quarta-feira, agosto 27, 2025

EUA à beira do caos: Trump, tropas nas ruas e o fantasma da guerra civil, por Reynaldo Aragon

 

EUA à beira do caos: Trump, tropas nas ruas e o fantasma da guerra civil

 Reynaldo Aragon

26 de agosto de 2025

 


As medidas de Trump para controlar capitais democratas, a tensão com governadores e prefeitos e o risco real de fragmentação institucional expõem a maior crise interna americana em décadas

O que parecia apenas mais um embate político nos EUA agora se transforma em um teste histórico: tropas federais deslocadas para as ruas de Washington, disputas abertas com governadores democratas e ataques à independência do Federal Reserve revelam um país em ebulição. Estaria a democracia americana entrando em colapso? Neste artigo inédito, apresentamos uma análise estratégica e preditiva do cenário, antecipando os possíveis desdobramentos da crise mais grave dos Estados Unidos no século XXI.

Por que os EUA estão à beira do caos

 

Na manhã de 26 de agosto de 2025, as imagens que circulam das ruas de Washington e de outras capitais norte-americanas parecem retiradas de um manual de guerra híbrida em território doméstico. Tropas da Guarda Nacional patrulham bairros centrais, enquanto ordens executivas da Casa Branca disputam espaço com contestações judiciais e declarações inflamadas de governadores e prefeitos democratas. Ao mesmo tempo, o presidente Donald Trump insiste em um discurso de “lei e ordem” que, mais do que restaurar a paz, amplia a tensão entre instituições federais e locais. A disputa pelo controle da segurança interna já não é apenas uma batalha política: tornou-se um teste de estresse para a democracia mais antiga do Ocidente.

Este artigo parte de uma pergunta provocadora — e que há décadas alimenta a imaginação de analistas, acadêmicos e jornalistas: poderiam os Estados Unidos caminhar para uma guerra civil ou mesmo para uma ditadura sob a figura de Trump?. O ethos aqui não é o da especulação fácil, mas o da análise estratégica com capacidade preditiva. Ao mobilizar o que chamamos de jornalismo estratégico, buscamos ultrapassar a mera descrição factual dos acontecimentos e construir um diagnóstico denso, que ajude tanto o público quanto os tomadores de decisão a compreender as variáveis em jogo e os cenários possíveis.

O jornalismo estratégico, em seu estado da arte, não se limita a informar. Ele age como um sistema de alerta precoce — um radar que conecta elementos históricos, sociais, econômicos e políticos para mapear não só o presente, mas também os sinais de futuro. Nesse sentido, os confrontos institucionais nos EUA, a militarização da política doméstica e o risco de erosão da independência econômica (com a pressão direta sobre o Federal Reserve) não podem ser analisados isoladamente. São peças de uma engrenagem maior: a tentativa de consolidar um poder autoritário em um país fundado sobre freios e contrapesos.

Mais do que perguntar se Trump já é um ditador, é preciso compreender se a combinação de suas decisões, suas bases sociais radicalizadas e a fragilidade das instituições americanas abre espaço para a consolidação de um regime híbrido — formalmente democrático, mas autoritário, na prática. Ao mesmo tempo, é necessário avaliar se a escalada atual se traduzirá em um conflito difuso, de baixa intensidade, que fragmenta a unidade federativa, alimenta movimentos separatistas e redesenha os contornos da política interna dos EUA.

Este é o ponto de partida: apresentar, com rigor e método, os riscos reais, os cenários plausíveis e as consequências de um país que pode estar à beira de seu maior colapso institucional desde a Guerra Civil do século XIX.

 

Contexto histórico e institucional — quando o passado ecoa no presente


Os Estados Unidos nasceram sob a tensão permanente entre autoridade federal e autonomia estadual. A Constituição de 1787 consagrou esse equilíbrio frágil em um pacto que, ao longo de mais de dois séculos, foi testado em momentos de ruptura: da Guerra de Secessão (1861-1865) à luta pelos direitos civis nos anos 1950-1960, passando pela turbulência de 1968 e pela “guerra contra o terror” após os atentados de 11 de setembro. Cada crise expôs a mesma contradição: até onde vai o poder do presidente quando confrontado pela resistência de estados e cidades?

Em 1957, Dwight Eisenhower enviou tropas da 101ª Divisão Aerotransportada para garantir a matrícula de estudantes negros em Little Rock, Arkansas, desafiando a autoridade estadual segregacionista. Em 1968, diante dos protestos contra a Guerra do Vietnã, a presença militar em cidades norte-americanas trouxe à tona o debate sobre repressão e direitos civis. Em 2020, Donald Trump, já então presidente, ameaçou invocar o Insurrection Act para conter manifestações do movimento Black Lives Matter, mas recuou diante da pressão de governadores e chefes militares. Esses episódios mostram que o uso de forças federais em território interno não é novo — mas sempre esteve circunscrito a situações extraordinárias e cercado de contestação legal.

Duas peças legais são hoje fundamentais para compreender os dilemas de 2025. A primeira é o Insurrection Act (1807), que autoriza o presidente a empregar forças armadas em solo nacional em casos de insurreição, obstrução da lei ou ameaça à integridade dos EUA. Trata-se de um dispositivo raro, acionado em situações extremas, cuja invocação direta até agora Trump evitou — mas cujo fantasma ronda cada uma de suas declarações. A segunda é o Home Rule Act (1973), que concede ao Distrito de Columbia autonomia administrativa limitada, mas preserva ao presidente prerrogativas sobre a segurança da capital. É justamente essa brecha que tem permitido a Trump deslocar tropas para Washington sem passar por governadores, abrindo precedente perigoso para futuras expansões.

A lógica do federalismo norte-americano atua, portanto, como barreira e campo de batalha ao mesmo tempo. De um lado, governadores democratas como Gavin Newsom (Califórnia) e J.B. Pritzker (Illinois) mobilizam tribunais estaduais e cortes federais para contestar as medidas da Casa Branca. De outro, prefeitos de cidades-alvo — de Chicago a Los Angeles — transformam sua resistência em palanques políticos, desafiando a narrativa presidencial. Essa disputa jurídica e simbólica ecoa as lutas históricas entre estados e União, mas carrega uma novidade: a combinação de polarização partidária extrema, desinformação em massa e um presidente que flerta abertamente com a lógica de “homem forte” capaz de se sobrepor às instituições.

Se no passado presidentes utilizaram tropas para garantir direitos constitucionais ou responder a crises nacionais específicas, em 2025 o movimento parece inverter a lógica: trata-se de usar a força federal para desafiar governos locais e consolidar poder político pessoal. É aqui que o fantasma da ditadura ganha corpo, não como ruptura súbita do sistema, mas como erosão gradual dos freios e contrapesos que sustentam a república norte-americana desde sua fundação.


O presente em ebulição — agosto de 2025


O verão político de 2025 nos Estados Unidos entrou para a história como um marco de instabilidade. O presidente Donald Trump, em seu segundo mandato, decidiu elevar a tensão ao deslocar unidades da Guarda Nacional e forças federais para o coração da política americana. Washington, D.C., epicentro institucional, tornou-se vitrine de uma nova estratégia de poder: decretos presidenciais sob a justificativa de “emergência criminal” permitiram que o Executivo assumisse temporariamente o comando da Polícia Metropolitana, algo contestado por juristas e legisladores locais. O gesto foi mais do que simbólico: mostrou que Trump está disposto a transformar a capital em laboratório de controle autoritário.

A ofensiva não parou em Washington. O presidente acenou com a possibilidade de enviar tropas também para Chicago, um dos maiores redutos democratas do país, sob o argumento de combater “gangues e terrorismo urbano”. A reação foi imediata: o governador de Illinois, J.B. Pritzker, classificou a medida como “intervenção inconstitucional” e anunciou que acionará os tribunais federais. Situação semelhante se desenha na Califórnia, onde o governador Gavin Newsom denunciou os movimentos da Casa Branca como “ensaio de golpe branco”. Prefeitos de grandes cidades ecoaram o discurso: Lori Lightfoot, em Chicago, e Karen Bass, em Los Angeles, acusaram Trump de governar pela força, não pelo diálogo.

Outro front de conflito emergiu na economia. A tentativa de Trump de demitir a diretora do Federal Reserve, Lisa Cook, incendiou os mercados e gerou alarme entre economistas. A independência do Fed, pilar da estabilidade global, sempre foi considerada intocável. Atacar essa instituição é sinal claro de que o presidente pretende dobrar a máquina econômica aos seus interesses políticos. As primeiras reações não demoraram: queda nos mercados de títulos do Tesouro, volatilidade cambial e declarações de alerta de Wall Street. Para analistas, esse foi o gesto mais arriscado de Trump desde a posse — porque atinge diretamente a confiança internacional no dólar.

Enquanto isso, as ruas começam a refletir a divisão. Em Washington, grupos ligados ao movimento MAGA organizaram vigílias em apoio às tropas, enquanto manifestantes contrários denunciaram a escalada autoritária. Em redes sociais, influenciadores conservadores descrevem Trump como “o único capaz de restaurar a ordem”, enquanto veículos progressistas falam em “ensaio de ditadura”. O Departamento de Segurança Interna (DHS) elevou o alerta de risco de violência política doméstica, prevendo novos incidentes em protestos nos próximos meses.

Trump, por sua vez, mantém o tom desafiador. Em entrevista recente, negou ser um “ditador” e ironizou: “Sou apenas o único presidente que tem coragem de enfrentar os criminosos que os democratas protegem”. A frase, repercutida por toda a imprensa, sintetiza o momento: para seus apoiadores, um líder firme contra o caos; para seus críticos, um governante que testa, dia após dia, os limites do sistema democrático.

No curto prazo, o país parece avançar em direção a um impasse constitucional. Tribunais de apelação no Distrito de Columbia e na Califórnia já receberam ações para barrar as medidas federais. Congressistas democratas pressionam por uma resposta legislativa, mas a polarização no Capitólio paralisa qualquer consenso. O que se vê é um jogo de forças em tempo real: Trump aposta na ocupação militarizada e na retórica de guerra; seus adversários tentam ativar os mecanismos legais e a opinião pública para freá-lo.

A ebulição de agosto de 2025, portanto, não é apenas conjuntural. É a tradução concreta de uma disputa de poder que ultrapassa a política tradicional e entra no terreno da legitimidade institucional. Se o presidente pode usar tropas para desafiar estados e ainda ameaçar a independência do Fed, a pergunta que se impõe não é apenas “até onde ele vai”, mas até onde as instituições estão dispostas — e preparadas — para resistir.

  

A hipótese “Trump ditador”: limites e possibilidades

A ideia de que Donald Trump poderia se tornar um ditador nos Estados Unidos não é nova, mas em agosto de 2025 ela deixou de ser mera retórica de campanha e passou a ser uma hipótese testada na prática, diante das decisões que ampliam a presença militar em cidades, contestam a independência do Federal Reserve e tensionam os freios constitucionais. É preciso, antes de tudo, compreender o que significa falar em “ditadura” no caso norte-americano. Diferentemente de regimes clássicos em que o Executivo concentra os poderes coercitivos, dissolve parlamentos e impõe censura aberta, o risco mais plausível nos EUA é o de um regime híbrido, no qual eleições e instituições continuam formalmente existindo, mas são inclinadas em favor do governante por meio de captura institucional, intimidação de opositores e uso estratégico da máquina estatal.

 As barreiras constitucionais ainda funcionam como travas relevantes. O federalismo norte-americano confere aos estados amplo controle sobre suas polícias e instituições locais, limitando a capacidade de intervenção direta do presidente. O Judiciário federal, com jurisdição nacional, e o Congresso, responsável pelo orçamento, completam esse sistema de freios e contrapesos que, até hoje, impediu aventuras autoritárias de se consolidarem. Além disso, a burocracia profissional, formada por servidores estáveis e especialistas, resiste a mudanças bruscas e não pode ser substituída de imediato por quadros leais ao presidente. Tudo isso significa que a clássica imagem de um decreto dissolvendo o sistema, típica das ditaduras latino-americanas ou europeias do século XX, não encontra equivalência nos EUA. O caminho viável para Trump seria mais lento, tático e dependente de crises que forneçam justificativa para centralização.

Os poderes de emergência são, nesse sentido, os instrumentos mais perigosos. O Insurrection Act, de 1807, autoriza o emprego das Forças Armadas em território doméstico diante de insurreições ou ameaças à integridade do país. Sua invocação exige narrativa convincente de colapso e está sujeita a revisão judicial e contestação política. A Posse Comitatus Act restringe o uso das Forças Armadas em operações civis, embora a federalização da Guarda Nacional ofereça ao presidente uma margem de manobra significativa, especialmente no Distrito de Columbia, onde o Home Rule Act garante prerrogativas ampliadas. O que se desenha, portanto, não é um cenário de militarização generalizada, mas de operações episódicas e concentradas, usadas tanto para pressionar adversários como para alimentar uma narrativa de força.

A estratégia mais concreta de erosão democrática está no campo da captura institucional. Trump e seus aliados vêm buscando alterar a estrutura do Departamento de Justiça e das agências de segurança, orientando investigações seletivas contra opositores e blindando aliados por meio de lawfare e indultos estratégicos. A tentativa de demitir a diretora do Federal Reserve, Lisa Cook, sinaliza o desejo de dobrar agências independentes à lógica do ciclo político, minando a confiança internacional no dólar. Ao mesmo tempo, iniciativas como a reclassificação de cargos públicos — conhecidas como “Schedule F” — buscam abrir caminho para demissões em massa e nomeações por lealdade, enfraquecendo a burocracia profissional. Essa estratégia, se tolerada pelos tribunais, pode inclinar de forma sistemática as condições da competição política.

Fora do núcleo institucional, a base de sustentação de Trump se apoia em dois pilares: a guerra informacional e a mobilização de grupos armados. Nas redes sociais e em sua rede midiática, o presidente cultiva a imagem de líder acima das instituições, alguém capaz de restaurar a ordem contra a “anarquia democrata”. Ao mesmo tempo, grupos paramilitares e milícias locais oferecem um suporte difuso, cuja função não é derrubar o Estado de uma vez, mas criar climas de intimidação localizada, encarecendo a resistência de jornalistas, opositores e comunidades críticas. O uso de litigância agressiva contra tribunais e a multiplicação de disputas judiciais formam, por sua vez, uma estratégia de saturação, na qual o objetivo não é vencer todas as batalhas, mas ganhar tempo, produzir precedentes e esticar os limites constitucionais.

O fator militar continua sendo decisivo. As Forças Armadas norte-americanas carregam uma tradição de apoliticidade e disciplina institucional, e não é trivial que adiram a ordens de caráter autoritário. A adesão dependeria de interpretação jurídica favorável e, sobretudo, de uma conjuntura marcada por violência de grande magnitude. Sem esse gatilho, o uso amplo de tropas permanece restrito e concentrado em D.C. ou em operações pontuais.

A economia, por outro lado, aparece como o freio mais imediato a aventuras autoritárias. A simples tentativa de intervenção no Fed gerou instabilidade nos mercados, com queda de títulos do Tesouro e pressão cambial. O dólar e os Treasuries funcionam como sensores de risco: quando a confiança internacional oscila, o custo político e econômico de manter a escalada cresce exponencialmente. Nesse cenário, o apoio empresarial tende a se dividir: setores interessados em desregulação podem apoiar Trump, mas a instabilidade jurídica e o risco de colapso financeiro afastam parte das elites econômicas.

O que emerge, portanto, não é a imagem de um ditador clássico, mas a possibilidade de um regime híbrido, sustentado por captura institucional seletiva, uso estratégico de forças federais em momentos críticos, pressão econômica e guerra informacional constante. A consolidação desse regime dependerá de três fatores-chave: a resposta das instituições judiciais e estaduais, a reação dos mercados financeiros e a capacidade de Trump de manter sua base mobilizada sem provocar um colapso sistêmico que inviabilize seu próprio governo.

Em síntese, a hipótese de Trump ditador pleno permanece improvável. Mas a hipótese de Trump como líder de um regime híbrido, democrático na forma e autoritário no conteúdo, é cada vez mais plausível. Esse é o risco mais concreto para o futuro imediato dos Estados Unidos: a erosão gradual da democracia, não o golpe súbito. O que está em jogo não é a morte instantânea do sistema, mas a sua corrosão lenta — e é justamente nesse processo que a vigilância, a análise preditiva e o jornalismo estratégico se tornam indispensáveis.

 

O fantasma da guerra civil

Poucas expressões assombram tanto o imaginário norte-americano quanto a possibilidade de uma nova guerra civil. A referência à ruptura de 1861–1865 aparece como fantasma recorrente sempre que tensões internas se intensificam. No entanto, o cenário atual, em agosto de 2025, exige precisão conceitual: os EUA não caminham para repetir o conflito clássico entre estados escravistas e estados livres, com exércitos formais em confronto aberto. O que se desenha, muito mais plausivelmente, é a hipótese de um conflito difuso, fragmentado e de baixa intensidade, alimentado por polarização informacional, milícias locais, ações de violência política esporádica e tentativas de erosão institucional.

A fragmentação territorial e simbólica é um dos motores desse processo. Estados como o Texas e parte do meio-oeste alimentam discursos de autonomia radical e, em alguns setores, flertam abertamente com o separatismo. O movimento “Texit”, por exemplo, embora minoritário, funciona como catalisador de um imaginário que coloca em xeque a própria unidade da federação. Essa retórica, somada à cultura de armas profundamente enraizada e à existência de milícias paramilitares organizadas, cria uma base fértil para que confrontos localizados assumam caráter político. Ainda que não haja hoje condições materiais para uma guerra civil formal, a disseminação de células armadas autônomas, muitas vezes conectadas em rede via plataformas digitais, já configura um ambiente de violência política persistente.

Esse risco tem sido documentado por centros de pesquisa e think tanks especializados em segurança. Estudos do Chicago Project on Security and Threats (CPOST) e levantamentos da ACLED (Armed Conflict Location & Event Data Project) mostram aumento consistente de episódios de violência ligados a motivação política desde 2020. Não se trata de batalhas campais, mas de atentados, ataques a prédios governamentais, intimidação de comunidades minoritárias e choques em protestos. Pesquisadores como Robert Pape alertam que os EUA vivem uma fase de “pré-insurgência difusa”, na qual pequenos atos de violência se somam e geram sensação de instabilidade permanente.

O fator informacional aprofunda esse quadro. A guerra cultural e cognitiva transforma a sociedade americana em dois países que coexistem dentro do mesmo território. De um lado, a narrativa MAGA, que pinta democratas como cúmplices do crime e da anarquia, legitima o uso de medidas excepcionais. De outro, a oposição denuncia Trump como autocrata em formação, reforçando percepções de que a democracia já foi capturada. Essa polarização radical não se limita a opiniões divergentes: ela cria universos informacionais incomunicáveis, onde fatos objetivos são recusados e a confiança em instituições como a imprensa, o Judiciário e o sistema eleitoral se dissolve.

É nesse ambiente que a hipótese da guerra civil ganha corpo como metáfora de colapso. Não porque veremos novamente estados do sul declarando secessão formal, mas porque a federação norte-americana pode entrar em uma fase de desagregação funcional: governadores resistindo às ordens presidenciais, prefeitos ignorando decretos federais, cortes locais emitindo decisões contraditórias, enquanto grupos civis armados reforçam o clima de medo e incerteza. O resultado é uma democracia que continua existindo formalmente, mas perde a capacidade de coordenar e arbitrar conflitos — uma república dividida em blocos irreconciliáveis.

Os sinais desse processo já estão visíveis. O envio de tropas para Washington e a ameaça de intervenção em Chicago acentuam a percepção de que o governo federal atua contra estados e cidades inteiras, não apenas contra indivíduos ou organizações criminosas. Os alertas do Departamento de Segurança Interna (DHS) sobre risco de violência política doméstica refletem essa leitura: qualquer manifestação pode se tornar palco de confronto entre grupos armados e forças federais. Ao mesmo tempo, a queda na confiança da população nas instituições, medida por pesquisas como a Bright Line Watch, indica que o contrato social que sustentou os EUA no pós-guerra já não tem a mesma força.

O fantasma da guerra civil, portanto, não é apenas retórico. Ele opera como lente para compreender um país que se desgarra por dentro, não em linhas de frente claras, mas em múltiplos pontos de atrito. A violência difusa, os discursos separatistas, a fragmentação informacional e a erosão das instituições convergem para um cenário em que o risco não é de guerra civil clássica, mas de um conflito prolongado de baixa intensidade, capaz de corroer a legitimidade da democracia americana e paralisar sua capacidade de governar.

Cenários preditivos (curto e médio prazo)

 Antecipar o futuro em momentos de ebulição política exige separar a espuma da conjuntura dos sinais estruturais. No caso norte-americano, a partir da conjuntura de agosto de 2025, identificam-se quatro trajetórias principais para os próximos meses. Nenhum desses cenários deve ser lido como destino inevitável, mas como mapa de possibilidades, onde cada sinal observável pode aproximar ou afastar uma linha de futuro.

Contenção institucional (40–50%)

Este é o cenário-base. Os tribunais federais e estaduais limitam as ações mais radicais da Casa Branca, governadores ampliam sua resistência, o Congresso pressiona por investigações e as forças armadas evitam envolvimento além de missões pontuais. Trump mantém o discurso inflamado, mas vê seu espaço de ação restringido por derrotas judiciais e pela reação negativa dos mercados ao ataque à independência do Federal Reserve. O resultado é instabilidade alta, mas sem ruptura sistêmica.

Sinais de alerta precoce: decisões de cortes em D.C. e Califórnia limitando deslocamento de tropas; resistências explícitas de comandantes militares; pressão bipartidária no Congresso contra interferência no Fed.

Escalada controlada (25–35%)

Trump mantém tropas em Washington e avança com operações em cidades democratas estratégicas, como Chicago, sem acionar formalmente o Insurrection Act. A tensão federativa cresce, mas ainda se processa nos tribunais. O clima social se agrava, com protestos violentos e contra-protestos organizados pela base MAGA. O governo busca vitórias narrativas: mostrar força sem romper de vez as regras.

Sinais de alerta precoce: novas ordens executivas ampliando autoridade federal sobre polícias locais; crescimento do número de Guardas Nacional federalizados; protestos em capitais com incidentes de violência política.

Crise constitucional aguda (10–20%)

Neste cenário, Trump decide invocar o Insurrection Act, alegando insurreição ou ameaça à integridade do país. A medida abre confronto direto com governadores democratas que se recusam a obedecer, criando impasse federativo. O mercado financeiro reage com colapso nos títulos do Tesouro e fuga de capitais. A polarização atinge patamar máximo: parte da população vê no presidente um protetor, outra o acusa de instaurar ditadura. Esse cenário abre a porta para violência política mais coordenada, com milícias agindo como extensão do conflito institucional.

Sinais de alerta precoce: ordem formal de invocação do Insurrection Act; governadores emitindo diretrizes de desobediência; reação negativa em bloco de Wall Street e do dólar.

Descompressão estratégica (10–15%)

Sob pressão econômica e política, Trump recua parcialmente. Algumas tropas deixam D.C., e a Casa Branca muda o tom da retórica, transformando a crise em vitória narrativa para a base: “fizemos a esquerda recuar”. O presidente mantém popularidade dentro de seu núcleo duro, mas perde margem de manobra no Congresso e no Judiciário. O sistema democrático respira, mas não sem feridas: o precedente da intervenção já está aberto.

Sinais de alerta precoce: retirada parcial de forças; declarações conciliatórias da Casa Branca; pesquisas de opinião indicando queda acentuada de apoio fora da base MAGA.

Síntese estratégica

A análise preditiva indica que a ditadura clássica é improvável, mas o risco de um regime híbrido autoritário permanece alto. O país pode não mergulhar em guerra civil formal, mas a probabilidade de viver um período de conflito difuso, erosão institucional e polarização violenta é real e crescente. O que está em jogo é a transformação dos EUA em uma república permanentemente instável, onde o poder se disputa tanto no campo jurídico e militar quanto no terreno simbólico e informacional.


 A guerra híbrida interna dos EUA


A engrenagem que sustenta a escalada de tensão doméstica nos Estados Unidos funciona como um verdadeiro ecossistema de guerra informacional. Ele combina enquadramentos de “lei e ordem”, saturação de desinformação, instrumentalização de plataformas digitais e mobilização de base para produzir pressão cognitiva e política sobre governadores, prefeitos, juízes e a opinião pública. O próprio Departamento de Segurança Interna reconhece, em seus relatórios de avaliação de risco, que extremistas violentos domésticos e atores estrangeiros exploram gatilhos conjunturais — como conflitos externos, ciclos eleitorais e crises — para incitar ataques e intimidar autoridades. Esse ambiente é classificado como de ameaça elevada, pois cria condições ideais para justificar medidas de exceção e radicalizar a disputa institucional.

No núcleo dessas operações está o uso político da incerteza: transformar ambiguidade em medo tangível. A erosão do papel de fatos e análises na vida pública desarma a sociedade em sua capacidade de arbitrar disputas, abrindo espaço para que narrativas de força se imponham. Essa dinâmica é alimentada por vieses cognitivos, polarização midiática e por uma arquitetura de plataformas digitais que recompensam o conflito e a radicalização. Trata-se de um terreno fértil para operações psicológicas, propaganda memética e engenharia de comportamento em larga escala.

Na camada técnico-operacional, observa-se um conjunto de táticas conhecidas: campanhas que simulam apoio orgânico (astroturfing), redes coordenadas de bots e contas falsas, microsegmentação de mensagens, assédio direcionado a jornalistas e pesquisadores, além da litigância agressiva que busca elevar o custo de resistência institucional. Ao mesmo tempo, cria-se um jamming informacional, sufocando o espaço público com ruído, falsos dilemas e contrainformações, de forma a tornar mais difícil o consenso em torno de fatos básicos. Estudos sobre propaganda computacional já documentaram a industrialização dessas práticas em escala global, e o caso norte-americano de 2025 é uma expressão clara dessa tendência.

Esse ambiente informacional interage diretamente com a dinâmica da violência. Pesquisas recentes mostram a normalização de ameaças e ataques politicamente motivados, incluindo atentados contra agentes públicos, intimidação de comunidades minoritárias e choques em protestos. O padrão não sugere uma guerra civil convencional, mas sim um conflito difuso e intermitente, capaz de legitimar retóricas de exceção e sustentar o emprego tático de forças federais em cidades estratégicas.

No plano institucional, observa-se uma arquitetura programática deliberada para aparelhar o Estado. O chamado Project 2025, coordenado pelo think tank Heritage Foundation, funciona como manual de transição que detalha como reorientar o aparato federal, desde agências regulatórias até políticas de comunicação e educação. Esse projeto combina planejamento burocrático, formação de quadros e planos de ação para cada agência, funcionando como verdadeiro playbook de captura institucional. Em conjunto com o uso de tropas em Washington e o tensionamento sobre a independência do Federal Reserve, essa estratégia cria capacidade de alavancagem sem necessidade de ruptura formal.

A janela de oportunidade para essa guerra híbrida interna se abre quando três vetores convergem: em primeiro lugar, um alerta oficial de ameaça que cria clima de emergência; em segundo, um precedente executivo que amplia o alcance federal em segurança interna; e, por fim, uma infraestrutura de mensagens capaz de transformar contradições institucionais em provas de “fraqueza” dos adversários. Quando esses três fatores se articulam, produzem efeitos cumulativos: o público tende a aceitar medidas excepcionais, o custo de contestação sobe e a oposição é empurrada para jogar na defensiva, onde cada derrota parece confirmar a narrativa de caos e de desordem.

Os contrapesos ainda existem e vêm de três frentes: cortes judiciais, governadores e mercados. Sempre que a Casa Branca avança sobre agências independentes ou expande unilateralmente os poderes executivos, há reações institucionais e econômicas que penalizam a instabilidade. Esse ciclo retroalimenta a disputa simbólica: para a base de Trump, tais resistências confirmam a existência de um “Estado profundo” que conspira contra o presidente; para seus adversários, são a prova da resiliência democrática. O resultado é a intensificação da erosão institucional e a normalização de precedentes excepcionais.

Em síntese, as táticas de guerra híbrida e de propaganda digital não são acessórios na conjuntura atual: são o centro de gravidade que permite transformar choques pontuais — protestos, crimes, tensões externas — em licença política para a exceção interna. Enquanto persistirem alertas de risco elevado, episódios de violência política e estratégias coordenadas de captura institucional, o risco dominante para os EUA não é o de uma ruptura súbita, mas de um regime híbrido autoritário sustentado por guerra informacional permanente.

Impactos globais e geopolítica

A crise doméstica dos Estados Unidos em agosto de 2025 reconfigura o tabuleiro internacional em três camadas simultâneas: legitimidade, capacidade de projeção e arquitetura econômico-financeira. Na primeira, a erosão pública dos freios e contrapesos corrói a narrativa de “padrão democrático” que, por décadas, sustentou a diplomacia norte-americana. Não se trata apenas de imagem: quando a capital federal opera sob precedentes de exceção e a independência de agências é tensionada, parceiros passam a recalibrar custos de alinhamento, e adversários exploram o vácuo reputacional para deslegitimar sanções, relatórios de direitos humanos e condicionantes políticas. Essa perda gradual de autoridade moral reduz a capacidade de moldar normas — do ciberespaço à regulação de plataformas e inteligência artificial — e abre espaço para multipolaridade normativa, na qual blocos regionais adotam padrões próprios sem pedir chancela a Washington.

Na segunda camada, a capacidade de projeção sofre com a sobrecarga interna. Forças armadas e aparato de segurança veem sua agenda contaminada por demandas domésticas, o que comprime o raio de ação externo e dificulta a coordenação interagências. Em termos práticos, a prioridade política migra do teatro internacional para o “front interno”, e isso tem efeitos: menor apetite para operações longas, alianças pedindo mais garantias, e uma OTAN que, mesmo coesa em seus objetivos declarados, enfrenta assimetria de compromissos quando a liderança norte-americana oscila. Ao mesmo tempo, competidores estratégicos — em especial China e Rússia — exploram a janela para intensificar acordos energéticos, tecnológicos e militares fora da órbita de Washington, enquanto o eixo BRICS+ ganha tração como plataforma de hedge geopolítico para países médios.

A terceira camada é a arquitetura econômico-financeira. A pressão explícita sobre a independência do banco central e a judicialização de decisões executivas ampliam a percepção de risco regulatório, com reflexos em prêmios de crédito, volatilidade cambial e comportamento de grandes fundos. Em crises dessa natureza, dois movimentos tendem a coexistir: fuga para “portos seguros” tradicionais (títulos de alta qualidade, ouro) e, em paralelo, aceleração de alternativas no comércio e nos pagamentos internacionais (contratos em moedas locais, arranjos bilaterais de compensação, uso ampliado de sistemas de mensagens e compensação fora da esfera dólar). Não há substituto imediato ao dólar como reserva global, mas cada precedente de exceção abre milímetros de espaço para diversificação — e, acumulados, esses milímetros viram centímetros estratégicos.

Para a América Latina, e especialmente para o Brasil, o impacto é direto. No curto prazo, o risco é de exportação de métodos: redes políticas e comunicacionais alinhadas à ultradireita norte-americana tendem a mimetizar repertórios de deslegitimação institucional, combinando lawfare, campanhas de desinformação e narrativas de “lei e ordem” para justificar endurecimentos seletivos. No plano econômico, uma Casa Branca volátil pode alternar tarifas punitivas, barreiras técnicas e pressões regulatórias sobre cadeias de valor sensíveis (aço, alumínio, fertilizantes, tecnologia), instrumentalizando comércio como alavanca política. No plano tecnológico, a disputa por padrões de IA, dados e plataformas chegará com mais força às agências e ao Congresso brasileiros, exigindo respostas que combinem soberania informacional, interoperabilidade e proteção de dados com autonomia estratégica.

Há, porém, janelas de oportunidade. Em ciclos de retração da liderança norte-americana, países com massa crítica — como o Brasil — podem ampliar diplomacia de ponte entre regimes regulatórios, diversificar mercados, consolidar capacidade industrial em setores estratégicos (energia, fertilizantes, semicondutores de nicho, espaço, cibersegurança) e acelerar integrações regionais logísticas e digitais. A chave é não apostar em vácuos, mas em redundâncias soberanas: múltiplos cabos, múltiplos data centers, múltiplos provedores de nuvem, múltiplos sistemas de pagamento e um ecossistema nacional de IA com lastro acadêmico e industrial.

Do ponto de vista preditivo, três sinais-guia devem ser monitorados para antecipar desdobramentos globais: (1) persistência da exceção doméstica nos EUA (quanto tempo e quão amplo o uso interno de forças federais e de instrumentos extraordinários), (2) respostas de mercado à política monetária e às disputas institucionais (incluindo spreads, curvas de juros e demanda por títulos), e (3) realinhamentos diplomáticos discretos, como acordos energéticos e tecnológicos que contornem a intermediação norte-americana. A combinação de dois ou mais desses sinais, mantida por semanas, indica recalibração estrutural do sistema internacional, não mera turbulência conjuntural.

Para formuladores de políticas no Brasil, o cardápio estratégico é claro: blindar a infraestrutura crítica de informação e pagamentos, reduzir vulnerabilidades a sanções e choques extrarregionais, consolidar parcerias tecnocientíficas com cláusulas de transferência de conhecimento e exigir governança transparente de plataformas digitais que operam no país. No campo comunicacional, o jornalismo estratégico precisa preparar comunidades de prática para ciclos de desinformação importados, com protocolos de alerta precoce, verificações forenses e kits de resposta que integrem governo, academia, imprensa e sociedade civil.

Em suma, a crise doméstica dos EUA funciona como força sísmica que desloca placas de legitimidade, projeção e finanças. Não inaugura o multipolarismo, mas acelera sua normalização. Quem se antecipar com redundâncias soberanas, diplomacia de ponte e inteligência estratégica poderá absorver o choque e converter instabilidade em margem de manobra. Quem esperar pela “volta ao normal” corre o risco de descobrir que o normal, na verdade, mudou de endereço.

Conclusão: entre a guerra difusa e o autoritarismo híbrido

A análise da conjuntura norte-americana em agosto de 2025 permite afirmar que a hipótese de Trump como ditador pleno permanece improvável, mas que o risco de consolidação de um regime híbrido autoritário é cada vez mais plausível. A escalada não se dá por meio de um golpe súbito, mas pela erosão gradual dos freios e contrapesos, pela captura seletiva de instituições, pelo uso episódico e calculado das forças federais, pela pressão sobre agências independentes e pela manutenção de uma guerra informacional permanente. A ideia de uma nova guerra civil, por sua vez, não se sustenta nos moldes clássicos da ruptura de 1861, mas se manifesta como a possibilidade de um conflito difuso de baixa intensidade, espalhado em protestos violentos, ações de milícias, retórica separatista e polarização informacional radicalizada.

O que se viu neste mês é um ponto de inflexão: a decisão de militarizar Washington, a ameaça de expandir operações para cidades democratas e o ataque direto à independência do Federal Reserve. Esses movimentos revelam a intenção de expandir o alcance presidencial sobre territórios, instituições e fluxos econômicos, testando até onde a estrutura federativa, o Judiciário e os mercados estão dispostos a resistir. Até agora, a reação de governadores, cortes e atores financeiros funciona como freio real, encarecendo a aventura autoritária. Mas cada precedente de exceção deixa marcas: normaliza o uso de medidas extraordinárias, enfraquece a confiança pública nas instituições e reconfigura o equilíbrio de poder.

 A chave, portanto, não está em prever um colapso súbito, mas em monitorar a intensidade e a duração desses processos de erosão. Quando ordens executivas se transformam em precedentes de exceção mantidos por semanas, quando decisões judiciais são contornadas ou desobedecidas, quando a independência de agências centrais se fragiliza e quando a violência política se torna mais frequente, o risco de consolidação autoritária se eleva. Do mesmo modo, a reação dos mercados — visível na volatilidade do dólar e dos títulos do Tesouro — funciona como termômetro imediato da viabilidade dessa escalada. Quanto maior o custo econômico, mais difícil sustentar um regime autoritário; quanto mais tolerável o custo, mais fácil naturalizar a exceção.

No plano estratégico, essa crise interna desloca não apenas a política doméstica, mas também a posição dos Estados Unidos no mundo. A perda de autoridade moral como referência democrática, a sobrecarga das forças de segurança em tarefas internas e a desconfiança dos mercados internacionais corroem a legitimidade, a projeção externa e a arquitetura financeira global liderada por Washington. Para países como o Brasil, os impactos se manifestam em dois sentidos: por um lado, a exportação de métodos de desinformação e lawfare que já influenciam elites locais; por outro, a oportunidade de reforçar redundâncias soberanas em infraestrutura, dados, finanças e tecnologia, reduzindo vulnerabilidades diante de um império em crise.

O papel do jornalismo estratégico neste contexto é oferecer não apenas descrição, mas sistemas de alerta precoce que transformem sinais em cenários, cenários em hipóteses e hipóteses em ação. O que está em jogo é a capacidade de antecipar, de medir e de comunicar com rigor os riscos de erosão democrática, tanto para a sociedade quanto para os tomadores de decisão. Informação sem método vira ruído; método sem comunicação não altera o curso da história. O desafio, portanto, é sustentar uma análise verificável, conectada a indicadores claros e aberta ao escrutínio público, capaz de distinguir alarmismo vazio de predição estratégica.

Em suma, os Estados Unidos não parecem caminhar para a morte súbita da democracia, mas para sua corrosão lenta. A guerra difusa e o autoritarismo híbrido configuram o horizonte mais provável: uma república que continua existindo formalmente, mas cuja legitimidade e capacidade de governar se fragilizam a cada semana. Nesse cenário, a vigilância institucional, a reação de mercados e a resistência civil tornam-se determinantes. Mais do que nunca, compreender esse processo não é apenas tarefa de acadêmicos ou jornalistas, mas de toda sociedade que queira sobreviver à tempestade informacional e política do século XXI.

 Fonte do texto e ilustrações: Blog Código Aberto. Link: https://www.codigoaberto.net/


quarta-feira, agosto 13, 2025

Brasil enfrenta com coragem guerra híbrida dos EUA e extrema-direita tecnoplutocrata global aliada aos traidores locais

 

O caos já não é a arma dos rebeldes, mas a marca dos dominantes(Da Empoli) [1]


            O Brasil está, de forma literal e real, sob uma intensa, complexa e assimétrica guerra híbrida empreendida e direcionada pelos EUA sob o comando de Trump e com apoio da extrema-direita global. Não há como esconder ou negar essa realidade. Diariamente, sob a forma de provocativas pílulas, em doses variadas, se caminha na direção da abolição gradativa do sistema de regras e acordos entre nações.

Desmonta-se, na prática, todas as instituições que limitavam o poder do dominador, que, em desespero pelo fim da hegemonia, tenta se agarrar às técnicas algorítmicas do que seria, uma nova forma de dominação imperial, entre códigos e algoritmos das plataformas digitais que exercem um controle cognitivo em patamar acima do já forte complexo militar dos EUA que segue de stand-by.

           O líder desses agentes não conhece a história, não lê e sequer quer saber dela, mas sonha em reescrevê-la, tal qual o fuhrer alemão há um século, sonhando com um novo final. Para isso, trabalham em articulação e coalizão unindo gigantes corporações de tecnologia, lideranças do capital de risco, think thanks, estruturas jurídicas etc., todas articuladas e instrumentalizadas por plataformas digitais estruturadas para ação em captura, controle de dados e manipulação cognitiva, a serviço dos EUA.

            Está em curso, uma estratégia de uso intenso da tecnologia digital e guerra híbrida como armas de “recolonização” com o objetivo de recolocar o Brasil no espaço que os EUA sempre chamaram de seu quintal. O Brasil é um dos alvos e neste momento um epicentro, porque se posicionou, junto do Brics, na condição e intuito de construir alternativas independentes e soberanas, tanto em termos do mínimo de governança digital quanto em meios de pagamento e fluxos de capital.

Os EUA exigem vassalagem, ofertada pelos líderes da extrema-direita brasileira, não aceitando que o Brasil se posicione com soberania desafiando a nova ordem algorítmica de base tecnológica, cognitiva e política, que usa a máquina da guerra híbrida como ferramenta para alimentar a esperança de retomada do controle geopolítico sobre toda a AL.

            Nessa guerra, o modus-operandi está escancarado e se alicerça na cooptação das elites locais, a partir da aliança com o bolsonarismo, tendo como alvo o sistema brasileiro de justiça, mas se espalha como um polvo, em vários tentáculos com o tarifaço no fluxo de comércio; bloqueio financeiro individual (talvez, nacional) e guerra informacional com algoritmos controlados e direcionados dentro do intercâmbio das redes sociais das Big Techs americanas.

            Bons analistas [1,2,3,4] têm analisado as direções e intenções dessa atuação dos EUA. Elas parecem opostas, mas se unem no objetivo da recolonização e retomada do controle do império.

            De um lado está a guerra cultural e a tese do caos do Steve Bannon, que atua num movimento de massa e foco na manipulação digital e modulação cognitiva. Objetiva a destruição das instituições e do establishment tradicional. Intenta criar um vácuo de poder propício aos movimentos que levam a uma nova ordem conservadora e plutocrata.

            Na outra ponta, está a chamada República Tecnológica [5], sob a liderança ideológica do Peter Thiel, dono da companhia de tecnologia e defesa, Palantir [6], que objetiva desmontar o Estado-Nação por dentro, substituindo-o por estrutura e recursos humanos sob o controle privado das grandes corporações de tecnologia, as Big Techs.

             Juntos, dentro dos EUA, ambicionam destruir o Deep State (e instituições) para colocar no lugar uma estrutura tecnoplutocrata unindo os donos das Big Techs e o ideal revolucionário do movimento conservador MAGA. A liderança emergente do Vale do Silício para essa empreitada está centrada no vice J.D. Vance. Junto a Trump já avançam na cruzada por uma burocracia privatizada, sob comando da plutocracia como extensão do capital estadunidense.

             Segundo Aragon [2], Trump e Vance sabem que apenas o caos ideológico (reset), sozinho, do Bannon, não sustenta a retomada do império. Muito menos a captura do Estado de Thiel que não tem fervor popular para mobilizar a massa. Por isso, as duas opções não se excluem, ao inverso, servem a essa empreitada que tem na visão tecnoplutocrata, a base de sustentação do que chamam de nova ordem técnico conservadora que possui características fascistas.

            A IA é base tecnológica mais recente em uso por esse movimento dos predadores digitais que funciona de forma acelerada e potente. Da Empoli (2025) [1] lembra que “os engenheiros do Vale do Silício há muito deixaram de programar computadores para se tornar programadores de comportamentos humanos”. E vai além afirmando que “a IA não é um simples acelerador de poder, mas uma nova forma de poder, que se distingue de todas as máquinas criadas pelo homem até então. Se a automação se concentrava nos meios, a IA se interessa pelos fins”.

A potência da IA está sustentada na ideia de alimentar o caos, fugindo de toda racionalidade, não se prendendo a regras nem a procedimentos, para extrair dele a surpresa que tanto sucesso faz entre os algoritmos e redes sociais, instrumentos desse movimento, mostrando, majoritariamente, seu viés opaco, antidemocrático, manipulador e de uma “inteligência autoritária, que centraliza os dados e os converte em poder”. [1, Da Empoli, 2025, p.78]

                Pela síntese aqui exposta, baseada em muitas outras leituras, e por tudo mais que se observa na atual conjuntura, não é simples a tarefa do povo e do governo brasileiro no presente momento. Não se trata da luta do homem contra a máquina e sim do seu uso como poder e arma dentro da assimetria que existe entre essas nações do continente americano.

    A saída é uma luta diuturna, corajosa, inteligente e conjunta tanto interna quanto externa. Dentro do Brasil a luta é contra as elites cooptadas e de mentes colonizadas. Uma nova etapa do combate que superou a tentativa de golpe em 2023 e que segue lutando em favor da construção de um Brasil soberano, inclusivo, menos injusto e desigual. E externamente, de forma articulada e em cooperação, junto a várias outras nações que também lutam pela superação da dependência, pelo multilateralismo e a favor da solidariedade entre os povos.

 

Referências e notas:

[1] DA EMPOLI, Giuliano. A hora dos predadores: como autocratas e magnatas digitais estão levando o mundo à beira de um colapso orquestrado. Vestígio. São Paulo, 2025.

[2] GONÇALVES, Reynaldo José Aragon. Afinal de contas, quem é J.D. Vance? O arquiteto da recolonização digital. Código Aberto. 2 de agosto de 2025. Disponível em: https://www.codigoaberto.net/post/afinal-de-contas-quem-%C3%A9-j-d-vance

[3] GONÇALVES, Reynaldo José Aragon. Os EUA querem provocar uma ruptura diplomática com o Brasil. Código Aberto. 7 de agosto de 2025. Disponível em: https://www.codigoaberto.net/post/os-eua-querem-provocar-uma-ruptura-com-o-brasil

[4] ARAGON, Reynaldo. Thiel vs. Bannon: A guerra entre os arquitetos do caos. Outras Palavras. 10 de junho 2025. Disponível em: https://outraspalavras.net/outrasmidias/thiel-vs-bannon-a-guerra-entre-os-arquitetos-do-caos/

[5] KARP, Alexander C. ZAMISKA, N. W. República Tecnológica: tecnologia, política e o futuro do Ocidente. Intrínseca. Rio de Janeiro. 2025.

[6] Palantir é uma corporação de tecnologia (software) dos EUA, especializada em serviços para o governo, especialmente na área de defesa dos Estados Unidos. Fundada em 2003 por Peter Thiel e Alex Carp (CEO e autor do livro “República Tecnológica” (2025). Desde 2010, A palantir passou a atuar também para clientes do mercado de capitais e da área financeira dos EUA. Nos governos Trump, a Palantir ampliou bastante seu valor de mercado e em 13 de agosto de 2025, alcançou US$ 437 bilhões, segundo dados do ranking Infinite Market Cap. Disponível em: https://8marketcap.com/?search=palantir

domingo, agosto 10, 2025

21 anos do blog entre contradições e agradecimentos!

Esse blog teve a sua primeira postagem no dia 10 de agosto de 2004. Hoje ele completa a sua maioridade. Nos aniversários anteriores, eu já confessei que ele nasceu como uma espécie de arquivo pessoal público. Um espaço digital para guardar dados, informações e análises que permitisse acesso público. Eram poucos acessos ou visitas diárias e isso nunca importou muito. Era mais curiosidade. 

Me recordo na época que a Big Tech, Microsoft, fazia propaganda do seu pacote de softwares que depois passou a se chamar office (de escritório). Um processador de textos (word); uma planilha eletrônica (excel) e um banco de dados (acess). Esse terceiro não emplacou e depois vieram os pen drives, HDs externos, as nuvens, etc. 

Os blogs logo se popularizaram e depois se misturaram a outros tipos de mídias sociais para comunicação, um prato cheio para as Big Techs que há muito tempo vinham atrás da captura de dados e conteúdos para uso em propaganda digital direcionada e para treinamento de máquina dos vários tipos de processadores que passaram depois a serem chamados de inteligência artificial.

Hoje, esse espaço digital não tem mais o sentido que teve quando de sua criação em 2004. Ainda assim, fui mantendo o espaço, embora com bem menos postagens que antes. No entanto, os acessos diários que não são poucos, da ordem de 3/4 mil, tem ultimamente se multiplicado algumas vezes, chegando a 10/15 mil por dia. Não credito esse número de acessos ao interesse pelo seu conteúdo. 

Observando a origem (país) destes acessos externos, desconfio que boa parte deles, em especial, os mais recentes são de outros países. Visitas do Brasil estão na terceira posição, o que me leva a concluir que a quase totalidade dela, vem de robôs que devem exercer a captura automática de conteúdos para o treinamento de máquina (aprendizadem de máquina, machine learning). 

A origem disparada da maioria dos acessos dos últimos seis meses é dos EUA (43%), depois Singapura (13%) e só depois Brasil com 6%. Outros 38% de dezenas de outros países, o que reforça a intuição de acessos por robôs para armazenagem de conteúdos em datacenters que alimentam o treinamento de máquinas e pela localização dos Big Datas (datacenters).

Essa constatação me faz pensar em deixar de lado esse espaço digital que acaba servindo a interesses não desejados em sua origem. Outra razão para a desistência é o uso das redes socais para semelhantes publicações e comunicações antes feita no espaço do blog. 

Muitos bons blogs deixaram de existir e foram substituídos por perfis nas várias redes sociais hoje existentes. Elas são mais ágeis na comunicação e distribuição, mas servem igualmente à captura de conteúdos com fins de publicidade, treinamento de máquinas e algoritmos. 

Ou seja, atendem igualmente à vampirização das gigantes corporações de tecnologia que vivem do trabalho alheio. De outro lado, há que se pensar que se as máquinas forem treinadas apenas com conteúdos conservadores, neoliberais e de direita, os resultados das IA serão ainda piores do que o cenário estão nos apontando (sic).

Além disso, com o formato das redes socais seus algorítmos acabam por esconder muitas de nossas postagens antigas que se tornam extremamente difíceis de localizar, ao contrário do que acontece com o formato do blog, mesmo que esses estejam em nuvens e sobre o controle das gigantes corporações de tecnologia.

Se bem, que a atual forma de localização (busca) de postagens antigas, mesmo do blog, ficaram hoje bem mais difíceis que antes. Eu me utilizo bastante dos registros e postagens antigas destes 21 anos como uma espécie de arquivo pessoal, razão da criação do blog. A forma de localizar era, relativamente, fácil. Ia ao buscador da Google, colocava o nome do blog e algumas palavras-chave e aparecia entre as opções aquela(s) que me interessava(m) sob a forma de links em sequência. 

Hoje, essa estratégia se tornou ineficiente. A busca na Google é atendida diretamente com uma resposta pela sua IA (Google AI ou Gemini). As opções dos links ficam abaixo e o algoritmo de buscas ficou imprestável, exatamente para o usuário ter que intensificar e treinar o conteúdo de sua IA. 

Ou seja, capturaram o seu conteúdo que passam a ser as suas respostas da IA sem dar acesso direto ao seu material ou sua postagem. Verdade que desde que iniciei o blog sabia deste risco, porque uso um serviço gratuito (Blogger da Google) e quando isso acontece você e seu material se tornam produtos dessa companhia, apesar de há muito ter passado a utilizar um domínio próprio (robertomoraes.com.br) registrado no Comitê Gestor de Internet no Brasil (Nic do Registro.br). Para fugir desse problema, eu teria que alugar uma hospedagem própria do blog que demandaria recursos financeiros e técnicos para administrar e dar alguma manutenção no serviço de hospedagem que aqui é feita pela Blogger da Google.

Diante deessa realidade que divido aqui com vocês, acredito que ela acabe levando à sensação de que há mais razões para suspender o blog do que para mantê-lo, até porque por óbvio, ele hoje já está mais próximo do seu fim do que do começo (sic). 

Porém, há, de outro lado, um sentimento de resistência, meio que inexplicável. Tenho dito aqui em vários artigos (postagens) que a saída para a distopia atual não é a anti tecnologia. Não vamos repetir os ludistas (Ned Ludd) que há dois séculos em Londres, organizou grupos de trabalhadores para quebrarem as máquinas com a depois chamada Revolução Industrial, por conta do impacto das mesmas sobre parte do trabalho operário. A história sempre ensina. Embora eu avalie que a distopia e os impactos atuais da tecnologia digital pareçam bem maiores e não apenas sobre o trabalho e os trabalhadores.

Enfim, por enquanto, vamos seguindo em frente, outro lema aqui adotado, junto da frase do poeta espanhol Antonio Machado: "Caminhante, não há caminho, o caminho se faz ao andar". 

Penso que as informações, reflexões e análises aqui são compartilhadas com muita gente que sequer conheço e geram movas informações e análises que saem dessa interação digital e/ou física, a partir do que aqui é publicado ou republicado de outros. Aliás, muitos que leem o blog, não o fazem no endereço do mesmo e sim nos meus perfis nas redes sociais que sempre foram utilizadas com os mesmos propósitos do blog. 

Outros sites e blogs republicam textos aqui originados e vice-versa. E essa interação nos movem. E como seres humanos, mesmo com intermediação da tecnologia e das máquinas, nós sempre vivemos em movimento. Tal como ocorrem com as bicicletas, se pararmos de movimentar caímos.

Nestes 21 anos foram 19.353 postagens (incluindo essa). Alguma coisa interessante, entre muitas bobagens e brincadeiras. O total de visitantes (12,2 milhões de acessos) é um número pouco confiável. Primeiro porque sua contabilidade só foi instalada após um bom tempo de vida do blog e, além disso, muito dos acessos ao material das postagens, em especial da última década (mais ou menos a partir de 2015), foram feitas e comentadas nas redes sociais, em especial no Facebook, e/ou no Instagram e depois no X (Twitter), onde as interações e diálogos são mais frequentes e rápidas que nos espaços de comentário no blog, que com o tempo, passou a exigir uma moderação prévia, por conta de propagandas e/ou ofensas a terceiros e ao próprio autor do blog.

Enfim, mais uma vez agradeço a todos e todas que colaboraram e continuam colaborando com a existência desse espaço digital crítico. Nas passagens de outros 10 de agosto, eu escrevi sobre a gênese e sobre a visão que tenho desse espaço. Se desejar leia aqui nesse link uma dessas reflexões.  

quinta-feira, agosto 07, 2025

"Os EUA querem provocar uma ruptura diplomática com o Brasil", por Reynaldo Aragon

A conjuntura atual é conturbada e não é simples fugir da superficialidade e da fragmentação. A interpretação e análise é complexa e exige que se remeta a várias camadas e dimensões de observação para uma leitura mais totalizante. Nesse sentido, penso que o Reynaldo José Aragon Gonçalves tem trazido contribuições importantes que merecem ser repartidas, debatidas e transformada em ação. O texto abaixo foi publicado hoje no site (blog) Código Aberto.


Os EUA querem provocar uma ruptura diplomática com o Brasil

Sanções, narrativas e guerra híbrida: como Washington arma o teatro da crise para isolar o Brasil e justificar sua chantagem imperial

Por Reynaldo José Aragon Gonçalves
07 de agosto de 2025. 14 horas.


Os EUA estão forçando uma ruptura com o Brasil — e querem que o mundo acredite que fomos nós que batemos a porta. Sanções, chantagem diplomática, ataques ao STF e guerra narrativa são apenas a superfície de uma operação muito mais profunda. Este artigo revela, com nomes, estratégias e fatos, como Washington tenta sabotar nossa soberania e transferir a culpa pela crise. É hora de desmontar a farsa, defender o Brasil e nomear o inimigo.

A crise é fabricada

Os Estados Unidos não estão apenas impondo tarifas, sancionando ministros ou fazendo ameaças diplomáticas ao Brasil. Eles estão construindo uma narrativa geopolítica cuidadosamente arquitetada para justificar uma ruptura — e colocar a culpa em nós. O objetivo não é o diálogo. É o conflito. E mais: é fazer parecer que o Brasil se recusou a conversar, criando o ambiente ideal para aplicar sanções econômicas, chantagens políticas e isolamento internacional.

Desde que o presidente Lula assumiu um protagonismo soberano no cenário global — ampliando os BRICS, defendendo a regulação das big techs, fortalecendo a democracia interna e colocando limites à extrema-direita — o Brasil passou a ser visto como um obstáculo a ser neutralizado. E a neutralização, como mostram todas as guerras híbridas modernas, não começa com tanques, mas com narrativas.

A atual crise diplomática, portanto, não deve ser lida como um tropeço acidental ou como resultado de falhas de comunicação. Ela é uma provocação planejada, parte de uma ofensiva híbrida que visa isolar o Brasil, atacar suas instituições e reverter sua autonomia internacional. E a peça central desse tabuleiro é a tentativa de destruir politicamente o ministro Alexandre de Moraes — hoje, o principal símbolo da resistência institucional contra o neofascismo bolsonarista e seus patrocinadores internacionais.

Este artigo parte da hipótese de que estamos diante de uma operação de guerra narrativa, na qual os EUA pretendem empurrar o Brasil para o papel de inimigo “irracional” e “hostil”, pavimentando o caminho para agressões mais duras com apoio internacional. Nossa missão agora é desmontar essa armadilha, nomear os fatos e entender com precisão o que está em jogo.


O manual do invasor: Guerra híbrida versão 2025

A lógica por trás da ofensiva americana contra o Brasil segue um padrão já conhecido nos manuais de guerra híbrida e operações psicológicas. Primeiro, cria-se uma crise artificial. Depois, amplifica-se essa crise por meio de narrativas fabricadas, instrumentalizando veículos de comunicação, embaixadas, redes sociais e parlamentos aliados. Em seguida, projeta-se a culpa sobre o país-alvo — que, ao reagir, é enquadrado como autoritário, irracional ou antidemocrático. Por fim, com o ambiente já contaminado, aplicam-se sanções, chantagens e medidas unilaterais com o respaldo da “comunidade internacional”.

Essa é exatamente a estratégia em curso hoje contra o Brasil.

O aumento brutal das tarifas comerciais, as sanções contra membros do Supremo Tribunal Federal, os tuítes agressivos da embaixada americana, as declarações de Donald Trump desafiando Lula a “ligar quando quiser” — tudo isso é parte de uma coreografia típica da guerra híbrida. O alvo não é apenas a economia, nem só Alexandre de Moraes. O alvo é a soberania do Brasil como um ator independente no cenário mundial.

Essa tática é antiga, mas atualizada com novas ferramentas: as redes sociais, a diplomacia coercitiva e o lawfare. O mesmo roteiro já foi aplicado contra governos que tentaram afirmar projetos soberanos em seus territórios — como Hugo Chávez na Venezuela, Evo Morales na Bolívia, Rafael Correa no Equador, Cristina Kirchner na Argentina e, mais recentemente, Andrés Manuel López Obrador no México. Sempre com o mesmo pano de fundo: a criminalização da política soberana como “ameaça à democracia” e o uso de instituições infiltradas para desestabilizar governos legítimos.

Agora é o Brasil que ocupa o centro desse tabuleiro. Não por acaso.

O país lidera o movimento global pela regulação das plataformas digitais, impulsiona a reconfiguração dos BRICS com novos membros estratégicos, assume posição de mediação em conflitos internacionais e, internamente, resiste ao retorno da extrema-direita. Isso faz do Brasil um caso a ser sufocado antes que sirva de exemplo. A guerra híbrida contra o país é, portanto, também um alerta ao restante do Sul Global: ousar ser soberano ainda é imperdoável aos olhos do império.

A figura de Moraes: o alvo simbólico da vez

Alexandre de Moraes não é apenas um ministro do Supremo Tribunal Federal. Ele se tornou o símbolo da contenção institucional do neofascismo no Brasil, o principal agente do Judiciário no enfrentamento à guerra informacional, ao golpismo digital e às redes de desinformação estruturadas por Bolsonaro e seus aliados — com amplo financiamento de elites empresariais, plataformas tecnológicas e think tanks internacionais.

Por isso mesmo, destruir politicamente Moraes é um passo central no projeto de desestabilização do Brasil. Ele é a muralha jurídica que não se rendeu à lógica do caos. E por isso precisa ser desmoralizado, isolado e anulado — não só dentro do país, mas no cenário internacional. A campanha dos EUA contra ele segue esse roteiro com precisão cirúrgica.

A sanção inédita imposta por Washington com base na Lei Magnitsky, alegando supostos abusos de autoridade, inaugura um novo patamar de agressão à soberania institucional do Brasil. Nunca, em nenhuma democracia do Ocidente, um ministro de Suprema Corte havia sido alvo de retaliação diplomática por decisões internas amparadas na Constituição do próprio país. Essa sanção é um recado: ou se curva, ou será punido.

Em seguida, a embaixada americana no Brasil passou a operar como braço de guerra narrativa. Tweets e declarações oficiais acusando Moraes de censura, autoritarismo e perseguição política ganharam destaque, inclusive com traduções para o português. A função desses ataques não é apenas diplomática — ela é estratégica: alimentar o discurso interno da extrema-direita e legitimar, perante a opinião pública internacional, uma possível ruptura ou ação mais dura contra o Brasil.

Ao mesmo tempo, parlamentares da oposição — perfeitamente alinhados com essa operação externa — iniciam o processo de impeachment contra Moraes, alegando abuso de poder e violação de liberdades. O timing não é coincidência. As forças internas e externas convergem em um só objetivo: desmontar a barreira institucional que impediu a consumação do golpe de Estado em 8 de janeiro de 2023. E Moraes é esse obstáculo.

O que está em jogo não é apenas o destino de um ministro. É a integridade das instituições democráticas brasileiras. E, mais do que isso: é a possibilidade de que um país do Sul Global possa ter um Judiciário autônomo o suficiente para enfrentar o fascismo, mesmo quando esse fascismo é alimentado por Washington.

A ofensiva coordenada: diplomacia, Congresso e milícia digital

O que está em curso contra o Brasil é uma operação multifacetada, articulada em três frentes principais: diplomática, institucional e informacional. E essas frentes se movem de forma sincronizada, como peças de uma mesma engrenagem — cujo objetivo é provocar uma ruptura institucional e consolidar a narrativa de que o Brasil é um país autoritário, isolado e inimigo da democracia liberal ocidental.

A primeira frente é a diplomática. A embaixada dos Estados Unidos no Brasil ultrapassou todos os limites da convenção diplomática tradicional. Publicou, em seus canais oficiais, declarações que atacam diretamente o ministro Alexandre de Moraes, acusando-o de ser o “arquiteto da censura” no Brasil. Mais que um gesto simbólico, trata-se de uma ação deliberada de guerra narrativa, cujo propósito é internacionalizar uma acusação que possa embasar futuras sanções, isolamento político e pressão sobre aliados.

A segunda frente é o Congresso Nacional, onde senadores da extrema-direita e da base bolsonarista — articulados com think tanks conservadores e assessores ligados ao aparato trumpista — iniciaram uma campanha aberta pelo impeachment de Moraes. A coleta de assinaturas, as ocupações do plenário, os discursos inflamados e sincronizados com os tweets da embaixada configuram uma operação híbrida com rosto institucional, cujo objetivo é transferir o conflito para o Legislativo e forçar uma crise entre os Poderes.

A terceira frente é a milícia digital, a mesma que atuou no 7 de setembro de 2021, na tentativa de golpe de 8 de janeiro de 2023 e em todas as campanhas de desinformação desde 2018. Essa rede, alimentada por dinheiro estrangeiro, publicidade fraudulenta e apoio direto de plataformas tolerantes à radicalização, entrou em modo de ataque total. Os algoritmos estão sendo mobilizados para disseminar a ideia de que o Brasil vive sob “ditadura do Judiciário”, e que Moraes seria um “inimigo da liberdade”. A estratégia não mira apenas o STF — ela mira a credibilidade da democracia brasileira como um todo.

Essas três frentes atuam com sincronia porque fazem parte de um mesmo projeto: empurrar o Brasil para o colapso institucional e oferecer ao mundo uma imagem deformada da realidade — a de que o país virou uma ameaça à liberdade. Essa inversão é central para a doutrina das guerras de quinta geração, em que o campo de batalha é a percepção pública, e a vitória se mede pela capacidade de deslegitimar o inimigo antes mesmo de um tiro ser disparado.

O plano é simples: provocar, contaminar a narrativa e forçar uma reação. Se o Brasil responde, está “radicalizando”; se não responde, está se curvando. Um jogo de armadilha dialética onde só há uma saída: romper o script, nomear a operação e assumir a soberania narrativa dos fatos.


Quem ganha com isso?

Nenhuma guerra híbrida se move sem propósito. Toda operação de desestabilização serve a interesses concretos — e, no caso do ataque em curso contra o Brasil, o rastro do lucro, do poder e da dominação geopolítica é nítido. É preciso perguntar com clareza: quem se beneficia da tentativa de destruir a credibilidade do STF, desmoralizar Alexandre de Moraes, isolar o governo Lula e desorganizar o pacto democrático brasileiro?

A resposta começa pela extrema-direita internacional, que vê no Brasil uma peça estratégica no xadrez da reação global contra as democracias progressistas do Sul. A prisão de Bolsonaro, as investigações sobre os financiadores do 8 de janeiro e a reconstrução institucional promovida desde 2023 ameaçam o projeto de poder transnacional que conecta Trump, Javier Milei, Viktor Orbán, Netanyahu e outros representantes do neofascismo global. O Brasil, ao recusar-se a ser laboratório de autoritarismo digital, se tornou um problema.

Em segundo lugar, aparecem as big techs. O governo brasileiro é hoje uma das únicas potências emergentes que propôs abertamente a regulação democrática das plataformas, o combate ao discurso de ódio algorítmico e a responsabilização das empresas pela disseminação de mentiras e violência política. Ao atacar Alexandre de Moraes e deslegitimar o STF, abre-se espaço para que essas corporações se livrem de sua principal barreira legal no país — e, por tabela, possam operar livremente, lucrando com o caos informacional.

A terceira camada é o complexo industrial-financeiro norte-americano, que se incomoda com a política externa altiva e ativa do Brasil, com o fortalecimento dos BRICS+, com o protagonismo diplomático no Sul Global e, principalmente, com a recusa brasileira em aceitar passivamente as ordens da Casa Branca. As tarifas de Trump, as sanções contra membros do STF e a tentativa de provocar uma ruptura têm um objetivo claro: colocar o Brasil de volta no cercadinho da dependência, da subordinação e do servilismo econômico.

Por fim, há o fator recursos naturais e soberania energética. O Brasil está no centro da nova disputa global por minerais críticos, tecnologia de energia verde e alimentos. Ao criar instabilidade política, pressiona-se o governo a recuar em políticas de soberania, privatizações e exploração nacional do pré-sal e da Amazônia. Desestabilizar é abrir o mercado à pilhagem. E, nesse caso, o caos é sempre um ótimo negócio.

Não é o Brasil que ameaça a ordem global. É a ordem global, em sua face imperial e neoliberal, que não tolera um Brasil soberano.

A armadilha do discurso da paz

Donald Trump declarou, com cinismo estudado, que "Lula pode me ligar quando quiser". A frase percorreu as manchetes internacionais como uma demonstração de suposta abertura ao diálogo. Mas ela é, na verdade, o pilar psicológico de uma armadilha discursiva construída com precisão cirúrgica. Trata-se de uma performance milimetricamente ensaiada para transferir a responsabilidade da crise ao Brasil e apresentar os EUA como a parte “racional”, “aberta” e “pacífica” — quando, na verdade, foram os agressores desde o primeiro ato.



O gesto de oferecer “diálogo” depois de impor tarifas de 50%, sancionar um ministro da Suprema Corte, publicar mensagens ofensivas pela embaixada e pressionar o Congresso para sabotar o Judiciário brasileiro é, tecnicamente, um tipo de guerra psicológica baseado em inversão moral. A lógica é clara: criam o incêndio, oferecem um copo d’água, apontam que você se recusou a aceitar — e então dizem que você é intransigente.


Essa inversão faz parte de um repertório sofisticado das guerras de quinta geração. O discurso da paz é usado não como ferramenta de resolução, mas como arma para deslegitimar a resistência. É a mesma tática usada contra países que ousaram manter sua soberania diante do imperialismo: o Irã “não quis negociar”, a Venezuela “recusou ajuda humanitária”, a Rússia “foi agressiva”, a Palestina “é radical”. Agora, a mesma narrativa está sendo montada contra o Brasil.



O gesto de Trump não é diálogo — é controle de dano geopolítico com manipulação de percepção pública. Internamente, os EUA seguem com o projeto de estrangulamento econômico e institucional do Brasil. Externamente, tentam construir a aparência de razoabilidade, como se estivessem prontos para conversar, mas tivessem sido rejeitados por um governo irracional. É a encenação perfeita para aplicar novas sanções com o apoio do Ocidente.

Cair nessa armadilha é entregar de bandeja a soberania do país à propaganda do agressor. Responder com "diálogo" nesse cenário não é diplomacia — é rendição.

É por isso que a recusa do presidente Lula em entrar nesse teatro foi não apenas correta, mas estratégica. O Brasil não pode aceitar que o agressor defina o tom da conversa nem que a vítima aceite a farsa de uma “negociação” armada para culpá-la por não se curvar.

O que o Brasil deve fazer agora

Diante de uma ofensiva híbrida que envolve sanções, lawfare, sabotagem institucional e guerra de narrativas, não basta indignar-se. É preciso reagir com inteligência estratégica, articulação internacional e fortalecimento interno da soberania. A provocação é real, o cerco está montado — e a história nos ensina que responder de forma passiva ou improvisada só fortalece o agressor.

A primeira medida é blindar institucionalmente o Supremo Tribunal Federal e defender, com firmeza, o ministro Alexandre de Moraes. Isso não é uma defesa de indivíduo — é a defesa de um princípio: nenhum país soberano pode aceitar que potências estrangeiras sancionem seus juízes com base em decisões internas amparadas pela Constituição. Silenciar diante disso seria admitir que os EUA têm autoridade sobre o sistema de Justiça brasileiro. O governo Lula, o Congresso progressista e as instituições republicanas precisam agir com unidade e clareza.

A segunda é não cair no teatro do diálogo manipulado. O Brasil não deve aceitar conversar sob chantagem nem sob o verniz falso da paz encenada. Qualquer tentativa de retomada do diálogo precisa partir de uma revogação incondicional das sanções, suspensão das tarifas e retratação diplomática pública. Não se trata de orgulho: trata-se de impedir que a diplomacia coercitiva se torne um precedente para outras ofensivas imperiais. Ou se negocia entre iguais — ou não se negocia.

Terceiro: o Brasil precisa acelerar a consolidação de alianças com o Sul Global. Os BRICS+, a CELAC, a União Africana e fóruns multilaterais precisam ser mobilizados com urgência como escudos diplomáticos e comerciais. A tentativa dos EUA de isolar o Brasil deve ser respondida com mais integração, mais comércio entre pares, mais pactos de cooperação tecnológica, educacional e de infraestrutura. É hora de mostrar ao mundo que o país tem alternativas — e não depende da tutela imperial para existir.

Quarto: é preciso fortalecer internamente a soberania informacional e tecnológica. A guerra em curso também se dá no campo dos dados, dos algoritmos e das plataformas. Isso exige investir em infraestrutura digital própria, regular as big techs com rigor, proteger os cientistas e os jornalistas da desinformação e estabelecer protocolos nacionais de segurança cognitiva. A soberania do século XXI se decide nos cabos, nas nuvens e nos metadados — e o Brasil não pode continuar vulnerável.

Por fim, é necessário que o povo brasileiro compreenda que essa não é apenas uma disputa entre governos. É uma disputa entre a submissão eterna e a construção de um projeto autônomo de nação. Defender o STF, defender a diplomacia brasileira, defender a regulação das plataformas, defender a integridade da democracia é, neste momento, defender o Brasil da mais sofisticada ofensiva imperial das últimas décadas.

A hora de agir é agora. E agir com inteligência é não seguir o script do inimigo.

A ruptura já começou. Só não podemos ser nós a fechá-la

A ruptura já está em curso. Foi iniciada pelos Estados Unidos com tarifas unilaterais, sanções diplomáticas, ataques públicos ao sistema de Justiça brasileiro e ingerência direta em processos internos da nossa democracia. A embaixada americana se transformou num braço operacional de guerra híbrida. O Congresso Nacional, infiltrado por interesses externos, atua como peça de pressão interna. E a extrema-direita digital, financiada por capital internacional, tenta incendiar a opinião pública com a narrativa de que o Brasil virou uma ditadura.

Neste contexto, a única atitude verdadeiramente irracional seria esperar que o agressor recue por boa vontade. Não há diplomacia possível quando o outro lado está mobilizando todos os instrumentos de sabotagem para destruir sua autonomia. Não há diálogo honesto com quem transforma a paz em arma. E não há democracia que sobreviva sem coragem para enfrentar o cerco.

O Brasil não iniciou essa crise — mas precisa decidir se a enfrentará como Nação soberana ou como Estado submisso. Ceder à chantagem, aceitar as sanções em silêncio, negociar com uma faca no pescoço ou abandonar Alexandre de Moraes à sanha imperial é abrir caminho para a completa desintegração institucional. E mais: é enviar ao mundo a mensagem de que basta ameaçar para que o Brasil se ajoelhe.

Não se trata de bravata. Trata-se de responsabilidade histórica. O que está em jogo é a possibilidade do Brasil existir como projeto autônomo no século XXI. Resistir agora é evitar rupturas maiores depois. Denunciar essa operação de guerra híbrida não é exagero — é sobrevivência política. Proteger nossas instituições é proteger nossa capacidade de sonhar com um futuro livre, justo e realmente nosso.

A ruptura já começou. Mas não pode ser o Brasil a fechá-la com a cabeça baixa. Que a ruptura, se inevitável, sirva ao propósito de deixar claro ao mundo que este país não aceita mais ser colônia — nem de armas, nem de algoritmos, nem de narrativas.

Fonte: Código aberto.