Com uma oferta de 57 diferentes cursos de nível superior, ministrados por 11 instituições, no município de Campos dos Goytacazes, o curso de Direito segue sendo o curso com mais estudantes matriculados. Tem um total de 1.533 alunos, ou 8,5% do total de 18.062 alunos, segundo o Censo Inep/MEC 2014, o último disponível
Destes 1.533 estudantes de Direito em Campos, 465 estudantes estão na Ucam, mais 465 alunos no Uniflu (FDC); 462 estudantes na Estácio de Sá e 141 alunos de Direito na Universo.
O segundo curso com mais alunos é Engenharia Civil com 1.175 alunos matriculados, seguido da Engenharia de Produção com 1.022 estudantes. Administração possui 887 alunos matriculados, enquanto Arquitetura e Urbanismo possui 771 alunos em Campos.
Interessante ainda observar um curso que ampliou em muito a sua procura que é Nutrição com 657 alunos matriculados em três instituições de ensino superior instaladas em Campos.
PS.: Sobre a evolução do total de matrículas no ensino superior no município de Campos, clique aqui.
67 anos, professor titular "sênior" do IFF (ex-CEFET-Campos, RJ) e engenheiro. Pesquisador atuante nos temas: Capitalismo de Plataformas; Espaço-Economia e Financeirização no Capitalismo Contemporâneo; Circuito Econômico Petróleo-Porto; Geopolítica da Energia. Membro da Rede Latinoamericana de Investigadores em Espaço-Economia: Geografia Econômica e Economia Política (ReLAEE). Espaço para apresentar e debater questões e opiniões sobre política e economia. Blog criado em 10 agosto de 2004.
terça-feira, março 08, 2016
domingo, março 06, 2016
Redução das atividades econômicas globais reduz demanda por transporte marítimo, enquanto hierarquiza os portos: caso brasileiro
Cerca de 95% do transporte de longo curso e intercontinental é feito pela via marítima. A redução das atividades e econômicas globais está fazendo com que centenas (quase mil navios) estejam ociosos pelo mundo, segundo matéria do The Wall Street Journal, reproduzido pelo Valor Online.
Tudo isto ocorre depois deles terem circulado por meses com preço de fretes reduzidos em diversas rotas. No caso dos navios graneleiros o frete chegou aos menores valores das últimas três décadas.
Os operadores estimam que existam hoje, 690 graneleiros (7% da frota global de quase 10 mil) parados entre os que circulam pelos mares mundo afora. O custo mensal de um navio parado é estimado em torno de US$ 15 mil.
Os operadores reclamam dos graneleiros de maior capacidade, incluem-se aí, os Valemax, navios gigantes construídos pela Vale para transportar minério de ferro do Brasil para a Ásia. Hoje, os Valemax passaram a ser operados pela chinesa China Cosco Shipping Corp (CCSC).
Os navios que ficam "hibernados" por mais tempo, para voltar a ser ativo e voltar a navegar pode ter custos de até US$ 1 milhão. Os navios de maior porte, os tipo "capesize", parados na Ásia é grande.
Os navios de graneis sólidos são classificados por porte em quatro tipos, embora os graneleiros sejam divididos para além dos sólidos, os petroleiros, químicos, gaseiros e combos.
Os navios para cargas sólidas, mais chamados de graneleiros são do tipo:
Handysize (15-50,000 dwt);
Handymax (35-50,000 dwt);
Panamax (60-80,000 dwt);
Capesize,- os de maior porte (120-170,000 dwt).
Os graneleiros de minério cimento ou outros graneis sólidos são referenciados pelo porte normalmente expresso em toneladas, frequentemente referidas como "toneladas de peso morto", "deadweight tonnage" (DWT) em inglês.
Já escrevi aqui no blog diversos textos comentando sobre o fenômeno do gigantismo naval que leva ao gigantismo portuário e à hierarquização dos portos entre os portos distribuidores (hub-port) e os de movimentação de cargas internas por cabotagem.
Veja aqui e aqui os links de algumas destas postagens. O segundo link possui outros endereços para sete diferentes postagens sobre o assunto, uma das vertentes de minha pesquisa.
Há no mundo inteiro uma pressão para que as nações e as regiões hierarquizem os seus sistemas portuários, de forma a fazer com que, majoritariamente, as cargas (de todos os tipos) façam apenas viagens intercontinentais em grandes navios.
As grandes embarcações demandam portos com extensos píeres, canais de atracação profundos para caber as grandes embarcações, assim como grande automação (com guindastes e portêineres) para ampliar as velocidades de embarque e desembarque das cargas. Assim, se aumentaria a fluidez da logística e permitindo que a navegação de cabotagem faça a distribuição dentro do país ou continente.
Este movimento se origina nos operadores portuários e nas grandes empresas de transporte marítimo. São elas que definem as rotas que adiante vai influenciar no custo dos fretes.
Este é um movimento fertemente apoiado pelo sistema financeiro e pelas traders que influenciam o comércio global, naquilo que o professor Dowbor chama de: "economia do pedágio".
Assim, as tradings se tornam uma espécie de "made in price" (ou fazedoras de preço). Desta forma, os menores custos dos fretes reduz o valor da etapa de circulação das mercadorias entre o produtor e o consumidor, embora conceda enorme poder ao intermediário (tradings) cada vez mais ancorado no sistema financeiro, através dos fundos globais.
No caso do transporte de minério de ferro (a carga brasileira mais transportada) o preço geral do frete caindo, ajuda as mineradoras e as tradings a negociarem fretes mais baixos nos graneleiros, que acaba sendo a tábua de salvação, diante deste momento de baixo preço do minério no mercado mundial.
É bom recordar que as mineradoras instaladas no Brasil, puxada pela Vale concorre diretamente com as mineradoras da Austrália, que estão bem mais perto da China que assim possuem um peso menor do frete na composição do preço final da commodity, em relação ao preço do minério colocado nos portos chineses.
No caso brasileiro, isto é ainda mais importante, porque o minério daqui concorre com o australiano que está do lado da Ásia e assim já possui fretes com valores baixos. Trata-se de uma disputa setorial e intercapitalista.
O processo de hieraquização (verticalização) dos portos pelo mundo
Enfim, é importante compreender como evolui este processo de hierarquização dos portos e como isto poderá afetar o Brasil. A princípio, é possível observar que o país vem fazendo uma opção em direção inversa, ampliando o número e as estruturas dos portos pelas diversas regiões.
Este processo vem sendo desenvolvido através do novo marco legal do setor portuário. A partir dele, se observam intensas intervenções e articulações entre governos estaduais e concessionárias de terminais. Juntos, eles desenham projetos a partir da compreensão estratégica de que a logística portuária e os projetos de portos-indústrias possuem importante papel para incrementar e dinamizar o desenvolvimento econômico de suas regiões.
Há que se lamentar e registrar a forma, na maioria das vezes violenta de obtenção (desapropriação) das terras (retro-áreas) para os projetos, assim como, a desleixo com os impactos ambientais e sociais, que deixam evidenciados os falsos discursos de sustentabilidades da maioria dos projetos portuários no Brasil.
A luta do Porto de Santos para ser o "hub-port" nacional
O maior porto em movimentação de contêineres (cargas mais industrializadas) é o de Santos. Naturalmente, até pela sua localização na região mais densa populacionalmente e em termos de desenvolvimento industrial, ele leva enorme vantagem para tentar se tornar o hub-port brasileiro.
Assim, o Porto de Santos avança em novas dragagens, para ampliar a profundidade e largura do canal de atracação e ainda na ordenação dos seus vários terminais e também nas interligações modais, para obter esta condição de porto distribuidor.
Neste esforço, o maior problema do Porto de Santos é sua a limitação em termos de: áreas (ou retro-áreas, ligações modais e também limitações ambientais para aprofundamento do canal de atracação (atualmente na faixa dos 13 metros e objetivo de ir a 14 metros) com capacidade para receber estes navios gigantes (já existentes de cerca de 20 mil contêineres e projetados para 25 mil contêineres).
Hoje, o Porto de Santos é enorme. Possui 15,9 km de cais, área útil total de 7,8 milhões de m², mas pulverizado, com 55 terminais marítimos e retro-portuários (14 concedidos a empresas privadas) e 65 berços de atracação.
Na elaboração das estratégias "Plano Mestre " para modernização da gestão portuária há indicativos sobre o "hub-port" embora não se trate da questão. Há pequenos sinais sobre a hipótese do Porto de Santos investir num projeto (que seria bastante caro) para construir um terminal marítimo. A maior parte dos projetos de expansão visam aumento de áreas e terminais.
A maior limitação para recebimento de maiores navios (super-contêineros) nem é o espaço. Também não é a extensão dos terminais que estão sendo ampliados, mas a profundidade do canal de atracação entre o mar, a baía e o estuário. Este é o fato que limita o objetivo do Porto de Santos ampliar ainda mais a concentração de cargas e se fortalecer para se tornar o "hub-port" brasileiro.
Outros portos instalados em diferentes regiões podem representar vantagens comparativas para serem distribuidores, porém eles possuem, alternadamente vantagens e desvantagens para este objetivo.
Sem entrar em detalhes entram nesta lista vindo do Sul para o Norte: Rio Grande, RS, Paranaguá, PR, Itaguaí, RJ, Suape, PE, Pecém, CE e Itaqui, MA. Todos estes fazem parte hoje da 5ª geração de portos: MIDAs ou porto-indústria.
O fato reforça a realidade material de nossa IE portuária, em sentido contrário ao movimento de hierarquização que os operadores marítimos defendem globalmente. Seguimos acompanhando.
PS.: Atualizado às 17:40 e 18:00 de 08/03/2016:
Segundo a Bloomberg, os problemas do excesso de capacidade dos armadores com a quantidade de navio seguem com novos dados:
1 - Os fretes não estariam bancando nem 1/4 dos custos nem da tripulação, mas estão sendo mantidos para não perder participação no mercado.
2 - A explosão de construção demandada pelos armadores aos estaleiros entre 2007 e 2009, com encomendas de novas embarcações contribuíram para este excesso de ofertas de navios.
3 - Este excesso de navios, levou à decisão da destruição de 88 navios graneleiros, tipo "capesize", só no ano passado, 2015. Outros 14 foram destroçados até o final de janeiro de 2016.
4 - Sobre o uso e a espera para embarque dos graneleiros, a Bloomberg diz que pelo seu monitoramento, a partir de imagens por satélite, 80 navios esperam quatro dias para embarcar minério na Austrália. Enquanto isto, no Brasil 36 navios esperam em torno de cinco dias também para embarque de minério.
Este tipo de problema de excesso de navios e consequente redução dos fretes pode estar contribuindo para a ajudar o aumento dos últimos dias que levou a uma cotação ontem, do minério de ferro, a US$ 62 a tonelada.
Como se vê a crise econômica não é apenas do preços das commodities. Diante do quadro é possível atribuir parte deste problema à hipertrofia da atuação dos fundos financeiros globais, que geram não apenas ganhos desproporcionais às suas atuações, como também a concentração de investimentos e um consequente desequilíbrio entre produção, distribuição e consumo, na conjuntura atual da Economia Global.
Seguimos acompanhando.
Tudo isto ocorre depois deles terem circulado por meses com preço de fretes reduzidos em diversas rotas. No caso dos navios graneleiros o frete chegou aos menores valores das últimas três décadas.
Os operadores estimam que existam hoje, 690 graneleiros (7% da frota global de quase 10 mil) parados entre os que circulam pelos mares mundo afora. O custo mensal de um navio parado é estimado em torno de US$ 15 mil.
Os operadores reclamam dos graneleiros de maior capacidade, incluem-se aí, os Valemax, navios gigantes construídos pela Vale para transportar minério de ferro do Brasil para a Ásia. Hoje, os Valemax passaram a ser operados pela chinesa China Cosco Shipping Corp (CCSC).
Os navios que ficam "hibernados" por mais tempo, para voltar a ser ativo e voltar a navegar pode ter custos de até US$ 1 milhão. Os navios de maior porte, os tipo "capesize", parados na Ásia é grande.
Os navios de graneis sólidos são classificados por porte em quatro tipos, embora os graneleiros sejam divididos para além dos sólidos, os petroleiros, químicos, gaseiros e combos.
Os navios para cargas sólidas, mais chamados de graneleiros são do tipo:
Handysize (15-50,000 dwt);
Handymax (35-50,000 dwt);
Panamax (60-80,000 dwt);
Capesize,- os de maior porte (120-170,000 dwt).
Os graneleiros de minério cimento ou outros graneis sólidos são referenciados pelo porte normalmente expresso em toneladas, frequentemente referidas como "toneladas de peso morto", "deadweight tonnage" (DWT) em inglês.
Os capesizes (maior porte) são em menor número. Pelos dados divulgados pela consultoria Alphabulk, e publicado pelo The Wall Street Journal, existem atualmente 45 paralisados, conforme infográfico ao lado.
Já escrevi aqui no blog diversos textos comentando sobre o fenômeno do gigantismo naval que leva ao gigantismo portuário e à hierarquização dos portos entre os portos distribuidores (hub-port) e os de movimentação de cargas internas por cabotagem.
Veja aqui e aqui os links de algumas destas postagens. O segundo link possui outros endereços para sete diferentes postagens sobre o assunto, uma das vertentes de minha pesquisa.
Há no mundo inteiro uma pressão para que as nações e as regiões hierarquizem os seus sistemas portuários, de forma a fazer com que, majoritariamente, as cargas (de todos os tipos) façam apenas viagens intercontinentais em grandes navios.
As grandes embarcações demandam portos com extensos píeres, canais de atracação profundos para caber as grandes embarcações, assim como grande automação (com guindastes e portêineres) para ampliar as velocidades de embarque e desembarque das cargas. Assim, se aumentaria a fluidez da logística e permitindo que a navegação de cabotagem faça a distribuição dentro do país ou continente.
Este movimento se origina nos operadores portuários e nas grandes empresas de transporte marítimo. São elas que definem as rotas que adiante vai influenciar no custo dos fretes.
Este é um movimento fertemente apoiado pelo sistema financeiro e pelas traders que influenciam o comércio global, naquilo que o professor Dowbor chama de: "economia do pedágio".
Assim, as tradings se tornam uma espécie de "made in price" (ou fazedoras de preço). Desta forma, os menores custos dos fretes reduz o valor da etapa de circulação das mercadorias entre o produtor e o consumidor, embora conceda enorme poder ao intermediário (tradings) cada vez mais ancorado no sistema financeiro, através dos fundos globais.
No caso do transporte de minério de ferro (a carga brasileira mais transportada) o preço geral do frete caindo, ajuda as mineradoras e as tradings a negociarem fretes mais baixos nos graneleiros, que acaba sendo a tábua de salvação, diante deste momento de baixo preço do minério no mercado mundial.
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| Navio graneleiro embarcando minério de ferro no Porto do Açu |
No caso brasileiro, isto é ainda mais importante, porque o minério daqui concorre com o australiano que está do lado da Ásia e assim já possui fretes com valores baixos. Trata-se de uma disputa setorial e intercapitalista.
O processo de hieraquização (verticalização) dos portos pelo mundo
Enfim, é importante compreender como evolui este processo de hierarquização dos portos e como isto poderá afetar o Brasil. A princípio, é possível observar que o país vem fazendo uma opção em direção inversa, ampliando o número e as estruturas dos portos pelas diversas regiões.
Este processo vem sendo desenvolvido através do novo marco legal do setor portuário. A partir dele, se observam intensas intervenções e articulações entre governos estaduais e concessionárias de terminais. Juntos, eles desenham projetos a partir da compreensão estratégica de que a logística portuária e os projetos de portos-indústrias possuem importante papel para incrementar e dinamizar o desenvolvimento econômico de suas regiões.
Há que se lamentar e registrar a forma, na maioria das vezes violenta de obtenção (desapropriação) das terras (retro-áreas) para os projetos, assim como, a desleixo com os impactos ambientais e sociais, que deixam evidenciados os falsos discursos de sustentabilidades da maioria dos projetos portuários no Brasil.
A luta do Porto de Santos para ser o "hub-port" nacional
O maior porto em movimentação de contêineres (cargas mais industrializadas) é o de Santos. Naturalmente, até pela sua localização na região mais densa populacionalmente e em termos de desenvolvimento industrial, ele leva enorme vantagem para tentar se tornar o hub-port brasileiro.
Assim, o Porto de Santos avança em novas dragagens, para ampliar a profundidade e largura do canal de atracação e ainda na ordenação dos seus vários terminais e também nas interligações modais, para obter esta condição de porto distribuidor.
Neste esforço, o maior problema do Porto de Santos é sua a limitação em termos de: áreas (ou retro-áreas, ligações modais e também limitações ambientais para aprofundamento do canal de atracação (atualmente na faixa dos 13 metros e objetivo de ir a 14 metros) com capacidade para receber estes navios gigantes (já existentes de cerca de 20 mil contêineres e projetados para 25 mil contêineres).
Hoje, o Porto de Santos é enorme. Possui 15,9 km de cais, área útil total de 7,8 milhões de m², mas pulverizado, com 55 terminais marítimos e retro-portuários (14 concedidos a empresas privadas) e 65 berços de atracação.
Na elaboração das estratégias "Plano Mestre " para modernização da gestão portuária há indicativos sobre o "hub-port" embora não se trate da questão. Há pequenos sinais sobre a hipótese do Porto de Santos investir num projeto (que seria bastante caro) para construir um terminal marítimo. A maior parte dos projetos de expansão visam aumento de áreas e terminais.
A maior limitação para recebimento de maiores navios (super-contêineros) nem é o espaço. Também não é a extensão dos terminais que estão sendo ampliados, mas a profundidade do canal de atracação entre o mar, a baía e o estuário. Este é o fato que limita o objetivo do Porto de Santos ampliar ainda mais a concentração de cargas e se fortalecer para se tornar o "hub-port" brasileiro.
Outros portos instalados em diferentes regiões podem representar vantagens comparativas para serem distribuidores, porém eles possuem, alternadamente vantagens e desvantagens para este objetivo.
Sem entrar em detalhes entram nesta lista vindo do Sul para o Norte: Rio Grande, RS, Paranaguá, PR, Itaguaí, RJ, Suape, PE, Pecém, CE e Itaqui, MA. Todos estes fazem parte hoje da 5ª geração de portos: MIDAs ou porto-indústria.
O fato reforça a realidade material de nossa IE portuária, em sentido contrário ao movimento de hierarquização que os operadores marítimos defendem globalmente. Seguimos acompanhando.
PS.: Atualizado às 17:40 e 18:00 de 08/03/2016:
Segundo a Bloomberg, os problemas do excesso de capacidade dos armadores com a quantidade de navio seguem com novos dados:
1 - Os fretes não estariam bancando nem 1/4 dos custos nem da tripulação, mas estão sendo mantidos para não perder participação no mercado.
2 - A explosão de construção demandada pelos armadores aos estaleiros entre 2007 e 2009, com encomendas de novas embarcações contribuíram para este excesso de ofertas de navios.
3 - Este excesso de navios, levou à decisão da destruição de 88 navios graneleiros, tipo "capesize", só no ano passado, 2015. Outros 14 foram destroçados até o final de janeiro de 2016.
4 - Sobre o uso e a espera para embarque dos graneleiros, a Bloomberg diz que pelo seu monitoramento, a partir de imagens por satélite, 80 navios esperam quatro dias para embarcar minério na Austrália. Enquanto isto, no Brasil 36 navios esperam em torno de cinco dias também para embarque de minério.
Este tipo de problema de excesso de navios e consequente redução dos fretes pode estar contribuindo para a ajudar o aumento dos últimos dias que levou a uma cotação ontem, do minério de ferro, a US$ 62 a tonelada.
Como se vê a crise econômica não é apenas do preços das commodities. Diante do quadro é possível atribuir parte deste problema à hipertrofia da atuação dos fundos financeiros globais, que geram não apenas ganhos desproporcionais às suas atuações, como também a concentração de investimentos e um consequente desequilíbrio entre produção, distribuição e consumo, na conjuntura atual da Economia Global.
Seguimos acompanhando.
sábado, março 05, 2016
Ainda refletindo sobre a conjuntura e a ameaça à nossa frágil democracia
O blog disponibiliza abaixo dois textos que avançam nas reflexões que entendo necessárias não apenas para a compreensão do tempo presente, como de suas consequências.
A questão é muito maior do que a defesa de um partido, ou um líder. Trata-se de uma ameça à democracia, com contornos nítidos de repetição da farsa, inclusive com os mesmos atores e interesses.
O primeiro foi publicado no Diário do Centro do Mundo e de autoria do professor da UFJF, Ignacio Godinho Delgado. Já o segundo é do portal Carta Maior, da jornalista Maria Inês Nassif.
Os textos se complementam nas abordagens e amplia a reflexão para além dos fatos em si. Evitar o olhar macro, nestas circunstâncias é quase o mesmo que deixar se perder nos labirintos das pontas das informações soltas e fragmentadas.
Com diferenças e críticas aqui e acolá, eu penso que elas trazem elementos que, mesmo centrado na mediação política, como não pode deixar de ser, os textos ajudam e avançam na compreensão de origens e consequências deste movimento presente.
"Desde o início a Lava Jato foi marcada por um propósito político. Por Inacio Godinho Delgado"
"Manual para entender por que a Lava Jato tem motivação política, por Maria Inês Nassif"
O aparelho político-burocrático-midiático em que operação se sustenta é historicamente comprometido com o status quo.
"A literatura política brasileira está recheada de histórias que comprovam a máxima “aos amigos, tudo; aos inimigos, a lei”. É uma tradição das elites brasileiras o uso da polícia e da Justiça como arma, quando o voto não é favorável aos seus interesses. A ofensiva contra o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, a presidenta Dilma Rousseff e o PT não desmentem a história.
Antes da Constituição de 1988, o aparelho policial e Judiciário dependiam diretamente dos donos de votos nos Estados e no governo federal. Nos Estados, os oligarcas mantinham-se poderosos graças ao clientelismo; a uma Justiça a ele submisso; a uma polícia que era a extensão de seus interesses; e à mídia (jornais, rádios e televisões) que, se não era de propriedade do próprio chefe político, recebia dinheiro do governo suficiente para que apenas escrevesse o que fosse autorizado.
São inúmeras as histórias que se pode contar sobre esse tempo – como é o caso de um chefe político do Nordeste que, governador mandato sim, mandato não, mantinha os inimigos continuamente processados por um Tribunal de Justiça cujos desembargadores compareciam a uma reunião semanal em sua casa, para receber as ordens de como julgar os seus desafetos e os seus amigos.
Todas as mudanças promovidas na Justiça, na Polícia e no Ministério Público pela Constituinte não foram capazes, todavia, de imunizá-los contra a sedução que o poder econômico e político exerce sobre eles. A mídia tradicional é capaz de tornar um simples procurador ou juiz em rei da pátria, desconhecer as mazelas de aliados e manipular a opinião pública para aceitar uma condenação injusta. Os interpostos dos aparelhos policial e judicial, ao atuarem em favor do status quo, passam a ter direito ao ingresso nesse seleto grupo de pessoas muito poderosas que, se não estiverem no governo, têm instrumentos suficientes à disposição para inviabilizar o oponente que venceu as eleições – e voltar ao poder.
Esse é o maior poder de sedução que a elite exerce sobre o aparelho burocrático do Estado: os que ocupam o poder em oposição a eles são intrusos, o aparelho de Estado é deles, por direito divino e, quando a ele retornarem, o conjunto das forças que contribuíram para derrubar o inimigo com o uso da Justiça – e a ajuda inestimável da polícia e do Ministério Público -- estará no poder. O aparelho burocrático, se tiver algum sentimento de pertencimento, será esse: às forças que se juntam para evitar que a realidade social e política do país mude o menos possível, e manter os interesses historicamente estabelecidos. A burocracia é facilmente cooptável pelo status quo.
Nessa estrutura política, o voto é descartável. Duas louváveis leis para moralização das eleições, ao longo dos anos, por exemplo, têm se mostrado facilmente manipuláveis, sem que instrumentos efetivos de controle dos agentes que as executam protejam as vítimas de seus desmandos. A lei que proíbe o abuso do poder econômico, por exemplo, chegou a cassar o mandato do senador João Capiberibe (PSB-AP) por conta de uma única denúncia, da qual nunca se provou a veracidade, de que um único voto havia sido comprado por R$ 5. Assumiu no seu lugar o candidato que perdeu a eleição por muito mais do que esse voto. A Lei da Ficha Limpa, se pode livrar o país de corruptos comprovados, também tem o poder de inviabilizar políticos importantes na vida nacional que não tem respaldo dessa elite político-burocrático-midiática. A deputada Luiza Erundina (PSB-SP) quase perdeu o direito de se candidatar porque o Tribunal de Contas do Município (TCM), com quem teve sérias divergências quando prefeita, a condenou mais de uma década depois. As leis estão sujeitas aos agentes, e boa parte deles têm lado."
A questão é muito maior do que a defesa de um partido, ou um líder. Trata-se de uma ameça à democracia, com contornos nítidos de repetição da farsa, inclusive com os mesmos atores e interesses.
O primeiro foi publicado no Diário do Centro do Mundo e de autoria do professor da UFJF, Ignacio Godinho Delgado. Já o segundo é do portal Carta Maior, da jornalista Maria Inês Nassif.
Os textos se complementam nas abordagens e amplia a reflexão para além dos fatos em si. Evitar o olhar macro, nestas circunstâncias é quase o mesmo que deixar se perder nos labirintos das pontas das informações soltas e fragmentadas.
Com diferenças e críticas aqui e acolá, eu penso que elas trazem elementos que, mesmo centrado na mediação política, como não pode deixar de ser, os textos ajudam e avançam na compreensão de origens e consequências deste movimento presente.
"Desde o início a Lava Jato foi marcada por um propósito político. Por Inacio Godinho Delgado"
"O texto abaixo é de Ignacio Godinho Delgado. Ele é Professor Titular da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), nas áreas de História e Ciência Política, e pesquisador do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia-Políticas Públicas, Estratégias e Desenvolvimento (INCT-PPED). Doutorou-se em Ciência Política pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), em 1999, e foi Visiting Senior Fellow na London School of Economics and Political Science (LSE), entre 2011 e 2012".
"O impacto da Lava Jato no declínio do PIB em 2015 alcançou 2,5%, segundo a consultoria Tendências. Provavelmente este número é muito maior, se considerarmos sua centralidade na crise política brasileira. Julio Gomes de Almeida, do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (IEDI), assinalou recentemente que “os impasses vividos pelo Brasil são, sobretudo, desdobramentos de uma crise de confiança que brota da economia, mas também de um sistema político-parlamentar que se desintegrou”. E acrescenta: “Como o que está por vir é visto por empresários e mercado financeiro como algo impossível de ser avaliado, torna-se também impossível o cálculo do retorno dos investimentos, paralisando as inversões”.
Faltou ainda considerar o papel da mídia na irradiação diuturna do pessimismo e da desconfiança. Se 2,5% da queda do PIB resultam diretamente da Lava Jato, dada sua incidência sobre dois setores fundamentais na economia brasileira – a cadeia de petróleo e gás e a construção pesada -, que modelo econométrico nos elucidará o impacto da crise política, e de sua ampliação e agravamento pela mídia, na disposição de investir do empresariado?
Além da influência no curto prazo, a Lava Jato vai produzir, ainda, efeitos provavelmente irreversíveis na trajetória futura da economia brasileira. Atingindo a Petrobrás, as grandes construtoras e o programa nuclear brasileiro, a operação do comandante Moro afeta atividades em que o Brasil ainda dispõe de empresas classe mundial, além de minar instrumentos importantes para a defesa do país e seu desenvolvimento tecnológico. Completar-se-á, então, o processo de internacionalização do espaço econômico doméstico no Brasil. Não é à toa que publicações das Organizações Globo usam a Lava Jato como argumento para liquidação do marco regulatório do Pré-Sal e em favor da participação de empresas estrangeiras em obras derivadas de investimentos públicos.
De passagem vale a pena lembrar que não existe um único país no mundo que tenha alcançado níveis elevados de desenvolvimento tecnológico – e de bem-estar – sem um conjunto expressivo de empresas nacionais inovadoras dominando seu espaço econômico nacional, com desdobramentos em sua capacidade para a projeção internacional. Não faz parte da estratégia das multinacionais exportar as fases mais sofisticadas dos processos de inovação.
Por seu turno, empresas domésticas, ocupando posições subalternas na estrutura econômica nacional, tendem simplesmente a absorver tecnologias já existentes, sem liderar as atividades de inovação. Desta forma, buscam ancorar sua competitividade em fatores como o custo do trabalho, resistindo às políticas de elevação da participação dos trabalhadores na renda. É o que se observa, no Brasil, com as objeções à política de valorização do salário mínimo e a defesa da terceirização em atividades fins pelo empresariado do país.
É preciso ficar claro. Se o horizonte da Lava Jato fosse investigar e punir os envolvidos em esquemas de corrupção constituídos no Brasil, associados a deformações de nosso sistema político, ela teria cumprido um papel histórico de relevo. Processos irregulares de apropriação de recursos públicos para custeio de campanhas eleitorais são sobejamente conhecidos no Brasil, mas raramente investigados e punidos. A Lava Jato poderia colocá-los a nu e subsidiar um conjunto de reformas na administração pública, no sistema eleitoral e nos arranjos que regulam a contratação de serviços privados por entidades públicas, colaborando para minimizar a ocorrência de processos de corrupção.
Mas não. Desde o início a Lava Jato foi marcada por um propósito político, que não se importou com as claras violações aos direitos individuais vinculadas aos seus métodos, condenados por boa parte do mundo jurídico e por entidades e órgãos de imprensa internacionais. Por que a operação do Sr Moro delimitou suas operações apenas ao período que se inicia em 2003? Qual o sentido de excluir reiteradamente nomes da oposição de seu alcance, mesmo que identificados através de seu principal procedimento de investigação, a delação premiada? Qual o sentido dos vazamentos e dos espetáculos de execração pública de pessoas investigadas, notadamente petistas? Por que a resistência às propostas de acordos de leniência, que garante a punição de executivos e de empresas, mas assegura a continuidade das atividades dessas, sustentando investimentos e empregos? O que justifica delegados e procuradores municiarem ações contra a Petrobrás nos Estados Unidos?
O Sr Moro, os delegados e procuradores da Lava Jato, poderiam mirar-se na experiência dos EUA, que parecem tanto estimar, onde existe clareza do papel estratégico de suas empresas para a economia nacional e existem acordos de leniência desde 1978, a partir do entendimento de que a punição a firmas e seus dirigentes não deve trazer prejuízos para a atividade econômica e o emprego. Ou será que a contaminação da economia pelas ações da Lava Jato é um dos objetivos da guerra que busca travar, para minar as forças do inimigo, como nas conflagrações que envolvem canhões e obuses?
Dos métodos da Lava Jato, e da espetacularização da justiça através da mídia, não se entrevê nenhuma herança institucional capaz de levar à redução da corrupção. Seu efeito mais visível é a estigmatização de um grupo específico de pessoas, os petistas e os que deles se aproximaram, subsidiando animadas campanhas midiáticas e um clima de perseguição fascista, cujo propósito imediato é o golpe, a erradicação do PT e a erosão da imagem de Lula.
Como se essa solução final fosse purgar o país de seus pecados e permitisse a afirmação de seres dotados dos atributos da lisura e da honestidade, santos de pau oco, próceres da hipocrisia e do cinismo. Junto a ela, uma inaudita regressão civilizatória e o envenenamento sem precedentes nas relações de convivência entre os brasileiros.
E no final, o que restará? Um país entregue, um povo cindido, o comprometimento talvez definitivo de qualquer possibilidade de desenvolvimento soberano".
"O impacto da Lava Jato no declínio do PIB em 2015 alcançou 2,5%, segundo a consultoria Tendências. Provavelmente este número é muito maior, se considerarmos sua centralidade na crise política brasileira. Julio Gomes de Almeida, do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (IEDI), assinalou recentemente que “os impasses vividos pelo Brasil são, sobretudo, desdobramentos de uma crise de confiança que brota da economia, mas também de um sistema político-parlamentar que se desintegrou”. E acrescenta: “Como o que está por vir é visto por empresários e mercado financeiro como algo impossível de ser avaliado, torna-se também impossível o cálculo do retorno dos investimentos, paralisando as inversões”.
Faltou ainda considerar o papel da mídia na irradiação diuturna do pessimismo e da desconfiança. Se 2,5% da queda do PIB resultam diretamente da Lava Jato, dada sua incidência sobre dois setores fundamentais na economia brasileira – a cadeia de petróleo e gás e a construção pesada -, que modelo econométrico nos elucidará o impacto da crise política, e de sua ampliação e agravamento pela mídia, na disposição de investir do empresariado?
Além da influência no curto prazo, a Lava Jato vai produzir, ainda, efeitos provavelmente irreversíveis na trajetória futura da economia brasileira. Atingindo a Petrobrás, as grandes construtoras e o programa nuclear brasileiro, a operação do comandante Moro afeta atividades em que o Brasil ainda dispõe de empresas classe mundial, além de minar instrumentos importantes para a defesa do país e seu desenvolvimento tecnológico. Completar-se-á, então, o processo de internacionalização do espaço econômico doméstico no Brasil. Não é à toa que publicações das Organizações Globo usam a Lava Jato como argumento para liquidação do marco regulatório do Pré-Sal e em favor da participação de empresas estrangeiras em obras derivadas de investimentos públicos.
De passagem vale a pena lembrar que não existe um único país no mundo que tenha alcançado níveis elevados de desenvolvimento tecnológico – e de bem-estar – sem um conjunto expressivo de empresas nacionais inovadoras dominando seu espaço econômico nacional, com desdobramentos em sua capacidade para a projeção internacional. Não faz parte da estratégia das multinacionais exportar as fases mais sofisticadas dos processos de inovação.
Por seu turno, empresas domésticas, ocupando posições subalternas na estrutura econômica nacional, tendem simplesmente a absorver tecnologias já existentes, sem liderar as atividades de inovação. Desta forma, buscam ancorar sua competitividade em fatores como o custo do trabalho, resistindo às políticas de elevação da participação dos trabalhadores na renda. É o que se observa, no Brasil, com as objeções à política de valorização do salário mínimo e a defesa da terceirização em atividades fins pelo empresariado do país.
É preciso ficar claro. Se o horizonte da Lava Jato fosse investigar e punir os envolvidos em esquemas de corrupção constituídos no Brasil, associados a deformações de nosso sistema político, ela teria cumprido um papel histórico de relevo. Processos irregulares de apropriação de recursos públicos para custeio de campanhas eleitorais são sobejamente conhecidos no Brasil, mas raramente investigados e punidos. A Lava Jato poderia colocá-los a nu e subsidiar um conjunto de reformas na administração pública, no sistema eleitoral e nos arranjos que regulam a contratação de serviços privados por entidades públicas, colaborando para minimizar a ocorrência de processos de corrupção.
Mas não. Desde o início a Lava Jato foi marcada por um propósito político, que não se importou com as claras violações aos direitos individuais vinculadas aos seus métodos, condenados por boa parte do mundo jurídico e por entidades e órgãos de imprensa internacionais. Por que a operação do Sr Moro delimitou suas operações apenas ao período que se inicia em 2003? Qual o sentido de excluir reiteradamente nomes da oposição de seu alcance, mesmo que identificados através de seu principal procedimento de investigação, a delação premiada? Qual o sentido dos vazamentos e dos espetáculos de execração pública de pessoas investigadas, notadamente petistas? Por que a resistência às propostas de acordos de leniência, que garante a punição de executivos e de empresas, mas assegura a continuidade das atividades dessas, sustentando investimentos e empregos? O que justifica delegados e procuradores municiarem ações contra a Petrobrás nos Estados Unidos?
O Sr Moro, os delegados e procuradores da Lava Jato, poderiam mirar-se na experiência dos EUA, que parecem tanto estimar, onde existe clareza do papel estratégico de suas empresas para a economia nacional e existem acordos de leniência desde 1978, a partir do entendimento de que a punição a firmas e seus dirigentes não deve trazer prejuízos para a atividade econômica e o emprego. Ou será que a contaminação da economia pelas ações da Lava Jato é um dos objetivos da guerra que busca travar, para minar as forças do inimigo, como nas conflagrações que envolvem canhões e obuses?
Dos métodos da Lava Jato, e da espetacularização da justiça através da mídia, não se entrevê nenhuma herança institucional capaz de levar à redução da corrupção. Seu efeito mais visível é a estigmatização de um grupo específico de pessoas, os petistas e os que deles se aproximaram, subsidiando animadas campanhas midiáticas e um clima de perseguição fascista, cujo propósito imediato é o golpe, a erradicação do PT e a erosão da imagem de Lula.
Como se essa solução final fosse purgar o país de seus pecados e permitisse a afirmação de seres dotados dos atributos da lisura e da honestidade, santos de pau oco, próceres da hipocrisia e do cinismo. Junto a ela, uma inaudita regressão civilizatória e o envenenamento sem precedentes nas relações de convivência entre os brasileiros.
E no final, o que restará? Um país entregue, um povo cindido, o comprometimento talvez definitivo de qualquer possibilidade de desenvolvimento soberano".
"Manual para entender por que a Lava Jato tem motivação política, por Maria Inês Nassif"
O aparelho político-burocrático-midiático em que operação se sustenta é historicamente comprometido com o status quo.
"A literatura política brasileira está recheada de histórias que comprovam a máxima “aos amigos, tudo; aos inimigos, a lei”. É uma tradição das elites brasileiras o uso da polícia e da Justiça como arma, quando o voto não é favorável aos seus interesses. A ofensiva contra o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, a presidenta Dilma Rousseff e o PT não desmentem a história.
Antes da Constituição de 1988, o aparelho policial e Judiciário dependiam diretamente dos donos de votos nos Estados e no governo federal. Nos Estados, os oligarcas mantinham-se poderosos graças ao clientelismo; a uma Justiça a ele submisso; a uma polícia que era a extensão de seus interesses; e à mídia (jornais, rádios e televisões) que, se não era de propriedade do próprio chefe político, recebia dinheiro do governo suficiente para que apenas escrevesse o que fosse autorizado.
São inúmeras as histórias que se pode contar sobre esse tempo – como é o caso de um chefe político do Nordeste que, governador mandato sim, mandato não, mantinha os inimigos continuamente processados por um Tribunal de Justiça cujos desembargadores compareciam a uma reunião semanal em sua casa, para receber as ordens de como julgar os seus desafetos e os seus amigos.
Todas as mudanças promovidas na Justiça, na Polícia e no Ministério Público pela Constituinte não foram capazes, todavia, de imunizá-los contra a sedução que o poder econômico e político exerce sobre eles. A mídia tradicional é capaz de tornar um simples procurador ou juiz em rei da pátria, desconhecer as mazelas de aliados e manipular a opinião pública para aceitar uma condenação injusta. Os interpostos dos aparelhos policial e judicial, ao atuarem em favor do status quo, passam a ter direito ao ingresso nesse seleto grupo de pessoas muito poderosas que, se não estiverem no governo, têm instrumentos suficientes à disposição para inviabilizar o oponente que venceu as eleições – e voltar ao poder.
Esse é o maior poder de sedução que a elite exerce sobre o aparelho burocrático do Estado: os que ocupam o poder em oposição a eles são intrusos, o aparelho de Estado é deles, por direito divino e, quando a ele retornarem, o conjunto das forças que contribuíram para derrubar o inimigo com o uso da Justiça – e a ajuda inestimável da polícia e do Ministério Público -- estará no poder. O aparelho burocrático, se tiver algum sentimento de pertencimento, será esse: às forças que se juntam para evitar que a realidade social e política do país mude o menos possível, e manter os interesses historicamente estabelecidos. A burocracia é facilmente cooptável pelo status quo.
Nessa estrutura política, o voto é descartável. Duas louváveis leis para moralização das eleições, ao longo dos anos, por exemplo, têm se mostrado facilmente manipuláveis, sem que instrumentos efetivos de controle dos agentes que as executam protejam as vítimas de seus desmandos. A lei que proíbe o abuso do poder econômico, por exemplo, chegou a cassar o mandato do senador João Capiberibe (PSB-AP) por conta de uma única denúncia, da qual nunca se provou a veracidade, de que um único voto havia sido comprado por R$ 5. Assumiu no seu lugar o candidato que perdeu a eleição por muito mais do que esse voto. A Lei da Ficha Limpa, se pode livrar o país de corruptos comprovados, também tem o poder de inviabilizar políticos importantes na vida nacional que não tem respaldo dessa elite político-burocrático-midiática. A deputada Luiza Erundina (PSB-SP) quase perdeu o direito de se candidatar porque o Tribunal de Contas do Município (TCM), com quem teve sérias divergências quando prefeita, a condenou mais de uma década depois. As leis estão sujeitas aos agentes, e boa parte deles têm lado."
sexta-feira, março 04, 2016
Em defesa da legalidade e contra o golpe dos sem votos!
Sigo acompanhando desde as primeiras horas da manhã, as ações da Operação Lava Jato que redundaram na condução à força (coercitiva) do ex-presidente Lula.
Eu fiz opção postar e discutir com os leitores no perfil do Facebook. Não apenas pela velocidade da troca de comentários, como pela identificação dos comentaristas.
Ainda assim, resolvi agora postar quatro dos textos sobre o assunto postados no perfil do Facebook. Eu os colocarei na ordem em que foram postados, ou seja, os mais antigos, do final da manhã, para o último há cerca de meia hora. No FB, eles não precisam de título:
1) "Contra o golpe dos que não têm votos. As fragilidades das argumentações sobre a condução coercitiva com alegação de que se trata de preocupação com a segurança do ex - presidente é apenas uma das pontas das tramas montadas pela mídia e judiciário golpista.
Estamos vendo diante de nós de forma límpida a repetição de 1954 e 1964.
Contra o golpe do partido da mídia comercial."
2) "As piores mentiras são, sempre, as meias verdades. O que torna esta operação jurídico-política mais danosa é o fato de se basear em fatos concretos. As revelações da Lava Jato não são invenções brotadas da imaginação fértil de Sérgio Moro. Assim como no caso do “Mensalão”, o PT herdou e reproduziu as práticas corruptas que o Estado brasileiro impõe, desde que fundado, aos que habitam. No primeiro episódio, o elo de ligação foi o marqueteiro Marcos Valério, que serviu sucessivamente a tucanos e petistas – mantendo idêntico modus operandi. Agora é o senador Delcídio do Amaral. Nomeado por Fernando Henrique Cardoso para a diretoria de Gás e Energia da Petrobŕas, em 2000, articulou-se desde então com Nestor Cerveró e Paulo Roberto Costa, hoje os dois principais delatores da Lava Jato. Em 2001, sentiu o esgotamento do velho esquema e bandeou-se para o PT, partido pelo qual elegeu-se senador, em 2002. Foi acolhido e, tal qual Marcos Valério, manteve métodos idênticos. Não é de estranhar que este autêntico homem-bomba seja igualmente rechaçado, agora, por tucanos e governistas."
Este é um parágrafo do texto do do Antônio Martins no site "Outras Palavras" elaborado ainda no calor das primeiras notícias de hoje, mas contém análises interessantes que ajudam a interpretar a conjuntura.
O texto inteiro pode ser lido neste link abaixo:
http://outraspalavras.net/brasil/lula-preso-politico/
Vale ainda ler ou reler o texto do Nassif Geopolítica da história que republiquei em meu blog":
http://www.robertomoraes.com.br/…/a-geopolitica-na-historia…
3) "Os jornais televisivos da mídia comercial parecem programa eleitorais "gratuitos". A forma de edição, a seletividade das imagens e dos depoimentos escolhidos para ir ao ar, a repetição dos assuntos dos jornais anteriores e o tamanho das edições e transmissões ao vivo mostram a dualidade na conjuntura atual.
Esta dualidade coloca como pólos de todo este processo, de um lado um partido e do outro a mídia comercial usando de sua força (no caso da TV e rádio concessão) para trocar o representante escolhido pela população.
Há muito a ser corrigido no sistema político brasileiro. O PT e os governos que assumiram, deram sempre pouca atenção a este ponto. Assim, estamos caminhando para trás, mesmo que muitos "bem intencionados" e num certo grau, ingênuos, pensem ao contrário.
Caminharemos para dias mais tensos. Devemos saber que o efeito bumerangue não distingue os bem e os mal intencionados quando a bola volta, na mesma força e direção contrária.
Não é preciso conhecer análise do discurso ou poder simbólico, para entender as artimanhas do golpe político em andamento, mesmo, que como em 54 e 64, eles possam vir a ter, em hiatos de tempo, o apoio de uma maioria que não ficou expressa na eleição de 2014. Aliás, é exatamente isto que se coloca diante de nós neste momento.
A luta contra este processo independe de ter chances de vitória. Ela não só é necessária no tempo presente, mas no tempo futuro, em que o processo histórico colocará em exposição, o lado que cada um de nós escolheu seguir.
Este ano é ano de eleição no campo da política, assim como na conjuntura nacional que estamos a viver. Particularmente e dentro de minhas poucas possibilidades, não admito a hipótese de estar no mesmo lado dos golpistas do plano nacional.
Eu sei isto é pouco. Mas vivemos momentos que a Nação e sua frágil e histórica democracia, depende coletivamente deste pouco daqueles que entendem e se sentem dispostos a defenderem.
Contra o golpe dos sem voto. Em defesa da legalidade, da democracia e a favor de uma Nação para todos. Sigamos em frente!"
4) "Não sou jurista. Muito menos advogado. Porém, hoje, antes de emitir as primeiras opiniões aqui neste espaço, eu quis saber do que se tratava, quais os motivos da condução à força do ex-presidente Lula, etc.
Pois bem, até agora já se tem três juristas, inegavelmente não ligados ao PT, ou ao Lula questionando as ações da Operação Lava Jato. Um, o ex-ministro da Justiça, e depois dos Direitos Humanos de FHC, José Gregori, que acabou entrevistado pela BBC, onde opinou que a condução coercitiva (para o povo prisão) foi ilegal.
Depois, outro importante ex-auxiliar de FHC, Walter Maierovitch, ex-secretário Nacional Antidrogas de FHC, que viu "desvio de legalidade" na decisão de Moro.
Agora há pouco tivemos a posição do ministro do STF, Marco Aurélio Mello que disse:
"Condução coercitiva? O que é isso? Eu não compreendi. Só se conduz coercitivamente, ou, como se dizia antigamente, debaixo de vara, o cidadão de resiste e não comparece para depor. E o Lula não foi intimado. Precisamos colocar os pingos nos 'is'", continua; Mello criticou o argumento de Moro, de que a medida foi tomada para assegurar a segurança de Lula. Nós, magistrados, não somos legisladores, não somos justiceiros. Não se avança atropelando regras básicas".
Até criminalistas novos, recém formados, como um que participou de um programa durante à tarde, na Globo News, arguiu Gabeira e outros, que falavam pelos seus desejos, e não pela interpretação da legalidade do procedimentos jurídicos e questionou que a medida de condução coercitiva, nesta situação do Lula, era ilegal.
Pois bem, diante destas várias manifestações, talvez, se possa agora cair na real de que a Operação Lava Jato precisa atuar, investigar, descobrir quem cometeu crime e corrupção, mas não pode se seguir assim, partidariamente e sem controles. Investigando e julgando seletivamente, além permitir vazamentos com interesses de articulação política e partidária.
Agora não se trata mais de uma reclamação de partes e sim de um caso que ganha repercussão internacional. Repito que respeito os bem-intencionados que desejam que o nosso sistema político seja aperfeiçoado. Que condenam, assim como eu, os erros que o PT no governo repetiu do PSDB, quando no governo, mas queremos mais e não podemos abrir mão da legalidade e da democracia e do respeito às urnas e aos direitos dos cidadãos.
Desejar isto, não é passar as mãos, sobre os mal-feitos. É desejar avançar e aperfeiçoar o nosso sistema político. Sou sim, intransigente com os falsos moralistas. Mas ainda assim, eu penso que a politização que o momento atual nos oferece, permite e estimula um diálogo de construção e não de destruição. Se o ambiente e as circunstâncias não permitirem o diálogo lutarei com todas as forças, para evitar o retrocesso.
Não posso concordar e nem admitir o golpe de quem não teve votos para se eleger. A Nação espera mais de cada um de nós."
Eu fiz opção postar e discutir com os leitores no perfil do Facebook. Não apenas pela velocidade da troca de comentários, como pela identificação dos comentaristas.
Ainda assim, resolvi agora postar quatro dos textos sobre o assunto postados no perfil do Facebook. Eu os colocarei na ordem em que foram postados, ou seja, os mais antigos, do final da manhã, para o último há cerca de meia hora. No FB, eles não precisam de título:
1) "Contra o golpe dos que não têm votos. As fragilidades das argumentações sobre a condução coercitiva com alegação de que se trata de preocupação com a segurança do ex - presidente é apenas uma das pontas das tramas montadas pela mídia e judiciário golpista.
Estamos vendo diante de nós de forma límpida a repetição de 1954 e 1964.
Contra o golpe do partido da mídia comercial."
2) "As piores mentiras são, sempre, as meias verdades. O que torna esta operação jurídico-política mais danosa é o fato de se basear em fatos concretos. As revelações da Lava Jato não são invenções brotadas da imaginação fértil de Sérgio Moro. Assim como no caso do “Mensalão”, o PT herdou e reproduziu as práticas corruptas que o Estado brasileiro impõe, desde que fundado, aos que habitam. No primeiro episódio, o elo de ligação foi o marqueteiro Marcos Valério, que serviu sucessivamente a tucanos e petistas – mantendo idêntico modus operandi. Agora é o senador Delcídio do Amaral. Nomeado por Fernando Henrique Cardoso para a diretoria de Gás e Energia da Petrobŕas, em 2000, articulou-se desde então com Nestor Cerveró e Paulo Roberto Costa, hoje os dois principais delatores da Lava Jato. Em 2001, sentiu o esgotamento do velho esquema e bandeou-se para o PT, partido pelo qual elegeu-se senador, em 2002. Foi acolhido e, tal qual Marcos Valério, manteve métodos idênticos. Não é de estranhar que este autêntico homem-bomba seja igualmente rechaçado, agora, por tucanos e governistas."
Este é um parágrafo do texto do do Antônio Martins no site "Outras Palavras" elaborado ainda no calor das primeiras notícias de hoje, mas contém análises interessantes que ajudam a interpretar a conjuntura.
O texto inteiro pode ser lido neste link abaixo:
http://outraspalavras.net/brasil/lula-preso-politico/
Vale ainda ler ou reler o texto do Nassif Geopolítica da história que republiquei em meu blog":
http://www.robertomoraes.com.br/…/a-geopolitica-na-historia…
3) "Os jornais televisivos da mídia comercial parecem programa eleitorais "gratuitos". A forma de edição, a seletividade das imagens e dos depoimentos escolhidos para ir ao ar, a repetição dos assuntos dos jornais anteriores e o tamanho das edições e transmissões ao vivo mostram a dualidade na conjuntura atual.
Esta dualidade coloca como pólos de todo este processo, de um lado um partido e do outro a mídia comercial usando de sua força (no caso da TV e rádio concessão) para trocar o representante escolhido pela população.
Há muito a ser corrigido no sistema político brasileiro. O PT e os governos que assumiram, deram sempre pouca atenção a este ponto. Assim, estamos caminhando para trás, mesmo que muitos "bem intencionados" e num certo grau, ingênuos, pensem ao contrário.
Caminharemos para dias mais tensos. Devemos saber que o efeito bumerangue não distingue os bem e os mal intencionados quando a bola volta, na mesma força e direção contrária.
Não é preciso conhecer análise do discurso ou poder simbólico, para entender as artimanhas do golpe político em andamento, mesmo, que como em 54 e 64, eles possam vir a ter, em hiatos de tempo, o apoio de uma maioria que não ficou expressa na eleição de 2014. Aliás, é exatamente isto que se coloca diante de nós neste momento.
A luta contra este processo independe de ter chances de vitória. Ela não só é necessária no tempo presente, mas no tempo futuro, em que o processo histórico colocará em exposição, o lado que cada um de nós escolheu seguir.
Este ano é ano de eleição no campo da política, assim como na conjuntura nacional que estamos a viver. Particularmente e dentro de minhas poucas possibilidades, não admito a hipótese de estar no mesmo lado dos golpistas do plano nacional.
Eu sei isto é pouco. Mas vivemos momentos que a Nação e sua frágil e histórica democracia, depende coletivamente deste pouco daqueles que entendem e se sentem dispostos a defenderem.
Contra o golpe dos sem voto. Em defesa da legalidade, da democracia e a favor de uma Nação para todos. Sigamos em frente!"
4) "Não sou jurista. Muito menos advogado. Porém, hoje, antes de emitir as primeiras opiniões aqui neste espaço, eu quis saber do que se tratava, quais os motivos da condução à força do ex-presidente Lula, etc.
Pois bem, até agora já se tem três juristas, inegavelmente não ligados ao PT, ou ao Lula questionando as ações da Operação Lava Jato. Um, o ex-ministro da Justiça, e depois dos Direitos Humanos de FHC, José Gregori, que acabou entrevistado pela BBC, onde opinou que a condução coercitiva (para o povo prisão) foi ilegal.
Depois, outro importante ex-auxiliar de FHC, Walter Maierovitch, ex-secretário Nacional Antidrogas de FHC, que viu "desvio de legalidade" na decisão de Moro.
Agora há pouco tivemos a posição do ministro do STF, Marco Aurélio Mello que disse:
"Condução coercitiva? O que é isso? Eu não compreendi. Só se conduz coercitivamente, ou, como se dizia antigamente, debaixo de vara, o cidadão de resiste e não comparece para depor. E o Lula não foi intimado. Precisamos colocar os pingos nos 'is'", continua; Mello criticou o argumento de Moro, de que a medida foi tomada para assegurar a segurança de Lula. Nós, magistrados, não somos legisladores, não somos justiceiros. Não se avança atropelando regras básicas".
Até criminalistas novos, recém formados, como um que participou de um programa durante à tarde, na Globo News, arguiu Gabeira e outros, que falavam pelos seus desejos, e não pela interpretação da legalidade do procedimentos jurídicos e questionou que a medida de condução coercitiva, nesta situação do Lula, era ilegal.
Pois bem, diante destas várias manifestações, talvez, se possa agora cair na real de que a Operação Lava Jato precisa atuar, investigar, descobrir quem cometeu crime e corrupção, mas não pode se seguir assim, partidariamente e sem controles. Investigando e julgando seletivamente, além permitir vazamentos com interesses de articulação política e partidária.
Agora não se trata mais de uma reclamação de partes e sim de um caso que ganha repercussão internacional. Repito que respeito os bem-intencionados que desejam que o nosso sistema político seja aperfeiçoado. Que condenam, assim como eu, os erros que o PT no governo repetiu do PSDB, quando no governo, mas queremos mais e não podemos abrir mão da legalidade e da democracia e do respeito às urnas e aos direitos dos cidadãos.
Desejar isto, não é passar as mãos, sobre os mal-feitos. É desejar avançar e aperfeiçoar o nosso sistema político. Sou sim, intransigente com os falsos moralistas. Mas ainda assim, eu penso que a politização que o momento atual nos oferece, permite e estimula um diálogo de construção e não de destruição. Se o ambiente e as circunstâncias não permitirem o diálogo lutarei com todas as forças, para evitar o retrocesso.
Não posso concordar e nem admitir o golpe de quem não teve votos para se eleger. A Nação espera mais de cada um de nós."
quinta-feira, março 03, 2016
As recentes sinalizações da atual fase de preços do petróleo no mundo
O petróleo chegou por volta das 13 horas a US$ 37,30 o barril (neste momento está a US$ 37,10), apesar dos estoques americanos não pararem de crescer.
Ontem os estoques de petróleo dos EUA chegaram a 518 milhões de barris, o maior em 8 décadas, ou seja, desde 1930, incluindo o período da 2 Guerra Mundial.
Ontem os estoques de petróleo dos EUA chegaram a 518 milhões de barris, o maior em 8 décadas, ou seja, desde 1930, incluindo o período da 2 Guerra Mundial.
O excesso de produção não para de gerar novos formas de estocagem. Assim, o petróleo está sendo guardado não apenas naqueles enormes reservatórios circulares de aço, mas também em cavernas subterrâneas de sal, em navios petroleiros (muitos estavam sem utilização, junto a portos e outros estão cheios e aguardando atracação em vários portos do mundo). Agora, além destes depósitos, o petróleo está sendo também armazenado em vagões de trens, estacionados junto às estações. Assim, apesar dos riscos, os comercializadores esperam lucrar aproveitando o baixo preço atual.
É importante raciocinar que quem estoca em condições digamos que mais precárias, não deve imaginar que o preço possa descer ou permanecer como está por muito tempo. Assim, é possível que já enxerguem no horizonte o limiar de um novo ciclo.
Fato é que o preço parece estar agora oscilando em novo patamar, um pouco acima do anterior. Porém, os fatos que agora estão ajudando a elevar o preço a este novo nível, parecem que ainda são frágeis e com alta volatilidade, num mercado altamente instável.
Fato é que o preço parece estar agora oscilando em novo patamar, um pouco acima do anterior. Porém, os fatos que agora estão ajudando a elevar o preço a este novo nível, parecem que ainda são frágeis e com alta volatilidade, num mercado altamente instável.
Um dos fatos surgiu depois da informação da manutenção do alto consumo da China. Outro, surgiu hoje, depois que se teve a confirmação feita pelo ministro do Petróleo da Nigéria, sobre uma próxima reunião da Opep, junto com outros países produtores, que estaria marcada para o próximo dia 20 de março, para novamente tentar acordar limites de produção.
Ou seja, ainda há enormes excessos de produção. Novas formas de estocagens dos excedentes estão sendo utilizadas e em proporção cada vez maior.
As petroleiras, mesmo realizando manutenções preventivas dos seus sistemas, para voltar a produzir mais e de forma mais eficiente quando os preços estiverem em patamares melhores, continuam produzindo muito e dificultando a vida dos produtores que possuem custos de extração mais altos. Na atual fase, estes chamados de "produtores marginais" estão sendo empurrados para fora do sistema.
A Arábia Saudita e a Rússia estão bombando sua produção, assim como o Irã, que aos poucos vai retomando sua produção. O Irã após a suspensão das punições saiu pelo mundo oferecendo seu petróleo, junto com possibilidades de implantação de refinarias locais, desde que as nações compradoras assumam o compromisso, em fidelizar a compra de seu óleo.
Nesta linha, pelo menos duas ofertas foram feitas. Uma na Espanha para construção de uma refinaria em Gilbratar e outra ao Brasil, para retomar o projeto das refinarias Premium I e/ou II, no Ceará e Maranhão. Assim, tudo indica que o Irã está caminhando para caminhar por fora de acordos de controle e limites da produção.
Desta forma, é possível intuir que o aumento de patamar do preço do barril de petróleo, não indique, no curto prazo, mudanças substanciais até o meio do ano. A não ser ocorrências de conflitos nas regiões produtoras. A conferir!
"A geopolítica na história" por Luiz Nassif
O texto abaixo é do jornalista Luiz Nassif. Recebi por email e li sem pressa, por se tratar de um tema que tenho me esforçado para compreender em suas diversas dimensões, procurando juntar as pontas das informações que diariamente nos chegam.
Sem juntar as pontas das informações cada vez mais fragmentadas elas possuem pouca importância ou significado, que só surgem com as ligações entre fatos e situações, que levam a hipóteses, interpretações e análises que quando criticadas nos permitem compreender fenômenos e conjunturas que possam explicar o real, quase sempre invisível aos olhos dos simples expectadores.
Vale a leitura no texto " A geopolítica na hitsória" não para concordar na íntegra, ou em partes com o mesmo, mas para ajudar construir, na esfera das ideias, uma compreensão mental do mundo e da conjuntura em que se vive.
A geopolítica na história
Luiz Nassif
O diabo é sábio porque é velho. O subdesenvolvimento é um trabalho pertinaz de gerações. Nunca as duas afirmações foram tão atuais como no processo político atual.
A geopolítica sempre foi uma ciência muito mais próxima dos militares e da diplomacia do que dos civis. Ela trata das relações de poder no mundo, da maneira como as nações se preparam para ocupar espaço no comércio ou na guerra.
Desde o século 19 as nações se digladiam em torno de dois modelos de desenvolvimento: o internacionalista, coordenado pelo grande capital, e o nacionalistas, ou, na terminologia contemporânea, os mercadistas e os desenvolvimentistas.
Os primeiros acreditam nas virtudes excelsas do mercado; os segundos, no papel libertador do Estado.
Os mercadistas defendem a abertura total da economia, a padronização dos procedimentos comerciais e jurídicos, de maneira a criar um único mercado. Suas ideias são sustentadas pela aliança entre os donos de capital internos com os internacionais. Por isso mesmo, sua base sempre foi o Rio de Janeiro, com sua economia mercantil.
Prometem que, com o tempo, os países centrais tornar-se-iam caros e os capitais transbordariam para os países periféricos promovendo o desenvolvimento.
Já os desenvolvimentistas acenam com exemplos históricos para comprovar que sem uma economia interna competitiva não haverá como promover o desenvolvimento que garanta bons empregos e a melhoria geral de vida da população. Sem desenvolvimento, os periféricos se perpetuariam como vendedores de commodities e de mão de obra barata.
Não é o caso de apresentar virtudes e vícios de cada modelo. Interessa, agora, as maneiras como se dão as disputas geopolíticas.
No início do século 19, o alemão Friedrick List já escrevia sobre o jogo político dos países centrais. Conseguiram seu desenvolvimento protegendo sua indústria, montando acordos comerciais favoráveis, definindo estratégias globais, como foi o caso da Inglaterra, destruindo a economia portuguesa com seus produtos e impedindo que os têxteis da Índia destruíssem a indústria têxtil britânica.
A luta se dava cooptando a elite do país periférico. Depois de se tornar hegemônica, a Inglaterra passou a praticar o livre comércio - já que sua indústria tinha uma indiscutível superioridade sobre a dos parceiros comerciais. Os aliados internos em cada país periférico repetiam o mantra de que para ficar igual à Inglaterra, os países teriam que fazer como a Inglaterra, depois de se tornar hegemônica: ou seja, abrir suas fronteiras à competição externa. Esse estratagema foi batizado por List como "chutando a própria escada". Abrir as fronteiras antes de ser competitivo significaria suicídio econômico na certa.
Dois países recusaram-se a seguir a receita: Alemanha e, pouco depois, os Estados Unidos. E, graças às políticas desenvolvimentistas nacionais, tornaram-se também potências.
O Brasil como potência média emergente
Em poucos momentos da história o Brasil assumiu um protagonismo regional. Certamente no século 19, em cima de uma América do Sul dividida. Um pouco no período JK, com a Operação Panamericana. Depois, no período militar do Brasil Grande, quando ocorrem as primeiras incursões à África e tentativas de acordos no Oriente Médio.
Os arquivos do próprio governo norte-americano comprovam como se deu a disputa geopolítica na época, com os EUA contribuindo para a queda de Jango – apesar da relativa simpatia que lhe era dedicada por John Kennedy.
O grande momento brasileiro foi no período Lula, com o trabalho excepcional da chancelaria brasileira, comandada por Celso Amorim. O Brasil consolidou o Mercosul, avançou sobre a África, as empresas brasileiras passaram a disputar mercados na África e na América Latina, houve a montagem dos acordos com os BRICS, com o G20, um brasileiro assumiu a FAO e outro a OMC (Organização Mundial do Comércio).
Houve um claro desconforto do Departamento de Estado, que sempre viu no Brasil um parceiro administrando os conflitos no sul do continente, mas sem arriscar voos próprios, organizando os emergentes.
Culminou com a descoberta do pré-sal, tornando o país um player importante no mercado de energia, além da liderança nas commodities agrícolas e minerais. A aproximação com os BRICs, particularmente com a China, abriu espaço para que o principal competidor dos Estados Unidos possa exercer uma influência relevante na América Latina.
Além disso, mais maduro dos países do continente presididos por governantes de esquerda, o Brasil exercia ao mesmo um tempo uma função moderadora e uma liderança desses governos. Mesmo no período Dilma, incapaz de entender a relevância da diplomacia na construção de projeto nacional, persistiu a aliança.
Duas questões tornaram-se centrais nas preocupações norte-americanas.
1. A diplomacia comercial brasileira (junto com as empresas brasileiras) avançando na África e América Latina e aproximando-se da China.
2. O potencial do pré-sal nas mãos de uma estatal, podendo gerar, no futuro, problemas políticos de monta, por depender do voluntarismo de qualquer presidente.
Essa é a moldura que enquadrará dois movimentos paralelos que sacodem a política brasileira.
O primeiro, a ofensiva da Lava Jato. A segunda, a ofensiva política que teve a primeira vitória expressiva na flexibilização da Lei do pré-sal pelo Senado.
A ofensiva jurídica
No post "Como a Lava Jato foi pensada como uma operação de guerra" (http://migre.me/t8Oe8) mostrou-se como desde 2004, o juiz Sérgio Moro planejou suas ações futuras, com base no estudo sobre a Operação Mãos Limpas.
No trabalho "Considerações sobre a Operação Mani Pulite", Moro divisa as condições para uma Mãos Limpas no Brasil:
1. Uma conjuntura econômica difícil, aliada aos custos crescentes com a corrupção.
2. A perda de legitimidade da classe política com o início das prisões e a divulgação dos casos de corrupção. Antes disso, a queda do “socialismo real”, “que levou à deslegitimação de um sistema político corrupto, fundado na oposição entre regimes democráticos e comunistas”.
3. A maior legitimação da magistratura graças a um tipo diferente de juiz que entrou nas décadas de 70 e 80, os “juízes de ataque”, nascido dos ciclos de protesto.
Em seguida, discorre sobre a parceria com a mídia.
Segundo Moro, na Itália teve “o efeito salutar de alertar os investigados em potencial sobre o aumento da massa de informações nas mãos dos magistrados, favorecendo novas confissões e colaborações. Mais importante: garantiu o apoio da opinião pública às ações judiciais, impedindo que as figuras públicas investigadas obstruíssem o trabalho dos magistrados”.
Finalmente, as investidas contra os chefes políticos dos adversários.
Dizíamos, em 14 de outubro de 2015, com base no trabalho de Moro:
"Nesse jogo, assim como no xadrez, a figura a ser tombada é a do Rei adversário. Enquanto o Rei estiver de pé será difícil romper a coesão do seu grupo, os laços de lealdade, ampliando as delações premiadas”, dizia Moro.
Fica claro, para o Grupo de Trabalho da Lava Jato, que o Bettino Craxi a se mirar, o Rei a ser derrubado, era o ex-presidente Lula. O vazamento sistemático de informações, sem nenhum filtro, é peça central dessa estratégia.
Desde os primeiros movimentos da Lava Jato, estava nítido o viés ideológico da operação, incriminando qualquer forma de estímulo às empresas nacionais. Para Moro foi a abertura econômica da Itália, a integração com a União Europeias que permitiu "limpar" o país.
Nem se pense no Ministério Público como uma corporação antinacional, conspiradora.
É possível mapear a formação dessa ideologia. A troca de experiência com procuradores de outros países, os manás de informações exclusivas fornecidas pelo FBI, os cursos patrocinados pelo Departamento de Estado, o acesso às melhores universidades norte-americanas, fizeram com que gradativamente os procuradores nacionais passassem a assimilar a noção de “crime” a ser combatido – além dos crimes reais do suborno e das caixinhas políticas. Nada diferente do que foi feito no pós-guerra com os militares brasileiros.
Segundo o Washington Post, em 2007 Moro participou de um curso de três semanas para novas lideranças latino-americanas patrocinado pelo Departamento de Estado e passou a admirar o rigor e a eficiência do sistema jurídico norte-americano (https://goo.gl/3RytIV).
As instituições norte-americanas têm a geopolítica na veia. As brasileiras tem na cabeça apenas o Código Penal e a Constituição. Com todo respeito pelo conhecimento jurídico acumulado, são politicamente ignorantes. Encantam-se quando conhecem os Estados Unidos (e o funcionamento das instituições e da sociedade americana é fascinante) e voltam sem a menor noção sobre os processos históricos que constituíram o país. Menos ainda, sobre as parcerias das instituições com as corporações estadunidenses - cadeira que não consta dos currículos dos cursos aplicados pelo Departamento de Estado. Provincianos!
Então foi simples passar os novos conceitos, e direcionar as denúncias, ainda mais tendo em vista a promiscuidade gritante entre partidos e fornecedores nos modelos democráticos nacionais.
Há um fator adicional.
Os princípios desenvolvimentistas sempre têm um componente de arbítrio, definindo os setores a serem contemplados, os campeões nacionais. Muitas vezes os governantes cedem a esse arbítrio e fazem negócios políticos ou pessoais.
Para identificar as artimanhas do mercado, no entanto, é necessária uma boa dose de conhecimento técnico – que evidentemente falta aos bravos procuradores e delegados. Principalmente porque essas manhas vêm amparada em toda uma carga publicitária, justificando as maiores barbaridades com a capa do falso cientificismo.
É daí que vem a certeza de Moro de que a abertura da economia é como a luz do sol espanando a poeira das economias fechadas. Não tem culpa. Pessoas muito mais preparadas que eles, em temas gerais, também se enganam com as manhas do mercado.
Por isso mesmo, é mais fácil um bravo membro da força tarefa da Lava Jato identificar indícios de crime no pedalinho batizado com o nome do neto de Lula do que em operações de swap cambial. São incapazes de montar estratégias para apuração de crimes financeiros, como insider information, jogadas de taxas de juros, formas de manipulação de câmbio.
Como se dizia no começo, o subdesenvolvimento é um trabalho pertinaz de gerações. Não é apenas o conhecimento que atravessa gerações: a ignorância também é uma herança que se passa de pai para filho.
A ofensiva política
A frente política foi dominada mais adiante, através de uma admirável concatenação entre a estratégia da Lava Jato e quarteto probo do Congresso - Renan Calheiros, Romero Jucá, José Serra e Eduardo Cunha.
Até então, Lula, ou melhor, a perspectiva de Lula 2018, era o fator que mantinha coesa a base de apoio a Dilma, mesmo com os arrufos de lado a lado.
Á medida em que foi erodindo a popularidade de Lula, e ficou mais perto a possibilidade de inabilitação dele para as eleições de 2018, desmontou-se o que restava de coesão.
Enquanto a Lava Jato ia demolindo uma a uma as grandes multinacionais brasileiras, sem a mínima preocupação com seus impactos econômicos e estratégicos, e desconstruindo diuturnamente a imagem pública de Lula, com toda sorte de factoides, o bravo quarteto dos homens probos - Renan Calheiros, Romero Jucá, Eduardo Cunha e José Serra – impunha-se a Dilma com a ameaça de apoiar o impeachment para aprovar o projeto de lei que flexibiliza o pré-sal.
Os próximos passos serão a independência do Banco Central – garantindo segurança absoluta ao capital financeiro -, a blindagem total dos contratos de concessão, a flexibilização da legislação trabalhista, a flexibilização do orçamento. A mesmas agenda, aliás, que o vice-presidente Michel Temer empunhou meses atrás, quando julgava ter chegado a hora. Enfim, um decálogo que deixaria Hillary Clinton envergonhada e parece ter saltado diretamente da campanha de Donald Trump.
Seria coincidência a identidade de propósitos da frente jurídica, criminalizando toda forma de apoio interno às empresas nacionais, destruindo a engenharia nacional, e da política, impondo uma pauta estritamente internacionalista? Não se trata simplesmente de entregar o trabalho do pré-sal e ter direito à recompensa. Trata-se da demolição completa de um projeto de desenvolvimento nacional. E seria coincidência Renan Calheiros, depois da conversão, se considerar, doravante, blindado das investigações?
É mais fácil o Procurador Geral da República Rodrigo Janot e os executivos da Andrade Gutierrez entregarem Aécio do que essas ações simultâneas serem fruto de coincidência.
Sem juntar as pontas das informações cada vez mais fragmentadas elas possuem pouca importância ou significado, que só surgem com as ligações entre fatos e situações, que levam a hipóteses, interpretações e análises que quando criticadas nos permitem compreender fenômenos e conjunturas que possam explicar o real, quase sempre invisível aos olhos dos simples expectadores.
Vale a leitura no texto " A geopolítica na hitsória" não para concordar na íntegra, ou em partes com o mesmo, mas para ajudar construir, na esfera das ideias, uma compreensão mental do mundo e da conjuntura em que se vive.
A geopolítica na história
Luiz Nassif
O diabo é sábio porque é velho. O subdesenvolvimento é um trabalho pertinaz de gerações. Nunca as duas afirmações foram tão atuais como no processo político atual.
A geopolítica sempre foi uma ciência muito mais próxima dos militares e da diplomacia do que dos civis. Ela trata das relações de poder no mundo, da maneira como as nações se preparam para ocupar espaço no comércio ou na guerra.
Desde o século 19 as nações se digladiam em torno de dois modelos de desenvolvimento: o internacionalista, coordenado pelo grande capital, e o nacionalistas, ou, na terminologia contemporânea, os mercadistas e os desenvolvimentistas.
Os primeiros acreditam nas virtudes excelsas do mercado; os segundos, no papel libertador do Estado.
Os mercadistas defendem a abertura total da economia, a padronização dos procedimentos comerciais e jurídicos, de maneira a criar um único mercado. Suas ideias são sustentadas pela aliança entre os donos de capital internos com os internacionais. Por isso mesmo, sua base sempre foi o Rio de Janeiro, com sua economia mercantil.
Prometem que, com o tempo, os países centrais tornar-se-iam caros e os capitais transbordariam para os países periféricos promovendo o desenvolvimento.
Já os desenvolvimentistas acenam com exemplos históricos para comprovar que sem uma economia interna competitiva não haverá como promover o desenvolvimento que garanta bons empregos e a melhoria geral de vida da população. Sem desenvolvimento, os periféricos se perpetuariam como vendedores de commodities e de mão de obra barata.
Não é o caso de apresentar virtudes e vícios de cada modelo. Interessa, agora, as maneiras como se dão as disputas geopolíticas.
No início do século 19, o alemão Friedrick List já escrevia sobre o jogo político dos países centrais. Conseguiram seu desenvolvimento protegendo sua indústria, montando acordos comerciais favoráveis, definindo estratégias globais, como foi o caso da Inglaterra, destruindo a economia portuguesa com seus produtos e impedindo que os têxteis da Índia destruíssem a indústria têxtil britânica.
A luta se dava cooptando a elite do país periférico. Depois de se tornar hegemônica, a Inglaterra passou a praticar o livre comércio - já que sua indústria tinha uma indiscutível superioridade sobre a dos parceiros comerciais. Os aliados internos em cada país periférico repetiam o mantra de que para ficar igual à Inglaterra, os países teriam que fazer como a Inglaterra, depois de se tornar hegemônica: ou seja, abrir suas fronteiras à competição externa. Esse estratagema foi batizado por List como "chutando a própria escada". Abrir as fronteiras antes de ser competitivo significaria suicídio econômico na certa.
Dois países recusaram-se a seguir a receita: Alemanha e, pouco depois, os Estados Unidos. E, graças às políticas desenvolvimentistas nacionais, tornaram-se também potências.
O Brasil como potência média emergente
Em poucos momentos da história o Brasil assumiu um protagonismo regional. Certamente no século 19, em cima de uma América do Sul dividida. Um pouco no período JK, com a Operação Panamericana. Depois, no período militar do Brasil Grande, quando ocorrem as primeiras incursões à África e tentativas de acordos no Oriente Médio.
Os arquivos do próprio governo norte-americano comprovam como se deu a disputa geopolítica na época, com os EUA contribuindo para a queda de Jango – apesar da relativa simpatia que lhe era dedicada por John Kennedy.
O grande momento brasileiro foi no período Lula, com o trabalho excepcional da chancelaria brasileira, comandada por Celso Amorim. O Brasil consolidou o Mercosul, avançou sobre a África, as empresas brasileiras passaram a disputar mercados na África e na América Latina, houve a montagem dos acordos com os BRICS, com o G20, um brasileiro assumiu a FAO e outro a OMC (Organização Mundial do Comércio).
Houve um claro desconforto do Departamento de Estado, que sempre viu no Brasil um parceiro administrando os conflitos no sul do continente, mas sem arriscar voos próprios, organizando os emergentes.
Culminou com a descoberta do pré-sal, tornando o país um player importante no mercado de energia, além da liderança nas commodities agrícolas e minerais. A aproximação com os BRICs, particularmente com a China, abriu espaço para que o principal competidor dos Estados Unidos possa exercer uma influência relevante na América Latina.
Além disso, mais maduro dos países do continente presididos por governantes de esquerda, o Brasil exercia ao mesmo um tempo uma função moderadora e uma liderança desses governos. Mesmo no período Dilma, incapaz de entender a relevância da diplomacia na construção de projeto nacional, persistiu a aliança.
Duas questões tornaram-se centrais nas preocupações norte-americanas.
1. A diplomacia comercial brasileira (junto com as empresas brasileiras) avançando na África e América Latina e aproximando-se da China.
2. O potencial do pré-sal nas mãos de uma estatal, podendo gerar, no futuro, problemas políticos de monta, por depender do voluntarismo de qualquer presidente.
Essa é a moldura que enquadrará dois movimentos paralelos que sacodem a política brasileira.
O primeiro, a ofensiva da Lava Jato. A segunda, a ofensiva política que teve a primeira vitória expressiva na flexibilização da Lei do pré-sal pelo Senado.
A ofensiva jurídica
No post "Como a Lava Jato foi pensada como uma operação de guerra" (http://migre.me/t8Oe8) mostrou-se como desde 2004, o juiz Sérgio Moro planejou suas ações futuras, com base no estudo sobre a Operação Mãos Limpas.
No trabalho "Considerações sobre a Operação Mani Pulite", Moro divisa as condições para uma Mãos Limpas no Brasil:
1. Uma conjuntura econômica difícil, aliada aos custos crescentes com a corrupção.
2. A perda de legitimidade da classe política com o início das prisões e a divulgação dos casos de corrupção. Antes disso, a queda do “socialismo real”, “que levou à deslegitimação de um sistema político corrupto, fundado na oposição entre regimes democráticos e comunistas”.
3. A maior legitimação da magistratura graças a um tipo diferente de juiz que entrou nas décadas de 70 e 80, os “juízes de ataque”, nascido dos ciclos de protesto.
Em seguida, discorre sobre a parceria com a mídia.
Segundo Moro, na Itália teve “o efeito salutar de alertar os investigados em potencial sobre o aumento da massa de informações nas mãos dos magistrados, favorecendo novas confissões e colaborações. Mais importante: garantiu o apoio da opinião pública às ações judiciais, impedindo que as figuras públicas investigadas obstruíssem o trabalho dos magistrados”.
Finalmente, as investidas contra os chefes políticos dos adversários.
Dizíamos, em 14 de outubro de 2015, com base no trabalho de Moro:
"Nesse jogo, assim como no xadrez, a figura a ser tombada é a do Rei adversário. Enquanto o Rei estiver de pé será difícil romper a coesão do seu grupo, os laços de lealdade, ampliando as delações premiadas”, dizia Moro.
Fica claro, para o Grupo de Trabalho da Lava Jato, que o Bettino Craxi a se mirar, o Rei a ser derrubado, era o ex-presidente Lula. O vazamento sistemático de informações, sem nenhum filtro, é peça central dessa estratégia.
Desde os primeiros movimentos da Lava Jato, estava nítido o viés ideológico da operação, incriminando qualquer forma de estímulo às empresas nacionais. Para Moro foi a abertura econômica da Itália, a integração com a União Europeias que permitiu "limpar" o país.
Nem se pense no Ministério Público como uma corporação antinacional, conspiradora.
É possível mapear a formação dessa ideologia. A troca de experiência com procuradores de outros países, os manás de informações exclusivas fornecidas pelo FBI, os cursos patrocinados pelo Departamento de Estado, o acesso às melhores universidades norte-americanas, fizeram com que gradativamente os procuradores nacionais passassem a assimilar a noção de “crime” a ser combatido – além dos crimes reais do suborno e das caixinhas políticas. Nada diferente do que foi feito no pós-guerra com os militares brasileiros.
Segundo o Washington Post, em 2007 Moro participou de um curso de três semanas para novas lideranças latino-americanas patrocinado pelo Departamento de Estado e passou a admirar o rigor e a eficiência do sistema jurídico norte-americano (https://goo.gl/3RytIV).
As instituições norte-americanas têm a geopolítica na veia. As brasileiras tem na cabeça apenas o Código Penal e a Constituição. Com todo respeito pelo conhecimento jurídico acumulado, são politicamente ignorantes. Encantam-se quando conhecem os Estados Unidos (e o funcionamento das instituições e da sociedade americana é fascinante) e voltam sem a menor noção sobre os processos históricos que constituíram o país. Menos ainda, sobre as parcerias das instituições com as corporações estadunidenses - cadeira que não consta dos currículos dos cursos aplicados pelo Departamento de Estado. Provincianos!
Então foi simples passar os novos conceitos, e direcionar as denúncias, ainda mais tendo em vista a promiscuidade gritante entre partidos e fornecedores nos modelos democráticos nacionais.
Há um fator adicional.
Os princípios desenvolvimentistas sempre têm um componente de arbítrio, definindo os setores a serem contemplados, os campeões nacionais. Muitas vezes os governantes cedem a esse arbítrio e fazem negócios políticos ou pessoais.
Para identificar as artimanhas do mercado, no entanto, é necessária uma boa dose de conhecimento técnico – que evidentemente falta aos bravos procuradores e delegados. Principalmente porque essas manhas vêm amparada em toda uma carga publicitária, justificando as maiores barbaridades com a capa do falso cientificismo.
É daí que vem a certeza de Moro de que a abertura da economia é como a luz do sol espanando a poeira das economias fechadas. Não tem culpa. Pessoas muito mais preparadas que eles, em temas gerais, também se enganam com as manhas do mercado.
Por isso mesmo, é mais fácil um bravo membro da força tarefa da Lava Jato identificar indícios de crime no pedalinho batizado com o nome do neto de Lula do que em operações de swap cambial. São incapazes de montar estratégias para apuração de crimes financeiros, como insider information, jogadas de taxas de juros, formas de manipulação de câmbio.
Como se dizia no começo, o subdesenvolvimento é um trabalho pertinaz de gerações. Não é apenas o conhecimento que atravessa gerações: a ignorância também é uma herança que se passa de pai para filho.
A ofensiva política
A frente política foi dominada mais adiante, através de uma admirável concatenação entre a estratégia da Lava Jato e quarteto probo do Congresso - Renan Calheiros, Romero Jucá, José Serra e Eduardo Cunha.
Até então, Lula, ou melhor, a perspectiva de Lula 2018, era o fator que mantinha coesa a base de apoio a Dilma, mesmo com os arrufos de lado a lado.
Á medida em que foi erodindo a popularidade de Lula, e ficou mais perto a possibilidade de inabilitação dele para as eleições de 2018, desmontou-se o que restava de coesão.
Enquanto a Lava Jato ia demolindo uma a uma as grandes multinacionais brasileiras, sem a mínima preocupação com seus impactos econômicos e estratégicos, e desconstruindo diuturnamente a imagem pública de Lula, com toda sorte de factoides, o bravo quarteto dos homens probos - Renan Calheiros, Romero Jucá, Eduardo Cunha e José Serra – impunha-se a Dilma com a ameaça de apoiar o impeachment para aprovar o projeto de lei que flexibiliza o pré-sal.
Os próximos passos serão a independência do Banco Central – garantindo segurança absoluta ao capital financeiro -, a blindagem total dos contratos de concessão, a flexibilização da legislação trabalhista, a flexibilização do orçamento. A mesmas agenda, aliás, que o vice-presidente Michel Temer empunhou meses atrás, quando julgava ter chegado a hora. Enfim, um decálogo que deixaria Hillary Clinton envergonhada e parece ter saltado diretamente da campanha de Donald Trump.
Seria coincidência a identidade de propósitos da frente jurídica, criminalizando toda forma de apoio interno às empresas nacionais, destruindo a engenharia nacional, e da política, impondo uma pauta estritamente internacionalista? Não se trata simplesmente de entregar o trabalho do pré-sal e ter direito à recompensa. Trata-se da demolição completa de um projeto de desenvolvimento nacional. E seria coincidência Renan Calheiros, depois da conversão, se considerar, doravante, blindado das investigações?
É mais fácil o Procurador Geral da República Rodrigo Janot e os executivos da Andrade Gutierrez entregarem Aécio do que essas ações simultâneas serem fruto de coincidência.
quarta-feira, março 02, 2016
Redução de investimentos nas petrolíferas em todo o mundo e a situação da Petrobras
Seguimos acompanhando as informações e o movimento do setor petróleo. Agora resolvemos descobrir sobre as reduções de investimentos que algumas importantes petrolíferas decidiram fazer em seus orçamentos de 2016, tendo em vista a fase de baixa dos preços do barril de petróleo.
As petrolíferas que operam na Noruega, no Mar do Morte, maior exportadora de petróleo da Europa Ocidental estimaram que seus investimentos vão reduzir 14%, em relação a 2015, caindo para US$ 19,03 bilhões.

A americana Esso (Exxon Mobil) informou que está cortando 25% de seus investimentos, caindo o orçamento de 2016 para US$ 23 bilhões. A mexicana Pemmex anunciou corte de US$ 5,5 bilhões no orçamento deste ano que assim caiu para US$ 21 bilhões.
O The Wall Street Journal afirma em matéria hoje, sobre cortes de investimentos e produção, em óleo e gás de xisto nos EUA. Assim, mais de 30 empresas de petróleo estão cortando em torno de 50% de seus gastos este ano, comprado a 2015. Os cortes foram estimados em cerca de US$ 36 bilhões.
É neste exato contexto que a Petrobras também reduziu sua previsão de investimentos no início deste ano, em seu Plano de Gestão e Negócios 2015-2019, saindo de US$ 27 bilhões para US$ 20 bilhões.
Como se vê os valores nos cortes de investimentos entre as grandes petroleiras, em diferentes fronteiras exploratórias e de produção, são compatíveis à realidade da atual fase do "ciclo petro-econômico" até mesmo em valores, mesmo considerando as diferentes realidades.
Para além das petroleiras, a maior empresa de serviços, sistemas e tecnologia de petróleo do mundo, a americana, Halliburton anunciou na semana passada que vai cortar mais 5 mil empregos, 8% do toral de 62,5 mil trabalhadores que é a toda a sua força de trabalho, por conta da redução das petrolíferas que são suas contratantes.
Em janeiro passado já havíamos publicado aqui que existia uma relação direta sobre a variação dos lucros de importantes petroleiras do mundo, diante da crise dos baixos preços do barril, conforme infográfico abaixo.
Pois bem, diante deste quadro não pode ser considerado normal se querer atribuir apenas à Petrobras, os problemas decorrentes da fase atual de baixos preços, mesmo que, simultaneamente, a empresa esteja enfrentando antigos problemas de gestão e de corrupção, punindo responsáveis e ajustando os seus planejamentos.
Estas ações, junto do montante de suas reservas e expertise em exploração e produção de petróleo com baixos custos, como demonstram a produtividade dos campos do pré-sal, podem ajudar a tornar a empresa mais eficiente, para produzir e gerar lucros num novo ciclo adiante.
As petrolíferas que operam na Noruega, no Mar do Morte, maior exportadora de petróleo da Europa Ocidental estimaram que seus investimentos vão reduzir 14%, em relação a 2015, caindo para US$ 19,03 bilhões.

A americana Esso (Exxon Mobil) informou que está cortando 25% de seus investimentos, caindo o orçamento de 2016 para US$ 23 bilhões. A mexicana Pemmex anunciou corte de US$ 5,5 bilhões no orçamento deste ano que assim caiu para US$ 21 bilhões.
O The Wall Street Journal afirma em matéria hoje, sobre cortes de investimentos e produção, em óleo e gás de xisto nos EUA. Assim, mais de 30 empresas de petróleo estão cortando em torno de 50% de seus gastos este ano, comprado a 2015. Os cortes foram estimados em cerca de US$ 36 bilhões.
É neste exato contexto que a Petrobras também reduziu sua previsão de investimentos no início deste ano, em seu Plano de Gestão e Negócios 2015-2019, saindo de US$ 27 bilhões para US$ 20 bilhões.
Para além das petroleiras, a maior empresa de serviços, sistemas e tecnologia de petróleo do mundo, a americana, Halliburton anunciou na semana passada que vai cortar mais 5 mil empregos, 8% do toral de 62,5 mil trabalhadores que é a toda a sua força de trabalho, por conta da redução das petrolíferas que são suas contratantes.
Em janeiro passado já havíamos publicado aqui que existia uma relação direta sobre a variação dos lucros de importantes petroleiras do mundo, diante da crise dos baixos preços do barril, conforme infográfico abaixo.
Pois bem, diante deste quadro não pode ser considerado normal se querer atribuir apenas à Petrobras, os problemas decorrentes da fase atual de baixos preços, mesmo que, simultaneamente, a empresa esteja enfrentando antigos problemas de gestão e de corrupção, punindo responsáveis e ajustando os seus planejamentos.
Estas ações, junto do montante de suas reservas e expertise em exploração e produção de petróleo com baixos custos, como demonstram a produtividade dos campos do pré-sal, podem ajudar a tornar a empresa mais eficiente, para produzir e gerar lucros num novo ciclo adiante.
O blog solicita explicações sobre a origem de suas visualizações
Apelo aos especialistas para que eles possam trazer explicações sobre a origem dos acessos ao meu blog na internet.
É fato que por conta de minha atenção a questões de interesse mais gerais e menos regionais ou locais, um público diverso possa passar a ser majoritário nas visitas e leituras.
Porém, não consigo explicação para que o gerenciador de estatísticas do blog (Blogger do Google) identifique mais vistantes estrangeiros do que brasileiros.
Eu já venho estranhando sobre isso há algum tempo, porém, a proporção cresce como pode ser visto na imagem abaixo, sobre os visitantes apenas da última à página do blog.
Os números não são muito diferentes se forem observados relatórios de outros meses do blog, apenas com algumas alterações do número de visualizações entre os países estrangeiros, porém, mais ou menos em proporções similares.
Uma explicação seria sobre um tráfego de dados dos servidores da Blogger no exterior. Porém, já negaram que seja isto, porque o Google identificaria direção do acesso. Outra explicação seria sobre a presença maior de brasileiros no exterior. Eu não sei explicar e por isso lanço mão dos amigos e da rede para levantar hipóteses e/ou explicações.
Os números da visualizações de páginas por país são significativos:
Brasil - 7.176;
Alemanha - 6.285;
EUA - 713;
Ucrânia - 113;
Rússia - 81;
França - 35;
Índia - 30;
China - 18.
Aguardo retorno, agradecendo a colaboração e a interação.
É fato que por conta de minha atenção a questões de interesse mais gerais e menos regionais ou locais, um público diverso possa passar a ser majoritário nas visitas e leituras.
Porém, não consigo explicação para que o gerenciador de estatísticas do blog (Blogger do Google) identifique mais vistantes estrangeiros do que brasileiros.
Eu já venho estranhando sobre isso há algum tempo, porém, a proporção cresce como pode ser visto na imagem abaixo, sobre os visitantes apenas da última à página do blog.
Os números não são muito diferentes se forem observados relatórios de outros meses do blog, apenas com algumas alterações do número de visualizações entre os países estrangeiros, porém, mais ou menos em proporções similares.
Uma explicação seria sobre um tráfego de dados dos servidores da Blogger no exterior. Porém, já negaram que seja isto, porque o Google identificaria direção do acesso. Outra explicação seria sobre a presença maior de brasileiros no exterior. Eu não sei explicar e por isso lanço mão dos amigos e da rede para levantar hipóteses e/ou explicações.
Os números da visualizações de páginas por país são significativos:
Brasil - 7.176;
Alemanha - 6.285;
EUA - 713;
Ucrânia - 113;
Rússia - 81;
França - 35;
Índia - 30;
China - 18.
Aguardo retorno, agradecendo a colaboração e a interação.
"Inserção global do Brasil"
Mais uma vez considero correta a avaliação de Bresser Pereira em entrevista hoje à Folha de São Paulo. Reconhecer e identificar os problemas da inserção do Brasil à economia global e suas cadeias de valor, não permite interpretar que seja possível se isolar desta realidade, como alguns cogitaram no passado.
Porém, é necessário ter um projeto de Nação menos dependente e subordinada apenas com exportações de commodities.
Os liberais repetem como mantra sobre a necessidade de abrir as fronteiras e nos pendurarmos nos acordos regionais liderados por quem também controla os fluxos financeiros e materiais globais.
Trabalhar em direção diversa, tendo em vista interesses da nação e de todo o povo e não apenas das elites econômicas é o desafio sobre o qual Bresser oferece dicas.
O David Kupfer do IE da UFRJ e que já esteve no BNDES também tem falado sobre isto, assim como o Belluzzo.
Por tudo isto vale conferir a breve entrevista do Bresser republicada abaixo:
"Inserção global do Brasil passa por solução de entraves econômicos"
"Não serão os acordos comerciais, mas a derrubada de entraves econômicos e até sociais que levarão o Brasil a uma inserção "competitiva" ou "inovadora" no mundo.
O ex-ministro e professor da FGV-SP Luiz Carlos Bresser-Pereira e o economista Mariano Laplane, do CGEE (Centro de Gestão e Estudos Estratégicos) debateram, na série Diálogos, iniciativa da Folha em parceria com o Cebrap (Centro Brasileiro de Análise e Planejamento) formas de fazer com que o país jogue um papel mais relevante na economia global.
Para Bresser-Pereira, o Brasil optou por uma inserção "subordinada" ou "passiva" ao adotar, nos últimos anos, ao adotar uma taxa de câmbio excessivamente valorizada, que prejudicou a indústria de produtos tecnologicamente mais sofisticados.
Em troca de conter a inflação por meio de um dólar mais barato, abraçou-se a poupança externa, mas os investimentos não vieram e o país, desindustrializou-se.
O resultado visível é que a indústria, que já representou 25% do PIB, hoje responde por 9% da geração de riquezas do país. O crescimento estagnou e o desequilíbrio externo acentuou-se, desaguando na crise atual.
"A ideia liberal é que o Brasil é um país fechado e, quando fizer sua abertura, será um país próspero e maravilhoso. É um equívoco monumental", disse Bresser-Pereira.
Para ele, a raiz do problema está na taxa de câmbio ou, simplificando, no valor dos bens vis a vis os produzidos no exterior. Se a taxa de câmbio está muito valorizada, desestimula-se a produção e os investimentos.
"A taxa de câmbio é o interruptor que liga ou desliga as empresas do mercado internacional", afirma. "Se ela [taxa de câmbio] for apreciada, ele vai decidir não investir. Fará as contas e perceberá rapidamente que é muito mais fácil e rápido importar".
Sua ideia é adotar uma política cambial ativa -hoje o câmbio é função da atuação do governo na área monetária (juros) e na área fiscal (gastos públicos). O que daria mais condições de competir às empresas.
"O México fez tantos acordos comerciais e sua economia está um desastre, como a do Brasil", acrescentou.
Para Mariano Laplane, uma inserção internacional brasileira "inovadora" passa pelo convencimento das elites política e econômica de que o país precisa mudar para se adaptar a um novo mundo que emerge da urbanização asiática e do aquecimento global.
"O envelhecimento da população já está ocorrendo em países da Europa e no Japão, no Brasil está com data marcada. Grandes transformações demográficas marcarão a economia internacional", disse.
Segundo ele, as elites optaram um modelo de inserção adaptativa, que implica menos mudanças, mas que não funciona. É preciso, em sua visão, "reformas profundas na estrutura da nossa economia".
"A estratégia adaptativa não nos permitirá atender às expectativas de uma parte importante da população, continuar o processo de redução das desigualdades e não nos dará uma taxa de crescimento adequada para reduzir as brechas [tecnológicas] entre os setores produtivos do Brasil e os do mundo desenvolvido".
Segundo ele, é preciso enfrentar problemas como "uma estrutura tributária estupidamente regressiva, que cria desigualdade em vez de reduzi-la" e "uma carga tributária que recai basicamente sobre assalariados e empresas".
"Não adianta recorrer ao pensamento mágico e dizer que a solução está na esquina, que é só fazer acordos internacionais e abrir a economia. Isso não vai resolver. Melhorar nossa pauta de exportações exige um esforço enorme em inovação de recursos públicos e privados", afirmou.
Para Laplane, a saída é apostar em cadeias de produção próprias em áreas em que o Brasil é competitivo, como na geração de energia por meio de biomassa, eólica e no aprimoramento dos setores de commodities."
Porém, é necessário ter um projeto de Nação menos dependente e subordinada apenas com exportações de commodities.
Os liberais repetem como mantra sobre a necessidade de abrir as fronteiras e nos pendurarmos nos acordos regionais liderados por quem também controla os fluxos financeiros e materiais globais.
Trabalhar em direção diversa, tendo em vista interesses da nação e de todo o povo e não apenas das elites econômicas é o desafio sobre o qual Bresser oferece dicas.
O David Kupfer do IE da UFRJ e que já esteve no BNDES também tem falado sobre isto, assim como o Belluzzo.
Por tudo isto vale conferir a breve entrevista do Bresser republicada abaixo:
"Não serão os acordos comerciais, mas a derrubada de entraves econômicos e até sociais que levarão o Brasil a uma inserção "competitiva" ou "inovadora" no mundo.
O ex-ministro e professor da FGV-SP Luiz Carlos Bresser-Pereira e o economista Mariano Laplane, do CGEE (Centro de Gestão e Estudos Estratégicos) debateram, na série Diálogos, iniciativa da Folha em parceria com o Cebrap (Centro Brasileiro de Análise e Planejamento) formas de fazer com que o país jogue um papel mais relevante na economia global.
Para Bresser-Pereira, o Brasil optou por uma inserção "subordinada" ou "passiva" ao adotar, nos últimos anos, ao adotar uma taxa de câmbio excessivamente valorizada, que prejudicou a indústria de produtos tecnologicamente mais sofisticados.
Em troca de conter a inflação por meio de um dólar mais barato, abraçou-se a poupança externa, mas os investimentos não vieram e o país, desindustrializou-se.
O resultado visível é que a indústria, que já representou 25% do PIB, hoje responde por 9% da geração de riquezas do país. O crescimento estagnou e o desequilíbrio externo acentuou-se, desaguando na crise atual.
"A ideia liberal é que o Brasil é um país fechado e, quando fizer sua abertura, será um país próspero e maravilhoso. É um equívoco monumental", disse Bresser-Pereira.
Para ele, a raiz do problema está na taxa de câmbio ou, simplificando, no valor dos bens vis a vis os produzidos no exterior. Se a taxa de câmbio está muito valorizada, desestimula-se a produção e os investimentos.
"A taxa de câmbio é o interruptor que liga ou desliga as empresas do mercado internacional", afirma. "Se ela [taxa de câmbio] for apreciada, ele vai decidir não investir. Fará as contas e perceberá rapidamente que é muito mais fácil e rápido importar".
Sua ideia é adotar uma política cambial ativa -hoje o câmbio é função da atuação do governo na área monetária (juros) e na área fiscal (gastos públicos). O que daria mais condições de competir às empresas.
"O México fez tantos acordos comerciais e sua economia está um desastre, como a do Brasil", acrescentou.
Para Mariano Laplane, uma inserção internacional brasileira "inovadora" passa pelo convencimento das elites política e econômica de que o país precisa mudar para se adaptar a um novo mundo que emerge da urbanização asiática e do aquecimento global.
"O envelhecimento da população já está ocorrendo em países da Europa e no Japão, no Brasil está com data marcada. Grandes transformações demográficas marcarão a economia internacional", disse.
Segundo ele, as elites optaram um modelo de inserção adaptativa, que implica menos mudanças, mas que não funciona. É preciso, em sua visão, "reformas profundas na estrutura da nossa economia".
"A estratégia adaptativa não nos permitirá atender às expectativas de uma parte importante da população, continuar o processo de redução das desigualdades e não nos dará uma taxa de crescimento adequada para reduzir as brechas [tecnológicas] entre os setores produtivos do Brasil e os do mundo desenvolvido".
Segundo ele, é preciso enfrentar problemas como "uma estrutura tributária estupidamente regressiva, que cria desigualdade em vez de reduzi-la" e "uma carga tributária que recai basicamente sobre assalariados e empresas".
"Não adianta recorrer ao pensamento mágico e dizer que a solução está na esquina, que é só fazer acordos internacionais e abrir a economia. Isso não vai resolver. Melhorar nossa pauta de exportações exige um esforço enorme em inovação de recursos públicos e privados", afirmou.
Para Laplane, a saída é apostar em cadeias de produção próprias em áreas em que o Brasil é competitivo, como na geração de energia por meio de biomassa, eólica e no aprimoramento dos setores de commodities."
terça-feira, março 01, 2016
Campos possui 18 mil alunos no Ensino Superior
O professor e amigo José Carlos Salomão Ferreira, colaborador do blog, mais uma vez nos oferece as informações do Censo do Inep/MEC, agora na versão 2014, a última disponibilizada, sobre a quantidade de alunos no ensino superior nos municípios da região.
Pelos dados oficiais extraídos do Inep/MEC (Censo 2014) o número de matrículas em cursos presenciais no ensino superior no município de Campos dos Goytacazes é de 18.062 alunos, estudando em 11 instituições, sendo 4 públicas e outras 7 particulares.
Este número de alunos no ensino superior em Campos é 2% maior do que os 17.164 alunos do Censo Inep/MEC 2013. Uma boa surpresa, mesmo que apenas com os números do Censo de 2015, que devem ser liberados no final de 2016, se possa verificar melhor o impacto das dificuldades econômicas regionais, já presentes no segundo semestre de 2014.
De qualquer forma, para um município que já teve 9,5 mil bolsas pagas pelo poder público local, a manutenção deste número total de matrículas em 2014, pode refletir tanto a expansão da rede pública, a participação do FIES e ainda uma autonomia do sistema privado com a cobrança das mensalidades. É bom recordar que o pico do número de matrículas no município foi identificado em 2008, quando se chegou a 21.244 matrículas no ensino superior em Campos.
Do total de 18.062 matrículas em Campos, 37,5% estão em instituições públicas percentual um pouco maior do que os 35% do censo anterior. A instituição com maior quantidade de alunos em Campos, continua a ser a Estácio de Sá, com 3.090 alunos, seguido da Ucam-Campos com 2.452 matrículas.
Entre as instituições a maior redução de matrículas acontece no Uniflu (Centro Universitário Fluminense). Entre 2003 e 2008 o número de matrículas se aproximavam de 4 mil, somando a Fafic, FDC e FOC, enquanto em 2014, as três somam apenas 1.140 alunos. Veja no quadro abaixo a evolução da quantidade de matrículas no ensino superior em Campos.
Entre as instituições a maior redução de matrículas acontece no Uniflu (Centro Universitário Fluminense). Entre 2003 e 2008 o número de matrículas se aproximavam de 4 mil, somando a Fafic, FDC e FOC, enquanto em 2014, as três somam apenas 1.140 alunos. Veja no quadro abaixo a evolução da quantidade de matrículas no ensino superior em Campos.
Se estimarmos as matrículas na pós graduação em Campos (especialização, mestrado e doutorado), anualmente, entre 3 e 4 mil estudantes seria possível afirmar que o município dispõe de um número entre 21 mil e 22 mil universitários. Um número ainda considerável.
É ainda interessante observar a ampliação das matrículas em Cabo Frio que cresceram 14% e atingiram a 9.326 estudantes e, em Macaé, que cresceu 7% e atingiu um total de 8.540 matrículas e assim, já podem ser considerados como dois outros polos regionais de ensino superior. Melhor se houver nestes dois polos, avanços também nas áreas de pesquisa e extensão. Voltaremos ao assunto.
segunda-feira, fevereiro 29, 2016
Fundo EIG Partners, controlador da Prumo e Porto do Açu, entra com ação nos EUA contra a Petrobras
O fundo financeiro americano EIG Partners que controla a Prumo Logística Global e o Porto do Açu decidiu registrar, na semana passada, em Washington, ação contra a Petrobras no valor de US$ 221 milhões (R$ 879 milhões), alegando prejuízos por conta de sua participação acionária na empresa Sete Brasil, que reunia contratos para a construção de 28 sondas para a estatal.
Além do fundo EIG Partners, a companhia Sete Brasil conta com diversos outros sócios, como os bancos Bradesco e Santander, BTG Pactual, outro fundo financeiro, o Luce Venture Lakeshore, além dos fundos previdenciários Petrus, Valia, Previ e Funcef que juntos investiram um total R$ 8,4 bilhões no empreendimento.
Os destinos da Sete Brasil estão sendo avaliados pelos sócios e pela Petrobras, por conta da redução das demandas por serviços de exploração de petróleo, em função dos baixos preços do barril e por conta das apurações da Operação Lava Jato.
Embora se tratem de empreendimentos diferentes, resta saber a repercussão desta decisão sobre os contratos que envolvem o Porto do Açu, onde a Petrobras usará a base portuária que a também americana Edison Chouest está construindo no terminal 2, além de outras parcerias relativas ao setor de óleo e gás no ERJ.
Além do fundo EIG Partners, a companhia Sete Brasil conta com diversos outros sócios, como os bancos Bradesco e Santander, BTG Pactual, outro fundo financeiro, o Luce Venture Lakeshore, além dos fundos previdenciários Petrus, Valia, Previ e Funcef que juntos investiram um total R$ 8,4 bilhões no empreendimento.
Os destinos da Sete Brasil estão sendo avaliados pelos sócios e pela Petrobras, por conta da redução das demandas por serviços de exploração de petróleo, em função dos baixos preços do barril e por conta das apurações da Operação Lava Jato.
Embora se tratem de empreendimentos diferentes, resta saber a repercussão desta decisão sobre os contratos que envolvem o Porto do Açu, onde a Petrobras usará a base portuária que a também americana Edison Chouest está construindo no terminal 2, além de outras parcerias relativas ao setor de óleo e gás no ERJ.
domingo, fevereiro 28, 2016
Porto do Açu espicha o "Circuito Espacial do Petróleo" no litoral do ERJ e mira o próximo "ciclo petro-econômico"
Há quem queira entender que a realidade da atual fase de baixa (que prefiro chamar de colapso) do ciclo do petróleo permanecerá para sempre. Quem age assim coloca interesses acima da compreensão do fenômeno. Insisto que vivemos um "ciclo petro-econômico" que produz mudanças em diferentes dimensões e escalas nas diversas nações e corporações.
Concluí nesta semana um texto sobre o tema explicitando as características das duas fases deste "ciclo petro-econômico" que caminha para se encerrar, abrindo espaço adiante, para o início de um novo ciclo.
Compreender a condição cíclica deste fenômeno, como parte dos ciclos mais gerais da economia é indispensável para identificar e analisar as consequências para as nações e para as regiões que possuem bases operacionais, daquilo que chamo de Economia do Petróleo, que é diversa da Economia dos Royalties que se vive nos municípios petrorrentistas.
Algumas regiões no Brasil, sairão bem diferente desta fase de colapso do ciclo petro-ecômico. Esta fase de colapso dos preços do barril de petróleo produz mudanças em diversas dimensões, uma delas é a movimentação espacial desta cadeia produtiva no Brasil.
A intensificação da pesquisa empírica e o debate sobre esta dinâmica tem sido tema de discussões, mesa redonda e diálogo junto aos colegas da academia e alguns gestores públicos. Na medida do possível, eu venho compartilhando com os amigos que frequentam o blog, a evolução destas percepções, dados e indicadores, assim como algumas análises deste processo.
A análise parte da materialidade real do que vem acontecendo a nível da economia global, nacional e regional. A Economia do Petróleo se alinha com o movimento da economia global, por se tratar do produto (commodity) mais comercializado no mundo.
Os interesses que circundam esta economia e produzem inversão das fases do ciclo não são apenas de caráter econômico e com participação das corporações globais (estatais ou privadas), mas também geopolíticos, guiados por interesses e decisões de caráter político que definem a forma de sua atuação sobre os territórios.
Assim, é possível identificar que novas dinâmicas econômico-espaciais estão ocorrendo no litoral do ERJ constituindo o que passei a chamar de "Circuito Espacial do Petróleo e dos Royalties".
Insere-se neste campo de observação, de forma especial a entrada do Porto do Açu, como base de apoio à exploração de petróleo offshore e também a movimentação de petróleo e gás prestes a ser implantado.
É possível observar que mesmo antes da entrada em funcionamento da base portuária da BrasilPort, do grupo americano Edison Chouest no Açu, já se tem movimentações de embarcações nos terminais T2 e TMult, referentes à ancoragem de embarcações para serviços de manutenção e outros.
Este foi o caso da plataforma, tipo flotel da GranEnergia que permaneceu no Porto do Açu por cerca de dez dias e tinha previsão de zarpar ontem. Este flotel (foto abaixo) "Olympia - Cidade de Araruama" presta serviços para a Petrobras.
O flotel tem a função de ser base para acomodação de equipes de manutenção, em atividades desenvolvidas no ambiente offshre das plataformas de produção. É uma plataforma semissubmerssível que foi construída na China e possui 84,2 metros de comprimento e tem capacidade para hospedar 500 pessoas.
Este é apenas um exemplo do processo que está em curso e que já promove alterações na dinâmica econômico-espacial da região. Não foi por outro motivo que a Prefeitura de Macaé lutou tanto contra a licitação da base de apoio para exploração offshore feita pela Petrobras que acabou sendo vencida pela Edison Chouest para ser instalada em área junto ao Terminal 2 do Porto do Açu.
Atividades deste tipo já geram receitas de ISS (Imposto sobre Serviços) para o município de São João da Barra, que precisa adequar seu corpo técnico e de fiscais, para acompanhar e realizar as cobranças devidas e não ficar apenas aguardando as declarações da empresa sobre seus faturamentos. Cabe à PMSJB o recebimento das alíquotas de 2,5% sobre a fatura do serviço. Segundo revisão da lei municipal feita ainda antes do início da construção do porto, a alíquota de 5% foi rebaixada para 2,5% para serviços portuários.
Hoje, o município de Macaé tem uma receita anual de cerca de R$ 700 milhões de ISS sendo a principal arrecadação do município. Maior até do que as parcelas dos royalties e participações especiais, como comentei em nota aqui no blog no dia 18 de fevereiro, sob o título "Macaé passa Campos em orçamento total: o que isto significa?".
Pensar políticas públicas para evitar a "macaenização" é urgente para que os ônus para toda a sociedade sejam menores que os bônus econômicos. Melhor seria interpretar esta realidade de maneira regional que é como ele se comporta e não isoladamente, por município e por setor.
Enfim, seguimos acompanhando este movimento que faz parte das investigações para a elaboração das pesquisas da tese de doutorado no PPFH-UERJ que pretendo concluir até o final deste ano. Por conta dos afazeres desta pesquisa, o blog deverá ter nos próximos meses a sua atualização bem reduzida, em relação ao que hoje compartilho aqui com leitores e colaboradores. Espero a compreensão de todos, enquanto seguimos em frente.
Concluí nesta semana um texto sobre o tema explicitando as características das duas fases deste "ciclo petro-econômico" que caminha para se encerrar, abrindo espaço adiante, para o início de um novo ciclo.
Compreender a condição cíclica deste fenômeno, como parte dos ciclos mais gerais da economia é indispensável para identificar e analisar as consequências para as nações e para as regiões que possuem bases operacionais, daquilo que chamo de Economia do Petróleo, que é diversa da Economia dos Royalties que se vive nos municípios petrorrentistas.
Algumas regiões no Brasil, sairão bem diferente desta fase de colapso do ciclo petro-ecômico. Esta fase de colapso dos preços do barril de petróleo produz mudanças em diversas dimensões, uma delas é a movimentação espacial desta cadeia produtiva no Brasil.
A intensificação da pesquisa empírica e o debate sobre esta dinâmica tem sido tema de discussões, mesa redonda e diálogo junto aos colegas da academia e alguns gestores públicos. Na medida do possível, eu venho compartilhando com os amigos que frequentam o blog, a evolução destas percepções, dados e indicadores, assim como algumas análises deste processo.
A análise parte da materialidade real do que vem acontecendo a nível da economia global, nacional e regional. A Economia do Petróleo se alinha com o movimento da economia global, por se tratar do produto (commodity) mais comercializado no mundo.
Os interesses que circundam esta economia e produzem inversão das fases do ciclo não são apenas de caráter econômico e com participação das corporações globais (estatais ou privadas), mas também geopolíticos, guiados por interesses e decisões de caráter político que definem a forma de sua atuação sobre os territórios.
Assim, é possível identificar que novas dinâmicas econômico-espaciais estão ocorrendo no litoral do ERJ constituindo o que passei a chamar de "Circuito Espacial do Petróleo e dos Royalties".
Insere-se neste campo de observação, de forma especial a entrada do Porto do Açu, como base de apoio à exploração de petróleo offshore e também a movimentação de petróleo e gás prestes a ser implantado.
É possível observar que mesmo antes da entrada em funcionamento da base portuária da BrasilPort, do grupo americano Edison Chouest no Açu, já se tem movimentações de embarcações nos terminais T2 e TMult, referentes à ancoragem de embarcações para serviços de manutenção e outros.
Este foi o caso da plataforma, tipo flotel da GranEnergia que permaneceu no Porto do Açu por cerca de dez dias e tinha previsão de zarpar ontem. Este flotel (foto abaixo) "Olympia - Cidade de Araruama" presta serviços para a Petrobras.
O flotel tem a função de ser base para acomodação de equipes de manutenção, em atividades desenvolvidas no ambiente offshre das plataformas de produção. É uma plataforma semissubmerssível que foi construída na China e possui 84,2 metros de comprimento e tem capacidade para hospedar 500 pessoas.
Este é apenas um exemplo do processo que está em curso e que já promove alterações na dinâmica econômico-espacial da região. Não foi por outro motivo que a Prefeitura de Macaé lutou tanto contra a licitação da base de apoio para exploração offshore feita pela Petrobras que acabou sendo vencida pela Edison Chouest para ser instalada em área junto ao Terminal 2 do Porto do Açu.
Atividades deste tipo já geram receitas de ISS (Imposto sobre Serviços) para o município de São João da Barra, que precisa adequar seu corpo técnico e de fiscais, para acompanhar e realizar as cobranças devidas e não ficar apenas aguardando as declarações da empresa sobre seus faturamentos. Cabe à PMSJB o recebimento das alíquotas de 2,5% sobre a fatura do serviço. Segundo revisão da lei municipal feita ainda antes do início da construção do porto, a alíquota de 5% foi rebaixada para 2,5% para serviços portuários.
Hoje, o município de Macaé tem uma receita anual de cerca de R$ 700 milhões de ISS sendo a principal arrecadação do município. Maior até do que as parcelas dos royalties e participações especiais, como comentei em nota aqui no blog no dia 18 de fevereiro, sob o título "Macaé passa Campos em orçamento total: o que isto significa?".
Pensar políticas públicas para evitar a "macaenização" é urgente para que os ônus para toda a sociedade sejam menores que os bônus econômicos. Melhor seria interpretar esta realidade de maneira regional que é como ele se comporta e não isoladamente, por município e por setor.
Enfim, seguimos acompanhando este movimento que faz parte das investigações para a elaboração das pesquisas da tese de doutorado no PPFH-UERJ que pretendo concluir até o final deste ano. Por conta dos afazeres desta pesquisa, o blog deverá ter nos próximos meses a sua atualização bem reduzida, em relação ao que hoje compartilho aqui com leitores e colaboradores. Espero a compreensão de todos, enquanto seguimos em frente.
quinta-feira, fevereiro 25, 2016
Fechamento de capital da Prumo tem conflitos e interesses
Os acionistas minoritários possuem 25% das ações e são liderados pelo Banco Itaú e pelo fundo de Abu Dhabi, Mubadala. Cada um possui hoje 6,5% obtido em negociação das dívidas feitas na época que a empresa era LLX, do Eike Batista. Os demias 12% estão divididos por pequenos acionistas.
Todos questionam os valores de ação feito por um laudo elaborado por um banco contratado e que indicou o valor de R$ 1,15 ou R$ 11,50 se for considerado o valor da ação já agrupada em dez.
O fundo americano de investimentos EIG que herdou o controle da LLX, transformada em Prumo, foi aos poucos transformando a empresa numa holding (grupo) que hoje controla diversas outras empresas em parcerias com outras empresas.
É quase impossível não relacionar o interesse dos americanos em fechar o capital da Prumo, com as votações no Congresso Nacional que estão pressionando para alterar as leis do marco regulatório do petróleo no Brasil. Eles sabem que o setor vive ciclos. Há quem não queira entender isto.
Nesta investigação há que se considerar a ampliação da relação do empreendimento do Porto do Açu com a cadeia produtiva do petróleo que no país demanda grande base de apoio logístico portuário. Continuamos acompanhando.
Todos questionam os valores de ação feito por um laudo elaborado por um banco contratado e que indicou o valor de R$ 1,15 ou R$ 11,50 se for considerado o valor da ação já agrupada em dez.
O fundo americano de investimentos EIG que herdou o controle da LLX, transformada em Prumo, foi aos poucos transformando a empresa numa holding (grupo) que hoje controla diversas outras empresas em parcerias com outras empresas.
É quase impossível não relacionar o interesse dos americanos em fechar o capital da Prumo, com as votações no Congresso Nacional que estão pressionando para alterar as leis do marco regulatório do petróleo no Brasil. Eles sabem que o setor vive ciclos. Há quem não queira entender isto.
Nesta investigação há que se considerar a ampliação da relação do empreendimento do Porto do Açu com a cadeia produtiva do petróleo que no país demanda grande base de apoio logístico portuário. Continuamos acompanhando.
quarta-feira, fevereiro 24, 2016
Por que retirar da Petrobras a condição de operadora única do Pré-sal é ruim para o Brasil?
Como ando tratando do assunto com bastante assiduidade no blog, eu pensei em escrever um texto sobre o tema que é objeto agora de decisão no Senado Federal.
Porém, eu recebi este texto do sociólogo Marcelo Zero, publicado originalmente no site "Diálogo Petroleiro" e replicado em diversos outras páginas nas redes sociais, apresenta de forma clara, didática e bem completa os argumentos sobre o assunto.
É importante conhecer mais profundamente a questão, para além daquilo que tem tentado explicar os colunistas econômicos, por razões já conhecidas. Vale conferir!
Por que retirar da Petrobras a condição de operadora única do pré-sal é ruim para o Brasil?
Marcelo Zero*
I- Porque ter a Petrobras como operadora única garante ao País o controle estratégico das reservas e da produção do óleo. Sem a Petrobras, perdemos essa garantia.
A experiência internacional demonstra que os países que são grandes exportadores de petróleo têm, em sua grande maioria, robustas operadoras nacionais de suas jazidas.
Hoje, cerca de 75% das reservas internacionais provadas de petróleo estão nas mãos de operadoras nacionais. Conforme previsão da Agência Internacional de Energia, a tendência é a de que essas operadoras nacionais sejam responsáveis por 80% da produção adicional de petróleo e gás até 2030.
Isso não é casual. Para dominar o mercado, os países produtores precisam dominar as reservas e controlar o ritmo e os custos de produção. O primeiro fator é assegurado pelo regime de partilha e o segundo fator é assegurado pela operadora nacional. A OPEP seria inviável sem o regime de partilha e sem grandes operadoras nacionais.
A operadora nacional é o complemento necessário ao regime de partilha. De nada adianta o país ter o domínio das reservas se a produção é ditada pelos interesses imediatistas de grandes operadoras multinacionais. Sem uma grande operadora, o país não tem controle efetivo sobre o ritmo da produção, sobre os seus custos reais e, consequentemente, sobre a remuneração efetivamente devida ao Estado.
Foi essa realidade que levou os grandes países produtores, nos anos sessenta e setenta, a nacionalizarem as jazidas e, ao mesmo tempo, constituírem robustas operadoras nacionais. Com isso, eles multiplicaram seus rendimentos, passaram a deter as informações estratégicas sobre as jazidas e os custos de exploração e dominaram o mercado mundial do petróleo.
Retirar da Petrobras a condição de operadora do pré-sal significa retroceder à lógica predatória e imediatista da época na qual o mercado era dominado por sete grandes companhias internacionais de petróleo. Uma época em que os países produtores sequer conseguiam saber os custos de produção de suas próprias jazidas. Significa, em última instância, renunciar à gestão estratégica de um recurso finito e não renovável.
Sem essa gestão estratégica, o Brasil poderá se converter em mero exportador açodado de petróleo cru, ao sabor dos interesses particulares e imediatistas de empresas estrangeiras, contribuindo para deprimir preços internacionais e deixando de investir em seu próprio desenvolvimento.
II- Porque o petróleo ainda será um recurso energético fundamental ao longo deste século.
Um dos principais argumentos que motivam os que querem enfraquecer a Petrobras tange ao suposto fato de que o petróleo deixou de ser um recurso estratégico, pois deverá ser substituído rapidamente por outras fontes de energia, particularmente as limpas e renováveis.
Segundo eles, a grande baixa atual do preço do óleo já reflete essa tendência e deverá ser permanente. Assim, teríamos de explorar o pré-sal de modo célere, com o auxílio de multinacionais, antes que se torne um ativo sem valor.
Ora, tal previsão não tem nenhum fundamento científico. A grande baixa dos preços do petróleo está obviamente relacionada à crise mundial, que contraiu conjunturalmente a demanda, bem como às disputas geopolíticas e geoeconômicas sobre o controle do mercado mundial, particularmente no que tange à viabilidade econômica do óleo de xisto. Há um claro processo de dumping em andamento, que contraiu artificialmente o preço do petróleo.
Esse dumping já começou a ser revertido, como mostra o recente acordo feito entre Arábia Saudita, Rússia e outros países, e a crise mundial não durará para sempre.
A maior parte dos analistas prevê que a demanda mundial por óleo subirá de 91 milhões de barris/dia, em 2014, para 111 milhões de barris dia até 2040. Tal demanda será puxada pelo crescimento dos países emergentes, em especial na Ásia, e pelas necessidades dos sistemas de transporte e do setor petroquímico. Observe-se que o petróleo não serve apenas para produzir gasolina e diesel. Ele é insumo para mais de três mil outros produtos.
Com isso, o preço do petróleo voltará a subir. O suprimento de energias renováveis crescerá, mas a transição para uma matriz energética inteiramente limpa será, sem dúvida, gradual.
Na realidade, o que os analistas afirmam é que as necessidades ambientais e climáticas impactarão mais o carvão, responsável por dois terços do estoque de carbono das jazidas minerais, que o petróleo e o gás, fontes mais limpas que esse mineral.
Obviamente, o atual ambiente de dumping produz grande pressão para que o Brasil venda rapidamente o pré-sal. Seria erro trágico. A venda nessas condições de preços artificialmente baixos renderia pouco no presente e comprometeria muito nosso futuro.
Devemos ter em mente o que aconteceu com a Vale. Na época de sua venda, com os preços do minério bastante baixos, diziam que o ferro já não tinha valor estratégico algum e que o futuro pertencia aos novos materiais sintéticos. Pouco tempo depois, os preços do minério dispararam e a Vale privatizada passou a faturar mais por ano que o preço aviltado de sua venda.
III- Porque a Petrobras tem totais condições de explorar o pré-sal.
Outro argumento muito usado nesse debate é o de que a Petrobras, fragilizada financeiramente, não teria condições de explorar o pré-sal.
Não é verdade.
Todas as grandes companhias de petróleo passam, em maior ou menor grau, por dificuldades econômicas ocasionadas pela conjuntura negativa do mercado. No caso da Petrobras, seu endividamento se deve também à necessidade de realizar os grandes investimentos imprescindíveis à exploração do pré-sal.
Contudo, a Petrobras, além de operar com lucro substancial, tem solidez financeira, pois está lastreada num fantástico ativo patrimonial: o pré-sal. Segundo pesquisa do Instituto Nacional de Óleo e Gás da UERJ, divulgada em 2015, o pré-sal contém 176 bilhões de barris, óleo suficiente para cobrir, sozinho, cinco anos de consumo mundial de hidrocarbonetos. Perto dessa riqueza extraordinária, a dívida atual da empresa é troco miúdo.
Não faltarão recursos para que a Petrobras continue a investir no pré-sal. O mercado financeiro nacional e internacional sabe muito bem que a Petrobras tem expertise, tecnologia e patrimônio para superar suas atuais dificuldades.
Sabe muito bem que, independentemente de seus detratores internos, a empresa tem tudo para gerar lucros e dividendos muito maiores que seus passivos. Ademais, o mundo dispõe hoje de fontes alternativas de financiamento, como a do Banco do BRICS, por exemplo, que podem ser acionadas de forma complementar.
A dívida da empresa poderia se tornar um grande problema, porém, na situação em que a Petrobras perca o acesso às jazidas, como querem os propugnadores do projeto que retira dela a condição de operadora única. Nesse caso, a empresa perderia seu lastro patrimonial e, aí sim, poderia se fragilizar ao ponto de não conseguir mais operar.
Em vez de simplesmente reduzir seus investimentos, como faz agora para se adaptar à nova realidade do mercado, a Petrobras poderia não ter mais como investir um centavo.
Na realidade, ao se retirar da Petrobras a condição de operadora única do pré-sal poderia se conduzir a empresa à falência ou a uma inevitável privatização. Talvez seja esse um dos objetivos implícitos do projeto.
IV- Porque o País perderia todo o investimento feito pela Petrobras e a alta tecnologia por ela desenvolvida
Ao contrário de outras operadoras nacionais, que apenas se apropriaram de jazidas já provadas, a Petrobras, desde o início, teve de investir maciçamente, ao longo de décadas, em prospecção e desenvolvimento de tecnologia.
Com isso, ela se tornou uma das operadoras mais eficientes e lucrativas do mundo e conseguiu, a muito custo, produzir tecnologia de ponta na exploração em águas profundas e ultraprofundas.
A Petrobras é a empresa brasileira que mais gera patentes e ganhou, por três vezes, o OTC Distinguished Achievement Award, maior prêmio internacional concedido às empresas de petróleo que se distinguem em desenvolvimento tecnológico. Tal esforço inovador se espraia por áreas diversas, como Petroquímica, Engenharia Mecânica, Engenharia de Segurança do Trabalho, Medicina e Física, e repercute positivamente numa vasta cadeia produtiva.
Ora, todo esse esforço histórico, iniciado a partir da década de 1950 (quando se dizia que o Brasil não tinha petróleo), se perderia, caso a Petrobras perca, agora, a condição de operadora única do pré-sal. A inevitável e profunda fragilização da empresa que seria derivada dessa trágica decisão jogaria fora todo o investimento realizado em décadas de trabalho duro e o país perderia uma grande fonte de desenvolvimento tecnológico.
Não nos parece racional e justo que, após todo esse esforço, se dê de bandeja, sem nenhum risco e por um preço aviltado, os recursos do pré-sal a empresas que nunca fizeram investimentos de prospecção no Brasil e que não desenvolvem tecnologia no país.
V- Porque o Brasil perderia os instrumentos para conduzir a política de conteúdo nacional, consolidar a cadeia produtiva do petróleo e alavancar seu desenvolvimento.
A cadeia de petróleo e gás, comandada pela Petrobras, é a maior cadeia produtiva do país, responsável por cerca de 20% do PIB brasileiro e 15% dos empregos gerados.
Tal cadeia é sustentada por uma política de conteúdo nacional, que gera demanda robusta em setores-chave como o da construção civil pesada e a indústria naval, só para citar alguns poucos.
Ora, retirar da Petrobras a condição de operadora única do pré-sal poderia implodir toda essa política e desarticular essa estratégica cadeia produtiva.
As empresas estrangeiras de petróleo normalmente contratam serviços no mercado internacional e importam insumos e bens em seus países de origem. Ao contrário da Petrobras, não têm compromisso algum com o desenvolvimento da indústria nacional brasileira.
Já a Petrobras, em seu Plano de Negócios e Gestão, previu investimentos de US$ 130,3 bilhões para o período de 2015 a 2019. Trata-se de mais de R$ 400 bilhões que serão investidos quase que totalmente no Brasil. Não podemos comprometer esses e outros investimentos, seguramente mais volumosos, que virão mais tarde, graças à exploração do pré-sal pela Petrobras.
Os recursos que a Petrobras investe e investirá para explorar o pré-sal são e serão fundamentais para alavancar o desenvolvimento do Brasil. Assim, retirar da Petrobras a condição de operadora do pré-sal significaria, em última instância, a destruição dessa alavanca única e o consequente comprometimento do nosso desenvolvimento.
VI- Porque o Brasil perderia futuro.
Por ser recurso finito e não renovável, o petróleo tem de ser gerido com perspectiva de longo prazo e com base na solidariedade intergeracional.
Foi essa visão que fez o Congresso Nacional aprovar a destinação dos royalties e participações especiais do petróleo para a Educação (75%) e Saúde (25%). Decidimos trocar recursos do presente para investir nas futuras gerações.
Temos de analisar a questão da Petrobras como operadora do pré-sal dentro dessa mesma visão estratégica.
A retirada da Petrobras como operadora única obedece a uma lógica de curto prazo: estamos numa crise e precisamos de dinheiro rápido para nos dar alívio financeiro. Se vendermos o pré-sal às multinacionais do setor, poderemos gerar uma receita que nos ajude a pagar juros da dívida, a fazer superávits primários e a equacionar desequilíbrios fiscais.
Já manutenção da Petrobras como operadora do pré-sal, com tudo o que isso implica, obedece a uma lógica de longo prazo: estamos em crise e, se alavancarmos nosso desenvolvimento com os recursos do pré-sal, não só contribuiremos para a sua superação, como criaremos as condições para o Brasil inicie um novo ciclo de crescimento mais sólido e duradouro.
Neste segundo caso, trata-se de cambiar a miragem liberalizante de curto prazo pela visão estratégica que assegurará futuro para as novas gerações de brasileiros.
No primeiro e trágico caso, trata-se de trocar o futuro pelo presente.
Retirar a Petrobras dos campos do pré-sal significa simplesmente vendê-los. E vender o pré-sal é vender futuro. E quem vende futuro já se perdeu no presente.
* – É sociólogo, especialista em Relações Internacionais e membro do Grupo de Reflexão sobre Relações Internacionais (GR-RI)
Porém, eu recebi este texto do sociólogo Marcelo Zero, publicado originalmente no site "Diálogo Petroleiro" e replicado em diversos outras páginas nas redes sociais, apresenta de forma clara, didática e bem completa os argumentos sobre o assunto.
É importante conhecer mais profundamente a questão, para além daquilo que tem tentado explicar os colunistas econômicos, por razões já conhecidas. Vale conferir!
Por que retirar da Petrobras a condição de operadora única do pré-sal é ruim para o Brasil?
Marcelo Zero*
I- Porque ter a Petrobras como operadora única garante ao País o controle estratégico das reservas e da produção do óleo. Sem a Petrobras, perdemos essa garantia.
A experiência internacional demonstra que os países que são grandes exportadores de petróleo têm, em sua grande maioria, robustas operadoras nacionais de suas jazidas.
Hoje, cerca de 75% das reservas internacionais provadas de petróleo estão nas mãos de operadoras nacionais. Conforme previsão da Agência Internacional de Energia, a tendência é a de que essas operadoras nacionais sejam responsáveis por 80% da produção adicional de petróleo e gás até 2030.
Isso não é casual. Para dominar o mercado, os países produtores precisam dominar as reservas e controlar o ritmo e os custos de produção. O primeiro fator é assegurado pelo regime de partilha e o segundo fator é assegurado pela operadora nacional. A OPEP seria inviável sem o regime de partilha e sem grandes operadoras nacionais.
A operadora nacional é o complemento necessário ao regime de partilha. De nada adianta o país ter o domínio das reservas se a produção é ditada pelos interesses imediatistas de grandes operadoras multinacionais. Sem uma grande operadora, o país não tem controle efetivo sobre o ritmo da produção, sobre os seus custos reais e, consequentemente, sobre a remuneração efetivamente devida ao Estado.
Foi essa realidade que levou os grandes países produtores, nos anos sessenta e setenta, a nacionalizarem as jazidas e, ao mesmo tempo, constituírem robustas operadoras nacionais. Com isso, eles multiplicaram seus rendimentos, passaram a deter as informações estratégicas sobre as jazidas e os custos de exploração e dominaram o mercado mundial do petróleo.
Retirar da Petrobras a condição de operadora do pré-sal significa retroceder à lógica predatória e imediatista da época na qual o mercado era dominado por sete grandes companhias internacionais de petróleo. Uma época em que os países produtores sequer conseguiam saber os custos de produção de suas próprias jazidas. Significa, em última instância, renunciar à gestão estratégica de um recurso finito e não renovável.
Sem essa gestão estratégica, o Brasil poderá se converter em mero exportador açodado de petróleo cru, ao sabor dos interesses particulares e imediatistas de empresas estrangeiras, contribuindo para deprimir preços internacionais e deixando de investir em seu próprio desenvolvimento.
II- Porque o petróleo ainda será um recurso energético fundamental ao longo deste século.
Um dos principais argumentos que motivam os que querem enfraquecer a Petrobras tange ao suposto fato de que o petróleo deixou de ser um recurso estratégico, pois deverá ser substituído rapidamente por outras fontes de energia, particularmente as limpas e renováveis.
Segundo eles, a grande baixa atual do preço do óleo já reflete essa tendência e deverá ser permanente. Assim, teríamos de explorar o pré-sal de modo célere, com o auxílio de multinacionais, antes que se torne um ativo sem valor.
Ora, tal previsão não tem nenhum fundamento científico. A grande baixa dos preços do petróleo está obviamente relacionada à crise mundial, que contraiu conjunturalmente a demanda, bem como às disputas geopolíticas e geoeconômicas sobre o controle do mercado mundial, particularmente no que tange à viabilidade econômica do óleo de xisto. Há um claro processo de dumping em andamento, que contraiu artificialmente o preço do petróleo.
Esse dumping já começou a ser revertido, como mostra o recente acordo feito entre Arábia Saudita, Rússia e outros países, e a crise mundial não durará para sempre.
A maior parte dos analistas prevê que a demanda mundial por óleo subirá de 91 milhões de barris/dia, em 2014, para 111 milhões de barris dia até 2040. Tal demanda será puxada pelo crescimento dos países emergentes, em especial na Ásia, e pelas necessidades dos sistemas de transporte e do setor petroquímico. Observe-se que o petróleo não serve apenas para produzir gasolina e diesel. Ele é insumo para mais de três mil outros produtos.
Com isso, o preço do petróleo voltará a subir. O suprimento de energias renováveis crescerá, mas a transição para uma matriz energética inteiramente limpa será, sem dúvida, gradual.
Na realidade, o que os analistas afirmam é que as necessidades ambientais e climáticas impactarão mais o carvão, responsável por dois terços do estoque de carbono das jazidas minerais, que o petróleo e o gás, fontes mais limpas que esse mineral.
Obviamente, o atual ambiente de dumping produz grande pressão para que o Brasil venda rapidamente o pré-sal. Seria erro trágico. A venda nessas condições de preços artificialmente baixos renderia pouco no presente e comprometeria muito nosso futuro.
Devemos ter em mente o que aconteceu com a Vale. Na época de sua venda, com os preços do minério bastante baixos, diziam que o ferro já não tinha valor estratégico algum e que o futuro pertencia aos novos materiais sintéticos. Pouco tempo depois, os preços do minério dispararam e a Vale privatizada passou a faturar mais por ano que o preço aviltado de sua venda.
III- Porque a Petrobras tem totais condições de explorar o pré-sal.
Outro argumento muito usado nesse debate é o de que a Petrobras, fragilizada financeiramente, não teria condições de explorar o pré-sal.
Não é verdade.
Todas as grandes companhias de petróleo passam, em maior ou menor grau, por dificuldades econômicas ocasionadas pela conjuntura negativa do mercado. No caso da Petrobras, seu endividamento se deve também à necessidade de realizar os grandes investimentos imprescindíveis à exploração do pré-sal.
Contudo, a Petrobras, além de operar com lucro substancial, tem solidez financeira, pois está lastreada num fantástico ativo patrimonial: o pré-sal. Segundo pesquisa do Instituto Nacional de Óleo e Gás da UERJ, divulgada em 2015, o pré-sal contém 176 bilhões de barris, óleo suficiente para cobrir, sozinho, cinco anos de consumo mundial de hidrocarbonetos. Perto dessa riqueza extraordinária, a dívida atual da empresa é troco miúdo.
Não faltarão recursos para que a Petrobras continue a investir no pré-sal. O mercado financeiro nacional e internacional sabe muito bem que a Petrobras tem expertise, tecnologia e patrimônio para superar suas atuais dificuldades.
Sabe muito bem que, independentemente de seus detratores internos, a empresa tem tudo para gerar lucros e dividendos muito maiores que seus passivos. Ademais, o mundo dispõe hoje de fontes alternativas de financiamento, como a do Banco do BRICS, por exemplo, que podem ser acionadas de forma complementar.
A dívida da empresa poderia se tornar um grande problema, porém, na situação em que a Petrobras perca o acesso às jazidas, como querem os propugnadores do projeto que retira dela a condição de operadora única. Nesse caso, a empresa perderia seu lastro patrimonial e, aí sim, poderia se fragilizar ao ponto de não conseguir mais operar.
Em vez de simplesmente reduzir seus investimentos, como faz agora para se adaptar à nova realidade do mercado, a Petrobras poderia não ter mais como investir um centavo.
Na realidade, ao se retirar da Petrobras a condição de operadora única do pré-sal poderia se conduzir a empresa à falência ou a uma inevitável privatização. Talvez seja esse um dos objetivos implícitos do projeto.
IV- Porque o País perderia todo o investimento feito pela Petrobras e a alta tecnologia por ela desenvolvida
Ao contrário de outras operadoras nacionais, que apenas se apropriaram de jazidas já provadas, a Petrobras, desde o início, teve de investir maciçamente, ao longo de décadas, em prospecção e desenvolvimento de tecnologia.
Com isso, ela se tornou uma das operadoras mais eficientes e lucrativas do mundo e conseguiu, a muito custo, produzir tecnologia de ponta na exploração em águas profundas e ultraprofundas.
A Petrobras é a empresa brasileira que mais gera patentes e ganhou, por três vezes, o OTC Distinguished Achievement Award, maior prêmio internacional concedido às empresas de petróleo que se distinguem em desenvolvimento tecnológico. Tal esforço inovador se espraia por áreas diversas, como Petroquímica, Engenharia Mecânica, Engenharia de Segurança do Trabalho, Medicina e Física, e repercute positivamente numa vasta cadeia produtiva.
Ora, todo esse esforço histórico, iniciado a partir da década de 1950 (quando se dizia que o Brasil não tinha petróleo), se perderia, caso a Petrobras perca, agora, a condição de operadora única do pré-sal. A inevitável e profunda fragilização da empresa que seria derivada dessa trágica decisão jogaria fora todo o investimento realizado em décadas de trabalho duro e o país perderia uma grande fonte de desenvolvimento tecnológico.
Não nos parece racional e justo que, após todo esse esforço, se dê de bandeja, sem nenhum risco e por um preço aviltado, os recursos do pré-sal a empresas que nunca fizeram investimentos de prospecção no Brasil e que não desenvolvem tecnologia no país.
V- Porque o Brasil perderia os instrumentos para conduzir a política de conteúdo nacional, consolidar a cadeia produtiva do petróleo e alavancar seu desenvolvimento.
A cadeia de petróleo e gás, comandada pela Petrobras, é a maior cadeia produtiva do país, responsável por cerca de 20% do PIB brasileiro e 15% dos empregos gerados.
Tal cadeia é sustentada por uma política de conteúdo nacional, que gera demanda robusta em setores-chave como o da construção civil pesada e a indústria naval, só para citar alguns poucos.
Ora, retirar da Petrobras a condição de operadora única do pré-sal poderia implodir toda essa política e desarticular essa estratégica cadeia produtiva.
As empresas estrangeiras de petróleo normalmente contratam serviços no mercado internacional e importam insumos e bens em seus países de origem. Ao contrário da Petrobras, não têm compromisso algum com o desenvolvimento da indústria nacional brasileira.
Já a Petrobras, em seu Plano de Negócios e Gestão, previu investimentos de US$ 130,3 bilhões para o período de 2015 a 2019. Trata-se de mais de R$ 400 bilhões que serão investidos quase que totalmente no Brasil. Não podemos comprometer esses e outros investimentos, seguramente mais volumosos, que virão mais tarde, graças à exploração do pré-sal pela Petrobras.
Os recursos que a Petrobras investe e investirá para explorar o pré-sal são e serão fundamentais para alavancar o desenvolvimento do Brasil. Assim, retirar da Petrobras a condição de operadora do pré-sal significaria, em última instância, a destruição dessa alavanca única e o consequente comprometimento do nosso desenvolvimento.
VI- Porque o Brasil perderia futuro.
Por ser recurso finito e não renovável, o petróleo tem de ser gerido com perspectiva de longo prazo e com base na solidariedade intergeracional.
Foi essa visão que fez o Congresso Nacional aprovar a destinação dos royalties e participações especiais do petróleo para a Educação (75%) e Saúde (25%). Decidimos trocar recursos do presente para investir nas futuras gerações.
Temos de analisar a questão da Petrobras como operadora do pré-sal dentro dessa mesma visão estratégica.
A retirada da Petrobras como operadora única obedece a uma lógica de curto prazo: estamos numa crise e precisamos de dinheiro rápido para nos dar alívio financeiro. Se vendermos o pré-sal às multinacionais do setor, poderemos gerar uma receita que nos ajude a pagar juros da dívida, a fazer superávits primários e a equacionar desequilíbrios fiscais.
Já manutenção da Petrobras como operadora do pré-sal, com tudo o que isso implica, obedece a uma lógica de longo prazo: estamos em crise e, se alavancarmos nosso desenvolvimento com os recursos do pré-sal, não só contribuiremos para a sua superação, como criaremos as condições para o Brasil inicie um novo ciclo de crescimento mais sólido e duradouro.
Neste segundo caso, trata-se de cambiar a miragem liberalizante de curto prazo pela visão estratégica que assegurará futuro para as novas gerações de brasileiros.
No primeiro e trágico caso, trata-se de trocar o futuro pelo presente.
Retirar a Petrobras dos campos do pré-sal significa simplesmente vendê-los. E vender o pré-sal é vender futuro. E quem vende futuro já se perdeu no presente.
* – É sociólogo, especialista em Relações Internacionais e membro do Grupo de Reflexão sobre Relações Internacionais (GR-RI)
terça-feira, fevereiro 23, 2016
"O mundo assistiu a "regulamentação" do Estado pelos mercados, concebida nas salas adornadas com a rica tapeçaria de WallStrret" por Belluzzo
Outro bom artigo do professor Luiz Gonzaga Belluzzo da Unicamp, junto com Gabriel Galípolo da PUC/SP que foi publicado hoje no Valor, P. A11.
O texto é cirúrgico na análise da sociedade contemporânea desigual controlada pelos mercados. Mais que opinião, ele se utiliza de alguns importantes indicadores que reforçam os argumentos dos caminhos seguidos pela liberalização total e completa, não apenas do mercado, mas da vida das pessoas. Vale conferir!
"A queda do meio"
"Estudos recentes delatam, sem premiação, o corolário da reestruturação conservadora operada na economia mundial nos últimos 40 anos. Em outubro de 2015 o Credit Suisse publicou o Global Wealth Databook. O estudo revela que a riqueza acumulada pelo 1% mais abastado da população mundial agora equivale, pela primeira vez, à riqueza dos 99% restantes. A Oxfam afirma que em 2015, apenas 62 indivíduos detinham a mesma riqueza que 3,6 bilhões de pessoas - a metade mais afetada pela pobreza da humanidade. Estudo recente da OCDE sobre desigualdade ("Inequality -The Gap between Rich and Poor") afirma que entre 1975 e 2012, cerca de 47% do crescimento total da renda antes de impostos [nos EUA] foi para o 1% no topo.
Nesse cenário, acirrou-se o conflito distributivo com repercussões no debate democrático. Na Europa, crescem os partidos de extrema-direita. A eleição americana demonstra as dificuldades das posições políticas de centro diante da "radicalização" à direita e à esquerda. Ainda que o socialdemocrata Bernie Sanders não consiga vencer as primárias, seu discurso empurrou Hillary para posições mais próximas da esquerda liberal americana. Já na turma republicana fica difícil definir quem está mais à direita.
Como assinalou o lúcido conservador Martin Wolf em artigo publicado no Valor em 3/2, "Políticos bem sucedidos compreendem que as pessoas precisam sentir que suas preocupações têm de ser levadas em consideração, de que eles e seus filhos desfrutem a perspectiva de uma vida melhor e de que vão continuar a ter uma dimensão adequada de segurança econômica" O declínio do centro exprime de forma dramática a ruptura das relações mais "equilibradas" entre os poderes do "livre mercado" e o resguardo dos direitos econômicos e sociais dos cidadãos desfavorecidos.
Nos estertores dos anos 1970, a estagflação desarranjou o acordo social e econômico concertado no pós-guerra. Mais na Europa, mas também nos Estado Unidos, esse acordo ensejou durante 30 anos uma virtuosa combinação entre crescimento econômico, baixa inflação, ganhos reais nos salários médios, ampliação do emprego e da massa salarial com redução das desigualdades.
No início dos 80, Ronald Reagan e Margareth Thatcher proclamavam que "o Estado era o problema e não a solução. Eles preconizavam a redução de impostos para os ricos "poupadores". Acusavam os sistemas de tributação progressiva de desestimular a poupança e debilitar o impulso privado ao investimento. Os sindicatos "prejudicavam" a economia e os trabalhadores ao pretender fixar a taxa de salário fora do "preço de equilíbrio". Era preciso "acabar com tudo aquilo".
Liberada, a velha toupeira do capitalismo cavou fundo e redefiniu em poucos anos a distribuição espacial da produção, do comércio, dos fluxos de capitais. Em sua fúria criadora e destrutiva, entregou os mercados financeiros às suas insanidades, o que impulsionou a formação de oligopólios globais, centralizando o controle da produção em poucas empresas e promovendo a precarização em massa do emprego.
A crise financeira esgueirou-se silenciosa nos subterrâneos da economia globalizada, enquanto seus acólitos midiáticos e acadêmicos evangelizavam o público com as crendices sobre os mercados eficientes e "competitivos" povoados por agentes racionais e otimizadores.
Observada em suas conexões globais, a crise acusa o desafino da orquestra formada pela China-Europa (Alemanha?) e Estados Unidos, os exportadores de commodities como coadjuvantes. Desafinou: em 2015 o PIB mundial a preços correntes apresenta valor inferior ao de 2012, o índice de preços das commodities não combustíveis apresenta valores inferiores ao de 2006 e o preço do barril do petróleo é o menor desde 2005. Para completar o quadro, só faltavam os solavancos bancários dos primeiros meses de 2016.
Quando irrompeu das profundezas, o terremoto financeiro de 2008 exigiu socorro às instituições financeiras globalizadas. Incapazes de revigorar as economias, as políticas monetárias e fiscais socializaram prejuízos, engordaram a riqueza rentista-parasitária por meio do endividamento dos Estados. De quebra, acentuaram a concentração de renda e reabilitaram dos baixios do fracasso a sub-teologia dos mercados eficientes e competitivos.
O relatório anual do Bank of International Settlements- 2014/2015 (BIS), constata que antes e depois da crise financeira "a expansão do crédito em vez de financiar a aquisição de bens e serviços, o que eleva os gastos e o produto,... está simplesmente financiando a aquisição de ativos já existentes, sejam eles 'reais' (imóveis ou empresas) ou financeiros".
Entre os "ativos já existentes" sobressaem as dívidas soberanas. O observatório da OCDE revela: a dívida pública em percentual do PIB nos países da Organização apresentava uma média de pouco mais de 40% em 1970. Ela se eleva para quase 100% em 2011, assoberbada pelas operações de "quantitative easing", leia-se, a troca do lixo tóxico gerado na farra financeira por títulos dos governos com remunerações reais (yields) negativas.
A nova etapa do capitalismo não realizou a propalada redução do Estado. Há quem se perca nas palavras e imagine observar as consequências da "desregulamentação". Nada disso, denuncia o ex-economista-chefe do FMI, Simon Johnson: o mundo assistiu à "regulamentação" do Estado pelos mercados, concebida nas salas adornadas com a rica tapeçaria de Wall Street. O rádio, televisão e jornais empenham-se em convencer os cidadãos da necessidade de se sacrificar, aceitar cortes nos gastos sociais, abdicar dos direitos ou encarar a destruição da economia. Morra nos hospitais sem médicos nem remédios. Em nome da ciência econômica, do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Amem.
Na terra de Santa Cruz, a pertinente e necessária demanda por equilíbrio entre receitas e despesas públicas é utilizada para condenar o Estado Social. Não obstante a economia brasileira ter apresentado superávits primários em todos os anos entre 1997 e 2013, tentam jogar o paquiderme na sala para debaixo do tapete - dos R$ 613 bilhões de déficit nominal, o elefante dos juros pesa R$ 501 bilhões."
Luiz Gonzaga Belluzzo é professor titular do Instituto de Economia da Unicamp e escreve mensalmente às terças-feiras. Gabriel Galípolo, professor do depto. de economia da PUC/SP
O texto é cirúrgico na análise da sociedade contemporânea desigual controlada pelos mercados. Mais que opinião, ele se utiliza de alguns importantes indicadores que reforçam os argumentos dos caminhos seguidos pela liberalização total e completa, não apenas do mercado, mas da vida das pessoas. Vale conferir!
"A queda do meio"
"Estudos recentes delatam, sem premiação, o corolário da reestruturação conservadora operada na economia mundial nos últimos 40 anos. Em outubro de 2015 o Credit Suisse publicou o Global Wealth Databook. O estudo revela que a riqueza acumulada pelo 1% mais abastado da população mundial agora equivale, pela primeira vez, à riqueza dos 99% restantes. A Oxfam afirma que em 2015, apenas 62 indivíduos detinham a mesma riqueza que 3,6 bilhões de pessoas - a metade mais afetada pela pobreza da humanidade. Estudo recente da OCDE sobre desigualdade ("Inequality -The Gap between Rich and Poor") afirma que entre 1975 e 2012, cerca de 47% do crescimento total da renda antes de impostos [nos EUA] foi para o 1% no topo.
Nesse cenário, acirrou-se o conflito distributivo com repercussões no debate democrático. Na Europa, crescem os partidos de extrema-direita. A eleição americana demonstra as dificuldades das posições políticas de centro diante da "radicalização" à direita e à esquerda. Ainda que o socialdemocrata Bernie Sanders não consiga vencer as primárias, seu discurso empurrou Hillary para posições mais próximas da esquerda liberal americana. Já na turma republicana fica difícil definir quem está mais à direita.
Como assinalou o lúcido conservador Martin Wolf em artigo publicado no Valor em 3/2, "Políticos bem sucedidos compreendem que as pessoas precisam sentir que suas preocupações têm de ser levadas em consideração, de que eles e seus filhos desfrutem a perspectiva de uma vida melhor e de que vão continuar a ter uma dimensão adequada de segurança econômica" O declínio do centro exprime de forma dramática a ruptura das relações mais "equilibradas" entre os poderes do "livre mercado" e o resguardo dos direitos econômicos e sociais dos cidadãos desfavorecidos.
Nos estertores dos anos 1970, a estagflação desarranjou o acordo social e econômico concertado no pós-guerra. Mais na Europa, mas também nos Estado Unidos, esse acordo ensejou durante 30 anos uma virtuosa combinação entre crescimento econômico, baixa inflação, ganhos reais nos salários médios, ampliação do emprego e da massa salarial com redução das desigualdades.
No início dos 80, Ronald Reagan e Margareth Thatcher proclamavam que "o Estado era o problema e não a solução. Eles preconizavam a redução de impostos para os ricos "poupadores". Acusavam os sistemas de tributação progressiva de desestimular a poupança e debilitar o impulso privado ao investimento. Os sindicatos "prejudicavam" a economia e os trabalhadores ao pretender fixar a taxa de salário fora do "preço de equilíbrio". Era preciso "acabar com tudo aquilo".
Liberada, a velha toupeira do capitalismo cavou fundo e redefiniu em poucos anos a distribuição espacial da produção, do comércio, dos fluxos de capitais. Em sua fúria criadora e destrutiva, entregou os mercados financeiros às suas insanidades, o que impulsionou a formação de oligopólios globais, centralizando o controle da produção em poucas empresas e promovendo a precarização em massa do emprego.
A crise financeira esgueirou-se silenciosa nos subterrâneos da economia globalizada, enquanto seus acólitos midiáticos e acadêmicos evangelizavam o público com as crendices sobre os mercados eficientes e "competitivos" povoados por agentes racionais e otimizadores.
Observada em suas conexões globais, a crise acusa o desafino da orquestra formada pela China-Europa (Alemanha?) e Estados Unidos, os exportadores de commodities como coadjuvantes. Desafinou: em 2015 o PIB mundial a preços correntes apresenta valor inferior ao de 2012, o índice de preços das commodities não combustíveis apresenta valores inferiores ao de 2006 e o preço do barril do petróleo é o menor desde 2005. Para completar o quadro, só faltavam os solavancos bancários dos primeiros meses de 2016.
Quando irrompeu das profundezas, o terremoto financeiro de 2008 exigiu socorro às instituições financeiras globalizadas. Incapazes de revigorar as economias, as políticas monetárias e fiscais socializaram prejuízos, engordaram a riqueza rentista-parasitária por meio do endividamento dos Estados. De quebra, acentuaram a concentração de renda e reabilitaram dos baixios do fracasso a sub-teologia dos mercados eficientes e competitivos.
O relatório anual do Bank of International Settlements- 2014/2015 (BIS), constata que antes e depois da crise financeira "a expansão do crédito em vez de financiar a aquisição de bens e serviços, o que eleva os gastos e o produto,... está simplesmente financiando a aquisição de ativos já existentes, sejam eles 'reais' (imóveis ou empresas) ou financeiros".
Entre os "ativos já existentes" sobressaem as dívidas soberanas. O observatório da OCDE revela: a dívida pública em percentual do PIB nos países da Organização apresentava uma média de pouco mais de 40% em 1970. Ela se eleva para quase 100% em 2011, assoberbada pelas operações de "quantitative easing", leia-se, a troca do lixo tóxico gerado na farra financeira por títulos dos governos com remunerações reais (yields) negativas.
A nova etapa do capitalismo não realizou a propalada redução do Estado. Há quem se perca nas palavras e imagine observar as consequências da "desregulamentação". Nada disso, denuncia o ex-economista-chefe do FMI, Simon Johnson: o mundo assistiu à "regulamentação" do Estado pelos mercados, concebida nas salas adornadas com a rica tapeçaria de Wall Street. O rádio, televisão e jornais empenham-se em convencer os cidadãos da necessidade de se sacrificar, aceitar cortes nos gastos sociais, abdicar dos direitos ou encarar a destruição da economia. Morra nos hospitais sem médicos nem remédios. Em nome da ciência econômica, do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Amem.
Na terra de Santa Cruz, a pertinente e necessária demanda por equilíbrio entre receitas e despesas públicas é utilizada para condenar o Estado Social. Não obstante a economia brasileira ter apresentado superávits primários em todos os anos entre 1997 e 2013, tentam jogar o paquiderme na sala para debaixo do tapete - dos R$ 613 bilhões de déficit nominal, o elefante dos juros pesa R$ 501 bilhões."
Luiz Gonzaga Belluzzo é professor titular do Instituto de Economia da Unicamp e escreve mensalmente às terças-feiras. Gabriel Galípolo, professor do depto. de economia da PUC/SP
AIE prevê produção de mais 836 mil barris diários de petróleo pelo Brasil até 2021, 2º maior crescimento de fora da Opep
Ao contrário de muitos pessimistas, a Agência Internacional de Energia (AIE) em relatório divulgado ontem em Davos, na Suíça durante o evento conferência IHS Energy CERAWeek, prevê avanço da produção de petróleo no Brasil de 836 mil barris diários nos próximos cinco anos.
Neste volume, o Brasil terá o segundo maior crescimento de produção de petróleo do mundo nos próximos cinco, só atrás dos EUA, dentre os países que não são da Opep. Outros dados do relatório comentamos em nota abaixo (ver aqui).
O destaque do relatório da AIE para o Brasil é o pré-sal, como não poderia deixar de ser, em especial o campo de Libra. Vale conferir aqui a nota do blog sobre o início da operação do FPSO Cidade de Maricá e do gasoduto submarino Rota 2, o de maior extensão no Brasil.
O relatório da AIE fala ainda sobre a estimativa de aumento de demanda de petróleo no Brasil, diante do cenário atual de freagem das atividades econômicas. Assim, a AIE prevê um aumento de consumo de gasolina equivalente, de 1,0 milhão de barris para 1,1 milhão de milhão de barris por dia e um crescimento do uso do etanol, por conta da mistura com o diesel que passará de 7% para 10%.
Pelo Plano de Negócios e Gestão da Petrobras (PNG 2015-2019) se tem um previsão de uma produção em 2020 de 2,7 milhões de barris por dia. Considerando que a estimativa da AIE leva em conta a produção não apenas da estatal, mas também de outras petroleiras no país, a estimativa total de 3,36 milhões de barris por dia, parece estar dentro do cenário, tendo em vista a atual fase de baixa do ciclo do petróleo.
Vale ainda recordar a postagem que fala de todo o relatório da AIE (aqui) fez previsão de apenas 4,1 milhões de barris por dia (mb /d) sendo adicionados a oferta global de petróleo entre 2015 e 2021, bem abaixo do crescimento total de 11 mb/d do período 2009-2015.
Considerando todo os produtores, o destaque é do Irã, que depois da suspensão das sanções deverá liderar os de produção de petróleo em 2,9 milhões de barris por dia, subindo de 1 mb/d para 3,9 mb/d em 2021.
O outro destaque seria os EUA que pela AIE deverá atingir a liderança mundial de produção em 2021 com cerca de 14,2 milhões de barris por dia. Em 2015, a produção de petróleo nos EUA foi de 9,7 milhões de barris por dia. A conferir!
PS.:Atualizado às 22:55: Para inserir a informação de que a produção a mais de 836 mil barris de petróleo até o ano 2021 é diário.
Neste volume, o Brasil terá o segundo maior crescimento de produção de petróleo do mundo nos próximos cinco, só atrás dos EUA, dentre os países que não são da Opep. Outros dados do relatório comentamos em nota abaixo (ver aqui).
O destaque do relatório da AIE para o Brasil é o pré-sal, como não poderia deixar de ser, em especial o campo de Libra. Vale conferir aqui a nota do blog sobre o início da operação do FPSO Cidade de Maricá e do gasoduto submarino Rota 2, o de maior extensão no Brasil.
O relatório da AIE fala ainda sobre a estimativa de aumento de demanda de petróleo no Brasil, diante do cenário atual de freagem das atividades econômicas. Assim, a AIE prevê um aumento de consumo de gasolina equivalente, de 1,0 milhão de barris para 1,1 milhão de milhão de barris por dia e um crescimento do uso do etanol, por conta da mistura com o diesel que passará de 7% para 10%.
Pelo Plano de Negócios e Gestão da Petrobras (PNG 2015-2019) se tem um previsão de uma produção em 2020 de 2,7 milhões de barris por dia. Considerando que a estimativa da AIE leva em conta a produção não apenas da estatal, mas também de outras petroleiras no país, a estimativa total de 3,36 milhões de barris por dia, parece estar dentro do cenário, tendo em vista a atual fase de baixa do ciclo do petróleo.
Vale ainda recordar a postagem que fala de todo o relatório da AIE (aqui) fez previsão de apenas 4,1 milhões de barris por dia (mb /d) sendo adicionados a oferta global de petróleo entre 2015 e 2021, bem abaixo do crescimento total de 11 mb/d do período 2009-2015.
Considerando todo os produtores, o destaque é do Irã, que depois da suspensão das sanções deverá liderar os de produção de petróleo em 2,9 milhões de barris por dia, subindo de 1 mb/d para 3,9 mb/d em 2021.
O outro destaque seria os EUA que pela AIE deverá atingir a liderança mundial de produção em 2021 com cerca de 14,2 milhões de barris por dia. Em 2015, a produção de petróleo nos EUA foi de 9,7 milhões de barris por dia. A conferir!
PS.:Atualizado às 22:55: Para inserir a informação de que a produção a mais de 836 mil barris de petróleo até o ano 2021 é diário.
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