domingo, março 23, 2014

"Obras do projeto Minas-Rio deixa rastro de destruição em 525 km"

O título acima é de uma interessante, triste e extensa reportagem do jornal O Tempo, de Minas Gerais, de autoria das jornalistas Ana Paula Pedrosa e Queila Ariadne.

A matéria foi publicada na edição de hoje e enviada ao blog por uma lutadora em prol dos atingidos, Patrícia Generoso. O blog decidiu replicar abaixo a reportagem na íntegra, pois, o mesmo tem relação direta com tudo aquilo que se relaciona com o Porto do Açu, local, onde chega o mineroduto:





"Uma mina, um mineroduto, um porto e muitos problemas. Pro 525 Km, o projeto Minas-Rio, da Anglo American, vai unir, por meio de um mineroduto, a extração de minério de ferro, em Minas Gerais, ao porto, no Rio de Janeiro. O mineroduto é o maior do mundo e o complexo só espera a concessão das licenças de operação para começar a funcionar, o que deve acontecer até o fim do ano. Enquanto os tubos do projeto vão sendo enterrados, um rastro de insatisfação vai se abrindo entre os atingidos, que se sentem abandonados pela empresa."

MINERODUTO

Obras do projeto Minas-Rio deixam rastro de destruição em 525 km 
Economia - Especial - Minas GeraisMineroduto Minas Rio o maior do mundo aproximadamente 525km ligando Conceicao do Mato Dentro em Minas Gerais com o porto em Acu distrito de Sao Joao da Barra no Rio de Janeiro Empresas responsaveis pela Obra MMX Anglo American Camargo CorreaFOTOS: MARIELA GUIMARAES / O TEMPO 12.02.2014
Fazenda Santa Cruz Areas, no distrito de Alvorada, sofre com a falta de água e com a obra que passa pela região. Foto: Mariela Guimarães

Em Conceição do Mato Dentro, a instalação do projeto da Anglo American está virando a vida dos moradores de cabeça para baixo

PUBLICADO EM 23/03/14 - 03h00 - ANA PAULA PEDROSA - QUEILA ARIADNE

Se Conceição do Mato Dentro, na região Central de Minas Gerais, tivesse saído da imaginação do colombiano Gabriel García Márquez, talvez a cidade se chamasse Macondo e sua riqueza fosse banana em vez de minério. Tal como o povoado fictício da obra “Cem Anos de Solidão”, do autor, a cidade mineira também viu sua vida alterada repentinamente pela chegada de uma empresa estrangeira. No livro, é a Companhia Bananeira quem faz “uma invasão tão tumultuada e intempestiva que nos primeiros tempos era impossível andar na rua”. Em Conceição, é a instalação do projeto Minas-Rio, pela Anglo American, que está virando a vida dos moradores de cabeça para baixo.
A cidade é apenas a ponta do projeto e dos problemas causados por ele. O empreendimento começa com a mina e a barragem de rejeitos em Conceição do Mato Dentro e termina no porto do Açu, em São João da Barra, no Norte do Rio de Janeiro. Um mineroduto que terá 525 km, que será o maior do mundo, vai unir as duas pontas. O projeto corta 32 municípios, sendo 25 em Minas Gerais e sete no Rio de Janeiro. Outras quatro cidades são afetadas indiretamente, totalizando 36.
Assim como a Companhia Bananeira criada pelo escritor que venceu o Nobel de Literatura, a atuação da Anglo American vai deixando um rastro de histórias quase invisíveis, escondidas em pequenos povoados e comunidades rurais onde os moradores relatam uma coleção de problemas que vão desde a invasão de terrenos até o soterramento de nascentes, falta de água, passando pela destruição de sítios arqueológicos e prejuízos a aldeias indígenas.
O Minas-Rio está em fase de Licença de Operação, a última antes de iniciar seu funcionamento. A expectativa é que a autorização para funcionar saia ainda neste ano. A obra que a empresa considera praticamente acabada, deixou cicatrizes profundas em gente simples que habita seu caminho.
Durante duas semanas, rodou 3.400 km de uma ponta a outra do empreendimento para descobrir essas histórias, que serão apresentadas na série de reportagens “Um Mineroduto que Passou em Minha Vida”, que começa hoje.
HISTÓRIA
Desolamento no lugar da casa

Em agosto do ano passado, o lavrador João Batista da Silva saiu de sua casa, no povoado de Cabeceira do Turco, a contragosto para dar passagem ao mineroduto do projeto Minas-Rio

A-G

Em agosto do ano passado, o lavrador João Batista da Silva, 32, saiu de sua casa, no povoado de Cabeceira do Turco, em Conceição do Mato Dentro, a contragosto para dar passagem ao mineroduto do projeto Minas-Rio. A promessa era que ele e a mulher, Rosely Maria da Silva, 20, morariam provisoriamente em outro local, com o aluguel pago pela Anglo American, por seis meses. A desocupação do imóvel foi pedida depois que o pai de Batista assinou um documento permitindo o uso do terreno.
O que era para ser temporário virou um problema permanente: semanas depois da mudança, a casa foi demolida. “Saí debaixo de chuva Demoliram a minha casa e, agora, eu não sei o que vou fazer. Vou morar onde, debaixo das nuvens?”, questiona ele.
O caso de Batista é extremo, mas não é isolado. As repetidas denúncias de desrespeito à propriedade, invasão e destruição do patrimônio individual levaram o Ministério Público Federal (MPF), o Ministério Público Estadual de Minas Gerais (MPMG) e a Defensoria Pública do Estado de Minas Gerais a expedir, em 2012, uma recomendação conjunta à Anglo com advertências como “não entrar ou permanecer em áreas sem a autorização do proprietário, não causar danos a cercas, porteiras e mata-burros e não ameaçar ou constranger moradores e comunidades”.
O promotor de Justiça de Conceição do Mato Dentro, Marcelo Mata Machado, um dos cinco que assinam o documento, explica que a recomendação foi motivada pelo grande número de reclamações que chegou aos órgãos públicos. “A cidade se modificou completamente, isso é muito claro. Tem reclamações de todo tipo”, diz Machado.
Na época, a Anglo respondeu que recebeu “com estranheza” as recomendações dos ministérios públicos e da Defensoria Pública e listou uma série de programas que desenvolve para garantir o bom relacionamento com as comunidades e reduzir os impactos da obra. A empresa afirmou também que respeita os direitos humanos e as normas ambientais.
A resposta não convenceu o MP de Conceição do Mato Dentro, que encomendou um estudo a uma consultoria para dimensionar os impactos do empreendimento no município. “Queremos saber se os programas que a empresa se propôs a implantar estão trazendo alguma qualidade de vida a essas pessoas”, diz o promotor da cidade. O levantamento deve ser concluído em abril.
Categorização do crime de perigo

TRAÍDO?

Prejuízo vai muito além dos R$ 100 mil pagos

João Batista diz que a "negociação errada. Praticamente pegaram na mão do meu pai para ele assinar o documento. E não explicaram que iam derrubar a minha casa"


PUBLICADO EM 23/03/14 - 03h00 - ANA PAULA PEDROSA - QUEILA ARIADNE


Enquanto procura um novo local para morar, João Batista da Silva busca, na Justiça, uma indenização. O terreno de 1,8 hectare onde ele morava, criava galinhas e plantava uma horta, pertencia ao pai, Joaquim Sanches da Silva, 59, que é alcoólatra e tem uma grave psicose atestada por um psiquiatra, cujo laudo faz parte do processo que a família move contra a Anglo. “Foi uma negociação errada. Praticamente pegaram na mão do meu pai para ele assinar o documento. E não explicaram que iam derrubar a minha casa”, diz.
Na negociação, o pai dele recebeu cerca de R$ 100 mil. A promessa de pagar o aluguel a Batista por seis meses não está documentada. A Anglo American afirma que já negociou e quitou a indenização judicial a que a família tem direito. “A empresa entende que não existem pendências com o sr. João Batista ou com os seus pais em relação ao assunto”, diz, em nota. 



sábado, março 22, 2014

E a água que vem de MG com o mineroduto?

O caso da disputa pelo uso da água do Paraíba do Sul certamente vai levar a outros casos que passaram relativamente batidos pela sociedade e pela chamada opinião pública.

Um deles é o grande volume de água que vem junto do minério de ferro a ser transportados por mais de 500 km do Quadrilátero Ferrífero mineiro até o Porto do Açu.

Na épica do licenciamento se discutiu inclusive a hipótese, depois descartada, quando o projeto era ainda da MMX (depois dividida para a já ex-LLX, atual Prumo), de se instalar uma tubulação em paralelo ao mineroduto para levar a água de volta para Minas Gerais, depois que a pasta passar pelos sistemas de filtragem no Açu.

Os pequenos proprietários rurais daquela região do município de Conceição do Mato Dentro, MG, mostram-se extremamente preocupados, e têm arguido a Anglo-American, atual controladora do Sistema Ninas-Rio, sobre os problemas gerados pela redução do potencial hídrico daquela região.

É muito provável que o tema volte à tona agora, e ainda antes do início da operação do mineroduto.

Relembrem aqui e aqui duas postagens do blog que tratam do assunto, respectivamente, em agosto e setembro de 2013. Na foto (ao lado) já exposta nas manifestações naquela época já chamava a atenção: "A água vale + que minério".

Duas décadas sem apartheid

O jornalista campista radicado há algum tempo em Brasília, já tendo atuado na África e nos EUA, Carlos lberto Jr., está anunciando o seu novo trabalho, a produção do longa documentário "Democracia em Família" contando a história de duas décadas do fim do apartheid na África do Sul. Democracia em Família é um longa-documentário, mais um projeto da Cine Group do qual Carlos participa.

O apartheid foi imposto em 1948 pelo Partido Nacional, defensor da supremacia branca, raça, que representava menos de 10% da população total da África do Sul, e discriminava os negros, que compunham a grande maioria (cerca de 80%) dos habitantes do país.

As atrocidades que vieram no pacote de medidas nefastas do apartheid fizeram insurgir uma resistência interna e também externa de lideranças políticas e sociais que tentaram derrubar, por décadas, o regime condenado pela comunidade internacional.

Essa resistência também retumbou aqui no Brasil e, agora, uma produtora de audiovisual brasileira, a Cine Group, resolveu viajar à África do Sul para contar como se comportou o cenário político do país africano nesses 20 anos pós-apartheid.

Segundo, Carlos Alberto Jr. diretor de Conteúdo da produtora Cine Group“Vinte anos depois do fim do apartheid" pretende mostrar a importância do voto na consolidação da democracia sul-africana e o papel da geração dos chamados ‘bor frees’ nesse processo.

Para esta missão, o jornalista, roteirista Carlos Alberto Jr. lidera uma equipe de brasileiros que aportará em Johanesburgo no dia 21 de abril para iniciar a produção do longa documentário Democracia em Família.
Fonte: Carlos Alberto Jr. e Portal Tela Brasil.
PS.: Atualizado às 17:50 para breve ajuste no texto.

sexta-feira, março 21, 2014

Água para o Açu?

Se existiam dúvidas sobre a hipótese de liberação de vazão para atender o Porto (antes Complexo) do Açu, uma ETA com vazão estimada em 10m³/s para atender os empreendimentos, especialmente, do cada vez mais questionado, Distrito Industrial de São João da Barra (DISJB) a situação atual deve detonar de vez a intenção.

Desta forma, os empreendimentos do Açu terão que arrumar outra fonte para esta água. Uma possibilidade seriam os aquíferos da região. Esta possibilidade consta inclusive do EIA/Rima do DISJB.

A contradição neste caso é que a água dos aquíferos da região situado a uma profundidade entre 50 e 100 metros, podem ter sido contaminados pela salinização que também atingiu o solo e fontes hídricas como lagoas e os canais de drenagem da região, por conta dos erros técnicos no processo de aterro hidráulico feito na retroárea do porto e da Unidade de Construção Naval (estaleiro) da OSX.

Enfim, a água para beber que é prioridade, pode também (e já é) um gargalo para a decisão sobre a instalação de empreendimentos. A conferir!

PS.: Atualizado às 23:36 e 12:05: em tempo, o governador paulista disse que precisa de apenas  5m³/s, metade do que seria para abastecer o Complexo do Açu e está tendo toda a chiadeira que estamos vendo, imagine se tivermos ambas as sangrias de vazões. Cabral diz que o aumento da população exigirá 10m³/s diante da demanda desesperada de São Paulo. Diante destes números e das respectivas sangrias, eu suspeito que dentro em breve, não teremos mais foz em Atafona. A conferir!

Projeto Minas-Rio e seus impactos socioambientais: olhares desde a perspectiva dos atingidos

Um total de dezoito instituições que reúne os movimentos sociais das comunidades atingidos pelo projeto desde o município de Conceição de Mato Dentro, em Minas Gerais até o Açu, no Norte do Estado do Rio de Janeiro, organizaram um relatório (dossiê) sobre os impactos socioambientais do projeto, com um olhar desde a perspectiva e o olhar de quem sofre com o projeto, os atingidos.

Reuniões e seminários nas duas regiões gerou dois importantes documentos: um relatório e um vídeo que estão assim apresentados pelo Ibase (Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas) através do Canal Ibase, seu veículo de informação:

Dossiê: mineração afeta 32 cidades no RJ e MG
Camila Nobrega e Rogério Daflon
Do Canal Ibase
"Pelo menos trinta e duas cidades brasileiras já foram atingidas pelo projeto Minas-Rio, um dos maiores empreendimentos minerários do mundo. Ele começa com a extração
Casa destruída em frente à placa da LLX
Casa destruída em frente à placa da LLX/Foto: Camila Nobrega
de minério na cidade Conceição do Mato Dentro, em Minas Gerais, corta dezenas de municípios por onde passa um mineroduto e termina no Porto do Açu, empreitada do polêmico empresário Eike Batista, em São João da Barra, no Rio de Janeiro. Diante de um quadro aterrador, um  dossiê inédito elaborado por entidades da sociedade civil reúne informações que dão a dimensão de como os territórios estão sendo devastados social e ambientalmente. A indignação de povos dos dois estados foi transformada em união e combustível para a resistência.
Os grupos de atingidos de São João da Barra e de Conceição do Mato Dentro se conheceram, fizeram visitas mútuas e observaram que as violações numa e outra cidade guardavam trágica semelhança. Eles se juntaram  então, a entidades como Ibase, Associação de Geógrafos Brasileiros (AGB) ,o Grupo de Estudos em Temáticas Ambientais (GESTA) da UFMG e da UFF, para organizar os dados que expõem os estragos desse empreendimento que arrasou modos de vida e destruiu o ecossistema local com o aval dos governos dos dois estados e do governo federal. O cenário, como evidencia o documento, se compõe de graves violações de direitos humanos. A vida dos moradores dessas cidades foi atropelada, e eles viram suas lavouras serem utilizadas para uma concentração de terra sem precedência nessas regiões e os bens comuns, como caminhos, recursos hídricos e a maior restinga da América Latina revertidas para empresas privadas, ou seja, para acumulação de capital.
- A questão fundiária nesse projeto  é  emblemática. Nesse processo,  30 mil hectares (seis mil em minas e 26 mil no Rio) foram comprometidos – assinala o geógrafo Eduardo Barcellos, da Associação dos Geógrafos Brasileiros.
A falta de senso dos órgãos ambientais – pressionados pelos governos dos dois estados que se deslumbraram com a megalomania dos empresários à frente dos empreendimentos em Minas e Rio – causou distorções que levaram populações a sofrimentos desnecessários.
Mina de Conceição do Mato Dentro/ Foto: Rogério Daflon
As compensações ambientais acordadas, por exemplo, não levaram em conta modos de vida tradicionais. Um exemplo disso é o processo pelo qual foi criado o  Parque Estadual da Lagoa do Açu,em São João da Barra. Com mais de oito mil hectares e classificado como área de proteção integral, ele se sobrepôs a atividades produtivas tradicionais e  impactou a vida de pessoas de dois assentamentos:  Che Guevara e Ilha Grande, ou seja, em as áreas de reforma agrária, o que mostra a arbitrariedade e a  inconsistência do Instituto Estadual do Ambiente (Inea).
A remoção de famílias foi brutal, tanto em Minas como no Rio. Áreas em que viviam, sobretudo, agricultores familiares e pescadores foram alvo de desapropriações por decretos estaduais, sem qualquer consulta pública, declarando-as de utilidade pública.
(Vídeo expõe sofrimento dos atingidos)
- É como se produzir comida não fosse de utilidade pública – disse Barcellos.
O geógrafo ressaltou que a expulsão das pessoas resultou em um processo de formação de novos latifúndios nas mãos de empresários brasileiros e estrangeiros, numa transação avalizada pelo poder público brasileiro.
O ambiente de negócios do projeto Minas-Rio foi pautado pela mania de grandeza dos governos e da iniciativa privada. Perigosamente entrelaçados, não só fizeram vista grossa às violações cometidas nos territórios dos empreendimentos como se tornaram cúmplices. Dados expostos no dossiê mostram que os órgãos ambientais foram ineficientes diante dos constantes descumprimentos de acordos relacionados às condicionantes dos projetos.
Causou espanto que as licenças ambientais, em vez de tratar o projeto como um só, o fragmentaram em três. O Ibama, que por ser um órgão federal deveria dar a licença ao projeto como um todo, só o fez nas áreas atingidas pelo mineroduto. Os órgãos ambientais de Minas e do Rio fizeram as licenças, respectivamente, em suas áreas. Essa divisão não só abriu mão de uma visão completa dos impactos do projeto como também foi responsável pelos descumprimentos de acordos relacionados às populações atingidas e ao meio ambiente. Em Conceição do Mato Dentro, por exemplo, algumas famílias chegaram a ficar sem água como consequência da atividade mineral da Anglo American. Essas pessoas, contudo, estão cada vez mais conscientes.  A terra, na vida dessas famílias, é elemento central para a garantia da sobrevivência. Essa é a luta que une os moradores das cidades impactadas, como afirma o pesquisador do Ibase Carlos Bittencourt.
- Nossa aposta é nos intercâmbios entre as diversas resistências do Brasil frente à mineração, a fim de que saiam do seu isolamento local, dialoguem entre si e possam construir uma alternativa nacional a esse modelo destrutivo que devasta tantos territórios no Brasil – disse Bittencourt.
Como os governadores têm ignorado o pedido de diálogo das populações atingidas, várias formas de lutas começaram a ser costuradas. Ao se encontrarem, as populações atingidas de Conceição e São João trocaram angústias, dilemas e impressões. Formou-se uma rede de solidariedade. Nesse processo de resistência, algumas vitórias já foram conquistadas. Há várias ações judiciais em andamento nos ministérios públicos dos dois estados e do órgão federal. No Rio de Janeiro, a Comissão de Direitos Humanos da Assembleia Legislativa do Rio (Alerj) está atenta à questão e já convocou audiências públicas. A isso tudo se somam investigações de caráter trabalhista, tendo em vista as greves de operários da LLX e da Anglo American, que denunciam a precarização do trabalho.
O clima também é de total injustiça ambiental. Em São João da Barra, a maior área de restinga do país está ameaçada.E, provocada pela construção do Porto, a salinização dos terrenos na região prejudicou a agricultura e reduziu a produtividade dos solos a menos da metade.
O que ocorre em Minas e no Rio é o retrato da falta de diálogo do Brasil com os seus diversos brasis. O governo brasileiro tem deixado as portas abertas para os empresários e fechado negócios à revelia das populações que são diretamente afetadas pelos empreendimentos. O dossiê abaixo esmiúça todo esse processo, dando voz aos atingidos. O que eles têm a dizer é tão importante que pode levar a uma reflexão sobre o atual modelo de desenvolvimento do país.
dossiê disponível na íntegra é assinado por:

Associação de Geógrafos Brasileiros Seção Rio de Janeiro / Niterói – AGB
Associação dos Proprietários de Imóveis e Moradores de Pipeiras, Barcelos, Cajueiro e Campo da Praia – ASPRIM
Comissão Pastoral da Terra – CPT
Comissão dos Atingidos de Conceição do Mato Dentro
Grupo de Estudos em Temáticas Ambientais – GESTA/UFMG
Grupo Política, Economia, Mineração, Ambiente e Sociedade – PoEMAS/UFJF
Instituto Brasileiro de Pesquisa Socio Econômica – IBASE
Instituto Federal Fluminense – IFF-RJ
Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra – MST
Núcleo de Estudos Rurais e Urbanos – NERU/UFF
Núcleo de Estudos em Estratégias e Desenvolvimento – NEED/IFF
Núcleo de Estudos e Pesquisas Socioambientais-NESA/UFF
Rede Brasileira de Justiça Ambiental – RBJA
Universidade Federal Fluminense – UFF
Universidade Federal de Minas Gerais – UFMG
Universidade Federal de Juiz de Fora – UFJF
Universidade Estadual do Rio de Janeiro – UERJ."

quinta-feira, março 20, 2014

A luta (briga) pela água!

Para quem imaginava que este seria um problema para décadas, séculos, deve estar espantado.

A disputa pela água é um problema de hoje, infelizmente real e do momento como se vê no caso do manancial do Rio Paraíba do Sul.

Pelo visto, este tipo de problema que veio para ficar.

Pode ser administrado na emergência, evidentemente foi pessimamente gerenciado pelo governo paulista. Porém, este e outros casos precisam ser tratados estruturalmente e de forma permanente na sua gênese.

Aliás, a discussão de uma fonte alternativa de abastecimento de água em Campos a quantas anda?

Como já se falava antes e agora parece definitivo, o Rio Paraíba do Sul, para quem está na foz, será sempre um grande problema. Que alternativa temos?

Só nestes momentos a questão dos aquíferos é lembrada e depois esquecida. Com a palavra as autoridades. A conferir!


quarta-feira, março 19, 2014

"Os milionários de Eike"

Uma matéria da jornalista Maria Luíza Filgueiras de dez páginas com o título "Todos os homens de Eike - "A história secreta do grupo de executivos que acumularam fortunas de até 200 milhões de reais enquanto as empresas de Eike Batista ruíam" está publicada na edição Nº 1061 da revista Exame que está nas bancas. O blog acessou a mesma aqui no site especializado em questões sobre o mercado de ações, o "Debêntures.com.br".

É evidente que todos nós nos perguntamos de onde saiu este dinheiro. Dos investidores? Dos grandes? Dos pequenos? De ambos? Mais de onde? A matéria é interessante para se ter ainda mais detalhes de como funciona um setor pouco conhecido da maioria da população.

Foto Fernando Cavalcanti - Exame
Abaixo a reportagem disponibilizada pelo Debêntures.com.br:

"Todos os homens de Eike"
"Antes de assumir o cargo que faria dele um dos executivos mais ricos do Brasil, o economista Marcelo Faber Torres tinha carreira mediana e vida simples. Após uma década de trabalho sem grandes brilhos no mercado financeiro, seu patrimônio se resumia a um apartamento de 100 metros quadrados no bairro do Jardim Botânico, no Rio de Janeiro. Em julho de 2007, tudo começou a mudar. Um amigo o indicoupara o cargo de diretor financeiro e de relações com investidores da OGX Óleo e Gás, companhia petrolífera que estava sendo criada pelo empresário Eike Batista. Como tinha pouco a perder deixando seu emprego num banco de médio porte em Londres, Torres aceitou o convite. Nos cinco anos seguintes, coube a ele a tarefa de comunicar ao mercado as descobertas de petróleo supostamente incríveis e as promessas mirabolantes daquela que seria a "mini-Petrobras". Como hoje se sabe, tudo aquilo era uma ilusão, o petróleo não existia e a OGX entraria em colapso em outubro de 2013. Torres foi demitido um ano e meio antes, após uma briga com Eike. Para qualquer profissional, ter participado tão ativamente do mais retumbante fracasso empresarial da história brasileira seria algo a lamentar quem gostaria de colocar no currículo uma história dessas? Mas Torres não tem de se preocupar com currículos: afinal de contas, ele nunca mais vai precisar trabalhar. Ao longo dos cinco anos em que trabalhou para Eike Batista, ele acumulou uma fortuna deaproximadamente110 milhões de reais ou quase 95 000 reais por dia. Trocou o apartamento de classe média por uma coberturade9 milhões de reais na quadra da praia do Leblon, no Rio. Desde que foi demitido, está num "sabático" e lá se vão 23 meses.

Histórias como a de Marcelo Faber Torres mostram uma faceta pouco conhecida da ascensão e queda de Eike Batista e suas empresas. Marqueteiro como só ele, Eike criou a lenda do "X" como multiplicador de riqueza: o sucesso de suas empresas, dizia, faria ricos ele mesmo, seus funcionários, seus acionistas e, no limite, o próprio Brasil. Mas aconteceu o contrário de quase tudo isso. Eike, que chegou a ser o sétimo homem mais rico do mundo, hoje tenta salvar o que pode daquilo que foi seu império. Para levantar dinheiro, até mesmo xícaras e chuveiros da OGX foram colocados à venda num leilão em março. Mais de 50 000 investidores que acreditaram em suas promessas se continuaram com ele até o fim perderam98% do que aplicaram. Para a imagem do Brasil, o prejuízo foi brutal afinal, Eike era o símbolo máximo daquela que parecia uma fase de pujança econômica nunca vista desde os tempos de Pindorama. Mas, sob essa espessa camada de fracasso, esconde-se uma história ainda não contada: a dos executivos multimilionários de Eike Batista. Para eles e talvez só para eles, o tal efeito multiplicador de riquezas do "X" de fato funcionou.

No mercado financeiro brasileiro, correm há anos lendas sobre as fortunas ganhas por executivos do grupo X. "Fulano de tal ganhou 100 milhões de reais." "Sicrano levou 200." "Houve quem ganhasse meio bilhão!" Mas quem de fato enriqueceu? O que esses executivos fizeram para ganhar tanto dinheiro? Como isso foi possível num grupo que teve o destino que teve? No último mês, EXAME ouviu 31 diretores, ex-diretores e gerentes do grupo X, teve acesso a contratos, cartas escritas por Eike, processos judiciais e documentos enviados pelas empresas à Comissão de Valores Mobiliários. Com base nesse levantamento, pode-se dizer que pelo menos dez funcionários embolsaram de 70 milhões a 200 milhões de reais por seu trabalho no grupo X. As maiores fortunas foram feitas nas duas principais empresas do grupo, a mineradora MMXe a OGX. Dezenas de outros ganharam de 1 milhão a 50 milhões de reais. Essas são contas conservadoras, já que foram feitas com base em dados oficiais e levam em conta o preço médio das ações das empresas do grupo X quando esses executivos as venderam. Nenhum deles quis discutir o assunto publicamente. Eike não deu entrevista. São histórias como a de Flávio Godinho e Paulo Gouvêa que, fiéis escudeiros de Eike por mais de uma década, têm hoje 200 milhões e 150 milhões de reais, respectivamente. Ou de Rodolfo Landim, o funcionário de carreira da Petrobras que multiplicou seu patrimônio por 240 em quatro anos. Ou de Dalton Nosé, executivo oriundo da mineradora Vale que, em dois anos e meio de trabalho, acumulou 115 milhões de reais. Dado o que aconteceria ao fim disso tudo, pode-se dizer que, na história do capitalismo brasileiro, nunca tantos ganharam tanto por tão pouco.

As histórias de alguns dos milionários do grupo X, e como eles investiram a fortuna que ganharam depois de deixar as empresas de Eike Batista. 

Flávio Godinho: O advogado trabalhou com Eike Batista por 20 anos e foi seu sócio em vários projetos. Tornou- se dono de 3% da mineradora MMX. Quando a empresa vendeu um projeto para a Anglo American, Godinho levou 170 milhões de reais 

Paulo Gouvêa - Entrou como estagiário do grupo EBX em 1998 e ganhou a confiança de Eike para levar as empresas à bolsa, Na criação da petroleira OGX, ganhou 0,5% da participação de Eike. Vendeu os papéis da OGX no pico do preço, em 2011, e comprou uma participação na corretora XP. 

Rodolfo Landim: Demitido por carta em 2009, Landim teve de brigar na Justiça para vender as ações que recebeu da OGX. Levantou ao menos 140 milhões de reais nos quatro anos que ficou no grupo, entre MMX, OGX e OSX.

Marcelo Cheniaux: Saiu da Rio de Janeiro Refrescos para o grupo EBX e ganhou 1% das ações de Eike na MMX. Pediu demissão em 2010 e montou uma gestora com dois sócios que trabalharam no grupo. Administra 285 milhões de reais 

Ricardo Antunes: Deixou a diretoria de novos negócios da Vale para estruturar a MMX. Tinha 1% do negócio. Depois, ganhou 57 milhões com a venda de parte da operação para a Anglo American.

Essa farra da remuneração remonta às origens do grupo X. Uma década atrás, Eike Batista era um empresário já rico, porém desacreditado mais famoso por ser "marido da Luma" do que por qualquer outro motivo. Para ter sucesso em sua empreitada em setores como mineração e petróleo, Eike precisaria de muito dinheiro de investidores. E, para conseguir tanto dinheiro assim, seria preciso montar um time de executivos com a reputação que ele não tinha. Como suas empresas nem sequer existiam e não tinham dinheiro para pagar altos salários, a solução para atraí-los foi oferecer ações. Muitas ações. Em 2004, quando criou a MMX, Eike ofereceu a cinco executivos de mercado1% de suas ações. Paulo Gouvêa e Pedro Garcia, que também já trabalhava no grupo, ganharam 1%. Godinho ficou com 3%. Quando criou a OGX e suas demais empresas, Eike fez parecido. Para ele, dar ações era também uma forma de alinhar interesses, reter os funcionários e torná-los fiéis seguidores. A ideia até fazia sentido na teoria. Na prática, deu origem a interesses desalinhados, executivos infiéis, ricos e doidos para abandonar o barco antes que afundasse como afundou.

AS COISAS GOSTOSAS DA VIDA:
"Uma das coisas mais gostosas na vida é trabalhar com amigos competentes e fiéis, e dividir a riqueza criada!! Você merece. Do amigo, (ass) Eike." Essa carta, escrita por Eike para Rodolfo Landim, mostra como eram as coisas no grupo X há dez anos, quando foram definidas as participações de executivos no capital da MMX. Tudo era sonho e tudo parecia mesmo estar destinado a dar certo. Em 2008, a mineradora Anglo American ofereceu 5,5 bilhões de dólares para comprar uma parte da MMX. Um ano antes, a Anglo já havia se tornado sócia de Eike na empresa. Para os executivos que deixaram a carreira para se juntar ao projeto de Eike, foi como se todos ganhassem ao mesmo tempo na loteria. De repente, abandonar décadas de batente na Vale se tornou o melhor negócio da carreira de Ricardo Antunes, Joaquim Martino e Dalton Nosé, todos diretores da MMX. Os dois primeiros ganharam 57 milhões de reais, equivalentes a 35 milhões de dólares na época. Nosé, que chegou mais tarde e tinha2% das ações, ganhou o dobro, de acordo com três diretores, e foi trabalhar na Anglo. Landim, que entrou para o grupo X com 500 000 reais de patrimônio, também ganhou 57 milhões de reais. Adriano Vaz e Marcelo Cheniaux, colegas da faculdade de economia da Universidade Cândido Mendes, haviam chegado ao grupo X em 2002 e também estavam no grupo dos que tinham 1% da MMX. Até 14 gerentes da mineradora ganharam 1 milhão de reais com a venda para a Anglo. Para completar a festa, quem tinha participação no capital da fatia vendida continuaria com o mesmo percentual nos outros projetos da MMX e da LLX, empresa resultante da cisão de projetos de logística da mineradora.

O sucesso da venda da MMX para a Anglo deu, para Eike, certeza de que aquele modelo de remuneração deveria ser replicado em suas outras empresas: atrair executivos de fama com pacotes de ações, abrir o capital das companhias na bolsa, vendê-las para um grupo internacional e partir para outra. E, em suma, o modelo típico das empresas de tecnologia americanas, criadas por empreendedores geniais, bancadas por fundos de risco e, quando tudo dá certo, compradas por gigantes como a empresa de tecnologia Google. Mas foi na própria MMX que as rachaduras no sistema de "multiplicação de riqueza" de Eike começaram a aparecer. Pouco mais de um ano depois da venda dos projetos para a Anglo, a MMX teve um prejuízo milionário com a variação do dólar. No início de 2009, Eike chamou seus executivos milionários para que eles ajudassem a cobrir o buraco de 200 milhões de dólares subscrevendo debêntures que seriam emitidas pela companhia. "Estamos num projeto de longo prazo", disse ele. "Vocês ganharam pela empresa, agora devem ajudá-la." Ouviu um sonoro "não". Cheniaux, Antunes e Vaz aproveitaram a deixa para pedir demissão e abrir negócios próprios. Com a venda de todas as suas ações, os dois primeiros ganharam 80 milhões de reais. O último, 90 milhões.

Aos 62 anos, Paulo Mendonça recebia 7 000 reais mensais do fundo de previdência da Petrobras quando Rodolfo Landim o indicou para o cargo de diretor de exploração da petroleira OGX em 2007. Pela proposta de Eike, receberia 120 000 reais por mês e 18 milhões de ações da empresa. O mesmo pacote foi oferecido ao recém-chegado Faber Torres, que cuidaria das finanças e da comunicação com o mercado. Landim, que seria presidente da empresa, ganharia 20 milhões de ações. Como aconteceu na MMX ,executivos da holding também levaram participações na nova empresa. Ninguém esperava que a OGX virasse o fenômeno que virou. Em seu auge, teve um valor de mercado de 75 bilhões de reais. Foi, disparada, a empresa mais valiosa do grupo. De 2008 a 2011, foi justamente a ascensão da OGX que fez de Eike um dos homens mais ricos do mundo. Para os executivos, de repente participações ínfimas no capital total passaram a valer fortunas. Seria a repetição da história da MMX só que multiplicada.

Mas, segundo altos executivos do grupo X, a "traição" dos funcionários da mineradora deixou marcas em Eike. "A partir dali, ele ficou decidido a não dar moleza para ninguém", diz um deles. "Eike começou a ficar com raiva de pagar." Como consequência prática disso, o empresário começou a mudar subitamente os pacotes de remuneração de cada um. Oprograma de opções de ações da OGX foi alterado o vencimento passou de cinco para sete anos. Pelo menos12 diretores do grupo foram demitidos a um mês do vencimento do plano de opções. Nesses casos, não recebiam nada. Até Landim, presidente da OGX, foi vítima dessa estratégia. Após uma sequência de desentendimentos com Eike, ele foi demitido um mês antes de poder exercer 4 milhões de opções que valeriam, na época, 60 milhões de reais. Nesse caso, perderia ainda outros 12 milhões de opções. Foi quando Flávio Godinho, braço direito de Eike, apresentou-a Landim duas propostas. Na primeira, seria readmitido no grupo, mas como presidente do estaleiro OSX e aceitaria cortar pela metade seu pacote de opções da OGX. Na segunda, seria simplesmente demitido e perderia tudo. Landim assinou a primeira. Ele deixaria o grupo cinco meses depois, demitido por carta. Após um processo judicial, Landim conseguiu liberar um lote de5 milhões de ações em junho de 2011. Vendeu tudo em três dias por 45 milhões dereais. Ele ainda pede na Justiça que Eike pague o equivalente a1% das ações da holding pacote que teriasido prometido em 2006. Perdeu em segunda instância, mas talvez não faça sentido continuar brigando: quanto vale 1% de nada? 

"A ciclotimia de Eike fez dos executivos da OGX um bando de obcecados por botar seu dinheiro no bolso o mais rápido possível antes que seu pacote de ações fosse tungado de uma forma ou de outra. Quando Eike decidiu aumentar o prazo para que eles exercessem suas opções, a cúpula da empresa entrou em rebelião aberta. Eles exigiram que, em troca, fosse extinto o período em que os executivos ficavam proibidos de negociar as ações que acabavam de receber (o chamado lock up). Antes, esse período era de 36meses. Assim, ações recebidas em junho de 2009 só poderiam ser vendidas em junho de 2011. Eike teve de ceder e, a pedido dos executivos, simplesmente extinguiu o lock up. A turma estava liberada para vender já em novembro de 2009 e em cada período anual de vencimento de opções. O fato nunca foi comunicado ao mercado. Um grupo de gerentes vindo da Petrobras (portanto, gente de classe média) vendeu tudo o que pôde. No total, executivos da OGX embolsaram 32 milhões de reais em novembro de 2009.

A ciclotimia de Eike fez dos executivos da OGX obcecados por vender as ações o quanto antes 

Ao longo dos anos seguintes, a pressa em vender só cresceu sobretudo à medida que a OGX dava sinais de que não tinha esse petróleo todo para tirar do fundo domar. Executivos como Gouvêa e Godinho passaram a criticar abertamente as estimativas de extração de Paulo Mendonça, tidas como otimistas demais. Mas, nesse período, Eike se manteve fiel a seu "Mr. Oil",como Mendonça era chamado por ele. Para tornar as coisas um pouco mais complicadas, Eike proibia a cúpula da empresa de vender ações em determinadas épocas, já que a movimentação teria de ser divulgada ao mercado. Criou-se, assim, uma situação bizarra. A OGX seguia dizendo ao mercado que ia tudo às mil maravilhas. Mas, internamente, muita gente já achava a empresa não valia tanto e estava proibida de vender suas ações. "Todo mundo começou a achar o otimismo doentio, já que ele não se confirmava a cada etapa da exploração. Queríamos vender para diminuir nosso risco, mas Eike impedia os diretores estatutários de vender, para que o mercado não desconfiasse do descrédito dos executivos", diz um ex-diretor. Essa angústia chegou aos ouvidos de gente como Yara Rocco, executiva de gestão de riqueza do banco americano JP Morgan. Segundo oito diretores do grupo X, Yara oferecia a eles a seguinte solução: o banco faria uma espécie de empréstimo tomando as ações como garantia. Nesse tipo de operação, o dono da ação recebe o dinheiro na hora mediante desconto, mas continua com as ações em seu nome e o banco assume o risco do papel. Em suma, é um jeito de vender sem que o mercado saiba. Não se sabe se algum deles fez a operação. O JPMorgan não comentou.

Em 2011, as coisas começaram a degringolar de fato, e o clima de salve-se quem puder tomou os corredores da OGX. Desgastado em razão dos choques com Mendonça e perdedor numa disputa de poder com Godinho, Paulo Gouvêa deixou o grupo. Em abril de 2011, vendeu os 4 milhões de ações da OGX que ainda detinha por 80 milhões de reais. No total, recebeu 150 milhões de reais por suas participações nas diversas empresas do grupo. Comprou apartamentos em Nova York e Paris. Marcelo Faber Torres deixaria a OGX em abril de 2012. Vendeu 9 milhões de ações em lotes médios de 10,12 e17 reais, segundo quatro diretores. Ironicamente, deixou o cargo antes da divulgação do fato relevante mais importante da história da empresa. Em 26 de junho de 2012, o mercado foi comunicado de que as reservas da OGX eram muito menores do que o imaginado. Nos dois meses anteriores, os executivos venderam tudo que podiam. Foram 17 milhões de ações (191 milhões de reais). De lá para cá, o valor de mercado da empresa caiu 97%. Paulo Mendonça permaneceu otimista até o fim. De seus 18 milhões de ações, recebeu cerca de 10 milhões e vendeu pouco mais de 150 000, que bastaram para comprar três apartamentos no Leblon. Demitido em agosto de 2012, ele é hoje um dos maiores acionistas individuais da empresa, queestá em recuperação judicial e vale apenas 800 milhões de reais em bolsa.

O QUE ESTAVA ERRADO
Pacotes de remuneração que contenham planos de opções de ações são cada vez mais comuns. A visão geral é que esse tipo de pacote alinha interesses de administradores e acionistas. Mas o inferno, como de costume, está nos detalhes. É mesmo possível colocar todos remando para o mesmo lado. O brasileiro Carlos Brito, presidente da cervejaria AB-InBev, ganhou 300 milhões de reais em 2012 depois de cumprir metas ousadas de redução do endividamento da empresa. Para isso, cortou custos como louco e vendeu subsidiárias. Ele ganhou o dinheiro, e as ações da empresa valorizaram 27%, já que os resultados melhoraram. O problema é que Eike Batista não desenhou um programa de remuneração adequado ao tipo de grupo que acabou tendo de administrar. Executivos não precisavam cumprir metas para exercer suas opções. Para piorar, seus projetos eram de longo prazo. Estaleiros, petroleiras, portos no meio do nada tudo isso demandava muito tempo até que chegassem ao ponto de gerar caixa. Só que, como tudo era baseado no valor das ações, o mercado estava empolgado e as empresas valiam muito, os executivos ficaram ricos antes que as companhias conseguissem efetivamente parar de pé. Os interesses, portanto, não estavam alinhados. E, quando isso acontece, nada funciona. O caso mais notório dos efeitos perversos desse tipo de situação é a crise financeira de 2008. Banqueiros tinham todo incentivo a arriscar pesado em operações cada vez menos seguras. Se acertassem, ficavam ricos. Se errassem, apenas perdiam o emprego. Deu no que deu. Segundo executivos que trabalharam no grupo X, Eike fez a leitura errada do que de fato movia as pessoas. "Ele achava que nós éramos como ele", diz um ex-membro da cúpula do grupo. "Que, depois de ganhar 100 milhões, todos iam querer ganhar o primeiro bilhão." Mas a realidade era um tanto diferente. Quem ganhava 100 milhões de reais começava imediatamente a pensar em garantir que não perderia aquele dinheiro. O que foi desenhado para reter e estimular acabou virando, nas palavras de um dos executivos de Eike, o "fiickyou money" numa tradução comportada, o dinheiro que permite ao funcionário mandar tudo para o espaço e ir para casa. E quase todos foram. 

Alguns executivos do grupo X podem ser processados por acionistas revoltados

A queda do grupo X representa um perigo para os executivos que enriqueceram nas empresas X? Um grupo de acionistas está processando Eike, Paulo Mendonça e os membros do conselho de administração da OGX. Segundo Márcio Lobo, advogado que representa 40 investidores que perderam 100 milhões de reais com as ações da petroleira, Marcelo Faber Torres será o próximo da lista. Outros podem entrar. Mas, por enquanto, eles não parecem estar preocupados e seguem tocando a vida. Landim tem a própria petroleira, a Ouro Preto, e uma empresa de investimentos, a Mare. Marcelo Cheniaux, Adriano Vaze Ricardo Antunes fundaram uma gestora que administra 285 milhões de reais Antunes criou também uma mineradora, a Manabi. Joaquim Martino é sócio da Manabi e cria gado. Paulo Gouvêa tornou-se sócio da empresa financeira XP Investimentos. Flávio Godinho passa boa parte do tempo na casa em Miami e, depois de deixar o grupo X, continua dando consultoria a Eike. Pedro Garcia é um raro exemplo de executivo milionário que continua no grupo. Já Marcelo Faber Torres tem dito a amigos que abrirá uma gestora para administrar seu dinheiro assim que acabar o sabático."

terça-feira, março 18, 2014

Krugman, prêmio Nobel de Economia fala sobre o Brasil atual

"O Brasil passa por um momento de reavaliação por parte de investidores e analistas internacionais, mas não está à beira do abismo, afirmou o economista americano e ganhador do prêmio Nobel de 2008, Paul Krugman, durante evento em São Paulo.

Para Krugman, o Brasil tem hoje mais estabilidade, uma inflação sob controle e uma política fiscal mais responsável, não contando com a perspectiva de colapso que o acompanhava no passado quando grandes crises internacionais o atingiam. “Claro que há alguns contratempos, mas sempre que havia um problema nos EUA isso era amplificado na América Latina, mas não desta vez”.

Fonte: Valor Online.

Recolonização?

Em 1500 foi a vez de Portugal, agora, aparece que a Espanha, pelo menos no interior fluminense. A Ampla concessionária de energia elétrica que atende 2,5 milhões unidades de consumo em 66 municípios é controlada pelo grupo espanhol Endesa. 

A BR-101 no trecho entre o Rio e a divisa com o estado do Espírito Santo cortando dezenas de municípios fluminenses tem como concessionária a Autopista Fluminense S.A. que apesar do nome era controlada pela construtora espanhola OHL (Obrascon Huarte Lain). Depois a concessão foi transferida ao grupo espanhol Arteris que hoje administra mais de 3 mil quilômetros de rodovia no país. 

Boa parte da infraestrutura portuária dos terminais 1 e 2 do Porto do Açu estão sendo construídos pelas construtoras espanholas Acciona (T-2) e FCC (T-1). A FCC em dificuldades financeiras na Espanha teve recentemente cerca de 10% de suas ações adquiridas por Bill Gates e pelo conhecido especulador George Soros (3%).

Quinhentos anos depois...

Mobilidade e transporte público na região metropolitana de Porto Alegre

O engenheiro Renato Teixeira que é um conhecedor de infraestrutura de logística é colaborador do blog e um atento observador e analista de projetos do setor. Assim, com alguma frequência remete ao blog informações sobre o tema em viagens pelo país.

Assim, Renato nos enviou nesta segunda-feira, a sua impressão sobre o sistema de trens/VLT de Porto Alegre e sua interligação a outras cidades da região metropolitana que o blog decidiu compartilhar com seus leitores as suas informações, , considerando o projeto de VLT que existe para Campos e também os resultados do seminário de Mobilidade Urbana realizado no final do ano passado no município,
aparentemente, sem retorno da gestão municipal:

Roberto,
Estive, ontem em Novo Hamburgo distante de Porto Alegre (POA) 45 km. Fui de metrô, operado pela Trensurb na estação inicial no mercado público no Centro ao lado do Guaíba. A estação é integrada ao transporte rodoviário urbano, no Terminal Parobé e ao transporte hidroviário que liga POA a Guaíba operada pela Catsul. O tempo da viagem entre Guaíba e Porto Alegre dura, em média, 20 minutos, e as saídas ocorrem em intervalos de uma hora, custo: R$ 7,25 (em Guaíba, há integração gratuita com os ônibus para os bairros Florida e Colina).

Quatro aspectos me chamaram a atenção no sistema de transporte de POA:
1º - Tarifa do metrô : R$1,70. Isso mesmo - 1 real e setenta centavos.( a tarifa do ônibus é R$ 2,60 );
2º. Extensão: 45 km e 22 estações;
3º Abrangência : a Linha 1 da Trensurb atende os municípios de Porto Alegre, Canoas, Esteio, Sapucaia do Sul, São Leopoldo e Novo Hamburgo, pertencentes à Região Metropolitana de Porto Alegre. Está constituído de duas linhas bidirecionais eletrificadas, sinalizadas, com um trecho de 31,7 km em superfície, totalmente bloqueado e sem cruzamento a nível, e outro trecho com 7,3 km em elevado, com parte inferior
totalmente urbanizada, bitola com 1,60 m de largura. A estação de número 5 é a Rodoviária e a de número 8 é Aeroporto. Essa estação é integrada a estação do aeromóvel que deixa o passageiro no embarque do
aeroporto com integração gratuita. As 19 estações, implantadas em intervalos médios de 2,1 km, possuem plataformas de embarque e desembarque de 190 metros de extensão, e são compatíveis com a operação de dois trens acoplados.

Dito isso, fico pensando como será o sistema de transportes de passageiros que deverá ser implantado na nossa Campos dos Goitacazes:
O aeromóvel como espinha dorsal do sistema com linhas radiais e troncais alimentando o aeromóvel em um extensão de 13 km com 11 estacões ligando o Aeroporto a Penha na altura da usina Santo Antônio.

A propósito : E a audiência pública para o novo sistema de transportes por ônibus que será, enfim, licitado em abril?"

Em anexo e por email Renato Teixeira enviou ainda diversas fotos deste sistema de transportes urbano que o blog posta abaixo:

Plataforma de embarque Metrô-Estação Mercado-
Estação Hidroviária Porto Alegre (POA)-Guaíba

Estação Terminal de Novo Hamburgo

Estação da Rodoviária

Programação visual das linhas integradas

Terminal Urbano de Parobé

Guerra fria esquenta novamente?

Ninguém pode querer que a Guerra Fria retorne, porém, é estranho que se tenha que respeitar o direito do povo da Ucrânia e abandonar a posição/opinião do povo da Crimeia. Estranho que haja quem queira um mundo unipolar com dono. O que não é estranho a ninguém é que no meio desta celeuma haja, óleo, gás e gasodutos.

segunda-feira, março 17, 2014

MTE interdita plataforma P-62 na Bacia de Campos

Irregularidades na plataforma P-62 (que ainda não estava produzindo) levaram fiscais do Ministério do Trabalho a interditar a embarcação na Bacia de Campos.

A superintendência do MTE no Rio responsável pelo envio de fiscais na semana passada à plataforma, junto com o Sindicato de Petroleiros no Norte Fluminense confirma a interdição da P-62.

A interdição impede que a plataforma produza petróleo. A P-62 estava com 162 trabalhadores a bordo. Entre os diversos problemas foi identificado que o sistema de combate a incêndio está deficiente.

Limites da tecnologia

Este caso do sumiço do avião da Malásia depois de mais de uma semana mostra, como apesar de toda a parafernália usada pelas novas tecnologias, ela dificilmente dará conta dos problemas que envolvem a vida e o ser humano.

Numa época em que nos sentimos pressionados pela tecnologia online (pelos gps dos celulares e outros, nesta espécie de big-brother total) que a tudo controla e identifica, rastreando por onde passamos, um avião some dos radares e dos satélites sem que saibam onde ele parou.

Sinceramente, não sei se comemoro ou lamento, a derrota da tecnologia /ou vitória da estupidez humana.

O caso deveria servir, pelo menos para aqueles que veneram a tecnologia para mostrar como, a melhor delas, ainda deixa brechas de diversos tipos e situações.

Este caso específico, independente do seu desfecho mostra com clareza os limites da tecnologia diante do ser humano.

Repito: não sei se comemoro ou lamento sobre a realidade que estamos assistindo e vivendo.

Trabalhadores do Comeprj encerram greve de 40 dias

A greve dos operários do Complexo Petroquímico do Rio de Janeiro (Comperj) foi encerrada na manhã desta segunda-feira, após assembleia. A paralisação nas obras da refinaria durou 40 dias. Os trabalhadores da refinaria aceitaram um reajuste salarial de 9% e aumento no valor do vale alimentação para R$ 410.

O movimento se iniciou no começo de fevereiro, reivindicando reajuste salarial de 11,5%. Com o avanço das negociações, o sindicato dos trabalhadores de São Gonçalo, Itaboraí e região (Sinticom) informou que os funcionários do Comperj estariam dispostos a aceitar um aumento de pelo menos 9%. 

O Comperj está sendo construído no município de Itaboraí, numa área de 45 km². De acordo com a Petrobrás, a refinaria alcançou cerca de 68% de avanço físico em suas obras em janeiro deste ano.
Fonte: PetroNotícias.

Palestra e debate: "Estado atual da Ciência Médica - Ensino, Pesquisa e Extensão"

O convite é aberto à comunidade e está sendo promovido por docentes da FMC, com o apoio de entidades médicas, docentes e discentes e visa ampliar o debate sobre o desenvolvimento da Medicina no município e na região. 

Dia 20 de março de 2014 (quinta-feira), às 19:30h, no Auditório Lenício Cordeiro da SFMC.

Tema " Estado atual da Ciência Médica - Ensino, Pesquisa e Extensão"
Palestrante: Professor Paulo Assis Melo - UFRJ/Emérito da FMC - 40min.
Moderador: Professor Jair Araujo Junior - FMC

Debatedores: Dr. Almir Abdala Salomão - SFMC - 05min
Professor Osvaldo da Costa Cardoso de Melo - Fundador da FMC - 05min
Professor Nélio Artiles Freitas - FMC - 05min
Professor Márcio Sidney Pessanha de Souza - FBPN - 05min
Professor Edilbert Pellegrini Nahn Júnior - ADOMEC- 05min
Acadêmico Arthur Azevedo - DALS - 05min
Professor Fábio Siqueira - SINPRO - 05min
Dr. José Roberto Crespo - SINMED - 05min
Dr. Luiz José de Souza - SBCM-RJ - 05min

"A classe média fora do lugar"

Um texto que serve para pensar. Não é preciso concordar, mas, é interessante que seja lido e este é o propósito da sua republicação neste espaço.

A classe média fora do lugar
Publicado em 13/03/2014 - Por Flávio Aguiar.

Visitar o Brasil – desde que moro na Alemanha, e já lá se vão sete anos – é sempre muito instrutivo e original.

Atualmente o Brasil é o único país no mundo que, indo bem melhor do que antes, incomoda muita gente – assim como aquele elefante da conçoneta infantil.

Muita gente – um certo Brasil – está exasperada com a melhora. Com o que se chama seja lá como for: ‘nova classe média’, ‘inchaço da classe média’, além dos correlatos mais sofisticados, como ‘economia superaquecida’, ‘bolha de consumo’, indo até ‘o mal que o pleno emprego faz ao país’, aumentando salários e portanto o famigerado ‘custo Brasil’. Que bem faria ao país os pobres voltarem a ser simplesmente pobres sem outro futuro que não o de serem eternamente pobres!

É sabido que o Estado – em qualquer lugar do mundo (até nos finados regimes comunistas) – tem uma dupla função acoplada: assegurar direitos e administrar privilégios. Acontece que historicamente no Brasil o primeiro pólo desta bipolaridade de humor foi muito dismilinguido, enquanto o segundo foi a chave de ouro do soneto social brasileiro. Algumas exceções pontificaram, é verdade: as leis trabalhistas de Vargas, o desenvolvimentismo dos anos 50/começo de 60, entre uns poucos outros. E, é claro, os últimos dez anos, os tais que agora exasperam muita gente.

Em resumo, o Brasil não foi feito para muita gente. Pelo menos um certo Brasil. Vejam só: quanto mais empregos há, mais gente precisa se deslocar de casa para o trabalho, e vice-versa. Quanto mais estudantes há, mais gente ainda precisa se deslocar entre a casa e a escola ou universidade. O resultado é que os ônibus lotam; como o transporte público (ao contrário, por exemplo, de grande parte das cidades europeias) é densamente privatizado, os preços das passagens tendem a subir, enquanto as frotas de delapidam a olhos vistos, o metrô de S. Paulo ameaça parar e a dar ‘pitis’, etc.

Mais: como há mais dinheiro disponível, mais gente compra carros. Mas as cidades brasileiras não foram feitas para a circulação de tantos carros! Não defendo o carro, defendo o transporte coletivo. Mas durante décadas ter um carro era um privilégio de consumo. Não me esqueço do bate-boca que presenciei, vinte ou trinta anos atrás, entre uma jovem bem jovem e um porteiro de galeria, na rua Augusta, que fechara prematuramente (para ela) um dos portões de entrada/saída. A dita jovem enchia a boca: ‘Eu’ – assim com maiúscula – ‘sou uma consumidora!’. Ser consumidor(a) era um privilégio: agora não é mais (e vem mais gente por aí). Isto exaspera os antigos consumidores, que vêem seus ‘direitos’ – “privilégios” – ameaçados, desde a vaga na faculdade para os pimpolhos até as filas de aeroportos – outro capítulo da exasperação geral.

O exemplo mais estapafúrdio desta exasperação encontrei num artigo do Zero Hora de minha cidade natal. O articulista reclamava que as ‘novas classes médias’ (uso o termo livremente, deixo o debate sobre ele pro Marcio Pochmann, a Marilena Chauí, o Guido Mantega e outros mais entendidos do que eu nestes assuntos) não sabiam aplaudir nos espetáculos a que iam. Aplaudiam de pé qualquer coisa, quando na verdade a boa formação manda que se aplauda de pé apenas o excepcional (quem sabe o que é excepcional é apenas, claro, o autor do artigo). Era o aplauso fora do lugar. Pior: este aplauso destrambelhado contagiava os artistas, que aplaudiam juntos com o público quando, segundo ainda o autor do artigo, deveriam fazer uma comedida reverência. A futilidade besta do tema lembrou-me de outro artigo, lido há cinquenta anos ou mais, n oCorreio do Povo da mesma minha cidade, em que o autor (outro), visitando a então União Soviética, lamentava ver pessoas em mangas de camisa – operários, talvez, aaargh! – nos teatros de Moscou, na platéia, nas frisas, nos camarotes. O autor lembrava com lágrimas nostálgicas nas entrelinhas dos tempos faustosos em que aqueles assentos eram ocupados apenas pelas figuras excelsas da aristocracia moscovita e de alhures.

Mutatis mutandis, o tema do recente aplauso é da mesma jaça. Ou laia.

Mas há mais. Em primeiro lugar, não esqueçamos que este clima de exasperação é centuplicado pela velha mídia, exasperada ela mesma por contar, para contrabalanço do atual panorama político, com um candidato bola murcha que tem de encher continuamente, um outro que faz alianças com desde o verde musgo da pré-candidata sem candidatura até o roxo cardinalício (vermelho jamais) dos ex-PFL e o vago ‘homem da toga preta’, mistura de Cacareco (para quem lembrar) com Jânio Quadros (também para quem lembrar) e Collor de Mello (para quem não esquece).

Em segundo lugar porque a exasperação contamina também a esquerda, pelo menos uma certa esquerda, já que a melhora que se verifica não é exatamente a de seus sonhos – ou devaneios. Para uma parte desta, o Brasil e o mundo estào à beira de um cataclisma revolucionário, e quem atrapalha a erupção pronta para eclodir é a dupla formada pelo nordestino e a mineira-gaúcha de plantão. E chovem artigos – no Brasil e no exterior – falando, por exemplo, dos ‘limites’ da política de transferência de renda, e tanto quanto a direita, da ‘prisão’, da ‘dependência do Estado’, da ‘falta de uma porta de saída’ dos programas de assistência social, etc. São até incapazes de ver – tanto quanto a direita – que a porta de saída será, muito provavelmente, cruzada pela próxima geração porque, como apontam estudos já conspícuos da ONU, a miséria é algo que tende a se reproduzir.

Lamentavelmente, a indigência mental também. Pelo menos quem entre nela tende a não ver porta de saída. Porque se há coisa difícil neste mundo é reconhecer o próprio equívoco.

sábado, março 15, 2014

Rico no Brasil paga menos imposto do que na maioria dos países do G-20

A reportagem é da BBC Brasil e desmistifica uma série de questionamentos (como diz a matéria) feitos constantemente pela elite brasileira que reclama dos impostos:

"Rico é menos taxado no Brasil do que na maioria do G20"
"Reclamar dos impostos é hábito comum da elite brasileira. Mas uma comparação internacional mostra que a parcela mais abastada da população não paga tantos tributos assim. Estudos indicam que são justamente os mais pobres que mais contribuem para custear os serviços públicos no país.

Levantamento da PricewaterhouseCoopers (PWC) feito com exclusividade para a BBC Brasil revela que o imposto de renda cobrado da classe média alta e dos ricos no Brasil é menor que o praticado na grande maioria dos países do G20 - grupo que reúne as 19 nações de maior economia do mundo mais a União Europeia.

A consultoria comparou três faixas de renda anual: 70 mil libras, 150 mil libras e 250 mil libras - renda média mensal de cerca de R$ 23 mil, R$ 50 mil e R$ 83 mil, respectivamente, valores que incorporam mensalmente o décimo terceiro salário, no caso dos que o recebem.

Nas três comparações, os brasileiros pagam menos imposto de renda do que a maioria dos contribuintes dos 19 países do G20.

Nas duas maiores faixas de renda analisadas, o Brasil é o terceiro país de menor alíquota. O contribuinte brasileiro que ganha mensalmente, por exemplo, cerca de R$ 50 mil fica com 74% desse valor após descontar o imposto. Na média dos 19 países, o que resta após o pagamento do imposto é 67,5%.

Na Itália, por exemplo, praticamente metade da renda das pessoas de classe média alta ou ricas vai para os cofres públicos. Na Índia, cerca de 40% ou mais, assim como no Reino Unido e na África do Sul, quando consideradas as duas faixas de renda mais altas em análise"

Se desejar ler a matéria na íntegra clique aqui.

Se quiser saber um pouco mais sobre outro assunto correlato a este, sobre como se fez ricos no Brasil nos últimos 30 anos leia aqui matéria do Jornal do Brasil.

sexta-feira, março 14, 2014

Mapa do poder digital no Brasil - 2ª Pesquisa Político 2.0

Clique na imagem abaixo e acesse a pesquisa organizada pela Medialogue sobre o uso do poder digital entre os políticos do Congresso Nacional. Vale a sua conferida.




Entrevista do blogueiro para a revista Ururau

Uma agradável conversa de quase três horas com os jornalistas Gustavo Araújo e Leandro Nunes foi resumida em duas páginas da nova edição da revista do site de notícias regionais Ururau.

O blog tomou a liberdade de postar abaixo a entrevista na revista que é impressa e pode ser lida também na forma online aqui. Para ampliar a imagem das páginas da entrevista clique sobre elas.



As reivindicações dos servidores da Fenorte e Tecnorte

O blog publica abaixo, na íntegra, o documento reivindicatório da Associação dos Servidores, a Asfetec:

Carta Aberta à Sociedade

Decretação DE GREVE FENORTE

Os membros da Comissão de GREVE dos Servidores da Fundação Estadual Norte Fluminense – FENORTE e TECNORTE – Parque de Alta Tecnologia, veem, respeitosamente comunicar a sociedade, que no dia 11/03/2014 foi decidido, em Assembleia Geral Extraordinária, que a partir do dia 17/03/2014 iniciaremos uma Greve Geral por prazo indeterminado pelos fatos e fundamentos expostos no presente ofício. Informamos e lembramos que nos encontramos abertos à negociação desde 14/08/2013 quando foi decretado o ESTADO DE GREVE, passamos aos fundamentos da GREVE:

A Fundação Estadual Norte Fluminense – FENORTE foi criada com o objetivo principal de ser a mantenedora da Universidade Estadual do Norte Fluminense – UENF, à época em que referida universidade não possuía autonomia administrativa, e de gestão financeira e patrimonial.

Com a edição da Lei Complementar n° 99, de 23 de outubro de 2001, a UENF obteve sua autonomia universitária, passando a ser uma fundação pública de direito público. Para viabilizar o funcionamento da UENF, no mesmo dia 23 de outubro de 2001, a Lei 3.684/2001 permitiu que os funcionários da FENORTE optassem pela transferência para a UENF e o artigo 5°, §2°, desta mesma a lei previu a possibilidade de futura transferência de outros servidores da FENORTE para a UENF, mediante simples autorização de Vossa Excelência, sobretudo por se tratar do mesmo concurso com os mesmos cargos e atribuições.

Ocorre que, após a autonomia universitária obtida pela UENF, a FENORTE perdeu sua principal missão institucional e ao longo destes mais de 12 anos vem sendo subutilizada e os servidores encontram-se desestimulados e desvalorizados em virtude de estarem numa instituição que visivelmente perdeu sua razão de existir, com poucas e descontínuas ações de Governo.

A FENORTE passou a atender os interesses políticos dos aliados do Governador do Estado em exercício, compondo seus cargos em comissão e executando atividades esporádicas e limitadas à vontade daquele que assume a gestão da FENORTE, sem que haja em suas atividades uma ação permanente e contínua que seja de importância e finalidade significativa à Fundação e a sociedade.

Os servidores da FENORTE se veem desprestigiados e abandonados pelo Governo do Estado, pois a forma como o Governo trata a FENORTE sucateia nossa instituição, desmotiva e desprestigia o servidor;

Os problemas vivenciados pelos servidores da FENORTE e pela própria Instituição possuem a mesma causa, pois se a FENORTE não é valorizada pelo Estado o seu servidor também não o é, e se vê PREJUDICADO POR UM GOVERNO que não é capaz de conceder rumo adequado à nossa FENORTE.

Sem reajuste e sem reposição das perdas inflacionárias dos últimos 8 (oito) anos o servidor vem tendo dificuldade em manter sua família e sua dignidade pois o achatamento salarial sofrido é notório.

O nosso desprestígio no que refere à reposição das perdas inflacionárias se dá, sobretudo, ao fato da posição invisível na qual o Governo do Estado nos colocou.

Sendo assim e a partir do interesse demonstrado pelo Reitor da UENF a que se refere ao aproveitamento da qualificada mão de obra dos servidores da FENORTE, os servidores, já desacreditados com a situação da FENORTE, ao que tudo indica irreversível ou de difícil solução, aderiram maciçamente ao processo nº E-26/006/70/2013 que dispõe sobre a transferência em caráter definitivo dos servidores da FENORTE PARA A UENF.

Atualmente, já existe um novo processo E-12/001/4198/2013 originado na Secretaria da Casa Civil, que trata da transferência dos servidores da FENORTE para a UENF, contudo, ao que tudo indica, a pleiteada transferência não será atendida pelo simples fato dela ir de encontro aos interesses da Presidência da FENORTE.

Acreditamos, pelo histórico de insucessos que vivenciamos nos últimos anos, que não haja solução viável para FENORTE, sobretudo pela intencional incapacidade do Governo em dar rumo adequado à FUNDAÇÂO, e apesar de estarmos convictos que a única solução seja a transferência dos servidores da FENORTE para a UENF estamos cientes de que essa decisão, por ser mérito administrativo do poder executivo, cabe exclusivamente ao Governador do Estado do Rio de Janeiro.

Acontece que o Governo do Estado tem por obrigação dar uma resposta à sociedade e aos servidores da FENORTE, sendo assim se deseja que os servidores permaneçam na FENORTE que atenda os pleitos abaixo:

1. Reposição salarial de 63,3% pelas Perdas inflacionárias dos últimos 8(oito) anos
2. Redefinição do estatuto da FENORTE, concedendo a mesma uma missão e visão concretas, alcançando as necessidades da sociedade e o caráter continuativo de suas ações;
3. Revitalização da FENORTE;
4. Reajuste do Auxílio-creche e Auxílio-alimentação dos servidores da FENORTE (esse último foi concedido num valor infinitamente inferior ao requerido).

Todos os pleitos acima devem ser atendidos na sua integra ou o Governo do Estado pode escolher transferir os servidores da FENORTE para a UENF e assim solucionar as reivindicações do movimento de Greve.

A Greve permanecerá até que todos os pleitos sejam devidamente atendidos.

Atenciosamente,
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Comissão de Greve da ASFETEC