segunda-feira, março 21, 2016

"Simulacro e poder: uma análise da mídia", por Marilena Chauí em “A ideologia da competência”

O artigo “Mídia empresarial e a corrosão dos valoresdemocráticos” de autoria do professor Gaudêncio Frigotto que publicamos aqui neste espaço, avança na direção da compreensão de como a mídia comercial vai se transformando em partido político, escamoteando seus interesses.

O tema merece ser aprofundado para além das merecidas denúncias da falsa neutralidade e moralismo que lançam reações crescentes na sociedade brasileira.

Na manifestação da última sexta-feira (18/03) no Rio de Janeiro, ficou evidente que esta percepção ganhou nitidez e clareza entre as pessoas que foram à Praça XV para defender o estado democrático e de direito.

Entre 80% e 90% das faixas e cartazes individuais e/ou de instituições e associações eram contra o monopólio da mídia comercial e sua sanha golpista.

No mesmo ato, eu ouvi de uma importante liderança sindical brasileira, que ele não tem dúvidas que a mídia alternativa e independente foram a força fundamental para impedir até aqui o golpe midiático-jurídico armado pelas elites. Ele deu destaque especial aos blogs. Eu detalho e enfatizo que os blogs dos jornalistas que optaram sair, ou dividir suas atuações profissionais com a militância digital, fazendo jornalismo sério e, em contraponto à dos donos da mídia comercial que noticiam a versão que interessa aos seus negócios.

É nesta linha que julgo que o tema mereça ser aprofundado. Assim, me recordei de um dos capítulos do livro “A ideologia da competência” da professora e filósofa Marilena Chauí.

O livro reúne textos que questionam a origem e o sentido da ideologia da competência e no conjunto faz uma interessantíssima crítica a esta que remete a um surrado discurso da meritocracia que renasce nestes tempos estranhos.

O capítulo mais longo do livro editado em 2014, pela Autêntica Editora, é o que trata do “simulacro e poder: uma análise da mídia”.

Chauí, abre o capítulo recordando que “simulacrum, palavra de origem latina deriva de similis que significa “o semelhante”. De símilis vem o verbo simulare, que significa “representar exatamente”, “copiar, ou “tomar aparência de”; este último sentido leva o verbo a significar também “fingir”, “simular”. Ou seja, simulacrum pode significar uma representação ou cópia exata de alguma coisa percebida ou o oposto disso, isto é um fingimento, uma simulação”... (P.121)

Chauí adiante diz que “simulacrum é a imagem por representação (pintura, escultura, imagem no espelho, música). Em outras palavras, o simulacro é um duplo, porque é a imagem de uma coisa percebida. Por meio dele, passamos da percepção de uma coisa à representação ou à sua reprodução”. (P.121). A professora da USP traz ainda os filósofos, o grego Epicuro e o latino Lucrécio que afirmam que todo conhecimento é sensação e composição de sensações. (P.122)

Estas breves passagens servem para sugerir a leitura deste texto da Marilena Chauí. Ele nos oferece pistas para melhor compreender, e talvez desocultar o real, entre imagens e representações que nos são oferecidas pela mídia-partido diuturnamente.

Porém, antes de fechar vou transcrever três parágrafos seguidos (P.187 e 188) deste mesmo capítulo, por considera-los importantes para a compreensão da trama que envolve ainda parte do judiciário, que se considera portadora de uma meritocracia resumida na ideologia da competência:

A ideologia da competência pode ser resumida da seguinte maneira: não é qualquer um que pode em qualquer lugar e em qualquer ocasião dizer qualquer coisa a qualquer outro. O discurso competente determina de antemão quem tem o direito de falar e quem deve ouvir, assim como predetermina os lugares e as circunstâncias em que é permitido falar e ouvir, e, finalmente, define previamente a forma e o conteúdo do que deve ser dito e precisa ser ouvido. Essas distinções têm como fundamento uma distinção principal, aquela que divide socialmente os detentores de um saber ou de um conhecimento (científico, técnico, religioso, político, artístico), que podem falar e têm o direito de mandar e comandar, e os desprovidos de saber, que devem ouvir e obedecer. Em uma palavra, a ideologia da competência institui a divisão social entre os competentes, que sabem, e os incompetentes, que obedecem”.

Enquanto discurso do conhecimento, essa ideologia opera com a figura do especialista. Os meios de comunicação não só se alimentam dessa figura, mas também não cessam de instituí-la como sujeito da comunicação. O especialista competente é aquele que, no rádio, na TV, na revista, no jornal ou na multimídia, divulga saberes, falando das últimas descobertas da ciência ou nos ensinando, por exemplo, à maneira do resenhista, como escrever um livro ou artigo. O especialista competente nos ensina a bem fazer sexo, jardinagem, culinária, educação das crianças, decoração da casa, a ter boas maneiras, a usar roupas apropriadas em horas e locais apropriados, como amar Jesus e ganhar o céu, meditação espiritual, como ter um corpo juvenil e saudável, como ganhar dinheiro e subir na vida. O principal especialista, porém, não se confunde com nenhum dos anteriores, mas é uma espécie de síntese, construída a partir das figuras precedentes: é aquele que explica e interpreta as notícias e os acontecimentos econômicos, sociais, políticos, culturais, religiosos e esportivos, aquele que devassa, eleva e rebaixa entrevistados, zomba, premia e pune calouros – em suma, o “formador de opinião” e o “comunicador”.  Ideologicamente, portanto, o poder da comunicação de massa não é igual ou semelhante ao da antiga ideologia burguesa, que realizava uma inculcação de valores e ideias. Dizendo-nos o que devemos pensar, sentir, falar e fazer, afirma que nada sabemos, e seu poder se realiza como intimidação social e cultural”.

Todavia, é preciso compreender o que torna possível essa intimidação e a eficácia da operação dos especialistas, é de um lado a presença cotidiana (explícita ou difusa), em todas as esferas de nossa existência, da competência como forma que confere sentido racional às divisões, assimetrias, desigualdades e hierarquias sociais – em suma, a interiorização da ideologia pela sociedade; e de outro, sua manifestação reiterada e perfeita na estrutura dos meios de comunicação, que, por meio do aparato tecnológico, da atopia e da anacronia, e dos procedimentos de encenação e de persuasão, aparecem com a capacidade mágica de fazer acontecer o mundo. Ora, essa capacidade é a competência suprema, a forma máxima do poder: o de criar a realidade. E esse poder é ainda maior (igualando-se ao divino) quando, graças a instrumentos técnico-científicos, essa realidade é virtual ou a virtualidade é real. O poder ideológico-político se realiza como produção de simulacros”.

Penso que a clareza da exposição de Chauí posta à prova diante da realidade que vivemos, nos traz luz para melhor compreender o fenômeno que a que estamos submetidos, com a anomalia do protagonismo da mídia comercial, atuando como partido político, escondendo seus interesses e dissimulando, ou falseando uma neutralidade.


Uma melhor interpretação deste fenômeno nos oferecem alternativas para compreender e dar direção às estratégias de resistência e potência às nossas ações e lutas, de forma complementar e dialética, como são a vida e a política. 

4 comentários:

Anônimo disse...

Chauí não era aquela que odiava a classe média do país?

A "nitidez e clareza entre as pessoas que foram à Praça XV": R$ 30 e transporte gratuito.

Quem foi dia 13 teve de pagar sua água, lanche e o transporte.

Mas isso o "democrático" suposto professor não vai publicar, não é mesmo?!

Luiz A. Vianna

Roberto Moraes disse...

O blog só liberará comentários sobre o conteúdo da nota.

Roberto Moraes disse...

Sobre o comentário escrito com o pseudônimo acima se vê como a torpeza dos midiotas se comportam. Repetem o chavão que a mídia comercial atribuiu à professora Marilena Chauí, exatamente porque ela desocultou o esquema dos especialistas que tanto usam como forma de editar a fala com o conteúdo que lhes interessam.

É evidente que ler três parágrafos cansam os que repetem a Globo.

O resto é o conhecido preconceito de classe.

É como ouvi de um porteiro de um edifício no Rio de Janeiro que disse ter acompanhado a conversa de duas senhoras que a manifestação dos golpistas no dia 13, teria sido em Copacabana para não se misturar com o pessoal que vem de Caxias.

Quanto ao democrático o comentarista deve considerar que a mídia comercial dá voz a todos e não seletivamente. E ainda quer ditar ordens em outros espaços.

Além de golpistas, são fascistas. Não querem debate. Querem repetir a mídia comercial que já basta.

Veja o caso da Globo no relatório de administração de 2015, se viu que apenas 1/4 do lucro era em função da área operacional (e ainda reclama da crise) o resto, os 3/4 foi de aplicação no mercado financeiro, onde lucram apostando contra uns e sucesso de outros, conforme as matérias e a editoria de fabricação de notícias.

O blog tem posição.

Anônimo disse...

Falou tudo, professor!