sábado, janeiro 12, 2019

Militares e inteligência, por Nilson Lage

O professor Nilson Lage publicou em seu perfil no Facebook, uma breve e muito interessante análise sobre a relação entre a política e o papel dos militares, onde a inteligência seria parte estratégica, senão fosse ofuscada pelo presente e cego ódio que colocam o Brasil sob riscos. Nessa linha é lapidar sua posição: "O sectarismo é antiprofissional." Vale conferir.


Militares e inteligência

Não sei por que chamam a espionagem militar de “inteligência”.

Não que a coleta de informações de fontes públicas e sua complementação menos confiável seja ineficiente. Pelo contrário: militares são geralmente bem informados.

O problema é que não tiram as melhores conclusões das informações que têm.

Vejamos: a guerra é a menos inteligente das soluções; armar exércitos justifica-se, no lema clássico, para evitar que elas aconteçam. Superada a mística dos uniformes, a adrenalina das paradas e a exaltação do heroísmo sem causa – tudo isso, na verdade, propaganda enganosa – militares deveriam ser as criaturas mais pacifistas, porque têm melhores condições do que os demais de saber das desgraças que as guerras causam e do pouco que importam na História: não é fato, agora mesmo, que o fascismo renasce na Europa (não só lá, dependente, agora)? E que o patriarca de Moscou não celebra ante Vladimir Putin, ex-KGB?

Se inevitáveis, guerras devem ser rápidas, eficientes e concluídas com sólidos acordos de paz – não “cessação de combates”, como os americanos entendem “peace”, mas no sentido russo de “luz” e “mundo”, ou no entendimento chinês de “destino humano comum”. Em suma, com o mínimo possível de ressentimentos.

Guerras conduzidas com inteligência não podem demorar décadas, como no Afeganistão ou na Síria, nem levar a derrota o exército mais forte, como no Vietname. Não deixam mágoas tamanhas, como no Iraque, nem terra arrasada, como na Líbia, ou, no caso de guerras de infiltração, desastres humanitários, como os que se preveem para o Brasil, em futuro próximo.

As guerras mundiais do Século XX – as quentes e a fria – (na verdade, outras mais antigas, a dos 30 anos, a dos cem anos, as em Cartago, do Peloponeso) foram, na verdade, conflitos políticos entremeados de ações militares, precedidas e, eventualmente, substituídas por demonstrações de força. 

Nessa perspectiva, a operação comandada por Rommel no Norte da África foi uma guerra à parte, abortada por desdém (acho que o Reich fazia pouco dos Estados Unidos, que estariam ameaçados em seu território caso os alemães chegassem a Dacar), tanto quanto a Operação Barbarossa, a invasão alemã da Rússia, temerária em si, iria frustrar-se mais rapidamente por obstinação insensata.

Eis a chave da inteligência: a guerra é um momento da política e toda ação militar é essencialmente uma ação política, isto é, algo apoiado em interesses econômicos, fantasiado com discursos retóricos e conduzido pela máquina do Estado, que deve compromisso à Nação e ao povo.

Modelos de gestão podem ser equivalentes e categorias dadas por exclusivas podem se compor, como no socialismo democrático nórdico europeu ou no capitalismo contido pelo domínio do Partido Comunista, na China. Há um mundo de possibilidades em aberto, e a escolha se faz pela aceitação e a oportunidade.

O sectarismo é antiprofissional.

Os exércitos latino-americanos caíram, por essa via, em uma armadilha ideológica que, omitindo a escolha – portanto, a condição de sujeito – subordina a ação militar a pressupostos arbitrários. Isso explica poque nossos militares não dialogam; têm o comportamento condicionado, em última instância, como o das moscas de Watson.

Militares sujeitos a tais restrições são personas dramáticas. Penso na evolução ideológica de um rígido Ernesto Geisel; ou, antes, em um mais maleável Humberto de Alencar Castelo Branco. 

Alinhado com grupos de intelectuais conservadores, tinha um projeto para o país e, já em setembro de 1964, traçava metas, em carta a seu colega Hélio Ibiapina: “assegurar o funcionamento do Congresso, a coexistência com o Executivo e o Judiciário, garantir o processamento eleitoral, as eleições e a posse do eleito para 31 de janeiro de 1966”. Não cumpriu nenhuma delas e morreu em um conveniente desastre de avião, em 1967, antes de explicar exatamente porque.

sexta-feira, janeiro 11, 2019

Os preços do petróleo estão mais vinculados à especulação e à geopolítica do que à relação entre produção e consumo

Há ainda quem pense que os preços do petróleo tenham relação exclusiva entre oferta (produção) e a demanda (consumo).

Isso não é verdade.

Em outubro, o preço do barril oscilava em torno de US$ 80. Em dezembro chegou a US$ 50. E hoje está em US$ 61.

Por que tamanha flutuação?

O mercado futuro de petróleo ampliou a especulação de preços do mercado dessa commodity.
Hoje há quase o dobro de comércio do petróleo em mercado futuro do que a real circulação dessa commoodity.

Quem ganha mais com isso são as tradings que atuam no setor como a Vitol, Trafigura, Glencore entre outras. 

Todas com sedes em paraísos fiscais e com negócios escusos com gerentes de petroleiras em todo o mundo. Incluindo a Petrobras. 

Bom lembrar que em 2015/2016, no momento de mais baixo preço do barril de petróleo, quando chegou a US$ 27 o barril, a Vitol, a maior do mundo no setor, apurou o seu maior lucro em toda a sua história, mostrando que é a especulação que aumenta os seus lucros e não o preço da commodity

Para entender a relação entre produção e consumo de petróleo em todo o mundo - que tem forte componente geopolítica - veja este gráfico entre 2013 e 2018 com dados sobre a produção e consumo mundial de petróleo, cuja fonte é a AIE (Agência Internacional de Energia) e que foi divulgado em matéria do Nexo Jornal, em junho do ano passado.

Em azul a produção e em vermelho está o consumo mundial em milhões de barris de petróleo por dia.

Essa commodity mexe com o preço de outras commodities porque é responsável pela circulação de todas as mercadorias, inclusive, a própria.

terça-feira, janeiro 08, 2019

A expansão extraordinária do transporte ferroviário na China

A estatal China Railway Corp. anunciou ontem que adicionará 6,8 mil quilômetros de linhas ferroviárias neste ano, um aumento de 40% em relação ao valor adicionado no ano passado. Os planos incluem 3.200 quilômetros de trilhos de alta velocidade.

A decisão tem relação com as demandas de transportes urbanos com a maior densidade populacional nas grandes metrópoles, mas também tem o objetivo de manter a expansão da economia chinesa, nessa época de guerra comercial com os EUA.

A China é o segundo país com a maior malha ferroviária do mundo com 124 mil km de extensão, mas possui a maior extensão em rede ferroviária de alta velocidade do mundo, com 22 mil km, que com a construção de mais 3,2 mil km este ano, ultrapassará os 25 mil km.

As ferrovias de alta-velocidade na China já transportaram hoje, mais de 7 bilhões de passageiros. Pelo planejamento do governo chinês, a extensão total das ferrovias de alta velocidade deverá atingir os 38.000 km até 2025 e 45 mil km em 2030.

A prevalência dos fundos financeiros sobre a poupança no Brasil

Segundo o Banco Central, no final de 2018, o saldo total de investimentos em caderneta de poupança somava R$ 797 bilhões. Um volume que é R$ 17 bilhões a mais que no ano anterior.

Já nos fundos financeiros, o patrimônio líquido supera R$ 4,5 trilhões, R$ 500 bilhões a mais que no ano anterior, segundo a Anbima.

Assim, se observa um volume de investimentos que foi em 2018, nos fundos, quase 6 vezes maior que na poupança.

Tudo isso vai mostrando como os fundos financeiros se tornaram o mais importante instrumento de recolhimento dos excedentes econômicos que circulam na sociedade.

Os investidores e os gestores já intitulam a ferramenta como "indústria dos fundos", atuando através de plataformas, onde se fazem as captações que são hoje amplamente divulgadas. 

Atualmente, as cotas mínimas são muito baixas (R$ 500) e por isso concorrem com a poupança e fazem crer aos seus investidores que eles são capitalistas, enquanto os gestores e administradores decidem onde e quanto investir. 

Por tudo isso, não há como deixar de aprofundar os estudos sobre esse fenômeno que propiciou enorme mobilidade ao capital.

segunda-feira, janeiro 07, 2019

Fiori atualiza sua análise geopolítica

No portal GGN do Nassif, o professor pesquisador José Luiz Fiori, fez uma leitura atualizada da geopolítica e dos seus efeitos na América, em especial a Latina. Vale conferir, por isso o blog republica abaixo.


Geopolítica e Fé 
por José Luís Fiori

While the US government is moving toward a policy of regime change in Venezuela, its action may simply lead to a prolonged standoff. Stratfor Worldview, Daily Brief, Oct, 4, 2018

[Tradução: Enquanto o governo dos EUA se move para mudar a política e o regime na Venezuela, sua ação pode simplesmente levar a um impasse prolongado]. Stratfor Worldview*

Três anos depois do início das sanções econômicas americanas contra a Venezuela, o presidente Donald Trump anunciou, numa entrevista coletiva no estado de New Jersey – concedida no dia 14 de agosto de 2017 – que os EUA poderiam fazer uma ação militar na Venezuela. E um ano depois, no dia 8 de agosto de 2018, o jornal NYT noticiou que, de fato, vários funcionários americanos já haviam se reunido com militares venezuelanos, para promover a derrubada do presidente venezuelano, Nicolás Maduro. Por outro lado, e dentro deste mesmo tabuleiro, no mesmo mês de agosto de 2018, o presidente venezuelano visitou Pequim e recebeu o apoio político e financeiro do presidente Xi Jinping, assinando 28 acordos de cooperação com a China, nas áreas de energia e mineração.

Tais acordos alargam e aprofundam uma relação econômica de mais de uma década, que já superou a casa dos 50 bilhões de dólares emprestados ou investidos em 780 projetos econômicos financiados pelos chineses ou montados em parceria com os venezuelanos. Paralelamente, o presidente Maduro visitou e foi recebido na cidade de Moscou como um “aliado estratégico” da Rússia, com quem assinou acordos de investimento, no valor de R$ 6 bilhões de dólares, destinados aos setores de petróleo e mineração de ouro.

Não há dúvida, no entanto, de que esse “conflito anunciado” mudou de qualidade, no dia 10 de dezembro do ano passado, quando aterrissaram no aeroporto internacional de Caracas dois bombardeiros estratégicos Tu-160, um avião de transporte militar An124 e uma aeronave Il-62, da Força Aeroespacial da Rússia, para participar de exercícios militares conjuntos com as forças venezuelanas. Nesse momento, com toda certeza, a Venezuela mudou de posição no cenário internacional e passou a ocupar outro lugar, muito mais importante, na competição entre as três grandes potências que lutam pelo poder global neste início do século XXI.

Uma disputa aberta e sem fim previsível que se acelerou na segunda década do século, depois da posse de Vladimir Putin e Xi Jinping, em 2012 e 2013, respectivamente, e ainda mais, depois da posse de Donald Trump, em janeiro de 2017. Como todos os analistas já entenderam, Donald Trump abandonou a velha política norte-americana de apoio e promoção ativa de regras e instituições de governança multilateral e adotou, como bússola de sua política externa, o modelo westfaliano de solução dos conflitos mundiais, através da competição e do uso agressivo do poder econômico como arma de guerra, e o uso permanente da ameaça militar para o caso em que as sanções econômicas não funcionem. Trata-se de uma luta sem quartel e sem religião, orientada pelo mesmo nacionalismo econômico da Rússia e da China, e de todos os demais países que têm ainda algum peso no sistema mundial.

O petróleo não é a causa de todos os conflitos do sistema internacional. Não há dúvida, entretanto, de que a grande centralização de poder que está em curso no sistema interestatal também está transformando a permanente luta pela “segurança energética” dos Estados nacionais numa guerra entre as grandes potências pelo controle das novas reservas energéticas que estão sendo descobertas nos últimos anos. Uma guerra que se desenvolve palmo a palmo, e em qualquer canto do mundo, seja no território tropical da África Negra ou nas terras geladas do Círculo Polar Ártico; seja na turbulentas águas da Foz do Amazonas ou na inóspita Península de Kamchatka.

Não há dúvida de que as descobertas mais importantes e promissoras deste início de século foram as areias betuminosas do Canadá, o pré-sal brasileiro e o cinturão do rio Orinoco, na Venezuela. Este transformou a Venezuela na maior reserva de petróleo do mundo, calculada hoje em 300 bilhões de barris, enquanto as areias monazíticas transformaram o Canadá na terceira maior reserva, estimada em 170 bilhões de barris, logo depois da Arábia Saudita, mas muito à frente do Brasil. Este assim mesmo saltou para o décimo-quinto lugar do ranking mundial, com reservas estimadas de 13 milhões de barris¹, 2 sem levar em conta, evidentemente, as estimativas de alguns centros de pesquisa que falam que haveria até 176 bilhões de barris de reserva em todo o “polígono do présal” brasileiro.

Se somarmos a isto o salto da produção americana de petróleo e de gás, nos últimos três ou quatro anos, produzido pelo “fracking boom”, entenderemos por que o continente americano está se transformando no novo grande foco da geopolítica energética mundial. E entenderemos também duas outras coisas: a decisão norteamericana de voltar a ser o maior produtor de petróleo do mundo, e pivot ou controlador – em última instância – dos níveis de produção e preço do mercado mundial de petróleo.

O problema é que agora, do outro lado desta disputa, já não está apenas a OPEP, liderada pela Arábia Saudita, que segue sendo um “Estado-cliente” dos Estados Unidos. Está a Rússia, que é o segundo maior produtor mundial de petróleo, e que está cada vez mais próxima e articulada com a OPEP, e com a própria Arábia Saudita. E está ainda a China, cada vez mais interessada em diversificar e garantir seu fornecimento de energia, impedindo ao mesmo tempo que os Estados Unidos imponham sua supremacia e seu controle sobre o mercado do petróleo, somando-o ao controle que já exercem sobre a moeda de referência internacional.

Tudo indica que essa disputa deverá se acirrar ainda mais no ano de 2019, quando os EUA estarão tentando aumentar a produção mundial de óleo, enquanto a Rússia e a OPEP estarão forçando na direção contrária. Mesmo ano de 2019 no qual, aliás, a OPEP será presidida pela Venezuela, e a Rússia talvez entre na organização com o apoio da Arábia Saudita. Dessa perspectiva, talvez se possa compreender melhor a “ordem unida” que os norte-americanos decidiram impor em seu hemisfério, e o enfrentamento geopolítico e geoeconômico que se anuncia na Venezuela.

Dentro desse quadro de enorme complexidade econômica e geopolítica, soa absolutamente delirante, quase infantil, imaginar que está sendo travada na Venezuela uma batalha em defesa da fé cristã, e dos valores e arquétipos da civilização ocidental. Esse tipo de visão milenarista costuma reaparecer de tempos em tempos, em certas idades, e em alguns momentos da história, mas não costumam chamar atenção nem causar maiores danos coletivos enquanto se mantenham como uma fantasia individual.

No entanto, tudo muda de feição quando esses arroubos milenaristas se transformam numa Cruzada que pode dar lugar a uma guerra insana – neste caso, envolvendo pelo menos três países da América do Sul que não têm a menor experiência, nem a menor competência técnica, logística e psicológica para fazer uma guerra com suas próprias pernas. Em momentos como este, de grande exuberância teológica e entusiasmo salvacionista, é bom lembrar aos cruzados uma velha lição da história, a respeito dessas “guerras santas”, entre pequenos “peões militares” terceirizados pelas grandes potências: depois que começam, elas não costumam ter fim.

José Luís Fiori - Professor titular de Economia Política Internacional, Instituto de Economia, UFRJ; coordenador do GP do CNPq "Poder Global e Geopolítica do capitalismo" e do Laboratório "Ética e poder global", do Nubea/UFRJ. Pesquisador do Instituto e Estudos Estratégicos do Petróleo, Gás e Biocombustíveis (INEEP). Publicou recentemente o livro “Sobre a Guerra” pela Editora Vozes

* Stratfor Worldview é uma plataforma de inteligência geopolítica e editora estadunidense fundada em 1996 em Austin, Texas]

¹ Dados publicados em 1º de janeiro de 2017, no The World Factbook, da Central Intelligence Aghency/ CIA, www.cia.gov/library

sábado, janeiro 05, 2019

Os princípios da resistência democrática no Brasil contemporâneo

O texto do Ion de Andrade aqui, no portal GGN do Nassif, levanta questões importantes para enfrentar a conjuntura que nos trouxe até à quadratura atual.

Mais do que uma frente, há que se organizar temas para a resistência que sustentem os princípios da democracia. Sem ela iremos para a guerra civil que interessa a quem ocupou o poder.

As oposições (sim, no plural, na medida que não há um único projeto) deverão ter alianças táticas na defesa do que é comum. Melhor seria uma única força, mas não há que se ficar desejando o que hoje não é possível.

Evidente que a defesa das condições de trabalho, da previdência e os espaços institucionais é uma das pautas para uma luta comum entre as oposições e devem assim buscar aliados mais amplos.

Por elas é possível construir, na prática, coalizões convergentes para defender a democracia e o garantir o máximo possível do mínimo que chegamos a obter de condições de bem-estar-social.

As coalizões serão tão mais fortes, quanto maior a capacidade de unir grupos com posições distintas a serem acordadas. Progressistas nos diversos campos, alguns líderes religiosos e do setor produtivo que hoje, já se preocupam e questionam o desenrolar atabalhoado do governo eleito.

Alguns já questionam os riscos e começam a querer dialogar. Eles não serão aliados naturais e nem virão dialogar se não houver vontade para tal. Por isso, o espaço a ser construído coletivamente não deverá ser, estrategicamente, para retomar o poder em enfrentamento direto e geral.

Trata-se sim, em ir acumulando forças e resistências com atuação política e coalizões naquilo que é mais essencial e que reúne mais apoios até entre alguns que apoiaram a candidatura vencedora.

Há algumas pistas. Hoje, o Datafolha divulgou pesquisa mostrando que 60% dos brasileiros rejeitam as privatizações e 57% são contra o fim dos direitos trabalhistas contidos na CLT. Uma pauta de luta diversa daquela que ganhou a eleição, mas não a posição da maioria.

A estimativa é de uma atuação com perspectivas de prazo mais longo e de alianças mais amplas, sem a qual, as oposições se manterão isoladas. Porém, como dizia o poeta espanhol Antonio Machado, é caminhando que se traça o caminho.

Enfim, nessa direção, eu penso que o texto do Ion de Andrade tece alguns exemplos, para uma linha de atuação das oposições que, após a assunção do governo eleito - e diante de suas primeiras e fortes debilidades - nos mostra a necessidade de ir além das opiniões individuais nas redes sociais.


Por uma ação robusta do campo democrático, por Ion de Andrade

Sem querer desmerecer o humor político, a guerra de memes é tudo menos construtiva nesse período de sombras, muitas vezes resvala para a expressão de baixezas que não servem para nada mais do que para aumentar os ódios que já tornam irrespirável o Brasil atual.

Agregue-se a isso que já há quem recomende o uso de fakenews pelo campo progressista...

Na verdade todo esse movimento exprime uma perplexidade sobre como enfrentar os desafios postos pelo Poder político que se consolidou em Brasília.

Recentemente o governador do Ceará, Camilo Santana, com razão, sinalizou, a um Bolsonaro que não se considerou presidente para os estados do Nordeste, com uma ideia que aponta para uma nova realidade à qual teremos todos que nos submeter: a campanha acabou e os eleitos têm a obrigação de portar-se com a devida responsabilidade ante os interesses da população. Portanto, e corretamente, Camilo Santana evocou a bandeira do republicanismo (sim, exatamente) como alerta quanto a derrapagens institucionais autoritárias.

Além da governança republicana, desenha-se também uma outra importante luta institucional tocante à garantia da permanência da Justiça do Trabalho como garantidora, num país ainda tão marcado pelas injustiças e assimetrias sociais, pelo menos, de alguma proteção aos direitos dos mais vulneráveis. Outras batalhas em torno de direitos consolidados na Constituição, basilares para a democracia, como o direito de associação, ou como a Reforma da Previdência, dentre outros, estarão muito em breve na ordem do dia.

Não será com memes que essas batalhas serão vencidas. Ao contrário, será com políticas capazes de unir sob um mesmo teto organizações bem diferentes umas das outras, de aparar divergências e alergias recíprocas para garantir aquela dada conquista social ou democrática ameaçada naquela quadra.

A frente que defenderá a Justiça do Trabalho será, provavelmente, diferente da que defenderá a Previdência Social, ou da que exigirá ao menos um plebiscito para a decisão definitiva quanto ao porte de armas, o que cobrará capacidade ampla de diálogo. Não nos esqueçamos de outro fato emblemático, que poderíamos também classificar aqui, desse tipo de enfrentamento em defesa da democracia, que foi a vitória no STF do princípio da autonomia e da liberdade nas universidades perante forças político-judiciais que já salivavam ante a possibilidade de invadir os campi universitários e de prender professores e estudantes por serem, por exemplo, contra o fascismo.

Será preciso também demonstrar ao governo que não somente o mundo árabe tem Poder sobre a balança comercial e os negócios do Brasil, tornando difícil a transferência da embaixada brasileira para Jerusalém. Outros temas polêmicos, tais como, por exemplo, o do afrouxamento do controle do trabalho escravo podem vir a ser coroados por retaliações comerciais por organizações de consumidores em conexão com os setores diretamente prejudicados no Brasil em seus direitos fundamentais. O mesmo raciocínio e as mesmas conseqüências poderiam advir da estratégia de baratear os preços dos produtos brasileiros à exportação não por ganhos de produtividade pelo incremento da mecanização ou da informatização, mas pelo achatamento agressivo de um salário mínimo já quase quatro vezes menor do que o que o DIEESE calcula como necessário a cada ano...

Não podemos empobrecer o nosso repertório de lutas apenas às manifestações de rua ou às greves gerais, mas devemos saber conjugar essas importantes ferramentas, que deveriam estar reservadas à expressão de temas estratégicos e amplos, com as demais outras que incluem responsabilidade institucional exercida e cobrada ou o diálogo e articulação com amplos setores da sociedade no Brasil e no exterior para construir os contrapesos. Não se trata de preconceitos, se trata de utilizar com competência a melhor ferramenta possível para cada momento dado.

Tudo isso deve ser feito sob a égide do que está previsto na Constituição (que defendemos) a menos que a Carta Magna tenha sido desfigurada ao ponto de mergulhar o país num cenário de perda geral da democracia política, que inclui de forma proeminente o livre direito de expressão e de associação e a garantia dos direitos e prerrogativas individuais e coletivos.

Portanto, o que se deve ter em vista é a formação de contrapesos de grande magnitude, ancorados em consensos largos e numa robusta vontade coletiva. Essa é que é a tarefa estratégica que está dada, não para impedir o governo de governar, mas para defender aquilo que é de grande importância aos olhos do campo democrático, em nome do direito constitucional ao exercício da oposição política. Isso servirá em primeiríssimo lugar a garantir o teatro de operações onde se dá o jogo político, o “Estado de direito”, que é como teimosamente denominamos um estado de coisas que ainda se remete, respeita e jura a Constituição de 88.

PS.: Atualização às 20:27: Para acrescentar um parágrafo nos comentários que apresenta o texto do Ion de Andrade.

quarta-feira, janeiro 02, 2019

O engodo da economia do compartilhamento, retrato da uberização e airbnbização!

Uberização foi o título que deram no Brasil ao livro do britânico-canadense Tom Slee. Trata-se de um pesquisa empírica de fôlego, sobre a realidade da economia do compartilhamento que não passa de um processo de oligopolização e de centralização de recursos que é sugado pelas mãos de grandes fundos financeiros globais com o uso das plataformas como Airbnb, Uber e outras.

Segundo Slee, três tipos serviços dominam o que se entende por Economia do Compartilhamento: hospedagem (43%); transporte (28%) e educação (17%) – p.43. Os demais são periféricos em termos de interesses do capital. Todos começaram com ideias de coletivização e foram capturados pelos interesses econômicos dos fundos financeiros.

O Uber, que segundo o autor nem quer ser visto como economia de compartilhamento e sim uma empresa-plataforma que conectaria donos de carros a interessados em transporte, é o atual campeão em captações de capital dos fundos que chegariam a mais de US$ 70 bilhões (p.101); o Airbnb US$ 2,3 bilhões, o Lyft (transportes), US$ 1 bilhão.

Impressionante são os argumentos listados pelo autor nas interpretações do fenômeno. Segundo ele, hoje, essas plataformas não têm mais nenhum vínculo com a ideia de compartilhamento e sim com a centralização dos lucros.

 As plataformas ficam como taxa de administração com percentuais que variam entre 20% e 30%. Assim, elas vão vampirizando as economias locais centralizando-as, sob o controle dos CEOs escolhidos pelos fundos financeiros.

O livro “Uberização: a nova onda do trabalho precarizado” utiliza-se de uma fartíssima base documental (expostos em centenas de rodapés ao longo do texto). O livro- pesquisa merece ser lido por todos. Em especial, pelos que ainda se iludem pelas ideias de um novo mundo compartilhado socialmente.

Os métodos usados pelos gestores dessas plataformas desmentem os ideais de compartilhamento. Compra de estudos e decisões de governo a favor dos seus interesses. Manipulação dos colaboradores que desconhecem as programações e os algoritmos das plataformas. Ameaças a jornalistas que questionam práticas e resultados, etc.

O Airbnb que começou se apresentando como uma forma de compartilhar cômodos de uma moradia, hoje já possui mais de ¾ do seus inscritos, como sendo proprietários de vários imóveis. Isso está modificando os centros das cidades mais visitadas do mundo.

Moradores estão sendo expulsos dessas moradias pelos proprietários interessados no aluguel por curtos períodos, bem mais rentáveis. Assim, os centros perdem suas características de moradores locais e viram espaços quase que estritamente de turistas. Isso fez os fundos imobiliários ampliarem suas aquisições de imóveis, elevando os preços dos mesmos que ficam mais pesados para quem ali reside e trabalha.

Assim, a plataforma Airbnb consegue passar por cima das regulações municipais, plano diretores, etc. As resistências são engolidas pelo forte poder econômico-político que as plataformas dispõem com a contratação dos maiores e mais influentes escritórios de advocacia.

O autor chama a isso de “área nebulosa de tolerância”. Eles ganham na escala que ligam proprietários (fundos) – anfitriões profissionais – aos turistas, tornando as cidades como espaços que afugentam os locais e suas culturas que seriam partes dos interesses até dos visitantes.

A eficiência dessas plataformas conseguiram pela “coincidência” dos mesmos proprietários, construir um acordo tácito com as grandes redes de hotéis. Assim, os penalizados são os donos dos pequenos hotéis e pousadas, a “parte humana da indústria do turismo”.

No caso das plataformas de transportes, os casos são inúmeros. Eles também mexem com as cidades porque o dinheiro que antes das licenças e impostos que ficavam nas cidades hoje migram para os donos bilionários das plataformas com os 25% cobrados.

Cada vez mais taxas são incorporadas para os colaboradores-associados, aproximando, contraditoriamente, a realidade do trabalhador desses serviços aos dos táxis que apagam alvarás, com a diferença que esse dinheiro vai para as sedes da empresa, instalada em paraísos fiscais. Ao final, a onda precarizante dos trabalhadores desses serviços, atinge a todos: uberistas e taxistas.

Os algoritmos dessas plataformas não são conhecidos por ninguém fora de suas administrações. O autor fala em “fraudes no sistema” para enganar autoridades públicas das cidades (p.132); para controlar e criar dificuldades para os motoristas que trabalham em mais de um aplicativo; e para o usuário que - sem saber - tem o preço da estimativa da corrida majorada, toda vez que os algoritmos do sistema identificam o seu smarphone com pouco % de bateria. 

Para manter e agradar ao motoristas o Uber também dá dicas de como driblar as leis (p.137), ao mesmo tempo que passaram a impor limites de idade (50 anos, p.121) em muitos dos seus principais mercados.

Essas plataformas ao não pagarem impostos como os outros serviços promovem um rentismo que é capturado pelo andar de cima do capital, pelos donos dos dinheiros. Uma renda marginal e pouco percebida ou rastreada, ampliando a financeirização que depende da vampirização do trabalho real para aumento da riqueza, só que concentrada.

Um rentismo ampliado dos alugueis e marcas das plataformas que sai de junto da gente para se juntar ao capital dos donos dos dinheiros, fingindo ser um novo mundo digital, que ao invés de compartilhar aumenta a apropriação dos lucros e das cidades.

Assim, vai tornando próximo do real, o desejo do capital para uma “sonegação legalizada” e de de quase monopólio (ou oligopólio), ao eliminar concorrências pela força do sistema que une desempregados-sobrantes do sistema contra os governos e a política, desconhecendo que o estado de bem-estar-social depende da contribuição de todos. Nesse processo, o que mais me chama a atenção é a forma como a financeirização está capturando tudo ao nosso redor.

Em suma, em sua maior contradição as plataformas promovem não a coletividade e a economia do compartilhamento, mas a individualização do salve-se quem puder na lógica da fábrica do sujeito que se faz por sim mesmo que amplia seu reinado entre nós.


PS.: Referência do livro: SLEE, Tom. Uberização: a nova onda do trabalho precarizado. Tradução de João Peres; notas de edição Tadeu Breda, João Peres. São Paulo : Editora Elefante, 2017. Título Original: What’s Yours Is Mine: Against The Sharing Economy.

PS.: Atualizado às 13:02: para breve acréscimo no texto.

segunda-feira, dezembro 31, 2018

2018, um ano a ser superado!

Assim, como se lembra de 1968 como um ano que não terminou, cinco décadas (meio século) após, há um texto a ser escrito e uma história a ser desnudada e contada:
"2018, um ano a ser superado!".

domingo, dezembro 30, 2018

Água 2019 em Campos, fim de ano e a história de repete. Por José Carlos Salomão

Ao longo dos últimos anos, o professor José Carlos Salomão vem acompanhando para o blog, as decisões dos prefeitos de Campos dos Goytacazes a respeito das correções anuais das tarifas de água e esgoto a favor da concessionária Águas do Paraíba no município. Esse ano, o professor Salomão resumiu sua interpretação que o blog divulga abaixo.

Em dois anos, o atual prefeito deu um reajuste que é equivalente quase ao triplo da inflação no período. Mais uma caso a ser melhor compreendido dessa relação entre a gestão municipal e as concessionárias de água e lixo.

"Fim de ano e a história se repete: o aumento concedido pela PMCG às tarifas residenciais de Água (TRA) e Esgoto (TRE) da concessionária Águas do Paraíba.

O atual prefeito repete a política de reajuste, acima da inflação, da sua antecessora e de forma mais perversa. Entre 2009 e 2016, o reajuste para as tarifas (TRA e TRE) foi de 131,94%, contra um IPCA (índice de inflação) acumulado de 65,08%; isto é, um aumento de 102,73% das tarifas acima da inflação do período.

A partir de 2017, já sob a caneta do novo prefeito, o aumento acumulado concedido pela PMCG às tarifas residenciais de Água (TRA) e Esgoto (TRE) já atinge o valor de 18,30% (6,97% para 2018 e agora 10,6% para 2019), contra uma inflação (IPCA) acumulada neste período de 6,76% (2,95% em 2017 e 3,7% - previsão - em 2018).

Portanto, os dois reajustes concedidos pela atual administração da PMCG, às tarifas residenciais de água e esgoto, superam a inflação acumulada no período em 170,78%.

Com uma inflação prevista de 3,7% para 2018, o prefeito deve ter sido aconselhado por um numerólogo para a aplicação do reajuste de 10,6% sobre as tarifas de água e esgoto, pois este é o mesmo valor do reajuste da UFICA para 2019, que passará a valer R$125,26 e que certamente impactará no IPTU de 2019.

Será que este também será o reajuste dos servidores municipais?"

quarta-feira, dezembro 26, 2018

O preço da gasolina não tem relação com o barril de petróleo, a US$ 51 e nem com custo de produção. É que o mercado desregulado já aceitou pagar 5 reais

Já tratei desse assunto aqui várias vezes, desculpe, mas vou continuar insistindo.

Em 2008, antes da crise (golpe) dos bancos americanos (sub-prime), o barril de petróleo chegou a aproximadamente US$ 150, dependendo do tipo se WTI (EUA) ou Brent (Europa), eles variavam de US$ 145 a US$ 165.

Nessa época a gasolina no Brasil estava em torno de R$ 2,80.

Hoje, o barril do petróleo está variando entre US$ 48 e US$ 51.

Portanto, na média, o preço do barril no mercado internacional é três vezes menor que em 2008 e a nossa gasolina não sai de próximo a R$ 5, ou quase o dobro de antes.

Na verdade, acabei de encher o tanque pagando R$ 4,84 no dinheiro.

Os "iluminados" do mercado dizem que agora o preço da gasolina varia conforme o preço do barril no mercado internacional.

É ainda há quem acredite nas justificativas desse tal mercado, onde o preço do barril do petróleo só vale para aumentar o preço da gasolina e nunca para reduzir. 

As coisas passaram a ser assim não de forma natural, mas após, a entrada do governo mercadista, pós-golpe e com promessa de continuar.

Dentro da lei de mercado é isso. 

O produto vale quanto o consumidor está disposto a pagar, e parece que o brasileiro em defesa do mercado aceitou bem esse novo patamar do litro a R$ 5.

Se é assim, eu só me pergunto como vão reagir quando o preço do barril de petróleo voltar a ficar acima de U$ 100 (possivelmente no meio da próxima década).

Pela lógica atual, o preço do litro da gasolina passará para o patamar de R$ 10.

Se o barril chegar aos US$ 150, como há uma década, o litro alcançará R$ 15.

E não adiantará colocar a culpa nos árabes e em quer que seja, na medida em que produzimos petróleo aqui e poderíamos ter capacidade de refino equivalente ao consumo nacional.

Porém, os tempos são mesmo estranhos e parece que a maioria ainda não quer entender essa realidade, aceitando pagar mais pelo combustível e desejar menos estado, menos regulação, nessa época do sujeito que se faz por si próprio.

Isso me faz lembrar aquele filme do sujeito que virou suco.

Parodiando talvez, seja o caso de pensar no sujeito que se fez por si próprio e virou gasolina, onde, às avessas a criatura consome a criador.

sábado, dezembro 22, 2018

Anglo American tem autorização para retomar a produção no Sistema Minas-Rio

O Ibama concedeu autorização para a Anglo American retomar as operações de seu Sistema Minas-Rio de produção e exportação de minério de ferro no país. Além disso, a Anglo também recebeu a aprovação para início da terceira fase de expansão, permitindo a exploração de uma nova frente de lavra na mina.

As operações foram suspensas em março desse ano, depois de dois vazamentos de minério de ferro ocorridos no município de Santo Antônio do Grama. Segundo, a Anglo American a ideia agora é retomar devagar a produção e envio da polpa de minério de ferro até o Porto do Açu. 

Carregamento de minério da Ferroport no Porto do Açu
A Anglo diz que serão feitos, inicialmente, testes de carga e acredita que até o fim do mês já esteja trabalhando no ritmo normal. Foram feitas trocas dos quatro quilômetros contínuo de tubulações que se romperam na altura do município mineiro de Santo Antônio do Grama. 

Ainda segundo a Anglo American todo o mineroduto de 529 quilômetros que transporta a polpa de minério de ferro do Quadrilátero Ferrífero até o Porto do Açu foi inspecionado. Além da troca dos tubos de aço no trecho onde se encontrou danificações das tubulações (trincas nas partes soldadas), a Anglo fez a troca de outros 18 tubos, nos quais se verificou alguns indícios de trincas. A Anglo tinha estimado perdas com a paralisação de duas atividades num valor entre US$ 300 milhões e US$ 400 milhões.

O sistema Minas-Rio engloba operações de mineração, transporte do minério na forma de polpa pelo mineroduto e de embarque em terminal que detém o controle no Porto do Açu, litoral do estado do Rio de Janeiro através da empresa Ferroport, joint-venture, formada com a Prumo que é também a controladora do Porto do Açu.

Resta saber se os dutos vão suportar nova pressão quando o sistema entrar em funcionamento. A liberação da interdição e retorno da operação de envio do minério de ferra de Minas para o ERJ interessa à prefeitura de São João da Barra para voltar a faturar com o ISS (Imposto Sobre Serviços) cobrado sobre os serviços de filtragem, secagem e movimentação de cargas para embarques em navio e exportação através do Porto do Açu instalado no município.

PS.: Com informações do Valor Online.

Ranking das empresas com os dez maiores faturamentos do Brasil mostra predominância dos setores financeiro e de commodities

O jornal Valor publicou ontem o ranking dos maiores grupos e empresas que atuam no Brasil. Numa revista-encarte, estão apresentados organogramas de participações acionárias, faturamentos, lucros, etc.

Os dados ao lado são sobre as corporações que possuem os dez maiores faturamento.

Duas principais observações podem ser, de forma sintética, serem constatadas:

1) Entre os dez maiores faturamentos, cinco são de bancos (setor financeiro) e outros cinco do empresas de produção de commodities.

Não é difícil enxergar entre elas o rentismo (finanças e fundos) lubrificando os negócios mesmo das empresas que atuam na produção material.

Essa é a realidade do capitalismo financeiro contemporâneo.

Uma passada ligeira em suas mais de 200 páginas, é possível ver o grau de concentração da nossa economia e de apropriação da riqueza material e do trabalho vivo e real, desenvolvido pelas pessoas em seus cotidianos.

Boa parte destes bilhões dos faturamentos se transformam de forma acumulada no patrimônio líquido dos fundos financeiros no Brasil que como vimos aqui já chegam a R$ 4,6 trilhões, ou 70% do PIB do país.

2) A despeito de tudo e quase todos, a estatal Petrobras, segue líder em termos de faturamento. Em termos de lucro líquido foi o Itaú, depois a Vale, Bradesco, CEF, BB e Santander. 

O setor petróleo no Brasil mostra a sua força entre os grupos que mais cresceu receita o maior é a Shell com 265%. O maior empregador é a JBS com 218 mil trabalhadores e a Petrobras é a décima.

Desce o pano porque é Natal e o saco está cheio!

sexta-feira, dezembro 21, 2018

UTE do Porto do Açu capta R$ 1,76 bilhão com o BNDES e garantia do banco alemão KfW

A construção da usina termelétrica a gás natural (UTE) que do Porto do Açu que faz parte do projeto do Hub de Gás (com mais UTEs, unidade de regaseificação, ramal de gasoduto e possivelmente unidade de processamento de Gás Natural e linhas de transmissão, tudo  junto a um de seus terminais portuários, tiveram oficializados ontem, um crédito de R$ 1,76 bilhão do Banco Nacional de Desenvolvimento Social (BNDES) que ter´a garantia e fiança bancária do banco alemão KfW.

A engenharia financeira é decorrente de uma análise de riscos que começou  ser feita há cerca de um ano pelo IFC, um braço do Banco Mundial que esteve na região avaliando os riscos que envolvem, inclusive as áreas desapropriadas no Açu.

O crédito de R$ 1,76 bilhão destinado à GNA (Gás Natural Açu) - um consórcio formado pelas corporações Prumo Logística, BP e Siemens - se destina à implantação da UTE-1 com capacidade de geração de 1.700 MW, tem um custo planejado de R$ 4,5 bilhões com previsão de conclusão e entrada em operação em janeiro de 2021.

UTE da GNA que está sendo construída pela Andrade Gutierrez junto ao Porto do Açu

O fundo financeiro americano EIG Global Partners que controla a Prumo Logística e majoritariamente a GNA está estruturando um acordo com a petroleira Ouro Preto Óleo e Gás, de Rodolfo Landim, para adquirir da Petrobras os ativos dos campos de Pampo e Enchova, na Bacia de Campos, de onde saem os gasodutos que se dirigem a Cabiúnas em Macaé.

Dessa forma a Prumo e a GNA planejam interligar o Hub de Gás do Açu ao ramal de gasodutos Gascav (Cabiúnas-Vitória) na passagem do mesmo na localidade da Tapera no município de Campos dos Goytacazes reforçando assim a potencialidade do seu empreendimento no campo da energia.

Construção da UTE-1 no Porto do Açu
As obras de implantação estão com o cronograma adiantado e envolve 1,7 mil trabalhadores através da Construtura Andrade Gutierrez que atuam em dois turnos que equivalem a 19 horas de trabalhos diários: 7 às 17 horas e 16:30 até 2 h da manhã.

O controle sobre o trabalho das equipes é grande e com promessas de recompensa por produtividade. Há previsão que o trabalho não seja interrompido entre o Natal e Ano Novo, apesar das obras estarem adiantadas, segundo informações obtidas pelo blog.


Breve análise dos significados da expansão do porto e questionamento sobre ausência de real responsabilidade comunitária e social dos empreendedores que no Açu 

Diante desse processo, se pode avaliar que o Complexo Portuário do Açu vai ampliando e adensando sua atuação vinculada ao Circuito Econômico do Petróleo, Gás e Energia, não apenas com apoio offshore à exploração de Petróleo (NOV e Edson Chouest para a Petrobras e Chevron), mas também transbordo de petróleo (T-Oil, através da Oiltanking para a Shell), construção de tubos flexíveis e agora rígidos para instalação da produção nos campos de petróleo (através da Technip) e agora geração de energia elétrica com UTEs à gás natural através da GNA.

Há ainda que se questionar e criticar a relação dos empreendedores com as comunidades locais/regionais. Os empreendedores fazem questão de estarem apartados da comunidade. Seus gestores não criam vínculos e costumam ver a cidade e região como problemas, uma espécie de rugosidade, que têm que aturar para viabilizarem seus ganhos.

Os gestores trabalham por metas e pensam na maior parte do tempo apenas em construir seus portfólios de carreira, e dessa forma atuam de forma ainda mais fria e calculistas que os próprios donos dos negócios.

O porto e os empreendimentos que ali vão sendo instalado buscam apenas fluidez em seus negócios e dessa forma entendem que é melhor não se interagirem com a sociedade local. Entendem que geram empregos e isto é o suficiente.

Essa baixa interação com a comunidade não é apenas fruto dos conflitos que foram criados quando da implantação do porto e do Distrito Industrial (DISJB) com os pequenos proprietários que sofreram as desapropriações até hoje não quitadas.

Aliás, esse ponto foi o mais questionado como problemas pelos consultores do Banco Mundial que fizeram a "Análise de Risco" que acabou gerando esse empréstimo bancário que produziu uma articulação entre o BNDES e o banco alemão, certamente pelo interesse da Siemens que é sócia da GNA, por conta do interesse do fornecimento de equipamentos elétricos (geradores) das usinas termelétricas. Até hoje, pouco mais de 5% do total de 90 Km² dos empreendimentos estão sendo utilizados por todos os empreendimentos.

Esse cruzamento de interesses mostra como o capital se movimenta e se articula com os poderes políticos. Nessa engenharia financeira e "criativa" a população e as comunidades são vistas, quase sempre, como problemas, apesar dos discursos de responsabilidade social e da alcunha de "colaboradores dada aos seus trabalhadores.

O blog segue se esforçando no trabalho de investigar e interpretar de forma crítica o desenrolar desse grande projeto de investimento (GPI) do Porto do Açu (da holding Prumo Logística), buscando analisar os fatos, os agentes e os processo em suas várias dimensões.

PS.: Desde março de 2018, a Prumo Logística deixou de ser S.A.porque fechou seu capital na Bolsa de Valores.

quarta-feira, dezembro 19, 2018

Royalties totais recebidos pelos municípios "produtores" em 2018. Maricá lidera com R$ 1,3 bi. Campos é terceiro com R$ 567 milhões

A partir dos valores das quotas mensal de royalties de dezembro que serão depositadas amanhã e foram divulgadas em nota aqui nesse espaço, foi tabulado também Wellington Abreu, superintendente de Petróleo, Gás e Tecnologia da PMSJB, a pedido do blog, o valor total recebido em 2018 pelos municípios "produtores" nesse ano de 2018. 

Abaixo a tabela que mostra de forma evidente, mais uma vez, como os municípios que possuem litoral na Bacia de Santos (que fica ao sul a partir de Arraial do Cabo até São Paulo) aumentaram suas receitas somadas as quotas mensais com as Participações Especiais (PE) que são pagas trimestralmente, em função da grande produção em alguns campos de petróleo.

Observando a tabela abaixo se pode identificar os maiores valores por município: respectivamente:

1) Maricá - R$ 1,301 bilhão; 
2) Niterói: R$ 1,147 bilhão;
3) Campos dos Goytacazes: R$ 563 milhões;
4) Macaé: R$ 467 milhões;
5) Rio de Janeiro: R$ 283 milhões.

Para ver a imagem com os valores da tabela em tamanho maior clique sobre ela.


Royalties de dezembro com aumento médio de 5% para os municípios da região

Será depositada amanhã, a última quota mensal referente ao ano de 2018, dos royalties para municípios, estados e a União. Com dados da ANP e tabulação do Wellington Abreu, superintendente de Petróleo, Gás e Tecnologia da PMSJB abaixo o blog expõe a tabela com os valores.

A tabela expõe os valores mensais pagos entre dezembro de 2017 e o valor que será depositado amanhã referente a dezembro de 2018, para os dezesseis municípios fluminenses. Em relação à esta última quota mensal, é possível identificar um aumento médio da ordem de 5%, variando entre 1% e 15%, em relação ao mês anterior de novembro, conforme o município.

Os maiores valores a serem recebidos amanhã serão respectivamente: 1) Macaé: R$ 60,4 milhões; 2) Maricá - R$ 57,0 milhões; 3) Niterói: R$ 49,4 milhões; 4) Campos dos Goytacazes: R$ 45,0 milhões; 5) Rio de Janeiro: R$ 18,9 milhões; 6) Rio das Ostras: R$ 15,4 milhões; 7) Cabo Frio R$ 15,4 milhões e São João da Barra: R$ 12,0 milhões.

O valor do barril de petróleo caiu muito nos últimos dias. Estava hoje cotado a US$ 56. Essa redução não impactou os valores dos royalties de dezembro, porque eles são pagos referentes à produção e preço do barril de dois meses atrás. Para ver a imagem com os valores da tabela em tamanho maior clique sobre ela:


Valor do patrimônio dos fundos financeiros no Brasil impressiona!

Novos e impressionantes números sobre a captação e o patrimônio dos fundos financeiros no Brasil.

De novembro para dezembro o patrimônio líquido dos 710 fundos de investimentos que operam no Brasil aumentou para R$ 4,6 trilhões* (70% do PIB), com um incremento de 11,5% em relação a dezembro de 2017.

Ou seja mais R$ 529 bilhões de patrimônio líquido investidos nos fundos financeiros em relação ao ano anterior. Os dados são do relatório mensal da Anbima (Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais).

Isso tudo, em pela crise financeira e fiscal do país. 

Assim se pode observar que o movimento e o tamanho da captação e da concentração dos excedentes econômicos na máquina rentista segue de maneira intensa e constante.

Aí se vê quem ganhou e quem perdeu com a crise. Ou melhor, quem ganha e quem perde com as crises econômicas. 

O resto é firula e conversa para boi dormir.

Mais R$ 529 bilhões. Bi. 

Ou trilhões, já que o total de investimentos e o patrimônio líquido atinge R$ 4,6 trilhões. 

E vem aí mais um governo dos ricos e para os ricos. 

Por isso, a democracia subiu no telhado e a plutocracia (governo dos ricos e para os ricos) assumiu o controle da nação. 

Duro é ver as classes subalternas batendo palmas para isso por julgar que o Estado é o maior problema.

* PS.: Atualizado às 20:22: para corrigir a redação que saiu bilhões ao invés de trilhões.

terça-feira, dezembro 18, 2018

Antigas notícias do rio do Colégio, por Soffiati

O eco-historiador, professor e pesquisador, Aristides Soffiati, apresenta aos leitores do blog um outro texto sobre a eco-história do Norte-Noroeste Fluminense, relatando os resultados de suas investigações no campo da história ambiental regional. Dessa vez, Soffiati recupera relatos de naturalistas fala sobre o rio dos Algodoeiros e sua interligação aos outros rios que percorriam a planície e a aldeia que deu origem ao município de São Fidélis. Vale conferir.

Antigas notícias do rio do Colégio
Arthur Soffiati
            Que me conste, a mais antiga notícia escrita sobre o rio do Colégio foi redigida pelo capitão cartógrafo da Infantaria Manoel Martins do Couto Reis. Ele foi designado para levantar uma carta do Distrito dos Campos dos Goitacazes. Para tanto, percorreu a área correspondente ao atual norte-noroeste fluminense entre 1783 e 1785. Na verdade, percorreu um pouco menos, pois a zona serrana era quase inacessível por ainda ser povoada por índios não aculturados, segundo os temores do século XVIII. Além do mapa, ele redigiu um relatório com preciosas informações (Manuscritos de Manoel Martins do Couto Reis – 1785. Campos dos Goytacazes: Fundação Cultural Jornalista Oswaldo Lima, 2011).

            Sobre o rio do Colégio, ele deixou apenas essa nota: “O rio do Colégio ou dos Algodoeiros tem seu nascimento nas serras que bordam a margem meridional do Paraíba: neste faz barra ao poente do rio Preto; a sua navegação é igualmente insignificante.” Sua curta descrição do rio aparece logo em seguida ao registo do rio Preto, que “tem as suas primeiras vertentes nas vizinhanças do Imbé, passa entre montes e faz barra no Paraíba ao oeste da Vila de São Salvador. É de pequeno curso e menor navegação. Dele sai um braço ainda mais limitado que vai desaguar no Ururaí.”

1 - Foz do rio do Colégio no rio Paraíba do Sul

           Couto Reis distingue este rio Preto de outro, que, pela descrição, trata-se do rio Urubu, que corre junto ao rio Imbé e deságua na lagoa de Cima. Tanto o primeiro rio Preto mencionado pelo militar cartógrafo quanto o rio do Colégio não apresentam interesse para a navegação por serem serranos. A utilidade de um rio estava muito associada à sua navegabilidade, pois havia apenas estradas de terra para percurso a pé e a montaria. Lembremos que, naquele tempo, não existiam ferroviais e rodovias. Daí, certamente, a desinteresse por rios total ou parcialmente não navegáveis.

Ambos têm suas nascentes em pontos elevados da Serra do Mar, conhecida localmente pelo nome genérico de Imbé. O rio do Colégio corre pela vertente interior dela e desemboca no Paraíba do Sul. Já o rio Preto tem seu curso na vertente externa (atlântica) da Serra do Mar. Quando ele alcança a planície aluvial, sua foz se bifurca. Um braço desemboca no Paraíba do Sul e outro no rio Ururaí, que nasce na lagoa de Cima. O rio Preto merecerá maior atenção em artigo vindouro. Por ora fiquemos apenas com o rio do Colégio.

            São Fidélis nasceu como aldeia para catequese dos índios coroados e puris por volta de 1780. No princípio do século XIX, já havia uma estrada movimentada entre Campos e São Fidélis. Por ela, passou o príncipe naturalista alemão Maximiliano de Wied-Neuwied, que deixou uma bela descrição da paisagem encontrada nas cercanias do rio do Colégio. Ele escreveu: “Após atravessarmos agradável região cheia de aspectos variados, atingimos a fazenda do Colégio, já ao anoitecer; seguimos, porém, antes que ficasse completamente escuro, até o pequeno rio do Colégio, que éramos obrigados a transpor. Os cavalos e burros tiveram que deslizar por forte rampa, que a chuva tornara de todo escorregadia, e alguns rolaram por ela abaixo. Contudo, passamos sem novidade a profunda e rápida corrente, embora ficássemos completamente encharcados. Logo penetramos numa densa floresta, à margem do rio, que prosseguiu, durante légua e meia, até S. Fidélis. Era, então, noite fechada e a trilha, muito estreita, passando, muitas vezes, sobre a própria barranca íngreme do rio, era inóspita e obstruída pela galharia seca e as árvores tombadas. O soldado, que conhecia bem o caminho, cavalgava adiante, e constantemente apeava, com o nosso pessoal, para remover os obstáculos, o que nos obrigou, muitas vezes, a afastar os cavalos a boa distância. Chegamos, por fim, a uma brusca e profunda ribanceira, atravessada por estreita ponte constituída por três troncos de árvores. Puseram nela uma série de travessas, para garantir marcha mais firme aos animais; apesar disso, escorregaram em várias ocasiões; e alguns quase caíram. Com um pouco de paciência, conseguimos, felizmente, superar mais essa dificuldade. Nas sombras da floresta, esvoaçavam inúmeros insetos luminosos, gritavam curiangos, grandes cigarras se ouviam a extraordinária distância, e a estranha toada de um exército de rãs ressoava nas trevas noturnas da brenha solitária. Alcançamos, afinal, um campo à beira do rio, e achamo-nos de repente no meio das malocas dos índios Coroados de S. Fidélis.” (Viagem ao Brasil. Belo Horizonte: Itatiaia; São Paulo: Edusp, 1989).

            O príncipe alemão representava a civilização ocidental e transportava em seu íntimo uma vertente da globalização: a do conhecimento científico. Ele era um grande caçador e colecionador de animais. Em momento nenhum da sua viagem ao Brasil, entre 1815 e 1817, ele falou na necessidade de proteger as maravilhas da natureza que encontrava. É de se supor que brasileiros e europeus julgavam que os ecossistemas nativos do Brasil eram inextinguíveis e não careciam de proteção.

2 - Foto aérea da desembocadura do rio do Colégio no Paraíba do Sul



            















                          Antônio Moniz de Souza, naturalista amador sergipano, em suas viagens pelo Brasil, deteve-se em Campos nos anos de 1827 e 1828. Partindo da vila (pois só foi elevada à condição de cidade m 1835), ele subiu o rio Muriaé até onde possível, o rio Paraíba do Sul e visitou a lagoa de Cima, deixando informações preciosas (Viagens e observações de um brasileiro. Salvador: IGHB, 2000). Sobre o rio do Colégio, ele fez um pequeno registro: “Também se encontra do mesmo lado (margem direita do Paraíba do Sul) um córrego chamado do Colégio na foz do qual, e mesmo à borda do Paraíba, está uma engenhoca de vapor de serrar madeiras no que faz de rendimento anualmente cinquenta e tantos contos sujeitos à despesa.” Moniz de Souza confirma informação de Hermann Burmeister quanto ao rio Pomba (Viagem ao Brasil através das Províncias do Rio de Janeiro e Minas Gerais. Belo Horizonte/Itatiaia; São Paulo/Edusp, 1980), que passou pela Aldeia da Pedra (atual Itaocara) em direção a Minas Gerais em meados do século XIX, sobre o desmatamento do futuro Noroeste fluminense. A destruição das florestas já caminhava a passos largos nas serras do Mar e da Mantiqueira.

            Em 1837, foi a vez do Major Henrique Luiz de Niemeyer Bellegarde. Ele deixou um relatório em que registra brevemente a existência do rio do Colégio. Esse documento tinha por finalidade examinar o estado das estradas da região e propor melhorias para elas (Relatório da 4ª Seção de Obras Públicas da Província do Rio de Janeiro apresentado à respectiva diretoria em agosto de 1837. Rio de Janeiro: Imprensa Americana de I. F. da Costa, 1837). Abordaremos em outro artigo as propostas do major para a estrada de Campos a Cantagalo passando por São Fidélis.

3 - Trecho final do rio do Colégio

            Por fim, o francês J.C.R. Milliet de Saint-Adolphe, no precioso Dicionário Geográfico, Histórico e Descritivo do Império do Brasil, publicado em 1863 (Paris: Vª. J-P. Aillaud, Guidard e Cia), apenas registra Algodoeiro como “pequeno território do distrito de Campos, na província do Rio de Janeiro, que nos antigos tempos havia sido plantado de algodoeiros, donde lhe veio o nome que tem.”

            Couto Reis, em 1785, informa que o rio do Colégio também era conhecido como Algodoeiros. Sabe-se que o empresário Francisco Ferreira Saturnino Braga publicou uma série de artigos no Monitor Campista com o título geral de “Do algodoeiro e sua cultura” (Campos: 8, 9 e 10 de março de 1883), estimulando o plantio de algodão. Ele mesmo deu o exemplo cultivando a fibra e montando uma fábrica de tecido em Campos. Sabe-se da existência de famosa algodoeira em São Fidélis. Haveria alguma relação entre o rio dos Algodoeiros, Saturnino Braga e a atividade de beneficiamento de algodão em São Fidélis? Trata-se de um tema para pesquisa.

4 - Algodoeira de São Fidélis



Atingidos do Projeto Minas-Rio lançam amanhã o Boletim da Cartografia Social

Os atingidos pelo Sistema Minas-Rio que envolve a mina, o mineroduto e a unidade de beneficiamento e exportação junto ao Porto do Açu (Ferroport) estão lançando amanhã, em Belo Horizonte, o Boletim da Cartografia Social dos Atingidos.

Um trabalho bastante interessante feito junto das próprias comunidade e apoio de setores, laboratórios e pesquisadores de várias universidades, organizados através da REAJA, Rede de Articulação e Justiça Ambiental dos Atingidos pelo Projeto Minas-Rio e do o Grupo de Estudos em Temáticas Ambientais - GESTA/UFMG.



























Os organizadores estão convidando para o lançamento do “Boletim Informativo – Atingidos pelo Projeto Minas-Rio: Comunidades a jusante da barragem de rejeitos” que será realizado na Livraria Asa de Papel Café & Arte, em Belo Horizonte, na quarta-feira, dia 19 de dezembro de 2018, a partir das 14 horas. O evento contará com uma roda de conversa entre atingidos, acadêmicos, representantes de movimentos sociais, instituições públicas e com uma coletiva de imprensa.

O Boletim, realizado em parceria com o Programa “Nova Cartografia Social da Amazônia”, da Universidade Federal do Amazonas e Universidade do Estado do Amazonas, teve como objetivo promover a auto cartografia das três comunidades localizadas imediatamente abaixo da barragem de rejeitos do Projeto Minas-Rio.

O empreendimento minerário, da empresa Anglo American, possui estruturas nas zonas rurais dos municípios de Conceição do Mato Dentro, Alvorada de Minas e Dom Joaquim (MG) e, desde sua chegada, tem transformado profunda e permanentemente a vida de famílias campesinas que historicamente habitam a região, deflagrando um conflito ambiental de amplas proporções.

A cartografia social, produzida em conjunto com os atingidos, surge como um instrumento de fortalecimento da resistência local e, também, de autoafirmação dos comunitários, em busca do reconhecimento de seus direitos.

O Boletim Informativo agrega mapas e relatos que resgatam a territorialidade, história e identidade das comunidades de Água Quente, Passa Sete e São José do Jassém, e denuncia a situação das famílias, severamente afetadas pela atividade minerária. Os mapas sintetizam, através da iconografia criada pelos atingidos, as experiências de conflitos, as perdas e danos vivenciados desde a chegada da mineração.

O que se pretende com a roda de conversa é promover a discussão sobre o cenário enfrentado pelos moradores, marcado por constantes violações de direitos, e o pleito da mineradora pela concessão da Licença de Operação da Fase de Expansão (Step 3) da Mina do Sapo, marcado para o dia 21/12/2018, na Câmara Temática de Atividades Minerárias do COPAM/MG.

A votação prematura da Licença de Operação, diante de condicionantes ainda não cumpridas, penaliza e invisibiliza as comunidades, que permanecem sem a garantia de critérios justos para o seu reassentamento, principal reivindicação das famílias. São parceiros da elaboração do boletim a UFMG; Fapemig; UFAM; UEA e Ford Foundation.

Para mais informações sobre o caso: Observatório de Conflitos Ambientais – GESTA/UFMG - http://conflitosambientaismg.lcc.ufmg.br/conflito/?id=582
GESTA - 34096301 ou Denise Pereira – 988774147;
Livraria Asa de Papel Café & Arte - R. Piauí, 631 - Santa Efigênia, Belo Horizonte - MG.

segunda-feira, dezembro 17, 2018

Segundo a ANP em 12 anos a produção de petróleo no Brasil vai triplicar, porém gerando mais empregos e tributos no exterior

Na sexta-feira (14 dez.) a Agência Nacional de Petróleo (ANP) lançou o seu Programa de Formação de Recursos Humanos (PRH-ANP. Na oportunidade, o seu presidente Décio Oddone, divulgou as projeções e cenários de produção de petróleo e geração de riqueza dessa cadeia produtiva para 2030.

Bom recordar que se tratam ainda de projetos desenhados ainda na era Lula/Dilma, que redundou na descoberta do pré-sal, no encadeamento de projetos que exigiam conteúdo local e empreendimentos de apoio à produção.

Após o golpe de 2016 as exigências de conteúdo local foram quase todas suprimidas, isenções tributárias concedidas em mais de R$ 1 trilhão, ofertado perdão de multas (waiver) às petroleiras, além da venda de ativos, campos de petróleo no Pré-sal e bacias de Santos e Campos, malha de dutos, petroquímicas, refinarias, etc.   

Na estimativa da ANP a produção atual de 2,5 milhões de barris de petróleo por dia (fora a produção de gás natural), deverá ser triplicada até 2030, para cerca de 7,5 milhões de barris diários.

Ainda segundo a ANP, atualmente o Brasil possui 106 plataformas produzindo petróleo. Em 2030 a previsão é que este número aumente em 60% e chegue a 170 plataformas. Nos dias atuais, sem contar Imposto de Renda (IR), estima-se que o Brasil arrecade R$ 60 bilhões entre royalties e tributos com essa cadeia produtiva. Em 2030, contando também o IR, a estimativa essas receitas alcancem o valor de R$ 400 bilhões. Número superestimado como sempre acontece com as promessas de empregos de quando se divulgam os projetos de grande investimentos.

Só que tudo isso gerando bem menos empregos, porque serviços, pesquisas, plataformas, sondas e embarcações, hoje já são feitas na maioria no exterior, onde se faz as aquisições de máquinas, equipamentos e serviços de tecnologia, que exigem empregos mais qualificados e bem remunerados - que teriam maior impacto no PIB, além do empregos e também na receita dos impostos. Agora, tudo isso gerarão divisas no exterior dentro da lógica ultraliberal dos governos pós-golpe.

Sem a terceira perna da tríade que venho sustentando ao analisar esse circuito econômico "petróleo-porto-indústria de apoio e naval", a capacidade de arrasto dessa cadeia produtiva é muito menor, por conta da minimização da Política de Conteúdo Local (PCL) que tem peso para impulsionar o setor de engenharia, máquinas, equipamentos e tecnologia que remete ao setor industrial brasileiro. Todas as nações (não dependentes) têm esse cuidado, quando se trata de demandas gigantes como essas ligadas à exploração das reservas de petróleo do Pré-sal em nosso litoral. 

Enfim, dados sobre o setor petróleo - uma das quatro fronteiras de expansão da economia brasileira até 2014, que no auge da expansão econômica entre os anos de 2010 e 2013 chegou a alcançar mais de 33% do PIB fluminense e cerca de 13% do PIB nacional.

PS.: Atualizado às 12:58 e 13:06: para ligeiro acréscimo no texto.

sábado, dezembro 15, 2018

Como defender as instituições e organizar as oposições para enfrentar a revolta conservadora de Bolsonaro no Brasil

Há dois textos pulicados essa semana que possuem diagnósticos da situação política atual no Brasil que merecem, de forma resumida, uma análise. Um deles é o artigo que já citei antes do professor da Unicamp, Marcos Nobre na revista Piauí (Dezembro, 2018, Nº 147, P.24-27), cujo título é “A revolta conservadora: Bolsonaro será o líder antiestablishment”. O outro é a entrevista de Haddad, na edição do Valor (12 dez. 2018, P. A10. Com as jornalistas Maria Cristina Fernandes e Malu Delgado), cujo título é: “Núcleo político de Bolsonaro é de tutela e intimidação: ex-candidato do PT diz que será mais fácil resistir à agenda de costumes que à econômica”.

Os dois textos reproduzem análises. Haddad sintetiza, aparentemente, mais como analista do que como líder político que “as perspectivas do governo Bolsonaro se organizam a partir de três núcleos centrais: o fundamentalista (coeso, com forte carga conservadora e ideológica); o econômico (escancaradamente liberal); e o político formado pelo Ministério da Justiça e pelos militares. E termina afirmando que será o núcleo político que dará o tom do novo governo com dias possíveis tarefas: tutela e intimidação”.

Em resumo, como na campanha, duas redes (segurança-força e igrejas) para liberar o mercado com a economia ultraliberal do posto Ipiranga, shell, esso, etc.

Já o artigo do Nobre critica o que chama de “paralisia atual da futura oposição, que considera Bolsonaro tosco, bruto... zomba da sua precariedade... e de que tem certeza de que ele não é capaz de reorganizar o sistema e nem de produzir um governo funcional”. Nobre diz ainda que “todas as forças de oposição teriam de se unir na defesa das instituições democráticas, ao mesmo tempo que teriam de chegar a uma proposta conjunta de reforma das instituições. Uma concertação democrática para defender as instituições indefensáveis na sua forma atual e propor uma renovação radical dessas mesmas instituições. Cada força política de oposição teria que ter garantir o espaço de fazer oposição à sua maneira e como bem entender, ao mesmo tempo que se perfilaria ao lado de todas as outras formas de defesa das instituições democráticas e de sua reforma. Quem pretende manter vivo o jogo democrático precisa colocar todas as suas forças em separar as duas coisas na batalha da opinião pública. Precisa convencer que o sistema político tal como funcionou até 2014 não é a única maneira de um sistema político funcionar, não é a única forma que a democracia poder ter”.

Nobre faz esse tipo de proposta, que parece, ao contrário de Haddad, a de um líder político que propõe, indo além da análise e de um diagnóstico.

E faz isso, num diagnóstico que parte, de certa forma, da mesma leitura do Haddad, mas talvez seja um pouco mais claro e por isso também parece ter mais facilidade na formulação de uma proposta de oposição.

Nobre interpreta que “Bolsonaro faz parte de um projeto de pretensões globais de construção de uma nova era internacional conservadora. O presidente eleito se alinha às novas direitas (e são muitas) que tomam como norte governos como os do Chile, EUA, Itália e da Hungria... a tática geral é simples. Não há pretensão de governar para todo mundo. Esse discurso e essa prática seriam típicos do velho mundo da velha política, que era pura enganação. Trata-se, agora, de governar para uma base social e eleitoral que não é maioria, mas que é grande o suficiente para sustentar um governo. Algo entre 30% e 40% do eleitorado. Tornar essa base fiel é fundamental para manter o poder. EM momentos críticos, como, por exemplo, as disputas eleitorais, a tática consiste em produzir inimigos odientos o suficiente para conseguir uma ampliação forçada dessa base e assim conquistar a maioria.”

Para Nobre, Bolsonaro como político de extrema direita não quer caber nas instituições e pretende se afirmar como antissistema atribuindo o sistema à esquerda, ao Estado e ao PT como sendo tudo de ruim para a vida das pessoas. Para parecer antissistema ele terceirizou a equipe ministerial, numa espécie de feudalização de responsabilidades, a quem possa trocar, conforme os resultados e assim ir ganhando tempo. Bolsonaro “colou pecha de “sistema” em tudo que não é ele, em todo mundo que não está a seu lado. O tempo é de paradoxos. O capitão-presidente vai se identificar como antissistema e ao mesmo tempo será governo. Fará um governo antiestablishment e tudo que se opuser ao seu governo será “sistema”, “velha política... se a “velha política votar com ele, não terá feito mais que obrigação. Se não votar, enfim, será a prova de que continuam os mesmos velhacos de sempre”.

Esse diagnóstico de Marcos Nobre explica como disse acima a sua proposta de coalizão das oposições mantendo os espaços de cada um. Porém, Nobre identifica dificuldades nas tarefas da oposição ao esquema Bolsonaro.

Assim, as oposições necessitariam, na opinião de Nobre, defender as instituições, mas aparecerem como reformadoras do sistema, o que é complexo diante do quadro em que o capitão faz política negando a mesma. Dessa forma, as oposições precisariam superar a armadilha do esquema Bolsonaro de forma a não oferecer, pelas vias transversas, ao novo governo, ferramentas que o permitam se manter forte e por cima das instituições, mesmo com resultados pífios de gestão que seria a tendência diante da falta de propostas e de capacidades de gestão que se apresentam até aqui.

Ou seja, as oposições precisam de instituições fortalecidas e Bolsonaro tenderá a se manter à revelia delas – que foi o que o elegeu -, para continuar a aparecer antissistema e assim se manter no poder e até, conforme também a realidade do mundo e outras nações, se reeleger para aprofundar a revolução conservadora.

Enfim, as duas matérias ajudam a pensar a conjuntura numa perspectiva de atuação entre análises e propostas. Uma boa análise de conjuntura é fundamental para organizar propostas que possam superar a anomia atual das oposições, restrita hoje, quase que somente ao combate ao falso moralismo do esquema de grana da família Bolsonaro. Só a inversão da lógica superará o conservadorismo com ou sem os bolsonaros no Brasil.

quinta-feira, dezembro 13, 2018

A disputa por narrativas sobre a hipótese da autossuficiência americana por energia

Em novembro, os EUA seguiram com a maior produção mundial de petróleo bruto, quando atingiu a marca de 11,7 milhões de barris por dia.

Um volume que é 600 mil barris de petróleo a mais que o produzido pela Arábia Saudita que chegou a 11,1 milhões de barris por dia no mês passado e tem a segunda maior produção do mundo.

Na média anual, os EUA deverá fechar o ano com 10,88 milhões de barris por dia.

Um volume alto mas que é pouco maior que a metade da demanda diária de petróleo dos EUA.

Segundo a Agência Internacional de Energia (AIE), os EUA consome atualmente um volume em torno de de 20 milhões diários de barris de petróleo, que estima que essa demanda americana chegue em 2019, a um total de 20,5 milhões de bpd.
Como já dissemos, essa sede - ou apetite - da "economia americana lubrificada pelo petróleo", explica em boa parte a disputa geopolítica e de hegemonia que segue nos EUA, independente dos governos eleitos serem mais de centro ou de direita como o atual.

Para quem se interessa pelo assunto eu sugiro que assista (se ainda não viram) o documentário "Pump" (bomba de gasolina) de Dosh e Rebecca Tickell que descreve o processo histórico das origens (desde século XX) da dependência americana pelo petróleo. (Veja o link nas referências abaixo)

Apesar dessa realidade tem sido divulgado nos últimos dias, matérias na mídia corporativa, que embola esses dados e tenta fazer crer - em épocas de fake news - que os EUA teriam se tornado nesse final de ano "exportadores líquidos de petróleo".

Há aí nesse intervalo algumas confusões (e dúvidas) nos dados estatísticos americanos (dados não confiáveis não são exclusivos do Brasil), porque se diz que nessa conta não estaria contabilizada a produção de gás natural, que deveria ser levada o volume em m³ na equivalência por boe (barril equivalente em óleo).

Se diz também que deveria ser contabilizada a produção de etanol de milho, mais os ganhos de processamento nas refinarias americanas. Somados gás + etanol + ganhos de processo eles totalizariam mais 6,9 milhões de boepd (barris de óleo equivalentes por dia).

Na conta total somando esse valor aos 11,7 milhões de bpd de produção de petróleo cru, eles chegariam a 18,6 milhões de bpd, o que reduziria o déficit americano de 8 milhões de bpd para 2 milhões de bpd.

Ainda nessa narrativa, se diz que esse déficit já seria superado com outra conta (também não contabilizada) sobre exportações de produtos petrolíferos acabados.

Ao cabo, se teria o que pode ser chamado de uma efetiva "contabilidade criativa". Com ela constrói a narrativa de que na virada para este último mês do ano, segundo a Bloomberg, os EUA teria deixado, pela primeira vez em 75 anos, de ser importadora passando a ser exportadora líquida de energia.

Qual o quê. Até pela forma como os EUA se comporta no mundo real da geopolítica, fica claro, que os EUA continuam importando milhões de barris de petróleo por dia, para alimentar suas refinarias.
 
Há aí um disputa por narrativas e hegemonias em termos de petrodiplomacia que parece ter também relação com o estremecimento com a antiga aliada incondicional, a Arábia Saudita.

Mesmo que a produção de xisto americano, através do fracking, siga se ampliando na Carolina, Louisiana e Texas, a sua demanda é ainda muito maior que a sua produção.

O resto são narrativas e disputas geopolíticas por hegemonia. Além de tudo, elas não levam em conta o fato que se os EUA está produzindo todo esse petróleo, é porque já está no seu limiar ou "pico", o que redundaria num escasseamento mais rápido de suas reservas e produção. 

Isso mostraria também a desvantagem dos EUA em relação a outras nações que possuem reservas e produção em fase bem anteriores ao seu pico de produção. Como é o caso que citamos aqui em postagem ao citar o livro "Oil, Power, e War: A Dark History" (Petróleo, poder e guerra: uma história sombria) de autoria de Matthieu Auzanneau que diz que os países que ainda não atingiram o pico de produção são o Brasil, Canadá, Iraque, Cazaquistão, Malásia, Emirados Árabes Unidos e a Venezuela. 

Assim, se revê que os atuais líderes de produção mundial de petróleo, os EUA e Arábia Saudita estarão em declínio, após o pico num mundo que ainda consumirá muito petróleo nas próximas três décadas. 

Longe de um desejo, a energia fóssil continuará muito forte e dominante pelo menos por mais três décadas, até a metade deste século. Segundo estimativas de todas as maiores petroleiras do mundo, o pico da demanda por petróleo deverá acontecer só após 2050. 

Além disso, há ainda que considerar que após esse período, o petróleo e o gás ainda movimentará muitos setores e terá presença destacada e crescente também na petroquímica, para além do transportes e geração de energia elétrica e calor. Não é por outro motivo que os EUA disputam o controle da extração/produção dessas fontes de energia em qualquer lugar do planeta. 


Referências:
1 - RAPIER, Robert. Oilprice.com em 13 dez. 2018. No, The U.S. Is Not A Net Exporter Of Crude Oil. Disponível em: https://peakoil.com/consumption/last-week-the-us-ended-its-reliance-on-foreign-oil

2 - Peak Oil News em 13 dez. 2018. Last Week, The US Ended Its Reliance On Foreign Oil. Disponível em: https://peakoil.com/consumption/last-week-the-us-ended-its-reliance-on-foreign-oil

3 - Potagem do blog em 11 dez. 2018. O pico do petróleo que tem lubrificado o capitalismo. Disponível em: https://www.robertomoraes.com.br/2018/12/o-pico-do-petroleo-que-tem-lubrificado.html

4 - Documentário Pump: Link no Youtube: https://www.youtube.com/watch?v=c0T9Jz3Uiyc