sexta-feira, maio 14, 2021

Quadro político se agrava no Brasil, mas desfecho é imprevisível

Há mudanças substanciais no quadro político no Brasil. Há esperanças de transformações no Brasil de hoje, mas ela deve estar para além da resistência.


A CPI trabalha com a apuração de dados crescentes das (ir)responsabilidades do desgoverno, tanto na questão das vacinas, quanto da ausência de gestão para proteção das pessoas.

O desgoverno é fruto de um clã alucinado ombreado por milícias digitais e territoriais e pelos generais do Partido Militar, mais preocupados em duplicar seus salários e que não se importam com a enorme massa de desempregados, famintos e excluídos. Estes tentam sobreviver com o minúsculo auxílio emergencial, sofrendo as dores da pandemia e da morte daqueles mais próximos e, em sua maioria, da mesma classe social.

O descontrole da base desgovernada aumenta, se torna visível, e parece refletir a percepção da população que, embora silenciosa, em sua maioria, segue tentando se proteger do vírus e destes genocidas.

É difícil prever o que haverá pela frente.

Os donos dos dinheiros no andar de cima, seguem satisfeitos com o aumento dos seus lucros e com o acesso às empresas vendidas na xepa das privatizações das estatais e concessões, onde o fluxo de dinheiro e rentabilidade, prescindem de investimentos em instalações, apenas adequações e reformas, pagas com crédito barato e subsidiado do BNDES, mesmo que quase desmontado. Esses, também não encontram o nome para o tal centro neoliberal.

A divisão de posição na população parece ter mudado de lado. Ainda na população, os sinais são de uma maioria acompanhando tudo de perto e querendo mostrar sua nova posição. Há preocupação e ansiedade, mas há mais que fios de esperança.
 
O Brasil, hoje é muito diferente do país de 2002, em diversos aspectos. Precisamos superar o genocídio, o desmonte do país e o atraso. É necessário mais que resistir. Sigamos em frente!

sábado, maio 08, 2021

"Family Office" dos Diniz é um bom "case" da estratégia de financeirização de fração da nossa burguesia

A matéria de O Globo (07 mai. 2021, p. p23) "Abílio Diniz lança gestora com investimento mínimo de R$ 1 mil - Família e investidores fazem aportes de R$ 1,75 bi em fundo multimercado da empresa", é um case claro da fórmula adotada pelas famílias ricas (family offices) para aumentar seus dinheiros com a ampliação do rentismo nesta fase do capitalismo hegemonicamente financeiro. 

Family office da família Diniz O Globo 07-05-2021 p.23


A família Diniz, através de um fundo financeiro (multimercado ou hedge) - O3 Capital - busca captar excedentes para se juntar ao patrimônio de R$ 12 bilhões vindo da família e da venda de seus negócios de varejo supermercado para a francesa Carrefour.

Esse caso explica bem, o movimento dos donos dos dinheiros que controlavam uma empresa comercial em direção a uma novo arranjo de acumulação de capital.
 
Uma boa parte da burguesia endinheirada nacional, passou a fazer opção por fazer parte do esquema da financeirização, que têm no instrumento dos fundos uma espécie de novo "centro dinâmico da economia" controlando através de variados arranjos, as empresas (ativos) da economia real. 

A opção, claro, foi sendo definida, porque no setor financeiro, os lucros são muito maiores (andar superior) do aquele que os Diniz (e outros setores da burguesia) tinham em sua atuação, quase exclusiva no setor (fração) comercial.

Trata-se na verdade, não apenas de um "case" - mas como venho insistindo - na realidade se estabelece como um novo padrão dos donos dos dinheiros, que passam a ter nas finanças, uma maior extração de valor do trabalho com a captura da riqueza produzida na sociedade. 

Essa fórmula dos fundos financeiros substitui a antiga intermediação bancária que cumpria o papel de captar poupança da sociedade para emprestar aos empreendedores de negócios industriais, comerciais, imobiliários e outros. 

No Brasil há quase duas décadas, essa lógica da intermediação bancária foi sendo substituída pela ideia da gestora dos fundos, que hoje controlam com diferentes arranjos (societários) as empresas da economia real em diferentes setores da economia.

quarta-feira, maio 05, 2021

O percurso estrutural do mundo das finanças em direção à digitalização

Por conta de minhas investigações mais recentes, eu tenho comentado com frequência sobre o avanço da tecnologia sobre as nossas vidas. Refletindo um pouco mais, penso que talvez, essa leitura deixe transparecer que esse frisson de técnicas informacionais é que tenham feito surgir a hegemonia financeira no capitalismo contemporâneo, mas não é assim. Tentarei explicar.

Antes, lembro que não se deve esquecer que sempre há um razoável tempo entre o surgimento da tecnologia e sua maturação para uso ampliado em vários setores. Entre exposição da nova tecnologia e o seu uso expandido, o rentismo também foi se ampliando de várias formas.

Assim como “trepadeiras” (plantas parasitas) que têm no caule da árvore a sua fonte de sobrevivência. Por equivalência, o rentismo é também derivado de algo que o sustenta em sua essência. As rendas derivadas da economia real: juros, aluguel, dividendos, comissões, marcas, etc.  

Há séculos há bancos, mercados de capitais e a ideia da partição e democratização da propriedade com a figura da sociedade anônima (SA). Há um século os fundos financeiros também já tinham surgidos, como forma similar à ideia da poupança e como instrumento individual de atualização monetária e juros para acumulação que já tinham a função de servir como meio coletivo, para produzir a expansão da riqueza, acumulação e investimentos. Se houver alguma dúvida sobre isso é só relembrar o período do entorno da crise de 29. De crise em crise, entre sobreprodução e sobreacumulação se tem muito a aprender.

Portanto, é um equívoco não apenas falar, mas também deixar transparecer qualquer ideia de que a expansão da tecnologia é que seja a gênese da financeirização. E é bom que se diga a sua forma de atuação não mudou muito neste tempo todo. O circuito do valor desde a base da pirâmide, a etapa da circulação e vendas das mercadorias até o andar das altas finanças continua o mesmo, como nos ensinou Giovanni Arrighi.

Assim, as novas tecnologias e suas formas organizacionais (TIC) aceleraram o tempo da produção e das trocas até o consumo, cada vez mais intermediado pelas infraestruturas de comunicação das plataformas digitais. Junto estamos vendo a ampliação do setor de serviços, as terceirizações, a precarização retomando a leitura da divisão do trabalho junto da reestruturação produtiva mundial.

 

TIC e plataformas digitais como meio de produção e de comunicação

As plataformas digitais essencialmente como meio de produção (Appficação) e meio de comunicação (redes sociais), surgiram junto da desregulação e flexibilização e como sucessão ao Toyotismo. A internet móvel dos celulares expandiram e misturaram a produção e a comunicação instantânea, roubando os tempos mortos numa cronofagia ainda pouco percebida.

Os mercados globalizados deixaram de ser retórica, num mundo em que os produtos saem e chegam em qualquer lugar, desde que se garanta a fluidez do dinheiro lubrificado no trânsito pelas redes informacionais e os novos meios de pagamento.

Assim, chegamos à concentração de empresas com fusões e aquisições em processo de oligopolização e conformação de um circuito financeiro global. Desta forma, as Big Techs (EUA e China) se tornaram o maior oligopólio da história da humanidade com tentáculos sobre todos os demais setores da economia em diferentes espaços e nações.


Figura 1 (PESSANHA, 2020, p. 437). Capítulo 15 "Inovação financeirização e startups como instrumentos e etapas do capitalismo de plataformas". Livro: Geografia da Inovação: Território, Redes e Finança, GOMES, Maria Terezinha, TUNES, R. e OLIVEIRA, F. G. 


Essa compressão do espaço e do tempo vem servindo de forma extraordinária à ascensão do curto prazo, como objeto do desejo da acumulação ampliada de capitais. O andar de cima dos donos dos dinheiros passou a exercer maior controle sobre a sociedade e sobre a política.

Nesta toada vivemos no presente a dominação tecnológica que amplia a hegemonia financeira que define o capitalismo contemporâneo. Em seu percurso, o capitalismo que já foi hegemonicamente comercial e depois industrial, tem hoje o predomínio financeiro, capturando cada vez mais valor, em todas as frações do capital com suporte da tecnologia da informação e da comunicação (TIC).

Aquilo que antes já existia se ampliou. O avanço da tecnologia, muito para além da maquinaria inicial e mesmo da automação, com a intensificação da TIC, foi permitindo, de forma paulatina e crescente, a constituição de formas e condições para subtrair mais valor do trabalho, da sociedade e do Estado.

Subtração do que eram seus atributos indispensáveis: o monopólio da emissão de moedas e a regulação sobre todos os setores. Hoje, o mercado define a autorregulação e o financiamento como norma das atividades em boa parte do mundo, em especial, no lado ocidental.

Não por outro motivo, os volume dos fundos de investimentos, imbricados às outras formas de aplicação no mercado de capitais e enlaçados ao circuito financeiro global, são hoje quase três vezes maior ao PIB global. Não por outros motivos, a bolsa de valores no Brasil chegou a 3 milhões de investidores comprando e vendo ações e cotas nos fundos financeiros.

 

Aprofundamento da digitalização das finanças, a falsa utopia da moeda digital e nova rodada do neoliberalismo

O amplo mercado de derivativos e os mercados futuros entre outros vão tecendo novos instrumentos com uso de tecnologias. Assim, surgem as moedas digitais, blockchain, tokenização, etc. No meio deste processo, para alguns utópicos e para outros distópicos, há quem imagine que a técnica consiga, algum dia, separar a economia da política. Ledo engano.

Assim, as finanças digitalizadas ampliaram a potência e as estratégias dos donos dos dinheiros, no processo de recolhimento de excedentes das diferentes frações do capital e em todos os territórios a nível global.

Desconfio que nessa captura de excedentes – numa espécie de vampirismo digital - caminhamos para o esgarçamento do sistema. Difícil crer em renovação de um “novo” New Deal (desculpe pela repetição), e novo Welfare-state em que se retoma as ideias keynesianas que deram certo há um século, no pós-29 e outros momentos pontuais.

As transformações neste momento parecem mais estruturais. Talvez até de padrões (in) civilizatórios. Wallerstein criador da ideia de sistema-mundo junto com Arrighi já citado falaram em caos sistêmico que desorganiza aquilo que parecia ajustado ao sistema do pós-guerra e do estado-de-bem-estar. Porém, o império se sente ameaçado e parece querer reafirmar sua hegemonia, em meio à desorganização que dá ares de mudar a hegemonia

O mundo vem se transformando. Neste momento, o andar de cima não cogita de um mundo do "estado de bem-estar-social". Talvez um “estar” de renda mínima espalhada para os sobrantes, para assim, tentar segurar a "patuleia" que fica fora da roda da vida. 

O andar de cima - dos donos dos dinheiros - se tornou os donos da maioria dos ativos, como gostam de se referir a tudo que lhes dê retorno rápido, num mundo onde as pessoas, contabilmente, se transformaram em passivos e prejuízos, quando na realidade é quem ainda produz os excedentes, embora tenha suas rendas cada vez mais expropriados.

Vivemos uma nona rodada do neoliberalismo em que os grandes fundos financeiros a nível global (reunidos em Davos) falam no tal "Great Reset" e outras asneiras. Assim, customizam o discurso financeiro da sustentabilidade, usando o acrônimo ESG (Environmental, Social and Corporate Governance: governança social e ambiental), que na prática, nada mais é do que a retomada daquela ideia dos stakeholders, em que os investidores teriam preocupações com governança social e ambiental, quando na verdade se vê a ampliação da dominação.

Observando os movimentos contemporâneos do capital com o potente aporte da tecnologia, se identifica que a nova rodada - ainda mais radical do neoliberalismo - caminha para um ciclo de acumulação ainda mais perverso. Há um monstro a ser contido, que a despeito de tudo ganhou corpos e mentes nos últimos anos, como tratam os franceses, Dardot & Laval no livro “A nova razão do mundo”.

As reações à Super Liga do futebol, organizada pelo banco americano JP Morgan, reunindo os grandes clubes e potentes fundos financeiros globais, parecem mostrar, mesmo que apenas simbolicamente, que este mundo da "utopia tecnocrática e financeira" para poucos, em detrimento da maioria tem limites. A dominação tecnológica e hegemonia financeira precisam também ter limites.

Para fechar, sabemos que as questões aqui tratadas são estruturais e se situam no campo da economia política - para além das conjunturais -, que se somam à crise dos modelo de representação política de quase dois séculos no ocidente.

Foi neste percurso que chegamos a um estado capturado e sem capacidade de regular e financiar quase nada e a cada dia entrega mais porções ao mercado. Simultaneamente o mercado amplia o controle sobre a sociedade, a política e a economia, se portando ainda mais distante dos interesses da maioria.

Sim, mesmo percebendo que as questões centrais que decorrem destas transformações oriundas da relação entre finanças e tecnologia seriam mais de ordem estrutural e civilizatória, não há como enfrentá-las sem as intervenções dos estado-nações, para dentro e para fora - interna e externamente. Assim, talvez, seja possível compreender que ações passariam pela retomada do Estado, com a finalidade de atender a maioria da sociedade. Porém, não faria nenhum sentido fazê-lo, sem amplas e profundas reformas no sistema e, nesse linha não faz nenhum sentido querer apartar a economia da política.

O assunto merece ser aprofundado.


Referências:

ARRIGHI, G. O longo Século XX. São Paulo: Contraponto/Unesp, 1996.

ARRIGHI, G. A ilusão do desenvolvimento. Petrópolis, Editora Vozes, 1997.

CHESNAIS, F. O capital portador de juros: acumulação, internacionalização, efeitos econômicos e políticos. In: CHESNAIS, F. (org.). A finança mundializada: raízes sociais e políticas, configuração, consequências. São Paulo: Boitempo, 2005, p. 35-67.

DARDOT, P.; LAVAL, C. A nova razão do mundo - Ensaio sobre a sociedade neoliberal. São Paulo: BoiTempo, 2017.

DOWBOR, L. O capitalismo se desloca: novas arquiteturas sociais. São Paulo: Edições Sesc São Paulo, 2020.

HARVEY, D. Condição pós-moderna. São Paulo: BoiTempo, 2005.

HARVEY, D. A loucura da razão econômica. São Paulo: BoiTempo, 2018.

PESSANHA, Roberto Moraes. Inovação financeirização e startups como instrumentos e etapas do capitalismo de plataformas (P.433- 468) in: Geografia da Inovação: Território, Redes e Finança, GOMES, Maria Terezinha, TUNES, R. e OLIVEIRA, F. G. Rio de Janeiro. Consequência, 2020.

domingo, maio 02, 2021

Guilherme Estrella: “Os fundos financeiros passaram a controlar o Brasil. É preciso retomar a nossa institucionalidade e a CF de 88”

O ex-diretor de Exploração & Produção da Petrobras, no período da descoberta do Pré-sal, o geólogo Guilherme Estrella tem dado algumas entrevistas que são verdadeiras aulas. Elas versam para além da Petrobras e falam sobre os esforços para a construção de um Brasil enquanto nação soberana e os percalços que as forças progressistas nacionais têm sofrido para manter esta trajetória.

Foi assim que Estrella, na última sexta-feira, 30 de abril de 2021, participou do programa “Tecendo o Amanhã”, uma parceria entre cinco emissoras comunitárias, tendo como tema” “Petrobras ameaçada”.

Guilherme Estrella fez uma síntese, desde o resgate histórico da criação da Petrobras, o papel estratégico que foi adquirindo com o tempo e a sua ampliação até a descoberta do Pré-sal, quando as forças reacionárias, as mesmas de sempre, ligadas à elite econômica predatória e escravocrata do Brasil, voltaram com  a trama de mais um golpe, em 2016, para esquartejar, desmontar e entregar a empresa para controle dos grandes fundos financeiros.

Ao falar sobre as estratégias de financeirização implementadas na estatal pós-gole, Estrella cita o livro “A ‘indústria’ dos fundos financeiros potência, estratégias e mobilidade no capitalismo contemporâneo” que traz uma interpretação sobre os esquemas rentistas em que os novos dirigentes reproduzem os interesses dos investidores-especuladores curtoprazistas que passaram a imprimir na Petrobras e em outros setores da nossa economia. Ag

radeço a referência do Estrella, mas em especial aos diálogos que temos mantido e que é sempre motivo de muito aprendizado.

Enfim, por tudo isso sugiro que assistam a entrevista-aula de menos de uma hora no canal no Youtube da TV Comunitária do Rio de Janeiro. Garanto que vale conferir!



PS.: Atualizado às 12:16: Para breves ajustes no texto.