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Valor: 29 mai. 2020, P.F4. [1] |
Referências:
66 anos, professor titular "sênior" do IFF (ex-CEFET-Campos, RJ) e engenheiro. Pesquisador atuante nos temas: Capitalismo de Plataformas; Espaço-Economia e Financeirização no Capitalismo Contemporâneo; Circuito Econômico Petróleo-Porto; Geopolítica da Energia. Membro da Rede Latinoamericana de Investigadores em Espaço-Economia: Geografia Econômica e Economia Política (ReLAEE). Espaço para apresentar e debater questões e opiniões sobre política e economia. Blog criado em 10 agosto de 2004.
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Valor: 29 mai. 2020, P.F4. [1] |
O negócio está se iniciando com proposta de compra da Anglo American, feita BHP por US$ 39 bilhões. As exportações de minério-de-ferro pelo Açu foram as primeiras exportações realizadas no 2⁰ semestre de 2014 quando do início das operações do complexo portuário do litoral de SJB.
O minério de ferro que chega ao Açu é extraído da mina da região do Quadrilátero Ferrífero de MG e vem para o litoral fluminense, por meio de um mineroduto de 522 km do chamado Sistema Minas-Rio, vendido, ainda no papel, por Eike Batista por cerca de US$ 5 bilhões.
Esses negócios de fusão dos grandes grupos que atuam no Porto do Açu, reforçam a visão sobre como os negócios extrativistas formam enclaves e são comandados por grandes corporações ligadas ao que se chama de Cadeias de Valor Global e que se utilizam do extrativismo dos recursos minerais e usam os demais áreas e comunidades como "territórios de passagem".
Vale ainda observar como a transação comercial é feita baseada em todas a cadeia de negócios da mineradora Anglo American e não sobre o negócio específico da mesma no Sistema Minas-Rio que exporta minério pelo Porto do Açu. A reportagem deixa claro que o maior interesse é pela extração de cobre, material que ganha importância com a intensificação dos processos de eletrificação ampliado com o avanço da transição energética, portanto, sem nenhuma relação direta com o Minas-Rio que entra como complemento na venda.
São negócios que movimentam bilhões de dólares com exportações de (cerca de 26 milhões de toneladas), mas com pouquíssima conexão e benefícios para a região. Muitos dos controladores destes negócios sequer conhecem a região. Extrativismo, enclave, centralização, concentração e oligopólios que precisam do território e das infraestruturas portuárias, apenas para realizar seus lucros com as exportações.
[1] Matéria em O Globo, 26/04/2024, p.17, NEDER, Vinícius.
PS.: Atualização às 09:28: É ainda importante relembrar que a mineradora BHP Billiton era sócia da mineradora brasileira Vale (50% +50%) na minha da Samarco em MG cuja bacia de rejeitos desmoronou e provocou um dos maiores tragédias social e ambiental do país, matando 19 pessoas, devastou o Rio Doce e atingiu cidades mineiras e capixabas em 5 de novembro de 2015. O processo criminal que tornou rés 22 pessoas e as mineradoras Samarco, Vale, BHP Billiton e VogBR Recursos Hídricos pelo desastre.
PS.:Atualização às 12:58: com outros dois comentários que envolvem esses processos de fusão, aquisições e incorporações (F&A) entre corporações globais e GPIs controladas por grandes fundos financeiros globais.
Quem pensou que a tecnologia no futebol ficaria restrita ao VAR e às estatísticas de desempenhos isoladas dos jogadores, apostou na Best errada (sic). O Google, já passou a utilizar uma potente, volumosa e extraordinária base de dados de várias jogadores, partidas e campeonatos que trabalhadas com tecnologia IA podem definir táticas para times de futebol.
O TacTicAI do Google sugere táticas, em especial, em jogadas de bolas paradas. Os seguidos casos de usos ampliados da economia de dados em variados setores, demonstra como é difícil mensurar seu tamanho ou extensão que são cada vez mais utilizados em extensa e enorme cadeia. Jogadores se transformarão em extensões das máquinas? Não. Até porque todos nós já somos ciborgues (ou cyborg – organismo que mistura partes orgânicos e cibernéticas ou digitais) quando não nos desgrudamos (olhos, mentes e dedos) de nossos celulares.
Não deve demorar, para que os
clubes de maiores investimentos, passem a destinar mais dinheiro para aquisição
de softwares e aplicativos desses dados, do que, exatamente, em bons jogadores.
O humano continuará a ser e sempre a base dos dados capturados para serem
depois algoritmizados. O humano prevalece e por isso esse jogo (futebol) vem atraindo
tanto dinheiro.
Assim, os recursos disponíveis
para clubes de grandes fundos investidores ficarão ainda mais fortes, embora o
imponderável possa ainda prevalecer. Nos outros esportes coletivos como
basquete e vôlei, as chances de um clube pequeno (hoje chamado de menor
investimento) ganhar de uma equipe poderosa e com muito recursos é quase nula.
No futebol, ainda não.
Observe na matéria do jornalista
Rafael Garcia, em O Globo (20/03/2024, p.28) que as primeiras táticas sugeridas
pelo aplicativo TacTic do Google são para ações e jogadas mais fáceis de serem programadas,
com estratégias que podem ser treinadas para bolas paradas como faltas,
escanteios, etc. e contra times específicos já mapeados. A tendência é que os
grandes clubes de futebol, ou aqueles de maiores investimentos, fiquem ainda
mais fortes. O que também tende a ampliar a financeirização no futebol, já
grande entre SAF e FC S.A.
Porém, mais que o esporte futebol
em si, a notícia deve despertar nossa observação para o tamanho da economia
digital e para a sua atuação transversal, com fortes impactos sobre praticamente
todos os demais setores econômicos e da vida em sociedade. O que ajuda a
explicar o gigantismo das Big Techs, os maiores oligopólios da história da
humanidade.
Oito a nove (8/9) das dez
empresas de maior valor de mercado mundo são do setor de tecnologia, de onde faço
a leitura sobre a “dominação tecnológica imbricada à hegemonia financeira”,
ambos baseados na racionalidade neoliberal que redundam na interpretação sobre
a estrutura desse fenômeno, que venho denominado, com outros
pesquisadores, como o “tripé do capitalismo contemporâneo”.
PS.: Texto com colaboração de comentários a partir de postagem sobre o tema no perfil nas redes sociais (FB; Instagram e Twitter).
Atualizando dados para uma mesa de debates que envolve a dominação tecnológica no capitalismo contemporâneo, observei que a soma de valores de mercado das 10 maiores corporações de tecnologia já equivale a 4 vezes à soma das 10 maiores petroleiras no mundo.
Há menos de um ano (nove meses) essa relação entre as dez
maiores companhias de tecnologia e as dez maiores petroleiras do mundo era de três vezes.
Observa-se ainda que a maior corporação de tecnologia hoje,
a Microsoft, vale 3,089 trilhões. 50% a mais que a maior petroleira, a Saudi
Aramco que vale 2,023 trilhões. Só a Microsoft vale, ainda, 19% mais que a soma
do valor de mercado das demais nove petroleiras.
Hoje, três das maiores corporações de tecnologia (Microsoft,
Apple e Nvidia) valem, individualmente, mais que a petroleira saudita, Saudi Aramco. E oito das
dez maiores corporações em valor de mercado do mundo são do setor de
tecnologia. Tudo isso, num momento em que a Inteligência Artificial (IA) ainda dá os primeiros passos, em termos de captura e/ou geração de valor na economia em sua totalidade.
Processo que venho chamando de “dominação tecnológica”,
profundamente imbricado à “hegemonia financeira” no capitalismo contemporâneo
com liderança do oligopólio das Big Techs que lutam e disputam dia-a-dia para avançar
para monopólios que já se tornaram reais em alguns subsetores.
Vale ainda observar que se trata de dois setores
transversais com enorme capacidade de atravessar todos os outros setores da
economia e da vida em sociedade.
O setor de tecnologia digital como etapa contemporânea da
reestruturação produtiva possui características multidimensionais e transescalares.
Além disso, tem o predicado de se espalhar e penetrar muito
facilmente em rede nas diversas atividades humanas, seja como meio de produção (negócios
e logística) ou como meio de comunicação, caso das conhecidas mídias digitais onde
exerce a capacidade de influenciar nas potentes relações de poder e política,
para além da economia.
Ou seja, no plano da superestrutura, mediado pela noção de
totalidade, há ainda muito a ser analisado sobre o fenômeno contemporâneo da
digitalização de quase tudo que vem transformando o capitalismo enquanto
sistema nos diferentes espaços do mundo.
Eu fiz uma postagem (aqui) no meu blog, no dia 6 de fevereiro de 2024 repercutido também no meu perfil no FB e no Instagram sobre a movimentação (exportações e importações) do Porto do Açu no ano de 2023 com dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio (MDIC).
Repito o valor FOB (US$) dessa movimentação em 2023: US$ 4,219 bilhões ou aproximadamente R$ 21 bilhões. Este valor, 70% maior do que a movimentação do Porto do Açu em 2023.
Na movimentação de 2023, 86% são referentes às exportações que totalizaram (US$ 3.626) e apenas 14% o valor das importações (US$ 592 milhões).
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Atividades de serviços portuários no Açu, SJB em 2023. |
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Atividades de serviços portuários no Açu, SJB, só impactam ISS |
Nessa virada de ano ofereço a sugestão de dois livros que merecem ser lidos, para se tentar compreender um pouco mais o fenômeno da fé e da religião evangélica - que não para crescer em todo o país - e sua relação com o crime, o tráfico e as milícias no Rio, São Paulo e em todo o Brasil.
São duas publicações editadas nesse ano de 2023. O autor do
livro “A Fé e a Religião: Crime e religião no Brasil do Século XXI” é o
jornalista Bruno Paes Manso que é quem indica e prefacia o segundo livro “Traficantes
evangélicos: Quem são e a que servem os novos bandidos de Deus” de autoria da
Viviane Costa.
Bruno Manso tem doutorado pela USP, mas se apresenta apenas como jornalista e pesquisa o assunto da violência urbana há mais de duas décadas. Ele é também o autor do livro (que ainda não li) “República das Milícias”. Já a Viviane Costa é licenciada em história, mestra em Ciências da Religião e pastora da Assembleia de Deus.
O primeiro livro, o do Manso, trata mais do fenômeno do PCC e da
expansão dos evangélicos na região metropolitana de São Paulo, mas não unicamente.
Já o segundo livro da Viviane trata mais do que autora chama de “narcoreligiosidade
carioca” que envolve ainda a periferia da região metropolitana que inclui a Baixada Fluminense. A
abrangência geográfica das duas publicações permite uma análise mais profunda,
assim como suas ligações com outras regiões do país e mesmo o interior dos
estados RJ e SP.
De cara digo, que os dois livros me impactaram profundamente
e percebi com a visão que temos desse fenômeno é superficial, preconceituoso e
quase invisível diante do todo, seja da política, da economia e/ou da vida em
sociedade no Brasil contemporâneo.
A religião evangélica está por meses ou anos para se tornar
a religião hegemônica no Brasil, embora a estimativa tenha sido feita até o ano
do 2030.
O livro “A fé e o fuzil” de 301 páginas do Manso vai além da
análise das milícias do seu livro anterior, tratando também do tráfico, mas
foca nas razões que podem explicar o crescimento da igreja evangélica pentecostal,
a partir da rede de proteção material e de solidariedade humana oferecida por
essas organizações entranhadas nas comunidades, em especial, as periféricas e de
sua a relação, quase automática, com os grupos criminosos com os quais seguem
ambiguamente convivendo e se retroalimentando.
Como bom jornalista e pesquisador, Bruno Manso ouviu muitos
assassinos, pastores e gente convertida. Muitas vezes, exatamente os mesmos
personagens, apenas em lapsos de tempo distintos. Com texto perfeito, direto,
contextualizado e que fui facilmente, o relato descortina um mar de questões e
indagações sobre a sociedade brasileira e periférica contemporânea. Penso que
se trata do relato de uma pesquisa com forte poder de contribuir com explicações
para a questão do peso dos evangélicos na ascensão da extrema-direita no
Brasil.
Manso descreve também como se dá a montagem dos “exércitos
da fé” e sua preparação para o que chama de “batalhas espirituais” da salvação
do apocalipse. A guerra do bem contra o mal aliada à teologia da prosperidade
(empreendedorismo de si próprio) que, de certa forma, ajuda na explicação (para
muitos, contraditória) sobre as razões da defesa pelos evangélicos para o uso
das armas para sua “guerra santa”.
Assim, a periferia está cada vez mergulhada nessa
alternativa, desacreditada daqueles que defendem a política, as políticas
públicas e o aperfeiçoamento do Estado que muitas dessas organizações enxergam
como problema e inimigos do seu bem-estar e da sua forma de ver o mundo.
O segundo livro “Traficantes Evangélicos: Quem são os novos bandidos de Deus” da Viviane Costa é outro relato de pesquisa que nos auxilia na compreensão sobre o fenômeno ligado às relações do narcotráfico com o pentecostalismo que compõe o que autora chama de “narcoreligiosidade carioca”. Um fenômeno que se integra à dimensão da política e da disputa pelo poder no Rio ligado ao surgimento da facção bolsonarista e da guerra urbana dos territórios pentecostalizados (a autora não separa a fração do neopetencostalismo).
Viviane em sua publicação de densas 170 páginas, expõe um pentecostalismo
fluido do “espírito santo” que protege a todos que se associam contra o mal,
seja quem for: o Estado, ou os grupos rivais na disputa pelo território que tem
levado a um “Jesus dono desse lugar” a partir da narcoreligiosidade.
É importante registrar que a autora não apenas dá crédito,
mas utiliza de uma forma inteligente, resgatando e contextualizando, em ótima síntese,
fontes anteriores que pesquisara e trataram do tema como Marcos Alvito, Cristina
Vital da Cunha, Patrícia Birman, o próprio Bruno Manso e dezenas de outros autores citados nas referências), indo
bem além, numa pesquisa empírica de quem vê e vem de dentro do fenômeno e no território
onde o mesmo se desenvolve.
Viviane Costa explica em boa parte essa guerra do bem (guerra
das divindades ou guerra santa) que envolve as disputas pelo domínio do território.
Em que pastor pode ser também chefe do tráfico (TCP), frequenta cultos e se
mistura nessa ambiguidade (para nós estranha), mas que dá direção ao seu grupo,
ao território, constitui novas lideranças, define estratégias, etc. tudo (ou
quase) sob “a orientação de Deus”.
Viviane atualiza dados sobre a colossal expansão da religião
evangélica que se sustenta numa potente rede de proteção material e espiritual
onde o Estado é ausente. Assim, falam de manuais, dão orientações de táticas de
guerra, de expansão do credo e informam sobre novas batalhas santas (“proibidões”)
quando e onde formam novos ídolos e personalidades (gospel e influenciadores),
estilos culturais, etc.
Ambos os relatos permitem ver, por boas frestas, como a religião
evangélica se torna uma chave interpretativa das dinâmicas de violências
facciosas no Rio de Janeiro para domínio do território, visto como espécie de “reconstrução
dos muros da Cidade Santa” que obedeceria a ordens divinas em territórios em
que “Jesus passa a ser o dono do lugar”, como o Complexo de Israel
(Parada de Lucas e Vigário Geral), da mesma forma que se entende a hegemonia
política da extrema-direita na periferia do Rio de Janeiro.
Fica claro com o livro, as identificações econômicas e
neoliberais comuns às teologias pentecostais que aparecem não por acaso nas
estruturas dessas organizações narcoreligiosas.
Trata-se de um fenômeno complexo, amplo, mais que ambíguo,
multifacetado e para nós (outros, quase em minoria), ainda quase que invisível.
Um fenômeno que, segundo a autora “se entrelaça em nome de Deus, por disputas
espirituais e por território, nas fronteiras de uma guerra que não tem fim no
horizonte”.
Penso que é preciso sair da superficialidade das leituras
preconceituosas e da ideia apenas das diferenças entre pentecostais e neopentecostais
como base da extrema-direita nas periferias de nossas metrópoles. Há que se
oferecer alternativas e isso não é simples, porque se enfrenta uma enorme base
instalada de organizações que fazem a mistura do divino com o material e a
junção da concepção de mundo que junta o neoliberalismo e a divindade.
Vale muito a leitura de ambos os livros. Peço desculpas pela
extensa e humilde resenha, mas ela tem a finalidade de não apenas sugerir, mas
insistir que vale a pena a leitura de ambos os livros.
Mesmo que as perspectivas nas fronteiras dessa guerra (dissimulada)
pareça não ter fim, haveremos de prosseguir tentando entendê-la como parte de
uma disputa de classes e interesses no ambiente do capitalismo hegemonicamente financeiro
e neoliberal.
Não haverá saídas sem a participação direta da população
periférica e marginalizada que foi capturada pela esperança vendida com
enorme rede de proteção que ofereceu solidariedade e novos horizontes. São
essas crenças e ações que seguem em disputa.