terça-feira, outubro 13, 2015

Soffiati defende que a Lagoa de Iquipari é parte do contexto de toda a restinga

O professor, historiador e ecologista Aristides Arthur Soffiati em mais um artigo escrito para o blog, defende que não se deve analisar as lagoas costeiras sem considerar toda a restinga.


A foz do Paraíba do Sul (I)
Arthur Soffiati
Formação geológica e aspectos ambientais
            Tanto Alberto Ribeiro Lamego (1945-54) quanto Martin, Suguio, Dominguez e Flexor (1997) explicam a formação da grande restinga na foz do Rio Paraíba do Sul como uma construção oriunda da ação das correntes marinhas associadas ao rio. A corrente marinha dominante, segundo as duas interpretações do complexo delta do Paraíba do Sul, desloca-se ainda hoje de oeste para leste-norte.

Figura 1- Primeira fase da construção da planície fluviomarinha do Paraíba do Sul. As linhas com setas indicam a direção da corrente marítima principal. A restinga estudada neste artigo será construída entre as ilhas alongadas e a linha pontilhada. Mapa concebido por Martin, Suguio, Dominguez e Flexor
           
            Para ambas as interpretações, uma restinga se forma pela existência de algum obstáculo sólido, natural ou artificial. Em 1940, Lamego enfrentou um dilema metodológico e empírico. Ele foi um ardoroso defensor das obras de dragagem e drenagem efetuadas primeiro pela Comissão de Saneamento da Baixada Fluminense e depois pelo Departamento Nacional de Obras e Saneamento (DNOS), sucessor da primeira. Tecnicamente, não era difícil transferir as águas de enchente do Rio Paraíba do Sul para as lagoas da margem direita do rio. Como há uma ligeira declividade no terreno da margem direita, a abertura de canais poderia conduzir a água de cheia para as lagoas, como já acontecia naturalmente pelos drenos naturais. Os canais geométricos acelerariam o deslocamento de água do rio para lagoas e destas para outras. No final, poder-se-ia abrir canais para o escoamento das águas para o mar. No entanto, ponderava ele, as correntes marinhas são tão fortes na costa norte fluminense que a tendência era o fechamento das barras desses canais, a menos que a vazão deles fosse grande para mantê-las abertas, como demonstravam os Rios Paraíba do Sul e Itabapoana. Fixar a barra com estruturas construídas com material sólido contribuiria para reter areia de um lado, formando uma restinga, e provocando erosão do outro lado. Foi o que aconteceu com o espigão oeste de Barra do Furado, engordando a praia de Quissamã e erodindo a praia da Boa Vista do lado de Campos.

            Não havendo quem construísse uma estrutura de pedra na foz do Rio Paraíba do Sul, como uma tão extensa restinga poderia se formar? Para Lamego e os quatro geólogos, o jato do rio entrando no mar funcionou como um espigão líquido, retendo areia do lado sul e lançando o excedente arenoso para o lado norte.

            Examinando esta restinga em mapas e imagens de satélite, verifica-se que ela se formou em faixas paralelas ao litoral (processo de transgressão/regressão). No setor norte da restinga, a areia acumulada junto ao tabuleiro vedou antigos córregos, que se transformaram em lagoas perpendiculares à costa. O recuo progressivo do mar formou as Lagoas do Campelo, ligada ao Paraíba do Sul pelo Córrego da Cataia, e vários brejos entre os cordões arenosos da restinga, sendo o de Cacimbas o mais expressivo. Em direção à linha da costa, sucedem-se os Brejos dos Cocos, dos Farias e do Mangue Seco. Junto ao litoral, registram-se as Lagoas do Comércio, da Taboa e da Praia.


Figura 2- Setor norte da restinga do Rio Paraíba do Sul: 1- Rio Paraíba do Sul; 2- Lagoa do Campelo; 3- Córrego da Cataia; 4- Lagoa do Arisco; 5- Brejo de Cacimbas; 6- Brejo dos Cocos; 7- Brejo dos Farias; 8- Brejo Mangue Seco; 9-Canal principal do delta (Atafona); 10- Canal secundário do delta (Gargaú). Mapa: Alberto Ribeiro Lamego (1954)


Figura 3- Lagoas na margem esquerda do Rio Paraíba do Sul junto ao canal de Gargaú: 1- Lagoa do Comércio; 2- Lagoa da Taboa; 3- Lagoa da Praia. Imagem Google Earth

            Na margem direita, o processo de formação foi o mesmo: avanços e recuos progressivos do mar junto à planície aluvial, formando uma sucessão de imensas lagoas emendadas como pérolas de um colar. O sistema mais interno, entre a planície aluvial e a restinga, era constituído pelas Lagoas do Taí Pequeno, dos Jacarés, da Bananeira, do Pau Grande e Brejo do Riscado. Ao lado desse curso e paralelo a ele, outro era formado pelas Lagoas do Taí Grande, do Quitingute, do Camará, Salgada e da Ostra. Ambos os sistemas sugeriam dois grandes cursos d'água que ora se alargavam em lagoas, ora se estreitavam em córregos. Os dois ligavam os Rios Paraíba do Sul e Iguaçu. Este segundo reunia vários defluentes da Lagoa Feia, formando um curso d'água que, como era muito comum na baixada, alargava-se e estreitava. Dois alargamentos mais conspícuos constituíam a Lagoa do Lagamar, onde, por ocasião das cheias, a praia se abria para o mar e formava a Barra Velha, e o Banhado da Boa Vista. No estreitamento final, o Iguaçu projetava-se no mar.

            Nas enchentes, águas do Paraíba do Sul entravam nesses dois cursos e corriam para o Rio Iguaçu. Do segundo curso, partiam as Lagoas de Gruçaí e Iquipari, que funcionavam como braços do grande delta. Entre o Rio Paraíba do Sul e a margem esquerda da Lagoa de Gruçaí, havia um pequeno curso a ligá-las e formando a Lagoa da Barreira. Entre a barra da Lagoa de Iquipari e a foz do Rio Iguaçu, havia, íntegra, a Lagoa do Veiga, estreito sistema hídrico paralelo à costa, que se juntava ao Rio Iguaçu em seu desaguadouro. Havia ainda um canal natural entre o Rio Paraíba do Sul e a Lagoa de Gruçaí, conhecido pelos antigos como valão. Parte do que restou dele está assinada em azul na figura abaixo.


 Figura 4- Extinto valão de Gruçaí. Imagem Google Earth


Figura 5- 1- Rio Paraíba do Sul; 2- Lagoa do Taí Pequeno; 3- Lagoa dos Jacarés; 4- Lagoa de Bananeira; 5- Lagoa do Pau Grande; 6- Brejo do Riscado; 7- Lagoa do Taí Grande; 8- Lagoa do Quitingute; 9- Lagoa da Ostra; 10- Lagoa Salgada; 11- Lagoa de Gruçaí; 12- Lagoa de Iquipari; 13- Lagoa do Veiga; 14- Rio Iguaçu. Mapa: Alberto Ribeiro Lamego (1954)

Vegetação nativa
            Num solo arenoso, como o das restingas, as vegetações existentes nas formações geológicas de sua retaguarda são selecionadas pela salinidade existente no substrato e transportada pelos ventos. Estes são os dois fatores limitantes principais. Os ventos contribuem para a constituição de zonas de vegetação. A praia, sendo lavada pelas ondas do mar e pelas marés, não contém plantas. Logo a seguir, existe uma faixa de plantas herbáceas numa zona de 400 metros, mais ou menos, na restinga da foz do Paraíba do Sul. Os 300 metros seguintes são ocupados por plantas arbustivas. No final, há uma zona com árvores que podem alcançar grande porte. Nas depressões intercordões, acumula-se água e as plantas precisam se adaptar à umidade. A zonação decorre dos ventos, que vão perdendo intensidade à medida que se afastam da costa e pela redução causada pela própria vegetação. Uma análise mais detalhada mostra que estas grandes zonas podem ser divididas em menores.


Figura 6- Vegetação nativa de restinga, vendo-se as Lagoas de Gruçaí e de Iquipari correndo paralelas. Foto: Dina Lerner (1992)

            Nos pontos em que a água doce dos rios se encontra com a água salgada do mar, formam-se estuários, ambientes de água salobra propícios ao arraigamento de manguezais, formações pioneiras de influência fluviomarinha. O delta do Paraíba do Sul é formado pelo braço de Atafona - o principal - e o braço de Gargaú - secundário. Desenvolveu-se aí um dos dois maiores manguezais do Estado do Rio de Janeiro. Os manguezais são formados por espécies vegetais exclusivas desse ecossistema, como o mangue branco, o mangue vermelho e o mangue preto, e por espécies associadas. Existem também espécies animais exclusivas, como o caranguejo-uçá, e espécies associadas e visitantes. Formaram-se também manguezais na foz das Lagoas de Gruçaí, Iquipari e do Rio Iguaçu.


 Figura 7- Manguezal do Rio Paraíba do Sul (Riacho dos Macacos). Foto do autor (1992)

            Em linhas gerais, traçou-se o perfil da restinga do Rio Paraíba do Sul do que denomino terceira ecofisionomia da Ecorregião de São Tomé na época holocênica. Esta época tem cerca de 12 mil anos e já foi maior que a atual nos primórdios do Holoceno. Era, então a primeira ecofisionomia da ecorregião. Em seguida, o mar começou a subir e a invadir o continente. Essa elevação formou, então, a segunda ecofisionomia. Com o recuo do mar e o avanço do continente, agora formado por sedimentos transportados pelo Rio Paraíba do Sul, principalmente, constitui-se a terceira ecofisionomia, a que os europeus encontraram quando aqui chegaram e da qual existem ainda incontáveis remanescentes.

            Em conclusão a este artigo, o primeiro de dois, pode-se afirmar que:
1- É bastante artificial esquartejar a restinga em bacias ou em qualquer outro fragmento para estudos acadêmicos. Uma bacia, como a da Lagoa de Gruçaí ou do Veiga, pode ser estudada, mas sempre inserida no seu contexto maior. No máximo, pode-se dividir a restinga em norte e sul, setores já separados pelo grande rio.

2- Esta é talvez a mais úmida restinga do Estado do Rio de Janeiro por ter sido construída/destruída pela associação do oceano com o Rio Paraíba do Sul. Nas duas seções, ela abrigava rios caudalosos e lagoas expressivas.

3- A biodiversidade nos setores norte e sul era muito rica em plantas, invertebrados, peixes, anfíbios, répteis, aves e mamíferos.

            No segundo artigo da série, analisaremos o processo de destruição da terceira ecofisionomia da Baixada dos Goytacazes e a construção da quarta ecofisionomia pela ação humana. Trata-se de uma intervenção no ambiente a partir do fim do século XVII que ainda está em curso e que tenta substituir a geometria fractal do território por uma geografia euclidiana.  

"Face da Legalidade - Mais democracia, Menos golpismo!"


segunda-feira, outubro 12, 2015

Porto Sudeste faz 2º carregamento para a China - importância dos portos para o ERJ

O Porto Sudeste instalado na Baía de Sepetiba, município de Itaguaí, RJ realizou, na última semana de setembro, mais um embarque de minério de ferro.

O Porto Sudeste foi projetado pelo empresário Eike Batista e hoje é controlado pelo trading suíça Trafigura, através de sua subsidiária Impala, junto do fundo de investimentos Mubadala, de Abu Dhabi. (Mais detalhes veja aqui nesta postagem do blog em 2 de março de 2015). 

Assim, como o Porto do Açu, a informação sobre o primeiro embarque só foi liberada depois de do seu encerramento.  Ambos os portos começaram a ser construídos com capital nacional e se transformaram em infraestruturas portuárias controladas por players, que atuam nos fluxos do comércio global. 

Ao identificar este mosaico da economia global é possível identificar a profunda articulação entre o sistema financeiro, as grandes tradings de commodities (mineral e do agronegócio) e ainda as operadoras marítimas de cargas entre os portos do mundo.

De acordo com a administração do Porto Sudeste, um volume de 148 mil toneladas de minério foram transportadas de Minas Gerais até o litoral fluminense, através de 13 composições ferroviárias. 

A partir desta integração modal é que se deu o último embarque no terminal do Porto Sudeste, através do navio graneleiro Yuritamou, embarcação que zarpou carregada, no dia 2 de outubro, em direção à China. Ainda segundo a administração do porto, outros dois embarques estão previstos para acontecer neste mês de outubro.

Navio graneleiro Yuritamou sendo carregado Porto Sudeste.
Fonte: Administração do Porto.
O Porto Sudeste possui capacidade para receber, manusear e carregar 25 milhões de toneladas métricas de minério de ferro por ano. A expectativa da administração do porto é, até o final do ano, aumentar a capacidade nominal para 50 milhões de toneladas métricas, apesar do baixo preço do minério de ferro no mercado internacional, que na última semana oscilou em torno de US$ 54 a tonelada, valor que quase não cobre os custos de extração e logística de transporte.

Na primeira operação, foram embarcadas 80 mil toneladas de minério de ferro. Na ocasião, o navio graneleiro AM Ghentatracou chegou ao Porto Sudeste no dia 26 de agosto, onde permaneceu até a tarde de 2 de setembro, quando partiu carregado também para a China.

Segundo as corporações que controlam o Porto Sudeste, o seu custo de implantação, projetado para a exportação de minério de ferro, demandou investimentos de R$ 4,2 bilhões. O terminal do Porto Sudeste está integrado à linha ferroviária da MRS Logística, permitindo que o minério seja transportado até o litoral fluminense. 

Porto Sudeste, saída do túnel que liga, sob o morro, 
a área de armazenagem até o terminal
Com o Porto Sudeste, o município de Itaguaí e os demais municípios vizinhos (Rio e Mangaratiba) passam a ter na Baía de Sepetiba, um complexo portuário bastante diversificado com diversos terminais. O Porto Sudeste foi projetado para dois berços de atracação de navios, usando uma profundidade de 20 metros.


A importância dos portos na economia fluminense e seus impactos socioambientais

Este é um tema sobre o qual tenho me debruçado através de estudos e pesquisas nos últimos tempos, embora com um foco mais direcionado para a relação dos sistemas portuários com o processo de exploração de petróleo no litoral brasileiro, observando ainda a repercussão de todo este processo sobre o território fluminense.

O estado do Rio de Janeiro (ERJ) que tem o 3º maior litoral do país, com 635 km, passa a contar agora com um total de 8 portos (5 portos organizados - públicos) e um total de 16 terminais portuários em funcionamento. Além disso há dois outros em construção e ainda outro sete outros projetados, que em meio à freada da economia, têm poucas chances de serem viabilizados no curto prazo. 

Com ônus, bônus e inúmeros impactos econômicos e socioambientais, esta realidade vem trazendo mutações na ocupação do solo e no que chamamos de novas territorialidades, em vários municípios do litoral fluminense.

Os portos no ERJ, além da movimentação de cargas gerais (entre exportação e importação) passaram a trabalhar com terminais e berços dedicados às especialmente das bases para a exploração offshore de petróleo, trazendo para a economia dos municípios e estados onde estão instalados, uma considerável parcela de receita por conta dos impostos. 

De outro lado, o uso do litoral para o turismo, para a pesca e para o lazer vem produzindo impactos que vão desde a demarcação das faixas marítimas e de areia, que vão passando a ser consideradas como áreas portuárias, quanto graves erosões, em função da construção de gigantescos quebra-mares. 


Breve descrição da importância dos portos na história fluminense
A importância dos portos para a economia fluminense é grande, desde quando Dom João trouxe o reinado para o Brasil, no início do século XIX. Depois no início do século XX, Rodrigues Alves e Pereira Passos empreenderam grande reforma no Porto do Rio, com a construção dos grandes armazéns na Praça XV, permitindo a exportação de café e açúcar, em nosso período agroexportador. 

No final do século XX, o Porto de Santos, organizado pelos Guinle, já tinha assumido a dianteira tanto das exportações agrícolas e alguma pouca carga industrial (ou agroindustrial), assim como boa parte das importações oriundas dos países centrais.

Na virada do século XXI, todo o estado e não mais apenas a capital e a Baía de Guanabara, amplia o seu papel e a centralidade de logística através do Porto de Itaguaí e com a estruturação de outras bases portuárias, ligadas tanto à movimentação de cargas (Itaguaí e Rio de Janeiro, especialmente), quanto às bases de exploração offshore em (Macaé, depois Rio e Niterói e agora também,o Açu) .

Esta bases portuárias apoiaram a descoberta das reservas do pré-sal e agora viabilizam a sua produção e também, a sua articulação com a indústria naval (estaleiros), reativada e enormemente ampliada, com a política de conteúdo nacional (70%) implementada pela ANP, como exigência para exploração dos campos petrolíferos offshore, com a construção de navios petroleiros, embarcações de apoio às exploração no mar através das sondas e plataformas. 


ERJ, um "estado-porto" com pouca integração regional e dependente da maldição mineral
Com toda esta movimentação há entre os que estudam a logística no Brasil, em suas diversas intermodalidades, os que atribuem ao ERJ, desde a virada deste século, a alcunha de "estado-porto". 

Mapa dos portos e alguns projetos principais projetos portuários no ERJ
Como já disse aqui no blog, o ERJ disputa, com o vizinho estado do Espírito Santo, a base principal de centro de logística da região Sudeste, apesar do estado de São paulo possuir o Porto de Santos, que com seus seis terminais de contêineres e dois de grãos, ainda ser o de maior movimentação de cargas do país, tanto em termos de tonelagem, quanto em valores FOB.

Diante desta realidade - geografia do capital - sobre a região que concentra quase 2/3 do PIB brasileiro, não é difícil compreender os interesses econômicos-corporativos que regem a reconstrução do ramal "Vitória-Rio" (EF-118- mapa abaixo) que interliga e integra os portos, indústrias e a economia dos quatro estados da região Sudeste. (Ver mais detalhes do projeto da ferrovia aqui, aqui e aqui)

Mapa traçado ferrovia Vitória-Rio que será licitada pela ANTT
Há ainda duas outras questões que já tratei neste espaço e aqui vou apenas pontuar e que valem ser observadas, tanto que tenho aprofundado nos textos para debate mais acadêmicos e que também envolvem gestores públicos e privados:
1) A relação cada vez mais imbricada da economia fluminense com a economia global, derivada de um processo de internacionalização nas cargas gerais e de vínculo com a cadeia global do setor de óleo e gás. Em minhas pesquisas empíricas, já tabulei cerca de 200 empresas globais (players no setor de equipamentos e serviços) de 25 países, três continentes, que atuam na cadeia do petróleo e gás no ERJ. Esta cadeia é dispersa, trabalha com contratos de grande valor e usa o território apenas como base de apoio. Asim, o ERJ passou a ter 1/3 de sua economia vinculada a setor, uma quase dependência mineral, que já ficou conhecida como "maldição" ou "doença holandesa".

2) A segunda questão vinculada à primeira, trata menos dos embricamentos e arrastos que a nossa vida passou a ter da questão da Economia do Petróleo, especialmente na faixa litorânea fluminense, e se vincula o que chamo da Economia dos Royalties. Nestas "cidades petrorrentistas" e também no "estado petrorrentista", se passou a ficar dependente das extraordinárias receitas dos royalties, sem se ocupar com políticas e projetos de diversificação econômica,  de articulação supramunicipal, ampliação popular para maior transparência e aperfeiçoamento da gestão dos municípios, articulação regional, sem deixar de citar um planejamento estadual integrador.

Desde 2012, só, ou junto com outros amigos-pesquisadores, em tempos diversos, eu percorri todos os municípios do litoral fluminense, em sua longa extensão, observando no local, aquilo que as informações e documentos públicos e privados não conseguiam demonstrar. 

Além da observação, as conversas, diálogos e entrevistas estão ajudando a compor uma interpretação mais totalizante e menos específica (ou especializada) da materialidade real do fenômeno social-político-econômico e geográfico, relacionado à importância e papel dos sistemas portuários, na realidade do estado do Rio de Janeiro. 

O papel, a importância, os impactos e a relação com as ocupações do solo, as urbanidades, as supramunicipalidades e a vida, para além da economia nos municípios do litoral é um fenômeno que tem passado despercebido, na intensidade que necessita ser interpretado, por todos que estudam e analisam o estado para além de sua região metropolitana. 

Cidades produtoras de petróleo no mundo debatem alternativas de negócio no Rio

Cidades de produtoras de petróleo para a produção offshore é um termo contestado, mas isto não importa, quando o interesse é discutir os problemas gerados pelo rebaixamento do preço do barril em todo o mundo, com repercussões na economia e na vida em sociedade nas cidades, estados e países.

Assim, vale saber sobre o encontro da World Energy Cities Partnership (WECP) que ocorrerá entre os dias 25 e 28 de outubro no Rio de Janeiro. É fato que a discussão tende a ser toda direcionada para a visão das empresas e não propriamente das cidades. Abaixo a informação do site PetroNotícias:

"Cidades produtoras de petróleo debatem novas oportunidades de negócio em encontro no Rio de Janeiro"

"O foco principal na consolidação de novos negócios, a assembleia geral da World Energy Cities Partnership (WECP) será realizada neste ano no Rio de Janeiro. A entidade reúne 23 das maiores cidades produtoras de petróleo do mundo para debater as atuais perspectivas de mercado e reforçar a cooperação internacional no momento de dificuldades. Em sua 20ª edição, o evento anual acontecerá entre os dias 25 e 28 de outubro, tendo como pauta principal a busca por oportunidades de investimento na indústria. Além de contar com representantes de diversas empresas, o encontro terá seminários e workshops voltados a profissionais e investidores do setor.

A expectativa é de compareçam 400 participantes de 150 companhias, além de 15 representantes de órgãos governamentais e comerciais. A assembleia, que será realizada no Parque Tecnológico da UFRJ e no Riocentro, é organizada pela Rio Negócios e deve contar com a presença de um grande número de operadoras da indústria de óleo e gás.

O tema central do evento, neste ano, será a superação das dificuldades hoje vividas pelo mercado internacional por meio de novos negócios. A crise do setor de petróleo não tem dado trégua com o baixo preço do barril, mas as empresas não podem parar e continuam buscando, através de parcerias e cooperações técnicas, uma forma de sair fortalecidas da recessão."

domingo, outubro 11, 2015

A cana e o petróleo se cruzam na crise, em meio a inovações - o que a história pode nos indicar?

Interessante relembrar que quando tivemos o "choque do petróleo " entre 1973 e 1974, a Petrobras ainda não tinha descoberto petróleo na Bacia de Campos e o país importava 85% do que consumia.

Porém, o choque gerado pelo embargo árabe como reação à ajuda americana a Israel, na disputa com a Arábia Saudita quadruplicou o preço do barril de petróleo. Mas sabe em que patamar? De  US$ 2,90 para US$ 11,65.

Interessante relembrar estes números diante da crise de hoje que considera irrisório o preço do barril na faixa dos US$ 50.

Pois bem, a partir daí o petróleo ganhou importância macroeconômica e geopolítica que nunca mais perdeu. Os novos patamares de preço tonaram viáveis a exploração offshore e a busca de novas fontes de energia.

O petróleo descoberto na Bacia de Campos em 1974 passou a ser produzido em 1977, e hoje, a economia do petróleo internacionalizou de vez a nossa região. Um espirro para cima e para baixo no preço altera a vida de todos os cidadãos.

O programa do Pró-Álcool foi criado em 1975, já depois da descoberta do petróleo na Bacia de Campos, mas ainda antes do início da produção offshore. E em 1979 foi criado o carro a álcool hidratado, logo após o segundo "choque do petróleo".

Crise e inovação como sempre de mãos dadas. Perfuração e produção offshore foi um desafio há 40 anos, hoje difícil até de imaginar. Isto deve nos indicar alguma coisa neste presente conturbado de luta pelo poder no plano nacional e local.

Enquanto isto na região as linhas de produção do álcool e do petróleo se cruzaram e nunca mais se aproximaram.

O passado deveria servir de reflexão tanto para o presente quanto para o futuro. Relembrar estes dados tem como pano de fundo fazer esta humilde provocação.

Os "serviços sofisticados" nos tratados de livre comércio

Os tratados de livre comércio que os EUA puxam, além de proteger as chamadas "propriedades industriais", pretendem liberar o comércio de serviços que cada vez mais são embutidos nos bens industriais.

Segundo os dados do setor, os serviços já chegam a 50% do total do comércio mundial. E tendem a avançar muito mais. Assim, os serviços sofisticados foram sendo agregados a produtos industriais. Estes passaram a ter menos valor e na cadeia global podem ser feitos em diferentes pontos do mundo.

São pouca e muito controladas as marcas. Por isto se vê a preocupação com a questão da "propriedade industrial". Com ela o Japão não teria chegado onde chegou. É como diz o coreano Ha-Joon Chang, autor do livro "Chutando a escada".

Para exemplificar o caso dos serviços sofisticados e a questão tributária embutida entre a produção industrial e os serviços sofisticados, saibam que a tarifa média que incide sobre a produção industrial do IPad, da Aplle, corresponde a cerca de 7%. Já os demais 93% incidem sobre os demais serviços como licenças, software, marketing, marca, etc. Isto explica a ideia de liberação dos mercados e controle das marcas e proteção sobre a propriedade industrial.

Quem quer subir a escada da ascensão social e do estado de bem-estar- social (welfare-state) precisa romper esta lógica de aprisionamento da periferia e manutenção do status quo, que desvaloriza os recursos naturais, controlando seus fluxos.

A Economia Global é simples, sofisticados são os mecanismos de acumulação que o centro impõe à periferia. É preciso união para romper o establishment.

Baixa produção de petróleo nos EUA

O número de sondas de perfuração de poços de petróleo nos EUA caiu para 605, menor número desde 2010. Em outubro do ano passado quando já havia começado a cair o preço do barril de petróleo, o número de sondas contratadas nos EUA era de 1.609. Ou seja, verificou-se uma redução de 62%.

Já a produção de petróleos nos EUA que chegou a 9,6 milhões de barris, já caiu em setembro, para 9 milhões de barris por dia, uma redução de 6,6% no volume produzido.

Vendo esta realidade se percebe que os EUA que tinha interesse na redução dos preços do barril, por conta da pressão sobre a economia da Rússia e Venezuela, acabou também atingido pela Arábia Saudita.

Os árabes pretenderam testar as capacidades e níveis de produtividades de outros países produtores e, ao mesmo tempo, consolidar alguns mercados dos países importadores de petróleo.

PS.: Atualizado às 12:56: Para ajustar o texto e complementar a nota com a informação que na última sexta-feira (09/10) foi anunciada a realização de uma nova reunião técnica da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep) para o dia 21 de outubro, com o objetivo de se tentar convencer as nações do grupo a reduzir suas metas de produção para que o preço do insumo volte a se estabilizar em um patamar maior.

sábado, outubro 10, 2015

"A cidade como geografia dos encontros"

Abaixo o blog reproduz o texto do professor e pesquisador Jorge Barbosa da UFF através do qual percorre a história do Rio de Janeiro, em seus 450 anos. O artigo foi publicado originalmente no site do Observatório de Favelas, do qual é diretor:

"A cidade como geografia dos encontros"
Por Jorge Barbosa*

A cidade do Rio de Janeiro é bonita por Natureza. Beleza revelada em suas praias e montanhas. Em todos os seus cintilantes azuis. Foi fundada para o combate: para guerra contra piratas e corsários e a tomada de terras dos grupos indígenas. Entre o Cara de Cão e o Pão de Açúcar, a cidade não era uma cidade. Era apenas um recurso natural. Mudou de localização. Mas continuou próxima ao mar. Cidade marítima. Avistada por seus visitantes logo na primeira luz da manhã. Suas primeiras ruas: a Direita e a da Lama já demonstravam o encontro impar da tradição portuguesa com o popular em formação. Por elas percorriam homens negros e mulheres negras. Cortejos para o trabalho, para celebrar deuses, para festejar a vida. Os olhares estrangeiros transportavam a cidade para África. Não era surpresa. A cidade chegou a ser uma das maiores cidades negras do Atlântico do século XIX. Por isso os batuques e cantorias da diáspora africana muitas vezes abafavam os açoites da escravidão. A cidade proclamou a liberdade do cativeiro, mas não igualdade entre brancos de posses e negros desapossados. Em seguida, a cidade proclama a república para o país, e não para os homens e mulheres comuns. Mas foram os intelectuais, poetas, músicos e prostitutas é que transformavam a cidade em um espaço cosmopolita. Mas de tão africana foi preciso mudar a paisagem. Era preciso vestir a cidade de Europa, no modelo Paris. Avenidas, praças e ruas foram abertas para reconfigurar a paisagem celebrante do moderno século XX. O porto moderno aterrou praias e ancoradouros. Bondes levaram para mais longe os ricos dos pobres. Quiosques, casa de cômodos e cortiços foram declarados insalubres e socialmente perigosos. Bota-se abaixo! E foi-se o colorido da África: das vestes, dos turbantes, dos colares (ainda nos resta a feira da Iabás em Madureira para encantar o presente!). Removidas também foram as lagoas, os morros, os outeiros, os manguezais. Boa parte das obras da história da natureza sobreviveu o suficiente para a cidade ser chamada de maravilhosa. Natureza convertida em símbolos: Corcovado e Pão de Açúcar. Nossa geografia de encontros não aconteceu sem perdas e danos. Cordiais, nunca fomos, especialmente quando se trata dos diferentes. Mas, não foi Capricórnio, ou Carmem Miranda, nem mesmo o Zé Carioca de Wal Disney, o (a) criado(a)r de nossa identidade tropical. Nossa tropicalidade, geralmente tratada como exótica ou como uma vergonha a ser coberta, é pouco entendida como uma expressão generosa da pluralidade de encontros que a cidade abrigou, e ainda abriga, felizmente. A cidade do Rio de Janeiro é tropical porque é uma obra da geografia particular de encontros das diferenças socioculturais, algumas delas envolvidas nos caprichos da natureza. Por isso, talvez seja fácil ser carioca, mesmo não sendo da gema. Embora seja extremamente difícil se afirmar como cidadão em nossa cidade. Começamos como índios, portugueses, marranos e africanos. Não somos uma mistura de liquidificador. Somos uma cidade que precisa reconhecer as experiências mais plenas do existir no mundo. Um bom começo para celebrar os nossos 450 seria reconhecer a nossa matriz tropical. Esse pode ser um caminho seguro, embora não sem conflitos, para inventar um presente de convivências mais generosas. A cidade como geografia de encontros!

*Professor de Geografia da Universidade Federal Fluminense e diretor do Observatório de Favelas

TST decide pelo pagamento de horas extras por sobreaviso em celular para atender clientes

O Tribunal Superior do Trabalho (TST) negou recurso e sustentou decisão a favor de uma trabalhadora da operadora de telefonia Oi, que reclamou na Justiça do Trabalho o direito de receber horas extras pelo regime de "sobreaviso" por anteder clientes por celular fora do horário de trabalho.

O celular da trabalhadora era fornecido pela empresa e havia ainda documento da mesma que descrevia expressamente a obrigação dos aparelhos telefônicos ficarem ligados "diuturnamente". O caso aconteceu no Paraná.

O sobreaviso formal ou informal é uma das formas que fez com que o trabalho se misturasse à vida do trabalhador.

As consequências do problema são especialmente, mas não exclusivo, de natureza mental e tendem a aparecer sob variadas formas, à medida que a idade e a força do trabalhador vai sendo consumida pela invasão do trabalho em todo o tempo e vida das pessoas.

É certo que esta decisão deixará as empresas preocupadas. A extração da "mais valia" que artificialmente aumenta a produtividade das empresas precisa ter um limite, que deveria ser evitado, antes da própria transformação pecuniária, através do pagamento em horas-extra e/ou gratificações.

sexta-feira, outubro 09, 2015

Cadê o dinheiro das compensações ambientais do Porto do Açu?

Ainda revirando e organizando arquivos antigos, o blogueiro se deparou com uma outra matéria. Esta é do Valor de 28 de junho de 2011. Portanto já há mais de quatro anos.

A reportagem relembra que o projeto do estaleiro (ou Unidade de Construção Naval - UCN) da OSX foi inicialmente planejada para ser implantada, no litoral de Santa Catarina, na localidade, por coincidência, denominada Biguaçu, na chamada grande Florianópolis. Porém, como se sabe, ela acabou suspensa ainda durante o processo de licenciamento ambiental, em função dos impactos sócio-ambientais que seriam gerados.

Assim, o estaleiro (UCN) da OSX veio ser aprovado para ser instalado junto ao terminal 2 do Porto do Açu. Para isso, o empreendedor exigiu do estado, que por decreto fizessem as desapropriações de lotes na praia do Açu e de pequenas propriedades rurais do entorno, para dar espaço ao Distrito Industrial de São João da Barra (DISJB) que deveria ser coordenado pela Codin, mas na prática, como sabemos, é totalmente controlado pela Prumo (ex-LLX), empresa proprietária do Porto do Açu.

Pois bem, feito os esclarecimentos para relembrar o contexto da matéria, ela nos diz que o licenciamento ambiental deste empreendimento, dentre tantos outros junto ao Porto do Açu, gerou como contrapartida, em compensação ambiental o pagamento pelo grupo EBX de R$ 34 milhões para obras de saneamento no município de São João da Barra e outros R$ 37 milhões para manutenção das unidades de conservação ambiental.

É quase certo que a Prumo dirá que os R$ 71 milhões foram investidos. Porém, seria de bom alvitre que os valores e as ações fossem descritos, a bem da transparência, considerando as demandas por saneamento, a proteção contra a erosão da Praia do Açu (prevista no EIA/Rima e agora negada), assim como os investimentos no setor pesqueiro e rural atingidos pelo empreendimento.

Com a palavra o Inea e Ibama sobre a fiscalização das ações compensatórias. Cabe ainda indagar as ações e valores, onde teriam sido investidos os valores das compensações ambientais dos demais empreendimentos licenciados junto ao Porto do Açu, como a unidade de beneficiamento de minério de ferro da Anglo American, o terminal 1, terminal 2 (ou Sul), o DISJB, etc.

Abaixo a reportagem:




quarta-feira, outubro 07, 2015

Estudo da consultoria PwC projeta investimentos de até US$ 364 bilhões em grandes obras e IE no Brasil em 2025

Um estudo da consultoria PwC junto com a Oxford Economics divulgado hoje, sobre "Gastos em infraestrutura e grandes projetos - Tendências para 2025" traz números e expectativas surpreendentes para quem continua exclusivamente preso à mídia comercial nacional e suas catastróficas projeções.

Trata-se de um estudo global que envolve 49 países que são responsáveis por 90% da produção econômica mundial. Sobre a América Latina e o Brasil, o estudo é otimista diante das demandas de projetos de infraestrutura.

Assim, o estudo estima que no Brasil" indica um ritmo anual de crescimento de 6% na década entre 2016 e 2025, quando se prevê numa expectativa mais pessimista um valor de investimento anual de US$ 300 bilhões".

Numa avaliação mais otimista com um ritmo possível de crescimento de gastos que poderia chegar a 9% ao ano, o estudo indica investimentos em grandes projetos e infraestrutura que poderiam chegar à significativa quantia de US$ 364 bilhões, em 2025.

Numa estratificação por setor, o estudo aponta investimentos em transporte no Brasil no ano de 2025 da ordem de US$ 60 bilhões. Porém, o estudo chama a atenção para o setor de recursos minerais em especial o petróleo e diz que "no longo uma das maiores descobertas de reservas de petróleo nos últimos anos foi feita com o pré-sal no Brasil e assim, a estimativa é a de que os gastos com infraestrutura de extração de petróleo e gás apresentem crescimento forte após 2016, onde os gastos totais podem chegar a US$ 94 bilhões em 2025".

Como se pode ver são diversos os dados que mostram que o potencial de crescimento econômico do Brasil, que mesmo sendo diverso de desenvolvimento, é muito maior do que o que se tem ouvido falar no dia-a-dia. Estudos como este podem nos ajuda a entender os interesses que estão em jogo na atual conjuntura econômico-política vivida pelo Brasil e de certa forma, por outras nações da América Latina.

Investimentos em grandes obras, infraestruturas e os da cadeia produtiva do petróleo que hoje é responsável por 33% do PIB do ERJ e 12% do PIB Brasil, pode nos dar a pista sobre o interesse de grandes empresas estrangeiras de engenharia, de serviços de petróleo, telecomunicações e financeiros sobre este enorme potencial de crescimento do Brasil no médio prazo, diante de uma economia mundial relativamente paralisada.

Assim, observar o cenário de médio prazo (uma década) como forma de compreender a conjuntura atual e o "dia-seguinte" (day-after) da atual crise, mais do que uma possibilidade é nossa obrigação, sob pena de ficarmos rateando no mesmo lugar, diante dos diagnósticos que diariamente nos apresentam.

Observem que o estudo não é de gente do governo, nem do IBGE ou do IPEA. O estudo é de consultorias ligadas às grandes corporações mundiais e que costumam ser os sinalizadores para o grande capital e seus fundos financeiros, sobre onde estão as melhores e mais rentáveis alternativas de investimento. Se desejar ter acesso ao documento citado clique aqui.

PS.: Atualizado às 18:10: Veja abaixo os gráficos do estudo que estão na página 10 do estudo. Não deixem de observar a nota que está abaixo dos mesmos. Se desejar clique na imagem para ver em tamanho maior:


“O mundo girou (de leve) à esquerda" por Wallerstein

A análise do Wallerstein publicada no bom site "Outras Palavras" sobre as direções da política no mundo merece ser conhecida.

Com seu olhar que nasce na concepção do "Sistema-mundo", Wallerstein analisa a movimentação no quadro político-partidário em diferentes nações do Ocidente. Mesmo considerando o quadro contemporâneo bastante complexo, a interpretação que ele faz sugere algo diverso do que se lê quase diariamente, seja no campo das esquerdas, ou mesmo da mídia comercial.

Só por isto sua leitura já seria instigante. Wallerstein ainda finaliza afirmando que esta sua leitura da conjuntura não deve "obscurecer a batalha real – aquela que diz respeito à direção das transformações do sistema mundo-capitalista para um novo sistema (ou sistemas). A batalha é entre os que querem um novo sistema ainda pior que o atual e os que querem algo substancialmente melhor". Confiram!

“O mundo girou (de leve) à esquerda”…
Por Immanuel Wallerstein | Tradução: Antonio Martins |

A vitória arrasadora de Jeremy Corbin em 24 de setembro, na disputa pela liderança do Partido Trabalhista da Grã-Bretanha foi espantosa e totalmente inesperada. Ele começou quase sem apoio suficiente para participar da disputa. Apresentou uma plataforma de esquerda sem concessões. E então, diante de três candidatos mais convencionais, obteve 59,5% dos votos, numa eleição que teve comparecimento extraordinário, de 76%.

Imediatamente, os sabichões e a imprensa opinaram que sua liderença e plataforma asseguram vitória do Partido Conservador nas próximas eleições. Terão certeza? Ou o desempenho de Corbyn indica um ressurgimento da esquerda. E neste caso, isso é válido apenas para a Grã-Bretanha?

Se o cenário político mundial está se movento para a direita ou para a esquerda é um tema favorito das discussões políticas. Um dos problemas com esta discussão sempre foi o fato de a direção das tendências políticas ser normalmente avaliado a partir da força da posição mais extrema na esquerda ou na direita, numa dada eleição. Isso deixa de lado, contudo, o ponto mais importante da política eleitoral em países com sistemas parlamentares construídos em torno de partidos de centro-esquerda e centro-direita.

A primeira coisa a lembrar é que há uma largo leque de posições possíveis, em qualquer momento dado, em qualquer local. Simbolicamente, vamos dizer que o espectro varia de 1 para 10, num eixo esquerda-direita. Se os partidos ou os líderes políticos movem-se de 2 para 3, de 5 para 6 ou de 8 para 0, isso indica um giro à direita. E números reversos (9-8, 6-5, 3-2) indicam uma virada à esquerda.

Com base neste tipo de medida, o último ano assistiu um importante giro à esquerda, no plano mundial. Há diversos sinais claros desta mudança. Um é o crescimento contínuo da força de Bernie Sanders, na disputa pela candidatura do Partido Democrata à presidência dos EUA. Não significa que ele derrotará Hillary Clinton, mas que, para conter a ascensão de Sanders, Clinton teve de assumir posições mais à esquerda.

Observe um acontecimento similar na Austrália. O Partido Liberal, de direita, agora no poder, removeu Tony Abbott de sua liderança, em 15/9. Abbott era conhecido por seu ceticismo intransigente diante da mudança climática e por sua posição extremamente dura diante da imigração na Austrália. Foi substituído por Malcolm Turnbull, que é considerado um pouco mais aberto nestas questões. De modo similar, o Partido Conservador britânico amenizou suas propostas de “austeridade” para disputar potenciais eleitores de Corbyn. São mudanças 9-8, em nossa escala hipotética.

Na Espanha, o primeiro-ministro Mariano Rajoy, do Partido Popular, enfrenta o avanço de Pablo Iglesias, do Podemos, que propõe uma plataforma anti-”austeridade” similar à que foi longamente defendida pelo Syriza, na Grécia. O Partido Popular deu-se muito mal nas eleições locais e regionais de 24 de maio. Rajoy resiste a qualquer giro á esquerda de seu partido e o resultado tem sido uma perspectiva ainda pior, nas próximas eleições nacionais. Depois de sua recente derrota nas eleições “independentistas” da Catalunha, Rajoy afundou ainda mais. Questão: ele poderá sobreviver como líder de seu partido, ou será substituído, como Tony Abbott na Austrália, por um líder um pouco menos rígido?

A Grécia é o exemplo mais interessante desta mudança. Houve três eleições este ano. Na primeira, em 25/1, o Syriza chegou ao poder para surpresa de muitos analistas, com base numa plataforma anti-“austeridade”, e com a retórica tradicional de esquerda.

Quando o Syriza descobriu que os países europeus não aceitavam as demandas da Grécia, que reivindicava alívio de muitos compromissos relacionados a sua dívida, o primeiro-ministro Alexis Tsipras convocou um referendo sobre rejeitar ou não as condições da Europa. O chamado voto “Oxi” (Não) venceu por larga margem em 5 de Julho. Sabemos o que ocorreu em seguida. Além de rejeitar qualquer concessão, os credores europeus ofereceram condições ainda piores à Grácia, as quais Tsipras julgou que teria, em larga medida, de aceitar.

Mais uma vez, os analistas concentraram-se na “traição” de Tsipras a sua promessa. O setor à esquerda do Syriza rachou e formou um novo partido. Em meio à confusão, poucos comentaram o que ocorreu com o partido Nova Democracia, de direita, que antecedeu o Syriza no governo. Lá, o líder Antonis Samaras foi substituído por Vangilis Meimaraki, uma mudança de 9-8, ou talvez de 8-7, numa tentativa de disputar os votos de centro com o Syriza.

O giro conservador à esquerda não foi bem-sucedido. O Syriza venceu novamente. O grupo de esquerda que rachou não conseguiu manter-se no Parlamento. Mas por que o Syriza venceu? Parece que os eleitores julgaram que estariam melhor, ainda que apenas um pouco melhor, com o Syriza, que minimizou os cortes de aposentadorias e outras proteções do estado de bem-estar social. Em resumo, na pior situação possível para a esquerda grega, o Syriza ao menos não perdeu terreno.

O que, você pode perguntar, tudo isso significa. Parece claro que, num mundo que vive em meio a grande incerteza econômica e condições de vida piores para largos segmentos da população, os partidos no poder tendem a ser culpados e a perder força eleitoral. Por isso, após o giro à esquerda da última década, o pêndulo está se movendo em outra direção.

Que diferença isso faz? Mais uma vez, eu insisto, depende de se observamos no curto ou no médio prazo. No curto prazo, faz muita diferença, já que as pessoas vivem (e sofrem) no curto prazo. Qualquer coisa que “minimize o sofrimento” é um avanço. Portanto, este tipo de giro “à esquerda” é um avanço. Mas no médio prazo, não faz diferença alguma. Na verdade, a mudança tende a obscurecer a batalha real – aquela que diz respeito à direção das transformações do sistema mundo-capitalista para um novo sistema (ou sistemas). A batalha é entre os que querem um novo sistema ainda pior que o atual e os que querem algo substancialmente melhor.

Zona Sul?

Hoje recebi pelo Correios um prospecto de venda de terrenos no condomínio que o grupo Alphaville está ofertando em Campos.

Não tenho interesse no empreendimento, mas como estudioso dos assuntos da região, eu sempre procuro observar as informações evidentes e as subliminares que eles acabam nos trazendo.

É fato que o negócio demonstra o avanço que o setor imobiliário tem tido nas franjas das áreas urbanas dos municípios de médio porte do país, mesmo em meio à redução do negócios frente às especulações no setor. Mais do que o tal "desenvolvimento" as iniciativas parecem apontar para apropriação e formação artificial de valor nas moradias destas cidades.

Porém, mais que questões desta órbita, o material de propaganda me chamou a atenção por dois itens, especificamente, que descrevo abaixo:

1 - Diz que a localização do empreendimento de 499 mil m² é "no novo vetor de crescimento na Zona Sul da cidade". Pelo local do mesmo entre a BR-356, em direção à Martins Lage e SJB e a rodovia RJ-216 - Campos-Farol, na direção, mas no lado contrário do bairro Imperial, a "zona sul" citada seria no máximo, um simbolismo de bairros de classe média alta da capital e nunca da área urbana do município de Campos. A não ser que a gente abandone a geografia e a noção de mapa. Desconhecimento ou má fé.

2 - O texto diz em outro ponto que a "força do município seria por ser sede de indústrias e empresas com alta capacidade de geração de empregos". A economia dos royalties até faz circular dinheiro - agora em menor quantidade - mas nunca por esta potencialidade industrial que ninguém conhece, nem mesmo em propaganda pré-eleitoral.

Pelos valores e quantidade de lotes ofertados o empreendimento deve ter sonhado com potencial de vendas na casa de algumas dezenas de milhões de reais. Porém, se alguém que conhece minimamente a cidade tiver que acreditar nos empreendedores a tomar pelos "equívocos" da propaganda, as barbas de molho, seriam providenciais.

terça-feira, outubro 06, 2015

Edison Chouest consegue aval de R$ 294 milhões do Fundo de Marinha Mercante para construção de estaleiro de reparos no Porto do Açu

Em meio à crise do setor de petróleo e das empresas de apoio à exploração offshore, na 29ª reunião ordinária do Conselho Diretor do Fundo de Marinha Mercante (CDFMM), que aconteceu, no último dia 25 de setembro, em Brasília (DF), o estaleiro Navship, do grupo Edison Chouest recebeu prioridade, no valor de R$ 294,41 milhões, para a construção de um estaleiro de reparo no Porto do Açu, localizado no município de São João da Barra.

Como é sabido, o grupo americano Edison Chouest alugou uma área de 597.400 m², junto ao terminal 2 do Porto do Açu que possui 1.030 metros de frente de cais. Veja imagem abaixo onde a área está circundada em vermelho.
Área em construção da Edison Chouest No Porto do Açu

No Porto do Açu, a Edison Couest está construindo uma unidade com 15 berços para atracação, dos quais seis serão para atendimento às embarcações de apoio às explorações para uso da Petrobras, contrato obtido através de licitação realizada pela estatal. A previsão é que a unidade movimente 10.800 embarcações por ano.

Nesta mesma área da Edison Chouest foi também previsto a instalação de um estaleiro para reparos das embarcações da Bram Offshore, empresa pertencente ao mesmo grupo. Foi para este estaleiro de reparos da Navship que o Fundo de Marinha Mercante concedeu a prioridade de crédito de R$ 294,41 milhões.

Nesta mesma reunião do Conselho (CDFMM) também foi autorizado a reapresentação de projetos da Bram Offshore, que somam R$ 825,88 milhões, para a construção de seis embarcações de apoio do tipo PSV-4.500. A embarcação PSV (Platform Supply Vessel) é utilizada no apoio às plataformas de petróleo, transportando material de suprimento: cimento, tubos, lama, salmoura, água doce, óleo, granéis, etc. e mede de 60 a 100 metros de comprimento.

Embarcação do tipo PSV
É difícil imaginar que esta demanda poderá ser atendida em meio às dispensas que a Petrobras e outras petrolíferas estão fazendo da frota de embarcações de apoio marítimo. Segundo, a Abeam (Associação Brasileira de Apoio Marítimo), no ano passado um total de 500 embarcações estavam contratadas no Brasil para esta atividade, sendo 257 de bandeira estrangeira e 243 de bandeira brasileira. 

Do total de 500, 379 embarcações estavam contratadas pela Petrobras. Porém, segundo informações divulgadas pelo Sindicato Nacional da Indústria da Construção Naval (Sinaval), na última sexta-feira (Valor, P.B3), a Petrobras deverá reduzir em cerca de 90 navios sua frota de apoio offshore. Diante desta atual realidade é pouco provável que o direito a este crédito para instalação do estaleiro do reparo seja efetivado.

Vale ainda comentar que na mesma reunião do Conselho Diretor do Fundo de Marinha Mercante (CDFMM), a empresa Kingfish do Brasil Navegação também recebeu do Fundo de Marinha Mercante duas prioridades no total de R$ 2,2 bilhões, sendo que R$ 1,13 bilhão seriam destinados à construção de quatro navios-tanque de 49.000 tonelagem de porte bruto (TPB) e R$ 1,08 bilhão vão para construção de quatro navios-tanque para produtos escuros de 48.000 TPB.

É oportuno relembrar que a Kingfish do Brasil Navegação S/A em 2012, contratou a OSX para a construção de 11 navios-tanque do tipo MR – Medium Range, de 45.000 TPB (Toneladas de Porte Bruto), destinados ao transporte de petróleo e produtos claros. Essas embarcações seriam fretadas pela Kingfish à Petrobras. O valor total aproximado desse contrato de construção entre Kingfish e OSX na ocasião foi de US$ 732 milhões.

A empresa Kingfish do Brasil Navegação Ltda. é uma empresa de origem inglesa e está instalada com escritório desde 2009 no Rio de Janeiro e atua na área de transporte marítimo internacional de carga. Depois dos problemas com a OSX, a Kingfish do Brasil procurava um novo estaleiro para construir os navios-tanque que são parte do Programa EBN (Empresas Brasileiras de Navegação), da Petrobras, que previa o afretamento de 39 navios que estão sendo construídos no país com a finalidade de serem utilizados para o transporte de petróleo, gás e derivados, dentro da demanda de transporte de cabotagem entre os portos brasileiros.

Assim, depois desta decisão do Fundo de Marinha Mercante é possível que a Kingfish possa manifestar seu interesse na obtenção deste crédito e na empresa (estaleiro) onde irá realizar a construção dos petroleiros previstos no projeto apresentado ao Conselho Diretor do FMM. A conferir!

PS.: Atualizado às 12:46: Para pequenos acertos no textos.

O buraco é mais embaixo: o caso da Austrália e sua relação com o Brasil

Muito se fala sobre o processo de primarização do Brasil e dos riscos da dependência do país com as commodities do agronegócio e dos recursos naturais e minerais.

As preocupações são justas, mesmo que para alguns seja apenas munição para a disputa de poder e não para a discussão de um projeto de Nação.

Porém, há quem desdenhe a questão e se disponha a negociar a nossa dependência em trocas de algumas vantagens, normalmente ligadas às elites econômicas, que procuraram apenas se enlaçar ao capital transnacional em trocas de percentagens, escancarando o nosso amplo mercado.

No mundo capitalista se diz que foi através deste processo que algumas nações deram o salto: Canadá, o próprio EUA e é muito citado também, o caso da Austrália.

O argumento serve para quem defende o esforço de inserção global do Brasil, no sentido de buscar com os excedentes da economia das exportações (mesmo com os risco dos baixos preços que se vê atualmente) dar o salto em termos da macroeconomia e da superestrutura e dos novos realinhamentos mundiais.

Todo este preâmbulo, teve apenas a função de apresentar a minha surpresa com um fato pouco comentado aqui no Brasil, em meio ao pobre debate político, restrito à tentativa de alçar ao poder por atalhos e golpes.

A surpresa se deu a partir das notícias vindas da, até aqui forte e equilibrada, economia australiana. No meio da Oceania, a Austrália nas últimas décadas foi ganhando a fama de economia desenvolvida e de ótimo nível de vida, construída a partir de boas políticas públicas,que teriam se aproveitado do "boom" dos recursos naturais.

Pois bem, as informações que chegam veem do Financial Times e da Bloomberg, órgãos de mídia comercial internacional, ligados ao capital e à economia capitalista.

Pois bem, a informação é que lá na Austrália a atividade industrial estaria perdendo espaço com a valorização do dólar australiano e a elevação dos custos de produção e redução da produtividade.

Fábricas estão sendo fechadas, entre elas estariam entrando na lista as montadoras GM, Toyota e a Ford. A recessão que não era sentida pela população desde a década de 90 agora estaria ameaçando o país-continente da Austrália.

O país que parecia avançar na chamada economia moderna e na inovação digital estaria voltando a depender do ritmo de extração de suas minas, o velho recurso vindo do chão e de buracos mais abaixo.

Em 2000, os recursos naturais (especialmente, minério de ferro e carvão) eram responsáveis por 31% das exportações australianas e hoje, este número avançou e já é superior à 50% (exatos 52%) das atuais exportações australianas. As exportações de serviços que em 2000 eram de 26% na Austrália, agora deve ficar próximo dos 20%.

Por lá se reclama que o "boom" das commodities ajudou a valorizar a moeda do país e esmagou e teria estourado o setor industrial, entre outras coisas devido à ampliação do valor da mão de obra local, maior até do que a dos países do G-7. Assim, o setor industrial hoje representa apenas 7% da economia da Austrália.

Bom lembrar que no Brasil a participação da indústria na economia nacional que já atingiu mais de 13%, hoje, é muito criticada, estando na faixa entre 11% e 12%, conforme a forma de cálculo.

Assim, se percebe a dependência que a Austrália tem do minério de ferro e do carvão. Elas parecem mais preocupantes do que a situação no Brasil, apesar da Austrália ter um população oito vezes menor que a do Brasil, chegando hoje a cerca de 25 milhões de habitantes.

Interessante relembrar que não é isso que a gente vê diariamente na mídia comercial, onde se apresenta os problemas brasileiros como sendo exclusivamente nossos, sem relação com os imbróglios da crise da economia mundial, cada vez mais concentrada e controlada pelos EUA, Japão, Alemanha, e agora a China.

O caso do acordo ou da Parceria Transpacífica (TPP), anunciado nesta segunda feira (05/10), num esforço dos EUA para enfrentar a força da economia chinesa, ampliando a relação de nações americanas com as asiáticas, envolve a Austrália. Porém, nada indica que a ação facilite e ofereça espaços para o setor industrial e de maior valor da produção australiana. Ao contrário, agronegócios e recursos minerais continuarão a ser buscados, em troca da abertura dos mercados australianos para os produtos asiáticos e americanos.

Enfim, entender um pouco melhor o cenário mundial é nossa tarefa, na medida em que a região está mais internacionalizada em função de sofrer as relações com a economia do petróleo.

segunda-feira, outubro 05, 2015

A OCDE quer conter "evasões" das multinacionais tentando administrar as tênues linhas do que ainda se poderia chamar de civilização

Quem levanta questão é nada mais nada menos que a prestigiada Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE).

Na verdade o que a OCDE chama eufemisticamente de evasão, se tratam de sonegações e foram estimadas entre EU$ 100 bilhões e 240 bilhões de euros (R$ 500 bilhões e R$ 1,2 trilhão), anualmente.

Espantada com a "astúcia das multinacionais que na prática fazem os lucros destas companhias desaparecerem artificialmente", a OCDE diz que entre 4% a 10% do rendimento destas empresas, que deveria ser tributado, produzem enormes perdas de arrecadação, aos governos dos países onde estas companhias têm atividade econômica e obtém seus rendimentos.

A OCDE acredita que pode mudar este quadro, e assim, anunciou hoje, na Europa, uma proposta com 15 medidas para "reformar o padrão tributário internacional" que não era alterado há um século.

Em tudo isto, eu acho interessante e observo que as sedes (matrizes) destas empresas foram aos poucos sendo transferidas para "paraísos fiscais", onde a taxação é mínima e não há nenhuma atividade econômica. Este é o caso das grandes tradings que citei há poucos dias aqui.

Interessante ainda que o termo sonegação é substituído por evasão, ou erosão. Até aqui eram poucos que estranhavam que estas empresas não possuíam lucros, rs. Assim, parece que elas existiriam por filantropia, para gerar empregos para os "pobres", como sempre alegaram e não para auferir os lucros, que seriam "naturais" no sistema capitalista.

É meio difícil acreditar que o pacote de inciativas, chamado de "Projeto Beps - Erosão da Base e Transferência de Lucros" possa trazer resultados, num sistema financeiro que passa por cima dos limites das nações, que há muito perderam suas capacidades regulatórias.

Os organizadores da inciativa depois de muitas discussões dizem que as as multinacionais com receita anual acima de EU$ 750 milhões de euros serão obrigadas, a partir de 2017 a declarar anualmente a jurisdição onde têm negócios, informando os montantes de rendimento, lucro, ativos, empregados, impostos, etc.

Porém, os países não serão forçados a adotar estas medidas e ninguém garantirá, que assim como ocorre no Brasil, as empresas não se dividirão em outras menores, para fugir das regras.

O final parece conhecido, as empresas continuam reclamando dos tributos, exigem apoio e financiamento direto e indireto do Estado (Condições Gerais de Produção), contratam escritórios de advocacia especializados em "buscar brechas na lei" para promover legalmente a "evasão" fiscal, ou as sonegações. Assim, continuarão a deixando a parte do trabalho, com o ônus de bancar boa parte dos equipamentos públicos, sempre insuficientes, para manter a sociedade acomodada, mesmo diante das crescentes desigualdades.

Vamos ver quais são os limites para este esgarçamento. Neste imbróglio com reduções crescentes de direitos, será que haveria quem ainda possa argumentar que o mundo corporativo teria ainda alguma preocupação civilizacional? Ou, apenas, fazem concessões para segurar o caldeirão no limite da explosão?

A conferir!

PS.: Atualizada às 18:48: Abaixo infográfico do Wall Street Journal sobre os percentuais de imposto recolhido das empresas conforme nível de renda do país e também o percentual de participação de investimentos estrangeiros que tem origem em paraísos fiscais. Os dados são do FMI e UNCTAD.











PS.: Atualizada às 18:56: A UNCTAD (ONU) estima que as empresas deixam de pagar anualmente US$ 200 bilhões.

domingo, outubro 04, 2015

FPSO da OSX está sendo desmobilizado para ser vendido em partes na Norugega

O blog foi informado que no próxima terça-feira (6 de outubro), a plataforma da OSX-1 será desmobilizada para seguir para a Noruega, onde seria desmontada e vendida em partes. Desde abril havia a previsão de desmobilização da plataforma da OSX, empresa que se encontra em processo de recuperação judicial. Os cerca de 80 tripulantes serão demitidos.

O FPSO OSX-1 está no Campo de Tubarão Azul, onde sua produção foi interrompida efetivamente no final de agosto e desde então está sendo desmobilizado pela empresa VSHIP. Sua retirada completa está prevista para o final de outubro e seguirá para a Noruega, onde seria desmontada e vendida em partes.

O FPSO OSX-1 tinha uma expectativa de produzir 80.000 bbl/d, mas teria frustado as expectativas e no último mês de produção (agosto) produziu uma média de apenas 3,4 mil bbb/dia.

Já o FPSO OSX-3 que está no Campo de Tubarão Martelo, tinha uma expectativa de produzir 100 mil bbl/dia e hoje estaria produzindo apenas 8,5 mil bbl/d.

A OSX possuía ainda mais dois FPSOs que seriam também, utilizados pela OGPar (ex-OGX). O FPSO OSX-2, está na ilha de Karimun (Malásia). Segundo informações, em junho a OSX transferiu o controle desse FPSO para a fundação "Fundação orfã", que é dirigida pelos credores, que durante quase 2 anos ficou em lay-up na Malásia e Singapura à venda, mas não se conseguiu apurar interessados.

Ainda, segundo fontes do blog, "a estratégia da OGPar para o futuro seja, o descomissionamento do FPSO OSX-3 devolvendo-o à OSX sendo que temporariamente poderá escoar o petróleo produzido pela sonda semissubmergível Atlantic Zephyr (SS-11), da Petroserv, que está alocada no Campo de Tubarão Martelo desde fevereiro de 2014".

No mercado há quem ainda creia que os problemas da OGPar (ex-OGX) não seja ausência de petróleo em seus campos e sim as tecnologias mal utilizadas nestes FPSOs, mal construídos e a "toque de caixa", com módulos de produção pouco amigáveis entre si que impossibilitam maior capacidade de extração de petróleo.

Estes creem que a plataforma a SS-11 no lugar do FPSO OSX-3 poderia escoar até 20.000 bbl/dia para um navio petroleiro aliviador. Os mesmos dizem que entre 2016 e 2017, os atuais credores da OGPar que controlam suas ações poderiam substituir todo este esquema por uma plataforma fixa (jaqueta) que teria custo 60% abaixo do FPSO.

Esta versão da existência de grande reservas de petróleo no campo, no entanto é contestada por outros técnicos que conhecem a geologia da bacia de Campos e consideram que estes campos, que já foram da Petrobras, seriam "xoxos" em termos de rendimento na extração de petróleo.

No auge da valorização em 2010, a OGX chegou a valer R$ 75 bilhões e prometia estar produzindo este ano, um volume total de 730 mil barris diário de petróleo.

No entanto, em julho deste ano a produção total de OGPar alcançou 409 mil barris só que mensais, ou 13,6 mil barris de petróleo por dia. Com a atual realidade do mercado de petróleo, com o barril valendo abaixo de US$ 50, a situação da OGX é cada vez mais crítica. A conferir!

PS.: Ainda sobre o assunto leia aqui nota do blog em 8 de setembro.

Crise, mas salas de cinema aumentam faturamento em 18% neste ano no Brasil

A crise é notícia repetida e diária, mas há diariamente informações que contradizem o porte da crise.

Nesta última sexta-feira, o Valor trouxe, na página B.8, a informação que o faturamento das salas de cinema até setembro acumularam um faturamento 18% acima de igual período de 2014, com R$ 1,8 bilhão. Faltando ainda 3 meses para fechar o ano, este valor já se aproxima da arrecadação total de 2014, quando foi de R$ 1,95 bilhão.

Outro dado interessante é que o BNDES, tão criticado pelo apoio às empresas nacionais, injetou R$ 300 milhões no Fundo Setorial do Audiovisual que tem a função de apoiar a expansão de salas de cinema no país, através do "Programa Cinema Perto de Você". E olhe que, infelizmente, para muita gente cultura e cinema ainda seriam supérfluos.

Interessante observar: tudo ao contrário do que você diariamente observa os "colonistas" falarem.

Concorrente do Ibope entra no setor de medição de audiência de TV no Brasil

A empresa alemã GfK inciou nesta semana a avaliação de audiência de TV no país, tirando a exclusividade do Ibope. A GfK inicia seu trabalho através de 6 nil aparelhos instalados nas classes de A a E, incluindo as favelas, que não eram medidas pelo Ibope.

Há grande curiosidade sobre os primeiros resultados. A empresa no Brasil usa 400 funcionários par ao seu trabalho, sendo 180 destinados à divisão de audiência.

É oportuno lembrar que é baseado nestas audiências que as redes de televisão cobram pelos espaços de propaganda que variam também conforme o horário.

As principais redes fecharam contrato com a GfK com exceção da Globo, porém, a Bandeirantes rompeu unilateralmente o contrato há pouco tempo alegando atraso na entrada em funcionamento da GfK, inicialmente marcada para maio deste ano. A conferir!

sexta-feira, outubro 02, 2015

Erosão do mar no Açu: impacto já previsto em 2011

Já comentei aqui neste espaço que ando organizando os meus arquivos físicos e digitais, acumulados nos últimos anos que podem ter interesse para as pesquisas.

Entre estes arquivos descobri uma matéria de página inteira, no jornal O Globo, em 11 de maio de 2011, sobre os problemas decorrentes da implantação do Porto do Açu.

Pois bem, há nesta histórica matéria, uma entrevista com o professor Aristides Soffiati que já levantava o problema que estamos vendo hoje. Não há novidade nisto, até porque o próprio Estudo e Relatório de Impacto Ambiental (EIA/Rima) feito por contratação da empresa já falava sobre este risco que era considerado "grande". Ainda assim, é importante trazer à tona este registro que também consta dos documentos dos licenciamentos ambientais.

A Prumo, empresa controladora do Porto do Açu continua tentando negar relação com o problema da erosão na velocidade, extensão e intensidade sem igual até hoje, no litoral fluminense.

Internamente a empresa já admite participar de uma solução para o problema, mas para isto pretende que a Prefeitura de SJB faça a mediação, arrumando recursos com o governo federal (Ibama) e governo estadual (Inea).

Além disso, a Prumo sugere que a municipalidade busque os recursos que a empresa diz ter depositado na conta do estado como "compensação ambiental". Para isto a ação começaria com a engorda de areia da Praia do Açu para o qual seria usada a draga da empresa holandesa Boskalis, que hoje continua a fazer a dragagem do canal de acesso do Porto do Açu.

Enfim, o risco existia com indica o EIA/Rima e a estimativa dos estudiosos. Resta agora saber como as autoridades se portarão na fiscalização e cumprimento do que determina a lei.

A reportagem ainda comentou sobre a quantidade de desapropriações na área urbana da praia (loteamentos) e das pequenas propriedades rurais. Hoje se sabe que elas forma em quantidade bem maior do que a matéria comenta sobre 2.112 lotes urbanos e 151 propriedades rurais.

























Sobre o problema, causas e as consequências da erosão, hoje já se tem, de forma clara a interpretação dos fatos que o infográfico abaixo. Ele foi elaborado por Denis Toledo, técnico em Informática, comerciante e morador da comunidade do Açu, com dados do EIA/Rima e identificação das instalações do terminais e quebra-mares do do Porto do Açu, a partir do Google Maps. Ele nos oferece de forma bem clara todo o processo de erosão que vive a Praia de Barra do Açu:


Ninguém come superávit, mas andam escondendo os números

Ninguém come superávit, mas os números parecem mostrar algo diferente daquilo que os "sardenbergs" e demais "colonistas" vociferam diariamente na mídia comercial.

Há problemas. Vários. A pressão do sistema financeiro e dos "mercados" é enorme para capturar o governo e operar seus lucros e suas gordas acumulações.

Porém, convenhamos, o superávit comercial (balança comercial) de setembro beirou os US$ 3 bilhões e é a maior nos últimos 4 anos. Lembrando que balança comercial é a relação entre exportações e importações.

As exportações superaram as compras do exterior, resultando em superávit da balança comercial brasileira, que em número exato foi de US$ 2,94 bilhões no mês de setembro, segundo informou hoje o Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (MDIC).

É o melhor resultado para meses de setembro desde 2011, quando o saldo positivo somou US$ 3,07 bilhões. Em setembro, as exportações somaram US$ 16,14 bilhões, com média diária de US$ 769 milhões, e tiveram queda de 13,8% sobre o mesmo mês do ano passado. Nesta comparação, recuaram as vendas de todas as categorias de produtos: semimanufaturados (-12,2%), básicos (-19,6%) e manufaturados (-4,6%).

No caso das importações, que totalizaram US$ 13,2 bilhões em setembro, com média diária de US$ 628 milhões, a queda foi de 32,7% por conta de menores gastos com combustíveis e lubrificantes (-61,9%), matérias-primas (-26%), bens de consumo (-23,4%) e máquinas e equipamentos para produção (-27,4%).

Verdade que a subida do dólar, por especulação (ação ou resultado do mercado) ajudou neste resultado.

Assim, mesmo que com menos exportações, o país operou menos importações, mostrando a força que o mercado interno brasileiro tem e que não deve e não pode ser desconsiderado, na análise deste complexo sistema global em que acabamos cada vez mais inseridos.

Que há pressões enormes sobre o Brasil, ninguém duvida mais. Resta saber, se sairemos deste processo mais ou menos subordinados e dependentes que antes.

quinta-feira, outubro 01, 2015

Mapa de áreas plantadas, usinas e destilarias no Brasil indica concentração em SP, MT e GO

Ainda sobre o Plano Decenal de Energia da EPE (Empresa de Pesquisa Energética) 2015-2014 foi possível extrair esta informação espacial sobre localização das áreas plantadas de canas e instalações industriais de usinas e destilarias no Brasil.

São dados recentes 2014-2015. (P.417). Como se vê a concentração em hoje está entre São Paulo, Mato Grosso e Goiás. Segundo o PDE 2024, o mapa abaixo (figura 56) indica as áreas plantadas com cana-de-açúcar no ano 2014, de acordo com o mapeamento do projeto CANASAT.

No mesmo documento está dito (P. 417) : "o cenário de oferta de etanol do PDE 2024 prevê expansão da produção em aproximadamente 53% no horizonte decenal, passando de cerca de 30 bilhões de litros, em 2015, para aproximadamente 46 bilhões de litros, em 2024. Em 2014, a área colhida de cana no país foi de 9,9 milhões de hectares, registrando leve decréscimo em relação a 2013, quando essa área foi de 10,2 Mha. Desse total, a maior parte se concentra na região Sudeste (64%) e Centro-Oeste (18%), perfazendo mais de 80% da produção":


Servidores da Fenorte para a UENF

A anunciada transferência de funcionários concursados da Fenorte para a Uenf parece uma medida acertada, depois que a instituição foi perdendo sua capacidade de atuação em políticas públicas de planejamento regional (supramunicipal) e de apoio às gestões dos municípios.

Se de um lado é elogiosa  o interesse destes servidores em ser útil e prestar serviços e assim defender a transferência, de outro é lamentável que a institucionalidade de um órgão com enormes possibilidades de atuação regional em políticas públicas, ainda mais num momento de fragilidades dos municípios, o quadro não se altere ano após ano, há mais de uma década. A conferir!

Motociclista reclama da falta de disciplina em estacionamento no centro de Campos

Atendendo solicitação o blog publica abaixo reclamação de motociclista sobre a falta de supervisão e disciplina, nas áreas de estacionamentos para motocicletas, no centro de Campos. É preciso interesse para cuidar da vida comunitária na pólis:

"O poder municipal precisa por ordem na situação caótica dos estacionamentos de motocicletas no centro e adjacências do município. Ali, na Vinte e Um de Abril, por exemplo, os donos desses veículos não respeitam as vagas delimitadas no asfalto e amontoam as motos de qualquer maneira, destruindo umas as outras. Um retrato assustador da ausência absoluta do poder público numa questão tão importante! Além disso, aquelas vagas pertencem hoje a um grupo de pessoas que se dizem donas do estacionamento dito público. Eu, por exemplo, que utilizo motocicleta para me deslocar diariamente para o trabalho, me vejo alijado da condição de cidadão campista, pagador de impostos municipais, porque me recuso a utilizar o que considero um serviço irregular. Será que a autoridade pública municipal não pode fazer nada para corrigir e disciplinar esse problema? Por favor Roberto, pode abrir espaço para essa denúncia? Obrigado desde já."