terça-feira, maio 03, 2016

Discussão sobre a crise em Macaé tem prioridade invertida

As eleições municipais explicam o frisson gerado pela falsa informação de que a Petrobras deixará de ter base operacional em Macaé. Nos últimos dias diferentes boatos tomam conta da cidade.

Eles têm origem e desdobramento na repartição da movimentação de cargas para apoio às atividades de exploração offshore, que antes era feito na região, apenas, no Terminal da Petrobras, em Imbetiba, em Macaé.

Agora, com o terminal que o grupo americano Edison Chouest (BrasilPort) constrói e já opera em contrato obtido em licitação com a Petrobras, no Terminal 2 do Porto do Açu, uma segunda base operacional, localizada no litoral de SJB fará também movimentações de cargas. 

Esta nova base no litoral Norte do ERJ está absorvendo a movimentação portuária que antes era feito no Terminal Portuário de Vila Velha, no Espírito Santo. É certo ainda que ainda que a movimentação portuária da Bacia de Campos vai assim se repartir, aos poucos, entre Imbetiba e Açu. 

É também provável que parte que algumas bases das empresas também poderão também se dividir com áreas no Açu, da mesma forma que já possuem áreas junto ao terminal portuário do Rio.

Há dois anos, exatamente, no dia 2 de abril de 2014, o blog já chamava a atenção para este movimento em nota aqui no blog com o seguinte título: "Porto de Imbetiba em Macaé deixou de ter a maior movimentação de apoio offshore do país". O texto e sua análise foi depois replicado aqui pelo site de notícias Ururau no dia 3 de abril de 2014 com o seguinte título: "Engenheiro faz avaliação sobre condição do Porto de Imbetiba, em Macaé".

Em novembro de 2014, o blog aqui voltou ao assunto quando da disputa entre Macaé e o município de São João da Barra, com o primeiro se voltando contra a Edison Chouest e os critérios usados pela Petrobras para fazer a concorrência para a contratação de outra base de apoio portuária para suas atividades de exploração de petróleo offshore.

Ou seja, o que se vê hoje é um processo já anunciado há dois anos. Durante boa parte do tempo, entre aqueles dias e hoje o movimento que se viu foi mais de recusar o entendimento sobre o processo que estava em curso, do que se planejar para lidar com a realidade. 

A realidade naquela ocasião já era fatídica, na medida que a dinâmica econômica-espacial que estava em curso já esticava as bases operacionais para lidar com a crescente exploração de petróleo, na direção sul com o uso do terminal portuário do Rio, para apoio à exploração do Pré-sal na Bacia de Santos, ou ao norte, em SJB para apoio à exploração no ES e mesmo a ampliação na Bacia de Campos.

Infelizmente, se investiu neste tipo de disputa concorrencial entre os municípios que em nada ajuda a população e nem contribui com a nossa região. Infelizmente este tipo de ação tende a ser mais comum em épocas pré-eleitorais. É ainda mais problemática se considerarmos a crise do baixo preço do barril de petróleo que vem afetando as receitas dos royalties do petróleo dos municípios da região.


Macaé tem mais orçamento que Campos
Como disse em notas (aqui e aqui) nos dias 18 de fevereiro de 2016 e 20 de abril de 2016, o município de Macaé, mesmo na atual passou Campos, pela primeira vez na história em valores absolutos do orçamento municipal no ano de 2015 e se manterá em 2016. O fato se deve às receitas de Imposto Sobre Serviços (ISS) serem maiores em Macaé do que em Campos, cidade de maior porte (extensão) e número de habitantes.
Terminal portuário de Imbetiba da Petrobras

Em termos de receita de royalties e participações especiais, Macaé perdeu em 2015, R$ 96 milhões, enquanto o município de Campos dos Goytacazes, perdeu em valores absolutos o equivalente a R$ 950 milhões, um volume dez vezes maior.

É possível que o município de Macaé perca alguma receita de ISS por conta não apenas de uma menor redução da movimentação de cargas que em parte será transferida para o Açu, como da contratação de menor quantidade de serviços, nesta fase de baixa do ciclo do petróleo. Porém, este valor não será assim tão expressivo.


A saída é uma planejamento integrado e não uma disputa concorrencial entre os municípios
Pensar a região em termos de cooperação entre os municípios e não concorrenciais é um dos pontos que venho insistindo, identificando ainda a inépcia do governo estadual em buscar a integração dos municípios em projetos que fossem complementares e de reorganização e ordenamento de seu território.

Há nesta última quinzena um frisson sobre a questão que parece sustentada em premissas equivocadas. É certo que a redução das atividades ligadas ao setor de petróleo estão se dando em todo o mundo e no Brasil não é diferente e ainda impactado pelas consequências das investigações da Operação Lava Jato na Petrobras.

A estatal está revendo frequentemente seus projetos diante do atual cenário e isto logicamente influencia a movimentação no município que tem uma de suas bases operacionais mais importante do país, como Macaé. Porém, daí a dizer que ela vai fechar tudo em seu município é um terrorismo, ou oportunismo que não ajuda.

Ontem os boatos em Macaé davam conta sobre desocupação de prédios que a Petrobras utiliza em Macaé entre outros.

Vou repetir que mesmo diante de um cenário nacional e político complexo e de incertezas, eu posso afirmar que a Petrobras não cogita deixar de ter base em Macaé. Apenas contratou outra base de apoio portuário por licitação e o prestador de serviço ofereceu o terminal 2 do Porto do Açu.

Infelizmente parte da mídia loca/regional contribui para esta disputa provincial e pueril. Por conta disso, eu me recusei a falar para mídias que ajudam a construir estas narrativas, que imagino seja incentivada por interesses dos agentes públicos que os financiam. Entendo que não será jogando um município contra outro que a região avançará.

Para finalizar e mostra que a análise dos projetos em curso, assim como de indicadores, demonstram que a base de Macaé tem ainda enorme importância no que chamo de circuito espacial de produção do petróleo offshore no ERJ.


O Terminal de Cabiúnas é o maior polo brasileiro de processamento de gás natural

Além do terminal portuário que continuará a ser usado, mesmo que em ritmo menor, o município de Macaé é uma espécie de hub de distribuição e de logísticas de oleodutos e gasodutos que interliga as unidade de produção instaladas no mar e as refinarias na região metropolitana do Rio no Sistema Tecab-Reduc (Refinaria Duque de Caxias).

O Gasoduto Rota 2 com 401 km de extensão tem capacidade para movimentar 13 milhões de m³/dia. Ele começou a operar em fevereiro deste ano e interliga o polo de pré-sal da Bacia de Santos ao Terminal de Cabiúnas (Tecab), em Macaé.

Mapa de gasoduto na área urbana
de Macaé
O Terminal de Cabiúnas (Tecab) em Macaé é o maior polo brasileiro de processamento de gás natural e tem capacidade de processamento de 28,4 milhões de m³ de gás natural e 6 mil m³ de condensado de gás natural. (Veja aqui nota do blog em 01/06/2015) sobre a ampliação do Tecab em Macaé)

Em 2015, o Tecab processou pouco mais de 50% desta capacidade o que identifica que esta base aumentará sua participação no processamento de gás, agora vindo em maior quantidade dos campos do pré-sal. Esta ampliação se deu no ano passado com o início da pré-operação de duas unidades do Terminal de Cabiúnas.

Imagine se um município que tem a maior polo de gás do país, construído e administrado pela Petrobras vai abandonar o município.

Terminal de Cabiúnas em Macaé - maior polo brasileiro de processamento de gás natural

Há outras potencialidades ainda ligada ao setor de óleo, mas é hora de planejar a diversificação

Além disso, Macaé avançou o arranjo produtivo de engenharia submarina (subsea) que hoje é um dos setores da indústria do petróleo que é offshore no Brasil que possui serviços de maior valor agregado no processo de exploração e produção no mar.

O fato do município de Macaé estar entre SJB e o Rio de Janeiro (e ainda Itaboraí que adiante terá o Comperj em funcionamento), onde está a sede da Petrobras que centraliza e reconcentra o poder de gestão e de finanças de toda a estatal continuará a conferir a Macaé um peso importante no setor, embora caiba ao município e à região pensar o ordenamento do seus território e a ampliação de sua atuação para além do setor de óleo.

Macaé com seus seis condomínios (ou complexos) logísticos-industriais (alguns prontos e outros em implantação) ao lado de onde de programa a passagem da ferrovia que ligará os porto do ES, Açu e Itaguaí ampliam as possibilidades. (Veja aqui postagem do blog em 22/07/2015)
Não se pode deixar de registrar o Parque de Tubos da Petrobras no município, em área limítrofe ao município de Rio das Ostras.  

Assim, é melhor jogar energia neste debate do que nos discursos que buscam uma disputa entre municípios, longe da realidade.
Condomínio industrial e Parque de Tubos da Petrobras

Como se vê a realidade é distinta do que se pretende fazer crer. Além de discutir alternativas econômicas ainda ligadas ao setor de petróleo é hora de pensar em aproveitar o potencial para dinamizar outras vertentes para diversificar a economia do município.

É lamentável a falência do governo estadual não apenas na questão econômico-financeira, mas também no seu papel de integrar os municípios, de buscar neste momento da fase de baixa do ciclo do petróleo, uma importante vocação econômica da região.

O debate e o planejamento integrado entre os municípios é mais importante do que esta disputa que apenas dá espaço a oportunistas que usam a boa-fé e desinformação da população para seus interesses que nada têm a ver com o desenvolvimento econômico e social dos municípios desta região.

13 comentários:

Anônimo disse...

Breve teremos grande novidade sobre terminal portuário em Macaé...16m de profundidade,apoio offshore, lng, granéis líquidos, conteineres...vai revolucionar, no bom sentido, a vida empresarial de Macaé...aguardem...e o Açu que se cuide!

Roberto Moraes disse...

Me oponho exatamente a este tipo de postura de disputa entre os municípios.

Anônimo disse...


Quantas das vezes eu e outros colegas embarcados, chegamos a ficar dias aguardando equipamentos que estão vindo do porto de Embetiba. Desembarcamos as vezes sem fazer nada aguardando equipamentos para determinada operação. A Petrobras enxergou isto, e com certeza o Açu vai desafogar esse gargalo. Sem contar que tem estrutura igual somente em portos da China, sua dimensão favorece muito, e outra coisa muito a favor é a proximidade das plataformas. Não tenho dúvida que Embetiba vai reduzir muito seus trabalhos. As empresas vão começar a se encostar pelo lado do Açu.

Tem colegas de minha empresa que ja fazem embarque pelo porto do Açu em barcos de inspeção...

Anônimo disse...

A prioridade não é desafogar Imbetiba, é diminuir custos remanejando tudo que excede a capacidade do porto em Macaé, que é próprio da Petrobras, para o Acu. Atualmente esse excedente é atendido pelas estruturas localizadas na baía de Guanabara.

Roberto Moraes disse...

O último comentário confirma com mais detalhes a análise feita pela nota. Assim, juntando fatos se constrói com base empírica material o fenômeno econômico -espacial que também possui repercussão política e social. O blog se propõe exatamente a este exercício.

Roberto Moraes disse...

O último comentário confirma com mais detalhes a análise feita pela nota. Assim, juntando fatos se constrói com base empírica material o fenômeno econômico -espacial que também possui repercussão política e social. O blog se propõe exatamente a este exercício.

Anônimo disse...

A verdadeira riqueza da região sempre tinha sido a água doce. O Paraíba do Sul, a Lagoa Feia. Mas o dinheiro grande e rápido do petróleo, os interesses imediatos, nos fazem muitas vezes esquecer isso. Não dá pra torrar tudo assim desse jeito que estamos fazendo! Vai dar, já tá dando um monte de m!

Gernandes Mota disse...

A disputa entre municípios é antiga e remonta Nilo Peçanha x Alfredo Backer....Nilo Peçanha mandou fechar a bem sucedida alfandega em Macaé ....para tal o Exercito Brasileiro foi acionado...Exercito e PM guerrearam nas ruas de Macaé.....Por fim, Alfredo Backer foi distituido como governador....tudo dentro da mais severa truculência e com o único objetivo de acabar com os sucessos de Macaé........Mas isto é passado, hoje Macaé vive exclusivamente da movimentação de cargas, principalmente das bases de suas empresas que fornecem suprimentos para o Porto de Imbetiba....que abastece nossas plataformas marítimas com ranchos e equipamentos de operação e manutenção......este é o Know How de Macaé, que gera mais de 10 bilhões em notas fiscais....e é neste negócio que o Porto de Açú esta de olho......e é um desejo comercial autêntico, Macaé nunca valorizou e entendeu seu Know How.....até hoje acredita que produz petróleo.....sem possuir um único poço em suas terras.....Todos os portos, inclusive o do ES era abastecido pelas empresas instaladas em Macaé....Hoje o Porto do Açú quer fazer diferente....pois deseja que as empresas lá se instalem.....o Porto do Açú é um grande empreendimento e é justo que ele cresça, mas não será uma boa marca histórica se for em detrimento de Macaé.....mas de fato isto se acontecer, levará alguns anos...talvez décadas......E será sem guerra, mortes e sem prisão e destituição de governadores.

Gernandes Mota disse...

A disputa entre municípios é uma realidade vergonhosa que vivemos, e ocorre dentro dos parâmetros políticos e empresariais......as relações entre os povos sempre foram boas

Roberto Moraes disse...

Olá Gernandes. Muito interessante esta informação sobre o processo histórico destas disputas locais. Eu não tinha esta informação. Você tem a fonte desta informação em alguma publicação ou autor?

Sobre como os municípios atuam (ou não) com relação às atividades empresariais que usam os seus territórios é um ponto de investigação importante. Aí mais uma vez se vê que a falta de integração e de uma visão regional acaba inibindo possibilidades. A ausência do governo estadual neste planejamento também é lamentável. Porque o estado é que teria poder para criar articulações supramunicipais e inter-regionais.

Sobre este valor das faturas que você cita. É uma estimativa ou possui alguma fonte?

Agradeço pelo comentário.

Evandro Gomes Monteiro disse...

Professor bom dia. Pena não poder inserir fotos no comentário... Estou em Imbetiba e tirei foto ( dezenas de embarcações aguardando carregamento em código HM00) oneroso para a Petrobrás. O porto está saturado, dessa forma seu custo sobe. Somente uma faceta da dimensão logística, porém significativa pois esses custos em dólar chegaram a casa dos milhões em 2015. PS: enviei a foto para seu e-mail.

Roberto Moraes disse...

Os comentários enriquecem o texto original da nota e são muito bem-vindos.

Caro Evando, eu não recebi o seu email com as fotos citadas. Se puder me envie que eu pretendo publicar. Não precisa muitas fotos. Uma duas ou três imagens do TUP de Imbetiba mostrando esta realidade de movimentação já seria suficiente. Obrigado.

Vitor disse...


Uma importante vocação da região - considerando-se os recursos de solo e água - sem dúvida é a agricultura ou, melhor ainda, a agroecologia. Há muito que fazer na área rural do NF ( uns 600.000 hectares ) - diversificar, modernizar, preservar, reflorestar...