segunda-feira, março 23, 2026

Colossal extrativismo de dados

As Big Techs e/ou corporações de tecnologia que estão trabalhando com Inteligência Artificial (IA) estão fazendo acessos e cópias de tudo que é conteúdo disponível nas redes para treinamento de máquinas em seus datacenters de IA. O volume é algo espantoso.
 
Já comentei sobre essa realidade aqui quando disse que fluxos maciços de ados ajuda a tornar nossa internet mais lenta, além de ser um uso descarado de conteúdos alheios para fins conhecidos.

Tenho usado como referência dessa observação o meu blog pessoal que existe há mais de 21 anos, embora, ultimamente, esteja fazendo bem menos postagens, cerca de até duas ou três mensais em média, apenas.

Apesar de tão poucas postagens mais recentes (o blog possui um total de 19,3 mil postagens nesses 21 anos), o número de acessos ao blog não para de crescer nestes últimos doze meses. Antes, ele possuía uma média entre 2 mil e 3 mil visitantes diários, agora isso se multiplicou enormemente.
 
Nos últimos 30 dias foram 1,2 milhão de acessos, sendo 331 mil acessos num único dia, 01 mar 2026. Não tenho e nunca tive nenhuma ilusão sobre interesse em postagens específicas do blog. O fato se deve ao uso dos conteúdos para treinamento de máquina (Machine Learning) para uso dos modelos de linguagens de máquina e processamento em busca de padrões para gerar repostas nos chatbots tipo Chat GPT e outros.
 
É uma colossal extração de dados e de valor. Extrativismo Hi-Tech relativos aos dados e suas correlações que é semelhante à extração de recursos minerais, como já tem sido amplamente discutido, sobre o processo de Dataficação que se desdobra do processo de Digitalização, que há quatro décadas se chamou de informatização.

Esse fato reforça uma referência que fiz, em alguns dos meus textos, numa homeagem ao uruguaio Eduardo Galeano: "Artérias digitais escancaradas da América Latina" relembrando o seu livro "Veias abertas da AL", sobre o captura de valor do ouro, prata, cobre, petróleo, etc. dos vários países da América Latina.

O exemplo do meu simples blog é apenas uma ponta solta desse fenômeno sóciotecnico da Digitalização /Dataficação, Hegemonia Financeira e Racionalidade Neoliberal como as três partes do Tripé do Capitalismo Contemporâneo.

Ciclo petro-econômico como elemento de análise da geoeconomia e geopolítica do petróleo e da energia

A ideia de ciclo (regulares ou irregulares) pressupõe duas fases: boom ou expansão e colapso ou contração. No caso específico, o ciclo petro-econômico (CPE) se refere aos preços da commodity petróleo ao longo do tempo.
 
A ideia (não chamo de conceito) dos “ciclos petro-econômicos” fez parte das interpretações da minha pesquisa (tese) de doutoramento quando, entre outras análises, busquei demonstrar como os preços dessa mercadoria especial influenciam e são influenciados pelas relações de poder, pelos conflitos regionais e geopolíticos e pela imposição imperial.
 
Rios de dinheiro obtidos com essa renda petroleira passaram a alimentar fundos financeiros (soberanos ou privados), diversos outros setores da economia e também a incentivar uma ciranda financeira que passou a ter o dólar (petrodólar) como moeda de transação, a partir de um acordo EUA e Arábia Saudita em substituição ao padrão dólar-ouro.

O petróleo é consumido em todo o mundo, mas produzido por poucas nações, onde o potencial de conflitos é permanente. A circulação de petróleo cru e/ou seus milhares de derivados envolve o uso dos dutos (pipelines) e/ou milhares de navios petroleiros (granéis) que são cada vez maiores e levam à circulação dessa energia móvel como combustível ou outros derivados.
 
A despeito de todo o avanço das ações e dos debates em torno da transição energética, dos renováveis e da necessidade de enfrentamento dos graves problemas climáticos, o petróleo como "mercadoria especial", sua renda e riqueza, continuam elementos-chave e estratégicos na geoeconomia e geopolítica contemporâneas, como a guerra EUA e Israel x Irã estão novamente comprovando, com impacto nos fluxos e nos preços do barril de petróleo e todos os seus derivados.

Até a década de 1970 do século passado, o preço do barril oscilava pouco e era relativamente barato até que a criação da Opep (Organização dos Países Exportadores de Petróleo), a independência e superação da condição de colônia das nações produtoras, levou ao 1º Choque do petróleo em 1973. Logo após, na década de 1980, ao 2º Choque do Petróleo que, não por acaso, coincide com a Revolução Islâmica no Irã e à guerra Irã x Iraque.

Daí em diante vários outros conflitos regionais foram responsáveis por novas fases de “boom e colapso” de preços, a partir dos quais se identifica a ocorrências de mais três outros ciclos petro-econômicos.
 
Vale observar que o período entre 2010 e 2014 é o único em toda a história que por um longo tempo (quatro anos) o preço do barril oscilou sempre acima de US$ 100 o barril, embora com picos rápidos em 2008 (crise subprime) e 2022 (guerra Otan-EUA x Rússia). 

É possível que o atual momento com a Guerra EUA-Israel x Irã se coloque como o 3° Choque do petróleo com ainda maior impacto que os daquele das décadas de 1970 e 1980, mas é preciso esperar os acontecimentos e torcer para que a racionalidade e a humanidade imperem, mesmo diante de tanta insanidade.

O gráfico abaixo mostra a relação entre esses conflitos regionais, alguns grandes eventos globais e as duas fases do ciclo petro-econômico entre os anos de 1970 e 2025. Esse gráfico foi produzido em 2016 para a tese, a partir de um outro publicado no site Depto de Energia dos EUA (energy.gov) em 2015.
 
Em 2025, o gráfico foi novamente revisto e atualizado até aquele momento, por conta de uma demanda do Observatório Socioeconômico dos Municípios Produtores de Petróleo (ObPetro) para publicação do livro “Entre a riqueza e a dependência: os dilemas do desenvolvimento nos territórios do petróleo”, organizado pelos professores Leandro Bruno (UFF) e Robson Dias (IFF) que está no prelo e em vias de ser publicado.
 
O gráfico atualizado como está abaixo faz parte do capítulo 1 do livro em que os organizadores me propuseram, uma década depois, revisitar o tema que ganhou o título: “Ciclo petro-econômico como elemento de análise da geoeconomia e geopolítica do petróleo e da energia”.


Adiante, os episódios decorrentes da atual guerra EUA-Israel x Irã serão acrescentados, porque a ideia de ciclos só podem ser confirmados e analisados após sua ocorrência, embora seja sempre um importante elemento de análise preditiva sobre os movimentos da economia e da política global (ou da geoeconomia e da geopolítica).

Porém, penso que a análise, mesmo en-passant, das fases dos ciclos petro-econômicos (CPE) anteriores como fenômeno transescalar e multidimensional, relacionados aos conflitos e guerras, se constituem e contribuem como elementos estratégicos para os debates contemporâneos da geopolítica do petróleo.

Em breve o livro estará disponível para uma leitura mais ampla sobre o tema com descrição e análises sobre a renda petrolífera, as dinâmicas das duas fases do ciclo petro-econômico, o CPE como fenômeno transescalar e multidimensional, os períodos dos quatro CPEs e as principais características das fases do CPE nas dimensões: econômica; espacial; temporal; industrial; infraestrutural; política; ambiental; geoeconômica e geopolítica.