sábado, março 17, 2018

O Brasil adoeceu

A nação viva, em movimento e com perspectivas e projetos, ficou para trás. Distante.

Parece envolta em algo para além da banalização do mal cunhado pela Hannah Arendt.

O mal é física e socialmente identificável, mas é simultaneamente mental, onde gira em círculos, de forma superficial, desprezando a ideia de humanidade e de preocupação civilizatória.

Há exceções vagando quase sem interlocução.

É cada vez mais difícil ter lucidez para evitar o ódio que cega, implode e explode.

Não. Isto não é e nem nunca foi, um processo de disputa política e liderança pelo poder.

A situação atual está mais para a ideia bárbara de aniquilamento do outro.

Tornamo-nos piores. Muito piores. O mal-estar e a distopia nos tomam por inteiro.

Penso que uma das várias cabeças desta serpente, como da Hidra da mitologia grega, possa estar na mercadocracia do nosso cotidiano. 

A sanha do mercado capturando tudo e todos, durante todo o tempo, cravou com as suas garras controlando de forma total o poder político e o Estado, fazendo com que a ideia grega da ágora, tenha com isto se transmutado na realidade definida por mais um neologismo: a pós-democracia. 

A disputa política é da natureza das ideias por um mundo menos ruim amanhã, comparado ao que foi ontem e ao que está sendo hoje.

Porém, esta disputa política não pode se encerrar em si próprio, o processo político precisa ensejar a perspectiva da vida em sociedade e de convívio – mediação – entre as contradições e os conflitos.

A disputa cega na base da buduna neofacista que suprime o papel das instituições mediadoras da política - mesmo que capenga à moda da democracia ocidental - estão esgarçando todos os limites e nos levando a destinos impensáveis.

Vai-se longe o esforço de conversar com os contrários, quando a desconfiança é mais forte no sentido de avaliar que o diálogo possa ajudar a emergir aquele que poderá ser o seu verdugo de amanhã.

A sensação é a de que o poço em que nos inserimos é ainda mais fundo e estranho, e infelizmente bem mais próximo daquilo que ficou conhecido com barbárie.

Desta vez, eu não consigo encerrar esta reflexão (em voz alta) com nenhuma mensagem de otimismo que seria falso.

Desta vez, ao invés de repetir o costumeiro “sigamos em frente”, eu serei obrigado a pedir que retornemos.

Sem ser pueril, parece ser preciso e urgente reencontrar alguma capacidade de convívio, mesmo que em meio aos já conhecidos conflitos e disputas de classes, opiniões e ideologias.

Navegar para trás sim, porque viver é preciso.

E assim, quem sabe, retornar ao ponto de onde inflexionamos, onde se debatia, se movimentava e lutava para estabelecer um mundo menos desigual e solidário.

4 comentários:

Anônimo disse...

Excelente, Roberto. Deixei de debater para quase debandar. Saí do FB e fui para o twitter para discutir. @MendesOnca

Jonas Santo disse...

Quando será que o mundo "mudou"? Acho que os dois mundos sempre existiram, simplesmente se sobrepõem de tempos em tempos. Quero acreditar que esse momento de troca será breve mas não consigo, ainda, vislumbrar...
Abraço.

Roberto Moraes disse...

Mendes,

Eu não consegui me acostumar com o twitter. E a administração destes três mecanismos me incomoda. Estou cada vez mais próximo de me distanciar do blog e FB. Só não o fiz porque escrever ainda me faz pensar uma pouco mais organizadamente. Além de algumas interlocuções que na maioria das vezes não passam pelos seus canais de comentários. Há aí riqueza de abordagens sugeridas em termos de aprofundamentos.

Caro Jonas,
Acho que é por aí. Mas, eu me refiro aos movimentos contemporâneos em diferentes espaços. Eles insurgem imbricados de formas diversas em termos de articulações com a sociedade e com as instituições. O poder da mídia comercial em orientar estes movimentos é muito forte, uma hegemonia que espanta cada vez mais e saiu fortalecido com as redes informacionais, ao contrário do que chegamos a intuir imaginando uma democratização do acesso e com a sua capilaridade. Porém os seus backbones (espinha dorsal) tiveram seus poderes ainda mais hierarquizado e centralizados. Os bigdatas e os robôs misturando fatos e versões se ampliam e parece conferir mais e mais poder a quem é mais forte em termos econômicos.

No presente, não consigo ver esta sobreposição no ambiente da vida em sociedade e da política de forma distinta que começa a ser chamado de pós-democracia. Você tem razão que o fenômeno não é nacional e tem sua gênese no sistema que esgarça sua capacidade de auferir vantagens, sem se importar com os resultados.

Enfim, seguimos acompanhando e tentando intervir, mas a onda é terrível.

Abs.

Anônimo disse...

Parabéns pelo belo texto ...