segunda-feira, novembro 30, 2009

Projeto de macrodrenagem para São João da Barra: entrevista com o professor Luiz Pinedo

O professor e arquiteto do IFF, Luiz Pinedo tem explanado com insistência, em conferências, palestras e artigos, a necessidade e a urgência de que o município de São João da Barra tenha um amplo e eficiente projeto de macrodrenagem, como elemento de infraestrutura para atenuar os impactos dos grandes empreendimentos, previstos para o município e que se estendem à Baixada Campista. O professor Pinedo tem grande experiência e conhecimento na questão de portos e planejamento de cidades. Ele foi professor da Universidade Católica de Santos de 1992 a 2006, onde trabalhou com a relação Porto X Cidade, a analisando e fazendo propostas sobre a evolução da estrutura portuária e a cidade. Nesta linha o professor Pinedo cita com freqüência o projeto do campista, Saturnino de Brito, que no início do século XX (1900) fez o projeto para aquele município litorâneo paulista. Atualmente Pinedo é professor dos cursos de Arquitetura e Urbanismo, Geografia e também do mestrado de Engenharia Ambiental do IFF, onde atua em regime de dedicação exclusiva, com orientações de pesquisas e dissertações, além da docência. O blog entrevistou o professor com o intuito de trazer elementos para um debate mais para aprofundado sobre as diversas questões, e não apenas os impactos sobre a implantação dos empreendimentos que estão previstos para a nossa região. A entrevista: "SJB localiza-se em um solo quaternário extremamente frágil, arenoso e com lençol freático aflorado. Com a construção do Porto do Açu o impacto será enorme sobre este sítio frágil, sem uma nova estrutura de macrodrenagem ". Blog: Por que o projeto de macro drenagem é a principal infraestrutura que a PMSJB deve cuidar? Luiz Pinedo: No final do séc.XIX, ocorre um enorme crescimento das cidades portuárias em função do complexo agro-exportador, neste momento as cidades entram em colapso em função da crise do saneamento e a infraestrutura inexistente. Surge o Urbanismo Moderno que vai planejar as cidades como Santos, Rio de Janeiro, Vitória. SJB localiza-se em um solo quaternário extremamente frágil, arenoso e com lençol freático aflorado. Com a construção do Porto do Açu o impacto será enorme sobre este sítio frágil, sem uma nova estrutura de macrodrenagem para absorver todo o processo de impermeabilização do solo com as construções portuárias, industriais e urbanas. Blog: Quais são os principais elementos para este projeto? Luiz Pinedo: Um projeto de Macrodrenagem para uma área urbana em expansão significa criar um sistema de canais que se combine com os existentes e possa substituir a drenagem natural que na sua grande parte era absorvida pelo solo. Os canais terão de captar mais de 40 por cento das águas pluviais. A construção deste sistema de canais tem um papel estruturador para SJB, esta foi a grande contribuição de Saturnino de Brito. Ao projetar o sistema de Macrodrenagem sua concepção integrou as obras de infraestrutura com o novo desenho expansão urbana das cidades estabelecendo harmonia e qualidades urbanística e ambiental. Blog: Quais são as conseqüências para a falta de atenção ao problema? Luiz Pinedo: Teremos uma cidade que estará constantemente inundada, pois o solo impermeabilizado vai concentrar as águas pluviais em pontos do território obrigando obras de caráter emergencial sem uma visão de conjunto e planejamento urbano, privilegiando as áreas de maior renda e negligenciando a as áreas baixa renda. "Os canais estruturam a circulação, a drenagem e a paisagem urbana." Blog: O que Saturnino de Britto fez de especial em Santos? Luiz Pinedo: Ele projetou um sistema de macrodrenagem para a cidade baseado num conjunto de seis canais que deram uma nova estrutura urbana que funciona depois de 100 anos. Os Canais estruturam urbanisticamente a cidade, tanto que as referências urbanas são os canais. Os canais estruturam a circulação, a drenagem e a paisagem urbana. O projeto feito em 1910 orienta a ocupação até hoje.

"A estrutura portuária que está sendo construída em SJB diferente das cidades portuárias como Santos, Rio de Janeiro, Navegantes, Rio Grande possui uma relação separada da evolução da cidade."

Blog: Conhecendo assunto de planejamento urbano, qual seria a segunda maior preocupação para os planejamentos de SJB na próxima década?

Luiz Pinedo: A questão seria a Administração Municipal criar uma assessoria ou secretaria para pensar as relações Porto-Cidade. A estrutura portuária que está sendo construída em SJB diferente das cidades portuárias como Santos, Rio de Janeiro, Navegantes, Rio Grande possui uma relação separada da evolução da cidade.O porto vai criar um grande fator de aglomeração que vai atrair o crescimento nas áreas próximas. Cidades com Santos possuem esta assessoria que ajuda a gestionar os conflitos desta relação nova. Blog: Muitos estudiosos falam sobre os impactos sociais e ambientais dos projetos previstos para a nossa região, o blog então quer saber se é possível planejar projetos e ações para eliminar, ou reduzir estes impactos. Há impactos positivos ou apenas negativos? Há quem diga que só reclama quem olha só para si. Fale sobre estas hipóteses. Luiz Pinedo: O Norte-Fluminense já é uma região de tipo metropolitana não conurbada típicadas regiões como SP, Campinas, Santos. Existem as áreas dinâmicas que concentram empregos como Macaé, Campos e futuramente SJB, existe um enorme processo de fluxos de deslocamentos motivados por vários fatores como estudo, consumo, serviços que obrigam os municípios estabelecerem gestões comuns e soluções consorciadas. Pensar a gestão não como algo que está isolado, mas como interesses compartilhados. "Acho que o Estado do Rio de janeiro teria de criar uma região especial de Planejamento para o Norte-Fluminense visando organizar todo este processo de mudança."

Blog: Como o senhor vê a dificuldade de integração de políticas públicas entre os municípios vizinhos que serão base para significativos projetos desenhados para a próxima década, desde os de petróleo, da indústria naval, a infraestrutura de porto, distrito industrial, siderúrgica, etc.? Luiz Pinedo: A interdependência entre o território e as administrações fica claro, por exemploo Porto do Açu vai criar atividades com São Bento, Saturnino Braga e estrada dos Ceramistas. A construção dos Estaleiros na Barra do Furado já demanda uma ação conjunta Campos e Quissamã. Acho que o Estado do Rio de janeiro teria de criar uma região especial de Planejamento para o Norte-Fluminense visando organizar todo este processo de mudança, aqui entra num problema histórico apontado por Floriano Godin de Oliveira, no seu estudo “Reestruturação Produtiva, Território e Poder Político no RJ”.Neste momento o RJ tem de pensar seu território e os impactos com todos estes investimentos tipo Comperj, Açu, etc..

6 comentários:

Zé Armando disse...

Caro Professor.
Macrodrenagem na baixada é coisa antiga , desde a construção dos primeiros canais, com o interesse único em produzir áreas agricultáveis e pasto, grilagem oficial que a mãe natureza anda preocupada em corrigir. Vide as imagens da baixada antiga e sua fartura de vida e de água e, compare com a recente de nossa baixada, postada em nosso blog:
http://blogdoarmandobarreto.blogspot.com/2009/11/canais-ou-lagoas-da-baixada-campista.html

Anônimo disse...

Não se pode esquecer também é de se providenciar uma "macrodrenagem viária". A duplicação da BR 101 é urgente! Sem ela, a BR 101 se tornará um gragalo cada vez maior, inviabilizando qualquer crescimento consistente da região.

Renato César Arêas Siqueira disse...

A visão do Professor Pinedo aponta para situações de calamidade, com as quais apenas "governos oportunistas" "trabalham", sob o lema: "quanto pior melhor", afinal, os últimos acontecimentos demonstram vários exemplos de superfaturamento por interveções, paliativas, em caráter de emergência. Fazer o governante entender a sua responsabilidade quanto ao planejamento - não restrita a sua gestão - é das mais árduas tarefas, vide os aspectos das gestões regionais que não promovem soluções e interesses consorciados.
A macrodrenagem urbana, sim, constitui um dos elementos vitais para o desenvolvimento sustentável das cidades brasileiras, casos como os de São Paulo, recentemente expostos por divulgação midiática nacional revelam aspectos da gravidade relacionada ao tema. Contudo, o planejamento de sistemas de macrodrenagem não bastam e, a médio e longo prazo estarão fatigados e inoperantes, pois carecerão de gestão contínua e técnica, bem definidos, vide caso indesejável de Campos dos Goytacazes. O modelo da cidade de Santos, ainda hoje, com mais de cem anos, operante e norteador do desenvolvimento urbano é elemento a ser referenciado e adaptado à realidade local.

Renato Siqueira - arquiteto e urbanista.

Anônimo disse...

Olá Prof. Roberto

Achei muito boa e propícia a entrevista feita pelo bloguista. Espanta-me é a falta de informação do público ao afirmar coisas do tipo: “com o interesse único em produzir áreas agricultáveis e pasto, grilagem oficial que a mãe natureza anda preocupada em corrigir.”. O excelente projeto de saneamento feito pelo DNOS baseado em estudos do grande campista o engenheiro e Saturnino de Brito e outros fez com que essa região pudesse ser finalmente desenvolvida e abrigar pessoas como o próprio comentarista, que por sua vez deveria ler mais sobre o assunto e depois falar com mais propriedade. Tenho vários livros que descrevem a cidade como uma região pestilenta onde médicos sanitaristas, como Dr. Alberto Torres e outros, lutaram arduamente para combater a peste, o Tifo, Impaludismo e outras tantas doenças que dizimaram milhares de campistas, incluindo aí vários médicos. Além do mais, havia as enchentes que impediam as pessoas de viverem com dignidade e de produzirem os alimentos de que necessitavam para sua sobrevivência.

O Dr. Pinedo fala muito bem em sua entrevista, com propriedade e mostra-se preocupado apontando soluções de como devemos proceder. Existem pessoas com esse mesmo intuito trabalhando muito nesses assuntos desde as desgraças de 2007 para que possamos todos viver em condições dignas. Quem quiser participar desse fórum é só procurar o Comitê de Bacia do Baixo Paraíba do Sul (CBH-BP), onde se encontram, inclusive, professores do IFF, para ter acesso a essa e outras informações importantes sobre os recursos hídricos e meio ambiente de nossa baixada. Antes da década de 70/80 os maiores poluidores eram a indústria e a agropecuária, mas hoje o grande poluidor é a cidade com os seus lançamentos de esgoto e lixo. É muito fácil falar de “grilagem oficial” e ser um dos que poluem, esquecendo-se que a agropecuária ainda é a mais importante fonte de renda, principalmente, da baixada campista e da região. Por isso concordo com o outro comentarista quando diz: “A macrodrenagem urbana, sim, constitui um dos elementos vitais para o desenvolvimento sustentável das cidades brasileiras”, retirando apenas o sim e colocando também.


Parabéns ao Prof. Roberto

João G. de Siqueira
Produtor Rural/CBH-BP

Zé Armando disse...

Bom Dia.
É nosso entendendimento ser um descalabro o ocorrido quando à construção dos canais da baixada pelo antigo DNOS, tão antigo e obsoleto como as pestes que assolaram nosso município no passado. Hoje novas pestes e fantasmas nos assolam, paridos dos erros não corrigidos do passado.
Recentemente, em 2008/2009, tivemos toda a região de Lagoa de Cima e o bairro de Ururaí submersos pela arrogância, leviandade, ignorância científica e desqualificação ambiental de quem permitiu a construção dos diques que margeiam o Rio URURAÍ, no trecho próximo a barra na Lagoa Feia. Precisamos produzir alimentos. O setor agropecuário é o grande canal à este fim. Precisamos mais que tudo , encontrar o parâmetro que indique a maneira sustentável de se produzir alimentos. Nossa baixada não deve ser privada deste privilégio. É vital se que busque a modernidade, qualificação e eficiência para tal.
O que passou é passado mas, tomar o que de útil nos exemplos bons e ruins neste passado recente para continuar evoluindo é no mínimo o que nos cabe.
Parabéns a todos.

José Armando Ribeiro Barreto
Membro Titular do COMMAU_CPS

Mauricio Santiago dos Santos disse...

Prezado, a revista Pini Infraestrutura Urbana apresentou recentemente a mais nova Inovação, dentro deste contesto, Abril / 2012, http://www.infraestruturaurbana.com.br/solucoes-tecnicas/13/artigo254505-1.asp, Galeria Multidimensional Rodoviária, com várias possibilidades de composições , em atendimento as diversas vazões.