sábado, março 21, 2015

Pesquisando a região metropolitana do Rio (RMRJ)

Este blogueiro passou essa última sexta-feira fazendo uma pesquisa de campo, prospectando observações e registros, sobre as duas extremidades da região metropolitana do Rio de Janeiro.

As pesquisas são coordenadas pelo geógrafo e professor Floriano Godinho, do PPFH-UERJ. Ontem (sexta-feira, 20/03) nós passamos cerca de doze horas, observando as mudanças nos territórios da região metropolitana, do Estado do Rio de Janeiro.

Começamos em Itaboraí revendo a realidade da instalação do Comperj e seu entorno que vive em meio à crise de redução do ritmo da montagem final da refinaria. Em seguida, percorremos toda a extensão do Arco Metropolitano. Assim, passamos por Magé e Duque de Caxias chegando depois, na outra ponta da regão metropolitana fluminense, ao município de Itaguaí.

Nesse extremo sul da região metropolitana, no outro lado da Baía de Guanabara, já depois do sul da capital, distrito industrial de Santa Cruz, reobservamos o município de Itaguaí (a Baía de Sepetiba) e as mudanças e pressões que sofre pela expansão industrial e pela proximidade com a zona oeste carioca.

Em Itaguaí, além dos terminais portuários existentes, que estão sendo concluídos, observamos de forma geral, o Porto Sudeste que está prestes a iniciar sua operação. Vimos ainda, o terminal do Tesub (programa Prosub: estaleiro e base naval que fabricam submarinos) da Marinha, localizados, ambos, na Ilha da Madeira. (Se desejar veja aqui detalhes da construção do estaleiro e da base naval)

Mapa do Arco Metropolitano
O Arco Metropolitano que interliga os dois extremos da região metropolitana fluminense foi nosso principal foco de observação nessa pesquisa de campo. Trata-se de uma rodovia expressa que liga os dois lados da Baía de Guanabara: Itaboraí a Itaguaí, através da BR-101 Norte até à BR-101 sul e Via Dutra - Rio-São Paulo e cria condições também para a interligação ferroviária.

São inúmeros os registros levantados para análise e debates. Ele se somarão às investigações de dados e indicadores econômicos que vimos reunindo junto às equipes de pesquisadores do NEED/IFF e NuPPE do PPFH-UERJ, sobre o movimento simultâneo e contraditório, entre expansão e reconcentração da metrópole fluminense, que nossos estudos andam apontando.

Algumas dessas observações ao longo do tempo, eu pretendo trazer para esse espaço para ampliar a análise e o debate. Por enquanto, trago, alguns registros de imagens dessas extremidades metropolitanas que dão uma amostra da riqueza de observações sobre o território fluminense.

O primeiro registro mostra uma estrada construída pelo Comperj, exclusivamente para transportar equipamentos vasos e filtros que foram importados e que não teriam como ser transportados entre o Porto do Rio e Itaboraí pela ponte Rio-Niterói. A intenção inicial da Petrobras era de transportar os equipamentos pelos rios e canais, mas, as resistências de pescadores e ambientalistas impediu essa solução.

A estrada foi chamada de Complexo do Salgueiro, por conta do nome do bairro do município de São Gonçalo e está ligando a Praia da Beira, em Itaoca, à BR-493 (Manilha-Magé). É considerada como uma estrada de serviços para cargas especiais e grandes dimensões (UHOS, na sigla em inglês). Sua extensão é de 19 quilômetros e 20 metros de largura. Veja abaixo o mapa com a localização da estrada:

Fonte Rima da estrada


A via passa pela localidade Fazenda dos Mineiros e cortando os bairros Salgueiro, Jardim Catarina e Guaxindiba. Na Baía foi construído um píer de atracamento que tem 100 metros de comprimento e 20 metros de largura e receberão as balsas. (Se desejar leia aqui o Rima da estrada)

Em nossa pesquisa de campo ontem, flagramos o veículo da empresa Transdata/Commeto especializada em transporte de cargas especiais, que sendo usado para levar num prazo de 2 a 4 dias, parte de equipamentos importados da Itália (vasos e filtros) entre a Baía de Guanabara e o Comperj.

É um equipamento hidráulico movimentado por controle remoto (veja na foto abaixo o automóvel da empresa Transdata fazendo o controle na frente do veículo hidráulico com cerca de 18 eixos e quase 150 pneus que tem capacidade para movimentar até 1,2 mil toneladas, segundo seu operador).

As fotos mostram, além do equipamento, o porte da estrada que é margeada por mangues que foram aterrados e cortado por rio que teve assoreamento ampliado.

A população dos bairros do Salgueiro, Jardim Catarina e Guaxindiba são de baixa renda e vivem, em sua maioria, em moradias simples e adaptadas e com limitações de transportes e outros direitos básicos, como é comum nas periferias e áreas de baixa renda de nossas cidades .

No caminho, no Jardim Catarina avistamos um presídio, a Cadeia Pública de São Gonçalo, no local bem próximo, de onde estava o equipamento de transporte de equipamentos para o Comperj.

No início da estrada, ainda bem próximo da BR-101 atrás dos grandes galpões de logística , visto da rodovia federal, foi possível ver a fábrica ainda em funcionamento, do cimento "Portland", onde em 1933 inaugurado por Vargas se deu início a produção do conhecido cimento Mauá.

A terceira foto mostra, uma imagem muito interessante: um morador que adaptou uma carroça, sentado sobre um barril, que poderia também simbolicamente ser atribuído ao barril de petróleo. Como se vê, ele usa a carroça para transporte e não abandona o seu jeito de origem rural, com chapéu e ar solidário, cumprimento as pessoas que cruzam por ele na larga estrada construída pela estatal. Ao fundo da foto se pode ver o presídio instalado na comunidade.



A quarta imagem mostra um detalhe da comunidade do bairro do Salgueiro, em São Gonçalo, que é cortado pela estrada em parte dos seus dezenove quilômetros e que vai até Itaboraí em uma das três entradas de acesso ao Comperj.



Já no outro extremo em Itaguaí, depois do Arco Metropolitano, podemos ver o modal ferroviário da MRS que interliga o quadrilátero ferrífero mineiro ao terminal portuário no litoral fluminense, transportando em idas o minério, levando de volta o carvão importado em idas e vindas de centenas de vagões que avançam para a intermodalidade com a interligação com as rodovias do Arco Metropolitano, a BR-101 e a Via Dutra.



A sexta foto mostra o túnel que faz parte do acesso do estaleiro à base naval da Marinha, por onde os submarinos construídos sairão para o mar. Por baixo desse túnel, há outro, que leva ao terminal Porto Sudeste com suas esteiras para embarque de minério de ferro.






















O terminal de atracação dos navios graneleiros para transporte do minério pelo Porto Sudeste, na Baía de Sepetiba, nos oferece na imagem a seguir publicada que mostra como ficou a praia da Ilha da Madeira.



Na região, os pescadores e moradores tiveram diversas moradias desapropriadas para dar lugar aos diversos empreendimentos, em especial o Porto Sudeste projeto iniciado pelo empresário Eike Batista e hoje controlado pela trader holandesa de commodities Trafigura e pelo fundo de investimentos árabe Mubadala.

A Baía de Sepetiba com mais estes dois portos, hoje, passa a sediar um imenso complexo portuário, tão significativo, quanto o da Baia de Guanabara, em termos número de terminais: terminal contêineres (Tecon), Porto organizado de Itaguaí: Valesul; MBR; CSN e CSA, num total sete terminais. O fato também confere ao estado uma hegemonia nacional em termos de logística portuária que está na base de minhas investigações, assim como de sua relação com o petróleo.

Enfim, as pesquisas de campo com a sua materialidade oferecem uma enorme munição de base empírica que enriquecem a observação das diversas séries de dados e indicadores também levantados.

Nesse sentido eu tenho insistido que tem sido essencial que a coordenação das pesquisas tenha à frente um geógrafo que permite um olhar mais amplo e atento sobre o território, sua ocupação e ainda sobre a relação direta que toda essa questão tem com as relações de poder com consequências sobre o desenvolvimento das regiões e sobre a vida das pessoas.

A materialidade da vida real são indispensáveis e nos servem de base para sustentar a análise sobre a realidade da situação econômica, política e social da região metropolitana fluminense e de sua relação com o restante do estado e de nosso país.

Conhecer o Rio por inteiro como estado é um desafio ainda a ser superado. É um paradoxo que, mesmo que a gestão estadual continue centralizada, sem projetos e ações de integração, pelas vias e razões as mais diversas (que ando tentando aprofundar e conhecer), eu identifico que nunca fomos mais estado que no atual momento. Falta políticas de cooperação supramunicipais e infra-regionais, ainda assim há fluxos (pendulares ou não) que são mensuráveis de pessoas e de materiais.

Enfim há muito que dialogar sobre a economia e a sociedade fluminense. O momento de crise, quase sempre, é também de formulação de projetos e auscultação dos agentes ativos da sociedade.

Essa postagem tem a finalidade, como é comum na atuação de nosso blog, de dividir as observações e o tema dessa pesquisa, e dessa forma, provocarmos os que acompanham e/ou estudam os assuntos envolvidos com essa discussão a comentar e debater as informações levantadas. Aguardamos críticas e sugestões.

PS.: Atualizado às 15:24 de 25/03/2015 com correções e ajustes do texto.

sexta-feira, março 20, 2015

Situação do avanço do mar no Açu continua preocupante

A Defesa Civil estadual e municipal finalmente começaram a agir diante da erosão do mar no Açu. Porém, o Inea e a Prefeitura precisam ter coragem de questionar e exigir que o Porto do Açu assuma suas responsabilidades diante do que está avançando. Os controladores do empreendimento parecem querer negar o prejuízo maior que terão com as indenizações diante desses impactos que já eram previstos em seus próprios estudos e relatórios de impacto ambiental (EIA/Rima).

Em contato agora à noite com um morador da Praia do Açu ele informou sobre a situação sobre o mar e o litora. Disse que apesar da barreira de areia feita pela prefeitura, o mar bateu com força novamente hoje à tarde.

Ainda, segundo os moradores, a bairreira evitou que, por enquanto, a água chegasse com mais força na rua principal, mas que mesmo assim a água em alguns momentos ultrapassou a barreira e no final do dia, boa parte da barreira de areia já tinha sido diluída pelas ondas do mar.

Os moradores alegam também que a previsão era de a barreira voltasse a ser feita por uma patrol na noite, pois o temor é que haverá, pelo menos, mais duas marés altas, embora agora a tendência é que baixe.

Vejam abaixo as fotos e vídeos mostrando mar e a Praia do Açu nesta sexta-feira que foram enviados por moradores:
























quinta-feira, março 19, 2015

Mar avança no Açu, toma as ruas e deixa moradores sobressaltados

Segundo as informações obtidas pelo blog, ontem e hoje, o mar avançou sobre a costa em diversos pontos do litoral norte do estado do Rio de Janeiro. Porém, aparentemente até aqui, o caso mais grave, mais uma vez, acontece na praia da Barra do Açu, próximo aonde estão localizados os dois terminais do Porto do Açu.

As ocorrências do avanço das águas do mar, a partir da erosão da costa é enorme no Açu e mais uma vez causa espanto e medo a todos os moradores. Ninguém tem dúvidas de que o fenômeno tem maiores consequências no Açu e por ser resultante dos impactos da implantação dos terminais portuários.

Desta vez, não apenas a avenida Atlântica foi fortemente atingida, mas também a rua do DPO (Destacamento de Polícia Ostensiva) controlado pela Polícia Militar, a rua da Escola Municipal Chrisanto Henrique de Souza que teve suas aulas suspensas nesta quinta-feira, assim como a rua chamada de principal do balneário, onde está localizado o Posto de Emergência do Açu.

As imagens abaixo (fotos e vídeos) mostram a situação. Mais uma vez se estranha a omissão das autoridades tanto na proteção aos moradores, como na cobrança das eventuais responsabilidades.

Há uma grande preocupação com a maré da madrugada e da manhã, considerando, segundo os moradores que serão as marés de lua nova. Com a pequena faixa de areia os moradores estão percebendo que passaram a ter que conviver com a situação, pelo menos duas vezes por mês.

PS.: Atualizado às 22:06 e 22:20.


































quarta-feira, março 18, 2015

Porto do Açu & Marinha americana: o quê?

Ontem, o blog comentou aqui em nota uma matéria extensa de três páginas do empresário Eike Batista ao Valor que incluía uma entrevista. Por falta de tempo, só hoje, eu tive condições de ler o restante da reportagem, além da entrevista.

Hoje, lendo toda a reportagem, eu identifiquei informações veiculadas que valem ser publicizadas para a região. Uma delas que mais me chamou a atenção foi uma que Eike mais uma vez elogia os seus projetos que hoje passaram ao controle de outros grupos empresariais e/ou fundos de investimentos. No caso do Açu, Eike se referiu ao projeto que "idealizou no Norte Fluminense em área identificada pela Marinha americana, em 1942, para abrigar um porto".

Como todos sabem, o empresário Eike Batista é um "falastrão" chegado a factóides. Porém, confesso que acompanhando a possibilidade de instalação do porto no Açu, desde o ano de 2005, e já tendo pesquisado sobre projetos anteriores, eu nunca tinha ouvido falar sobre área prospectada pela Marinha americana no litoral fluminense.

Na medida em que o fato foi citado pelo empresário que iniciou o projeto e que hoje, depois dos problemas nas empresas X foi repassada para um banco (fundo americano, o EIG) que tem 74,6% das ações da Prumo, o caso passa a ter um significado que merece ser investigado, considerando, a necessidade de preservar os interesses no pré-sal brasileiro e sua relação com a geopolítica da energia. A conferir!

Mais um prefeito fluminense é afastado pelo TRE-RJ: Itaboraí

O prefeito do município de Itaboraí, RJ, Helil Cardozo (PMDB), teve há poucos minutos a sua cassação mantida pelo TRE-RJ. O processo em que foi julgado trata de propaganda ilegal no pleito. No caso, o motivo foi o envio de torpedos (SMS) para os eleitores nos dias que antecederam a eleição.

Em seu lugar entra o segundo colocado, o deputado Altineu Cortes do PR. O município de Itaboraí faz parte da região metropolitana é vizinho de São Gonçalo e vive um momento delicado com a interrupção das obras do Comperj (Complexo Petroquímico do Rio de JAneiro) que tem sede na cidade.

O estado do Rio de Janeiro nos últimos anos tem um número muito expressivo de afastamento de prefeitos eleitos.

PS.: Atualizado às 20:50.

Ecovias vence leilão de concessão da ponte Rio-Niterói e pedágio vai baixar 36%

A empresa Ecovias que opera a rodovia do Sistema Anchieta-Imigrantes venceu o leilão de concessão por mais 30 anos da Ponte Rio-Niterói que hoje é operado há 20 anos pela empresa CCR.

O leilão foi realizado pela Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) e contou com a participação de seis empresas que foram habilitadas para o certame licitatório.

A empresa vencedora será obrigada além de fazer a manutenção e controlar a operação da ponte que possui 13,2 quilômetros, terá que realizar duas grandes grandes obras, uma no Rio de ligação com a Linha Vermelha e na outra ponta, em Niterói um túnel na saída após a praça de pedágio.

O novo contrato começa em junho quando o pedágio cobrado baixará de R$ 5,20 para R$ 3,30.

Parque Tecnológico do Norte Fluminense: hora de recuperar o tempo perdido?

Depois de um esforço de mais de cinco anos de organização e mobilização de entidades/instituições, finalmente parece que sairá das intenções para sua concretização, o Parque Tecnológico do Norte Fluminense. 

Foi marcado marcado para esta quarta-feira, na Câmara de Vereadores de Campos, a assinatura de um Protocolo de Intenções visando fomentar o projeto de criação do parque que propõe a criação e apoio ao desenvolvimentos de empresas na região.

A cerimônia foi marcada para 15 horas e tem a adesão de 16 instituições representando o poder público municipal, instituições de ensino e pesquisa públicas e privadas e entidades de classe do setor produtivo da região.

A ideia de um parque tecnológico numa região com boa estrutura de ensino e pesquisa é uma das formas de se aliar o conhecimento à geração de emprego, renda e à dinâmica econômica, que possa se expandir para outras cadeias produtivas, para além do setor de petróleo.

O Parque Tecnológico não deve ser visto como solução mágica em discursos que enxergam as possibilidades do desenvolvimentos e econômico e social como panaceias. 

O Parque Tecnológico é um avanço para as atividades da Incubadora de Base Tecnológica de Campos (TEC Campos) que já vem funcionando neste período, incentivando ideias e projetos para transformar conhecimento e inovação, em oportunidades de emprego qualificado e geração de renda.

O desenvolvimento do estado do Rio de Janeiro precisa ir para além da região metropolitana e simultaneamente, buscar formas de superar a já forte dependência da cadeia produtiva do petróleo e do gás. 

Caso, efetivamente, o Parque Tecnológico tenha características regionais (supra-municipais) e possua o apoio e incentivo das instituições de ensino e pesquisa, públicas e privadas, com quase uma década de atraso, poderemos estar assim, iniciando um novo ciclo.

Para que as coisas aconteçam será necessário um trabalho duro e pesado pela frente, num espaço temporal que deverá estar muito para além de mandatos dos gestores envolvidos. Até por isso, o quanto mais cedo se iniciar, mais rápido estaremos recuperando o tempo perdido até agora. Que todos possam cuidar deste fruto neste limiar do outono. 

terça-feira, março 17, 2015

Eike ficou com apenas 6,7% do Porto do Açu

O jornal Valor trouxe na edição de hoje, três páginas sobre Eike Batista, além de uma chamada de capa que traz o título: "Isolado, Eike admite erros, mas aposta no retorno". Nas três páginas do caderno "Empresas" além de uma análise sobre os negócios e das dificuldades do empresário há uma grande entrevista feita em um longo temo de seis horas, cujo título dado foi sobre uma da falas do Eike: "Um enorme erro foi não vender parte da OGX por U$ 7 bi".

Para fechar a matéria há levantamentos e um infográfico, publicado abaixo, que traz uma espécie de balanço do que o Valor chamou de "O pós-império X". Não há quase nada na extensa reportagem, que já não se saiba, especialmente para quem acompanha e para quem leu os dois livros editados recentemente sobre o apogeu e a queda do Eike Batista em seus negócios.

Destaco a informação sobre a Prumo (ex-LLX) onde se diz que a ela tem dívida de curto prazo de R$ 2,3 bilhões e que a participação de Eike no empreendimento do Porto do Açu está restrita a 6,7% das ações.(Veja destaques em vermelho no infográfico abaixo)

Sobre outra empresa com negócios na região está a OSX, na qual Eike ainda possui participação de 66%, que tem hoje uma dívida de US$ 2,7 bilhões e que se encontra em recuperação judicial.


































Abaixo a entrevista do empresário Eike Batista ao Valor na íntegra:
"Um enorme erro foi não vender parte da OGX por US$ 7 bi"
Por Graziella Valenti, Francisco Góes e Cristiano Romero | Do Rio

Valor: Nos anos 80 e 90, o senhor investiu em ouro. O que o fez se desfazer de tudo na virada do século e ir atrás de petróleo?
Eike: Meu pai sempre me falou para ter um pé fora do Brasil. Perguntei a meus filhos se eles queriam morar fora. Os dois, cariocas, disseram que queriam ficar. Pensei: 'O Brasil é rico para caramba'. Vou ficar aqui e fazer os negócios que eu sei fazer na área de mineração. A MPX começou a nascer em 2002 junto com o meu projeto da TermoCeará. Assinei contrato de 20 anos com a Petrobras, que alguns meses depois foi questionado. Valia bilhões porque ela me vendeu 20 anos de gás a US$ 3. Na mesma época, comecei a olhar para mineração de ferro.

Valor: Por quê?
Eike: Meio burro, fiquei 20 anos só olhando ouro que nem uma mula. Podia olhar qualquer mineral a partir do momento que estivesse entre os 20% de custo mais baixo do mundo. Fui escanear o Brasil e pensei: 'Vem cá, a Vale não pode ser a única empresa que tem ativos de minério de ferro no país'.

Valor: Não foi o seu pai que lhe deu o mapa da mina?
Eike: Não, o meu pai nunca seguia essas reservas. No caso da reserva que vendi à Anglo American, ele perguntou: 'De onde é que apareceu isso?'. Eu disse: 'É, o Brasil é grande mesmo. Tem coisas que as pessoas não sabem que tem'. Essa jazida, chamada Minas-­Rio, virou um megaprojeto. A Anglo me pagou, na primeira fase, US$ 1,5 bilhão por 49% das ações, e depois US$ 5,5 bilhões na segunda fase. Eu sempre operei com o meu modelo 360 graus.

Valor: Como assim?
Eike: Cuidando de tudo para viabilizar o investimento. Na mina de La Coipa, no deserto do Atacama, no Chile, tive que buscar energia a 200 km e água no subsolo, a quatro mil metros. Lá, funcionou muito bem.

Valor: Nos seus negócios com ouro, o sr. tinha, no máximo, 30% do negócio. No petróleo, ficou com mais de 60%. Por quê?
Eike: Porque eu tinha capital.

Valor: Não deveria ter diluído o risco?
Eike: Sim, sem dúvida nenhuma. Ninguém no mundo tem mais de 60% de uma empresa de petróleo. Só que tem o seguinte: em toda a minha história, quando mexi com minas de ouro, os negócios duraram mais do que o imaginado inicialmente. La Coipa era para durar 15 anos, mas rodou 25. Paracatu [mina em MG] era para rodar 15, começou em 1987 e está rodando até hoje. Do jeito que fiz, pude escolher os investidores, foi uma maneira de ter sócios. Um erro estratégico enorme foi o de eventualmente não vender pedaços dos meus blocos na pesquisa do risco, que é o que todo mundo faz.

Valor: Por quê?
Eike: Teve uma empresa, cujo nome não vou revelar, que ofereceu US$ 7 bilhões para ficar com 30% das nossas áreas de Campos. Só que o meu pessoal falou assim: 'Vale três vezes mais'. Se seu pessoal fala isso, você não vende. Fui com muita sede ao pote.

Valor: Mas o que, afinal, fez o senhor investir em petróleo?
Eike: Num país que tem essas riquezas e a Petrobras era um monopólio, pensei: 'Todo lugar que tem monopólio, quando o setor privado entra, a gente acaba fazendo melhor'. Porque, se você fizer uma avaliação dos US$ 10 bilhões que a gente gastou na OGX, verá que fizemos mais de 110 furos. A Magda [Chambriard, diretora-­geral da ANP] ficou feliz da vida porque ajudei a mapear a geologia do Brasil. Hoje, eles dizem: 'Essas áreas não são ricas o suficiente'.

Valor: O senhor disse recentemente que se arrependeu.
Eike: É, me arrependi. Dentro de uma empresa de petróleo, há o lado muito eufórico do geólogo e tem o corpo de engenharia de reservatório. Você tem que, realmente, ouvir o cara da engenharia de reservatório, que é mega-conservador. Se você pegar a história da Petrobras, há campos que eram para produzir por dez anos e estão hoje produzindo há mais de 20. O cara da engenharia de reservatório 'parafusa' tudo para trás. E o geólogo tem o lado da tendência do rico. Infelizmente, na minha história com ouro e ferro, eu sempre mexia e era maior [a jazida]. Psicologicamente, foi assim: 'Será que eu não vou achar algo grande?' Fiz isso alimentado por otimismo do meu pessoal, o que não é errado. As pessoas têm que ser otimistas, senão, não fazem nada.

Valor: O que deu errado na estratégia com petróleo?
Eike: Deram­-me a oportunidade de mexer no petróleo, peguei a área mais prolífica do Brasil, na Bacia de Campos (RJ). Tiraram-­me do pré-­sal, mas também consegui botar a mão numa área bacana e onde eu sabia que tem 'baleias brancas'. Falei: 'Uma eu vou pescar'. O setor tem alto risco porque realmente você entra num campo, 'engenheira' ele todo, na hora que vai para o mundo real produzir, 'uff'... É exatamente o que aconteceu comigo: as rochas não se comportaram, elas se fecharam. É quase como um bicho vivo.

Valor: Alguém errou ou faz parte do risco do negócio?
Eike: Faz parte. A Shell, menos de um ano atrás, fez um 'write­off' [baixa contábil] de US$ 20 bilhões dos campos de 'shale gas' (gás de xisto) nos EUA. Você tem que ter 'big pockets' [muito dinheiro] para aguentar um tranco desses.

Valor: A Petrobras acerta muito.
Eike: A taxa de acerto deles é superior a 50%. Aumentou muito desde o início dos anos 2000, o que também foi um indício para mim. Meu campo de petróleo é na bacia de Campos. Por que a minha taxa de acerto não seria como a da Petrobras?

Valor: Uma explicação para a derrocada do grupo X é que o senhor teria alavancado todos os negócios a partir do petróleo.
Eike: Cada negócio era estanque. Isso não existiu. O Mubadala [o fundo soberano de Abu Dhabi], que entrou como sócio lá em cima, ficou dez meses dentro do meu escritório. Gastaram US$ 20 milhões auditando tudo. Aí, estou sentado lá, bobão, com todas as minhas empresas de capital aberto. A gente fazia o conceito, buscava os ativos e o capital. E, aí, eles [os sócios] diziam: 'Toquem'. Comecei cinco empresas. Se me perguntarem hoje se foi muito, é verdade: eu não tinha tempo para atender todas as cinco e, por isso, tinha muita confiança em todo mundo que botei lá. Trouxe os melhores especialistas da Petrobras. Na OGX, quando a gente anunciou que realmente os campos não iam render o esperado, criou-­se aquele vácuo de credibilidade. Isso extrapolou para todas as companhias. Virou uma corrida bancária.

Valor: O fato de as empresas serem de capital aberto facilitou essa corrida?
Eike: No futuro, vou pegar dinheiro de fundos de 'private equity' [participações acionárias]. São investidores de longo prazo.

Valor: O senhor se arrepende de ter ido ao mercado de capitais?
Eike: Não. Era o 'timing'. O Brasil estava apaixonado pelo Brasil.

Valor: O que o senhor sentiu quando a rocha "decidiu" não lhe entregar o petróleo esperado?
Eike: Alguns engenheiros falam que você pode injetar químicos, craquear e fraturar a rocha. Mostram todas as tecnologias que existem para tirar o bicho de lá. Aí, a porosidade não era como se imaginava. De repente, a rocha chupa mais água, toda a hidrodinâmica, a oleodinâmica, muda. O espetacular do pré-­sal é que o poço de Libra tem 500 metros de camada de óleo! É um piscinão: é só enfiar o canudo lá.

Valor: Seria possível promover baixa de ativos na OGX e manter os outros negócios?
Eike: Se tivesse enxergado que não ia dar certo, a gente poderia ter feito uma 'erre­jota' [recuperação judicial] lá atrás. Em janeiro de 2013, havia R$ 5 bilhões em caixa. Imagina uma 'erre­jota' com R$ 5 bilhões em caixa! Os credores é que estariam na sua mão!

Valor: Por que não fez isso?
Eike: Porque a recomendação era 'não, vamos continuar'. A Petronas, fazendo auditoria também, ia comprar 40% do meu campo de Tubarão Martelo! E aí?

Valor: Mesmo sendo naquela época um dos dez homens mais ricos do mundo, o senhor não era pequeno demais para concorrer com as gigantes de petróleo?
Eike: Perfeito. O que me traiu foi o sucesso na mineração de ouro e de ferro.

Valor: As pessoas se afastaram?
Eike: Totalmente. Muitos dos sócios que tive entraram quando a ação valia R$ 4 e venderam a R$ 20. Isso ninguém fala.

Valor: É dito que, quando começou a derrocada, o senhor se isolou?
Eike: Na verdade, não me isolei. Procurei, a conselho do meu pessoal, o BTG. Mas não deu muito certo. Estava sufocado. Houve uma debandada de executivos. Corrida a banco você não controla.

Valor: O senhor tem mágoas?
Eike: Não. No fundo, o responsável sou eu. A culpa é minha se chamei o cara errado. Foi um erro financiar tudo via mercado de capitais.

Valor: Dentro da OGX, até setembro de 2012, havia alguma voz dissonante do otimismo?
Eike: Tinha. O pessoal da engenharia de poço dizia: 'Olha, a gente acha que isso não é assim, é menor'. Tanto que a gente deixou que eles assumissem o comando. Entrou a turma do [Luiz Eduardo] Carneiro [que assumiu a OGX em abril de 2012]. É preciso lembrar que eu fui o único empresário do país a colocar aval pessoal em pedidos de empréstimo ao BNDES.

Valor: Quanto do seu patrimônio pessoal entrou como garantia?
Eike: Tudo! Todos os projetos tinham a minha garantia. Tanto que minha negociação com o Mubadala e todos os bancos foi bem ­sucedida. Já ouviu algum deles reclamar das renegociações? Minhas participações atuais são garantias para os bancos e os credores. Eventualmente, tenho uma chance de ver meus ativos aumentarem de valor. Posso pagar a dívida e ficar com um pedaço no futuro.

Valor: O senhor ficou conhecido como empresário da era do PT, alguém que teve a ajuda do governo.
Eike: Isso é absurdo! Todos os meus sócios eram privados, com fundo soberano, grandes empresas e investidores. No BNDES, tomei financiamento com aval do meu patrimônio. Se eu tivesse decidido, lá em junho de 2013, no dia do início da derrocada, que ia brigar, não pagar o Mubadala, criaria um colapso no sistema financeiro. Seria um desastre! Não sou assim, nunca fui assim. 'I'll be back!'

Valor: Quem é o Eike hoje?
Eike: É alguém que tem uma participação minoritária nesses projetos que continuam em pé. Provavelmente, hoje estou, em termos líquidos, com patrimônio negativo de US$ 1 bilhão. Mas existe a chance de eu recuperar valor porque esses projetos vão crescer de valor. Teoricamente, estou no zero.

Valor: O que o senhor ainda tem fora dessas participações?
Eike: Fiquei com alguns ativos. Tenho também uma remuneração de mais ou menos US$ 5 milhões por ano que o Mubadala paga hoje e, se Deus quiser, em breve será outro [valor].

Valor: O senhor tem crédito?
Eike: Nos bancos, não. Por essa razão, a minha conversa futura será toda com 'private equity', gente que sabe que este Batista criou mais de dez empreendimentos de bilhão de dólar. 'Esse cara sabe fazer tudo de novo'.

Valor: Como o senhor se sente tendo saído da lista dos 10 maiores bilionários do mundo para, agora, estar sem crédito e recebendo US$ 5 milhões por ano?
Eike: Não tem problema nenhum. Poxa, eu vivia no garimpo. Dá para ser modesto? Eu sou um bicho diferente. Eu monto essas coisas. As pessoas não sabem fazer isso que a gente faz. Há a lenda de que eu sempre tive um monte de braço direito. São sempre eles que fazem as coisas. Há uns 70 caras aí que saíram [do grupo] com algo entre US$ 50 milhões e US$ 200 milhões. Espero que eles tenham uma boa vida.

Valor: O que o senhor tem em mente quando afirma 'I'll be back'?
Eike: 'A lot' [muito]. Isso aqui [mostra uma embalagem em filme de medicamento]. É para malária.

Valor: É um repelente?
Eike: Não, um remédio sublingual. É um 'delivery system' [sistema de entrega]. É uma empresa coreana que fabrica isso e eles estão mais ou menos três anos à frente da concorrência. Você gasta a metade do princípio ativo para produzir o mesmo efeito, porque entra diretamente na corrente sanguínea. É uma mistura de nanotecnologia com laser. Você bota embaixo da língua e em 20 segundos vem o efeito.

Valor: O senhor é sócio deles?
Eike: Sim, temos uma parceria para as Américas e a África.

Valor: No auge do grupo X, o senhor comprou restaurante chinês, o Hotel Glória, fez o projeto da marina da Glória no Rio. Por que entrou em negócios que nada tinham a ver com sua atividade tradicional?
Eike: É simples. Foi uma mistura da cultura de devolver e fazer coisas para o Rio, como um restaurante bacana. É aquele negócio: vocês são paulistas. Poxa, tudo lá é melhor! Não é? O Glória ia virar um shopping. Comprei para voltar a ser o que era. Além disso, doei R$ 100 milhões para UPPs. Entregávamos o prédio pronto.

Valor: O senhor era muito amigo do governador Sérgio Cabral?
Eike: As pessoas cometem o seguinte erro: 'O Eike só investe naquilo que vai beneficiá-­lo'. Eu nunca fiz obra para o governo! Nunca recebi dinheiro.

Valor: Mas, na campanha do Rio para ser a sede da Olimpíada, o senhor emprestou jatinho ao Cabral.
Eike: Ele me pediu. Burrice minha, né? Devia ter dito não. Na primeira vez não deu para dizer não. Depois da grande c., eu defendi: 'Não dá, desculpa, isso aqui só dá c.'. Desculpa a palavra.

Valor: Por causa da repercussão negativa?
Eike: É lógico. Para quê? Valor: Tinha quantos jatos? Eike: Três. Hoje, nenhum.

Valor: Só viaja de avião de carreira?
Eike: Os dois. Às vezes, alugo.

Valor: Qual foi o seu envolvimento na campanha olímpica do Rio?
Eike: O meu dinheiro financiou a empresa inglesa que fez Londres ganhar a Olimpíada. A ideia era contratá-­la para fazer a do Rio. O dinheiro do COB (Comitê Olímpico Brasileiro) estava carimbado. Não dá para pagar um negócio de US$ 20 milhões. Então, eles primeiro me pediram US$ 10 milhões. Lembro­me da reunião: estavam o [Carlos Arthur] Nuzman, o [Eduardo] Paes e o [Sérgio] Cabral. Aí, eu disse: 'Olha, prontamente, se tiver a chance de ganhar, né?' O dinheiro não dava, então, depois foram mais US$ 12 milhões. Graças a Deus o Rio ganhou.

Valor: Até os anos 90, sr. era um empresário discreto. Na nova fase, tornou­se extremamente exposto. Eike: Em 2002, pensei: 'Caramba, nós fazemos essas coisas, somos grandes. Qual o problema de eu mostrar que criei riqueza, projetos, que eu ando num carro bacana? Queria mudar um pouco essa cultura no Brasil... [E mostra no celular, orgulhoso, mensagem enviada por um amigo. "Amigo, estou com problema. Meus quatro filhos querem te conhecer. Não sabia que era o ídolo dos quatro", dizia mensagem.]

Valor: Essa exposição não o preocupava?
Eike: Claro. Porque na fase anterior eu mexia com ouro e tinha todos esses medos normais, de sequestro e tal. Mas, agora, quis mostrar ao brasileiro, ao jovem: 'Seja empreendedor, pense grande'. Qual é o empresário que faz isso no Brasil? Todo mundo esconde o que tem. Criei as companhias, coloquei os projetos dentro, mega-capitalizados.

Valor: Na vida nova, a exposição pessoal diminuirá?
Eike: Sim, no sentido de que só vou aparecer quando tiver os projetos prontos.

Valor: Por que o sr. continua a usar na lapela o "bottom" da EBX?
Eike: 'I will be back.'

segunda-feira, março 16, 2015

"Manifestações da 'middle class': polifonia e ódio de classes dos 'filhos da mídia"

Vale conferir também a análise do Francisco Fonseca, publicado originalmente no Portal Carta Maior. Fonseca é cientista político, historiador e também professor de Ciência Política no curso de Administração Pública e Governo na FGV/SP:

"Manifestações da 'middle class': polifonia e ódio de classes dos 'filhos da mídia"
"Devorados pela ignorância política propagada pela mídia, os manifestantes vociferavam seu ódio ao PT, aos partidos e à política, sem propostas concretas."

As manifestações ocorridas no domingo, dia 15/03, encerram algumas lições que, embora mereçam maior maturação, podem ser sintetizadas em alguns temas-chave.

POLIFONIA

O primeiro deles refere-se à constatação de que os manifestantes não têm um foco claro e sobretudo não têm a mínima noção sobre o processo político. Em outras palavras, há clara polifonia de insatisfações, envoltas num conservadorismo difuso: crítica genérica à corrupção, preocupação com a perda de privilégios, sentimento de “caos”, temor quanto ao futuro econômico, crença em governo sem partidos, arroubos autoritários, não aceitação do resultado eleitoral e, claro, a ira contra um partido que promoveu importante diminuição das desigualdades sociais.

Essa polifonia, com alguns outros elementos, já fora vista em junho de 2013 e, agora, quase que como extensão dela, se renova com o resultado eleitoral extremamente apertado no ano passado.

Deve-se notar que esse conservadorismo difuso, que imputa ao PT a causa dos males do país e, sobretudo, desse grupo particular de manifestantes, uma vez que pertencentes a estratos sociais homogêneos, estava presente desde as reformas do Governo Lula, mas somente no ano passado adquiriu densidade.

Em outras palavras, aparentemente os eventos de junho de 2013 – iniciados por jovens estudantes militantes de uma causa popular, a “tarifa zero” – alavancaram, paradoxalmente, os setores conservadores, o que pode ser expresso em três eventos: polarização eleitoral à presidência, Congresso Nacional extremamente conservador e, agora, manifestações de rua.

O ÓDIO DE CLASSE DA “MIDDLE CLASS” TRADICIONAL

A classe média “tradicional”, composta, entre outros, por profissionais liberais, por executivos de médio e alto escalão de empresas, normalmente privadas, e de uma gama de trabalhadores que vivem “por conta própria” – caso de certos tipos de consultores e um sem-número de prestadores de serviços –, cuja renda é alta, desenvolveram ódio de classe aos pobres sem igual.

Esses grupos associam o PT ao “definhamento do mérito individual” em razão: a) das políticas redistributivas, sobretudo da transferência de renda via Bolsa Família, que supostamente implicaria “ajuda aos não merecedores” e formação de “curral eleitoral”; b) da participação dos pobres, dos trabalhadores sindicalizados e dos movimentos sociais nas políticas de governo; e c) da percepção simbólica de que se trata de um governo “para” os trabalhadores, em que a classe média tradicional não teria espaço; d) do incômodo de que a ascensão econômico/social dos trabalhadores faz com que esses grupos ocupem espaços reais – mas com profunda significação simbólica – até então exclusivo desta classe média e das elites. Alguns exemplos são marcantes: cotas para grupos vulneráveis, notadamente os negros, em universidades e cargos públicos; revisão da forma de ingresso na universidade, retirando o vestibular – instrumento de filtragem das elites – como única forma para tanto; acesso a bens de consumo e serviços jamais tidos pelos pobres, casos dos automóveis, viagens aéreas, frequência e consumo em shopping centers, consumo de bens de determinadas marcas etc. Em outras palavras, a “meritocracia”, verdadeira ideologia utilizada para justificar privilégios históricos, nesse caso, estaria, de acordo com essa percepção, sendo corroída pelos governos petistas: daí o ódio potencial ao PT, mas agora ostensivo e destituído de vergonha de se pronunciar. Afinal, o lema “cada macaco no seu galho” estaria sendo desrespeitado pelo petismo, o que seria inadmissível a uma sociedade cujas entranhas ainda é fortemente hierárquica e desigual (em vários sentidos), uma vez que os legados latifundiário e escravista não foram desfeitos.

Essa middle class, cujo norte é a simbologia do “self made man” estadonidense, percebeu que, pelo voto, não ganhará e, dessa forma, parece ter descoberto o uso das redes sociais para se mobilizar, o que é inédito em se tratando desse agrupamento social, cuja visão predominante é o individualismo.

Mas deve-se atentar para o papel jogado pelos “inocentes úteis” das chamadas “classes médias ascendentes”, em que o papel das políticas governamentais petistas é crucial para sua ascensão, por meio do ProUni, da valorização do salário mínimo, da ampliação e consolidação do mercado interno, da extensão do crédito (produtivo e ao consumidor), da ampliação das universidades públicas e de seu acesso mais diverso (como apontamos acima), entre outras. Esses grupos, genericamente chamados de “classe C”, tendem a reproduzir o discurso de valorização do mérito individual, esquecendo-se que sua ascensão é resultante da vontade política, consolidada em políticas públicas, reitere, dos Governos Lula e Dilma. Daí deriva o perigo do discurso das classes médias tradicionais e das elites se “popularizarem”, virando a tendência reformista incremental de centro-esquerda representada – embora de forma bastante contraditória – pelo petismo, em prol do conservadorismo de uma “nova direita”.

OS FILHOS DA MÍDIA

Está claro que a despolitização em geral, mas particularmente das classes médias, advém diretamente do papel dos meios de comunicação, cujo sistema institucional/legal, de influência política, e modelo de negócio não foi alterado com a redemocratização.

O desserviço à democracia que o aparato de emissoras de rádio e televisão – que são concessões públicas, nunca é demais relembrar – e os grandes jornais e revistas fizeram, particularmente desde a redemocratização, e fazem ao país é elemento crucial para a constituição da visão tosca dos manifestantes. Assim, a junção de “interesse de classe”, que motiva defesa de privilégios, se junta com a mais completa ignorância política, manifesta na despolitização generalizante, na incapacidade de reflexão (senso comum) e na insolidariedade social.

Tal como apontado por diversos analistas, parte desses grupos que foram às manifestações polifônicas de 2013, que votaram – em grande parte – em Aécio e Marina –, e que agora foram às manifestações do dia 15/03, são claramente “filhos da mídia”, o que implica, sem meias palavras: capacidade manipulatória dos grandes meios de comunicação, sobretudo a Rede Globo de Televisão; inculcação estrutural da “ignorância política”, mesmo em tempos de acesso à internet e redes sociais – instrumentos de que são useiros e vezeiros – , o que torna suas capacidades críticas bastante limitadas, tal como se vê nos discursos tanto dos “líderes” como dos “liderados”; e profunda despolitização.

Não é coincidência que a crítica generalizada aos partidos – embora com ódio particular ao PT –, à política e mesmo à democracia apareça como elemento basilar do discurso antipolítico. É por isso, igualmente, que as lideranças que promoveram as manifestações do dia 15/03, e mesmo as anteriores, logo após as eleições, são distantes dos partidos e adotam forte discurso antipardidário e mesmo antipolítico. Nesse cenário, o PSDB e outros partidos de oposição que, ao apoiar irresponsavelmente o pedido de “impeachment” no bojo de toda forma de preconceito e criminalização do PT, não perceberam que têm grandes chances de serem tragados por movimentos outsiders. Isso representa enorme perigo à democracia e ao sistema político, uma vez que põe por terra instituições, procedimentos e processo democrático sem ter nada a oferecer em seu lugar!

A inapetência e falta de coragem política do PT em reformar democraticamente a mídia, como o fizeram a Argentina, o Uruguai, o Equador, assim como a Inglaterra, entre outros, está custando caro ao próprio PT e à democracia como um todo. Mais ainda, a manutenção bilionária da verba publicitária destinada à grande mídia, mesmo com toda forma de boicote, mentiras, manipulação e golpismo de seus órgãos, em nome supostamente da “aliança de classes”, que se esgotou, aparentemente explica a timidez reformista nesse quesito.

Tal mídia golpista, apoiada numa base social insatisfeita, está ganhando sobrevida, uma vez que crescentemente perde leitores, ouvintes e telespectadores. As manifestações de 15/03 foram, portanto, conclamadas, infladas e coordenadas pelos grandes meios privados de comunicação, capitaneadas pelo Sistema Globo de Comunicação.

Não deixa de ser significativo que, sem isso, certamente o número de participantes seria muito menor, até pelo perfil individualista, despolitizado e desmobilizado dessas classes médias.

A DIREÇÃO IDEOLÓGICA DO MOVIMENTO

Se a direção operacional das manifestações, que as organizaram, se dá por grupos “ingênuos” (quanto ao significado do jogo político) e “amadores” (quanto ao distanciamento do sistema institucional), a verdadeira direção ideológica e política está nas mãos de setores do capital, caso sobretudo do capital financeiro, associado a frações do capital produtivo. O Sistema Globo de Comunicação ocupa papel central na canalização desses grupos, que os financiam, por meio de patrocínio, o que implica articulação orgânica.

Foi assim nas manifestações de junho de 2013, em que a mudança de posição da Rede Globo foi muito significativa, tendo em vista que sentiu estar distante do “sentimento dos manifestantes”. Aparentemente aprendeu a lição e, agora, além de invocar, conclamar e, num certo sentido, organizar as manifestações, quer claramente dirigir suas ações desde o nascedouro, controlando-as, tal como nos ensinou Gramsci.

O que está em jogo, a partir de agora, mesmo que os manifestantes sejam os eleitores de Aécio ou simplesmente antipetistas, ancora-se na seguinte indagação: conseguirão pautar as ações governamentais, o que, na prática, significa transmitir pautas dos “dirigentes” político/ideológicos do movimento? Mais ainda, contribuirão para manter o Governo Dilma “nas cordas”, esperando apenas o gongo tocar para acabar a luta, consagradora, isto é, fazer “sangrar” não apenas o governo mas o PT e o projeto petista por quatro anos, como expressou o senador Aloysio Nunes?

O QUE FAZER?

Longe de se ter uma “receita”, e muito menos pronta e acabada, antes de tudo há de se ler a realidade e ter estratégias e táticas claras e articuladas, o que significa concretamente: a) defender renhidamente que o país está muito melhor do que quando Lula ascendeu ao poder; b) não se intimidar (“sair das cordas”), adotando postura propositiva e não defensiva; c) extinguir completa e imediatamente toda e qualquer verba federal de todos os meios de comunicação comprometidos com o golpismo, ato que depende do Executivo; d) mudar, o mais rapidamente possível, a articulação política no Congresso e aproximar-se dos movimentos sociais; e) compreender que a “conciliação de classes” se esgotou, como se observa na fragorosa derrota à presidência da Câmara dos Deputados, o que implica arcar com os ônus da coalizão, sem qualquer bônus; f) criar, paulatinamente, e com forte apoio popular da sociedade politicamente organizada, formas de alterar o modus operandi do Congresso, notadamente por meio da pressão social; g) compreender que, se não houver claro projeto de poder a possibilidade de o legado petista ser liquidado é muito grande, o que poderá implicar retrocesso de diversos direitos sociais; h) trazer os militantes “de volta” ao apoio a um projeto de poder, tal como o foi no segundo turno das eleições, o que somente se fará se houver alteração na política econômica (ajustes mais leves tocados por um ministro atinente a um projeto popular, o que não passa pela permanência de Joaquim Levy) e não retrocesso de direitos; i) responder aos manifestantes das classes médias e aos movimentos populares com projeto de reforma política, o que implica, por exemplo, encampar a proposta da Coalizão pela Reforma Política; j) trazer para esse projeto setores das classes médias, que se sentem completamente abandonados, por meio de políticas como a taxação de grandes fortunas, impostos efetivamente progressivos etc: numa palavra, desoneração tributária das classes médias pela via da taxação das grandes fortunas.

A grande questão diz respeito a uma aliança entre os pobres e setores das classes médias, tal como ocorreu no mundo nórdico, e não a aliança de todos com todos, em que não se enfrentam nenhum dos grandes problemas nacionais, tais como agronegócio, política tributária, grandes fortunas, etc.

Entre tantas outras ações, as ideias acima são linhas gerais para se pensar em substituir a lógica da coalizão para governar, efetivar a reforma política e a mudança de rumo na economia (em prol do crescimento com distribuição de renda).

Nenhuma dessas ideias são fáceis de se implantar, pois esbarram, como nunca, num Congresso hostil, numa mídia golpista e em largos setores médios com “sangue nos olhos”, num contexto em que a economia mundial ainda sofre com os efeitos do crash de 2008. Ainda assim, o espaço para a inventividade da política é enorme.

As manifestações de 15/03, para além do número dos participantes – em que as Polícias Militares dos tucanos ajudaram a inflar –, e cujo perfil é sobejamente conhecido, pode ser um “traque” ou uma “dinamite”. Os próximos lances o revelarão, mas ao PT, à centro-esquerda e ao governo federal cabem tarefas de curto e médio prazos no sentido de estancar a sangria, sair das cordas, defender seu projeto – que precisa ser cada vez mais popular, mas incorporador de segmentos das classes médias em detrimento do grande capital –, e criar condições para que novas bases sociais sejam criadas e recriadas a ponto de derrotar, tantas outras vezes mais, o conservadorismo elitista, o neoliberalismo e o ódio de classes!

Não é pouca coisa o que está em jogo!

Para onde está indo o dinheiro das compensações ambientais do Porto do Açu?

Confira abaixo, em matéria na edição de hoje de O Globo, informações sobre os valores pagos e devidos pelos controladores do Porto do Açu, referentes às chamadas compensações ambientas geradas pelo licenciamento do empreendimento.

A pergunta que naturalmente surge é: onde foram investidos esses recursos pelo estado?

Confiram a matéria:

"Porto do Açu: projetos de Eike Batista geraram repasses de R$ 86 milhões"
"Mas megaempreendimentos do complexo industrial ainda devem cerca de R$ 6 milhões em compensações" - por Emanuel Alencar

"RIO - Megaempreendimentos do complexo industrial do Porto do Açu, em São João da Barra, no Norte Fluminense, que eram tocados pelo empresário Eike Batista — atualmente sob a gestão de outras empresas — já renderam R$ 86 milhões ao Fundo da Mata Atlântica, mas ainda devem cerca de R$ 6 milhões em compensações. Esse dado consta em um relatório da Secretaria estadual do Ambiente obtido pelo GLOBO.

Até meados de 2013, o Complexo do Açu foi a principal fonte de recursos da conta ambiental do estado. Mas, de agora em diante, o pagamento dessas compensações promete virar uma novela. Isso porque a Eneva, empresa que assumiu a MPX Energia e é controlada pela alemã E.ON, entrou com pedido de recuperação judicial em fevereiro. O processo, admite o secretário estadual do Ambiente, André Corrêa, vai se arrastar.

Outra questão ainda em aberto é a dos repasses já feitos pela Unidade Térmica Elétrica (UTE), também do Porto Açu, cuja renovação da licença de instalação foi negada pelo Inea em outubro de 2013. O empreendimento emitiria até 7 milhões de toneladas de carbono por ano. Foi acertado que o pagamento ao Fundo Mata Atlântica referente à térmica a carvão seria feito em 96 parcelas, totalizando R$ 66 milhões. Até o cancelamento do projeto, foram pagas 16 parcelas (R$ 11 milhões).

Por meio de uma nota, a Eneva informou que não descartou a continuidade do projeto e acrescentou que “qualquer decisão envolvendo valores da compensação ambiental deve aguardar o julgamento do recurso apresentado contra a suspensão da licença do empreendimento”.

André Corrêa disse não acreditar que os valores já pagos serão devolvidos por ordem judicial. Ele afirmou que abre mão do restante, pois, segundo o secretário, o mais importante para o meio ambiente é o veto a uma termelétrica com altíssimo potencial poluidor:

— O que foi pago já está gasto. Eles estão, de fato, questionando os valores que já foram repassados. Mas abro mão de receber o dinheiro restante sem problema algum."

E o Suiçalão do HSBC?

Deu para entender agora, porque a auto-delação dos donos Folha, Globo, Band, etc. dos depósitos no HSBC do Suiçalão ficou para o sábado?

Alguém se lembra o que foi?

Democracia, Liberdade de Imprensa, Manipulação e PIG (Partido da Imprensa Golpista)"

Mais uma ótima reflexão do professor Hélio Coelho em seu perfil no Facebook que resolvi trazer para este espaço do blog com o intuito de dar voz a uma outro campo e assim ampliarmos o debate e o contraponto ao PIG:

"DEMOCRACIA, LIBERDADE DE IMPRENSA, MANIPULAÇÃO E P.I.G. (Partido da Imprensa Golpista)"
16 de março de 2015 às 12:35

Uma querida amiga aqui no face, Calili Paravidini, dirigiu-me a seguinte pergunta: -É legal, é normal um veículo da imprensa escrita, televisada ou outros formatos, tomar partido desse ou daquele grupo, como a Rede Globo faz escancaradamente, ou deveria haver a mais perfeita imparcialidade nesses assuntos?

Eis o que respondi.

Não existe neutralidade político-ideológica. Aliás não há neutralidade nem no campo do conhecimento científico...O que deve haver (questão ética) é O MÁXIMO DE OBJETIVIDADE POSSÍVEL, HONESTIDADE, RESPONSABILIDADE COM A INFORMAÇÃO QUE ESTÁ OU VAI SER VEICULADA. Não devemos nos esquecer de que é um direito o órgão da imprensa ter sua opinião, o que geralmente o faz através do Editorial. Seria ingênuo ignorar que há sempre uma visão de mundo, do homem e das coisas a partir da qual se constrói a fala, o discurso, a opinião que expressa a vinculação do jornal, revista, Tv, etc. com a motivação de sua existência. Daí a legitimidade democrática de mídia que defende essa ou aquela posição político-ideológica,esse ou aquele sistema econômico-social. E na Democracia, é uma beleza essa batalha das ideias!Isso é uma coisa...Outra coisa é subliminarmente ou não, impor seu padrão ao conjunto da população, editando a informação dos fatos de tal modo que acaba controlando, direcionando a maneira de pensar das pessoas de acordo com seus interesses não revelados...Isso é manipulação!

Em alguns países há uma legislação forte - que sem cerceamento da liberdade que a imprensa deve ter - estabelece alguns limites justamente para evitar a MANIPULAÇÃO tendo em vista os efeitos PREDATÓRIOS que tal prática acarreta à vida democrática. Só pode haver Democracia Plena quando os cidadãos são dotados de AUTONOMIA DA VONTADE para tomar suas decisões. 

O caso da Globo, do Estadão, da Veja e outro@s, causa espanto e repulsa de vários organismos internacionais. Há muito que vem se posicionando a favor do desenvolvimento do Brasil através de um CAPITALISMO SELVAGEM E DEPENDENTE, em que os ricos devem ficar mais à custa do arrocho sobre o povo trabalhador e a exclusão dos mais pobres do processo político-econômico-social. São veículos cujas grandes fortunas resultam de verbas publicitárias pagas pelos grandes capitalistas aqui de dentro e os de fora(multinacionais)...Daí, a cumplicidade e essa despudorada manipulação da opinião pública. Enfim, não há dúvida de que formam um "partido político" paralelo ao sistema partidário: o PIG -literalmente de porco..PARTIDO DA IMPRENSA GOLPISTA. Uma vergonha, a escória do Brasil!

Bem, querida Calili Paravidini, espero ter respondido...no básico. Sem dúvida a questão tem ainda outros desdobramentos...Em 16 de março de 2015, Hélio de Freitas Coelho defensor das liberdades democráticas, incluindo logicamente a liberdade de Imprensa...Na Democracia, é melhor essa liberdade com abusos do que a ausência dessa liberdade como na Ditadura!"

"Será que desejamos o impossível?"

Há poucos dias comentei um pouco disso que o professor Renato Janine esboçou hoje, em seu artigo semanal no Valor. A presidenta Dilma, tem estilo diverso, é menos afeita a busca de consensos e parece apostar em alguns conflitos e na explicitação das opiniões, posições e campos políticos. Ou não? Confiram abaixo o texto:

"Será que desejamos o impossível?"

Um princípio básico da ciência é que, quando uma hipótese não explica os fenômenos, devemos procurar outra que dê melhor conta deles. Este princípio me ocorreu há poucos dias. Afinal, quase todos os analistas, eu inclusive, temos criticado a presidente da República por seu estilo de pouca negociação. Até ficamos espantados: como sobe à presidência alguém que ignora princípios tão elementares? Mas aí parei. Nunca é bom apostar na ignorância ou inépcia daquele a quem criticamos. Pode ser que Dilma Rousseff erre sim ao não negociar, ao não fazer política. Só que... 

Se isso não for óbvio? Se nosso ponto de partida estiver errado? 

Durante milênios, os homens acreditaram que os astros, inclusive o sol, giram em torno da Terra. Só que, desse jeito, alguns astros têm um movimento estranho, irregular, e até mesmo retrogradam. Já com a astronomia moderna, heliocêntrica, os movimentos dos planetas ­ inclusive a Terra ­ em torno do Sol descrevem órbitas mais regulares. Essa, a lição científica: se os resultados soam absurdos, devemos questionar a hipótese de que partimos. No caso, em vez de pensar que Dilma ignora o mais elementar da razão e da política, indagar o que ela efetivamente pretende. 

No seu primeiro ano de governo, Dilma demitiu todos os auxiliares acusados de corrupção. Foi aplaudida. Mas logo começaram a questioná-­la: por que não fazia alianças? Porque não gostava dos políticos? ou, sei lá, da própria politica? Só que, num País em que tantos políticos importantes são suspeitos de corrupção, negociar com eles o que significa? Podemos ter decência no exercício do poder e, ao mesmo tempo, trânsito livre pelo mundo dos políticos? 

Essa é a realidade atual, que precisa mudar, mas isso não será fácil. E se Dilma for representativa de nosso desejo difuso de uma política competente e sem corrupção? Ela se irrita, sim, com quem está a sua volta, o que politicamente é inábil, mas isso porque cobra eficiência. E isolou a família da política. Nem ela nem os familiares despertam suspeitas de favorecimento pessoal. Pode até governar mal, só que detestando a corrupção e a ineficiência. Mas basta detestá-­las para superá-­las? 

A hipótese passa a ser: e se o "momentum" Dilma for exatamente a tragédia mais representativa daquilo que desejamos? Se o problema não estiver nela, mas em nós? Em nós, analistas da política e cidadãos, que pretendemos o melhor de dois mundos: eficiência e honestidade. 

Pode haver governabilidade, no Brasil de hoje, sem corrupção? Podemos ter governabilidade sem negociações e alianças, que vão ao limite de nossa irresponsabilidade? 

Para não ficarmos num só partido, lembremos a rebelião do PCC em São Paulo em 2006, quando a quadrilha paralisou a cidade por alguns dias. A situação só foi resolvida quando o governo estadual ­ que é do PSDB ­ negociou com o PCC e cedeu. Meticulosamente, deletamos este passado (embora ainda presente) de nossa memória. 

E ouvi de Drauzio Varella que desde o massacre do Carandiru em 1992, ocorrido no governo do PMDB, a polícia não entra nos presídios do Estado. São geridos pelo crime. Isso é inadmissível. Mas assim baixa a violência nas cadeias e mesmo o crime fora delas.

Essa mistura de bem e mal, de resultados positivos e meios obscuros para consegui­los, merece atenção. Porque lavamos as mãos. Denunciamos a corrupção e queremos que as leis passem no Congresso. Mesmo na ditadura, isto é, num regime em que o Congresso pouco decidia, o assessor presidencial Heitor de Aquino dizia, quando ia negociar a aprovação de decretos­leis pelos parlamentares, que ia abrir o "barril de peixe podre". Imagina­se o odor. Fingimos que ele não existe, ou que nasceu ontem. 

Uma vez, estive na antessala de uma pessoa com certo poder. Faltava água no seu prédio. Ouvi a secretária telefonar a alguém: "Não quero saber como, mas você tem que resolver o problema em duas horas". Pensei que era uma forma de exigir eficiência e presteza. Mas depois entendi que esse bordão serve para colocar o encarregado à margem da lei. Vire­se. Se violar a lei, viole. Mas eu lavo as mãos. "Não quero nem saber!" 

E se Dilma tiver a mesma convicção que o povo brasileiro? Se também quiser o fim da corrupção e, ao mesmo tempo, um governo eficiente? Se sua aversão aos políticos for porque não crê na sua honestidade, nem competência? Neste caso, não a estaremos condenando, exatamente porque tem os mesmos propósitos da maioria da sociedade? 

Esta é uma hipótese. Não justifica a presidente, no sentido de aprová­-la e apoiá-­la. Ela deveria dialogar, se não com a categoria política, certamente com a sociedade. Mas a hipótese talvez explique os fenômenos, isto é, a ação ­ e inação ­ de Dilma, melhor do que a suposição de que ela é inepta politicamente. E cabe perguntar se a psicanálise não ajuda a entender o ódio crescente a ela. Ódio ao outro é projeção de ódio a si mesmo (simplifico, claro). Talvez ela cause tanta rejeição porque nos mostra, às escâncaras, um dilema que queremos esconder de nós. Queremos a honestidade sem pagar o preço por ela. Pensamos que a honestidade dos políticos, quando vier, vai nos cumular de bençãos. O dinheiro que é roubado da sociedade virá a nós como as fontes de leite e mel da Terra Prometida. Esquecemos que chegar a isso dá trabalho, e que também terão que acabar muitas condutas nossas, "informais" dizemos às vezes, imorais ou ilegais. Mas, sobretudo, esquecemos que reformar a política não é só dos políticos. Demanda esforço de quem os elege, e esse esforço não se resume em raiva, menos ainda, insultos. 

Renato Janine Ribeiro é professor titular de ética e filosofia política na Universidade de São Paulo. Escreve às segundas-­feiras."

Mais sobre a conjuntura

Abaixo o blog repercute a postagem do professor da Uenf e cientista político, Vitor Peixoto:

"Quem foi às ruas ontem não votou na Dilma, e nunca votará. Não foram eles que a elegeram nem muito menos serão eles que sustentarão o governo (muitos nem mesmo a democracia). Estavam lá com todo direito, manifestando pela insatisfação e ponto. Não adianta acreditar que qualquer ação do Governo poderia arrefecer os ânimos daqueles grupos, com exceção obviamente da renúncia - que alegraria quase todos com exceção dos que querem o militares.

A única opção da Presidente agora é com a agenda que a elegeu, uma agenda redistributiva, de compromisso com as minorias, de intervenção na economia, de ampliação do Estado, enfim, bandeiras tradicionalmente das esquerdas. Eleitores que defendem estas bandeiras são os que podem sustentar o Governo, pois foram eles que a elegeram. Mas esta sustentação somente virá com ações que sejam coerentes com suas demandas, não adianta fazer o "policy switch" sem negociar com quem te sustenta.

Acreditar que eram todos "coxinhas" é um equívoco sim, mas as vagas reivindicações eram típicas das direitas que foram capitaneadas pela oposição. São várias direitas no Brasil: umas são libertárias que defendem os direitos individuais de autoexpressão; outras são da direita liberal contra a intervenção do Estado na economia; outras conservadoras que almejam controlar o útero e a vida afetiva de todos; há ainda a direita extremista (lunáticos mesmo, que fizeram muito barulho ontem). Algumas destas clivagens até se sobrepõem formando subgrupos muito especificos, o que torna as direitas muito heterogêneas. Não sabemos ao certo a distribuição quantitativa delas nem o peso de cada qual no movimento de ontem. O certo é que não apoiariam o Governo Dilma nem que a vaca tossisse, fosse qual fosse a medida tomada. O "panelaço" é a prova desse argumento, pois é combinado para o momento dos pronunciamentos não importando o conteúdo pronunciado, não há avaliações sobre o que for dito, vale o rechaço.

Manifestações de apoio ou de insatisfação fazem parte do jogo democrático. É salutar para o sistema que as questões decantem e se tornem mais claras. Necessariamente, muitas demandas são simplificadas em bandeiras e não contribuem para o aprofundamento do debate, mas isso também faz parte do jogo. As oposições estão fazendo sua parte (com exceção de alguns comportamentos absolutamente execráveis de qualquer ponto de vista normativo minimamente democrático). Cabe ao Governo fazer a sua e reconquistar a base. A questão é como fazer isso com a margem de recursos diante de um cenário econômico extremamente complexo. Retirando direitos trabalhistas que não será. Ou o Governo volta-se para as demandas de quem o elegeu ou perderá o que lhe resta!"

A disputa pelas bases no atual ambiente político brasileiro

O blog parte do princípio que as manifestações são um direito conquistado pela democracia. Para alguns, a plena liberdade, não eliminou a restrição.

Por outro lado, o pedido de impeachment é golpe. A partir dessas premissas é importante sim identificar as insatisfações e o recado das ruas.

É necessário também compreender que o recado foi fortemente amplificado pelo forte apoio da mídia comercial. Esta atua mais como partido do que como órgão de informação. Diante dessa realidade é conveniente observar as estratégias que estão em disputa no atual momento da conjuntura brasileira.

Nesta toada, dois pontos, entre outros, parecem evidentes:

1) Por parte das oposições é evidente a tentativa de empurrar o governo para uma dependência do PMDB. Diante desse caminho, fazer "sangrar" o governo, como afirmou textualmente o senador tucano Aloysio Nunes Ferreira e assim corroer e diluir o poder de quem foi escolhido pelas urnas;

2) No outro extremo, diante de uma segunda e diversa opção do governo que possa levar às medidas mais estruturais e de reformas políticas e econômicas - do tipo das anteriores reformas de base - acusar o governo de bolivarianismo e de chavismo.

Essas duas estratégias da oposição visam, no fundo disputar a base da classe média, recentemente ascendida - em torno de 40 milhões de pessoas - porque a elite e a classe média alta (menor populacionalmente e mais articulada com os poderes econômico e parte da política) em sua maioria esmagadora, já é oposição. Chamada de burguesia ela está hoje, muito mais unificada e expressa um sentimento que o ex-ministro Bresser Pereira chamou de ódio coletivo da classe alta, dos ricos.

A maioria da população que é a base da pirâmide,em sua luta pelo dia a dia, acompanha de longe o que acontece, mas, majoritariamente defende o governo. Age dessa forma, não apenas pelas recentes conquistas, mas, pela desconfiança real, de que mudanças elas poderão levar ao poder, pessoas e partidos que não pensam neles, e que em parte tem reclamado dos espaços ocupados pela ascensão social dos pobres.

Dessa forma, tem-se um disputa de posições que se estendeu ao debate eleitoral de outubro passado. Há sinais no horizonte de que podemos estar vivendo o estertor de um ciclo econômico e político.

A radicalização de posições que a oposição e a mídia forçam, podem levar ao rompimento da polarização que há seis eleições presidenciais (desde 1994) temos visto acontecer.

As forças de esquerda e centro esquerda estão acuadas no momento, porque não é simples defender posições, ao contrário de atacar e fazer oposição. Esta é uma nova experiência do PT e de quem está no atual governo.

Ilusão seria imaginar algo diverso disso, com o sabido e previsível acirramento das posições. Além disso, há que se observar os oportunistas pendurados em cargos federais, de todos os tipos.

Em meio a este quadro, há ainda, inquestionavelmente, um enfraquecimento do sistema político-partidário em diversas partes do mundo.

Tem sido denominado de plutocracia, os governos e o poder controlados não pela política e pelos representantes do povo, mas, pelos "bancados e financiados" pelo poder econômico.

Ajuda nesse processo a fragilização dos partidos e dos políticos pegos, quase diariamente, em artimanhas de contratos e acordos que ofereçam vantagens que compensem desgastes de quem é poder. Quem está na oposição grita e se articula para chegar ao poder e fazer quase que o mesmo.

Nesse processo, a polarização partidária tradicional entre partidos de centro esquerda e centro direita em todo o mundo (como seria o caso brasileiro entre PT e PSDB) podem dar espaço a propostas mais à esquerda, ou mais à direita.

Observando estas possibilidades a disputa política por apoios a uma ou outra alternativa tende a ser cada vez mais importante e também intensa. As convocações, os debates digitais nas redes sociais e também nas manifestações tendem a refletir essa busca por apoios.

Trata-se de uma disputa Política, uma luta de poderes, que evidentemente se inicia no campo das ideias (espaço mental, segundo interpretação de Lefbvre, H.) e que se espalha em toda a sociedade.

Dessa forma, argumentos como governabilidade ou rupturas são partes do atual debate político, onde as falsas moralidades, não parecem querer efetivamente mudar o que precisa ser alterado para aperfeiçoar o sistema político, mas, para oferecer melhores condições para ter ou manter o poder.

Quem tem o que perder nessa disputa tende a ter mais forças para a disputa. O esclarecimento mais ideológico das posições em disputa, mesmo que com os riscos da radicalização, pode não ser de todo ruim.

Ao longo do tempo, evitamos confrontos e conflitos, num jeito próprio de ser que o historiador Sérgio Buarque de Holanda identificou em seu livro "Raízes do Brasil (1936), como "homem cordial".

Não por outro motivos, Buarque, em suas ideias weberianas de interpretar as raízes de nossa colonização,  identificou que este "homem cordial" ganhou musculatura junto do conceitos reconhecidos como patrimonialismo e burocracia. Não por coincidência, continuam também no âmago dos problemas contemporâneos.

A questão prossegue no cerne da atual disputa política, não apenas pelos desvios, mas pela cooptação e controle do Estado, mesmo fora dos governos, pelas classes dominantes, protegidas por vernizes e denominações de subsídios, apoios e construção das chamadas Condições Gerais de Produção.

Vale aqui pontuar lembrando uma análise de Buarque: "É necessário que façamos uma espécie de revolução para darmos fim aos resquícios de nossa história colonial e começarmos a traçar uma história nossa, diferente e particular". Buarque que rejeitou o fascismo e afastou a hipótese do comunismo fez a afirmação acima, num contexto em que identificava que o Brasil era um país, pacífico e brando, e eu digo, quase sempre conciliador.

Enfim, continuemos a observar e participar do ambiente e dessa disputa política em vigência. Ter posição e lutar por ela é parte da realidade.

É bom que reconheçamos essa nova realidade e ao mesmo tempo nos aprofundemos para compreender a conjuntura em que vivemos. É um ambiente conturbado, mas, a saída não é fugir da compreensão do ambiente político que estamos envolvidos.

O movimento contrário nos transformará em massa de manobra, pior dos cenários, para um futuro que na condição de povo, nos deve levar à luta pela construção de uma nova Nação Brasileira.

Sigamos em frente!

PS.: Atualizado às 13:38 para correção do texto.

domingo, março 15, 2015

Professor Helio Coelho escreve um depoimento sobre o atual momento político!

O professor Hélio de Freitas Coelho, meu mestre, postou na linha do tempo do meu perfil no Facebook este seu depoimento, sobre a atual conjuntura política brasileira. Resolvi trazer também para esse espaço o seu texto. Seguimos juntos em frente!

"Amig@s, EIS O QUE PENSO SOBRE O MOMENTO POLÍTICO!"

"Mais uma vez vou repetir: a Democracia é uma obra inacabada e inesgotável como dizia o saudoso Betinho. É uma planta muito delicada, que precisa ser regada por mãos de jardineiros com amor e não necessariamente pelas mãos do tecnicismo dos botânicos...Tenho dito e reafirmo que a Democracia tem o perfume, as cores e os sabores da Primavera, ao passo que a Ditadura imposta por golpismos, tem o cheiro dos cemitérios...

A Democracia que temos ainda não é a Democracia que queremos, mas é muito superior à Democracia que tivemos! 

O Reformismo Social da Era Lula-Dilma resgatou valores importantes para o desenvolvimento social. Isso incomoda a parte das nossas elites perversas...Foi assim com o Reformismo Social da Era Vargas e dos tempos do Reformismo Social de Jango e Brizola. Estamos vivendo um tempo que beira a irracionalidade, muito parecido com as situações históricas que facilitaram e facilitam a ascensão dos fascismos de todas as espécies. E o pior é que legiões de pessoas sinceras, boas de coração e de intenções, estão embarcando nessa aventura inconsequente como inocentes úteis...

A bandalheira,a corrupção, tudo isso tem que ser apurado através do devido processo legal dentro do Estado Democrático de Direito, e, no momento processual certo, os envolvidos - do governo e de fora do governo, políticos e empresários ricos e podres burgueses - todos tem que ser punidos exemplarmente!!! Temos que estar atentos ao alerta do saudoso Dr. Ulisses Guimarães: "A corrupção é o CUPIM DA REPÚBLICA!"

Não podemos permitir - nem por corrupção nem por ENTREGUISMO - que a PETROBRAS, um dos símbolos da nossa soberania, seja enxovalhada como estratégia para depois vendê-la a preço de banana em consequência de um golpe como se pretende...Não acredito que os militares brasileiros estejam compactuando com esse golpismo vulgar e reacionário alardeado pelos canalhas da vez e pela mídia, que faria Cristo, enraivecido, investir de chicote na mãos contra os vendilhões do templo sagrado da Pátria!

A Presidente Dilma Roussef venceu as eleições democraticamente como reconhecimento ao bom governo que realizou. É uma mulher corajosa, que desde a juventude dava demonstrações de amor ao Brasil e ao povo brasileiro, enfrentando com destemor a Ditadura Militar e Civil-Empresarial,e que presa por isso, foi humilhada, torturada por sua coragem e por seu patriotismo!!! Ninguém tira essa medalha do seu peito!!! E seus torturadores hoje estão representados pelos golpistas, pelos que desejam o retrocesso social e político, querem a volta da ditadura e do arrocho sobre a classe trabalhadora e os pobres, travestidos de uma moralidade duvidosa, pequeno-burguesa anti-democrática.

Cuidado! lembrai-vos de 1937. Lembrai-vos de 1954. Lembrai-vos de 1964!

Posso não concordar com o teor e os propósitos nem sempre revelados dessa mobilização que se avizinha...Mas sou fiel à máxima de Voltaire:"Não concordo com o que dizes,mas lutarei até a morte para que tenhas o direito de dizer!" Portanto, reconheço o movimento como parte do próprio jogo democrático, ainda que, cá pra nós, Rede Globo/PIG (de porco...Partido da Imprensa Golpista) continuem sendo, nesse ponto, a escória desse país!!!

Que cada um compreenda o seu papel neste momento dramático da história de nosso Brasil! Assim penso, assim escrevo e assino. Em 14 de março de 2015. Hélio de Freitas Coelho.-PS: Não sou nem nunca fui filiado ao PT,embora reconheça sua importância para o avanço do social no país."

sábado, março 14, 2015

Da lista do Suiçalão (Swuissleak) ao futuro do Brasil

Saiu hoje a lista dos barões da mídia no Suiçalão (HSBC) que a Receita Federal está apurando. Tivemos hoje, o que se poderia chamar de uma quase auto-delação (O Globo e FSP/UOL), em seus próprios meios.

A partir daí, aproveitando a ocasião, se deveria manter o roteiro das investigações de qualquer crime: seguir o caminho do dinheiro. Aliás, há poucos dias O Globo deu manchete com o juiz Moro (da Operação Lava Jato) repetindo o juiz italiano da operação Mãos Limpas, na década de 90 na Itália: "tem que seguir o caminho do dinheiro".

Pois então, que se sigam todos os esquemas do Banestado, Trensalão, Lava Jato, Suiçalão, etc. Avancemos para a "Operação Seca Tudo"; Quem foi mesmo que disse que não ia ficar pedra sob pedra e doesse a quem tivesse que doer que tudo deveria ser apurado e novos instrumentos jurídicos e políticos institucionalizados?

Então os fatos estão vindo à tona e será que para manter o que está há décadas e a ela que querem depor?

A conjuntura atual entrará para a história de uma forma não usual. Se, por um lado, ela guarda semelhança em alguns pontos com passagens de nosso passado histórico, de outro, ele é singular, porque acontece num momento de inclusão social, de mudanças enormes na geopolítica e nos novos alinhamentos mundiais e de reconhecimento de nossas riquezas e da busca de novos desafios para a nação brasileira.

Os golpistas continuam os mesmos da década de 50 e de 1964, seus aliados são os mesmos na mídia e numa parte do setor produtivo, mas, a sociedade e o povo estão atentos. Querem sim, a Política com "P" maiúsculo, com instituições e partidos menos "pragmáticos" e desejam um aperfeiçoamento do sistema político, mas não o retrocesso desejado por esses golpistas.

Vivemos dias conturbados. É quase que natural que estejamos espantados, mas, a atenção que despertamos aos acontecimentos nos façam movimentar para além da razão, aos movimentos para garantir o que foi às duras penas conquistado, sobre os mesmos que em perdendo a eleição pretendam alçar ao poder por mais um golpe.

Cabe a cada m de nós, não apenas a defesa das conquistas, mas, o trabalho para o aperfeiçoamento, a assunção dos erros e o avanço para novas conquistas. O Brasil não é um país qualquer e a sua direção, em meio ao emaranhado político de outras nações, nos vários continentes e no mundo, ajudará a aclarar o caminho.

Temos avançado em meio às crises, num modelo democrático de debate social e respeito às divergências. Assim, devemos seguir, mas, não tenhamos ilusão sobre consensos e sim de conquista em prol da maioria que é quem no regime democrático poderá continuar a garantir e ampliar as conquista.

Sigamos em frente!

PS.: Não e por acaso que o vazamento pelos próprios das suas participações no Suiçalão, depois de mais de um mês com a lista às mãos, se dê num sábado entre as duas manifestações contrárias que tendem a ter maiores espaços. A velha esperteza de sempre.

PS.2: Outro detalhe, procure nos portais do Globo, Folha-UOL, Band, etc. onde estão a informação que eles mesmo deram. Não estão nas manchetes. Nem nas sub-manchetes. Nem nos secundários destaques. Estão escondidas, como que para dizer que não deixaram de informar sobre a participação deles nos depósitos do HSBC no exterior, mas, escondidos.

PS.: 3: Leia aqui, aqui e aqui a repercussão sobre a divulgação da lista dos 22 donos de mídia e jornalistas presentes no esquema do HSBC na Suíca.

PS.: 4: Atualizado e ampliado o texto às 16:50 e 17:55.

Assembleia comunitária sobre situação da UENF

Atendendo a pedidos, o blog publica abaixo a convocação conjunta das entidades dos professores (Aduenf), técnicos administrativos (Sintuperj) e estudantes (DCE), para participação na assembleia comunitária da Uenf, na próxima terça (17/03) que pretende discutir e tomar decisões na luta contra a grave crise que vive a Uenf e de forma similar a Uerj. Os organizadores informam que:

"Por ser comunitária, a assembleia contará com a participação dos estudantes e servidores docentes e não docentes, e não terá caráter decisório, mas servirá para aprofundar discussões e encaminhar propostas às assembleias setoriais."

sexta-feira, março 13, 2015

Xô golpistas!




















A imagem acima da manifestação de hoje, na avenida Paulista, em São Paulo, reflete o meu sentimento em relação aos interesses por trás da manifestação que é livre e um direito no estado democrático em que vivemos. Porém, o pedido de impeachment é golpe. Xô golpistas!

Sob chuva os manifestantes da avenida Paulista reafirmam Xô golpistas. Gritam também fora Globo que pretende repetir o mesmo que fez em 64. Não vamos repetir essa história meio século depois. Xô golpistas!