quarta-feira, março 25, 2015

IBGE confirma que deslocamento entre Campos-Macaé-Rio das Ostras configura uma "nova unidade urbana"

O IBGE divulgou hoje dados sobre sua contabilização de 294 arranjos no país que formam o que foi chamando de "contiguidade urbana e por deslocamentos para trabalho e estudo".

Esses dados confirmam as nossas previsões, baseadas em outros dados e indicadores, de que esse eixo urbano Rio das Ostras - Macaé - Campos, e agora também São João da Barra, configura o desenho de uma nova região metropolitana, que já vínhamos ensaiando chamar de Região Metropolitana do Petróleo.

Mais que isso, eu venho sustentando também que estaríamos vivendo a extensão da metrópole fluminense, pelo litoral em direção ao norte, tendo como eixo a dinâmica econômica da cadeia produtiva do petróleo.

Os dados sobre o chamado movimento pendular (deslocamento casa-trabalho-estudo) entre os moradores da região, em especial, os das maiores cidade eram muito significativos. Porém, os números oficiais do IBGE, a partir do Censo 2010, que podem, portanto já terem sido ampliados são bastantes elucidativos dessa realidade. 

O deslocamento diário de 9 mil pessoas chamou a atenção do IBGE que o classificou como um caso especial, como o quarto maior deslocamento e fluxos diários e de integração populacional do país como mostra o quadro abaixo do IBGE abaixo. Só a título de visualização concreta desse número de 9 mil deslocamento diários, nós poderíamos comparar ao uso diário de cerca de 200 ônibus:

























O IBGE no seu comunicado oficial divulgado hoje junto com vários outros dados da pesquisa assim se posicionou sobre essa região, no que diz respeito à sua dinâmica espacial de ocupação do solo e de movimentação de sua população:

"O arranjo de “Macaé – Rio das Ostras/RJ” também possui forte ligação com o do “Rio de Janeiro/RJ”, alcançando 12,8 mil pessoas, na qual 81,9% destinam-se somente a trabalho. No leste fluminense, as ligações entre o arranjo de “Macaé – Rio das Ostras/RJ” com “Cabo Frio/RJ” e com “Campos dos Goytacazes/RJ” também são significativas, superando 9 mil pessoas em cada ligação. Caso o dinamismo econômico nesta região venha a aumentar o movimento de pessoas entre estes arranjos, levará à criação de uma nova unidade urbana com mais de 1,2 milhão de habitantes."

Mais detalhes sobre o estudo pode ser lido aqui no site do IBGE.

A divulgação de mais este dado oficial e indicador, reforça, que mesmo em meio à crise da economia dos royalties derivado da redução do preço de petróleo no mercado internacional, essa região tem um importante potencial a ser trabalhado. 

Porém, ao invés do esforço isolado e concorrencial de cada um dos municípios, a saída, como já cansamos de insistir, passa por uma verdadeira integração regional, onde os municípios atuem de forma integrada e complementar. 

O governo estadual tem um papel importante a desenvolver nessa linha, mas, infelizmente, governo após governo, tem preferido trabalhar uma relação direta e individual com cada prefeitura, num processo de cooptação política-eleitoral e não de organização e estruturação de uma forma estratégica de administrar as potencialidades. 

A realidade dos dados e indicadores nos impõem a pensar, por exemplo, em estratégias de deslocamento e mobilidade para além dos ônibus. Aí voltamos a pensar na projetação do trem entre SJB - Campos - Quissamã - Macaé - Rio das Ostras, começando pelos pólos mais ativos como Campos e Macaé e depois se estendendo nas extremidades. 

Na área de saúde (especialidades), educação (profissional e superior) e outras muito poderia ser elaborado em câmaras técnicas para desenhar políticas públicas mais eficientes e portanto de menor custo e mais rentável às nossas populações. 

Não haverá saída fora dessa alternativa, quando a redução da dinâmica econômica dos royalties se colocarem para além da redução do preço do barril do petróleo e avançar para a novo critério de rateio e divisão do óleo da área do pré-sal, hoje sustentada apenas numa liminar no STF. 

Ler e compreender a conjuntura econômica e social que nos circunda é obrigação para além dos gestores. Insisto que é um papel de toda a sociedade que ao assumir esse papel de protagonista poderá desejar gestores mais eficiente e comprometidos com suas causas.

PS.: Atualização às 17:50: Não deixem ainda de observar no quadro acima do IBGE a movimentação pendular (para trabalho e/ou estudos) entre Macaé/Rio das Ostras com a capital Rio de Janeiro. Com 13 mil deslocamentos diários, ele é quase igual ao do fluxo entre Rio e SP, as nossas duas maiores metrópoles (Rio-SP). Esse fato reforça ao que tenho chamado da expansão da metrópole fluminense pelo litoral, tendo a economia do petróleo e dos royalties como base e sustentáculo.

Não devemos esquecer que aqui não estamos tratando de estimativas e sim de dados censitários tabulados junto da pesquisa populacional no Censo de 2010.

PS.: Atualizado às 18:04: O movimento também é grande entre Macaé e Cabo Frio com 9,4 mil deslocamentos diários, maior ainda que Campos-Macaé, o que confirma que Macaé, até aqui como base e centro do eixo desse dinamismo econômico-espacial-pendular. Por consequência, é simples a interpretação da força da cadeia do petróleo como base dessa cadeia de fenômenos. Tanto para o bônus, quanto poderá ser para o ônus, caso ações e políticas não sejam pensadas.

4 comentários:

Alexandre Fernandes Corrêa disse...

Caro Roberto, valeu pela publicação. A propósito estamos realizando uma pesquisa sobre deslocamentos de estudantes saindo de Macaé para cursarem graduações na área de Humanas fora da cidade. Temos interesse em identificar esse fluxo de deslocamento, para futuramente propor graduações em Humanas em Macaé. Quais demandas são procuradas pelos estudantes macaenses nos seus deslocamentos? Assim, pergunto se vc tem alguma sugestão referente a esse foco. Possuo alguns dados de Rio das Ostras, mas não está sendo fácil recolher o registro mais específico dos cursos procurados. Aguardo alguma sugestão sua. Abraço.
Alexandre Corrêa
UFRJ Macaé

Roberto Moraes disse...

Caro Alexandre,

Um diagnóstico interessante. Porém, eu não conheço a base dessa informação censitária, mas desconfio que ela não chega a entrar nesse nível de detalhamento. Creio que a pergunta é se trabalha ou estuda em outro município.

Seria interessante conhecer todo o estudo do IBGE na íntegra ele pode dar pistas como deseja, especialmente na explicação da metodologia.

Inicialmente, eu li apenas algumas partes que me chamam mais a atenção.

Há um outro dado que reforça essa linha de investigação que você levanta. O estudo do IBGE identificou que 6 dos 7 maiores fluxos para estudar, em termos percentuais foram identificados entre municípios fluminenses.

Talvez, não seja errado intuir que há demandas por estudo e cursos em municípios diferentes de onde estão instalados, que é uma das informações que deseja obter.

Outra pista é a de seguir alunos que saíram do ensino médio em Macaé para saber para onde foram.

É muito provável que Campos continue a ser o destino de boa parte dessa demanda, como no passado foi para cursos técnicos desde a década de 80 e 90 e depois também para cursos superiores que nos anos 2000 passaram a ser ofertados em Macaé.

UFF, UENF, IFF e UCAM podem ser as bases regionais para atendimento dessa demanda. Nesse caso, os ônibus que diariamente, ou semanalmente (sexta e segunda) podem responder parte de sua pergunta.

Sds.

Roberto Moraes disse...

Caro Alexandre,

Observe na nota o quadro retirado do estudo. Sua versão completa, mapas, etc. você pode ver aqui nesse ln:

http://www.ibge.gov.br/home/geociencias/geografia/geografia_urbana/arranjos_populacionais/default.shtm

O quadro mostra os % das intenções da movimentação populacional se estudo e/ou trabalho.

Nessa linha do que você indaga vale observar que o maior percentual de estudo se dá na integração populacional entre Cabo Frio e Macaé com 26%, o que daria cerca de 2,5 mil pessoas se locomovendo para estudar. Certamente o fluxo é maior em direção a Cabo Frio.

Assim, observa-se que, aparentemente, por esses números houve uma inversão em que Campos antes exercia uma centralidade para toda a região, incluindo Cabo Frio já na Baixada Litorânea e hoje, boa parte dessa demanda estaria, de alguma forma sendo atendida por Macaé, e como vc diz, mais ligada às áreas técnicas por conta das vagas do setor petróleo que tende a exercer essa grande atração.

Vale aprofundar a investigação.

Sds.

Alexandre Fernandes Corrêa disse...

Roberto, agradeço suas indicações e sugestões. Darei uma olhada nesse material. Abraço