Quando se fala em soberania digital ou cibernética muito se comenta sobre a necessidade de controle sobre a Infraestrutura Digital (em especial datacenters e redes de cabos submarinos e conectividade). Sim, isso é indispensável, assim como o suprimento de energia elétrica para manter essas infraestruturas, mas não apenas.
É preciso mais. É necessário ter controle sobre a Política de Dados para que elas atendam aos interesses públicos e coletivos. Pacotes de dados estruturados que possam ser armazenados, processados, computados, relacionados e até negociados, como os "datasets", que devem preservar a privacidade dos dados individuais.
Nessa linha, os vários tipos de dados entram na equação como fator de produção e como força produtiva. Assim, os dados podem estar vinculados à inovação industrial e às novas arquiteturas que podem oferecer e garantir maiores escalas de produção. Nesse movimento é fundamental enxergar a totalidade da cadeia produtiva digital como estratégica, porque que ela se articula, transversalmente, a todos os demais setores da economia e suas cadeias de valor dentro e fora do país.
Vale ainda lembrar que não se pode falar em Inteligência Artificial (IA) sem falar na armazenagem de dados, no treinamento profundo de máquinas (deep learning) que possibilitam a busca de padrões probabilísticos e modelos de linguagens (LLMs e chatbots). Esses padrões só são identificados se os dados existirem de forma não fragmentada e estruturada, para assim servir - de forma integrada - ao sistema de produção e aos serviços..
Nessa direção a China avançou para o modelo das bolsas de dados. São várias bolsas puxadas pela de Xangai que já tem dez anos de implantação (2016). Já os EUA e o Ocidente têm deixado quase todos esses negócios de dados por conta das Big Techs e de seus investidores (mercado financeiro, gestoras de fundos e capital de risco).
Segundo James Görgen, especialista em Políticas Públicas e Gestão Governamental e assessor no Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), em 2025, os negócios realizados nas bolsas de dados chinesas teriam ultrapassado a quantia de U$ 277 bilhões, tendo uma previsão de que até 2030 deverá passar do valor de U$ 1 trilhão, embora, outras estimativas afirmem que esse valor poderia chegar aos US$ 8 trilhões. Hoje, abril de 2026, esse valor equivale a 1/3 do valor de mercado da soma das 10 maiores corporações de tecnologia do mundo com capital aberto ou que possuem ações em bolsa.
A partir destas questões ímpares, descortinam-se muitas possibilidades que diferem e vão noutra direção em relação ao atual uso indiscriminado de dados, capturados e desapropriados dos brasileiros por parte das gigantes coporações de tecnologia dos EUA. Uso que tem servido a ampliação do extrativismo hi-tech e à captura de renda executada pelas plataformas digitais que resultam nos grandes oligopólios que monetizam esses dados se imbricando de forma siamesa com a hegemonia financeira que tem sido a primeira e maior usufrutuária dos processos crescentes de digitalização e plataformização.
Neste contexto, é fundamental que o Estado brasileiro, muito além de incentivar uma infraestrutura digital soberana de datacenters com controle de acesso e interconectividade ampla, mas atue também – e de forma especial – na organização de uma política nacional de dados estruturados que possa servir à toda a economia brasileira e nossa cadeia produtiva, como parte de um amplo, claro e potente projeto nacional e integrado de desenvolvimento.
O Brasil tem a maior economia digital da América Latina caminhando para chegar a 200 milhões de usuários de internet que são também produtores de dados entre navegação, e-commerce e serviços de todo o tipo, em especial, saúde, educação e cultura.
O Brasil é grande demais em qualquer dimensão que se observe e tem não só potencial, mas bilhões de dados estruturados em nossas bases estatais e privadas, além de também possuir bases materiais, científicas, pessoal e tecnológicas, para interromper o atual extrativismo hi-tech. Assim, o Brasil pode e deve optar por outra direção com um planejamento soberano, sem isolamento e com articulações geoeconômicas e geopolíticas que garantam o interesse nacional.
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