quarta-feira, abril 04, 2018

Anglo American suspende por 90 dias operações do Sistema Minas-Rio após os dois derramamentos do mineroduto

Ontem, 3 de abril de 2018, a mineradora Anglo American, proprietária do Sistema Minas-Rio e do mineroduto acidentado no município mineiro de Santo Antônio do Grama. informou através de nota que as suas atividades estarão paralisadas por 90 dias, para investigação das causas dos dois derramamentos seguidos da polpa de minério de ferro de seu mineroduto.

Esta decisão ocorre depois da empresa já ter dado férias coletivas de 30 dias aos seus empregados, após o Ibama ter suspendido licença (autorização) de operação do Sistema Minas-Rio. Apesar da empresa dizer que o segundo derramamento (em 29 de março) teria sido de 174 toneladas, há informações a serem confirmadas de que este volume seria cerca de três vezes maior.

Segundo informações obtidas pelo blog, as investigações estão se concentrando nos dutos e nas soldas, sejam daquelas já existentes nos tubos (soldas longitudinais realizadas pelos fabricantes), quanto naquelas realizadas para a instalação do mineroduto de 529 quilômetros que atravessa 32 municípios mineiros e fluminenses.

Como foi dito no texto anterior deste blog (aqui) acidentes não acontecem. Eles são causados. Eles possuem causas. E raramente pode-se atribuir (os) mesmo(s) a apenas uma causa, ou uma falha. 

Quase sempre, se tem a ocorrência de uma "árvore de falhas", onde uma causa mais importante está ligada a um conjunto de outros fatores secundários que ocorrendo simultaneamente levam ao acidente. 

No caso dos dois acidentes do mineroduto da Anglo American há que se avaliar as hipóteses de falhas em três etapas: 
1) Na fase de implantação com  instalação e montagem do mineroduto: qualidade dos dutos, soldagens, adequação ao local, etc.;
2) Na fase de operação do mineroduto: mistura da polpa(minério + água); bombeamento, pressão e vazões utilizadas, protocolos destas atividades, etc. 
3) Nas etapas de manutenção: bombas, dutos, protocolos de manutenção preventiva e preditiva, etc.

É possível que se tenha contribuições das três fases, mesmo que com predominância de falha maior em uma destas etapas, como a da implantação do mineroduto, fase que, segundo informações, está sendo mais investigada. 

A imagem ao lado que o blog recebeu retrata a parte do duto que se rompeu no primeiro acidente, como postamos na nota anterior, serve de parâmetro importante nas investigações, mas não se pode restringir à esta parte do duto e sua solda, na medida em que o segundo rompimento do duto ocorreu, levando às investigações sobre a resistência dos mesmos, assim como aos protocolos de ensaios dos materiais quando da instalação do mineroduto.

A empresa contratada para a implantação do mineroduto foi a Camargo Corrêa. A obra começou a ser organizada em 2008 e concluída em 2014. Iniciou-se com a terraplenagem e a montagem de 13 canteiros operacionais e três canteiros administrativos, situados nos municípios de Nova Era e Urucânia, em Minas Gerais, e Itaperuna, no Rio de Janeiro.

Segundo a própria Camargo Correa, as tubulações foram fornecidas pela Techint e teriam sido fabricadas no Japão e na Argentina e ficaram armazenadas nos pátios de tubos e depois distribuídas para os locais de instalação.

Os tubos utilizados no mineroduto tinham 12 metros de extensão e diâmetro de 26 polegadas, em alguns trechos e outros de 24 polegadas. São tubos em aço carbono com especificação do material API 5L Gr. X70 e revestimento externo de polietileno com espessuras variam de 0,375 polegadas a 0,906 polegadas. A soldagem dos tubos foi do tipo elétrica com eletrodo revestido (SMAW) e soldagem a arco com proteção gasosa e eletrodo de tungstênio (GTAW).

A instalação da tubulação foram feitas em valas abertas no terrenos com 1,06 m de largura e que teve cobertura mínima de 0,76 m de profundidade. Segundo a empresa construtora Camargo Correa, quase 5 mil trabalhadores foram utilizados nas diversas etapas e e trechos de implantação do mineroduto.

Segundo informações obtidas pelo blog, alguns destes tubos ficaram vários anos expostos ao tempo e sem proteção. Além disso, há que se investigar se todos os tubos recebidos passaram por ensaios para identificar as especificações técnicas sobre resistência dos materiais, especialmente, depois de terem ficados muito tempo (anos) armazenados no tempo, e parte deles sem proteção. 

Os ensaios realizados em materiais de aço carbono são do tipo destrutivo e não destrutivos como aqueles com uso de ultrassom, raio-x e outras formas de análise. Além dos tubos, as soldas feitas para interligação dos mesmos devem ser analisadas uma a uma. Os documentos destas checagens devem estar arquivadas e disponíveis para as investigações. 

Há informações de que durante a crise financeira mundial de 2008, alguns cortes de custos nas obras teriam sido feitos e deve ser investigado se na ocasião, os ensaios não deixaram se ser feitos em todas as peças, para serem feitas por amostragens. 

Muitos trechos das obras do mineroduto ficaram por longo tempo de espera execução da instalação por conta de problemas jurídicos com as desapropriações das áreas e também devido à existência de sítios arqueológicos que exigiram licenciamento ambiental específico.

Infográfico do Valor em 3 jul 2014.

Tudo isto contribuiu para pressões da Anglo American no sentido de inciar as operações do mineroduto para escoar a produção de minério da mina até o Porto do Açu, depois que a empresa alegava ter gasto muito mais (R$ 30 bilhões- Vide aqui postagem do Valor Online, em 3 jul. 2014, reproduzida por este blog).) do que o previsto com o projeto Sistema Minas-Rio, adquirido no papel da empresa LLX do empresário Eike Batista por US$ 5,5 bilhões.

A operação de venda do Sistema Minas-Rio para a Anglo American levou a Receita Federal a multar o empresário por sonegação, em R$ 3,8 bilhões, por não ter pago imposto pelos lucros mobiliários obtidos com a operação de venda do empreendimento.

Como já foi dito, a investigação da causa principal não deve inibir a procura de outros fatores que possam ter contribuído mais ou menos intensamente para a ocorrência dos dois derramamentos. Afinal são 529 quilômetros de dutos e várias áreas, rios e comunidades ameaçadas. 

O blog volta a insistir que para a transparência do assunto e segurança dos municípios percorridos pelo mineroduto e suas comunidades, é importante que a sociedade tenha o direito de participar das investigações sobre os acidentes e sobre o potenciais riscos de novos acidentes em todo o Sistema Minas-Rio. 

Todo o empreendimento já vem sendo objeto de vários questionamentos sobre impactos sócio-ambientais que atingem várias comunidades, em especial às que se localizam junto à mina em que se explora o minério e onde tem origem o mineroduto. Seguiremos acompanhando o assunto.

PS.: Atualizado às 09:26, 09:38 e 12:02 para breves acréscimos no texto.

PS.: Atualizado às 13:26:
1 - O blog chama a atenção que as investigações sobre problemas na fase de implantação do mineroduto analisam dois tipos de soldas. Aquelas já existentes nos tubos (soldas longitudinais realizadas pelos fabricantes e aquelas realizadas para a instalação do mineroduto, que liga um tubo ao outro. Repito a primeira vem feita na construção do tubo e está demonstrada na figura ao lado do tubo rompido no primeiro vazamento.


2 - Até onde o blog apurou foram pelo menos dois tipos de fabricantes de tubos utilizados no mineroduto. O primeiro já citado na nota é do grupo Techint, mas através da empresa Tenaris/Confab e fabricação na Argentina.  A outra empresa fabricante teria sede no Japão, mas podendo ter sido fabricada em outro país asiático. Trata-se do grupo japonês Marubeni-Itochu Steel Inc. que está ligado a um trader instalada no país, a Marubeni Brasil S.A. Apesar da empresa ser japonesa, estes tubos podem ter sido fabricados em outros países asiáticos. Todos os tubos são numerados e identificados por lotes e constam que foram distribuídos de forma a que este mesmo lote pode estar instalado em outros trechos do total dos 520 quilômetros do mineroduto.

3 - Antes do trabalho das soldas de interligação dos tubos para instalação do mineroduto eram realizados serviços de remoção das carepas em seu interior. Informações apuradas pelo blog indicam que alguns estes tubos antes de irem para os canteiros de armazenagem e depois para os trechos onde seriam instalados teriam ficado cerca de um ano num dos terminais do Porto de Angra dos Reis, RJ.
Vale ainda registrar que a empresa responsável pela obra foi a construtora Camargo Correa. Porém, a empresa contratada pela Anglo American para fiscalizar as obras de instalação foi a empresa Arcadis Logus. Outra empresa também contratada pela Anglo American foi responsável em fiscalizar a qualidade na implementação do duto, soldas, coberturas, cruzamentos, travessias, concretagem, etc. foi a empresa australiana PSI/Ausenco (atualmente denominada apenas como Ausenco). A Ausenco também atendia consultas técnicas e aprovava e reprovava os serviços realizados na instalação do mineroduto. Esta empresa chegou a fazer a proteção catódica nos tubos armazenados para diminuir a corrosão. Mas este trabalho não teria sido feito em todos os tubos. Certamente a empresa tem muito a informar sobre as ocorrências.

O blog segue acompanhando o caso.

PS.: Atualizado às 05/04/2018 às 16:20: A Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável (Semad) emitiu, ontem (04/04/2018), um auto de infração referente apenas ao primeiro vazamento do mineroduto da empresa Anglo American, que contaminou o Ribeirão de Santo Antônio do Grama, na Zona da Mata, com 318 toneladas de polpa de minério, no valor de R$ 125.592.097,99. A Semad-MG informou ainda que a autuação pelo segundo vazamento no mineroduto Minas-Rio, ocorrido em 29 de março, ainda ocorrerá após análise das consequências, com aplicação de nova multa.

PS.: Atualizado às 26:38: Justiça de Minas Gerais suspendeu transporte de minério e adoção, por parte da empresa Anglo American Minério de Ferro Brasil S/A , de todas as medidas necessárias para cessar o vazamento de substâncias do Mineroduto Minas-Rio e a contaminação do meio ambiente, bem como conter, retirar e dar destinação ambientalmente adequada aos poluentes, no prazo máximo de 72 horas. A decisão é da juíza em substituição na Comarca de Rio Casca, Marié Verceses da Silva Maia, ao deferir pedido do Ministério Público. a juíza determinou, entre outras medidas, que a empresa providencie o cadastro dos novos atingidos pela eventual falta de água, caso esta se verifique e se mantenha, fornecendo-lhes água potável, até que ocorra a regularização do serviço público de abastecimento, este último em até 24 horas, e suspender as atividades de transporte de minérios pelo Mineroduto Minas-Rio até decisão judicial em sentido contrário.

Além disso em release do TJMG "a juíza determinou que a empresa apresente a conclusão da auditoria ambiental independente no empreendimento, já determinada anteriormente, com emissão de relatório conclusivo e apresentação nos autos de informações sobre os níveis efetivos ou potenciais de poluição ou de degradação ambiental provocados pelo rompimento do duto/operação do empreendimento, as condições de operação e de manutenção dos equipamentos e sistemas de controle e poluição, as medidas a serem tomadas para restaurar o meio ambiente e proteger a saúde humana, a capacitação dos responsáveis pela operação e a manutenção dos sistemas, instalações e equipamentos de proteção do meio ambiente e da saúde dos trabalhadores. A magistrada também fixou multa cominatória diária no valor de R$ 100 mil para assegurar a efetivação da tutela concedida, limitada ao valor de R$ 10 milhões, determinando também a intimação da empresa para cumprimento imediato da decisão. “Não se pode deixar de considerar que as consequências de outro vazamento não se restringiriam a uma questão estritamente ambiental, uma vez que também acabam afetando os direitos básicos das pessoas atingidas, conforme ocorreu com os moradores da região”

Imagem divulgada pelo TJMG:

2 comentários:

Luiz Felipe Marconi disse...

Olá querido Roberto no texto vocÊ cita "arvoré de falha" mas esse termo não esta correto. Poís esse é o nome de um dos milhares de métodos de investigação de acidente. Ali o correto seria sequência de acidente.

Roberto Moraes disse...

Caro Felipe,
Sim. Pode ser. Mas eu prefiro trabalhar com a ideia - antes de conceitos e métodos - do que alguns autores chamam de incidentes com o levantamento de fatores secundários que levam à ocorrência do acidente. Isto pode levar ou não ao método da sequência de acidente e ao conhecido efeito dominó.

A ideia é propor sair desta sequência imediata que leva ao acidente e é propor que se trabalhe situações pretéritas e fatores anteriores que também contribuem para a ocorrência.

No texto sugiro um link de uma matéria em que o CEO da Anglo fala da necessidade de apressar a conclusão das obras do mineroduto. Apenas um exemplo.

E assim sair desta visão de absoluta segurança do sistema.

Sds.