quarta-feira, dezembro 23, 2015

Cartel é confirmado e mostra diferenças na abordagem da mídia

A mídia comercial brasileira optou por tratar a Operação Lava Jato apenas sob a a ótica da criminalização da política relevando outras abordagens. Isto não é obra do acaso.

Assim como também não é o caso do esquema dos trens e metrô de São Paulo que tem abordagem distinta desde o início.  Ontem lendo uma matéria do jornal americano Wall Street Journal o caso ficou ainda mais evidente para mim.

Era uma matéria grande sobre a queda da Odebrecht e o que o jornal chamou de "antiga rede de conexões com o governo". A reportagem de dois correspondentes do jornal no Rio (Will Connors e Paul Kiernan) faz um retrato da empreiteira, chamada de parte de um "seleto grupo de multinacionais brasileiras que prosperaram globalmente" ao transformar conexões com o governo em contratos públicos, financiamentos e subsídios estatais".

O jornal além de fazer um histórico de relações da Odebrecht com os governos, desde a montagem da empresa pelo seu avô, um descendente de imigrantes alemães, em 1944, na cidade de Salvador, e depois quando se alinhou ao presidente Geisel, na década de 70, também informou que no ano passado, a construtora teve receita de US$ 46 bilhões, metade dela fora do Brasil, quando empregava  170 mil pessoas, atuando em quatro diferentes continentes.

Pois bem, o que me chamou a atenção nem foram estes dados preliminares da reportagem, mas sim a forma da abordagem da participação da empresa na Operação Lava Jato. Ela diz que "há pelo menos dez anos, começando por volta de 2003, algumas das maiores empreiteiras do Brasil, incluindo a Odebrecht , formaram um cartel para dividir o trabalho e inflacionar o preço dos contratos da Petrobras. As empresas supostamente subornaram políticos, partidos e pessoas dentro da Petrobras, frequentando paraísos fiscais para ocultar seus rastros, de acordo com investigadores".

É interessante observar que esta não é a linha das matérias na mídia comercial brasileira que atribui a questão, ao inverso ao esquema político que teria usado as empreiteiras para fazer corrupção e assim financiar campanhas políticas e permitir enriquecimentos pessoais.

Observe que a reportagem parte de uma outra linha sequer considerada na mídia comercial brasileira. Além do mais a reportagem tem o cuidado de dizer e não afirmar a data do inicio do esquema "há pelo menos 10 anos" ou "por volta de 2003".

Vale ainda considerar que o esquema que a apuração levanta estaria conjugado com outros cartéis em construções e obras de governos estaduais e municipais que se mantém intactas em termos de investigação.

Aliás, há dois dias, uma excelente matéria do blog Viomundo (veja aqui) fez um levantamento das obras das empreiteiras investigadas na Operação Lava Jato junto a governos dos estados, especialmente, os governados pelos tucanos que somam R$ 210 bilhões conforme quandro abaixo. No governo Serra (R$ 78 bilhões), Alckmim (R$ 52 bi).

Tendo visto o trensalão paulista-tucano e o mensalão-mineiro alguém pode acreditar que um esquema é diferente do outro?

Nesta quarta-feira (22/12) o Valor informa aqui que "o Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) instaurou ontem, terça-feira (23), um processo administrativo contra 21 empresas e 59 pessoas acusadas de participar de um cartel que fraudava licitações da Petrobras. De acordo com indícios obtidos no âmbito da Operação Lava-Jato, o grupo estaria atuando desde 1998, em licitações que somam pelo menos R$ 35 bilhões. “O suposto cartel teria se organizado de maneira dinâmica, adaptando-se às diversas mudanças ocorridas no mercado e no ambiente institucional, de forma a garantir que os certames licitatórios conduzidos pela Petrobrás contemplassem os interesses de todas as empresas envolvidas”, disse o Cade em nota."
 





3 comentários:

Anônimo disse...

Cadê a Delta???

Evandro Gomes Monteiro disse...

Bom dia professor. Feliz Natal e boas festas. Duas sugestões: link para favoritos no blog e fim do anonimato... Quem quer ter sua opinião ou ignorância lida nesse espaço deveria ao menos se identificar. Abraços de Aracaju.

Roberto Moraes disse...

Obrigado Evandro pelas sugestões. Ótimo 2016!