domingo, setembro 27, 2026

Debate sobre IA na UENF e matéria de O Globo sobre a extração de dados para treinar robôs (IA corporificada)

Na última terça-feira estive na Uenf para particpar de uma mesa de debates no evento 1º CAIS (Cultura, Artes, Inteligência e Sociedades) organizado pela Diretoria de Cultura e Casa de Cultura Vila Maria. Participei mais diretamente do 1º painel: "Máquinas de Consenso: entre o hype e o pânico".

Conversamos criticamente sobre a dataficação e a Inteligência Artificial entre o medo (apocalipse) e o entusiasmo (moda) de quem imagina que não há saída a não ser nos adaptar e nos integrar a ela. Identificamos a atual conjuntura como de dominância tecnológica das Big Techs e junto intuimos que a corrida pela IA não deve ser vista como um destino inexorável, mas um campo e um território em disputa.

Dialogamos mais sobre os agentes de IA e seus riscos, na medida em que hoje não se deve mais perguntar o que a IA pode fazer, mas sobre o que não se deve permitir que a IA faça sozinha.

As conversas foram muito interessantes incluindo o uso da IA na produção de arte, as linguagens e o que isso resulta em alterações das formas de sociabilidade e a necessidade de se reforçar a formação crítica do cidadão.

Porém, faltou tempo para ir além da análise sobre os agentes de IA que são basicamente mais software. Assim, eu não cheguei a abordar o tema da IA física, aquela que os chineses passaram a chamar - no seu plano de planejamento quinquenal - de IA corporificada, para uso em aparelhos (dispositivos diversos) e mais diretamente nos conhecidos robôs humanóides.

Descrevi todo esse contexto para falar de uma matéria hoje (27/09/2026, p.26) em O Globo com o título: "Brasileiros ganham dinheiro gravando rotina para treinar IA: Plataformas pagam entre US$ 3 e US$ 7 por hora de vídeo com trabalhos manuais".

Na essência se trata de sujeitos que estão filmando sua rotina de casa e vendendo para empresas que usam os dados para treinar IA corporificada, para uso posterior nos robôs humanóides. Algo tipo treinar a Alexa da Amazon para realizar tarefas para além da limpeza do chão e comandar outros dispositivos eletrônicos.

Como já disse acima, é um outro lado da IA dos agentes, dos chatboot, tipo Chat GPT e as tais LLMs que são usados para responder perguntas e até realizar tarefas cognitivas (IA agêntica).

A reportagem é bastante interessante e eu estou aqui sugerindo a leitura. Ela mostra um lado do trabalho informal e do extrativismo de dados de um "saber fazer" do trabalhador, para que ele possar ser transferido para a "megamáquina" integrada à IA.

É mais um exemplo de que na prática estamos imersos numa realidade do sistema homem-máquina da qual falava Pierre Lèvy na década 1980 do século passado. O celular com tempo uso médio de tela por mais mais de nove horas por dia, como extensão de nossas mãos e cérebro, é a realidade de um processo complexo, multidimensional que se desenrola em ampla e profunda expansão.

O caso principal da reportagem mostra um trabalhador desempregado filmando sua rotina doméstica (ou na fábrica) para treinar as máquinas que irá substituí-lo, em troca de uns dólares para sua subexistência pouco se importando com a privacidade dos dados e precarização da condição humana.

É evidente que a matéria suscita muitas outras reflexões e análises, porque embora as empresas que comprem essas filmagens estejam fora do país, são cidadãos brasileiros que passam a fornecer para o sistema, uma colossal variedade de dados, neste caso: vetores de distância entre o seu dedo, o seu punho, a angulação do movimento etc. que servem para rotular tarefas, pouco importando a língua usada pelo trabalhador.

O caso também mostra além de uma "nova fronteira" de treinamento de modelos de IA, não mais para grandes volumes de textos, usados pelos agentes que respondem perguntas dos usuários (tipo Chat GPT, Deep Seek etc), mas para substituir no todo, ou em parte, o trabalho humano.

Fica ainda mais claro o que significa o "processo de dataficação" na sociedade contemporânea. Uma camada acima da digitalização ou transformação digital que viabiliza essa enorme produção e extração dados. Estimativas de estudiosos é de que hoje se produz mais dados em um dia do que a humanidade produziu por séculos e isso tem servido para o que temos chamado de dominação tecnológica, exercida, em boa parte, pelos gigantes oligopólios das conhecidas Big Techs.

Nenhum comentário: