A matéria do Valor "Copa fortalece futebol como um dos grandes negócios do planeta" do jornalista Humberto Saccomandi remete a uma questão que tratei em pesquisa sobre a financeirização e o papel dos fundos financeiros no mundo contemporâneo.
Em 2019 quando lancei o livro da "A 'indústria' dos fundos financeiros: potência, estratégias e mobilidade no capitalismo contemporâneo" eu chamei a atenção para o papel do setor de eventos (incluindo futebol e mega shows) para a hegemonia financeira e a racionalidade neoliberal em curso.
Em 2019 quando lancei o livro da "A 'indústria' dos fundos financeiros: potência, estratégias e mobilidade no capitalismo contemporâneo" eu chamei a atenção para o papel do setor de eventos (incluindo futebol e mega shows) para a hegemonia financeira e a racionalidade neoliberal em curso.
Como mostra o infográfico (abaixo), um movimento horizontal transsetorial lubrificado pelo instrumento dos fundos que já garantia uma hipermobilidade ao capital extraído na base da pirâmide destes diferentes setores (petróleo, negócios imobiliários, eventos de futebol, outros esportes e mega shows.
O fato que despertou e deu clareza para a interpretação desse processo, se deu a partir do caso da transferência de Neymar (em agosto de 2017) para o PSG por cerca de R$ 800 milhões. O dono do PSG era um fundo árabe, subsidiária do fundo soberano de Abu Dhabi. O fundo também controlava o canal de TV francês que transmitia as partidas e também exercia algum controle sobre o campeonato.
A extração dessa grana do futebol de diferentes territórios (nações) dava a mobilidade vertical ao capital que se mistura à extração do capital dos outros setores. As gestoras dos fundos lubrificam esse capital acumulado no andar superior das "altas finanças", como se referia Giovanni Arrighi. Um esquema colossal que junta a FIFA, COI, donas de marcas de espetáculos que ganharam tração, aos estados das nações centrais e também das periféricas.
Para movimentar e controlar tudo isso, a lógica da financeirização é essencial. Daí surgem as SAFs e outros esquemas que envolvem os clubes, as confederações e agentes nacionais/locais.
Trata-se de circuito transsetorial lubrificado pelas finanças em que o capital imobiliário que envolve construções e a demanda das conhecidas "Condições Gerais de Produção" em que o Estados entram bancando e os investidores chamam de "legado" para as populações locais, sem perceber o que é extraído.
Observem que, atualmente, não se fala mais em estádios, mas sim em "arenas multiusos" que aproveitam as infraestruturas para os mega shows que também agradam às plataformas de hospedagem tipo Airbnb que também extraem frações dessas rendas locais. São movimentos que juntam capitalização e valorização, mas sobretudo, extração de capital local.
Há muitas outras questões interessantes a serem observadas no entorno desses negócios no capitalismo contemporâneo. Uma delas, que vale a pena destacar, é a incrível história da FIFA também ganhar percentuais nas seguidas vendas de ingressos dos jogos que são revendidos em sua plataforma e com o seu aval. É como se a plataforma da entidade conseguisse também extrair uma fração da renda obtida pelos cambistas, sem nenhum risco.
Para fechar, cito essa outra ideia mais recente da FIFA de realizar o evento da Copa do Mundo em dois ou três países. Em 2026 foi nos EUA, México e Canadá e a Copa de 2030 está prevista para ser na Espanha, Portugal e Marrocos. Essa é também uma forma de estimular uma disputa entre esses países, extraindo mais das gestões nacionais para os seus interesses, além de ampliar as possibilidades do público envolvido.
Os fatos citados trazem evidências sobre como a hegemonia financeira se ampliou, exercendo um controle ainda maior sobre os negócios globais com extração de rendas nacionais, ainda maior concentração e acumulação de capital, exercida por pequenos grupos rentistas, normalmente ligados às gestoras dos fundos financeiros com controle dos ativos num processo chamado de assetização.

