quinta-feira, janeiro 29, 2015

"House of cards e a política brasileira"

O bom artigo que empresta o título à nota é do Roberto Amaral, ex-presidente do PSB.

Amaral fez uma interessante análise sobre os políticos "fisiologistas e pragmáticos" que rondam a nossa política a despeito de coerências e desejos de um avanço na forma da política ser encarada como boa mediadora da vida em sociedade.

Abaixo o blog republica abaixo o artigo divulgado aqui no blog do seu autor, Roberto Amaral:

"House of Cards e a política brasileira"

"Eduardo Cunha é um “empresário da política”, que representa a média de seus pares. Quando se faz política pelo poder, a realpolitik vence e a política se transforma em sua fraude"

por Roberto Amaral

"Em entrevista ao repórter Raimundo Costa (Valor Econômico, 23/01/2015, EU&FDS, p.6), Eduardo Cunha, o mais proeminente líder do PMDB na Câmara dos Deputados e candidato à disputa pela Presidência da Casa, reagiu abespinhado quando comparado a Frank Underwood, protagonista da série televisiva norte-americana House of Cards (uma lição de ciência política que dispensa a maioria dos cursos de graduação oferecidos pelas universidades brasileiras): “Eu acho isso [a comparação] um absurdo. Eu vi essa série. Existem três diferenças clássicas, ali: o cara é um assassino, o cara é um corrupto e o cara ainda é um homossexual. Não dá para eu aceitar essa comparação. É ofensiva”.

Tem razão o deputado, ele não é o Frank Underwood brasileiro, e ninguém o é, posto que se trata, o personagem, de uma caricatura mediana do político de sucesso dos EUA. Frank é aquele que no Parlamento se levanta do que aqui chamamos de ‘baixo-clero’ e chega às culminâncias do poder. Caricatura e mosaico, pois é um cadinho de defeitos ressaltados para a mais didática compreensão e denúncia. Uma denúncia que vale como um documentário de Michael Moore, ou uma avant-première do filme “Abutre” (presentemente nas telas brasileiras), que mostra a que pode levar a associação de um freelancer sem escrúpulos com um canal de tevê capaz de tudo… pela audiência. É verdade, de igual modo, que tanto o assaltante que se torna repórter quanto a editora de telejornalismo que a ele se associa são a versão exasperada de um jornalismo sem limites. Também são caricaturas, mosaico e síntese dos muitos defeitos de um veículo sem código de ética, à mercê da receita de publicidade que jorra em função da audiência, atraída e cevada por manchetes e escândalos, pelo grotesco e pelo escatológico.

O argumento da série, volto para House of Cards, olha para os EUA, mas retrata também – sem que disso tenham consciência os autores — a vida política brasileira com a precisão de uma fotografia sem retoques.

Mas vai além, e aqui reside seu grande mérito. Retrata os subterrâneos da Casa Branca e do Congresso e invade os intestinos do Poder, onde se mesclam e se entrelaçam a corrupção, o tráfico de influência, a aliança promíscua entre a política e os meios de comunicação – agentes e objeto conscientes de manipulação –, as perigosas relações fonte-repórter, a busca abjeta pela informação, o vale tudo em que tudo é permitido, a prostituição inclusive. Revela o processo de construção e desconstituição de lideranças partidárias, com o concurso de jornais e canais de televisão mobilizados por repórteres em paranóica luta pela ascensão na carreira, e revela, principalmente, a articulação da realpolitik – poder econômico, meios de comunicação (e seus anunciantes), ONGs e ‘entidades beneficentes’, lideranças parlamentares e políticos influentes de um modo geral, a ação ostensiva de lobbies sem limites éticos ou escrúpulos – nas salas e ante-salas do Capitólio e da Casa Branca. E nas alcovas. Toda essa gente, ou seja, o jogo de interesses por ela representado, tem acesso ao ‘Salão Oval’ e influencia o exercício da Presidência da maior potência econômico-militar do mundo, inclusive em suas decisões estratégicas, como a guerra e a paz.

O personagem Frank Underwood – uma ficção, lembremos – simboliza o político de sucesso que, de golpe em golpe de astúcia, livre de qualquer respeito humano ou considerações éticas, caminha em linha ininterruptamente ascendente de sua pequena província sulista até Washington, o Capitólio e a Casa Branca. Seu leit motif é a ambição sem limites. Os meios são o ardil, a astúcia, a matreirice, a conjuração, a dedicação integral às maquinações políticas, a perseverança na busca de seus objetivos pessoais. E um tanto de ousadia e crueldade. O assassinato, o perjúrio, o adultério, a traição são apenas meios que se justificam por estarem a serviço de uma causa legitimadora: o poder. A que preço? Ora, isso não entra em consideração, pois a política, essa política, tem sua própria ética.

Dirigindo-se ao olho-câmera do espectador, ele nos diz: “O caminho para o poder [sua obsessão] é coberto de hipocrisia e crime. Mas não de arrependimento.”

É evidente que esses traços de caráter, que incluem o cinismo, não estão presentes, ao mesmo tempo, em um só político, nem muito menos se diz que todo político, nos EUA ou no Brasil, seja um êmulo de Underwood. Menos ainda que toda mulher se identifica com Claire, sua fria companheira e sócia em todos os empreendimentos e farsas e maquinações. Diz-se que essas deformações de caráter, em doses variadas para cada ente, estão presentes na vida política contemporânea, vivos entre executivos, líderes partidários, jornalistas e empresários.

O que ocorre é que Eduardo Cunha– tanto quanto Renan Calheiros-, representa a média de seus pares.

Gostemos ou não de admiti-lo, Cunha é uma perfeita tradução do Parlamento que aí está, eleito por nós nas condições conhecidas. Não é um acidente, não é um peixe fora d’água (como de certa forma era Severino, um incidente ‘fora da curva’), mas, ao contrário, um bem-acabado produto do meio, sob mais de um aspecto, incluído o modus operandi. “Empresário da política”, como o colega Chico Alencar o definiu, Cunha apenas domina muito bem artes que outros manejam com menor destreza. Com todo o devido respeito por Luisa Erundina, Alessandro Molon, o citado Chico, Glauber Braga e outros tantos: Eduardo Cunha é a cara da maioria.

Os critérios jornalísticos do canal de televisão de Los Angeles, onde se desenvolve a trama de “Abutre” são uma anomalia que a crítica cinematográfica magnifica para melhor denunciar. Sabemos, por exemplo, que nenhum canal brasileiro explora tão intensamente o grotesco, mas sabemos que ele não está ausente de nossas telas. Uma vez mais, trata-se de um mosaico dos muitos defeitos e deslizes éticos que acompanham a televisão em quase todo o mundo.

Assim entre nós. São as regras do jogo, as regras da sociedade de consumo, que entronizou no altar de suas adorações o deus-capital, o deus-lucro, o deus-sucesso. Sociedade que construiu sua própria moral, apartada da moral que pesa sobre o homem comum. A moral que põe na cadeia como vagabundo o trabalhador desempregado, proíbe ao mesmo tempo o pobre e o rico de dormir ao relento e roubar um naco de pão (a sentença, sabe-se, é de Anatole France), mas trata a sonegação de impostos, direito dos poderosos, como um procedimento perfeitamente coerente com as regras do jogo capitalista. Regras como a corrupção ativa, cujo alvo pode ser desde o guarda de trânsito, o diretor da grande empresa ou o alto funcionário público, que precisa ser subornado para que a concorrência cartelizada seja ganha pela empresa previamente eleita no jogo de seus pares. As sobras do superfaturamento seguem para paraísos fiscais, onde alimentam contas insondáveis, depois de aqui financiar eleições, em todos os níveis. São as contribuições declaradas e as contribuições não-declaradas, todas ausentes do Imposto de Renda e das prestações de contas dos candidatos, porque agasalhadas em ‘receitas não contabilizadas’, eufemismo para nomear o caixa dois.

E eis assim exposta a raiz de tudo.

A propósito, no escândalo da ‘operação Lava Jato’, a cena está repleta de empresários e executivos, enlaçados com políticos dos mais diversos coturnos em uma vasta gama de crimes, ainda em apuração.

É o réquiem da grande Política de que nos fala Gramsci. Não mais utopia ou sonho. Não mais D. Quixote. Só Sanchos Panças matreiros, descasados da inocência.

De fato, não há inocentes nem ingênuos nessa política. Na política que está mais para o oportunismo do escudeiro simplório e pedestre do que para a fantasia do cavaleiro anacrônico, o valor é determinado pela equação custo-benefício e a ação é condicionada pelo império das circunstâncias, que tudo absolve e justifica, inclusive a orfandade de princípios.

Absolve quando se trata do vencedor.

Vê-se o fazer político dominado por uma práxis que consagra o poder pelo poder, como meio e como fim. Não se diz que os fins justificam os meios: simplesmente os meios se transformam em um fim.

Toda vez que o político cede ao pragmatismo e reduz seus projetos ao interesse ou à ambição pessoal, toda vez que encerra a política nos limites do curto prazo, toda vez que abandona a esperança de fazer o bem público, a política se reduz a um negócio, a uma traficância, a uma fraude. Porque a política não é, apenas, uma racionalização menor, oportunismo, a busca de resultados práticos e imediatos. Precisa ser a busca do bem público.

Quando vence a realpolitik, a política se transforma em sua contrafação."

7 comentários:

Marcio Maciel Andrade disse...

Descobri porque o nome da empresa 1001 mosquito

Anônimo disse...

Primeiro apoiam a Dilma e o PT.

Mesmo após todos os descalabros e números negativos ainda agem como se não fossem com eles.

Julgam o Cunha pelo poder pelo poder, como se o PT não o fizesse isso já explícito até no seu portal: "Hegemonia política".

Citam Antonio Gramsci como um mestre, um guia, e quem já leu Gramsci sabe do que estou dizendo.

Enfim, é por estas e outras que concordo com o estudo de Avi Tuschman, antropólogo americano que estudou por 10 anos a relação da genética na escolha de ser de esquerda ou de direita. Os caras tem uma visão de mundo distorcida mesmo!

Como já dizia meu irmão: "A solução do Brasil se encontra na Ilha do Governador. Mais precisamente no Terminal 1".

As "benesses" do socialismo já estamos todos vendo e nem foi preciso implantar este nefasto sistema por completo.

Roberto Moraes disse...

Rs rs adeus rs

Marcos Oliveira disse...

Prof. Roberto, este artigo é do Paulo Nogueira do DCM. Muito interessante.

POR QUE A MÍDIA DESPREZOU UM ECONOMISTA CULTUADO COMO NOURIEL ROUBINI EM SUA RECENTE VISITA AO BRASIL?

Nouriel Roubini é o que existe de mais próximo em celebridade no campo dos economistas.

Em Davos, poucos dias atrás, ele estava sempre cercado de jornalistas. Um vídeo em que ele fala sobre a economia americana com um jornalista da Bloomberg viralizou.

Todo mundo quer saber o que Roubini, iraniano radicado nos Estados Unidos, pensa.

Por fortes razões.

Credita-se a ele ter percebido, em primeiro lugar, o colapso econômico de 2008, do qual até hoje o mundo não se recuperou.

Tudo isto posto, Roubini esteve no Brasil, para uma palestra promovida ontem pelo banco Credite Suisse, e foi desprezado pela imprensa nacional, num momento em que só se fala de economia.

Burrice coletiva?

É sempre uma possibilidade, mas a explicação mais plausível para a mídia ignorar um economista com as credenciais mundialmente reconhecidas como Roubini é a seguinte.

Roubini não está falando as coisas que as empresas jornalísticas gostam de ouvir e transmitir a seu público – ou a suas vítimas, numa linguagem mais franca.

No encontro oferecido pelo Credite Suisse, Roubini disse que vê com “otimismo cauteloso” o governo Dilma neste começo de segundo mandato.

Ora, mas não está tudo errado? O apocalipse não é uma questão de horas, conforme os donos da mídia e seus porta-vozes dizem, repetem, berram?

Roubini rechaçou também comparações entre o caso brasileiro e o venezuelano. Não, disse ele, o Brasil não está se tornando uma república “bolivariana”, na acepção sinistra que a imprensa dá à palavra.

Gênios como Míriam Leitão, Carlos Sardenberg e Rodrigo Constantino – perto dos quais o que é Roubini? – monopolizam os microfones que são negados, no Brasil, a Roubini.

Assim funciona a mídia brasileira.

Você pega uma nulidade como Marco Antônio Villa e tenta transformá-lo em referência em política, economia, história e o que mais for.

Você lhe dá espaço em jornais, revistas, tevês. Basta que ele diga as coisas que diz.

É um entre múltiplos casos.

Roubini não serve – a não ser que preveja o colapso brasileiro. Aí você o verá nas páginas amarelas da Veja, no Roda Viva, nos programas da Globonews.

Do ponto de vista internacional, Roubini tem dito coisas abominadas pela mídia.

Em Davos, ele disse que os Estados Unidos vivem um regime de plutocracia – o governo dos ricos – e não democracia.

Com as doações milionárias a políticos em campanhas, disse Roubini, os ricos americanos acabam influindo decisivamente nas leis.

O povo? O povo que se dane.

Está aí, segundo ele, o principal fator do crescimento da desigualdade nos Estados Unidos.

Ele apoiou a intenção de Obama de taxar mais a plutocracia e diminuir a carga dos demais.

No Brasil, a semelhança é desconcertante. As doações milionárias de empresas dão no que dão.

Para piorar, um ministro do STF, Gilmar Mendes, se julga no direito de segurar um projeto sobre o tema por um ano – sem dar satisfações a ninguém.

“Bolivarianamente”, ele usurpa funções legislativas que não lhe cabem. Gilmar Mendes chegou ao STF mediante um único voto: o de FHC.

Tudo somado, é melhor esquecer que Roubini existe e está no país – pelo menos na ótica torta e viciada da mídia brasileira.

douglas da mata disse...

Roberto,

Engraçado como a informação é bem tão precioso, que a maioria é negado o seu acesso...

Nouriel Roubini foi colunista da Carta Capital (quando valia a pena ler), e foi chamado de Dr Doom (Doutor Destruição) porque foi um dos primeiros a vocalizar (a bordo de sua notoriedadae) a crise de 2008 e um dos raros a prognosticar seus efeitos.

Ele chama de curva em W, onde depois de uma pequena recuperação, vamos experimentar outro ciclo depressor, até a retomada final, porque afinal de contas, a reciclagem linear (cíclica ou espiralada, dependendo do teórico) capitalista acontece de qualquer modo...

Estamos entrando na seguunda perna descendente do W...

Mas Roubini diz (ou nós intuímos) que a profundidade, dramaticidade e duração de cada perna depende de decisões políticas, do amadurecimento de cada sociedade e suas instituições...

Ele diz que não faz sentido diminuir o gasto público e investimentos em períodos de estagnação, e essa alternativa só atende aos de sempre: a banca!

Por isso ele é ignorado...

douglas da mata disse...

Segue o texto que escrevi em 2011:

http://planicielamacenta.blogspot.com.br/search?q=nouriel+roubini

douglas da mata disse...

E aqui outros dois de 2011, com injunções inclusive sobre a gestão local:

http://planicielamacenta.blogspot.com.br/2011/08/poupanca.html

http://planicielamacenta.blogspot.com.br/2011/08/as-sombras-da-crise.html


Às vezes me dá um desespero, caro amigo...As coisas são tão óbvias e ninguém crê nelas...