sexta-feira, junho 10, 2016

Os questionáveis critérios para a venda (privatização) das partes esquartejadas da Petrobras

As vendas de empresas (chamados de ativos do setor público e da economia mista) são sempre cercadas de questionamentos e "sofisticações" a respeito dos critérios que as norteiam. Os agentes que a controlam deixam transparecer que estes negócios seria coisa de "entendidos", e por isso definidos por "auditores e analistas experientes", todos agentes financeiros e ligados aos "mercados".

São estes agentes que fazem as estimativas de valores e as avaliações. Interessante é que eles não fazem nenhuma questão de esconder as divergências, na maioria das vezes significativas.

Peguemos o caso atual da venda anunciada pela Petrobras de seus terminais de GNL (Gás Natural Liquefeito) junto com as Usinas Termelétricas (UTEs) ligadas a estes terminais, um no Rio e outro no Ceará.
Terminal de GNL na Baía da Guanabara no Rio

O primeiro terminal com capacidade de regaseificar 20 milhões de m³/dia e o segundo com capacidade de 7 milhões de m³/dia.

Na avaliação do analistas do Bank of America Merrill Linch a estimativa é de que estes ativos estejam valendo entre US$ 3,8 bilhões e US$ 6,3 bilhões. O que já é estranho com margens que distanciam quase o dobro, um do outro.

Se já não bastasse, outro forte banco, também ligado ao sistema financeiro global, o J.P. Morgan avaliou que a Petrobras poderá arrecadar entre US$ 1,9 bilhão a US$ 3,7 bilhões, com a venda destes mesmos ativos.

Embora esta última avaliação deixe de fora uma das térmicas, no total de 5 UTEs que seriam (u serão) vendidas, a variação entre os preços que consideram como sendo de mercado é absurdamente grande, entre os analistas. Valores que variam três vezes um de outro, em seus extremos.

Ou seja, por estes parâmetros um valor pago entre US$ 2 bi e US$ 6 bi (ou em reais entre R$ 7 bilhões e R$ 21 bilhões) seria, por estes critérios, normais. Isto, na prática é inaceitável. Um escracho!

O diabo sempre morou nos detalhes. Ou não?

Imagine, apesar das diferenças de negócios e do volume de dinheiro envolvido, mas como exemplo de proporção, talvez se passa fazer uma comparação simples, mesmo que reducionista. 

Por exemplo, se você fosse a uma revenda de automóveis e lá um corretor lhe dissesse que seu carro pode valer entre R$ 20 mil e R$ 60 mil para negócio. 

Qual seria sua reação diante disto?

Pois bem, o mercado das grandes transações, localizado na superestrutura dos poderes econômicos, constroem lógicas mentais que pretendem fazer você crer que há "coisas e questões" que você não conhece, e portanto não deve querer se envolver, mesmo que de alguma forma isto esteja ligado a você.

Por muito menos, diversos negócios viraram manchetes na Operação Lava Jato. Em muitos casos, a mídia comercial, com seus interesses construíram narrativas, julgaram, e assim pressionaram as procuradorias e a justiça para que estes confirmassem os abusos das avaliações de vários negócios.

Pois bem, assim, os terminais de GNL e 5 Usinas Térmicas serão privatizadas e vendidas por diferenças de até R$ 14 bilhões.

As informações dão conta por corretores, ligados aos bancos e agentes financeiros, que cinco grupos estrangeiros têm interesse nos negócios. De outro lado, se construiu a narrativa de que é urgente a quitação das dívidas da Petrobras, embora, elas só comecem a vencer no final do ano que vem, quando a realidade pode se diversa da atual fase de colapso do ciclo do petro-econômico.

Quem vai julgar estes valores? Quem vai auditar?

Afinal quem vai autorizar esta lavagem online e diante de nós?

PS.: Fonte das informações sobre as avaliações dos bancos sobre os ativos da Petrobras é a matéria das jornalistas Cláudia Schuffner, Thais Carrança e Camila Maia do Valor, 9 de junho de 2016, P. B3.

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