segunda-feira, abril 06, 2026

Relação entre dados, infraestrutura digital, IA, novas forças produtivas e um projeto nacional de desenvolvimento

Quando se fala em soberania digital ou cibernética muito se comenta sobre a necessidade de controle sobre a Infraestrutura Digital (em especial datacenters e redes de cabos submarinos e conectividade). Sim, isso é indispensável, assim como o suprimento de energia elétrica para manter essas infraestruturas, mas não apenas.

É preciso mais. É necessário ter controle sobre a Política de Dados para que elas atendam aos interesses públicos e coletivos. Pacotes de dados estruturados que possam ser armazenados, processados, computados, relacionados e até negociados, como os "datasets", que devem preservar a privacidade dos dados individuais.

Nessa linha, os vários tipos de dados entram na equação como fator de produção e como força produtiva. Assim, os dados podem estar vinculados à inovação industrial e às novas arquiteturas que podem oferecer e garantir maiores escalas de produção. Nesse movimento é fundamental enxergar a totalidade da cadeia produtiva digital como estratégica, porque que ela se articula, transversalmente, a todos os demais setores da economia e suas cadeias de valor dentro e fora do país.

Imagem gerada pela IA do Gemini
Vale ainda lembrar que não se pode falar em Inteligência Artificial (IA) sem falar na armazenagem de dados, no treinamento profundo de máquinas (deep learning) que possibilitam a busca de padrões probabilísticos e modelos de linguagens (LLMs e chatbots). Esses padrões só são identificados se os dados existirem de forma não fragmentada e estruturada, para assim servir - de forma integrada - ao sistema de produção e aos serviços..

Nessa direção a China avançou para o modelo das bolsas de dados. São várias bolsas puxadas pela de Xangai que já tem dez anos de implantação (2016). Já os EUA e o Ocidente têm deixado quase todos esses negócios de dados por conta das Big Techs e de seus investidores (mercado financeiro, gestoras de fundos e capital de risco).

Segundo James Görgen, especialista em Políticas Públicas e Gestão Governamental e assessor no Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), em 2025, os negócios realizados nas bolsas de dados chinesas teriam ultrapassado a quantia de U$ 277 bilhões, tendo uma previsão de que até 2030 deverá passar do valor de U$ 1 trilhão, embora, outras estimativas afirmem que esse valor poderia chegar aos US$ 8 trilhões. Hoje, abril de 2026, esse valor equivale a 1/3 do valor de mercado da soma das 10 maiores corporações de tecnologia do mundo com capital aberto ou que possuem ações em bolsa.

A partir destas questões ímpares, descortinam-se muitas possibilidades que diferem e vão noutra direção em relação ao atual uso indiscriminado de dados, capturados e desapropriados dos brasileiros por parte das gigantes coporações de tecnologia dos EUA. Uso que tem servido a ampliação do extrativismo hi-tech e à captura de renda executada pelas plataformas digitais que resultam nos grandes oligopólios que monetizam esses dados se imbricando de forma siamesa com a hegemonia financeira que tem sido a primeira e maior usufrutuária dos processos crescentes de digitalização e plataformização.

Neste contexto, é fundamental que o Estado brasileiro, muito além de incentivar uma infraestrutura digital soberana de datacenters com controle de acesso e interconectividade ampla, mas atue também – e de forma especial – na organização de uma política nacional de dados estruturados que possa servir à toda a economia brasileira e nossa cadeia produtiva, como parte de um amplo, claro e potente projeto nacional e integrado de desenvolvimento. 

O Brasil tem a maior economia digital da América Latina caminhando para chegar a 200 milhões de usuários de internet que são também produtores de dados entre navegação, e-commerce e serviços de todo o tipo, em especial, saúde, educação e cultura. 

O Brasil é grande demais em qualquer dimensão que se observe e tem não só potencial, mas bilhões de dados estruturados em nossas bases estatais e privadas, além de também possuir bases materiais, científicas, pessoal e tecnológicas, para interromper o atual extrativismo hi-tech. Assim, o Brasil pode e deve optar por outra direção com um planejamento soberano, sem isolamento e com articulações geoeconômicas e geopolíticas que garantam o interesse nacional.