quinta-feira, março 20, 2008

“Políticos desavisados e a mídia adoram o fumacê. Ele tem alta visibilidade, tem cheiro, faz barulho e aparece”

Em função do assunto da dengue continuar, mais ainda do que antes, na ordem do dia e também porque, ela quando publicada no dia 11 de março, acabou por ter sido espremida pelos acontecimentos da operação Telhado de Vidro, o blog resolveu republicá-la hoje.

Entrevista sobre a Dengue com o Dr. José Eduardo Marques

O entrevistado de hoje do blog, José Eduardo Marques faz questão de dizer que estudou no grupo de Goytacazes, que chama de “minha terra natal”. Fez ginásio no Isepam (antigo Iepam) na primeira turma mista da história daquele colégio, o científico no Liceu e graduou-se em medicina, na UFRJ, em 1975.

A partir daí, o Dr. José Eduardo virou “mineiro”. Lá se especializou em Saúde Pública, em 1980 e concluiu mestrado em 2002, ambas na UFMG. Antes de ir para Belo Horizonte, mas já em Minas Gerais, iniciou sua atividade em Saúde Pública, no Centro Regional de Saúde do Vale do Jequitinhonha, em Diamantina/MG em 1977. Em 1987 se transferiu para a Secretaria Estadual de Saúde de Minas Gerais, onde exerceu entre 1991 e 1992, a Superintendência de Epidemiologia. Em 1992, Dr. Eduardo Marques assumiu a função de Gerente Técnico, do Plano Nacional de Eliminação do Sarampo, no Ministério da Saúde.

Atualmente é doutorando em Epidemiologia na Faculdade de Saúde Pública na Medicina da UFMG, cujo trabalho de pesquisa e dissertação tem concentração em "Inquérito Soro-epidemiológico da Dengue". Profissionalmente está no presente cedido à Secretaria Municipal de Saúde de Belo Horizonte, além disso atuou como docente no Departamento de Medicina Preventiva na Faculdade de Ciências Médicas de Minas Gerais, até iniciar o doutorado.

Mesmo em Minas Gerais, o Dr. José Eduardo Marques que é carinhosamente conhecido por aqui, como Pardal, assim sempre manteve os vôos de seus pensamentos em nossa região, onde faz questão de manter os vínculos, seja pelo contato com os parentes e amigos ou, pelo usufruto das férias e alguns finais de semana nas praias de São João da Barra. É desta forma que ele manifestou preocupação com a crescente manifestação da dengue em nossa população.

Leia abaixo a qualificada entrevista e tire você mesmo, suas conclusões, especialmente quando ele afirma que “o maior desafio da nossa responsabilidade como profissionais envolvidos no problema e do poder publico, é o de manter a população motivada para o combate ao Aedes aegypti”.

Blog: A epidemia de dengue era inevitável?
Dr. José Eduardo Marques: Não sei se inevitável é o termo correto, mas as condições para o surgimento de doenças emergentes ou reemergentes são notórias neste mundo globalizado. Praticamente todas as regiões tropicais foram atingidas pela dengue a partir do final do século passado. O desenvolvimento, com crescente aumento populacional das cidades, diminuição das distâncias pela evolução dos meios de transporte, aumento da produção industrial, criou novas condições para a dispersão vetorial e circulação do vírus da dengue.


Blog: Mesmo afastado, mas sempre acompanhando as coisas da nossa região, quais seriam os principais motivos da maior manifestação da dengue no estado do Rio de Janeiro?
Dr. José Eduardo Marques: O estado do Rio, especialmente o município do Rio de Janeiro, tem em caráter exponencial aquelas situações citadas anteriormente. Estas condições trazem como conseqüência várias mazelas, como a violência e o caos na área da saúde (não só dengue...). No caso da dengue, uma doença caracteristicamente urbana, some-se as condições climáticas, a situação geográfica de pólo econômico e o fato de ser uma das principais zonas portuárias do país.

“O Fumacê supervaloriza o poder dos produtos químicos e não ajuda na mudança de atitude da sociedade em relação aos fatores associados à transmissão da doença”.

Blog: Como especialista no assunto vivendo hoje em Belo Horizonte você identifica concepções de trabalho diferentes?
Dr. José Eduardo Marques: Sim. Principalmente relacionado ao uso de produto químico. O estado de São Paulo as cidades de Recife e Belo Horizonte são exemplos de locais onde existe um uso mais racional de inseticidas e larvicidas. A ênfase maior do controle se direciona às ações educativas e à remoção de criadouros do mosquito. No Rio de Janeiro (como exemplo) havia publicação sistemática de roteiro de uso do “Fumacê”, durante todo ano e inclusive nos períodos mais frios e secos, quando a população de mosquito está bastante reduzida. Estas práticas supervalorizam o poder dos produtos químicos e não ajudam na mudança de atitude da sociedade em relação aos fatores associados à transmissão da doença.

Blog: Pelo que comentou em e-mail com o blog, sobre suas preocupações com o nosso quadro regional, você deixou a entender que o combate químico ao mosquito tem limitações e complicações. Explique por quê?
Dr. José Eduardo Marques: A complexidade da dengue exige medidas mais abrangentes de controle. A tendência é de se procurar uma fórmula mágica para solucionar um determinado problema. A utilização dos produtos químicos além de limitada (desenvolvimento de resistência aos produtos, impacto ambiental efeitos colaterais na saúde humana) induz a uma falsa tranqüilidade. O serviço público, juntamente com a população, “lavam as mãos”, supondo que já fizeram o possível (“o moço da dengue vem sempre aqui em casa e põe aquele pozinho” ou “o fumacê passa sempre na minha rua”). O emprego desses produtos deve ser feito de maneira diferenciada e não como regra.

A abordagem química é agente da não modificação do nicho ecológico com a não retirada de criadouros, pois o produto colocado periodicamente fica sendo a solução, deslocando o procedimento correto de eliminação mecânica. A eliminação do criadouro por meio físico permite maior criatividade de soluções, o programa deve incentivar todo tipo de forma de eliminação do criadouro não nocivo à saúde e ao ambiente.

“A utilização dos produtos químicos além de limitada induz a uma falsa tranqüilidade”.

Blog: Por este mesmo motivo você seria contra o uso do fumacê?
Dr. José Eduardo Marques: O “fumacê” é ainda mais pernicioso. Além daquela falsa impressão de segurança, sua baixa eficácia já foi mais do que comprovada cientificamente. Esta técnica, utilizada em outras doenças transmitidas por vetores, foi adaptada para o controle da dengue, e não levou em consideração os hábitos do Aedes aegypti. A possibilidade das gotículas matarem o mosquito é bastante reduzida, pois sua ação se dá por contato, no momento em que o mosquito está voando e não tem efeito residual prático nos locais de abrigo dos vetores. O Aedes aegypti se refugia nos armários, embaixo dos móveis e atrás da cortina, não sendo atingido pelo inseticida. E os seus horários de vôo são no início da manhã e final da tarde, o que torna sem sentido uso fora destes horários. Outras dificuldades técnicas, como necessidade que as janelas das casas fiquem abertas, velocidade do veículo e ocorrência de ventos que mudam a direção da “fumaça” servem como coadjuvantes na inadequação deste método. Deve ser observado também o impacto ambiental, matando inclusive inimigos naturais do mosquito transmissor da dengue. Considere-se ainda que a cipermetrina é classificada como inseticida piretróide classe II (altamente tóxico - faixa amarela) conforme norma da Organização Panamericana de Saúde (OPS, 1997; MS, 1997) e apresenta longo efeito residual em materiais como madeira e argamassa (Augusto et al, 2000). Entretanto políticos desavisados e a mídia adoram, pela sua alta visibilidade: tem cheiro, faz barulho e aparece.

Blog: Campos tem tido uma considerável verba destinada à saúde nos últimos anos, mas a população não tem percebido melhoria, pelo menos na proporção da elevação dos recursos. Poderia comentar algo sobre isso?
Dr. José Eduardo Marques: Não se limita a Campos esta dificuldade. Acho que a concepção hegemônica da sociedade privilegia o investimento nas ações curativas em detrimento de ações básicas de saúde. A concentração em práticas tecnológicas mais sofisticadas e de alto custo, associada à criação de falsas demandas que justifiquem altos investimentos tecnológicos aumentam ainda mais este grande ralo por onde escoam os recursos públicos.

“A concepção hegemônica da sociedade privilegia o investimento nas ações curativas em detrimento de ações básicas de saúde”.

Blog: A partidarização e o eleitoralismo do setor público de saúde que leva a ter a maior bancada de médicos da história do município (cerca de 30%), um deputado estadual, um federal, o atual prefeito e o ex-prefeito pode ajudar nesta explicação?
Dr. José Eduardo Marques: É um aspecto a ser considerado. A escolha de nossos representantes não se baseia no conhecimento das propostas que apresentam. A maior exposição na mídia e o “status” que os profissionais médicos ainda têm na nossa sociedade, favorecem a sua eleição, independente dos seus programas ou posições declaradas, ou de que interesses estão defendendo.

Blog: Voltando à questão da dengue para fechar a entrevista, a seu ver seria correta a posição de alguns gestores de culpar a população pela maior incidência da doença, mesmo com tanto dinheiro?
Dr. José Eduardo Marques: Claro que não. É como você colocar a culpa na vítima Sempre procuramos um vilão, e de preferência que nos exima de culpa. O maior desafio da nossa responsabilidade como profissionais envolvidos no problema e do poder publico, é o de manter a população motivada para o combate ao Aedes aegypti. E outro desafio é a participação dos profissionais de saúde de um modo geral quanto ao possível diagnóstico, com sua participação específica e efetiva como sentinelas da vigilância epidemiológica. Mas, a dengue não é um problema só da saúde. Cabe às autoridades sanitárias construir políticas e gestões intersetoriais entre as autoridades de educação e meio ambiente, melhorar o nível de conscientização da população e a contribuição importante da mídia como o instrumento auxiliar desse envolvimento de todos os grupos sociais.

3 comentários:

Elza Cruz. disse...

MUITO BOM ler uma entrevista de quem entende e com firmeza.

Anônimo disse...

Guarda de endemia desaba de prédio e entra em coma

O guarda de endemia Paulo da Conceição Eduardo, de 45 anos, está internado em estado grave no Hospital Ferreira Machado(HFM), em Campos, depois de sofrer acidente de trabalho em um condomínio localizado na Rua do Leão, no bairro IPS. Segundo informações, Paulo teria caído de um prédio de três andares, o correspondente a cerca de dez metros de altura, quando tentava colocar medicamento de combate ao mosquito da dengue em uma caixa-d’água. Paulo é funcionário da prestadora de serviços Facility, contratada da Prefeitura e cedido ao Centro de Controle de Zoonozes (CCZ). A empresa confirmou o acidente e destacou que o funcionário estava por conta do CCZ, que providenciou o socorro. No HFM, a assessoria de imprensa informou que Paulo permanecia em estado grave, em coma induzido, com traumatismo craniano.
( Fonte>O Diário)

Anônimo disse...

O responsável em resolver essa problemática em Campos é um Dr. que têm como prioridade a sua promoção pessoal. Não é a toa que é apelidado de Dr. Mídia.

O que esperar de um gestor público de um setor de altíssima importância, uma vez que, lida com a saúde pública, se ele acumula mais outras tantas funções, também importantes, que consegui através de forçação de barra midiática.

Dr. Mídia:
1- Professor da FMC;
2- Médico do DER (será que ele atende os funcionários ou tem horário de atendimento);
3- Diretor do Hospital da Unimed;
4- Chefe do Centro de Referência da Dengue;
5- Primeiro e único, talvez eterno, Presidende da Sociedade Brasileira de Clínica Médica, secção Campos;
6- Médico de seu consultório particular;
7- Por último, presidente do CCZ;

Convenhamos haja tempo para tanta atividade, ou melhor não existe tempo para tanta atividade, ou pelo menos, falta tempo para fazer de forma mais comprometida alguma dessas atividades.

Sua obsseção por mídia é tanta que ele já está na linha do cuidado com sua imagem. Comenta-se que recentemente fez aplicações de botox no rosto. Mas, o médico "errou" na mão e o Dr. Mídia passou a ter acentos circunflexos acimas dos olhos (nas sombracelhas).