quarta-feira, outubro 05, 2016

Desmonte das petroleiras estatais em todo o mundo

O processo que vive a Petrobras de desmonte é seguido no mundo por outras petroleiras estatais, sob o argumento da necessidade de reduzir dívidas e enfrentar a fase de baixa do ciclo petro-econômico. As regras do mercado são as mesmas em todas as nações e corporações. Vejamos.

Estou no México, desde segunda-feira, mais especificamente, em Monterrey para participar do XIV Seminário da Rede Iberoamericana de Pesquisadores em Globalização e Território (RII).

Assim, abro um dos jornais do México, o "La Jornada" e me deparo com a matéria abaixo "A Pemex acelera seu desmantelamento, perde técnicos qualificados e liquida infraestrutura".

A reportagem poderia ser semelhante ao que se vê no Brasil, com a Petrobras. Na semana passada (27/09) o blog trouxe um texto aqui sobre a estatal mexicana de petróleo, a Pemex e fez uma comparação sobre a sua difícil situação em relação à estatal brasileira, a Petrobras.

A situação são distintas, mas as "soluções do mercado" são similares. Desmontar e vender as petroleiras estatais. É o avanço do capital financeiro sobre a indústria do petróleo, especialmente as estatais, que ainda se mantinham fortes.






















No Brasil, a Petrobras vende sua rede de gasodutos do Sudeste, a BR Distribuidora, parte dos direitos nas plantas petroquímicas e quer abrir mão do direito de ter 30% em todo os campos da área da colossal reservas do pré-sal.

No México, a matéria do jornal mexicano que a Pemex para se "adequar" ao mercado e enfrentar sua dívida em torno de US$ 100 bilhões, coloca à venda seus bens como as refinarias, complexos petroquímicos (planta de polietileno), navios petroleiros, plantas de absorção de hidrogênio, etc. como se pode ver na imagem da reportagem acima.

Esta é uma das consequências do ciclo petro-econômico, tema sobre o qual tenho me debruçado e que será motivo de minha exposição do evento no México. Insisto que este ciclo não é natural, ele é produzido e tem em algumas nações junto com fortes corporações interesses específicos.

Na atual fase do ciclo as empresas (petroleiras - operadoras - e as de insumos e serviços de engenharia que atendem o setor) se fundem, são incorporadas e os oligopólios se ampliam.

Mais que isto, por conta das dívidas, o sistema financeiro avança fortemente sobre o setor, absorvendo os "ativos" destas empresas a preços baixos, porque uma das consequências da fase de baixa do ciclo petro-econômico é a mudança cambial que desvaloriza a moeda local.

Assim, os bens ou ativos das petroleiras perdem "valor" pelas baixas contábeis e também pela variação cambial. A junção destas duas situações produz um resultado onde se depositam fortes interesses dos fundos financeiros que circulam pelo mundo.

Não é por outro motivo que a compra da rede de gasodutos do Sudeste da Petrobras foi liderada por um destes fundos, o canadense Brookfield. Outros fundos estão se organizando para participar de outras privatizações, aproveitando o que eles chamam de "janela de oportunidades", no processo de globalização mundial dos mercados, e que envolve o setor de petróleo como uma das importantes cadeias globais, onde há acumulações de excedentes econômicos a serem capturados.

Resistir é preciso. Novo ciclo e nova expansão darão lucros colossais a estes fundos financeiros depois de ter arruinado as nações, desmontado as petroleiras estatais, para quem trabalharão alguns dos seus técnicos mais qualificados, após saírem ou serem demitidos pelos planos "voluntários" e de incentivo à demissão.

Nova fase de expansão do ciclo do petróleo virá, não imediatamente adiante, mas após 2020. Estes fundos sabem disto e assim fazem estes "investimentos anti-cíclicos" para ganhar na fase de expansão e espoliar na fase de colapso, toda a estrutura de valor (da produção - circulação - consumo) que estas petroleiras estatais montaram ao longo de décadas em suas nações.

É isto que está sendo debatido hoje na Câmara Federal, em Brasília, para alterar um dos marcos legais do setor de petróleo no Brasil.

Entender esta realidade e seus meandros e também as fortes articulações entre os poderes econômicos e políticos (geopolíticos) que envolvem o setor e as populações, prescinde da compreensão disto que tenho chamado de "ciclo petro-econômico", razão de debates que tenho desenvolvido com outros pesquisadores e trabalhadores do setor e de minha exposição também aqui em Monterrey, México.

PS.: Atualizado às 13:58: Para alguns ajustes no texto, sem alteração do conteúdo.

Um comentário:

luiz carlos bueno disse...

E fazer o que?Já esta tudo dominado?