segunda-feira, abril 02, 2018

Mineroduto da Anglo American: os limites da tecnocracia

Dois vazamentos dos minerodutos do Sistema Minas-Rio da Anglo American. O primeiro no dia 12 de março, quando 300 toneladas de minério de ferro vazaram da tubulação no município de Santo Antônio do Grama.

As operações do mineroduto foram retomadas na terça-feira, dia 27. Dois dias depois, 29/03, às 18:55, um segundo vazamento jogou mais 174 toneladas de polpa de minério de ferro no ribeirão Santo Antônio, que já havia sido atingido no primeiro incidente, a apenas 400 metros à frente, quando atingiu também as terras de uma propriedade rural.

A empresa deu férias coletivas aos seus empregados e está tentando renegociar prazos de entrega aos clientes especialmente da China, depois que o Ibama suspendeu a autorização para a mineradora Anglo American operar seu mineroduto, que liga Minas Gerais ao litoral do Rio de Janeiro, até o Porto do Açu. O Ibama comunicou à Anglo American que o “mineroduto deverá interromper imediatamente as suas atividades, devendo requerer autorização deste instituto para voltar a operar”.

O sistema Minas-Rio, da Anglo American, produziu 16,8 milhões de toneladas de minério de ferro durante o ano passado e obteve em janeiro, as últimas licenças para iniciar a fase 3 do projeto, que levaria sua capacidade para 26,5 milhões de toneladas. A mina do sistema Minas-Rio, em Conceição de Mato Dentro tem capacidade diária de produção de 50 mil toneladas de minério de ferro.

Entre técnicos que conhecem e atuaram na implantação do mineroduto há desconfianças. Tanto em relação à qualidade dos dutos, quanto da operação do sistema, em termos de granulomentria do minério e à polpa (minério 70% + 30% água), quanto às pressões e vazões usadas na operação do sistema nos seus mais de 500 quilômetros de duto.

A decisão do Ibama que determinou a suspensão das atividades e exige que a Anglo American requeira nova autorização para voltar a operar. Esta decisão coloca a empresa sob pressão e sob riscos de mais impactos para as comunidades que convivem com as ameaças do sistema. Os prejuízos da empresa e as prefeituras que deixam de receber ISS são pequenos diante dos riscos para as comunidades e trabalhadores.

A técnica não é e nem nunca foi neutra e absoluta como alguns tentam advogar. Sobre acidentes e segurança do trabalho envolve também sistemas redundantes, em fases de instalação, operação e manutenção, a técnica da árvores de falhas determina que todas as hipóteses de ocorrências devem ser consideradas em termos de planejamento. Sendo assim, não significa que os acidentes possam ter relação apenas com o projeto e a instalação do sistema, mas com a operação e manutenção do mesmo. Não há sistema absolutamente isento de riscos. Esta ideia tecnocrática deve ser evitada. Ela faz com que muitos técnicos falem em garantias absolutas sobre o que contém riscos, mesmo que em escala menor.

Alguns técnicos que conhecem o sistema chamam a atenção para a hipótese de problemas na qualidade do material dos dutos. O duto é o que tem de mais básico neste projeto. Se os exames de qualidade do material (chamados tecnicamente de ensaios, destrutivos e não destrutivos, incluindo raio-x e ultrassom entre outros) podem ter algum comprometimento, isto reforça a ideia dos limites da segurança dos sistemas.

Era sobre essa falsa ideia de absoluta segurança que se debatia nas audiências públicas do EIA/Rima (Estudos e Relatórios de Impacto ambiental) da instalação dos mineroduto e de outras partes do Sistema Minas-Rio.

A parte técnica tende a possuir um discurso tanto da neutralidade da técnica, quanto das garantias absolutas dos sistemas. O que é falso, mesmo em sistemas em que o nível de segurança é, desde sua projetação, mais sólido. No meio disto se lida com custos. Sistemas mais seguros são mais caros e a engenharia trabalha com limites ou coeficientes de segurança que levam em conta os custos.

Enfim, eu quero com isso chamar a atenção para a prepotência comum de gerentes técnicos que assumem discursos de garantias absolutas sobre aquilo que contém fragilidades e riscos que levam a acidentes.

Lembro que acidentes não acontecem. Nunca. Acidentes são sempre produzidos por riscos. Identificados e/ou calculados previamente ou não. Aliás, em termos de engenharia, a busca pelas causas do acidente independe das responsabilidades. 

Estas entram em outra esfera a do campo legal da responsabilidades civis (indenizações) e criminais (punição, cerceamento de liberdade). E neste campo, não é incomum, aliás é corriqueiro, que os gestores procurem após as avaliações responsabilizarem os executores e os fiscais, num tipo de ação inversa sobre quem realmente tem poder sobre o sistema.

Conheci e tive contato com inúmeros casos em que ao ampliar a investigação de acidentes culpar os executores. Todos conhecemos análises de acidentes de carros e aviões em que os culpados são os mortos, até porque eles não falam.

Enfim, a sociedade e as comunidades atingidas deveriam ter o direito de participar destas investigações sobre as causas destes dois acidentes e sobre os riscos de novas ocorrências.

Ao lado e abaixo seguem três imagens do duto (parte do mineroduto) da Anglo American, onde houve o primeiro rompimento, no dia 12 de março de 2018, no município de Santo Antônio do Grama.

Observá-las e interpretá-las é parte do trabalho de investigações que deve ainda observar os protocolos e os processos de transporte da polpa de minério de ferro. Várias das hipóteses que levam aos dois e recorrentes acidentes impõem sérias dúvidas sobre a segurança de todo o sistema. De forma similar ao que se observou na barragem rompida da mineradora Samarco em Mariana, MG. 

Continuemos observando.






















PS.: Atualizado às 07:46 de 04/04/2018:

Ontem, 3 de abril de 2018, a Anglo American informou através de nota que as suas atividades estarão paralisadas por 90 dias, para investigação das causas dos dois derramamentos seguidos da polpa de minério de ferro de seu mineroduto. Isto ocorre depois da empresa já ter dado férias coletivas de 30 dias aos seus empregados, após o Ibama ter suspendido licença (autorização) de operação do Sistema Minas-Rio. Apesar da empresa dizer que o segundo derramamento (em 29 de março) teria sido de 174 toneladas, há informações a serem confirmadas de que este volume seria cerca de três vezes maior.

Segundo informações obtidas pelo blog, as investigações estão se concentrando nos dutos e nas soldas realizadas para a instalação do mineroduto de 529 quilômetros. 

Um comentário:

Jonathan Martins disse...

infelizmente, hoje no Brasil, tudo que se produz é de baixa qualidade. Era inpensável isto o que está acontecendo. Falta Seriedade na Sociedade Brasileira. Tudo é feito de 'açucar'. Estamos perdidos.