segunda-feira, março 30, 2026

A inovação tecnológica e a Era IA+ no 15º plano quinquenal chinês (2026-2030)

A China usa o planejamento de curto, médio e longo prazos de uma forma que merece registro. Não se trata de um plano formal e burocrático, como a maior parte dos nossos planos, via de regra, muito sofisticados e pouco compreensíveis, sobre onde querem chegar e como pretendem alcançar os resultados.

Os planos quinquenais chineses percorrem um processo histórico que se iniciaram na década de 50. Nesse percurso os estudiosos do tema identificam que os planos chineses com periodicidade quizenal tiveram fases ou etapas de desenvolvimento. O 15º PQC pertence à quarta fase. 

É importante destacar que os planos quinquenais chineses estão cada vez mais simples, fáceis de serem interpretados, claros e indicando com nitidez as prioridades e qual (is) será (ão) o(s) “motor(es)” para torná-los viáveis e reais no prazo definido.

Assim, resolvi fazer uma leitura en-passant sobre esse último plano quinquenal chinês (15º PQC: 2026-2023), lançado neste mês de março e que tem como meta econômica, um crescimento do PIB entre 4,5% e 5%, já para este ano de 2026. Para não me estender e por considerar que já há outras boas análises sobre o 15º PQC [1], direcionei o foco das observações (também por conta de meus interesses de pesquisa) para as inovações que têm relação com a tecnologia e com a cadeia da economia digital incluindo a Inteligência Artificial (IA).

Imagem gerada por IA (Gemini) a partir do texto com prompt artístico de Wellington Abreu.

As diretrizes gerais deste 15º PQC estão na autossuficiência tecnológica, inovação industrial, transição energética, aumento do consumo interno e bem-estar social. Assim, os chineses pretendem superar o que ainda resta de dependência tecnológica, focando em especial na tecnologia avançada de “microprocessadores e da Inteligência Artificial”, áreas em que já vem conquistando bons resultados. Assim, agora, o eixo passou a ser a promoção de “novas forças produtivas” a partir da IA, computação quântica, 6G e veículos elétricos (VE).


A diferença da China e EUA na direção da inovação e da IA

O PQC (2026-2030) propõe o que chama de “arquitetura das novas forças produtivas” e um crescimento com alta qualidade. Destaco os itens: “China digital, tecnologia quântica e Era IA+” com investimentos em: interface cérebro-máquina e chips neurais dedicados (telepatia); IA corporificada; uso em alta escala de robôs humanoides semiautônomos, algoritmos de decodificação de sinais, banco de dados linguísticos etc.[2]

O PQC (2026-2023) já parte da premissa da Inteligência Artificial (IA) considerada como fator de produção (junto com terra, trabalho e capital) com uso de chips (microprocessadores) de alta performance mais as infraestruturas de governança de dados que incluem Bolsas de pacotes de dados, uso de telecomunicações com infraestrutura digital de redes, capacidade de computação, datacenters (nuvem) e constelação de satélites em órbita baixa.

Como base para a “mudança de paradigma e infraestrutura para a Era IA+” o PQC lista três direções: Rede Nacional de Dados “confiáveis”; Integração do Poder Computacional com clusters gigantes de inteligência computacional integrado à rede de energia verde; Inovação algorítmica com arquiteturas de grandes modelos universais e setoriais, atuando em paralelo, mas focando cenários de alto valor.

Os planos e modelos chineses para a cadeia (força) produtiva da Economia Digital, incluindo a IA, diferem bastante dos EUA. No caso americano as orientações se orientam e se sustentam nas decisões das grandes corporações de tecnologia (Big Techs) e no mercado de capitais (ou capital de risco) que refletem o controle e a hegemonia financeira via mercado.


PQC como inovação de gestão, financiamento estatal e participação privada com orientação para a economia real, bem-estar da sociedade e IA como utilidade pública

Enquanto isso, o plano chinês, se calça no planejamento e no financiamento estatal (articulados nos três níveis) que também tem participação expressiva de companhias privadas, mas seguindo o plano governamental (PQC). Além disso, o mais importante é que o plano chinês se orienta para a materialidade da economia real das forças produtivas da indústria, consumo e os serviços de toda a natureza, incluindo o bem-estar da sociedade com ensino de qualidade, saúde e diagnóstico e cuidado de idosos.

O avanço para a AGI ou IA de propósito geral (Era IA+) e da infraestrutura de dados chineses, não se circunscreve à imbricação e aos interesses do rentismo do Big Money de Wall Street que, atualmente, são os primeiros e maiores usufrutuários dos avanços da digitalização e da plataformização que, sob a racionalidade neoliberal foca, quase exclusivamente, nos ganhos de produtividade e na prescindibilidade humana com substituição da força de trabalho.

Além dessa distinção, para viabilizar os objetivos da China, o PQC fala em “inovação do Estado” com formação de vanguarda de seus recursos humanos, da pesquisa básica de alto risco e da formação de talentos com financiamento de longo prazo, articulação de forças estratégicas entre universidades e infraestruturas, a constituição de consórcio de inovação com empresas líderes de tecnologia e com a integração com as PMEs entre outras ações.

O 15º PQC fala ainda em ampliação da “exploração de profundidade” tanto na terra, quanto no mar e ar (estação espacial lunar, extração e mineração em águas profundas e perfuração oceânica) o que expõe um processo preocupante de expansão do extrativismo.

Na prática, esse ponto do plano traz contradições com os projetos de eletrificação que surgem com a chamada transição energética e verde que apresentava como horizonte a substituição paulatina da matriz energética e também para dar conta do aumento do consumo de energia que produz os efeitos nocivos e já conhecidos sobre o clima no planeta. O plano mostra como o discurso de superação das fontes fósseis pelos renováveis parecem ainda muito distantes, em cheque e em choque em todo o planeta.

Há ainda várias outras observações instigantes no 15º PQC (2026-2030), tanto nos aspectos da inovação, economia digital e IA quanto nas outras questões envolvendo a “nova matriz industrial” (otimização da base industrial tradicional); a “expansão da escala da indústria emergente” (polos de baterias de nova geração, aviação comercial, biomanufatura e veículos inteligentes), quanto a “incubação do amanhã com a indústria do futuro” (avanço nas pesquisas sobre fusão nuclear, interface cérebro-máquina e IA corporificada).

Porém, o objetivo deste texto foi o de contribuir trazendo uma síntese sobre a direção que os chineses planejam e já executam no período até o ano 2030. Assim, vale destacar como os chineses enxergam a infraestrutura digital (microprocessadores, capacidade computacional, redes e data centers) como base para a IA, AGI (ou Era IA+) para as novas forças produtivas. Na contraparte, o plano parte o 15º PQC parece se ancorar na ideia da IA vista também como “infraestrutura de utilidade pública” de um todo que seria o “Sistema Operacional Nacional”.

 

Referências:

[1] Um bom histórico sobre os planos quinquenais chineses e também boa análise geral sobre o 15º PQC foi feita por José Renato Peneluppi para revista Focus da Fundação Perseu Abramo, em 24 mar. 2026. Disponível em: https://fpabramo.org.br/o-novo-plano-quinquenal-da-china-por-jose-renato-peneluppi-junior/

[2] A China já é o maior produtor mundial de robôs industriais, ultrapassando países como Alemanha e Japão.

sábado, março 28, 2026

Estreito de Hormuz: espaço de disputa Irã x EUA repete cobrança de pedágios dos canais do Panamá e Suez

Na prática, com a situação atual da guerra EUA-Israel x Irã, o Estreito de Hormuz está se transformando numa espécie de "novo" e menor canal do Panamá com cobrança de pedágio, seja pelo Irã ou pelos EUA de Trump. Hoje, essa se tornou uma das principais razões da manutenção da guerra. 

No início do atual conflito isso não estava claro. A mesma comparação vale para o Canal de Suez no Mar Vermelho no Egito, próximo àquela região e também importante para o fluxo de petróleo.

Só que ao invés de uma passagem entre o norte e o sul da América ou entre os oceanos Pacífico e Atlântico, o Estreito fica naquela região estratégica, entre o Leste (Oriente) e Oeste (Ocidente) do mundo.
 
Hoje, se tem clareza como esse fluxo tem relação com os petrodólares e todo o mercado financeiro globalizado, para além do custo do barril de petróleo e dos seus derivados.

E tem mais: uma cobrança de pedágio que não prescinde de uma grande e cara obra de engenharia como foi no caso do Canal do Panamá com um porto em cada lado.

Não é controle de fluxo só de energia móvel como petróleo e seus derivados, mas também de dados estratégicos dos países do Golfo com os cabos submarinos que os interligam às nações do Oriente e do Ocidente e que passa pelo Golfo Pérsico.


PS.: Ao lado e abaixo um mapa do Estreito de Hormuz e outro mapa que mostra os cabos submarinos que passam por aquela região.


PS.: Postagem original no perfil do FB deste autor em 26 de março de 2026.


segunda-feira, março 23, 2026

Colossal extrativismo de dados

As Big Techs e/ou corporações de tecnologia que estão trabalhando com Inteligência Artificial (IA) estão fazendo acessos e cópias de tudo que é conteúdo disponível nas redes para treinamento de máquinas em seus datacenters de IA. O volume é algo espantoso.
 
Já comentei sobre essa realidade aqui quando disse que fluxos maciços de ados ajuda a tornar nossa internet mais lenta, além de ser um uso descarado de conteúdos alheios para fins conhecidos.

Tenho usado como referência dessa observação o meu blog pessoal que existe há mais de 21 anos, embora, ultimamente, esteja fazendo bem menos postagens, cerca de até duas ou três mensais em média, apenas.

Apesar de tão poucas postagens mais recentes (o blog possui um total de 19,3 mil postagens nesses 21 anos), o número de acessos ao blog não para de crescer nestes últimos doze meses. Antes, ele possuía uma média entre 2 mil e 3 mil visitantes diários, agora isso se multiplicou enormemente.
 
Nos últimos 30 dias foram 1,2 milhão de acessos, sendo 331 mil acessos num único dia, 01 mar 2026. Não tenho e nunca tive nenhuma ilusão sobre interesse em postagens específicas do blog. O fato se deve ao uso dos conteúdos para treinamento de máquina (Machine Learning) para uso dos modelos de linguagens de máquina e processamento em busca de padrões para gerar repostas nos chatbots tipo Chat GPT e outros.
 
É uma colossal extração de dados e de valor. Extrativismo Hi-Tech relativos aos dados e suas correlações que é semelhante à extração de recursos minerais, como já tem sido amplamente discutido, sobre o processo de Dataficação que se desdobra do processo de Digitalização, que há quatro décadas se chamou de informatização.

Esse fato reforça uma referência que fiz, em alguns dos meus textos, numa homeagem ao uruguaio Eduardo Galeano: "Artérias digitais escancaradas da América Latina" relembrando o seu livro "Veias abertas da AL", sobre o captura de valor do ouro, prata, cobre, petróleo, etc. dos vários países da América Latina.

O exemplo do meu simples blog é apenas uma ponta solta desse fenômeno sóciotecnico da Digitalização /Dataficação, Hegemonia Financeira e Racionalidade Neoliberal como as três partes do Tripé do Capitalismo Contemporâneo.

Ciclo petro-econômico como elemento de análise da geoeconomia e geopolítica do petróleo e da energia

A ideia de ciclo (regulares ou irregulares) pressupõe duas fases: boom ou expansão e colapso ou contração. No caso específico, o ciclo petro-econômico (CPE) se refere aos preços da commodity petróleo ao longo do tempo. 
 
A ideia (não chamo de conceito) dos “ciclos petro-econômicos” fez parte das interpretações da minha pesquisa (tese) de doutoramento quando, entre outras análises, busquei demonstrar como os preços dessa mercadoria especial influenciam e são influenciados pelas relações de poder, pelos conflitos regionais e geopolíticos e pela imposição imperial. 

O ciclo petro-econômico nunca é um fenômeno natural, sendo sempre o resultado de ações e decisões corporativas e das relações de poder e da geopolítica.
 
Rios de dinheiro obtidos com essa renda petroleira passaram a alimentar fundos financeiros (soberanos ou privados), diversos outros setores da economia e também a incentivar uma ciranda financeira que passou a ter o dólar (petrodólar) como moeda de transação, a partir de um acordo EUA e Arábia Saudita em substituição ao padrão dólar-ouro.

O petróleo é consumido em todo o mundo, mas produzido por poucas nações, onde o potencial de conflitos é permanente. A circulação de petróleo cru e/ou seus milhares de derivados envolve o uso dos dutos (pipelines) e/ou milhares de navios petroleiros (granéis) que são cada vez maiores e levam à circulação dessa energia móvel como combustível ou outros derivados.
 
A despeito de todo o avanço das ações e dos debates em torno da transição energética, dos renováveis e da necessidade de enfrentamento dos graves problemas climáticos, o petróleo como "mercadoria especial", sua renda e riqueza, continuam elementos-chave e estratégicos na geoeconomia e geopolítica contemporâneas, como a guerra EUA e Israel x Irã estão novamente comprovando, com impacto nos fluxos e nos preços do barril de petróleo e todos os seus derivados.

Até a década de 1970 do século passado, o preço do barril oscilava pouco e era relativamente barato até que a criação da Opep (Organização dos Países Exportadores de Petróleo), a independência e superação da condição de colônia das nações produtoras, levou ao 1º Choque do petróleo em 1973. Logo após, na década de 1980, ao 2º Choque do Petróleo que, não por acaso, coincide com a Revolução Islâmica no Irã e à guerra Irã x Iraque.

Daí em diante vários outros conflitos regionais foram responsáveis por novas fases de “boom e colapso” de preços, a partir dos quais se identifica a ocorrências de mais três outros ciclos petro-econômicos.
 
Vale observar que o período entre 2010 e 2014 é o único em toda a história que por um longo tempo (quatro anos) o preço do barril oscilou sempre acima de US$ 100 o barril, embora com picos rápidos em 2008 (crise subprime) e 2022 (guerra Otan-EUA x Rússia). 

É possível que o atual momento com a Guerra EUA-Israel x Irã se coloque como o 3° Choque do petróleo com ainda maior impacto que os daquele das décadas de 1970 e 1980, mas é preciso esperar os acontecimentos e torcer para que a racionalidade e a humanidade imperem, mesmo diante de tanta insanidade.

O gráfico abaixo mostra a relação entre esses conflitos regionais, alguns grandes eventos globais e as duas fases do ciclo petro-econômico entre os anos de 1970 e 2025. Esse gráfico foi produzido em 2016 para a tese, a partir de um outro publicado no site Depto de Energia dos EUA (energy.gov) em 2015.
 
Em 2025, o gráfico foi novamente revisto e atualizado até aquele momento, por conta de uma demanda do Observatório Socioeconômico dos Municípios Produtores de Petróleo (ObPetro) para publicação do livro “Entre a riqueza e a dependência: os dilemas do desenvolvimento nos territórios do petróleo”, organizado pelos professores Leandro Bruno (UFF) e Robson Dias (IFF) que está no prelo e em vias de ser publicado.
 
O gráfico atualizado como está abaixo faz parte do capítulo 1 do livro em que os organizadores me propuseram, uma década depois, revisitar o tema que ganhou o título: “Ciclo petro-econômico como elemento de análise da geoeconomia e geopolítica do petróleo e da energia”.


Adiante, os episódios decorrentes da atual guerra EUA-Israel x Irã serão acrescentados, porque a ideia de ciclo com suas duas fases, só pode ser confirmada e analisada após sua ocorrência, embora seja sempre um importante elemento de análise preditiva sobre os movimentos da economia e da política global (ou da geoeconomia e da geopolítica).

Porém, penso que a análise, mesmo en-passant, das fases dos ciclos petro-econômicos (CPE) anteriores como fenômeno transescalar e multidimensional, relacionados aos conflitos e guerras, se constituem e contribuem como elementos estratégicos para os debates contemporâneos da geopolítica do petróleo.

Em breve o livro estará disponível para uma leitura mais ampla sobre o tema com descrição e análises sobre a renda petrolífera, as dinâmicas das duas fases do ciclo petro-econômico, o CPE como fenômeno transescalar e multidimensional, os períodos dos quatro CPEs e as principais características das fases do CPE nas dimensões: econômica; espacial; temporal; industrial; infraestrutural; política; ambiental; geoeconômica e geopolítica.

PS.: Atualizado para breve correção e acréscimo em 28/03/2026.