domingo, dezembro 13, 2009

Uma crítica pertinente

Apesar de ser um usuário permanente da grande rede, sou também um questionador da frugalidade da pós-modernidade e das relações fluidas e superficiais entre as pessoas. Também tenho dito para os que estão próximos, que o uso sistemático e crescente dos computadores e da internet tem elevado a mudança de costumes que me parece perigoso, especialmente, quanto à nossa capacidade aprofundar análises e estudos, em detrimento das informações soltas que cada vez aparecem em maior quantidade. Os blogs são partes importantes deste modismo até perigoso. Bom por um lado, porque democratiza a informação, mas ruim pela superficialidade da maioria das análises. Sobre o tema encontrei aqui nesta matéria da revista Época na edição desta semana uma reflexão interessante sobre o tema com o americano Nicholas Carr, palestrante sobre o tema e autor do livro que ainda está sendo escrito “O raso: o que a internet está fazendo com nosso cérebro”. Abaixo alguns trechos da entrevista: "ÉPOCA – A internet afeta a inteligência? Nicholas Carr – Você fica pulando de um site para o outro. Recebe várias mensagens ao mesmo tempo. É chamado pelo Twitter, pelo Facebook ou pelo Messenger. Isso desenvolve um novo tipo de intelecto, mais adaptado a lidar com as múltiplas funções simultâneas, mas que está perdendo a capacidade de se concentrar, ler atentamente ou pensar com profundidade. Isso é um resultado da dependência crescente em relação à internet. Essa forma de pensar vai reduzir nossa habilidade para pensar contemplativamente. Ela prejudica nossa cabeça. ÉPOCA – Quais seriam as consequências? Carr – A riqueza de nossa cultura não é apenas quanta informação você consegue juntar. Ela tem a ver com os indivíduos pensando profundamente sobre a informação, refletindo sobre ela, avaliando pessoalmente os dados que recebe e não se deixando passivamente bombardear por vários estímulos. Estamos perdendo isso agora. Toda a cultura fica mais rasa. Temos acesso democrático à informação, mas o resultado é mais pobre. Temos menos condições de compreender as grandes obras da arte, da ciência ou da literatura, que exigem uma concentração mais profunda. ÉPOCA – As pessoas deveriam ficar desconectadas de vez em quando? Carr – Sim. Deveríamos desconfiar da internet. É claro que conseguir bastante informação útil é parte de nossa vida moderna. Mas precisamos encorajar continuamente o outro lado, que é a aquisição calma e contemplativa do conhecimento. Isso exige ficar fora do fluxo contínuo de informação. Só não sei se isso será possível porque nossa vida social está cada vez mais dependente de quão conectados estamos. Seu grupo de amigos está embrulhado em redes sociais na internet. Você precisa da internet para executar seu trabalho. Não para de olhar para seu BlackBerry. Não é mole se desligar disso tudo. ÉPOCA – A filosofia grega foi construída em cima de debates. O pensamento de Platão são conversas com seus discípulos. Por que não daria para erigir conhecimento a partir da interação com os outros? Carr – Nos Diálogos de Platão, temos duas pessoas dedicadas a uma conversa atenta sobre determinado tema. Se você entra on-line, encontra dezenas de pessoas trocando mensagens de texto, vendo e-mails, escrevendo no Twitter e pulando de uma página para outra. A troca de informação ocorre com interrupções o tempo todo. Sócrates sentava-se embaixo de uma árvore e pensava longamente enquanto conversava com seus discípulos. É muito diferente do que fazemos agora. ÉPOCA – Uma das maiores lojas on-line, a Amazon, vende livros. As pessoas baixam livros no Kindle. Até o senhor vende livros. Isso não significa que as pessoas ainda leem textos extensos? Carr – É verdade que as pessoas ainda lerão livros por muito tempo. Mas o porcentual de tempo dedicado à mídia impressa vem caindo. A média americana é de um livro por dia, o que ainda é muito bom. Só que o ato de ler uma página após a outra fica cada vez mais difícil à medida que você se adapta à comunicação da internet. Eu mesmo sinto isso. Antes eu me sentava e lia por horas. Agora, fico pensando se devia conferir meu e-mail ou acho ruim não encontrar hiperlinks no texto. ÉPOCA – Essa habilidade para múltiplas tarefas e para administrar várias informações simultâneas não nos dá, em compensação, maior capacidade para criar novas ideias? Carr – Certamente temos maior capacidade para encontrar informação ou relacionar uma com a outra. Mas dependemos cada vez mais de conexões externas. Você estabelece uma relação porque clicou em um hiperlink que alguém deixou lá. Já construir as próprias relações entre um fato e outro exige um tempo de reflexão própria, que não estamos tendo. ÉPOCA – Essa visão negativa da internet não é apenas o medo da mudança? Carr – Não há dúvida que, toda vez que uma tecnologia nova aparece, algumas pessoas imaginam que tudo vai desmoronar. Sim. É preciso ter essa visão cética. Por outro lado, também devemos desconfiar quando ouvimos alguém glorificando as novas tecnologias e prometendo uma nova utopia. Recomendo que as pessoas não sigam o que eu digo cegamente. Mas que examinem o próprio comportamento. Testem em si mesmos o que estou dizendo. ÉPOCA – Os cursos on-line vão revolucionar a educação? Carr – Existe empolgação em torno dos cursos on-line porque parecem cortar os custos. Um professor poderia dar aula para milhares de alunos, em vez de apenas uma turma de algumas dezenas. Mas não acho que a educação on-line vá substituir a tradicional. Ela pode funcionar como complemento para o professor ter um material de apoio na sala de aula ou para o aluno reforçar em casa o que aprendeu na escola. Outra utilidade dos cursos on- -line é a formação técnica profissional em casos específicos. Existe um aspecto importante na educação, que é juntar os alunos fisicamente para conviver e trocar experiências. Isso vai além de apenas assistir a uma aula. Tem a ver com o lado comunitário da educação, que se perderia se passarmos tudo para o computador. ÉPOCA – Como a tecnologia pode beneficiar a educação? Carr – Por um lado, o que estamos vendo é que muitas escolas, especialmente universidades, começam a oferecer material on-line de seus cursos, inclusive algumas aulas. Isso é bom. Permite que gente de fora da universidade tenha acesso à informação de ponta e aulas de grandes pensadores. O perigo para as grandes universidades é que os alunos possam ter a ilusão de que terão acesso ao conhecimento apenas sentados diante de um computador. Aí o que acontece é que a eficiência de fornecer material on-line começa a capturar os investimentos financeiros, que deveriam ir para as universidades e escolas. Se um professor dá aula para milhões de alunos, quem vai pagar o salário dos outros? ÉPOCA – Como atrair a atenção dos jovens que estão ligados nas redes de relacionamento e nos jogos da internet para a educação “formal”? Carr – Naturalmente, não há como fazer isso. Nossa dependência dos serviços de internet não está mudando apenas nossos relacionamentos e nosso acesso ao conhecimento, mas também a forma como nossa mente funciona. Não é só entre os jovens, mas gente de todas as idades usa cada vez mais a internet. Nas escolas e em casa, os pais e os educadores têm sido excessivamente entusiastas do poder dos computadores. Temo que, como o cérebro constrói a maior parte das ligações entre os neurônios na juventude, o modo de pensar promovido pelo convívio com a internet predomine sobre a capacidade de análise. Os pais devem manter seus filhos o máximo longe das telas. Na verdade, acredito que as crianças não devem mexer em computadores de jeito nenhum. Mais tarde, quando entrarem na adolescência, terão de aprender a lidar com a internet para sua vida adulta, social e profissional. Mas antes disso não."

Um comentário:

Giancarlo Colombo :-) disse...

Roberto, há diversos ângulos para serem discutidos e vou me ater apenas a um: o medo do desconhecido.

É claro para mim que o artigo da Época e o pensamento do Sr. Carr fazem parte de um contexto tradicional, construído no decorrer de centenas e centenas de anos. Ele, como linha de seu pensamento, julga errado (é isso que está na entrevista) o caminho que está sendo trilhado - como ele mesmo não fizesse parte de um outro diferente daquele dos sábios gregos - estes sim, que tinham um tempo considerável para pensar, discutir - filosofar, enfim.

Imagino se houvesse uma revista - a "Hepoca" que circularia em Athenas naquele tempo - e que o entrevistado fosse Platão, por exemplo. Certamente ele faria juizo de valor parecido como o Sr. Carr, achando que a revolução industrial (que viria dois séculos depois) poderia criar um antro de não-pensadores, que o mundo iria tomar um rumo catastrófico... enfim.

Quero com isso dizer que não estamos prontos para aceitarmos que diferente será o mundo e isso faz parte de um processo - e o que é irreversível mesmo. Essa geração da revolução industrial também fez pensadores ilustres e invenções estupendas e nunca desmereceu seus antepassados geniais - como Da Vinci, assim como os mais recentes - como Einstein.

Esse é um processo e se não estivermos prontos para aceitá-lo - e o Sr. Carr não está - vamos sofrer... e à toa.

Giancarlo Colombo (www.vouleragora.blogspot.com)