quarta-feira, junho 19, 2013

"Quinto poder"

O leitor-colaborador José Ronaldo Saad por email enviou ao blog um reflexão-indagação para o debate:

"Caro Prof. Roberto Moraes
O movimento cidadão que a população vem promovendo nos últimos dias tem suscitado, por parte das instituições brasileiras, variadas interpretações sobre o seu significado.

Ora dizem que será um protesto contra o poder Executivo, ora contra o Legislativo. Enfim, contra os políticos em geral. Quem sabe, também, contra o Judiciário, que se move timidamente em defesa dos direitos fundamentais do indivíduo. Mas, isso seria a constatação do “óbvio ululante”, nas palavras de Nelson Rodrigues.

Não se tem visto, lamentavelmente, nenhuma análise mais profunda sobre o cerne da questão, que deveria ser a origem, a fagulha deflagadora deste processo. Pois se não há líderes ostensivos, se não existe um comando identificável, se não aparece o maestro que conduz essa orquestra, permanecendo ela, ainda assim, tão afinada e harmônica, a ponto de reverberar em todos os cantos do país, parece que caberia essa indagação.

Muitos se detêm, longamente, em deplorar a ocorrência do vandalismo, que no caso tem sido não mais que incidental, pontual e irrelevante. Vandalismo sempre existiu, ladrões sempre existirão. Isso é perder o foco sobre o ator principal, o verdadeiro protagonista nesse palco nacional. Deixemos esse aspecto secundário para os que exploram o sensacionalismo, os “mestres das ruínas”, como disse Augusto dos Anjos.

Outros, piamente, confessam a sua perplexidade, admitindo não entender esse enigma, tão cabeludo.

Gostaria que seu blogue, corajosamente como sempre, promovesse um debate nesse sentido.
Só para provocar, sugiro uma possibilidade para a decifração da esfinge.

Trataria, o movimento, de um prenúncio – como as dores de um parto –, do iminente nascimento de um quinto poder. Natividade essa que foi bravamente anunciada e antecedida pelo pioneirismo dos blogues valorosos .

A Imprensa, considerada como o Quarto Poder da República, se distanciando cada vez mais de sua missão original de porta-voz da população por comprometimento escuso ou por omissão imperdoável, vai abdicando de seu indelegável papel de órgão fiscalizador dos demais poderes.

Restaria então, aos que não têm voz, nesses tempos de internet, a instituição de uma mídia universal e individual, que permite a veiculação instantânea e espontânea dos anseios basilares da pessoa humana.

Simples assim, a proposição.

Nesse passo, se a mídia convencional não admitir com humildade a sua enorme parcela de responsabilidade, não exercendo o mea culpa, nesse latifúndio de críticas dispersas e aleatórias, deve se preparar para ser despida de seu poder.

E, proximamente, extinta.
Saudações
Jose Ronaldo Sad."

2 comentários:

douglas da mata disse...

Bem escrito, porém, ingênuo e romântico.

As articulações possíveis de qualquer mídia, por mais "anárquicas" e horizontais que sejam não dão conta de esgotar aquilo que não muda: a luta das classes entre si, e das lutas entre os integrantes desta mesma classe, mediadas por ideologia e os processos políticos a ela atinentes.

Faz muito pouco sentido, ou pelo menos, do ponto de vista pragmático, pesquisar o sentido de um movimento que não é capaz sequer de se identificar politicamente, e move-se como uma barco à deriva na tempestade.

É mais ou menos como descobrir porque os torcedores de um estádio fazem uma ola, ou porque as pessoas escolhem este ou aquele time do coração.

Este movimento, e só pode ser chamado assim porque, ironicamente, anda, anda e não chega, metafórica e literalmente, a lugar algum, não trará muito mais novidade que trouxeram os cara-pintadas.

E só nos resta torcer para que arrefeça.

Ou prevenir que se transformem no que aconteceu na Espanha: Sem direção, foram para a direita, aliás, como toda e qualquer manifestação caótica.

De certo os partidos cooptarão alguns nomes, outros irão para casa, e outros engrossarão os movimentos "cansei, e chega de impostos", se é que já não fazem parte dele.

Um movimento que reprime militantes de partidos, e se omite frente a vândalos (por mais localizados e esparsos que sejam) não merece respeito, muito menos apoio.

Só vigilância e prevenção!

Marcos Salomao disse...

Transcrevo aqui o que escrevi ontem no Facebook, já que se relaciona diretamente a nota publicada:

Parte da revolta da população é com a mídia que não apenas informa, mas manipula. A mídia que tem interesses e briga por eles como ninguém. Sempre posando de imparcial e isenta. Agora mesmo, empurra goela abaixo uma economia em crise e fora de controle no Brasil. Na base do escândalo do tomate já conseguiram aumentar os juros. Adoram mostrar o placar do impostômetro em São Paulo, mas não mostram o da sonegação fiscal que deve rivalizar ou superar a corrupção dos políticos. A mídia que acusa o governo de prejudicar a PETROBRAS não aumentando a gasolina é a mesma que "reclama" sobre a elevação no custo de vida.
Uma das imagens mais marcantes de ontem foi ver os repórteres da GLOBO trabalhando com os microfones sem identificação. Mais claro impossível, a população está cansada da manipulação das notícias, da verdade fabricada e a Globo sentiu o golpe. Mas continua tentando partidarizar o protesto, como se o foco fosse o governo federal. Mas o mais desconcertante destes protestos é que não há foco, é um grito de aviso e de autoafirmação de que nós brasileiros não somos bobos. E espero que não será a velha mídia, atônita também, que conseguirá manipular a informação mais uma vez, fazendo de seu interesses o anseio da população que marcha.