quarta-feira, julho 06, 2016

Plataformas desabitadas com produção controladas remotamente na Bacia de Campos

Esta fase de colapso de preços do barril de petróleo - que é parte do que insisto em denominar como "ciclo petro-econômico" - leva as petroleiras (estatais ou privadas) a avançarem em seus projetos de redução de custos e aumentos de produtividade.

É neste contexto que deve ser compreendida a decisão da Petrobras, que vem sendo amadurecida há algum tempo, para "desabitar" algumas plataformas que passarão a ser controladas remotamente e apenas acompanhadas, com periodicidade, por equipes de manutenção.

Segundo, matéria publicada no domingo no Estadão, o projeto de controle remoto da produção de plataformas do Polo Nordeste na Bacia de Campos. Este tipo de procedimento já é usado há algum tempo em pequenas unidades no litoral do Nordeste Brasileiro.

Segundo a reportagem (aqui) este controle automatizado já atingiu 17 unidades de produção e se pretende avançar para mais cinco áreas da Bacia de Campos que deixariam de ter uma tripulação fixa. Pela programação da Petrobras, a cada 3 dias, 10 técnicos inspecionariam as plataformas.

O projeto tem o questionamento do Ministério Público do Trabalho (MPT-RJ) e do Sindicato dos Petroleiros do Norte Fluminense, preocupados com as questões sobre segurança do trabalho e ambientais. A ANP (Agência Nacional de Petróleo) também exige antecipadamente a apresentação de análise de riscos para aprovar a implantação destas mudanças.

O projeto me fez recordar quando na década de 90, ao desenvolver minha dissertação de mestrado na Coppe/UFRJ, sobre o trabalho offshore, pesquisei sobre o avanço do processo de automação e que trazia como perspectiva esta possibilidade de desabitação das plataformas de produção de petróleo.

A Petrobras diz que vai iniciar a desabitação pelas plataformas de Carapeba e Vermelho, instaladas no Polo Nordeste da Bacia de campos, que hoje possuem menores volumes de produção, na faixa dos 10 mil barris por dia.

Tipo sistema de controle de produção
de petróleo a ser feito à distância
Porém, o objetivo é depois avançar, replicando a experiência para outras unidades de produção, embora a empresa negue a hipótese de repetir o procedimento para as grandes plataformas.

Por trás de tudo isto está a busca pela redução de gastos e redução da participação do trabalho humano, paulatinamente, como elemento de custos na extração/produção de petróleo offshore no Brasil.


A Petrobras estima que a redução de custos, com eliminação (redução) de pessoas a bordo e com o transporte através de helicópteros até as unidades de produção, entre outros, poderia reduzir os custos entre US$ 5 e US$ 10 por barril, produzido no ambiente offshore da Bacia de Campos.

Evidentemente que a decisão ampliará os riscos nas unidades que deverão ensejar a implantação de maiores mecanismos de controle, que exigirão equipes em terra fazendo este trabalho.

Outro desdobramento interessante é o aumento do peso e custos com as empresas de engenharia e prestadoras de serviço passarão a ter com esta inciativa.

A maioria destas empresas é de grandes players globais da engenharia de petróleo atuando em várias fronteiras exploratórias no mundo. Com esta experiência elas passam também a deter know-how a serem replicados em outros ambientes de produção.

Retornando ao que disse no início deste texto, a engenharia de petróleo da Petrobras vem avançando muito nos últimos anos e em vários segmentos, ao contrário daquilo que se tenta vender diariamente. Em especial há que registrar os avanços na exploração/produção no ambiente offshore e de águas profundas e também no acompanhamento e projetos de embarcações que servem a estes serviços.

Assim, fica mais claro que a fase de colapso de preços dos ciclos petro-econômicos (e não é diferente do atual) tende, como é de costume, estabelecer novos padrões de produção que passam a entrar em vigência a partir de então. Adiante, eles serão convalidados para uso, mesmo quando se inverter para uma nova fase da expansão dos preços do barril de petróleo já em novo ciclo.

Além disto, esta fase de colapso do ciclo é também o período em que as organizações dos trabalhadores têm menos capacidade de resistência, por conta das pressões por demissões e perdas.

Por isso, nas comunicações derivadas de minhas pesquisas, eu tenho insistido que é fundamental se compreender as características, fases e dimensões do "ciclo petro-econômico" e de como ele repercute no interior dos países (relações com os trabalhadores e a sociedade) e ainda na relação entre as nações produtoras e consumidoras, assim como na relação entre elas, sob o domínio da geopolítica.

Para debater estes e outros assuntos, atendendo a um convite da Federação Única dos Petroleiros (FUP), eu estarei participando no próximo sábado (09/07) de uma mesa redonda, em sua VI Plenária (PlenaFUP) abordando o tema "O ciclo petro-econômico e a defesa do Pré-sal/Petrobras como motor do desenvolvimento nacional".

PS.: Atualizado às 12:40: Para pequeno acréscimo no texto.

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