre, hoje, movimenta duas vezes e meia mais dinheiro, do que a venda de mercadorias no shopping virtual, incluindo o marketplace. Em 2020, foram US$ 50 bilhões em transações financeiras contra US$ 20 bilhões na venda de mercadorias. Números da atuação do Mercado Livre nos 18 países em que está presente na América Latina.

Sem tomar muito tempo, vou citar dois outros exemplos que demonstram bem, como o rentismo entra no interior da economia real para extrair excedentes, promovendo um ciclo de acumulação financeira, ainda mais potente, a partir da base tecnológica das Big Techs (que ficam com sua parte).

O rentismo avança através da inovação dos meios de pagamentos digitais. Ele migra do esquema dos bancos tradicionais e é potencializado pelas fintechs (financeiras tecnológicas), com articulação dos fundos financeiros, que estão na base (background) deste movimento do capital junto aos fluxos financeiros que circulam no potente comércio do varejo hoje ampliado pelas vendas digitais.

Outro caso é do ramo da mídia corporativa. Enquanto a rentabilidade do grupo Folha de São Paulo patina com as suas várias empresas, a Pag Seguro (das maquininhas), teve um lucro líquido em 2020, ano da pandemia, de nada mais nada menos, que R$ 1,4 bilhão.

O terceiro caso empírico para explicitar a relação entre a economia real e a financeirização é de uma corporação do varejo, a Riachuelo através do seu braço financeiro, a Midway (em vias de ser oficializada como banco).

A Midway com o seu cartão (RCHLO) além de ser responsável por cerca de metades das vendas do grupo (nas lojas ou e-commerce), possuía em 2020, uma carteira de crédito com R$ 3,7 bilhões e ativos de R$ 6,2 bilhões. A Midway já possuía em 2020, uma das 10 maiores bases de clientes perante o Banco Central, sendo a maior entre as financeiras do segmento varejo, trabalhando com 32,4 milhões de cartão de crédito para vendas, empréstimos pessoais, cobranças digitais, etc.

Poderia citar vários outros exemplos em que lucros financeiros definem os lucros líquidos totais de grandes grupos e corporações. Os três exemplos acima (e-commerce, mídia e varejo) são ilustrativos para identificar como o rentismo e a financeirização foram se tornando parte dos negócios das empresas (o mais rentável) e não um setor à parte como antes. A digitalização e as plataformas estão aumentando a potência destes negócios imbricados ao esquema rentista-financeiro.

Por isso, a discussão sobre taxas de juros passa a ser uma questão mais complexa, que supera a dualidade que se fazia entre o setor bancário e financeiro e a economia real. Tema que gerava (e ainda gera) tantos debates, em termos de regulação financeira e políticas públicas desenvolvimento e que o movimento do capital foi superando.

 

Fundos financeiros, inovação tecnológica e startupização

A financeirização e o rentismo se tornaram partes integrantes e vinculadas à economia real. A fluidez disso tudo só se tornou possível no volume que é hoje, por conta do uso intensivo dos fundos financeiros que oferece uma hipermobilidade setorial e espacial ao capital. Trato disso, no meu livro “A ‘indústria’ dos fundos financeiros potência, estratégias e mobilidade no capitalismo contemporâneo”. (Imagem ao lado) [3]

Ainda sobre o movimento mais recente do capital vale ainda descrever uma outra linha de investigação que descrevo num texto “Inovação, financeirização e startups como instrumentos e etapas do capitalismo de plataformas” que está saindo no livro “Geografia da Inovação: Território, Redes e Finanças”. Neste texto, destaco a relação direta entre os fundos financeiros e o lançamento de startups (processo que chamo de startupização).

Em um processo paulatino, mas crescente, as gestoras de fundos financeiros passaram a controlar as ideias inovadoras, o lançamento de editais e aportes de capitais, deixando clara a forma e o processo como o capital passou a capturar todas as novas empresas inovadoras e de sucesso que despontam, sem os conhecidos riscos do mercado.

Segundo a Abstartups (Associação Brasileira de Startups) [4], em 2011, ano de criação da associação, o país contabilizava 600 startups instituídas. Em 2019, o Brasil já havia multiplicado em mais de 20 vezes esse número em relação a 2011, alcançando um total de 12.727 startups, a grande maioria (3/4) empresas-plataformas ou aplicativos digitais.

Em 2018, surgiram o que o mercado chama de primeiros unicórnios, startups cujo valor de mercado ultrapassa US$ 1 bilhão. Em 2020, já eram 12 unicórnios e previsão em 2021 (anos da crise econômica e pandêmica) desse número chegar a 20. Esses dados reforçam a interpretação da relação umbilical entre inovação e financeirização, através também do processo de startupização.

Segundo dados da consultoria Distrito, que atua fazendo essa intermediação entre capital e as startups – que chamam de “aceleração no ecossistema de startups” -, o volume de investimentos em startups no Brasil alcançou US$ 1,39 bilhões em 2018; US$ 2,96 bilhões em 2019 e chegaram a US$ 3,14 bilhões, em 2020, ano da pandemia. Sendo metade, apenas das Fintechs que receberam aportes de US$ 1,5 bilhão. Ainda segundo previsão da Distrito, em 2021, esse volume de investimentos deve chegar a US$ 5 trilhões [5] [6]. Assim, em apenas quatro anos (2018 a 2021), os investimentos em startups no Brasil somarão US$ 12,5 bilhões.

 

Considerações finais

Enfim, considerando a leitura mais totalizante deste processo e de suas estratégias, não há como analisar nenhum destes fenômenos da plataformização, financeirização e startupização de forma isolada. Eles só existem da forma conjunta e complementar e são responsáveis pelos maiores oligopólios da história da humanidade, num patamar acima do que foram as corporações do setor de óleo (Big Oil), as grandes siderúrgicas e as montadoras de automóveis nos primórdios do capitalismo.

A escala de concentração econômica é gigantescamente maior e com o agravante de agir de forma direta, ou transversal, sobre todos os demais setores da economia, ou frações do capital, na direção da dominação tecnológica e do rentismo num ambiente que já é de hegemonia financeira.

Tem-se aí um novo tipo de oligopólio que exerce um nível de domínio de mercado nunca visto antes, com poder anticoncorrencial e de certa forma, também como antivalor na leitura da Economia Política (Oliveira, 1988) [6] no que diz respeito ao desenvolvimento das forças produtivas, das relações no interior do MPC e entre as classes sociais e o Estado.

Os enormes oligopólios atuam como predadores com tendências ao monopólio e ao antimercado, sonho original do capitalismo. Assim, o capitalismo contemporâneo avança em termos de acumulação de capital e das relações de poder sobre o Estado, quando a regulação passou a ser apenas uma quimera, diante do processo de dominação total.

 

Referências:

[1] PESSANHA, Roberto Moraes. Commoditificação de dados, concentração econômica e controle político como elementos da autofagia do capitalismo de plataforma. Revista ComCiência do Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo da Unicamp e SBPC. 16 de setembro de 2020. Disponível em: <https://www.comciencia.br/commoditificacao-de-dados-concentracao-economica-e-controle-politico-como-elementos-da-autofagia-do-capitalismo-de-plataforma/>

[2] PESSANHA, Roberto MoraesDisputa no e-commerce de varejo no Brasil: Entre o intangível do digital e a materialidade da infraestrutura de logística. Revista ComCiência do Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo da Unicamp e SBPC. 2 de novembro de 2020. Disponível em: <https://www.comciencia.br/disputa-no-e-commerce-de-varejo-no-brasil-entre-o-intangivel-do-digital-e-a-materialidade-da-infraestrutura-de-logistica/>

[3] PESSANHA, Roberto Moraes. A ‘indústria’ dos fundos financeiros: potência, estratégias e mobilidade no capitalismo contemporâneo. Rio de Janeiro.  Editora Consequência. 2019.

[4] Associação Brasileira de Startups (Abstartup), criada em 2011 com o objetivo de promover e representar as startups brasileiras. Tem sede no município de São Paulo, e seu portal informa que possui mais de 1000 startups inscritas na associação: <https://abstartups.com.br/>.

[5] O Globo, 4 janeiro 2021, P.21. MATSUURA, Sérgio. Apetite para o risco – Após captação recorde de US$ 3,1 bi em 2020, start-ups seguem na mira de investidores. Disponível em: <https://oglobo.globo.com/economia/start-ups-batem-recorde-em-2020-com-us-31-bi-em-aportes-seguem-na-mira-dos-investidores-1-24821880>.

[6] O Globo, 7 de março de 2021, p.32. ROSA, Bruno. Brasil terá 20 unicórnios em 2021, prevê especialista. Disponível em: <https://oglobo.globo.com/economia/brasil-tera-20-unicornios-em-2021-preve-especialista-24913183>

[7] OLIVEIRA, Francisco de. O surgimento do antivalor: capital, força de trabalho e fundo público. Novos Estudos CEBRAP, São Paulo, n.11, p8-28, out.1988. Disponível em: < http://novosestudos.uol.com.br/v1/files/uploads/contents/ 56/20080623_o_surgimento_do_antivalor.pdf>

sexta-feira, março 05, 2021

A geopolítica da vacina: Taiwan troca microprocessadores por vacinas


A disputa que envolve a luta (guerra) pelas vacinas vai muito para além do que as Big Pharmas (grandes farmacêuticas) globais fazem, para garantir os seus espaços na extração de riqueza dos países, onde atuam fornecendo medicamentos e vacinas. Em especial, neste momento de desespero diante do combate ao vírus corona, suas mutações e à doença da Covid.

Embora, as primeiras vacinas tenham sido produzido por grandes farmacêuticas globais, com apoio científico e tecnológicos das grandes universidades e seus centros de pesquisas em biotecnologia, outras estão sendo desenvolvidos por instituições públicas de pesquisas, mesmo que em ritmos menos velozes e, em breve, estarão disponíveis.

Essas vacinas das Big Pharmas não teriam saído sem os vultuosos aportes de fundos públicos seja nos EUA, União Europeia ou na China. Chamamos a isso, Condições Gerais de Produção, onde a participação do Estado é condição “si ne qua non”, como já mostrou a Mariana Mazzucatto, em seu livro “O Estado empreendedor”.

No meio desse processo muitas articulações entre gestores públicos, negociações comerciais e financeiras foram e continua sendo acertadas. Porém, mais do que isso, interesses de nações estão em curso envolvendo a geopolítica, que pode ser traduzida como supremacia de uns em relação a outros.

Vacinar as populações garantem poder às nações e isso já é razão de disputa de alinhamentos e preferências comerciais. É nesse escopo que o isolamento quase total do Brasil é calamitoso. Não apenas pelo negacionismo, como pela obtusidade com que o Partido Militar viu essa questão durante todo o tempo com olhar ideológico que negou a realidade, por exemplo, em relação à China e ao acordo do Butantã com a farmacêutica chinesa Sinovac, criadora da vacina Coronavac.

Neste contexto não é difícil compreender que a procura pelas vacinas colocam em riscos a liderança dos governos diante de suas populações. Repito, a luta pelas vacinas é basicamente uma disputa entre governos e suas nações no jogo da geopolítica global.

Aliás, a geopolítica se dá tanto na via das nações produtoras de vacina (China, EUA, Índia, Rússia, RU) que adquirem poder com o produto que todos querem, quanto para aqueles que precisam comprar, admitindo concessões não usuais que podem envolver para além de dinheiro, mas outros tipos de garantias e barganhas. Interessante que entre as nações do Brics, só Brasil e África do Sul, não estão no rol dos produtores e são dependentes das vacinas estrangeiras.

Nesta conjuntura é que surge o caso de Taiwan, uma ilha-nação do sul asiático. Taiwan é hoje o país onde está instalada a maior indústria de semicondutores do mundo, a TSMC, que atende todos os grandes fabricantes mundiais de celulares, equipamentos e rede de informática, televisões, etc. e está no centro da guerra tecnológica entre EUA x China no fornecimento de microchips.

Pois bem, Taiwan, onde moram cerca de 24 milhões de pessoas, no meio de algumas dificuldades do governo para ter acesso à vacina para sua população colocou à disposição dos países produtores de vacina na Europa, lotes de seus microprocessadores (microchips) em troca de outros tantos de vacina contra a Covid.

Não, não se trata da estória da introdução de chips dentro das vacinas os negacionistas e terraplanistas. 

É sim, uma espécie de escambo emergencial inusitado nos tempos atuais. O fato, já noticiado no final de janeiro [1] foi citado ontem, pelo cientista Miguel de Nicolellis, em conversa com cientistas estrangeiros [2], ilustra bem como a supremacia científica e industrial de um país em relação a outros num momento emergencial e dramático como o que vivemos.

A Índia mesmo, chegou a humilhar o Brasil em janeiro passado, ao retardar a entrega de dois milhões de vacinas da Oxford fabricada em seu país, por posição a seu favor na ONU. Outros casos estão vindo à tona de troca de vacinas, por garantias e aberturas comerciais e de mercado para quem precisa desesperadamente do imunizante.

Consta que a própria China estaria impondo, condições para exportações do Insumo Farmacêutico Ativo (IFA) - insumo principal de todo medicamento ou vacina -, assim como para o produto acabado.

Quem atua no mercado internacional sabe como funciona o pragmatismo das relações comerciais e de negócios que envolvem a geopolítica e os interesses das nações.

No Brasil, o Partido Militar no (des)governo, mesmo que formado para atuar na guerra, acredita que alinhamento automáticos e dependência consentida fossem resolver os problemas de uma nação que se tornou pária no mundo.


Referências:

[1] Matéria do WCCFTECH, em de 31 de janeiro de 2021. ZAFAR, Ramish. Troca de 'chip por vacina' da TSMC para atrasar a produção de chip de circuito integrado. Disponível em: https://wccftech.com/tsmcs-chip-for-vaccine-swap-to-delay-integrated-circuit-chip-production/

[2] Miguel de Nicolellis em entrevista ao GGN do Luiz Nassif em 04 de março de 2021. Nicolellis defende intervenção no Ministério da Saúde: “Salvação Nacional”. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=XRj7dTGQw1w

PS.: Atualizado às 13:56: para corrigir o termo Big Fharmas, que incorretamente estava grifado como Big Farms. Agradeço ao comentário do leitor alertando para o erro.

segunda-feira, março 01, 2021

A construção da guerra federativa do desmonte nacional!



A guerra federativa do desgoverno do Partido Militar contra governadores é muito profunda e de riscos incalculáveis.

Essa disputa não é só de Bolsonaro é de todo o Partido Militar que tenta proteger os generais - como o sem noção Pazuello e demais - e vai arrumando sempre inimigos na guerra do ódio.

Essa disputa federativa chega a nós cidadãos com o efeito da máxima de que "cada se vire como puder".
 
Isso começou com a negação da pandemia, se ampliou com a propaganda de remédios sem efeitos, seguiu com o enrolo em relação às vacinas e agora com relação à distribuição orçamentária, como se as pessoas não vivessem nas cidades e estados, mas de um único país. Ninguém mora na nação, sem morar num município ou estado.
 
O desgoverno da boquinha não consegue resolver nenhum problema. Assim, indefinidamente arruma inimigos para jogar a culpa.

Hoje, os governadores e prefeitos sofrem a pressão das vítimas dos hospitais, leitos e UTIs lotadas e o desgoverno acha pouco. E fica jogando uma parte da população contra outra.
 
Por isso, insisto, não há colapso. O que há é genocídio, não apenas do capitão, mas de todo o Partido Militar.

O resultado disso é a redução e a perda da identidade, do sentimento de pertencimento à nação Brasil. União sem soberania e sem articulação e cooperação federativa não é nação.
 
Isso tudo parece cada vez mais a antessala da guerra de todos contra todos. Não diga que ela está surgindo naturalmente. Ela está sendo paulatina e criminosamente construída diante de reações ainda brandas do desmonte nacional.

Cretinos. Assassinos. Genocidas!

PS.: Atualização às 16:14: para breve acréscimo no penúltimo parágrafo.

quarta-feira, fevereiro 24, 2021

O risco de um fundo de estabilização dos preços dos combustíveis para transferir fundo público para investidores

Ainda no final de semana passado falei para amigos da minha rede de conversas, como hipótese em estudo pelo desgoverno, o que está na matéria dos jornalistas Daniel Ritter e Fabio Graner no Valor (aqui), p.B4, 24 Fev. 2021, cuja imagem segue abaixo da postagem.
 
A criação de um fundo de estabilização usando dinheiros dos royalties do petróleo. Assim, as participações governamentais e os entes federados pagarão a conta do PPI.

É uma "trapizonga" para o Partido Militar atender as bases, acalmar o setor financeiro e ganhar tempo até entregar mais partes da Petrobras ao mercado.

Na prática uma forma de tomar parte do fundo público oriundo da renda petrolífera.

De certa forma, esse fundo pode ser considerado uma "bolsa investidor", pois garante os rendimentos dos acionistas com a compensação dos altos preços dos combustíveis, só que com a apropriação da renda petrolífera que era fundo público, como participação governamental que passa a ir para os farialimers.

A ideia do fundo de estabilização em si não é ruim, depende de saber de onde ela tira e onde se coloca os dinheiros. O que se tinha antes do PPI era uma espécie de fundo de estabilização.

Pazuellização da Petrobras. A conferir!

sábado, fevereiro 20, 2021

Petrobras e a Economia Política do Partido Militar no desgoverno Bolsonaro

Sugiro aos que me acompanham por aqui a assistirem a entrevista do professor Eduardo Costa Pinto do IE/UFRJ à TV 247, que foi veiculada há pouco que segue no link abaixo. Eduardo trata dos temas que temos aqui conversado, sobre a Petrobras, a política de preços de combustíveis, a desintegração e desmonte da estatal, a financeirização e o interesse dos investidores e a relação de tudo isso com o poder político do Partido Militar. 

O Eduardo também fala da Pazuellização da Petrobras que tratamos aqui no artigo abaixo, explicando o que isso significa.

Não existe economia distanciada da política, assim, o eixo da análise objetiva compreender a atual conjuntura da Política de Paridade de Preços (PPI) dos combustíveis, a direção da Petrobras e seu poder para auxiliar a construir um projeto de desenvolvimento que se situa no âmbito da superestrutura é explicado pela Economia Política. Vale conferir!