quarta-feira, outubro 21, 2015

O caso da Schulz em Campos merece uma análise mais profunda

O fechamento (temporário ou definitivo – ainda não confirmado) das unidades da empresa alemã Schulz, na Codin, no município de Campos dos Goytacazes traz à tona uma série de questões que merecem análises mais profundas, além do simples relacionamento à crise local, regional, e/ou nacional.

A empresa aqui realizava beneficiamento em tubos de aço (com e sem costuras), e também a fabricação de conexões especiais, para uso em unidades industriais do setor petroquímico, embarcações e plataformas de produção offshore de petróleo, possuía ultimamente, cerca de 200 trabalhadores, que foram ontem desligados.

É evidente que a instalação em Campos de duas unidades (e mais uma que chegou a ser projetada) identificou o potencial de toda a cadeia de produção (up-stream) e também a de beneficiamento ou refino (downstream) de petróleo em nosso país.
Instalações da Schulz na Codin em Campos, RJ

Mais, a Schulz ao definir sua estratégia no Brasil, identificou o potencial de crescimento e de ganhos, em concorrência com outros fornecedores não instalados no país, por conta da decisão da Agência Nacional de Petróleo (ANP), em instituir a política de conteúdo nacional, nos equipamentos, plataformas, sondas e instalações relacionadas à exploração dos poços e campos de petróleo no Brasil.

Antes mesmo da crise do baixo preço do barril de petróleo no mercado internacional e mesmo das conseqüências na indústria nacional decorrentes da Operação Lava Jato na Petrobras, a Schulz já havia começado a enfrentar concorrência, para fornecimento para a indústria naval e para indústria petroquímica, ligadas direta ou indiretamente, à Petrobras.

A Schulz recebeu do Fundo de Desenvolvimento Econômico de Campos, controlado pela Prefeitura, a quantia total de R$ 22,6 milhões, em empréstimos para investimentos para a instalação, das unidades fabris no município, a partir de 1997.

Embora, ninguém possa dizer que este tenha sido um mau investimento deste fundo, que coleciona tantos outros negócios malfadados e questionáveis, hoje, há que ser analisadas outras questões que devem servir para a reflexão de políticas públicas na região.

É fato que a empresa teria cumprido os projetos de instalação, inclusive tendo recebido, em 2012, um cheque de cerca de R$ 3 milhões, como devolução dos juros pagos, como uma espécie de prêmio, por conta do desenvolvimento do empreendimento,

Porém, decorridos sete anos e considerando a melhor interpretação que se tem hoje dos impactos da cadeia produtiva do petróleo, se observa, que decidir apoio reforçando empreendimentos neste setor, se trata de uma oportunidade, mas também um risco.

Isto se dá, na medida em que uma empresa do mesmo setor produtivo potencializa os problemas locais quando a mesma entra numa crise global, como acontece atualmente, por conta dos baixos preços do petróleo no mercado mundial. Assim, hoje, é mais fácil observar que pode ser mais interessante o apoio a empreendimentos que diversificam a nossa economia, em detrimento de uma quase “dependência” de um único setor.

Também deve ser observado que o município de Campos possui pouquíssimos empreendimentos (especialmente no setor industrial) vinculados ao que chamo de "Economia do Petróleo". Para ser mais exato o município, e grande parte da região, sobrevive basicamente da "Economia dos Royalties" que é arrastada pela de petróleo e os serviços decorrentes da circulação dos bilhões desta receita.

Estas empresas da "Economia do Petróleo" possuem maior capacidade de arrasto também para a área de serviços, remunera um pouco melhor o trabalho, estão mais presentes em Macaé, no seu limite em Rio das Ostras, e em menor quantidade nas chamadas Zonas Especiais de Negócio (ZEN) em outros municípios ao redor. Só agora, mais recentemente no município de São João da Barra, por conta das facilidades logísticas geradas pela instalação e funcionamento operacional do Porto do Açu.

Neste contexto deve ser analisado que na atual situação da cadeia produtiva do petróleo e do gás, com todo o potencial das reservas do pré-sal, a inexistência, ou supressão da atual política de conteúdo nacional, a região terá imensas dificuldades para possuir as bases para a instalação de empresas na região, gerando empregos e tributos para os municípios e estados. Há quem defenda isto, muito sem sequer saber de suas conseqüências.

A competição entre estas “players” que atuam no setor de equipamentos e serviços de petróleo é acirrada e contém uma série de questões que estão acima das empresas nacionais.

As corporações globais do setor de óleo e gás que atuam no ERJ superam as duas centenas. Elas há muito deixam de ser o que antes se chamava de multinacionais, com bases produtivas em outros países e transformaram em corporações globais.

Desta forma, estas corporações olham o mercado com interesses estritamente comerciais, possuindo participações cruzadas à montante (acima) e à jusante (abaixo) da cadeia do petróleo, que dificilmente são compreendidas, com olhares voltados, exclusivamente, para a realidade local/regional.

Vale ainda lembrar que é prática corriqueira no setor industrial a busca de apoios e financiamentos de governos para facilitar a instalação em diferentes municípios ou estados. O prestigiado geógrafo Milton Santos chama isto de “guerra dos lugares”.

Assim, devem ser observados os passos seguintes da empresa, já que a mesma teria informado que após esta parada de produção, em função da crise do setor, ela está fazendo um estudo para a sua reestruturação.

É sabido ainda, que a Schulz mantém no Brasil, a importação de produtos com centros de distribuição instalados nos estados de São Paulo, Pernambuco e Bahia, além de outro em São Gonçalo, no Estado do Rio de Janeiro.

Observar a realidade que nos cerca de uma forma mais abrangente é obrigação de quem pretenda pensar políticas que possam compreender e apoiar os negócios das empresas, para a geração de riquezas, atendendo seus interesses, mas também deve buscar conciliar e priorizar, as demandas dos municípios e suas populações, especialmente, nos casos que se tratam de apoio que envolva financiamento público e políticas de isenções tributárias, cada vez mais comum.

3 comentários:

Anônimo disse...

Professor,

Infelizmente, essa base da Schulz estava fadada ao fracasso. Há muito tempo atrás, ouvi extra-oficialmente que esta empresa tinha recebido pelo Fundo de Desenvolvimento Econômico de Campos, mas, em contrapartida, esse mesmo valor investido era repassado para a matriz enquanto o que era instalado aqui seriam maquinários reaproveitados/sucateados de outras bases da empresa. Mesmo com a demanda da área do petróleo em baixa agora, deveriam fiscalizar essa e outras empresas que se instalem em nossa cidade a fim de fiscalizar o que é realmente é repassado para cá.

Edelson Pessanha disse...

Setor industrial de campos já esta morto a muito tempo.

douglas da mata disse...

Roberto, dias desses encontrei o Zé Luis Vianna e ele me disse que tem esses dados todos do Fundecam: quanto, quem recebeu, e quem, quanto e quando pagou, e claro, os que não pagarão.

Fiquei de mandar e-mail para ele para receber os dados, e até agora não fiz.

Acho que vale à pena utilizar esses dados para uma série de postagens, diagnosticando mais ou menos o que supomos:

-Falta de planejamento para concessão, desconsideração das competências históricas da região, concentração de recursos, frouxidão na fiscalização e acompanhamento do cronograma físico-financeiro da execução dos projetos e dos recursos, etc.

Vou entrar em contato com ele, e acho que a gente deve tocar nesse assunto...