domingo, março 17, 2019

A “era pós-petróleo”, a “reeletrificação”, os ciclos históricos e o potencial do Brasil no sistema-mundo

Há um grande debate sobre o que já passou a ser chamado como a "era pós petróleo".

Tenho estudado o assunto de forma mais profunda desde que pesquisei o setor petróleo (fração do capital) e suas relações com os grandes capitais, a grande demanda de infraestruturas e a produção social do espaço em várias partes do mundo. De forma especial na região sudeste do Brasil.

Dessa forma, produzimos uma tese e mais recentemente, um artigo (papper) sobre o peso do Circuito Espacial do Petróleo, como importante fator para a constituição da megarregião Rio-SP e de outras megarregiões pelo mundo.

Várias instituições, "think thanks", institutos e players (petroleiras) do setor estudam sobre quando deverá ocorrer o tal “pico de consumo de petróleo” no mundo.

A maioria dos estudos aponta que o pico de consumo do petróleo deverá ocorrer entre na década entre 2040 e 2050.

Já a respeitada Agência Internacional de Energia (AIE) prevê que isso se dará mais adiante e faz questão de não estimar datas e nem períodos.

A petroleira chinesa China National Petroleum Corp. estima que se dê já a partir de 2030. A petroleira anglo-holandesa Shell fala em 15 anos. A americana Esso, em 2040. A Opep faz previsões de que o pico de consumo se dará daqui a 30 anos.

Esses e outros cenários dão pistas, mas não podem estabelecer previsões definitivas.

Porém, há uma confusão por parte de muitos quem avaliam que esse fato possa trazer rupturas bruscas. Esses não compreendem (ou não desejam entender) que os processos de migração energética são graduais e que entre eles, há períodos de convivência entre todas essas matrizes de produção de energia.

Aliás, como é o caso do poluente carvão que ainda hoje é responsável por 27% da energia primária consumida em todo o planeta, bem próximo do petróleo que tem hoje participação de cerca de 31%.


A reeletrificação
A energia renovável (ou os renováveis como já é resumidamente citado) cresce como produção de energia de forma espetacular desde a década de 90, mas a partir de bases muito pequenas ainda, por isso ainda custa deslanchar. Porém, em 2014, os renováveis já eram responsável por 14% da matriz mundial de energia. Incluindo aí a eletricidade.

Aliás, aquilo que eu passei a denominar como "reeletrificação", terá, cerca de um século depois, um papel tão importante quanto o início do seu uso no final do século XIX, início do século XX, no mundo. (Sendo essa questão merece outra uma análise à parte)

Assim, não é difícil entender esse processo se você considerar que as energias primárias dos renováveis, o gás natural e a nuclear Todas se utilizam da eletricidade como forma de fazer a energia chegar até o consumidor final, sejam elas, as indústrias, comércio, serviços lazer e agora também os transportes, com os veículos elétricos.

É a esse processo que chamo de "neoeletrificação".

É um assunto muito vasto e assim, adiante eu vou voltar a tratar dele por aqui.

Porém, ainda nesse primeiro texto, que acontece junto da escrita que faço para um artigo científico para um congresso [onde cito fontes, referenciais teóricos e de pesquisas sobre o tema], considero que vale destacar que, ao contrário de alguns apressados e ansiosos, o capitalismo que foi "lubrificado pelo petróleo", espera continuar a usá-lo por muito mais tempo e de forma mais ou menos intensa, sob outras formas. 


Petróleo é mercadoria especial e vai para além dos combustíveis
O petróleo é um produto finito e especial. Ele é responsável por mais de 3 mil outros derivados, onde o combustível, embora seja onde o seu uso se dê em maior quantidade, talvez seja um dos menos nobres para a vida moderna.

Entre eles se destacam, os usos do petróleo como petroquímicos (plásticos), fertilizantes (para a agricultura - tanto é que os custos de muitos alimentos são muitos atrelados ao preço do petróleo, embora, o seja também pelos gastos com transportes entre o produtor, distribuidor e consumidor final), remédios, roupas, alimentos, etc.

Assim, o menor uso gradual do petróleo e seu derivado como combustível, não vai alterar tão cedo e nem de forma assim tão intensa, a sua demanda no mundo.

Há muitos que não querem entender que esse fato nada tem a ver com a defesa dos combustíveis fósseis que contribuem para a atual grande carbonização e poluição do mundo, com graves consequências para as questões climáticas, entre outras, como já é amplamente conhecido.

Estudos da própria AIE identificam que até 2030, um terço da demanda global de petróleo, venha do setor de petroquímico. A estimativa é a de que em 2050, já seria a metade. 

Assim, ao contrário daqueles entreguistas que estão defendendo que é hora do Brasil produzir todo o seu petróleo rapidamente. De que é uma oportunidade para que a Petrobras entregue parte dos seus campos do pré-sal, as suas subsidiárias - e pasmem até as nossas petroquímicas, a Braskem, que a Petrobras é sócia meio a meio e que é a sexta maior do mundo – é uma completa aberração e despropósito.

Os dados, indicadores e estudos internacionais de várias fontes mostram amplamente o contrário. Muitos consultores ganham muito dinheiro e gordas comissões para falar o contrário e boa parte da mídia dá espaços e créditos para isso, sendo também bem remunerada. Cada um com seus interesses. 


O entreguismo que desperdiça o potencial do Brasil no "Sistema-mundo"
O Brasil com o volume de bens naturais estratégicos que possui, poderia e deveria usar também o petróleo, para incrementar os renováveis (energia eólica, solar, eletricidade), financiar a infraestrutura, a elevação e qualificação da população, o setores de pesquisas para acompanhar a evolução desses processos que tenderia produzir ainda mais inclusão socioeconômica e um desenvolvimento menos desigual.

O contrário disso é o que se vê, o entreguismo, sabujismo e um aumento da dependência e da submissão, feita àqueles que não possuem nenhum compromisso com o nosso povo.

Infelizmente, ainda há muitos que caem nesse conto. Alguns mais inocentes misturam desejos sem olhar a realidade e dessa forma acabam fazendo coro com os entreguistas de plantão e com aqueles de visão eternamente colonizada.

O assunto como já disse, remete a questões e interpretações em diversas dimensões e mistura indicadores técnicos e estatísticos com interpretações que encaminham ainda para análises no campo das ciências sociais, economia, política, geopolítica, sistema interestatal capitalista etc, estado-nação, hegemonia, ciclos históricos e sistema-mundo.

Porém, o objetivo aqui é bem mais simples: chamar a atenção para o que parece encoberto, no campo que envolve a produção de energia, o seu uso para superar desigualdades sociais e promover perspectivas civilizacionais inclusivas. Desenvolvimento só vale com civilização menos desigual.

2 comentários:

Jose Luiz Silveira Ballock disse...

Achei excelente a pesquisa e o conhecimento prático apresentado pelo autor.
Principalmente tocante a reeletrificação, os ciclos históricos, o potencial do Brasil nas fontes alternativas de geração de eletricidade, inclusive a nuclear. Na natureza temos também substitutos do petróleo, como o a mamona, o alcool, a soja etc
Há de se considerar também o aproveitamento racional do plastico, que virou poluição mundial, que daria um prolongamento a utilização dos carbonos.
Espero trocar-mos mais idéias
Jose Luiz Ballock
Especialista em manutenção de equipamentos de potencia em Alta-Extra Alta Tensão

Roberto Moraes disse...

Caro Ballock,

Agradeço seu comentário. Sim a poluição dos polímeros é crescente e também assusta.

A reeletrificação que se vê no cenário tem outras questões que envolvem a questão ambiental entre outros.

O uso das baterias que demandaram mais extração mineral com as consequências conhecidas com barragem de rejeitos, impactos socioambientais sobre comunidades nativas. O descarte das baterias de automóveis será um dos maiores problemas.

O biodiesel e o álcool são alternativas interessante geram empregos, mas também produzem impactos ambientais.

O tema é vasto. Tem ainda a dimensão política e geopolítica. O ciclo petro-econômico ainda promete mais algumas décadas de disputa e conflitos políticos.

Abs.