Tenho dito e insistido que o setor financeiro é, em todo o mundo, em especial no Ocidente, o primeiro demandador, maior incentivador e usuário das novas tecnologias digitais, incluindo a IA generativa. Tecnologia e finanças nasceram da mesma costela e possuem o mesmo DNA.
O Bradesco entre os grandes
bancos (“bancões”) brasileiros foi o que saiu mais atrasado nessa corrida,
desde quando esse processo era chamado de “informatização bancária” na distante
década de 80. Pode parecer estranho, mas nesta época, o Brasil esteve entre os líderes
deste processo em todo o mundo. Há cerca de uma década, o Bradesco vem
acelerando a corrida atrás do prejuízo e passou a chamar esse processo não de “transformação
digital”, como fazem outras companhias, mas usando uma nomenclatura mais
radical: “desmaterialização".
Assim, o Bradesco decidiu des-terceirizar (contratar diretamente) sua expressiva equipe de TI com cerca de 11 mil trabalhadores (13,5% de sua força de toda sua força de trabalho). A decisão visa evitar a perda de pessoal qualificado. Além disso, o Bradesco passou a usar a IA Generativa já há alguns anos e, mais recentemente, também o blockchain e a computação quântica. Se tratam de movimentos de incorporação de tecnologias que possuem enorme dependência do recurso das nuvens (clouds) que hoje opera cerca de metade da carga operacional do banco.
Mirando incrementar a
digitalização/dataficação, o Bradesco deu alguns saltos com a aquisição de
várias startups, cujas tecnologias e serviços foram logo incorporadas às suas
operações. Desde 2017, o Bradesco lançou sua própria fintech, a Next e, a
partir de 2022, seu sistema digital já passou a permitir o uso de pix por
whatsapp, época em que também passou a usar agentes de IA (software autônomo) em
várias de suas operações, em especial no atendimento aos clientes, recomendações
de investimentos, engenharia de software entre outros.
Enquanto isso, o Itaú anunciou
agora, no dia 5 maio de 2026, em seu evento Meet Itaú Tech, a ampliação em 88%
do uso de IA Generativa e passou a considerar esta como “a tecnologia ou camada
estrutural da operação de todo o banco". Como parte da aceleração de sua
digitalização, o Itaú ampliou nos últimos meses, o crescimento de 35% do uso de
Machine Learning e passou a ter quase
70% da carga de suas operações nas nuvens (cloud).
[1]
Recentemente, o Itaú também formalizou
a criação da “plataforma Iara” com a função de organizar todo o uso de IA no
banco: “centralizar modelos, bases de conhecimento, memória persistente e
mecanismos de governança”. No evento, o Itaú informou ainda que entre 2018 e
2026 aumentou em 2.800% o volume de atualizações tecnológicas e recentemente
identificou uma redução de 44% no custo unitário de seus processamentos.
Para o cliente, o banco informa
que essas iniciativas aparecem sob a marca “inteligência Itaú” que já atende 5
milhões de correntistas, ofertando possibilidades como emissão de pix a partir
de textos, áudios, voz ou imagem pelo WhatsApp, sem precisar ir ao aplicativo
do banco.
Outro movimento estratégico do
Itaú foi a criação do Instituto de Ciência e Tecnologia (CTI) com objetivo de ter
diretamente sob seu controle uma estrutura voltada à pesquisa aplicada em
tecnologias emergentes. O CTI possui 200 pesquisadores atuando principalmente nas
áreas de IA Gen, computação quântica, robótica e realidade estendida, além de
parcerias com instituições como a USP, MIT e universidade de Stanford nos EUA.
Evidências da digitalização
dos bancos e do setor financeiro na busca por maiores lucros e máxima fluidez do
capital
O setor bancário é parte do
sistema financeiro capitalista, onde a oferta de crédito sempre determinou a
aceleração da economia, só que o movimento de creditício vem sendo
paulatinamente substituído pela máquina das dívidas e do endividamento como
motor de arrasto da produção e da economia.
A informatização do setor financeiro
com uso intenso da tecnologia digital traz vantagens para o usuário, mas beneficia
muito mais aos donos dos dinheiros, porque facilita a intermediação bancária e
a capitalização dos investidores com crescente redução dos custos. Além disso,
também possibilita a ampliação da desejada inclusão bancária, junto com o
número de consumidores que, em síntese, é o que faz a espiral do capitalismo girar
e subir, arrancando a riqueza do território, onde acontece a produção material
e o ciclo de reprodução social, base da pirâmide do movimento do capital.
Os avanços em 3/4 décadas de
digitalização bancária foram colossais. Na década de 70 apareceu o cartão de
crédito. Na década de 80 surgiram os primeiros caixas eletrônicos (ATM –
Terminal de Autoatendimento) e, logo depois, o Caixa 24 horas. Em 1990, a
digitalização avançou para o uso de boletos com os códigos de barra. Logo
depois, em 1995, foi disponibilizado o Internet Banking, levando o acesso ao
banco para as casas e para o trabalho dos correntistas.
Em 2008 apareceu o 1º aplicativo
de banco para uso nos celulares e, em 2010, a primeira Fintech. Em novembro de
2020 o Banco Central lançou o Pix. Assim, em 2025, já assistíamos a explosão do
Mobile Banking com 200 bilhões de transações por celular, o maior canal de
movimentação financeira do Brasil, em que 90% das transações são feitas por plataformas
móveis. [2]
Agora, no 1º trimestre de 2026, o
Brasil já possui 170 milhões de usuários de Pix (cerca de 80% da população),
sendo 160 milhões como pessoas físicas. Nesse mesmo período, o BC registrou 7
bilhões de operações com Pix (56%) ultrapassando as 5,4 bilhões de operações
com cartão de crédito (44%). [2] [3]
Tudo isso, são evidências do
aumento do uso da digitalização bancária e de todo o setor financeiro, onde se
observa a utilização cada vez mais intensa de pacotes de dados e da IA. Os
dados servem para análise de riscos, regularidade de pagamento, atração de
investidores para capitalização e clientes para empréstimos consignados ou não.
Assim, observa-se a ampliação da
dataficação com os usos de diferentes conjuntos de dados dos clientes dos
bancos e do mercado financeiro, que acabam dependendo deles para estruturar
suas operações e suas decisões. Quanto maior e mais célere o fluxo do dinheiro
maior é a captura e extração de valores pelos agentes financeiros.
Nessa sequência, a computação
quântica também já vem sendo utilizada em modelagens de negócios financeiros e
de títulos, em especial no mercado de capitais e entre as gestoras dos fundos financeiros
que fazem previsão de suas rentabilidades quase que online [4]. Desta forma, o
sistema passa a operar quase que de forma autonomia, com os agentes de IA definindo
taxas de juros e fazendo simulação da rentabilidade para os diferentes tipos de
ativos matérias ou financeiros.
Digitalização, plataformização, fintechização e assetização
Esses movimentos dos dois grandes
bancos brasileiros na direção da radicalização do uso das tecnologias digitais são
apenas breves demonstrações sobre como o setor financeiro é o primeiro e maior
usufrutuário do avanço das tecnologias digitais e da IA em todo o mundo. Os
demais bancos e as centenas de fintechs autorizadas pelo Banco Central (BC)
seguem caminhos similares conforme suas possibilidades de investimentos em
tecnologia.
Não é diferente do que vem
acontecendo no mercado de capitais (acionário), fundos financeiros e entre as fintechs
(que juntam nesse acrônimo, já bem conhecido), as finanças com a tecnologia.
Porém, vale observar que tudo
isso vem ocorrendo exatamente nesse momento em que a hegemonia ou a dominância
financeira se impõem sobre o controle e fluxos dos ativos em boa parte do
mundo.
Aliás, a ideia de ativo vem dessa
lógica da “assetização” (Langley, 2020) [5] e do rentismo. Sob o controle das
gestoras de fundos tem em sua órbita os ativos da economia real (indústrias,
produção de alimentos, infraestruturas de circulação (logística com portos,
aeroportos, ferrovias e rodovias) e os serviços.
Por outro lado, mas em
articulação à economia real se desenvolveu e cresceu o circuito dos papeis,
títulos, debêntures, mercados futuros da outra lógica que é o do capital
fictício e da financeirização cada vez mais hegemônica
Juntos, os dois circuitos
produzem uma “espiral de acumulação infindável” (Harvey, 2018) [6] e demonstra
o capital em movimento. Uma espiral em movimento circulares e ascendentes, tipo
helicoidal, em torno do capital, que mistura valorização (economia real) com a capitalização
que se desenrola no mundo das finanças.
Big Money e Big Tech como chaves do tripé do capitalismo contemporâneo
A digitalização tem servido a
vários propósitos, desde o e-commerce com a plataformização, a comunicação das
mídias sociais e muitos outros usos que crescem dia a dia. A dataficação se
tornou um novo fator de produção com diversas utilizações possíveis, levando a
um ritmo muito acelerado de inovação. [7]
Nesse sentido, não faz sentido
repetir os ludistas no início da revolução industrial quebrando as máquinas e
freando a tecnologia. O público em geral deseja ter as facilidades geradas pela
tecnologia, mas é preciso entender a quê e a quem ela ter servido quando se
desenvolve de forma quase completamente desregulada.
O controle sobre esses processos
precisa ser melhor observado. Não é possível aceitar a baixa regulação que vem
permitindo um fluxo de capitais sem fronteira, quase sem nenhum controle,
ampliando a oligopolização, as desigualdades econômicas e ao controle quase
total do Big Money que acaba por moldar as Big Techs.
O Big Money articulado às Big
Techs ajuda a explicar a hegemonia do capital financeiro. Da mesma forma que o
controle da tecnologia se hierarquizou e se concentrou o mesmo tende a
acontecer com o sistema financeiro e os bancos nacionais. Crescem os riscos de
oligopolização e centralização do setor bancário, a partir das relações
transfronteiriças do capital e da colossal fluidez possibilitada pela
digitalização.
Os próprios organismos
internacionais do setor financeiro vêm alertando continuamente para os riscos e
os desafios para lidar com o controle do fluxo de dinheiro diante da fluidez do
capital e do incremento das moedas digitais e criptomoedas (stablecoins), surgidas a partir do
avanço e da utilização cruzada e intensiva das tecnologias digitais, nuvens, blockchain,
IA, IA Gen e computação quântica.
Na atualidade vivemos o que tenho
chamado de um “tripé do capitalismo contemporâneo” sustentado nos pilares da
digitalização/dataficação como etapa contemporânea da reestruturação
financeira; segundo da hegemonia e dominância financeira; e concluída pela
racionalidade neoliberal que articula e justifica esses movimentos da
atualidade. Observar o fenômeno em sua totalidade é imprescindível, mas é
preciso ir além.
Referências:
[1] Meetup Itaú Tech 2026 – 5 de maio de 2026. IA na engenharia de software. IA agêntica. Meetup Itaú Data – canal no YouTube. Disponível em: https://youtube.com/playlist?list=PL34w81iXr8CtgkVTr-ij7Tthv5Y0Qe6jJ&si=idNl7vzYc7YTmENd
[2] Banco Central do Brasil (BCB). Pix em números. Disponível em: https://bcb.gov.br/estabilidadefinanceira/pix-em-numeros-estatisticas
[3] ABECS – Balanço
do setor de meios eletrônicos de pagamento RESULTADOS 1T26 – Associação das
empresas do setor de meios eletrônicos de pagamento. Disponível em: https://abecs.org.br/storage/sector_balances/25/01KRBRHK0XNVRHQQ8Y2A6X07F4.pdf
[4] PESSANHA, Roberto Moraes. A ´indústria´ dos fundos financeiros: potência, estratégias e
mobilidade no capitalismo contemporâneo. Consequência: Rio de Janeiro,
2019.
[5] LANGLEY, Paul. Assets
and assetization in the financialized capitalismo. Review of International
Political Economy. Online, 2020. Disponível em: https://www.tandfonline.com/doi/abs/10.1080/09692290.2020.1830828
[6] HARVEY, David. A
loucura da razão econômica. Boitempo: São Paulo. 2018.
[7] PESSANHA, Roberto Moraes. Artigo no Blog Roberto Moraes
e Portal 247 em 7 de maio de 2026. Dataficação:
questão-chave da soberania cibernética e superação da dependência digital. Disponível
em: https://www.robertomoraes.com.br/2026/05/dataficacao-questao-chave-da-soberania.html

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