quarta-feira, outubro 11, 2017

Avançam as pressões para derrubar o dólar como única moeda para negociar petróleo

O petróleo como a mercadoria mais negociada do mundo exerce enorme poder geopolítico. Na década de 70, um acordo dos EUA com a Arábia Saudita fez com que o petrodólar pudesse superar o padrão ouro como equivalência geral da moeda.

As voltas que os sistemas interestatal capitalista (Fiori) vem dando em termos de realinhamento mundial estão, de forma paulatina, caminhando para alterar esta realidade.

O fato da China ter se tornado o maior importador mundial de petróleo (mesmo que não seja o maior consumidor que ainda é os EUA) tem criado condições para que os chineses imponham determinadas condições, inclusive para a maior nação exportadora que é a Arábia Saudita.

São várias e seguidas inciativas que avançam também para uma maior relação da China com a Rússia que disputa com os EUA e Arábia Saudita, a condição de maior produtor mundial de petróleo desde 2014.

Assim, vale ler esta breve matéria publicada hoje, aqui, no portal internacional de notícias RT e que foi republicado aqui no site da Aepet (Associação dos Engenheiros da Petrobras) com tradução de Alex Prado, com o título "China pode destruir o petrodólar atraindo a Arábia Saudita para negociar petróleo em yuan". Assim, este blog também posta o texto logo abaixo abaixo. A geopolítica da energia segue ditando novos movimentos que podem alterar hegemonias mundiais. Vale conferir!

China pode destruir o petrodólar atraindo a Arábia Saudita para negociar petróleo em yuan

Pequim está tentando "obrigar" a Arábia Saudita a vender petróleo bruto em yuan, o que seria seguido por outros países, de acordo com o economista-chefe e diretor-gerente da High Frequency Economics, Carl Weinberg. Isso vai atingir o dólar dos EUA, diz ele.

Fonte: Jianan Yu / Reuters, publicado pela RT.
Em entrevista à CNBC Weinberg disse que a China se tornou um dos principais players do mercado de petróleo desde que ultrapassou os EUA como maior importador do mundo.

A Arábia Saudita tem que "prestar atenção nisso porque, até em um ou dois anos, a demanda chinesa vai afetar a demanda dos EUA", disse Weinberg à mídia.

"Eu acredito que o preço do petróleo no yuan está chegando e, assim que os sauditas aceitarem - como os chineses os tentam fazer - então o resto do mercado de petróleo se moverá junto com eles", acrescentou.

Um acordo de 1974 entre o presidente dos EUA Richard Nixon e o rei saudita Faisal fez com que Riyadh aceitasse dólares para todas as exportações de petróleo.

No entanto, recentemente, países como a China e a Rússia têm procurado excluir o dólar do comércio bilateral de petróleo. A Rússia e a Arábia Saudita são os principais exportadores de petróleo para a China, alternando-se no primeiro lugar.

A China já disse que quer iniciar um contrato de futuros de petróleo bruto com preço em yuan e conversível em ouro.

O investidor veterano Jim Rogers disse à RT no mês passado que os países estão ficando mais preocupados com o comércio em dólares, porque "se os EUA ficarem com raiva de você, eles
estabelecem uma enorme pressão, que pode tirá-lo dos negócios".

"A China, a Rússia e outros países entendem isso e estão tentando mudar o comércio e o financiamento mundial", disse Rogers.

Em julho, Rússia e a China assinaram um fundo de investimento de 68 bilhões de yuans (US $ 10 bilhões) para facilitar as trocas entre rublo-yuan.

sexta-feira, outubro 06, 2017

Ao contrário do que diz o professor Salomon (Universidade de Nova York) no Fórum do Valor, a globalização é maior no andar das finanças e não nas bases de produção das riquezas

Alguns dados apresentados pelo professor Robert Salomon, da Escola de Negócios da Universidade de Nova York, ontem, em palestra no Fórum Cidadão Global, organizado pelo jornal Valor e Banco Santander, em São Paulo merecem ser melhor analisados.

Salomon afirmou que atualmente, apenas 20% do PIB global é do comércio exterior e apenas 10% dos investimentos dos investimentos mundiais são de multinacionais. (Veja matéria no Valor Online aqui)

Salomon argumenta com estes dados que o mundo seria menos global do que se imagina. Em termos da geração de riquezas em bases materiais, eu concordo. Porém, os dados podem nos oferecer uma outra leitura: a de que a maior fluidez e internacionalização acontece no capital que é o fluido dos fluidos.

O capital tem mais fluidez e isto hoje se dá basicamente via os fundos financeiros e não diretamente pelas empresas multinacionais.

Os fundos financeiros atuam em vários setores nas economias locais e nas empresas nacionais e fazem o meio campo e articulação entre as multinacionais, participação acionária e controle parcial ou total das empesas nacionais que atuam na produção das riquezas materiais nas nações.

Assim, a produção da riqueza é local, mas quando o dinheiro sobe na pirâmide do capital fixo nas bases locais para o andar de cima (capital fictício), ele também migra espacialmente se movimentando globalmente.

Assim, os dados do professor Salomon permite que compreendamos ainda mais que o peso da financeirização da economia é maior e que é ele que se globaliza e não a produção material da riqueza que é local.

Desta forma, é possível intuir uma conclusão diversa do que ele apresenta. É através dos fluxos informacionais do dinheiro que o mundo se globaliza e não pelo comércio e fluxos materiais, em que o professor Salomon sustentou sua análise e argumentações.

Talvez, seja apenas uma coincidência que um dos bancos que ajudam nesta fluidez do capital tenha sido o patrocinador do evento.

De qualquer forma, estes e outros dados levantados por quem está na nação que é o centro do sistema, nos ajuda a compreender um pouco mais dos movimentos do capitalismo contemporâneo.

PS.: Atualizado às 15:48: Para pequenos ajustes e acréscimos no texto original.

quinta-feira, outubro 05, 2017

Contradição: Terminal portuário da Petrobras é dragado, enquanto estatal reduz atividades na Bacia de Campos

Ao mesmo tempo que a Petrobras investe R$ 14,8 milhões na dragagem do canal de acesso ao seu terminal portuário em Imbetiba, em Macaé, para manter a profundidade de 9 metros e acesso ao seus seis berços, a direção da empresa está entregando vários ativos da Bacia de Campos para serem vendidos, ou operados em consórcio por outras empresas.

Porto de Imbetiba Macaé - Acervo do blog -
Postagem em 21 de março de 2013 - Aqui.
Com a redução das atividades da estatal em Macaé, é mais provável que a atuação e demanda de logística de apoio portuário de outras empresas venha ser feito por outros terminais portuários, em Niterói, na Baía da Guanabara, onde estão as bases das petroleiras privadas, ou mesmo no Porto do Açu. Desde 2013, o TUP de Imbetiba deixou de ser o de maior movimentação de cargas de apoio offshore do país.

Assim, mesmo que a dragagem do TUP Imbetiba seja necessária para manter o mínimo de condições de uso do terminal portuário, as ações não reforçam o discurso da municipalidade. Nem mesmo para a exploração dos novos campos licitados na Bacia de Campos, já que uma parte importante passou a ser de controle da petroleira privada americana Esso.

O terminal portuário (TUP) de Imbetiba em Macaé tem o nome do engenheiro Zepheryno Machado Filho, possui 6 berços de atracação e atualmente tem movimento médio de 300 atracações por mês.

O TUP de Imbetiba é de propriedade da Petrobras e foi implantado em área adquirida logo depois da descoberta de petróleo, no campo de Garoupa em 1974 e iniciou sua operação em 1979.

Até 2012, quando atingiu seu limite de movimentação de cargas, o TUP de Imbetiba concentrava a grande maioria da movimentação de cargas para a exploração de petróleo offshore que foi responsável pela descoberta de grandes reservas, inclusive do Pré-sal, além de apoio à produção em grande parte do litoral, não apenas fluminense.

Hoje, o TUP de Imbetiba não atende a cargas gerais, mas as especiais, frotas de atividades de ancoragem, mergulho raso, operações de terminais oceânicos e situações de controle e emergência offshore.

A política de desinvestimentos da Petrobras contribuirá para a redução da movimentação de cargas no TUP de Imbetiba em Macaé, a despeito do que a gerência local da estatal tem dito para a prefeitura local.

Sobre a primeira maior alteração espacial da movimentação de cargas com apoio logístico-portuário para a exploração offshore leia postagem do blog aqui, em 2 de abril de 2014, com o título: "Porto de Imbetiba em Macaé deixou de ter a maior movimentação de apoio offshore do país".

quarta-feira, outubro 04, 2017

Segue o entreguismo e o desmonte do que existe de indústria de petróleo no Brasil: Associações do setor industrial questionarão judicialmente a ANP, por também cortar exigências de conteúdo local nos projetos, já em andamento, da área de petróleo

O Sindicato Nacional da Indústria da Construção e Reparação Naval e Offshore (Sinaval), a Associação Brasileira das Empresas de Construção Naval e Offshore (Abenav) e a Associação Brasileira de Máquinas e Equipamentos (Abimaq) estão se organizando para ir à Justiça questionar a flexibilização das regras de conteúdo local promovidas pela Agência Nacional de Petróleo (ANP) tanto para os projetos novos quanto os antigos.

Estas e outras entidades alegam que esta decisão contraria resolução do Conselho Nacional de Política Energética (CNPE) sobre as regras de conteúdo local e que impedem que as novas diretrizes sejam aplicadas de forma retroativa e atingiriam cerca de 700 contratos gerando insegurança jurídica e a redução das atividades e desemprego ainda maior na indústria naval e em outras que atuam na cadeia produtiva do petróleo. Em 2012, só a indústria naval chegou a empregar em todo o país quase 100 mil trabalhadores.

Do outro lado deste posição defendendo as petroleiras e a redução das exigências de conteúdo local estão o Instituto Brasileiro de Petróleo, Gás e Biocombustíveis (IBP) e a Associação Brasileira das Empresas de Serviços de Petróleo (Abespetro) que hoje conseguem obter tudo o que querem da ANP que em tese seria o órgão regulador do setor para defender os interesses nacionais. E são instituições que se dizem brasileiras.

O embate entre as duas posições ficaram claras a partir da Audiência Pública nº 20/2017 realizada ontem (03/10) no Escritório Central da ANP no Rio de Janeiro. Na audiência foi debatida a minuta de resolução que visa alterar os critérios, requisitos e procedimentos aplicáveis à isenção de cumprimento da obrigações de percentual de conteúdo local dos contratos já em vigência, como os relativos aos contratos de concessão a partir da 7ª até a 13ª Rodadas de Licitações, de cessão onerosa e da 1ª Rodada de Partilha de Produção dos blocos de exploração de petróleo e gás natural.

Assim, segue o entreguismo e o desmonte do que existe de indústria de petróleo no Brasil. Sem política industrial e com esta forma a exploração de petróleo, o país abre mão de sua soberania, aprofunda sua subalternidade e dependência. Assim, assume por completo, a imposição do processo de integração global colonizada, sem empregos qualificados que acaba por entregar boa parte da renda petrolífera para as players globais, ao invés de patrocinar o desenvolvimento social dos brasileiros. 

Veja no infográfico abaixo que foi publicado pela revista Análise Setorial da Indústria Naval do Valor em 2013, e postado em nota aqui do blog, em agosto daquele mesmo ano. O infográfico demonstra a pujança e a diversificação de pedidos que aquele setor atendia dentro das demandas do setor naval até aquela ocasião. Para ver a imagem em tamanho maior clique sobre ela.


terça-feira, outubro 03, 2017

O orçamento 2018 do ERJ mostra que apesar do propalada “recuperação fiscal” o quadro de penúria prosseguirá

O projeto de lei do orçamento de 2018 do governo do ERJ foi publicado ontem (2/10) no Diário Oficial do Legislativo. Ele mostra pelas estimativas de receitas e despesas que apesar da propalada “recuperação fiscal” - em acordo assinado com a União que prevê a suspensão por 3 anos do pagamento da dívida com a União, além de empréstimos emergenciais e ações para o aumento da receita -, o déficit permanecerá na quantia estimada em R$ 10 bilhões.

Assim, é certo que este déficit continuará a comprometer o pagamento de salários e fornecedores. A previsão de receita do estado em 2018 é de R$ 62,5 bilhões e as despesas de R$ 72,5 bilhões.

Sem recuperação econômica, cada vez mais difícil com os vários cortes para ajustes fiscais, o desmonte e privatizações das estatais de energia instaladas no ERJ (como Petrobras, Eletrobras, Furnas, etc.), mais o colapso das engenharias em que a maioria tem sede ou grande base de gestão operacional no estado, o governo do estado, sua população e servidores sofrerão bastante.

Só uma inversão na política e na economia poderiam alterar este quadro. Enquanto isto não vem a saída é seguir resistindo para impedir o desmonte que se opera dentro da lógica liberalizante implantada pelo governo golpista.

PS.: Atualizado às 23:46:
Para se ter uma ideia da queda das receitas, em 2014 a LOA previu R$ 75,9 bilhões. Bom lembrar que no 2º semestre de 2014, foi quando os problemas orçamentários começaram a dar os primeiros sinais de gravidade.
Ou seja, quatro anos cinco anos depois, sem levar em conta a inflação do período (de cerca de 30%) a estimativa de receita em 2018 é cerca de R$ 13 bilhões a menos.
Contribuem para esta conta, as centenas de isenções fiscais concedidas a centenas de empresas. Este debate é amplo, mas a queda das receitas fica muito visível como o gargalo do ajuste orçamentário e não a tentativa insensível dos seguidos cortes de despesas.

domingo, outubro 01, 2017

Como viver sem os royalties? Como será o futuro na região? Questões sobre uma entrevista para a InterTV

Há algum tempo eu passei a ficar cada vez mais avesso a entrevistas para a mídia comercial. Os roteiros e pautas deles partem, na maioria das vezes, de uma narrativa já decidida.

Assim, os repórteres e jornalistas muitas vezes procuram as pessoas que chamam tecnicamente de "especialistas" para que eles possam entrar e dar veracidade à narrativa principal. O caso tende a ser ainda pior quando se trata de televisão.

Eu já cheguei a brincar com jornalistas mais conhecidos, perguntando a eles o argumento principal da matéria e onde pensam que se encaixaria a minha fala. Não é difícil perceber que de tudo que você fala é retirado alguns segundos para se encaixar na narrativa e no roteiro da matéria já definido. O trecho de sua fala é um detalhe que não tem a ver com o contraditório, que seria bem-vindo.

Por conta disso, eu venho negando atender a algumas solicitações de entrevistas, mesmo sabendo que isto é muito mal interpretado, até porque, mais do que os jornalistas, a mídia não absorve essa negativa. Para ela seria uma espécie de pouco caso, que para eles seria inconcebível, diante do que consideram a visibilidade oferecida.

Pois bem, considerando minha conhecida posição e estudos na áreas dos royalties do petróleo, eu fui procurado há quase dois meses pela InterTV que dizia estar com uma pauta para uma longa série de matérias semanais sobre a questão do setor de petróleo e uso dos royalties que envolvem estas regiões do interior do ERJ (Baixadas Litorânea e Norte Fluminense).

Ouvi os argumentos e questionei algumas linhas entre estas a ideia de que a crise dos royalties teria a ver diretamente com a questão da Operação Lava Jato, sem considerar, por exemplo, a fase de colapso do ciclo de preços do petróleo que oferece mais justificativas pelas dispensas e crises com a receita dos royalties em todo o mundo do que os desvios.

Os desvios têm que ser apurados os responsáveis punidos, mas é preciso saber que no todo do setor e da própria Petrobras, eles possuem um peso relativamente limitado sobre os efeitos da redução dos efetivos embarcados e sobre a redução da produção dos campos maduros da Bacia de Campos.

Tentei ainda explicar que não é correto jogar no mesmo bolo todos os municípios sem considerar a diferença entre os municípios que vivem da Economia do Petróleo (indústria e serviços deste setor) e aqueles – maioria – dos município petrorrentistas que sobrevivem da renda dos royalties do petróleo.

Assim, eu percebi que os argumentos não eram considerados numa pauta que parecia ter endereço e direção definidas. Parece querer apoiar os cortes de gastos, os ajustes fiscais com investimentos socais e incentivar posição de privatização e entrega dos ativos da Petrobras. Nesta linha apoiar a redução dos royalties e a venda dos campos maduros da Bacia de Campos.

Ainda assim, ao ser contatado há duas semanas, eu voltei a dizer que tinha visto algumas matérias e que discordava de suas linhas principais. Desta forma, para novamente não parecer intransigente, eu disse que iria pensar se aceitaria falar. Para isso, questionei primeiro sobre qual seria a pergunta, ou as perguntas.

Então as perguntas me foram apresentadas. Eram duas indagações simples. Pedi que me ligassem no dia seguinte que eu iria pensar se atenderia a reportagem.

Pensando que eu estaria sendo intransigente, eu acabei aceitando falar.

Neste relato é bom deixar claro que a mídia comercial tem todo o direito de construir as suas matérias livremente, sem tutelas. De ouvir diferentes opiniões. Mas, também é importante realçar o questionamento que faço, que na maioria das vezes, as narrativas do que entendem ser a notícia, já sai pronta da editoria do veículo de comunicação.

Na maioria das vezes, as falas dos entrevistados visam encaixar no roteiro e na narrativa já pré-concebida antes até da opinião destes. Normalmente, no caso da TV, os tempos são muito curtos. São raros os casos em que a matéria comporte mais de uma resposta do entrevistado, ou mesmo o tempo de uma resposta inteira, sem cortes. Se a sua reposta não cabe na narrativa, você percebe que é comum que sejam feitas mais perguntas até que seja identificado um trecho de sua fala que possa interessar na narrativa montada.

Editores, nestes casos, atuam quase como se fossem uma espécie de juízes e não de investigadores da informação. Assim, ao editarem as reportagens, eles arbitram a opinião que merece mais ou menos destaque e, principalmente, a que se encaixa na narrativa montada ainda antes de ouvir aqueles que chamam de especialistas, sem o qual a matéria ficaria capenga, dentro das técnicas jornalísticas ensinadas nas escolas de comunicação que exige o personagem e o especialista.

Os "especialistas" escolhidos conforme a direção da matéria - e os interesses nela embutidos - ajudarão a compor a narrativa que se pretende veicular. Como exemplo, ou hipótese a narrativa que descreve o mau do uso dos royalties pode induzir à justificativa da redução dos seus percentuais, como poderia ser a de sugerir uma maior participação na gestão.

A matéria muitas vezes até pode ouvir "especialistas" com posições distintas, para conferir credibilidade mostrando um aparente contraditório, mas a narrativa nunca deixa de acentuar a essência do que foi arbitrado como opinião a ser realçada.

Pois bem, tendo aceitado falar - para não parecer intransigente - mesmo com os receios que venho nutrindo há algum tempo, logo após a entrevista, feita num bate-pronto, com resposta direta e numa única vez ao jornalista, eu resolvi, no momento logo a seguir, por conta de lembrar perfeitamente o que havia falado, eu sentei fiz as anotações num papel daquilo que havia respondido.

Intuía que sendo uma série de matérias semanais, a que iria ao ar com a minha fala iria também trazer a opinião de outras pessoas, mas eu queria ver se o sentido geral da matéria eram as duas perguntas, ou se as respostas iriam cair numa história (narrativa) já montada.

Assim, eu vou pedir que você mesmo possa ver a matéria da InterTV que foi ao ar no RJ InterTV da 2ª edição (noite) da segunda-feira, 25 de setembro de 2017. Trata-se de série 'Petróleo: Riqueza Explorada' cujas matérias vão ar nas segundas-feiras. Esta que me refiro foi ao ar no dia 25 set. 2017 com o tema "o futuro dos municípios da Bacia de Campos sem os royalties" e teve quase oito minutos de duração. Confira no link do G1 abaixo.

https://g1.globo.com/rj/regiao-dos-lagos/noticia/serie-petroleo-riqueza-explorada-fala-sobre-o-futuro-dos-municipios-sem-os-royalties-do-petroleo.ghtml



Agora, se tiver tempo e interesse, leia abaixo as anotações que registrei das minhas respostas às duas perguntas feitas pelo jornalismo da InterTV. Eles foram colocados sob a forma de itens, embora tenham feito parte da opinião respondida direta e de forma verbal, para melhor compreensão de quem está agora lendo:

1 - Como viver sem os royalties?
a- Os royalties viciam. É como a mesada dos pais ao final do mês. Adiante as nossas cidades viverão como um ex-rico que já teve dinheiro e gastou tudo de forma perdulária.

b - Os royalties são frutos da renda da extração mineral que acaba. Esta renda em qualquer lugar do mundo é disputada entre as empresas que atuam na cadeia produtiva e os governos, por ser um bem finito e de todos.

c - O caso do uso dos royalties nos municípios petrorrentistas chamam mais a atenção porque esta renda proporcionalmente é maior nas cidades do que nos estados e no país.

d - É preciso ainda lembrar que existe um ciclo na extração do petróleo (ciclo petro-econômico), que gera períodos de preços maiores (ex. entre 2010 e 2013, único na história) e de colapsos como se vive desde o o2º semestre de 2014. Nesta fase de baixa, a crise se dá em todas as nações e regiões que são produtoras, porque os investimentos se reduzem.

e - Assim, precisamos nos perguntar para que existem os governos das cidades? Para pensar solução para a vida das pessoas que ali moram. Mas a realidade é que as gestões estão sempre muito focadas em seus projetos de manutenção do poder e não em Políticas Públicas. 

2 - O que será do futuro?
   a - Esta é uma pergunta de resposta difícil. Os professores/pesquisadores são estudiosos, mas não são adivinhadores, não são futurologistas

b - O futuro dependerá das nossas escolhas hoje.

c - Vale lembrar que uma cidade é parte de um estado e de um país e quando a crise é geral maior é o problema. Sempre será assim, a crise atinge a todos, mas há saídas regionalmente.

d - Se continuarmos nesta atual toada de maus gastos (a região gastou mais de R$ 30 bi na última década com resultados questionáveis), o quadro poderá piorar. A perspectiva é que os royalties do petróleo daqui a uma década seja pelo menos 4 vezes menor do que é hoje na região da Bacia de Campos.

d- É preciso que os municípios colaborem entre si e não continuem concorrendo um com o outro. Um defende que se abaixe o % de royalties, outro não (os royalties poderiam ser regionais e não por cidades, mas fogem deste debate). Um luta por um porto o outro é contra e por aí segue a disputa.

f- Os maiores problemas da população (educação/ saúde/ transportes, água-esgoto/segurança) seriam mais fáceis de serem resolvidos se as cidades (e os prefeitos) pensassem e atuassem de forma conjunta para resolvê-los. Por exemplo, através de consórcios. As melhores alternativas serão sempre mais regionais que locais.

  g- Os governos precisam ser menos autoritários (donos dos dinheiros) e tecnocráticos e se abrirem mais à participação cidadã da população. As pessoas têm muito a dizer e dividir com os gestores as saídas.

Eu penso que esta postagem pode ajudar que as pessoas reflitam sobre outras matérias que elas veem na televisão e leem nos jornais, onde as opiniões dos especialistas, quase sempre servem de recheio a um notícia ou uma ideia produzida de forma pré-concebida. Evidente que isto não acontece em todos os casos, mas quem sabe na maioria, sem levar em conta a opinião das pessoas e uma leitura que poderia ser mais ampla dos fatos e das interpretações deles.

Além disso, como é tema sobre o uso dos royalties e como viver sem eles no futuro continuará por muito tempo sendo pauta em nossa região, eu imagino que deixar registrado os pontos que eu listei de forma integral nas duas respostas tenha algum interesse.

Enfim, desculpe pela exposição longa para trazer um tema que deveria interessar mais à cidadania que aos jornalistas em si. Refletir sobre isso é indispensável numa sociedade em que a produção de informações e notícias, muitas vezes são valoradas pelo poder e tamanho da mídia.

Trata-se de uma respeitos crítica sim sobre a forma de atuação da mídia. A opinião sobre este caso em si e sobre este tipo de problema serão sempre suas. E eu sempre repeitarei o contraditório, sem que isto me impeça de questioná-lo.

sábado, setembro 30, 2017

O filme "Um sonho intenso"

Para quem gosta, ou para quem estuda a história do Brasil - ou mais diretamente a sua formação econômica - é interessante assistir o documentário "Um sonho intenso".

Um filme de José Mariani que relata as transformações do processo socioeconômico brasileiro, entre os anos 30 e os dias atuais na interpretação de um grupo de economistas e historiadores. Bem mais economistas que historiadores. 

As entrevistas e os comentários misturados às imagens do período comentado confere uma dose de realidade, que evidentemente pode ser discutida e interpretada sobre outros pontos de vista. 

De uma forma ou outra, a visão e a narrativa final permitem, mais uma vez, perceber a condição cíclica e de fases de nossa história. Aliás, algumas vezes eu me pergunto se nas análises atuais a gente não confere pouca importância aos efeitos dos ciclos, mais ou menos longo.

Nesta linha, não se pode deixar de intuir alguma similaridade entre a década de 30 e os dias atuais. Assim, eu pergunto se haverá agora uma "Re-ciclagem" tal como antes, mesmo sabendo que as condições políticas e sociais parecem distintas. Enfim, vale conferir.


sexta-feira, setembro 29, 2017

O desmonte da indústria química nacional é mais um exemplo da colonização como forma de integração mundial

A desestruturação, desmonte e o repasse das nossas bases industriais e de infraestrutura vão muito para além dos leilões de privatizações e entrega do controle de nossas empresas para os fundos financeiros internacionais.

Há dois meses, o blog informou aqui sobre a redução da participação da indústria química nacional no atendimento à demanda interna destes produtos.

Na ocasião informamos com dados da Abiquim (Associação Brasileira da Indústria Química) que no 2º trimestre de 2017, a produção nacional de químicos de uso industrial tinha caído 2,3%, enquanto as importações tinham crescido 30,5%. Isto era até então, o recorde dos últimos 28 anos, quando a taxa média de utilização da capacidade instalada destas indústrias no Brasil tinham descido a 77%.

Pois bem, agora analisando o acumulado do ano de janeiro até agosto, novamente com dados da Abiquim, se observa que para um crescimento de 8,3% do mercado brasileiro de químico de uso industrial, as importações avançaram 38,2% batendo um novo recorde. Só em agosto o Brasil gastou US$ 4,4 bilhões com a importação de produtos químicos.

Ou seja, cada vez mais o país depende da importação de produtos químicos que no geral possuem valores agregados maiores que os insumos e as matérias primas.

O país não cuida de sua industrialização. Deixa de lado as cadeias produtivas e assim vai retroagindo a uma condição cada vez mais colonizada, no que diz respeito à integração econômica com outras nações do mundo.

O quadro tende a piorar na medida em que o país repassa às corporações e fundos globais, o controle sobre a produção de matérias-primas e também os estratégicos setores de infraestrutura de logística e de energia que têm enorme peso sobre nossas cadeias produtivas e nossa produtividade.

As corporações e fundos globais pensam seus negócios como se o mundo fosse único, diversificando espacialmente as suas bases produtivas, pouco se importando com os projetos das nações.

Pior ainda, para aquelas nações como o Brasil que abandonou seus projetos e o interesse em regular a atuação dos capitais globais em nosso território de maneira a gerar emprego e renda para a nossa população.

Repito, o Brasil pós-golpe reassumiu a colonização como uma forma de integração mundial.

O pior dos mundos, cedendo espaço ao mercado livre que é muito pior que o sistema capitalista como modo de produção que nos devolverá à absoluta condição subordinada e dependente para o qual a nação estava lutando para sair.

Avança-se assim para uma civilização excludente e periférica que ampliará as tensões e ao risco da barbárie. Há que se resistir e de forma unificada lutar pela retomada de um projeto de Nação!

quinta-feira, setembro 28, 2017

Quem regula a regulação?

Observando as questões menos destacadas da realização do leilão ontem da ANP para concessão de área (blocos) para exploração de petróleo em várias bacias brasileiras, com exceção do pré-sal, é possível fazer algumas perguntas:

1) Para a formação do consórcio entre a Petrobras e a Esso para arrematar 6 áreas na Bacia de Campos, o que teria sido exposto (ou entregue) em termos de conhecimento sobre potencial desta e outras áreas pela estatal à petroleira americana?

É desta "conversa" que as duas petroleiras juntas decidiram oferecer um bônus 18 vezes maior que a segunda melhor proposta.
Vale dizer que esta dúvida eu já possuía desde o último leilão da ANP que se colocou em disputa o direito de exploração do campo de Libra no Pré-sal.

2) Quem regula isto? Ou não há regulação se a agência reguladora, em tese, mostra que seu interesse é apenas que haja interessados e que paguem valorosos bônus?

3) Sendo os consórcios cruzados, considerando que algumas parcerias em disputa são feitas ora com uma petroleira, ora com outra, como pode o interesse nacional estar presente?

Há várias outras questões que caberiam ser questionadas sobre estes processos de regulação. Especialmente, neste momento em que o governo pós-impeachment decidiu colocar na direção das agências reguladoras - que em tese seriam um braço do Estado, pessoas e gerentes tiradas diretamente das corporações interessadas.
Quem regula a regulação?
A quem atende a regulação?

quarta-feira, setembro 27, 2017

Royalties de setembro: Macaé com R$ 33,8 milhões é o município com maior parcela

Amanhã será depositada a quota do mês de setembro dos royalties do petróleo. A maioria dos municípios fluminenses teve aumento de receita em relação ao mês anterior de agosto.

Só os municípios fluminenses de Duque de Caxias e Guapimirim - que recebem royalties pela existência de bases operacionais do setor - tiverem redução das quotas mensais.

A maior quota coube neste repasse do mês de setembro coube ao município de Macaé com R$ 33,8 milhões. Em seguida vem Maricá com R$$ 26,5 milhões. A terceira maior receita foi para Campos dos Goytacazes que vem logo a seguir foi de R$ 26,4 milhões. A 4ª maior receita foi a de Niterói, vizinho à Maricá com R$ 22,1 milhões.

É bom recordar que o prefeito de Macaé, Dr. Aluizio, vem insistentemente defendendo a redução dos percentuais de royalties devidos pelas petroleiras aos entes governamentais para os campos maduros, aqueles de produção menor depois de longo tempo de extração.

Se forem contabilizadas as receitas das quotas mensais dos royalties e das participações especiais (que são trimestrais) os valores de Maricá e Niterói já estão ultrapassando a de Macaé e Campos, confirmando o que o blog chamou de deslocamento espacial do circuito petrorrentista em direção ao sul do estado e da Bacia de Santos.

Na região, Cabo Frio ficou com R$ 8,6 milhões, Rio das Ostras com R$ 7,9 milhões, São João da Barra com R$ 6,2 milhões e Quissamã com R$ 4,3 milhões.

Em relação a setembro do ano passado para a maior parte dos municípios a receita se equivalem, mas há alguns com quotas maiores e outras menores, conforme a produção nos poços e campos de petróleo do litoral confrontante de cada município.

Isto se deve mais ao aumento do valor do barril em relação ao ano passado do que, na maior parte dos caso, ao aumento de produção que continua crescendo mais na Bacia de Santos, favorecendo assim aos municípios mais ao Sul. como é o caso de Maricá, Niterói e Rio de Janeiro (capital).

A tabela e a compilação com os dados da ANP foram enviadas ao blog por Wellington Abreu que atua como consultor do setor de Petróleo e gás. Para ver a tabela em tamanho maior clique sobre ela.

















PS.: Atualizado às 18:08: Para acrescentar posição do prefeito de Macaé com relação aos royalties.

A petroleira americana Esso conquista áreas da Bacia de Campos – sozinha e em consórcio com a Petrobras - no leilão da ANP. No geral, a Petrobras segue cada vez menor!

Duas áreas da Bacia de Campos, a ExxonMobil (Esso) arrematou sozinha e outras seis arrematou em consórcio com a Petrobras. Os dois blocos na Bacia de Campos que a Esso obteve concessão sozinha foi do bloco C-M-37, com bônus de assinatura de R$ 47,1 milhões, superando o consórcio formado por Petrobras (70%) e a australiana Karoon (30%). A petroleira americana Esso também arrematou o bloco C-M-67, sem disputa com uma oferta de um bônus de R$ 16,3 milhões.

Em consórcio formado com a Petrobras (operadora, com 50%), a ExxonMobil (50%) arrematou os seis últimos blocos do leilão da ANP. As companhias duas petroleiras vão pagar R$ 3,55 bilhões por estas seis áreas na Bacia de Campos.

Mapa das áreas ofertadas no leilão de hoje (27/09) na Bacia de Campos
O mesmo consórcio Petrobras/Esso ofereceu R$ 2,2 bilhões de bônus pelo bloco C-M-346 – o maior bônus por bloco do leilão – batendo, na disputa, os consórcios Shell/Repsol, Total/BP e a chinesa CNOOC. A Petrobras/ExxonMobil também ofereceu R$ 1,2 bilhão pelo bloco C-M-411 e ganhou na disputa dos consórcios Total/BP e Shell/Repsol.

Em outra disputa, a Petrobras/ExxonMobil venceu a australiana Karoon, oferecendo R$ 31 milhões pelo bloco CM-344. O consórcio formado pela estatal e pela americana arrematou outros três blocos sem disputa: C-M-413, C-M-210 e C-M-277, com bônus de R$ 65 milhões, R$ 13 milhões e R$ 40,9 milhões, respectivamente.

Concessões nas outras Bacias
Só uma área das dez área na Bacia do Paraná foi arrematada. Neste caso pela Petrobras. A espanhola Repsol e a chinesa CNOOC arremataram outro bloco exploratório cada uma na área offshore da Bacia do Espírito Santo. Na Bacia de Santos, a petroleira australiana Karoon arrematou o único bloco que recebeu ofertas de um total de 75 áreas (blocos). A Karoon obteve a concessão do bloco 1537 com um bônus de apenas R$ 20 milhões. Outras bacias foram ofertadas como Pelotas (não recebeu proposta de exploração); Potiguar (ganhou a Geopark); Recôncavo (Petroil); Sergipe-Alagoas (Greenconsult; Guindastes Brasil; ExxonMobil (50%), Queiroz Galvão Exploração e Produção (30%) e Murphy Oil).

Petrobras cada vez menor
A Petrobras ao vender ativos e participar menos do direito de concessão de novas áreas fica cada vez menor, mesmo nas áreas de Exploração e Produção, em que a estatal resolveu concentrar seus investimentos após o golpe. É certo que o processo será ainda pior no próximo leilão das áreas do Pré-sal que a estatal descobriu e agora está sendo entregue de forma vil. Lamentável!

Chineses ganham licitação para concluir montagem da Unidade de Processamento de Gás no Comperj

Os chineses ganharam a concorrência da Petrobrás para terminar a obra da Unidade de Processamento de Gás Natural (UPGN) do Comperj, através da empresa Shangdong Kerui. Veja a diferença de preços entre os concorrentes:

1º – Shandong Kerui – R$ 1.947.000,00;
2º – Fluor – R$2.284.738,00;
3º – Cobra/Qualiman – R$ 2.284.791,00;
4º – Tecnimont – R$ 4.246.175,00

A Kerui Petroleum é uma empresa que atua em desenvolvimento de tecnologia sendo a maior fabricante e fornecedora de serviços de equipamentos de petróleo e gás na China. Tem sede na cidade de Dongying, onde está localizado o segundo maior campo petrolífero da China – Shengli Oilfield e possui hoje cerca de 8 mil funcionários.

Bom lembrar que a Petrobras excluiu da concorrência as empresas de engenharia do Brasil.

Vale ainda dizer que com o desmanche do setor naval no Brasil, os estaleiros chineses hoje constroem a maior parte das plataformas que entrarão em funcionamento até 2021 para extração de óleo e gás nas bacias de Santos e Campos, incluindo o Pré-sal.
Fonte da Informação: PetroNotícias.

terça-feira, setembro 26, 2017

Repsol pode fornecer gás para UTE no Porto do Açu

O consórcio formado pelas petroleiras, a espanhola Repsol e a chinesa Sinopec que opera a concessão do grande campo com produção de gás, o Pão de Açúcar, na Bacia de Campos inclui entre suas alternativas para escoar a produção do gás natural o seu fornecimento para o projeto de termelétrico (UTE GNA) da Prumo no Porto do Açu. A Respsol/Sinopec hoje produz cerca de 100 mil barris por dia de óleo equivalente no Brasil.

A informação sobre a possibilidade de fornecimento de gás natural à Prumo foi dada ontem, pelo presidente da Repsol Sinopec do Brasil, Leonardo Junqueira, no 18ª Seminário de Gás Natural, organizado pelo Instituto Brasileiro de Petróleo (IBP) no Hotel Windsor, Florida no Rio de Janeiro.

O evento prossegue hoje com outras palestras e mesas-redondas sobre o tema, cada vez mais estratégico. Chama a atenção a enorme participação de players mundiais do setor, que trabalham de olho na flexibilização da regulação do setor de gás natural que está sendo desenhada por consultorias e corporações mundiais do setor junto ao Ministério da Minas e Energia e à ANP.

Sobre o assunto leia aqui postagem do blog no dia 20 set. 2017 com o título: "A entrega do setor de gás no Brasil: da exploração à distribuição, desintegração no Brasil e verticalização e centralização no plano global através das corporações".

O projeto de geração térmica a gás no Açu se trata de um consórcio liderado pela Prumo (controladora do Porto do Açu) que envolve ainda petroleira BP, que hoje forneceria via importação Gás Natural Liquefeito (LNG) e a Siemens que forneceria os equipamentos. Prumo e BP teriam juntas 67% e a Siemens 33% na composição da GNA.

A termelétrica UTE GNA I, é um projeto em ciclo combinado a gás natural com potência instalada de 1.300 MW, que faz parte de um complexo de gás, o Açu Gas Hub composto por 6.400 MW de geração termelétrica a gás natural. Envolve ainda terminal de importação e armazenagem de GNL; unidade de processamento de gás natural e gasodutos, onde se insere a ideia do transporte do campo de Pão de Açúcar à base do projeto da Açu Gás Hub, junto do Porto do Açu.

Como pode ser visto no mapa acima a possibilidade de fornecimento de gás natural do campo de Pão de Açúcar até uma base de distribuição e tratamento junto ao Porto do Açu demandaria a instalação de um ramal de gasoduto, a maior parte offshore com cerca de 200 km de extensão.

Uma outra alternativa poderia ser o uso do gasoduto instalado para receber gás natural de diversos poços na Bacia de Campos que chega ao continente na altura do litoral de Barra do Furado.e vai até Cabiúnas (Macaé) onde é tratado.

Como existe um ramal de gasodutos que sai de Macaé e vai para Vitória (Gascav), uma secção do mesmo na Tapera, em Campos poderia permitir outra conexão em direção ao Açu. Bom lembrar que hoje grande parte desta malha de gasodutos foi vendida pela Petrobras. A conferir!

segunda-feira, setembro 25, 2017

Começa a surgir a “Opep do Gás”

As confusões dos EUA no plano internacional que foram ampliadas após a ascensão de Trump está em vias de possibilitar, como uma das reações, o surgimento da “Opep do Gás”. Ela poderá vir através de acordo que envolveria num primeiro momento o Qatar, Rússia e Irã. Esta organização poderá ter relação com outras articulações também a Turquia e a China.

Como se sabe o Gás Natural (LGN) é visto cada vez mais com a energia estratégica no mundo. [1] [2] Assim, a "Opep do Gás" [3] poderá trazer grandes embaraços relacionados ao controle dos mercados globais de gás natural.

Os EUA, Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos se mexem no xadrez da geopolítica da energia e gostariam de evitar esta articulação que visa ter controle sobre o mercado mundial do gás natural.

Como se sabe, o Gás Natural ganhou enorme poder por duas principais razões:

1) Por ser menos poluente que o petróleo; 
2) Pelo desenvolvimento das novas tecnologias que reduziram os custos para liquefazer o Gás Natural (LGN) e assim dar-lhe mobilidade para transporte pela via marítima, sem necessitar da instalação dos gasodutos. Esta mobilidade logística também confere possibilidade de variar os mercados a serem atendidos ao redor do mundo.

No caso do petróleo, a Opep, desde que foi criada e fez surgir o primeiro choque de petróleo na década de 70, perdeu força com o aumento da produção em outros países que não são membros da organização.

Hoje, apenas 1/3 da produção de petróleo mundial sai dos países membros da Opep, que assim, passou a ter um papel menor de controlador de preços. No caso da possível "Opep do Gás" (LGN) [3] uma articulação mesmo que de apenas 3 produtores pode ultrapassar ultrapassar metade da produção mundial.   

No meio de tudo isto, não esqueçamos o fato de que as reservas do pré-sal no Brasil, possuem muito gás natural. Fato que motiva a atração de uma grande quantidade de petroleiras interessadas em acessar nossos campos de gás e petróleo, como é o caso da norueguesa Statoil e da francesa Total. Além disso, a Shell nunca escondeu esta sua estratégia. Aliás, foi basicamente por conta disto que a Shell comprou a BG por quase US$ 60 bilhões.

Notas, fontes e referências:

[1] Nota no blog em 11 jul. 2016. A ampliação do poder estratégico e geopolítico do Gás Natural (GNL) na matriz energética mundial. Link: http://www.robertomoraes.com.br/2016/07/a-ampliacao-do-poder-estrategico-e.html

[2] Site Agência de Notícia Sputink. Disponível em:http://br.sputniknews.com/portuguese.ruvr.ru/2013_10_11/Mercado-mundial-de-GNL-forte-crescimento-5391/.

[3] Artigo, ENGDAHL, F. William. New Eastern Outlook in 19 sep. 2017.
Russia’s Interesting New Oil Geopolitics. Link: https://journal-neo.org/2017/09/19/russia-s-interesting-new-oil-geopolitics/. Traduzido e republicado no Blog do Alok. Link:  http://blogdoalok.blogspot.com.br/2017/09/a-interessante-nova-geopolitica-russa.html

domingo, setembro 24, 2017

"É difícil imaginar outro lugar com os recursos do pré-sal do Brasil"

Às vezes, eu considero que estou enchendo e incomodando aqueles que leem o blog com este assunto do potencial do pré-sal brasileiro e com o desmonte que se faz no setor de petróleo e gás feito pelo governo golpista no Brasil. Peço desculpas, se for esta a sensação, mas ainda assim, eu vou continuar trazendo dados que confirmam esta opinião/interpretação.

Assim, eu trouxe aqui nos últimos dois anos, de forma especial, declarações dos presidentes mundiais (CEOs) de importantes fundos financeiros e bancos de desenvolvimento com atuação no setor no mundo, além das falas dos dirigentes mundiais das maiores petroleiras do mundo como Shell, Statoil, Total entre outras, que discorreram sobre a surpresa com a potencialidade destas reservas, em termos de produtividade comparada.

Pois bem, nesta linha eu destaco a posição do diretor de pesquisa da importante consultoria britânica do setor, a Wood Mackenzie (ou WoodMac), Horacio Cuenca. Sua fala saiu publicada no meio de uma matéria dos jornalistas André Ramalho e Rodrigo Polito, no jornal Valor, em 22 set. 2017, P. B2 com o título: "País tem oportunidade de se tornar produtor relevante". A matéria também ouviu o chefe da consultoria WoodMac no Brasil, Pedro Camarota. A WoodMac possui em seus quadros mais de 500 analistas que constroem cenários com fortes bases de dados.

Bom dizer, que a meu juízo, o Brasil já é um produtor relevante no mundo independente destes próximos leilões da ANP. O Brasil, já está hoje na condição de 10º maior produtor de petróleo do mundo e possui uma das mais atraentes reservas e 6 dos 10 maiores campos de petróleo descobertos na última década.

Assim, os projetos de produção que foram planejados há 5-7 anos atrás estão sendo entregues e o Brasil já ultrapassou à produção de 3 milhões de barris de óleo equivalentes (boe) por dia. Outros projetos planejados desde 2011/2012 entrarão em funcionamento daqui até 2012 conforme imagem abaixo.

Pois bem, após este preâmbulo vamos à posição da consultoria americana Wood Mackenzie sobre a condição do Brasil em termos de exploração de reservas de petróleo do pré-sal:

"Os ativos abaixo da camada de sal, no Brasil, estão enre os mais competitivos do mundo".

"É difícil imaginar um outro lugar com estes recursos. E não é uma questão só de volume, é de produtividade também. É muito difícil encontrar lugares com uma produtividade tão significativa, o que faz do pré-sal muito econômico. Os volumes são grandes, têm escala". 

"Em outros lugares há descobertas pequenas e de médio porte que têm dificuldades de serem viabilizadas e correm o risco de ficar no subsolo. Na margem equatorial, por exemplo, as bases logísticas são distantes, não há infraestrutura logística, sendo assim muito mais complexo".

As interpretações não deixam margem a dúvidas e sustentam o extraordinário interesse das petroleiras que querem ter acesso ou ampliar o que já possuem de ativos no Brasil.

Antes, havia por parte de muitos especialistas no Brasil desdém e desconfiança com as reservas do pré-sal. Eles politizavam os dados e as reservas colocando sempre muito embaraços e senões.

Foi preciso que as operadoras, as petroleiras e para-petroleiras estrangeiras que aqui atuam falassem de suas posições - logo depois do caso da espionagem da NSA e do leilão de Libra - com a compra de ativos para esta análise se modificar.

Há que se lamentar que depois de todo esforço da nossa estatal de petróleo, grande parte deste potencial esteja sendo entregue para gerar renda para as corporações estrangeiras.

Assim, eu vou voltar a repetir o venho dizendo há mais de um ano sobre o desmonte do setor de petróleo e gás no Brasil: "a entrega da joia da coroa das nossas reservas de petróleo produz um prejuízo que é praticamente o dobro do que toda a Lava Jato, tornando o legal ainda muito mais danoso que o ilegal”.

Abaixo o blog publica um dos slides de apresentação corporativa da Petrobras (clique na imagem para ver em tamanho maior) com a informação sobre o planejamento das unidades de produção que vão entrar em funcionamento até 2021, que demonstram que o Brasil já é um país relevante na produção de petróleo no mundo.

Apenas ampliará esta importância no cenário global nos próximo anos, mesmo sem considerar os próximos leilões da ANP que tenderão a produzir resultados, em termos de produção daqui a 7/10 anos, conforme a capacidade da indústria do petróleo e a fase de ciclo de preço desta commodity:


sábado, setembro 23, 2017

O setor de farmácias repete processo vivido pelo comércio de eletrodomésticos há duas décadas: ameaças e alternativas para a economia regional

O mesmo movimento que se viu em Campos (e outras cidades de porte médio) há cerca de duas décadas, na área de eletrodomésticos, agora acontece com o setor farmacêutico.

A entrada no comércio local dos grandes grupos que atuavam nas regiões metropolitanas como o Ponto Frio, Tele Rio, Casas Bahia e outros, que foram responsáveis por desmontar o comércio local deste segmento com o fechamento da Icaraí Móveis, Distribuidora Mercantil, Tri Som e outras.

Agora este processo avança para um setor onde a característica de varejo – com pequenas e constante compras - é ainda forte, como no caso da venda de medicamentos e materiais de beleza e perfumaria, como é o caso das farmácias, onde se vende de tudo um pouco.

A invasão das lojas de redes como a Pacheco, Droga Raia e outras, já espreme o segmento varejista local do comércio de farmácias, mesmo aqueles que possuem não apenas lojas, mas uma base de distribuição, como é o caso da tradicional Isalvo Lima, grupo cada vez mais vinculado à área de imóveis e menos à de drogarias.

Este movimento não é um fenômeno local, mas atinge todo o interior, inicialmente nas cidades de porte médio em quase todo o Brasil.

Observa-se assim que o comércio no país é cada vez menos local e mais de massa, com grandes grupos e corporações comandando o varejo em boa parte do país. Tudo isto, sem falar nas vendas pela internet (e-commerce).

No máximo, os interessados em investir nos comércios locais, quase que ficam restritos às franquias de marcas mais conhecidas e com os riscos já conhecidos, para quem se dispõe a colocar suas economias no setor. Neste tipo de alternativa, muita gente vem perdendo dinheiro iludido com as promessas das marcas.

Inicialmente, as comunidades tendem a ver neste processo, uma espécie de sinal de modernidade, pelo acesso a estas marcas, porém, mais adiante percebem que elas embutem outros problemas e riscos.

Desta forma, avança-se na oligopolização também ne varejo, em grande parte do comércio nacional. Os grupos ficam de olho nas economias locais/regionais que ganham algum dinamismo, com o objetivo de capturar seus excedentes que são levados para as metrópoles.

Assim, as economias e os comerciantes locais vão sendo ameaçados por um processo difícil de ser detido. Tratam-se de circuitos distintos da economia que merecem ser investigados. Um é ligado às grandes marcas (e fundos financeiros que são seus controladores) e o outro, “inferior”, cada vez mais empurrado para o comércio informal e marginalizado instalado mais próximo do cidadão.

Em alguns pontos eles se cruzam com o uso das informações digitais e buscam disfarces para fugir dos tributos e das fiscalizações governamentais.

Fato é que este movimento tende, no geral, a enfraquecer as economias locais-regionais e favorecer – com a captura de dinheiro e lucros – os maiores grupos econômicos do país.

A vida na sociedade contemporânea é cada vez mais complexa e o interesse e capacidade de atuação dos grandes grupos é quase avassalador.

O fato chama mais a atenção porque o comércio sempre foi um espaço de atuação da antiga burguesia, num momento pós-rural, nestes negócios de intermediação, que exigia menos investimentos, por exemplo do que a implantação de plantas industriais.

O caso parece ser apenas do comércio, mas ele aponta outras as dificuldades. Analisando mais profundamente este fato, ele mostra que a implantação de projetos regionais de desenvolvimento precisam ser integrados e envolver vários municípios. Será necessário visão de integração regional.

Será necessário um projeto de desenvolvimento regional que vá além do comércio e serviços. Será preciso envolver a produção material (agrícola e industrial), para assim arrastar os demais setores. Sem essa perspectiva, os municípios viverão sempre dependentes.

Não agir pró-ativamente nesta linha reforçará a velha ideia de esperar e estimular os grandes projetos que vêm de fora (exógenos), o chamados “Grandes Projetos de Investimentos” (GPI) que quando acontecem, tendem a se instalar como enclaves, com pouquíssimo diálogo e articulação com as comunidades locais que ficam isoladas.

É preciso investir nas pessoas da região com os recursos que ainda existem e que vão ficar mais escassos adiante quando a Economia dos Royalties tiver se liquefeito.

Mas, fiquemos por aqui com a análise que acaba levantando outras questões que esta postagem quer apenas provocar.

É preciso pensar saídas, num momento em que há um certo vazio, em termos de se pensar alternativas para a diversificação da economia (para além dos royalties do petróleo) e em implantar Políticas Públicas mais eficientes e de interesse do cidadão.

sexta-feira, setembro 22, 2017

De onde surge a balela de que a economia se deslocou da política no Brasil?

Interessante este discurso dos “colonistas” econômicos da mídia comercial, divulgando repetidas vezes, a ideia de que a economia está melhorando e que ela se descolou da política e tem trilha própria.

Ora, ora, ora. Nem Delfim Neto ousaria tanto. Delfim lê bons teóricos e sabe que isto não é possível e nunca falaria uma bobagem desta, mesmo que se queira rechaçar a Economia Política.

O que houve é que o mercado capturou por completo, o poder político no Brasil.

A economia está boa para quem cara pálida? Quem está concentrando recursos e recolhendo os excedentes econômicos, enquanto o desemprego aumenta, as condições de trabalho piora e participação dos salários na economia pioram com os cortes sem fim dos direitos sociais?

A banca sempre sonhou e trabalhou por um Banco Central “independente”. Sim, independente da maioria da população do país. Sempre desejaram que o papel dos governos eleitos fossem entregues à regulação externa, como se fossem técnica.

Para isto criaram eles criaram na década de 90, as agências reguladoras. Estas seriam também “independentes” da maioria da população e estariam como hoje, só sob o controle dos donos dos dinheiros e do mercado.

A economia está sem controle da política porque ela está a serviço da minoria endinheirada que vê a população como um todo como estorvo que só serve para servir com mão de obra barata e se possível como na era da escravidão

No Brasil, após o golpe, o mercado abandonou os intermediários da política. Eles mal vistos por todos ficaram cuidando das confusões da mediação e outras coisas menores, porque tudo o que interessa (orçamento, energia/petróleo, etc.) já está sob seu controle direto.

Não tenham dúvidas, o Brasil atual, está se transformando com este dia-a-dia, num dos maiores “cases” do ultraliberalismo que trabalha promovendo uma nação para poucos, dentro de uma concepção de uma civilização excludente que empurra os pobres e a pobreza para as periferias.

As tensões aumentarão e os mesmos falarão da violência, das drogas, da necessidade de polícia, mas a economia tá bem e descolada da política.

Mas a economia tá bem e descolada da política.

quinta-feira, setembro 21, 2017

China exporta US$ 342 bilhões a mais do que importa dos EUA: o que isto tem a ver com o petróleo e a geopolítica?

Estudando um pouco mais sobre o capitalismo contemporâneo e sobre as redes globais e a forma como elas atuam sobre os territórios, com dinâmicas em várias dimensões, eu me deparei com um dado bastante interessante.

A distância entre a produção material da China e os EUA refletida nas exportações entre estas duas grandes nações. Em 2016, a China exportou US$ 347 bilhões a mais que os EUA exportou para a China.

Observando o processo histórico é possível recordar que o mesmo teve início na década de 70/80. Desde esta época os EUA foi empurrando a produção material para o exterior. Inicialmente para o Japão. Porém, manteve controle sobre o sistema financeiro que administrava esta produção.

Assim, a indústria americana foi sendo “deslocalizada” mais recentemente para a China, como mais um espaço de "outsourced". Tudo isto feito com o padrão dólar.

Fonte: http://chinalinktrading.com
Mas devemos convir que US$ 347 bilhões de déficit comercial dos EUA com a China é muito grande. Valor que equivale ao volume da décima maior nação exportadora do mundo. E, aproximadamente, o dobro de toda a exportação brasileira, também no ano de 2016.

No meio de todo este movimento, a dívida dos EUA foi se elevando. Hoje, alcança cerca de US$ 20 trilhões e não para de crescer. Desta forma, a China sabe que este déficit comercial dos EUA tem como barreira e controle, o padrão dólar.

Os chineses sabem que precisam romper este padrão único com a moeda americana. A China também sabe que o rompimento deste padrão dólar no comércio internacional, pode alterar muita coisa no jogo de xadrez da geopolítica mundial.

Assim, a ideia da China passa a ser “deslocalizar” não a produção material (industrial), já obtida, mas o poder e o controle financeiros dos bancos de Londres e Washington, construindo uma alternativa.

É neste compasso que entra o setor de petróleo. A China é o maior importador de petróleo do mundo, a mercadoria mais negociada no globo, sempre em dólares.

A China e nem a Rússia não veem motivos para isto e já articulam via Brics alternativa ao petrodólar. O petrodólar que nasceu em 1975, através do acordo dos EUA com a Arábia Saudita rompendo até então a exclusividade da equivalência com o padrão ouro.

Negociações, antes inimagináveis, entre a China e a Rússia avançam muito rapidamente para uma alternativa. E ela inclui o uso - já em vigor - de contratos futuros de petróleo, com poder de conversão em ouro.

Assim, a alternativa de uma futura moeda internacional poderia ser também viável. Ela teria lastro em ouro - que a China é hoje a maior produtora mundial - e ainda potencial para viabilizar uma cesta de várias moedas.

Tudo isto pode deslocar também a hegemonia unipolar americana que assim poderia também afastar o sonho de Trump focado na expressão da campanha eleitoral: “America first”.

É certo que mudanças estão sendo operadas nos alinhamentos mundiais entre as nações. Porém, saber se a situação segue evoluindo para conversas e negociações ou rompimentos, só o tempo dirá.

Na melhor hipótese podemos ter aí as bases de uma nova regulação financeira internacional. De outro lado, mais pressão e tensão.

No meio deste jogo vê-se que a Europa, em meio às confusões, pode estar contribuindo para importantes mudanças na geopolítica do poder, com um novo dinamismo na direção Eurásia. Lembrando que o poder sobrevive e se movimenta por conta das assimetrias e nesta dinâmica busca sempre a expansão.

FGV vai definir preço de venda da Cedae

Apesar da modelagem do processo de privatização da Cedae estar sendo feita pelo BNDES, a FGV vai receber R$ 900 mil para estabelecer o preço da venda das ações da companhia estadual de saneamento.[1]

Como se vê os ganhos com a transferência de um monopólio estatal para o setor privado vai sempre muito para além daqueles obtidos pelos operadores.

Nesta cadeia de ganhos obtidos neste percurso se inserem ainda grandes bancas de advogados - para garantir os interesses dos operadores - e a mídia comercial.

Assim tentam construir o "discurso de consenso" sobre esta necessidade, mesmo que no mundo contemporâneo, até as maiores nações capitalistas do mundo (EUA, Alemanha, Reino Unido, etc,), discordem e tenha revisto esta criminosa direção do monopólio privado.

[1] Matéria do Valor em 20 set. 2017, P.A4. Estado Rio retoma programa de de privatizações para cortar despesas. Link: http://www.valor.com.br/brasil/5125970/estado-do-rio-retoma-programa-de-privatizacoes-para-cortar-despesas

"Sem um estado forte, outro Poder mandará"

O artigo abaixo foi publicado no jornal GGN (aqui), na terça-feira 19 set. 2017. O autor é o advogado André Araújo. Ele discute o papel do Estado no Brasil, lembrando que no país, o Estado chegou antes da nação e fala dos riscos de desintegração da nação em meio à enorme crise política e econômica.

É um artigo amplo. Vale conferir. Concordar na íntegra ou em parte é o menos importante. Eu mesmo discordo de algumas sugestões, mas concordo com boa parte dos argumentos e diagnóstico. Repito. Vale conferir!

Sem um Estado forte, outro Poder mandará, por André Araújo
O Brasil está em uma crise política, econômica e social de caráter histórico. A raiz da crise é o ENFRAQUECIMENTO do Estado nacional, hoje submetido a forças desintegradoras que  agridem o funcionamento e a estabilidade de um dos maiores países do mundo.
Um novo governo, seja ele de esquerda, centro ou direita não governará nesse quadro caótico.
Ou o poder se recentraliza ou o Brasil será ingovernável, correndo sérios riscos de ruptura das colunas de integridade construídas em séculos pela Coroa ibérica, pela Igreja Catolica e especialmente pelas forças armadas, fundamentais na repulsa às invasões holandesa e francesa, às incursões castelhanas, na luta pela Independência e na submissão de rebeldias internas, forças desintegradoras que de norte a sul contestaram o Estado colonial e nacional.
Nenhum desses movimentos rebeldes poderia ter sido enfrentado se o Estado brasileiro não fosse forte por índole e propósito. O Brasil nasceu como nação pelas mãos do Estado fundador, anterior à própria formação da nacionalidade, o Estado antecede à Nação.
O Imperador Dom Pedro II era o símbolo da solidez do Estado brasileiro, o ponto de união e convergência em seis décadas quando os riscos potenciais de ruptura do Estado foram muitos e de toda ordem. Foi o Império com sua legitimidade histórica que impediu a fragmentação do território nacional, como ocorreu na América espanhola, dividida em 17 paises.
Na Primeira República, os Presidentes foram fortes e esmagaram incontáveis movimentos de contestação ao poder central, capitais foram bombardeadas ou invadidas como Salvador, São Luis , Fortaleza e São Paulo, rebeldias regionais não foram admitidas contra a República.
Revoltas violentas  foram enfrentadas por todo lado, como a Farroupilha, a do Contestado, a do Acre, que resultou na sua anexação pelo Brasil, o amplo e duradouro movimento dos Tenentes de 1922, a rebelião de 1924 em São Paulo. Já a Segunda República enfrentou revoltas em São Paulo em  1932, dos comunistas no Rio e em Natal em 1935 e com o desfecho do Estado Novo em 1937, etapa máxima da centralização do Poder do Chefe de Estado, figura simbólica  como sucessor do soberano, criando as condições de um enorme desenvolvimento social e econômico do Brasil de 1937 a 1975, regimes sequenciais ao regime varguista de 1937.
Contestação judicial ao Governo Floriano pelo STF levou à celebre frase do Presidente Floriano Peixoto ao ser ameaçado pelo Supremo “ mas quem é que dará habeas corpus ao Supremo?”
Hoje o poder da Presidência, que deveria ter as características de poder superior aos demais no sentido de seu exercício de comando operacional do Governo, está ABAIXO em poder de outras três torres de comando oficiais: o Supremo Tribunal Federal, a Procuradoria Geral e a Policia Federal. Ao invés do poder dos canhões, essas três torres se utilizam de INQUÉRITOS, que podem abrir contra qualquer  autoridade em qualquer numero e sob sua exclusiva vontade, sem contraponto, contestação ou bloqueio, poder que não tem o Executivo ou Legislativo, cujas regras podem ser contestadas judicialmente enquanto normas do Supremo não tem instância superior de controle e inquéritos da Policia ou da Procuradoria produzem efeitos políticos a partir do momento de sua divulgação. Formou-se assim uma assimetria que transforma a Presidência em poder refém de outros, enquanto os demais não dependem em nada da Presidência ou do Congresso, podem atuar sem contrapesos.
Esses poderes podem abrir quantos inquéritos quiserem, com ou sem motivos e através dos inquéritos comandam os acontecimentos políticos, inalcançáveis por controle externo.
O Supremo incorporou o PODER DE LEGISLAR sobre matérias que não estavam antes em seu alcance e através dessa nova aquisição de poder governa a politica. Exemplo marcante é a decisão do STF de proibir o financiamento empresarial de campanha. É claríssimo, de uma limpidez ímpar, que essa é uma matéria de LEGISLAÇÃO e não de decisão judicial.
Não há na lei proibição ao financiamento empresarial, a proibição foi um exercício ilegítimo de poder pelo Supremo e como esse inúmeros outros temas foram objetos de PODER CRIADO interna corporis, o Supremo gera dentro dele o novo poder que exercita ACIMA DA LEI, como a aplicação da norma do DOMÍNIO DO FATO, que não se encontra na legislação positiva.
Nas novas leis “abertas” de livre  interpretação, as chamadas “leis omnibus” dentro das quais cabem enquadramentos ao infinito ,  se  usa e abusa  de uma aplicação extensiva e ao único arbítrio do julgador,  permitindo penas aterradoras, muito superiores àquelas do Código Penal, penas de 20,  30, 40 ou mais anos por ter ido a um guichê sacar um cheque, tudo entendido como  lavagem de dinheiro,penas  que não se dá a assassinos estupradores, o que demonstra grave distorção do sistema de leis penais e de sua aplicação pratica,  tal disfunção tem clara explicação politica:  essas regras extravagantes e de interpretação aberta como obstrução de justiça, lavagem de dinheiro, anti-corrupção, são LEIS DE PODER,  tem como alvo principal a “classe politica” que fica assim submetida ao comando dos novos soberanos, a arma de guerra é a capacidade desse poder reforçado de aplicar penas que equivalem à prisão perpetua, destruindo a capacidade de reação da classe eleita, colocada contra a parede por inquéritos que podem ser manejados livremente como instrumentos de comando politico.
Ao proibir o financiamento empresarial de campanha o Supremo abre largamente o mercado de inquéritos contra todos os políticos do Legislativo e do Executivo, tornando-os mais vulneráveis e imputáveis. O STF aumenta por sua própria decisão o poder da PF e da PGR para criminalizar condutas de políticos que anteriormente a essa decisão poderiam receber doações empresariais e aumentam largamente o campo de arbitragem do sistema judiciário sobre a atividade politica e seus operadores eleitos pelo voto direto, agora submetidos a um poder maior que a eleição.
MERCADO FINANCEIRO
Mais duas poderosas e  não oficiais  TORRES DE COMANDO estão acima da Presidência: o ente conhecido como “mercado financeiro”, hoje representado pelo Ministro da Fazenda e pela sua divisão blindada, o Banco Central, a ponto de um Ministro que deveria ser um auxiliar do Presidente, por ele nomeado e demissível a qualquer momento, se permitir de forma publica  a MÁXIMA ousadia que jamais um Ministro da Fazenda invocou no Brasil republicano, dizer que se mudar o Presidente ele fica, entendendo-se ele e sua equipe. Essa simples declaração em outros tempos implicaria em imediata demissão mas nestes momentos escuros o Presidente não pode demiti-lo. Na história recente em 1965 o Ministro da Guerra, Costa e Silva, disse algo semelhante  quando fez uma viagem à Europa no início do Governo Militar “viajo Ministro e volto Ministro” o que foi entendido como sendo seu poder ser superior ao do próprio Presidente Castello Branco, que a partir daí encolheu sua autoridade até Costa e Silva ser indicado e empossado realmente como Presidente, sua declaração atrevida previu o desfecho de seu poder superior ao Presidente como Ministro da Guerra.
A entidade “mercado financeiro” por seus porta vozes na mídia, cito apenas uma, Miriam Leitão, vem declarando continuamente que a POLÍTICA ECONÔMICA é independente de quem seja o futuro Presidente, o que é  uma visão historicamente absurda, porque o futuro Presidente estaria amarrado a uma politica econômica de um grupo anterior ao seu Governo?
MÍDIA
Chegamos então à quinta TORRE DE COMANDO sobre a Presidência, a mídia eletrônica, rádios e TVs que são uma concessão do Estado mas se permitem contesta-lo a todo dia. O Estado concede e pode cassar a capacidade de usar as ondas hertzianas, que pertencem ao Estado e são apenas cedidas temporariamente a particulares, o Código de Telecomunicações dá amplos poderes ao Estado para conceder e cancelar essas concessões quando elas forem desvirtuadas de suas finalidades ou em situações onde a transmissão põe em risco a segurança nacional, a cassação não demanda muitas explicações e pode ser executada por simples decreto da Presidência, ninguém é “dono” de uma frequência para radio e tv, é uma regra universal.
O democratíssimo Presidente Juscelino usou de seu poder legal para tirar do ar a TV Tupi quando Carlos  Lacerda ameaçou fazer um discurso para depor o Presidente.
Quando a mídia divulga vazamentos ilegais de processos protegidos por sigilo cabe punição severa. Paises democráticos processaram um Julian Assange por quebra de sigilos que estavam sob proteção do Estado. O que é sigiloso não pode ser divulgado e quem é cumplice da divulgação pode perder a concessão, o Estado está acima do direito subjetivo de transgressões que agridem as leis ,  Governos democráticos não devem ser fracos para dar a pessoas individuais o direito de desafia-lo indo contra a ordem legal  Certas máximas do Poder mesmo em países democráticos fora, esquecidas no Brasil a partir da Constituição de 88, a Constituição que ampliou ao infinito os “direitos” a custa do enfraquecimento do Estado.
POLÍTICA ECONÔMICA
Nas mais sólidas democracias a mudança da Presidência implica na mudança da política econômica, nos EUA isso ocorreu em todas as mudanças de ocupantes da Casa Branca, há grande diferença entre uma politica econômica do Partido Democrata e a do Partido Republicano, na crise dos anos 30, as políticas de Hoover e Roosevelt eram diametralmente opostas, assim como a de Churchill e Attlee no Reino Unido, a saída de Thatcher implicou em grande virada na politica econômica britânica. Como então o “mercado” por seus porta vozes na mídia se atreve a dizer que o próximo Presidente manterá a mesma política recessionista da atual equipe, aliás se atrevem a dizer que a mesma equipe continuará, é muita ousadia e se se a permitem é porque acham que a força do “mercado financeiro” é suficiente para mandar na economia e por extensão, no Governo, no atual contexto parece que conseguem esse feito.
Isso é o contexto de hoje mas não foi sempre assim. O Presidente Fernando Henrique mudou duas vezes o presidente do Banco Central, demitindo o ocupante por telefone, sem se aprisionar ao mercado. O Presidente Itamar Franco mudou em pouco tempo três Ministros da Fazenda, sem dar maiores satisfações ao “mercado”. O Presidente Collor mudou quem e quando quis na área econômica, tirou Zelia para colocar Marcílio Moreira sem pedir permissão ao mercado ou à mídia, o Presidente do Brasil pode muito, é uma Presidência imperial.
OS PODERES DA PRESIDÊNCIA
O aprisionamento atual da Presidência a esses novos poderes e algo novo, não tem precedentes históricos e nem é da natureza do cargo e da extensão de sua autoridade.
Um Chefe de Estado que pretenda governar o Brasil não o fará com essas torres de comando acima dele. Nada tem a ver com ideologia, é uma regra de poder simplesmente, o Comandante não pode ser emparedado pelo sargento corneteiro ou pelo oficial de intendência ou é Comandante incontestado ou o Regimento não vai combater.
A saída lógica é uma aliança do Chefe de Estado com as Forças Armadas para reconduzir as TORRES DE COMANDO a seu devido lugar na politica e na Historia.
Uma Presidência forte e centralizada será essencial para o Brasil enfrentar sérios desafios na cena internacional dos próximos anos. O enfraquecimento da Presidência levou ao apequenamento da projeção internacional do Brasil, hoje uma sombra do que foi durante o Governo Vargas e durante os governos militares, que projetaram a influencia e presença do Brasil no Oriente Médio e na Africa, criaram uma forte indústria de material bélico, prontamente liquidada pelo governo FHC ao rejeitar um papel internacional do Brasil para alinha-lo automaticamente ao sistema de Washington,, assinando o Tratado de Não Proliferação e o Acordo de Cooperação Judiciaria, dois instrumentos de perda de soberania.
Os desafios da economia, da ecologia, dos conflitos regionais, do aumento da pobreza e da concentração de renda exigirão uma Presidência institucionalmente forte e eficiente, o que jamis será com a existência de ilhas de poder concorrente contra a Presidência.
Esta pequena analise é oferecida no contexto da práxis do poder politico no modelo proposto pelo mestre Nicoló Machiavelli, sem qualquer pretensão de  julgamento ideológico ou ético-moral para indagar as razões do poder, apenas pretende-se um olhar sobre o poder em EXISTÊNCIA, ele existindo só poderá operar se tiver comando do território.
Quando os militares depuseram o digno Imperador Dom Pedro II em 15 de novembro de 1889, o Embaixador britânico no Rio de Janeiro Sir Hugh Wyndham perguntou por telegrama ao Ministro do Exterior em Londres, o lendário Marques de Salisbury (Robert Gascoyne-Cecil), vamos reconhecer o novo Governo Republicano do Brasil?
O Imperador era respeitadíssimo em Londres, seu longo reinado tornara-o um figura de peso na Europa e nos Estados Unidos, o Embaixador com razão lamentava o fim da Monarquia mas Lord  Salisbury, três vezes Primeiro Ministro, que comandava o Império Britânico quando abriu o Seculo XX, não derramou uma lágrima sentimental, sé fez uma única pergunta?
Os militares que depuseram o Imperador dominam o território?
SE DOMINAM O TERRITÓRIO RECONHEÇA O NOVO GOVERNO IMEDIATAMENTE.
Domínio para Lord Salibury significava mandar sem contestação ou oposição.
Para Salisbury não importava o justo ou o injusto, a ética, a moral, a tradição ou a ideologia do novo governo que obviamente não poderia ser da simpatia da monarquia inglesa.
Mas a politica é antes de tudo REALIDADE, o Marques de Salisbury operava dentro dela.
Essa é a chave, governa quem domina o território, quem PODE MANDAR é o poder.